Deixando a puxação de saco de lado, Venceslau nos pediu para resumir mais um capítulo do livro História da Filosofia. Paralelamente, estou trabalhando num artigo para a professora Eliana sobre o pensamento de Sartre na obra As Moscas. Estes exercícios poderiam acabar com a s forças de qualquer um, mas, mesmo sendo desgastante e difícil, eu me sinto bem em trabalhar feito louco para professores mais loucos ainda (Eliana principalmente). Eu escolhi Filosofia, agora tenho que seguir em frente; foi isto que pedi, é isto que farei.
A Sofística e o deslocamento do eixo da pesquisa filosófica do cosmo para o homem.
“Sofista” significa sábio, mas não exatamente como os outros pré-socráticos; os sofistas se concentram na problemática humana, não na criação do Universo, physis ou kósmos. Os discursos sofísticos falam principalmente de política e educação.
Devido às severas críticas proferidas por Platão e Aristóteles, os sofistas foram vistos como decadentes, “prostitutas do saber”, imagem essa que perdura até hoje. Apenas no século vinte, pesquisadores começaram a revisar os sofistas. Eles não eram de todo mal no fim das contas…
A sofística surgiu devido a dois grandes fatores:
- a filosofia naturalista estava perdendo força e as pessoas já não estavam mais tão encantadas com todas aquelas perguntas concernentes à criação, movimento ou physis.
- na época, o mundo passava por mudanças econômicas e culturais em todos os lugares.
Por causa disso, o foco do pensamento humano mudou-se para o ser humano e para as coisas que lhe são concernentes (religião, ética, política, educação, cultura em geral).
No século cinco antes de Cristo, a aristocracia grega estava em crise. Operações econômicas, viagens, migrações, tudo isso estava colocando o povo helênico em contato com pessoas diferentes, costumes diferentes, valores diferentes. As pessoas perceberam que o que é verdade para elas nem sempre é válido para os outros.
Os sofistas souberam dar forma e voz às mudanças que ocorriam em todos os lugares, explicá-las e responder perguntas. A população, principalmente os mais jovens, ficavam fascinados com seus discursos; os sofistas ensinavam o que importava, atraíndo a atenção da juventude que estava insatisfeita com o que aprendia e como aprendia. Os sofistas tornaram-se viajantes e passaram a cobrar pelos seus ensinamentos e respostas.
Existíam quatro tipos de sofistas, os quais estudaremos separadamente.
Os primeiros, os sofistas da primeira geração, eram Protágoras, Górgias e Pródico. Para Protágoras, a Verdade é relativa, depende do ponto de vista de cada um. O bem e o mal não são definitivos para Protágoras, mas o útil e o danoso são definitivos. Se a Verdade é relativa e cada ser humano tem sua visão da Verdade, então cada afirmação levanta argumentos contra e a favor, fenômeno chamado antilogia. Com a técnica correta, Protágoras podia fortalecer o argumento mais fraco e ganhar discussões, impondo sua verdade à verdade alheia. “Verdadeiro”, “falso”, “bem” e “mal” perdem completamente seus significados.
Górgias retoma a problemática de Parmênides, mas a inverte: o não-ser existe e o ser não existe. Ele tem três máximas que nos ajudam a entender seu raciocínio: “o nada existe”, “mesmo que o ser existisse, ele não seria cogniscível” e “mesmo que o ser fosse pensável, não seria exprimível”.
Pródico era um hábil usuário de sinonímia, o conhecimento dos sinônimos, permitindo a elaboração de discursos sutis e convincentes. Também foi Pródico quem aprofundou o utilitarismo de Protágoras.
Para Protágoras, o ser humano é a medida de todas as coisas (homo mensura), onde “medida” é “norma de juízo” e “todas as coisas” são todas experiências e fatos. Assim, cada um tem uma verdade, uma verdade absoluta para o indivíduo e que funciona com ele. Por exemplo, o vento que sopra é frio para quem está com frio e não é frio para quem não está com frio, assim, se um afirmasse que o vento é frio, ninguém estaria errado. É frio para o que está com frio e não é para quem não está, cada um tem sua verdade. Isso é chamado relativismo.
O sofista Protágoras também tinha uma invejável habilidade: fortalecer um argumento qualquer para levar vitória numa discussão. Atualmente, isso é chamado de “retórica”. Segundo As Antilogias, existem dois raciocínios contrários ao redor de cada coisa a ser estudada. Com a técnica certa, você pode fazer um argumento qualquer levar vantagem numa situação em que normalmente não levaria. Isso só funciona em conjunto com o argumento de que cada um tem sua verdade, pois, do contrário, você correria risco de erro.
Protágoras também ensinava que não há o “bom” ou o “mau”, mas há o “útil” e o “danoso”. A pessoa deveria basear-se em conceitos pessoais de útil e danoso ao invés de bom e mau para definir o que fazer em certa situação.
Enquanto Protágoras contruía sua retórica sobre o relativismo, Górgias construía a sua sobre o niilismo, a doutrina do nada. Segundo Górgias, o ser não existe; os filósofos anteriores disseram que o ser é uno, múltiplo, incriado, não-gerado e coisas que se anulam reciprocamente. Não existe algo que atenda todas as exigências dos filósofos naturalistas, logo o ser de qual falavam simplesmente não é. Mesmo que o fosse, não seria pensável. Os filósofos naturalistas diziam que você só pode pensar o que existe. Uma carruagem sendo puxada por quimeras sobre o mar é algo pensável, mas não existe. Assim, os naturalistas estavam errados e é possível pensar o que não existe. Mesmo que fosse pensável, como exprimir tal coisa? Nem sempre o que pensamos pode ser exprimido em palavras e os filósofos naturalistas diziam que tudo o que é pode ser exprimido em palavras. Se algo existisse, mas fosse difícil de ser explicado em sua totalidade, parte dele não seria? Logo o ser não é.
Górgias levou a retórica a um novo nível: já que nada existe e tudo é falso, as palavras ganham auntonomia, levando consigo persuasão, crença e sugestão. Assim a retórica passa a ser a arte de persuadir em todas as discussões.
Também Górgias foi o primeiro pensador a tratar de estética, mais especificamente, a poesia. Segundo Górgias, a poesia é um tipo de retórica, mas que não visa objetivos práticos. Ela tem por objetivo enganar o leitor, mas não é um engano danoso, é um engano prazeroso que serve para mover emoções e sentimentos.
Para terminar de falar sobre a primeira geração de sofistas, falemos de Pródico. Ele era mestre da arte da sinonímia, o estudo dos sinônimos e dos seus efeitos em discursos. Segundo Pródico, a virtude é o caminho que leva ao que é realmente útil e vantajoso. Também fez sua interpretação dos deuses: seriam uma absolutização do que lhes é útil (sol, lua, fontes, assim como os egípcios fizeram com o Nilo).
Agora vamos ao segundo tipo de sofista. Esse tipo, os erísticos, não estavam empenhados no enriquecimento cultural ou na explicação de algo; eles queriam ganhar discussões.
Os erísticos corromperam a antilogia e criaram a erística, a busca pela controvérsia. O objetivo era tornar o argumento oposto controverso, pondo o oponente em xeque.
O terceiro tipo de sofista, os sofistas-políticos, se apoiavam no niilismo de Górgias para criar sua retórica de manipulação da lei e da natureza. Acreditavam que os deuses eram criação dos políticos inteligentes para fazer a população cumprir leis que, por si só, não podíam se sustentar. Pregavam que o justo é a vantagem do mais forte e que é naturalmente justo que o mais fraco sirva ao mais forte.
O último tipo, os sofistas naturalistas, baseavem-se nas leis “naturais” para criticar a lei positiva, feita pelos humanos, alegando que a lei positiva divide as pessoas e a lei da natureza as une.
Hípias de Élida ensinava mnemotécnica, ciências naturais e matemática. Segundo ele, a lei da natureza é eterna e a lei positiva é contingente. Por causa da lei dos humanos, cidadãos são divididos em cidades e classes sociais. Contudo, a lei da natureza une os humanos, valorizando sua igualdade. Assim, Hípias teria sido o primeiro a dessacralizar as leis humanas e a propor um sistema igualitário, cosmopolita, de vida.
Essas concepções cosmopolitas foram radicalizadas por Antifonte. Segundo ele, deve-se sempre seguir a lei da natureza e, quando não houver risco de punição, transgredir a lei dos humanos. Uma vez que somos iguais perante a natureza, Antifonte pôs em xeque a crença grega de que eles seriam o melhor povo da terra e que o resto não passava de bárbaros inferiores. Conseqüentemente, isso também significa afirmar que as pessoas não deveríam ser divididas em classes sociais. Esse argumento ameaçou a aristocracia grega.
Mesmo que os sofistas tenham criticado a Verdade, a capacidade de conhecer algo sem risco de erro ou controvérsia, os deuses e as leis, eles não conseguiram apontar substitutos para tais coisas.
Os sofistas, contudo, tiveram seu valor. A principal contribuição dos sofistas foi, ao focar-se nos seres humanos, propiciar o nascimento do estudo da moral. Outro foi a negação do divino convencional ao qual a Grécia estava acostumada; o verdadeiro divino deveria estar acima do divino em voga. Também foi graças aos sofistas que passou-se a valorizar as palavras. Com isso, passou-se a procurar a Verdade num local diferente. Por último, por causa dos sofistas, as pessoas perceberam como o ser humano é frágil, fácil de convencer e ludibriar.
Muito bem feito, um dos mais completos em português
Comentário por Gabriel — 1 de maio de 2012 @ 17:37
Obrigadinho. Bom saber que tem gente que tira proveito do que escrevo.
Em 01-05-2012 17:37,
Comentário por Yure T. Kitten — 1 de maio de 2012 @ 19:57
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