Pedra, Papel e Tesoura.

14 de setembro de 2016

Boca de urna durante o culto.

Filed under: Notícias e política, Organizações — Tags:, , , — Yure @ 16:05

Hoje fiquei sabendo que tem pastor pedindo voto durante o culto. Eis uma boa razão pra deixar de ir pra esse culto e pra não votar na vereadora. Afinal, isso é propaganda eleitoral irregular, que é crime, em um local que deveria servir para louvor à divindade. Tanto o pastor como a vereadora estão errados.

É uma das razões pelas quais eu não vou pra igreja. A católica, apontam os protestantes, é vítima de muitos vícios de administração, mas para onde é que os recém-convertidos ao protestantismo vão? É difícil eu achar uma só igreja protestante que seja séria. São todas barulhentas e os sermões são tediosos. Eu costumava pensar desta forma: as igrejas (todas elas) ensinam coisas bíblicas e não-bíblicas, isto é, denominacionais. Se ensinam coisas bíblicas, eu tenho uma Bíblia Sagrada em casa que eu posso ler. Quatro páginas por dia e você termina em menos de um ano. Se ensinam coisas não-bíblicas, elas não produzem salvação, então por que ir?

A única razão pela qual alguém poderia querer ir pra igreja seria a impossibilidade de ler a Bíblia Sagrada (salvo no caso dos católicos, que comungam e sentem que precisam dos sacramentos). Isso se justifica em rotinas seculares intensas. Mas não reservar um tempo pra ler para que você possa formar sua própria opinião sobre o que a Bíblia Sagrada diz, fica também difícil escolher a qual grupo pertencer. Igrejas não são todas iguais. O ideal seria ler primeiro e só então escolher para onde ir. Eu, por exemplo, escolhi não ir à nenhuma, porque cheguei à conclusão de que igreja não é fundamental.

Imagino que todos ficam chateados com as mancadas de suas próprias igrejas, quer sejam católicas, ortodoxas ou protestantes (incluindo no balaio dos protestantes os mórmons e as testemunhas de Jeová). Quando um escândalo de pedofilia acontece na igreja católica, os protestantes talvez até achem engraçado e sintam que estão no lugar certo. Mas quando a Igreja Universal põe no SPC quem não paga o dízimo, como ficam os protestantes? Talvez o ortodoxo fique chateado não com as polêmicas nos outros dois grupos, mas com o fato de ser um movimento muito pequeno. Alguém pode argumentar que esses grupos são casos isolados e não são realmente protestantes, mas isso não isenta nenhum grupo de erro. Organizações humanas, feitas por pessoas imperfeitas, estão fadadas a ser imperfeitas.

O fato é que esses problemas de administração tornam difícil identificar qual grupo, se é que há algum, realmente é conduzido por Deus. Afinal, se fosse, não deveria falhar. Isso é um problema para os crentes e não para os que estão fora, os quais veem nisso uma nova razão para rejeitarem a fé de todo. A fé denominacional está decendendo mais e mais ao ridículo, agora com o pastor fazendo boca de urna pra vereadora durante o culto. Ele ainda chegou ao cúmulo de ir à outras duas igrejas, interrompendo o sermão que ocorria, pra fazer a mesma coisa: pedir 15444 orações. Ao menos quem achou aquilo um absurdo foi embora, especialmente porque o pastor sustentou que Deus permitia e instigava aquilo. Se Deus precisasse colocar alguém no poder, não precisaria da ajuda da democracia pra fazer isso: ele é Deus. Grande loucura.

8 de setembro de 2016

Terminei Undertale.

Terminei Undertale esses dias e resolvi, certo dia, assistir alguns vídeos a respeito do jogo. Não demorou para eu achar um vídeo bastante controverso sobre a possibilidade de Sans ser Ness, do jogo Earthbound. Faz muito sentido, mas, ainda assim, eu não vejo como isso poderia ser possível sem quebra de direito autoral, o que inviabiliza a teoria por razões práticas e de bom senso. Apesar disso, achei o vídeo interessante e resolvi comentá-lo com minha amada coelhinha. Foi quando as coisas ficaram preocupantes.

Ela reagiu com preocupação, imediatamente me perguntando por que eu estava assistindo estas coisas e, em menos de um minuto, outro amigo apareceu pra tentar me “salvar” do “perigo” da base de fãs de Undertale. Eu fiquei ao mesmo tempo assutado e confuso: é só um vídeo sobre um jogo. Mas parece que tanto esse amigo quanto minha amada levam esse jogo extremamente a sério. Meu colega, o qual gosto de chamar de “Pipi”, porque o nome de usuário dele é “Duplo P”, argumentou severamente contra a minha prática de assistir vídeos sobre determinado jogo sem tê-lo jogado suficientemente e me alertou contra a peçonha dos fãs que comentam o jogo exaustivamente a ponto de doutrinar novatos em “escolas” de hermenêutica lúdica.

Eu fiquei um pouco engasgado ali, com tantos argumentos que me pressionaram a engolir. Quando Pipi acabou, eu tive minha vez de falar. Falei que tenho vinte e três anos e uma sadia faculdade de julgar, lembrei que Undertale é somente um jogo (apesar de ser um bom jogo), que eu estou ciente dos riscos de ler um comentário antes de ler a obra comentada e que a opinião do comentador não substitui a minha. Ele ficou um pouco embaraçado depois disso.

É verdade que um jogo como Undertale está fadado a gerar polêmicas entre os fãs, que interpretam o jogo de maneiras diferentes. O que me preocupa é que muitos fãs se esquecem de que um jogo não deveria servir como fermento para contendas. Isso é propriamente fanatismo. Brigar por um jogo, contender contra uma escola de interpretação oposta, alertar para os perigosos estragões (spoilers) como se eles fossem destruir totalmente o proveito do jogador, nada disso tem base sólida. Tudo isso se baseia em algo que não foi feito para ser tomado dessa forma. A experiência de jogo é completamente pessoal. A forma como eu jogo, os estragões que eu consumo ou deixo de consumir, se eu pactuo ou não com a interpretação de outro, quantas vezes eu tenho que terminar um jogo antes que eu possa dizer que o joguei “suficientemente”, tudo isso é tão pessoal que eu quase me senti ofendido com aquela disputa. Sinceramente, se eu não conhecesse os dois, teria pena deles. Foi quase como se eles pensassem que estragões têm a mesma importância e impacto em toda a plateia. Eu não me importo nada com eles. Além disso, eu só comecei a consumir estragões de Undertale por curiosidade e porque eu nunca pensei que eu iria algum dia conseguir o jogo: não tenho conta bancária e o jogo parecia que ficaria disponível somente para Windows Mac OS por um bom tempo. Nunca me passou pela cabeça que eu ganharia o jogo de presente, dias depois da versão para GNU/Linux aparecer de súbito (obrigado, Senhor).

Isso não é problema do jogo, mas da base de fãs. A forma como os fãs tomam o jogo e se relacionam com outros jogadores é o que torna Undertale problemático, quando o jogo em si é uma obra-prima. Já existem certas pessoas que rejeitam certos jogos ou outros produtos de entretenimento porque temem aqueles que consomem tal produto. Não querem ser como eles ou tomar partido em disputas sem sentido. Isso já acontece com o RPG de mesa há muito tempo, com os jogos de cartas colecionáveis, com a animação japonesa, e isso faz parte do argumento do Pipi. Eu só temo que tal reação virulenta dele seja um indicador de que também ele é um potencial estraga-prazeres dentre os fãs. Nunca nada assim me acontecera. Eu até entendo que ele estivesse preocupado com o meu divertimento, mas houve um enorme excesso e visível raiva. Outra pessoa talvez desistisse de comentar o jogo com outros ou talvez até tivesse deixado de jogar.

Ele pediu desculpas e eu o desculpei. Não deixamos de ser amigos por causa disso. Se tivéssemos, isso, sim, seria o cúmulo.

23 de agosto de 2016

Anotações sobre os diálogos entre Hylas e Philonous.

  1. O contato com a natureza revigora a mente. É mais fácil pensar no silêncio campestre do que no ruído urbano.
  2. O ceticismo total (segundo o qual a única verdade é a de que não há verdade em nada mais) é prejudicial, pois põe tudo no relativismo.
  3. Uma das causas do ceticismo é o fato de que pessoas de autoridade, como filósofos e cientistas, por vezes afirmam que não existe nenhum conhecimento seguro ou professam como verdade coisas extravagantes e se contradizem. Se esses estudiosos ora parecem que estudam em vão e ora parecem enganar-se de todo, quanto mais o leigo. Mas não se deveria pensar assim.
  4. Por vezes, o conhecimento do leigo é mais seguro.
  5. Se aproximar de um objeto ingenuamente pode dar mais resultado do que se aproximar do mesmo com ciência.
  6. Quando você é convencido de que está errado, mude seu proceder. Permanecer no engano é manifestação de nefasto orgulho.
  7. A tese do livro é mostrar que não existe matéria, isto é, que a matéria é coisa da nossa cabeça.
  8. Cético é quem duvida de tudo. Embora Berkeley fale contra os céticos, é interessante notar que seus argumentos lembra os dez ataques contra a verdade, utilizados amplamente na escola cética, compilados por Pirro, expoente do ceticismo. Berkeley chega ao cúmulo de levá-los a extremos que Pirro não ousaria levar.
  9. Quem nega não é cético. O cético duvida, isto é, nem afirma e nem nega. Voltaire dirá que isso não é possível. Pascal concorda que, pelo menos na dicotomia entre dogmático e cético, não escolher nem um e nem outro já é ser cético.
  10. Se durante uma discussão, o oponente fala uma besteira, mas uma besteira pequena, não vale a pena discutir sobre ela.
  11. Negar a matéria não nega a matemática, por exemplo. É possível praticar matemática sem a matéria, mesmo que ela tenha relações com a matéria. Eu posso somar 2 e 4 para obter 6, sem necessariamente fazer essa operação com palitinhos.
  12. O “verdadeiro cético” não afirma sequer a realidade sensível.
  13. O que é uma “coisa sensível”: aquilo que posso aprender somente pelos sentidos ou aquilo que eu posso apreender com ajuda de instrumentos que auxiliam os sentidos?
  14. Por exemplo: lendo um livro, eu vejo letras e vejo a palavra “gato”. Porém, o que diz que aquela palavra é gato é a mente, que aprendeu a interpretar os sinais daquela forma. Os olhos podem apenas dizer que as letras G, A, T e O estão escritas ali. Então, o que é sensível? A palavra “gato” ou as letras que compõem o nome?
  15. Agravado quando a palavra se refere a algo somente inteligível, mas não sensível, como o amor. O que é sensível? As letras, a palavra ou o amor?
  16. Ouvir um som não iguala ouvir a causa do som.
  17. As causas e a relação de causalidade são inferências racionais, não sensíveis.
  18. A linguagem é arbitrária: não temos razão para chamar o gato de gato, quem deu esse nome só o deu porque precisava dar um nome ao bicho e esse foi o primeiro que lhe veio à mente.
  19. As coisas sensíveis são, para Berkeley e também David, um “feixe de percepções”. Elas não existem fora da nossa mente, de forma que algo só existe se é percebido. Kant explica o fenômeno de outra forma: as coisas que nos causam sensações existem sem que as percebamos, mas, como nossos sentidos são limitados, aquilo que percebemos delas não necessariamente corresponde ao que elas são. Ou seja: quando interagimos com alguma coisa, apreendemos as sensações que ela causa e formamos um conceito dela, uma ideia, com a qual trabalhamos. Essa ideia pode ou não corresponder à coisa. Quer corresponda ou não, nós não podemos saber. A coisa como ela aparece é chamada “fenômeno”. Assim, Kant conclui, em oposição a Berkeley, que as coisas existem sem que as percebamos, mas que só podemos conhecê-las como “fenômeno”, isto é, quando ela aparece e como ela nos parece. O que existe em nossa mente é o conceito obtido da coisa através da interação com ela; não é como se as coisas que sentimos só existem em nossas mentes. Afinal, somente um corpo pode estimular outro, o que significa que as coisas têm existência corpórea fora de nós.
  20. O calor tem existência real ou é uma sensação nascida em nós? Se ele fosse totalmente dependente de nós, não o sentiríamos nunca, porque o calor só se manifesta como sensação se estamos próximos de uma fonte de energia que nos produza essa sensação. Então, embora o calor seja uma sensação reativa, ele não se manifesta sem objeto. Há um objeto que produz uma energia que nos causa a sensação de calor. Ausente o objeto, ausente a sensação.
  21. O grande problema aqui é de onde vêm as sensações: se forem reativas, são subjetivas; do contrário, são objetivas. O calor existe no objeto? Ou o calor é uma sensação nossa que só existe se a percebemos? Isso também depende do que você chama de calor. Se você chama “calor” a sensação de desconforto oriunda da interação com objetos quentes, então é reativa e subjetiva. Se você chama “calor” de energia calorífica emanada por determinado objeto, ele é objetivo, pois o objeto emana essa energia quer sintamos ou não.
  22. Não existe sensação intensa que não provoque dor ou prazer.
  23. Como definir prazer ou dor sem acabar explicando o que é sensação?
  24. Para alguns, dor e prazer não são distintos das sensações que os provocam. O problema é que eu tenho um monte de amigos que sentem prazer em coisas estranhas, como pancadas no traseiro, cócegas, sujar fraldas… Se o prazer e a dor fossem indistintos das sensações que os provocam, não deveriam todos sentir prazer nessas coisas? Eu, pelo menos, gosto do meu traseiro sem marcas.
  25. Para Berkeley, calor “intenso” não existe sem uma mente que a perceba. Porém, se tomamos calor como energia, a energia existe independente de nós, só que, sem uma mente que a perceba e nomeie, realmente não chamaríamos isso de calor. As palavras não são as coisas. Além disso, sem uma mente que a perceba, o calor-energia não provoca o calor-sensação, que são coisas que eu distingui. Porém, é importante lembrar que Berkeley não nega o calor real nas coisas, mas nega a intensidade do mesmo fora da mente.
  26. Mudança de opinião: o prazer e a dor existem na mente apenas e dispõem as sensações em intensidade. Como o texto é escrito em forma de diálogo, os personagens mudam de opinião quando consideram melhor as coisas.
  27. Morno causa prazer, mas é calor em estado mediano. Mas Berkeley chama o morno de apatia, nem prazer, nem dor. E se eu realmente sinto prazer no morno (porque é inegável que um banho de água morna é prazeroso)? Se o morno é apatia, então a apatia causa prazer, o que invalida o argumento de que o morno não é prazeroso e nem doloroso. Se o morno não é apatia, não é realmente morno, pois o morno “verdadeiro”, segundo o argumento, não deveria causar prazer.
  28. Esse problema é interessante: os graus de calor e de frio só existem na mente porque prazer e dor, que os dispõem em graus de fraco e intenso, são mesmo subjetivos. O que me é frio é quente para outro. Mas e se usássemos um critério objetivo para medir frio e calor? Numa sala que faz vinte e sete graus (frio pra mim, cearense), não importa se o calor é prazeroso ou doloroso; faz vinte e sete graus e pronto. Então, se eu posso usar critérios não-subjetivos para medir o calor, por exemplo, então ele não é de todo subjetivo. Me sinto tão esperto fazendo essas refutações que me pergunto se eu não estou errado. Acaba que Voltaire pensa da mesma forma. Interessante notar que o argumento de que o calor é relativo porque ele se manifesta diferentemente em diferentes pessoas é cético e tem sua origem em Pirro e está implícito em Protágoras.
  29. Usar critérios subjetivos para graduar calor e frio leva a absurdos.
  30. Prazer e dor existem só na mente e a prova disso é que algo que é prazeroso para uns é doloroso para outros. Se prazer e dor fossem inerentes às coisas, todos sentiriam prazer ou dor com as mesmas coisas e não haveria “gosto pessoal”.
  31. A linguagem em plena acepção da palavra é a linguagem vulgar. Se eu estiver falando e você estiver me entendendo, então perfeito.
  32. A mesma coisa se mostra diferente dependendo do método de observação. A cor da parede é diferente à distância e diferente quando próxima e quando focada com microscópio.
  33. Se o microscópio é mais confiável, nossa percepção das cores é falha.
  34. “Movimento”, na época de Berkeley, era a mudança de posição de um corpo em relação a outro corpo, usado como referência.
  35. A razão de a cor ser uma característica subjetiva é que diferentes pessoas e animais percebem diferentes espectros. Mas, se definimos cor como frequência de reflexo da luz sobre um objeto, ela é objetiva, existe fora de nós. Assim, existiria uma cor-reflexo e uma cor-sensação. Essa distinção é minha e não está no livro.
  36. Porém, embora objetiva, a cor não depende das coisas onde a cor se mostra, mas no seu grau de reflexão e intensidade da luz. De fato, se a luz é vermelha, o objeto amarelo sob ela parecerá laranja.
  37. Figura e extensão existem nos corpos ou só na mente? Será que os animais percebem extensão e figura do mesmo jeito que nós?
  38. Animais pequenos percebem o mundo em escala diferente. Mas nem por isso podemos dizer que a extensão é subjetiva, eu digo. Isso pela mesma razão do calor: se eu usar um critério subjetivo (como “maior que” e “menor que”) para lidar com extensão, eu chegarei ao absurdo se eu tentar afirmá-la como objetiva. Porém, se eu convencesse todos os animais do mundo a adotar o sistema métrico, não importaria o tamanho de alguma coisa, pois todos os animais a mediriam da mesma forma e chegariam à mesma extensão. Se eu uso um critério objetivo, posso afirmar algo como objetivo. “Maior que” e “menor que” podem ser subjetivos, mas “dois metros” não pode. Voltaire usa este exato argumento contra Berkeley.
  39. O mesmo com a velocidade: “rápido” e “lento” são subjetivos, “vinte quilômetros por hora” não é subjetivo.
  40. A velocidade é inversamente proporcional ao tempo em que determinado objeto chega a um objetivo. Quanto menor o tempo para chegar, maior a velocidade.
  41. As qualidades secundárias, como cor e sabor, são identificadas pelo prazer e pela dor. Já as primárias, não causam nem um e nem outro. É assim, diz Berkeley, que os filósofos distinguem entre qualidade secundária e primária quando, no raciocínio dele, é tudo secundário (subjetivo).
  42. Embora as coisas tenham existência objetiva, a ideia que fazemos delas é subjetiva.
  43. Se a extensão é subjetiva, não é parte da matéria. Mas se a matéria não tem extensão, como ela pode existir? Novamente, vale lembrar que a concepção de extensão em Berkeley chega ao subjetivismo porque ele exclui a matemática de seu raciocínio.
  44. Filosoficamente, substância e substrato são a mesma coisa.
  45. Cuidado para não usar termos filosóficos por hábito, sem saber realmente o que querem dizer. Especialmente se estamos falando de Aristóteles. Na universidade é muito comum os alunos falarem na “dialética” sem serem capazes de explicar satisfatoriamente o que ela é. Hegel é o novo Aristóteles.
  46. O que é a matéria, afinal? Como a filosofia trabalha com palavras, nós precisamos de significados para as palavras com as quais trabalhamos. Se temos uma ideia vaga sobre determinado termo ou não temos termo para uma ideia apreendida, não é possível fazer filosofia sobre essas coisas. As coisas devem ser nomeadas e os nomes precisam se referir às coisas.
  47. Se você concebe algo em sua mente, não há garantia de que esse algo exista fora dela. O grande problema de Berkeley é algo como isto: se uma árvore cai, mas ninguém a viu cair, sua queda faz barulho? Berkeley se posiciona na negativa: se ninguém viu, não existe árvore. Para Berkeley, algo só existe se percebido.
  48. Não é possível dizer a distância exata de algo só olhando pra ela. A Lua e o Sol, se vistos da Terra, podem parecer que estão à mesma distância, ao menos pra mim. Eu só concebo que a Lua está mais próxima porque eu li sobre isso. Quanto mais distante, mais difícil é dizer a distância.
  49. Se eu concebo distância como uma “linha” entre o olho e o objeto focado, não vejo essa linha. Ela é hipotética.
  50. Se eu vejo uma estátua de Júlio César, eu estou vendo a estátua. Quem me diz quem ela representa é a razão.
  51. Muitas vezes, a conexão de uma ideia à outra é puro costume. Isso é evidenciado no preconceito racial, por exemplo: porque muitas pessoas de pele escura e que se vestem de determinada forma praticam assaltos ou traficam drogas, algumas pessoas concluem disso que os negros que se vestem de tal forma tendem ao crime. Elas muitas vezes não se dão conta de pensam dessa forma por costume.
  52. Eu escuto o veículo ou o som que ele produz?
  53. Só é possível ouvir o som. Só é possível ver a imagem. Só é possível perceber o fenômeno, o que não necessariamente nos dá uma ideia segura do objeto que o produz.

17 de agosto de 2016

Anotações sobre a carta sobre a tolerância.

  1. A tolerância entre cristãos é sinal distintivo de uma verdadeira igreja, em sentido tradicional da palavra como “coletivo de cristãos”. Se orgulhar de ser católico, se orgulhar de ser ortodoxo, se orgulhar de ser protestante, no final são manifestações de orgulho, que revelam muito mais o desejo de superioridade do que a doutrina de Cristo, que inclui a humildade (Mateus 11:29), o oposto do orgulho. Erasmo chamará esse orgulho de “presunção“.
  2. O cristão deveria ser caridoso e ter boa vontade para com todo o mundo, inclusive com os que não são cristãos. Como é, então, que muitos cristãos não são capazes de caridade e boa vontade até com outros cristãos?
  3. A religião é um regulador de comportamento. O cristão que não se comporta como cristão não é cristão, mesmo sendo batizado, por exemplo.
  4. As ações revelam o cristão, não o endereço da igreja onde se congrega.
  5. Se você não se esforça em amar o próximo, não está tão preocupado com sua salvação. Quanto mais com a dos outros.
  6. Por exemplo: pastores que cometem todo o tipo de loucura claramente errada de um ponto de vista bíblico. São, propriamente, cegos guiando cegos. Porque, não querendo a salvação eterna, guiam aqueles que querem. Cairão ambos no abismo (Mateus 15:14). O padre ou o pastor deveria ser exemplo de comportamento cristão. Do contrário, não serve ao ofício.
  7. Suponhamos que você persiga uma menina que cometeu aborto, mas pouco tempo depois sua própria filha o faz. Você vai perseguir sua filha da mesma forma que persegue a estranha? Se sim, você não ama sua filha. Se não, você é parcial e injusto. Portanto, não se deve perseguir ninguém.
  8. Não se deve converter à força. Nem todos os que não vão à igreja não são cristãos.
  9. No dia do julgamento, Jesus julgará um por um (Apocalipse 20:12), e não igreja por igreja. Portanto a controvérsia sobre qual igreja é a correta não tem relevância para a salvação, que é obtida por esforço pessoal do crente de se aproximar de Deus pelas boas obras.
  10. Não é a teologia da outra igreja que merece ataques, mas os vícios praticados pelos crentes. Não se deve pregar contra os católicos, contra os ortodoxos, contra os protestantes, mas contra o roubo, contra o adultério, contra o assassinato…
  11. A conversão não deve ser forçada pela força individual, pelo exército ou pelo Estado. Ninguém é obrigado a crer. Se fosse crime não ser cristão, como o juizado me julgaria, sendo a fé pessoal? Eu poderia até ir pra igreja, comer o pão partido, tomar o vinho, ouvir o sermão, atender à escola dominical e praticar tudo aquilo que é tido por cristão (católico, neste caso), mas, se for à força, não vale pra Deus. Se fosse pra converter pela força, Deus poderia fazer todo o mundo acreditar neste instante. Mas isso violaria o livre-arbítrio dado a nós por ele.
  12. Por causa disso, não se deve misturar Igreja e Estado. Se o cristianismo, por exemplo, se tornasse uma obrigação civil punida por leis humanas, que bem isso faria aos ateus? Nenhum bem, mas o contrário: veriam a religião como uma obrigação, tão civil quanto o serviço militar obrigatório. Talvez isso até os afastasse da fé verdadeira, que é interior. O filósofo, aqui, em polêmica com Hobbes. Surpreso? Não deveria estar.
  13. O Estado não deve, nem pode, “cuidar das almas”.
  14. Isso porque o poder estatal é coercitivo material, não tendo, portanto, nenhum poder sobre o espírito. Se você espanca o ateu até ele dizer que virou cristão, é claro que ele falou da boca pra fora. Além do mais, uma conversão assim é errada, porque Jesus não ensinou isso. Jesus argumentava. Isso tem poder sobre o espírito.
  15. Além do mais, Deus não deu ao Estado o direito de impor a religião. Ao menos, não ao Estado gentio, pois sabemos que Estado e religião andavam juntos em Israel, através da Lei, que é ao mesmo tempo religiosa e civil.
  16. O Estado regula este mundo. Ele não tem poder sobre o outro mundo.
  17. Além do mais, leis mudam de país para país. Se o Estado tivesse o poder de sancionar um culto que ocasionasse a salvação, mas outro Estado fizesse o mesmo com outro tipo de culto, apenas um poderia estar certo. Será plausível que alguém seja condenado por ter nascido em outro país?
  18. A Igreja é uma associação voluntária de homens livres que procuram juntos a salvação eterna.
  19. Não é estranho que igrejas tenham regras diferentes, como condições de exclusão, distribuição de cargos e datas de reunião. Essas regras são particulares e variam de igreja pra igreja, não produzem salvação.
  20. Não há necessidade de bispo descendente de apóstolo para que Cristo esteja entre nós (Mateus 18:20). Este é um ataque à ortodoxia. Se os ortodoxos acreditam que uma igreja só pode ser validada pela descendência apostólica, tudo bem, mas que fique claro que isso é uma exigência particular da igreja deles e que não fornece salvação se for seguida ou quebrada. Mandamento de homem.
  21. Há diferentes igrejas, vá pra qual você achar melhor. Mas tenha em mente que não é essa escolha que te salvará, mas sua aderência à doutrina de Jesus.
  22. Há mais chance de se salvar lendo a Bíblia do que indo pra igreja. Muitas igrejas demandam de seus fieis comportamentos que a Bíblia nem sequer menciona. A Bíblia diz o que é necessário à salvação (Lucas 18:20) e você nem sequer precisa pertencer a uma igreja pra fazer essas coisas. De fato, é recomendado, mas não é fundamental.
  23. Eu não posso excluir da minha igreja alguém que Cristo não excluiria da vida eterna.
  24. Os cristãos não deveriam perseguir, mas pelo contrário: Jesus disse que os cristãos seriam perseguidos. Há mais razão de se estar feliz em receber perseguição, se for em nome da justiça (Mateus 5:10).
  25. Tal como o Estado deve se aparelhar para o bem-estar material do povo, a Igreja deve se aparelhar para seu bem-estar espiritual. Então a igreja não deve impor aos fieis nenhuma regra que não tenha essa finalidade. Dízimo de dez por cento? Não precisa; isso já era considerado abuso na Idade Média.
  26. Se a Igreja não deve usar a força, como vou punir quem não obedece? No máximo, você pode excluir a pessoa da Igreja. Deixe o resto pra Deus.
  27. O Estado deve tratar todos de maneira igual, independente do credo.
  28. As outras religiões talvez façam piada das perseguições dentro do cristianismo.
  29. Com direito uma igreja persegue outra?
  30. A igreja certa tem direito de perseguir as erradas, não é? Mas qual é a certa? A minha, claro.
  31. Se eu devo amar meus inimigos (Lucas 6:27), quanto mais os que não me fizeram nenhum mal.
  32. A autoridade eclesiástica é somente eclesiástica. O papa não deveria ser rei e nem pastor deveria ser deputado.
  33. Se alguém não vai pra igreja ou pro culto, é problema dele. Não cabe a mim punir o pecado do outro. Como pode um pecador punir um pecador, se a punição só pode ser ministrada por um superior, neste caso, alguém que não peca (João 8:7)?
  34. Observe como a dissidência entre cristãos é sobre coisas de pouca importância. Essas controvérsias são exagero.
  35. Se há apenas uma cura para uma doença, mas essa cura é desconhecida, eu tenho culpa por escolher a que eu acho certa? Se só houver uma igreja “certa”, ninguém sabe qual é. Então a minha escolha não é condenável.
  36. Eu não sou obrigado a acreditar em ninguém em matéria de salvação, mas na revelação apenas. Se eu lesse a Bíblia, poderia julgar com mais propriedade a qual grupo pertencer, se eu tivesse necessidade. Como a salvação é pessoal e como não há consenso sobre como chegar lá, eu não tenho obrigação de acatar a opinião de alguém tão ignorante como eu.
  37. Os israelitas, preferindo seus reis em relação aos profetas, foram levados à práticas erradas. Não há garantia da segurança do ensinamento do padre ou do pastor. Se eu não conheço a Bíblia, não serei capaz de dizer se estão ensinando corretamente. Então, se eu tiver em confiar na interpretação de alguém sobre revelação divina, por que não em minha interpretação? Afinal, os profetas escreveram livros. Estão aí e eu posso lê-los.
  38. Se um país tiver uma religião oficial, não será a religião do governante? É muita presunção filiar todos à igreja do presidente.
  39. Se Igreja e Estado fossem a mesma coisa, isso seria um desastre em termos de culto: as práticas da religião poderiam mudar dependendo de quem está na administração estatal. Imagine só: o culto à moda da social-democracia, o culto à moda do PT, o culto à moda do Partido Verde ou do Partido Socialista Cristão, do do Pratido Comunista (paradoxo)… Será que eu poderia mudar de culto assim tão facilmente sem um pingo de peso na consciência?
  40. Cultuar por obrigação não produz salvação. Observe que Pascal sustenta que ir pra igreja à força repetidas vezes acaba fazendo o indivíduo dar uma chance à fé.
  41. A religião só é frutífera se o fiel acredita que ela é a verdadeira.
  42. Não se deve exigir dos fieis algo que Deus não exige.
  43. Aquilo que é ilegal não deve ser parte de nenhum culto dentro do território onde tal comportamento é ilegal. Por exemplo: o mórmon pode, religiosamente, se casar com mais de uma mulher. Como isso é ilegal no país, não podem ter várias mulheres em território nacional, mesmo que seja religiosamente aceito.
  44. “Ninguém pode ser despojado de seus bens terrenos por motivo religioso.” Fala isso pra Universal.
  45. Se Igreja e Estado se fundem, quem não é cristão pode ter seus bens, liberdade e vida sob risco. Confiscar bens porque o súdito é “idólatra” seria um exemplo de como o governante se sentiria tentado a usar a religião como desculpa pra explorar a população.
  46. A cobiça é pecado, mas não é crime. Será que se Estado e Igreja se fundissem, os políticos corruptos seriam perseguidos por manifestarem cobiça? Ou será que usariam a oportunidade para aumentar ainda mais suas posses?
  47. Se o Estado obriga os ateus à Igreja, mesmo que ateu não acredite, não entende nada de salvação.
  48. O dever do Estado é salvaguardar a segurança e a paz em seu território. Ele deve punir apenas comportamentos que ameacem a paz. Então, por exemplo, embora Paulo diga que ser homossexual é pecado (1 Coríntios 6:9), isso não precisa ser proibido por lei, porque ser homossexual não necessariamente ameaça a paz no território estatal. Ao menos, num contexto cristão.
  49. A verdade pode ser descoberta sozinha, mas o engano precisa ser mantido por mais de uma pessoa ao mesmo tempo para se perpetuar.
  50. O cristão deve converter os outros, mas não deve usar a força pra isso.
  51. A vida em sociedade é mais longa.
  52. Se o Estado é democrático e a maior parte da população é cristã, ele provavelmente não entrará em conflito com a Igreja. Afinal, o Estado democrático zela pela felicidade da maioria, então ele não entrará em conflito com a Igreja se a maioria das pessoas é cristã.
  53. Se o Estado prescreve algo que a Igreja condena, o fiel realmente fiel preferirá ser punido pela lei do que pecar. Isso não ocorreria se as autoridades fossem realmente apoiadas por Deus (Romanos 13:1).
  54. Se uma igreja quer ter privilégios legais sobre as outras ou sobre quem é ateu, deve ter esse interesse combatido; isso só seria possível se a Igreja tivesse laços com o Estado, o que não pode acontecer. Além de que isso seria injusto.
  55. A Igreja não pode se opor ao Estado. Hobbes dirá o mesmo.
  56. O filósofo diz que o ateísmo é intolerável, mas, considerando que ele diz que ninguém é obrigado a crer, ele provavelmente está se referindo às pregações ateias, isto é, à difusão na sociedade do discurso anti-teísta. Se o filósofo diz que isso é intolerável, ele está dizendo que convencer os outros de que Deus não existe deveria ser crime. Parece contraditório. Mas a razão disso é que a crença em Deus é um duplo estanque contra comportamentos destrutivos ao Estado. Alguém que não teme as leis, mas teme a Deus, não quererá roubar. Então, remover a crença no divino é remover uma barreira que contém a tendência criminosa.
  57. Uma igreja que não tolera as outras provavelmente está mais interessada em conseguir fieis pra sua denominação do que realmente salvar as almas do rebanho.
  58. A tolerância religiosa deve se tornar lei. É importante lembrar que o filósofo está se referindo às religiões que não trabalham contra o Estado, como aquelas que requerem sacrifício humano, quando o assassinato é crime.
  59. A religião é causa de dissenções estatais, dirão alguns, mas isso porque os membros de determinada religião podem estar se sentindo oprimidos. É como a cor da pele. Não é a “raça” que é causa de dissenção, mas a opressão sofrida pelos de determinada cor. Pessoas oprimidas se rebelam, é natural. A causa nesses casos não é nem religião e nem cor da pele, mas a discriminação.
  60. Uma missa, por exemplo, pode ocorrer fora do templo. Lembro de quando eu era parte da Legião de Maria (na infância, se me lembro bem), por vezes fazíamos “ofícios”, que eram orações e cânticos públicos. Era embaraçoso, mas ocorria. As testemunhas de Jeová, também, têm atividades públicas, como a pregação itinerante. Se as religiões têm um aspecto público, então elas não devem ter o que esconder do Estado.
  61. Uma igreja que encoraja comportamentos criminosos deve ser punida, mas as que não encorajam nem por isso devem receber benefício estatal.
  62. O Evangelho não sanciona a exclusão social com base em religião. Não há base religiosa para banir do país os judeus, os muçulmanos ou os ateus.
  63. A existência de outras religiões não necessariamente é uma ameaça aos cristãos.
  64. Em muitos sentidos, a religião cristã é a pior, por causa das dissidências e perseguições entre os próprios cristãos.
  65. Nesse sentido, não é a religião que é ruim, mas os fieis.
  66. Deixar a Igreja Católica em favor da Protestante é normal. O contrário acontece também. Isso não é apostasia. A apostasia é deixar o cristianismo, isso é, deixar de crer em Cristo como cristão. Por exemplo: tornar-se ateu, judeu, muçulmano… Apesar de que existem judeus que crêem em Cristo e observam a Lei de Moisés, diferindo dos outros judeus apenas por terem aceito Jesus como o Messias. Alguém pode se perguntar se é possível seguir o Evangelho e a Lei ao mesmo tempo, mas basta lembrar que a Lei não promete salvação eterna, mas benefícios terrenos (Deuteronômio 28:1-14). Então um complementa o outro para o judeu crente: a Lei para benefício terreno e o Evangelho para a salvação. Com a vinda de Jesus, foi revelado que existem porções da Lei que nos tornam elegíveis à salvação (Mateus 19:16-19). Então, observar toda a Lei causa a salvação e benefício terreno, mas, se tudo o que o indivíduo quer é ser salvo, o Evangelho basta. Acho que foi isso que Tiago quis dizer quando recomendou porções da Lei aos gentios convertidos (Atos 15:28-29), sem, contudo, condicioná-las à salvação, porque a observância dos preceitos da Lei, mesmo por quem não é judeu, permite benefício terreno e uma boa vida. Mas isso é minha opinião.
  67. Para o filósofo, católicos e protestantes, embora ambos cristãos, participam religiões diferentes, por terem diferentes regras de fé. A distinção é simples para o filósofo, é a mesma distinção feita pelo Deu A Louca Na História: o protestante acredita na Bíblia, mas não acredita no Papa. Hoje, os reconhecemos como diferentes denominações na mesma religião.
  68. Ser um herege é simplesmente dividir uma religião ou denominação em diferentes grupos com base em questões sobre as quais os fundamentos calam. No protestantismo, no qual a Bíblia é a única regra de religião: é lícito batizar bebês? A Bíblia não diz claramente que não. Então, se a opinião corrente era de que sim, os que disserem não são hereges.
  69. Assim, herege é quem divide a Igreja.Mas se a discordância é sobre algo que a regra de fé não cobre, então que diferença faz? Assim, as heresias são sempre desnecessárias, com a decisão de escolher um ou outro caminho sendo totalmente pessoal e não uma razão para dividir a igreja em grupos diferentes.A heresia é uma divergência em regras de fé (fundamentos) e o cisma é uma divergência de culto ou disciplina (práticas).Acreditar na Bíblia basta. Se você não a nega e nem toma outros fundamentos além dela como norma de religião, provavelmente não é herege nem cismático.

12 de agosto de 2016

Anotações sobre os dois tratados sobre o governo.

  1. Se o poder monárquico é de natureza paterna, por que os reis dominam mais que suas famílias?
  2. Se a monarquia é o governo que Deus escolheu para os homens, porque ele não pune as democracias (pelo contrário, as nações mais ricas do mundo frequentemente são democráticas)?
  3. A interpretação mais clara é preferível à mais obscura.
  4. Se queremos provar algo com base em uma fonte textual, não podemos nos pronunciar sobre o que o texto não diz.
  5. Se o poder de começar e terminar guerras só pode residir na mão dos monarcas, então todos os governos do mundo são monárquicos.
  6. É possível comandar sem ser necessariamente rei.
  7. Toda herança implica regras para determinar o herdeiro.
  8. Fora que Deus teria deixado regras para determinar a sucessão do poder paterno de Adão se isso fosse importante.
  9. Se isso fosse algo relevante e só os sucessores “legítimos” de Adão pudessem governar alguma coisa, ao passo que não sabemos quem são esses “legítimos” (supondo que não seja todo o mundo, o que já é errado), então nenhum governo é legítimo.
  10. A especulação sobre quem deve suceder com base num direito de paternidade obtido de Adão é irrelevante. Uma resposta para tal arremedo de pergunta não colocaria ninguém no trono e nem poderia manter alguém lá.
  11. Se o primogênito for um babaca, não seria ainda mais babaca o pai que deixa seu domínio a ele e não ao filho mais novo, o qual não é um idiota? Donde decorre que nem sempre é sábio deixar o primogênito suceder.
  12. Qual o sentido de dizer que eu devo obedecer sem dizer a quem obedecer?
  13. E se o pai não tivesse filhos, quem o sucederia num sistema político pautado em primogenitura? Prova de que o poder político é um acordo, não uma determinação natural que passa de pai pra filho.
  14. O primogênito não tem domínio sobre os irmãos.
  15. É possível comprar o direito de primogenitura (Génesis 25:31), de forma que o primogênito não receba o que deveria receber.
  16. Se algo é concedido condicionalmente, não é absoluto, óbvio.
  17. Além do mais, se o reino pertence à descendência de Adão, Jesus não poderia ser rei. Com efeito, embora descenda de Davi, de Judá, de Israel e eventualmente de Adão (Mateus 1:1), não é uma descendência biológica, posto que foi concebido pelo poder do Espírito Santo (Lucas 1:35). Portanto, afirmar tal coisa pode até ser blasfemo, pois implica que Jesus não poderia governar legitimamente.
  18. Se ao “herdeiro legítimo de Adão”, então a todos: não existe uma pessoa que não descenda dele.
  19. Há poder. Mas a quem pertence?
  20. Suponhamos que somente os herdeiros de Adão possam ser soberanos legítimos. Se é possível usurpar poder e também é possível ser rei, neste caso, ilegítimo, sobre uma massa humana qualquer, então a tese de pátrio poder de Adão é inútil.
  21. A opinião corrente era a de que todos no mundo eram senhores ou escravos em algum sentido. Como o filósofo pretende afirmar que podemos ser livres e, portanto, optar por não ser senhor ou escravo, ele terá que refutar essa opinião vigente em seu tempo.
  22. Suponhamos que o pai tenha direito absoluto sobre a mulher e os filhos, mas morre deixando mulher e filhos sob cuidado do primogênito. Se esse poder é realmente absoluto, o primogênito passa a ser senhor dos irmãos e herda como esposa a própria mãe.
  23. Pai e mãe são os que criam, não necessariamente os que geram.
  24. “Injúria” é ofensa ao direito de alguém.
  25. O direito à herança vem do dever paterno de sustentar os filhos.
  26. As propriedades de alguém, quando esse alguém morre, não deveriam se tornar públicas? Se isso não acontece, diz o filósofo, é porque há um consenso da sociedade segundo o qual as posses do pai passam aos filhos. Mas isso não é direito de paternidade, senão também contrato.
  27. Se Adão fosse senhor absoluto, sua autoridade retornaria para Deus quando Adão morresse, não passando ao descendente.
  28. Não é possível discorrer sobre obediência sem mencionar a quem ela é devida.
  29. Se é a paternidade que nos dá direito absoluto, então o súdito não deve obediência absoluta ao monarca a menos que este seja seu pai. Como isso acontece, decorre que não é a paternidade que tira a liberdade de alguém, mas o contrato.
  30. “Novo nada” é uma novidade que não muda nada. Mudamos tudo para nada mudar, isso é um novo nada.
  31. Mas há limites quanto ao quinto mandamento, segundo o filósofo. Porque o avô não pode ordenar ao pai que abdique do respeito dos filhos, de forma que os filhos passem, por concessão paterna, a honrar o avô. Hobbes diz que isso é válido e More diz que nem sempre é válido, representando uma posição mediana.
  32. Interessante como o filósofo diz que o filho não deve desrespeitar a mãe nem se o pai o ordenar, da mesma forma que a mãe deve punir o filho se ele desrespeitar o pai. Os pais devem agir como uma entidade só perante o filho.
  33. Portanto, o pai não tem direito de reivindicar o respeito total do filho, pois a mãe também merece o devido respeito.
  34. Na verdade, quando se fala de família, o parecer das Escrituras é de que pai e mãe têm igual importância. O pai não é mais importante que a mãe, do ponto de vista do filho.
  35. Usar versos bíblicos abstraídos do contexto para facilitar seu uso arbitrário é distorcer a palavra divina. Especialmente quando se usa apenas metade de um verso para provar seu ponto.
  36. É grave pecado matar, especialmente se for como sacrifício a um deus pagão e muito mais grave se o sacrifício for os filhos (Salmos 106:38).
  37. Atos cometidos pela paixão são extravagantes. A pessoa que abdica da razão, isto é, do bom senso, cometerá loucuras. Essas loucuras, se encontrarem outros que as cometam, tornam-se moral local quando a maioria comete. Isso dá origens às doenças sociais.
  38. O desejo de proteger o filho leva os pais a extremos.
  39. O pai, fecundando a mãe, tem interesse limitado à família. Mas Deus, dando a capacidade de reprodução a suas criaturas, tinha interesse na manutenção da criação inteira.
  40. O dilúvio não aconteceu apenas para a cultura judaica-cristã. Outros povos relatam o dilúvio.
  41. Além do mais, se os pais realmente desse vida ao filho, a mãe deveria ter direito maior que o pai, pois carregou a criança por nove meses e é a primeira a alimentá-lo.
  42. Além disso, o pai e a mãe fazem o corpo do filho, mas quem dá a vida e a razão é Deus. Por isso o pai não pode tomar “de volta” a vida do filho, diz o filósofo, porque não foi ele quem deu essa vida em primeiro lugar.
  43. Pai também não é rei. Se eu dei a vida ao meu filho, não necessariamente tenho direito de tirar essa vida dele. Então, o pai também não tem direito absoluto sobre o filho, mas somente aquele que lhe cabe como pai, que é o de educá-lo com recompensa e punição, acompanhado do dever de mantê-lo vivo e saudável.
  44. Afirmações sem provas podem ser negadas até sem razão.
  45. Esposo não é rei.
  46. Se a mulher se submete ao marido, isso é uma submissão conjugal dentro da família, não uma submissão de nível político e nem uma submissão absoluta. Se o fosse, o marido poderia, impunemente, matar a esposa se desejasse. Então, se Deus diz que não se deve matar outro ser humano (Êxodo 20:13), mas Paulo e Pedro dizem que a mulher tem que se submeter ao marido (o que provavelmente é conselho e não mandamento, pois Jesus não lista essa submissão como caminho para a vida eterna, conforme consta em Lucas 18:20), então essa submissão não é absoluta. O filósofo junta, assim, outra prova contra o uso das Escrituras para basear a submissão total da mulher e a monarquia familiar.
  47. Se o marido fosse monarca da mulher, haveria um monarca em cada família. Isso parece Aristóteles.
  48. O filósofo entra para o clube feminista, com Platão: a submissão de Eva, embora seja uma maldição divina, não é uma lei colocada sobre todas as mulheres, na visão dele, o que significa que a mulher não precisa ser submissa ao marido a menos que isso seja acordado no instante do casamento. Quem se submete a quem, ou se alguém se submete a alguém, é algo decidido entre marido e mulher de comum acordo, diz o filósofo. Paulo dirá outra coisa, mas Paulo é suspeito. Também Pedro (1 Pedro 3:1 e 1 Pedro 3:5).
  49. A submissão de Eva é uma maldição feita contra Eva, não uma vantagem conferida a Adão.
  50. Se Adão fosse mesmo monarca, porque ele deveria trabalhar para comer? Deus não disse que Adão deveria fazer alguém trabalhar pra ele (Génesis 3:19). Então, ele não tinha servos. Sem súditos, não há monarca.
  51. Como Eva pecou primeiro, ela foi submetida a Adão. Imagine só: se Adão tivesse pecado primeiro, talvez ele fosse submetido à Eva, o que levaria a uma inversão e tanto de toda a história humana.
  52. A justiça nos permite ter aquilo que merecemos ter. A caridade nos permite, quando temos falta, ter o excesso de um outro. Pra alguém apontado como “liberal”, eis uma passagem bem comunista, já que isso é outro meio de dizer “de cada um segundo sua capacidade, a cada um segundo sua necessidade.” Isso mostra também que o comunismo não necessariamente se mostra avesso à religião, porque esta passagem está inserida numa discussão religiosa no livro.
  53. Tendo excesso, não ajudar quem tem falta é pecado (Tiago 2:16).
  54. Deus não nos dá o direito de dominar outro a ponto de matá-lo de fome se desejarmos. Pelo contrário, a caridade é frequentemente apontada como o meio de penitência, de forma que possamos ser perdoados de nossos pecados por ela (Eclesiástico 3:14, 2 Tessalonicenses 1:3, 1 Pedro 4:8). Então, a Bíblia não pode, absolutamente, ser usada como meio de justificar a tirania.
  55. É mais fácil crescer e se multiplicar sem monarquia.
  56. A Terra é de todos os seres humanos, tal como são todos os seus recursos. Temos igual direito à natureza. O desperdício de um causa a falta no outro.
  57. Antes de cogitar se a Bíblia está se manifestando por metáforas, verifique se o significado literal faz sentido. Tomar coisas óbvias por metafóricas sem necessidade permite a fácil distorção da Escritura. Levar ao pé da letra coisas metafóricas também leva à distorções, mas deve-se dar prioridade ao significado literal na medida em que este faça sentido. Se não fizer, só então se deve procurar por metáforas.
  58. Usar a Bíblia para condenar filósofos é um negócio complicado: muitos filósofos conhecem a Bíblia melhor que a maioria dos religiosos.
  59. Usar a Bíblia como argumentação contra ignorantes de fé permite provar o que quer que o orador queira.
  60. A monarquia humana é um estilo de governo impróprio para o povoamento da Terra inteira (Génesis 1:28). Um território tão grande não pode ser governado por um único ser humano. Multidões de governos estavam destinadas a acontecer.
  61. A Terra é nossa, de todos os seres humanos juntos. Nenhum ser humano pode arrogar a Terra para si com base no direito natural. Isso, claro, não justifica a gradual destruição do planeta: ter recursos não significa usá-los irresponsavelmente.
  62. A posição do filósofo de que nenhum ser humano tem direito natural de governar outro pode ser defendida por Davi (Salmos 8:6), o qual diz que a criação foi posta sob nossos pés. “Nossos”, da humanidade inteira, não de uma pessoa só. Isso é confirmado no Novo Testamento (1 Timóteo 6:17).
  63. Adão e Noé não tinham autoridade sobre outros seres humanos. Se supormos que a autoridade sobre “tudo quanto se move” (Génesis 1:26) inclui também os seres humanos, então Deus, o qual disse que “tudo quanto se move” poderia servir de mantimento pra Noé e sua família (Génesis 9:3), sanciona o canibalismo, o que não é verdade.
  64. A propriedade de Adão não era sobre outros seres humanos a princípio. O fato de que a autoridade de Adão pertencia também a outros humanos fica patente no capítulo nove do Génesis, onde Deus concede também a Noé o domínio sobre a Terra. Em adição, tal como não foi concedido a Adão, não é concedido a Noé o domínio sobre outros seres humanos. Isso indica que a submissão da mulher por ocasião da queda é condicional (somente quando ela lida com um homem), implícita (não havia necessidade de Noé ser lembrado dela) ou instintiva (como se ela se sentisse compelida a isso).
  65. A propriedade de Adão sobre a Terra não era só dele, mas também de Eva. E poderia muito bem se estender à toda a humanidade. Logo, Adão não era monarca, pois monarca é só um.
  66. Adão é proprietário da Terra no Génesis, mas não é monarca. O proprietário de uma terra não é necessariamente monarca dele, especialmente se ele próprio está subjugado ao governo de outra pessoa. Adão estava subjugado a Deus. Proprietário, sim, mas não monarca.
  67. Discurso bonito nem sempre está correto.
  68. Se algo tem potência para ser, mas ainda não existe em ato, então é só uma possibilidade. Possibilidades não são coisas de fato.
  69. Não existe monarca sem súditos.
  70. Adão não foi feito monarca do mundo imediatamente após sua criação, a menos que se use como argumento a proximidade dos versos. Com efeito, Adão foi feito em Génesis 1:27, recebendo a designação de senhor (do planeta) em Génesis 1:28, mas existe um longo tempo entre ambos os versos, porque o Génesis, nesta parte, não é escrito sequencialmente. No verso 27, Adão é criado, mas no 28 Eva é mencionada, sendo que a criação de Eva só é detalhada no verso 18 do capítulo seguinte. Então, essa afirmação só faria sentido para quem não leu o Génesis além do primeiro capítulo.
  71. Adão era senhor da Terra enquanto planeta, não senhor de outros seres humanos. Observe que Deus, em Génesis 1:28, fala tanto a Adão como à Eva, como se ambos tivessem igual direito à posse da Terra.
  72. Se Adão recebeu a designação divina de governar, então havia liberdade antes. Ele não nasceu naturalmente senhor de tudo.
  73. Dizer que Adão tinha direito de soberania porque fora criado primeiro está incorreto: os animais vieram antes (Génesis 1:25-26). Também, se levamos a criação ao pé da letra, foram criados diretamente por Deus, tal como o ser humano. Então, se usamos o argumento de antecedência, os animais têm tanto direito de subjugar uns aos outros quanto os humanos têm, mas não o fazem senão pela força, que é considerada método ilegítimo de domínio entre nós, humanos.
  74. Adão era naturalmente livre e também Eva. Adão não submeteu Eva, foi Deus quem submeteu Eva a Adão por ocasião do pecado original (Génesis 3:16). No início, então, uma pessoa não ordenava sobre outra. Então, não é possível usar o Génesis para defender que a autoridade absoluta entre seres humanos sempre existiu. Nascemos livres, nos submetemos depois, diz o filósofo.
  75. Não se esquive da questão que você quer tratar. Ao escrever um texto, esgote a questão.
  76. O discurso vigente na época dizia que Adão era soberano máximo e que tinha autoridade sobre tudo e todos e que, por isso, o governo absoluto conseguido pelos homens não repudia a autoridade divina. Mas o que se vê na Bíblia é que Adão era submisso a Deus. Além do mais, outra das razões do discurso era de que o poder tinha que residir num rei único porque os Dez Mandamentos dizem que devemos “honrar nosso pai”. Ora, mas o mandamento completo é “honra teu pai e tua mãe”, então usar esse verso dessa forma para defender o poder monárquico é insustentável.
  77. Prove tantos pressupostos quanto puder. Não fica bem um discurso que afirma coisas gratuitamente, sem provas.
  78. Pouco crédito merece o texto que se funda numa suposição.
  79. Abuso dos súditos leva à rebelião. Hobbes cogita a possibilidade.
  80. Um discurso assim é muitas vezes feito para adular a autoridade vigente.
  81. O discurso vigente na época era de que o rei deveria ter o direito de fazer tudo o que quisesse com seus súditos (absolutismo), e que esse direito era sancionado pelo próprio Deus. Isso é interessante, porque Paulo (Romanos 13:1) e Pedro (1 Pedro 2:18) também pensam assim. Então, se o filósofo refutar esse discurso estará refutando também Paulo e Pedro. Essa eu quero ver, já que esse é um assunto que muito me interessa.
  82. Quando você não define algo de maneira clara, acaba definindo o termo pelo seu uso ao longo do discurso. Um ouvinte perspicaz poderia montar uma definição com base nas características do termo e expô-la, o que seria altamente humilhante. É o que venho fazendo com o termo “experiência”, de Walter Benjamin, escritor irritante. Então, se você não define um termo, talvez por capricho, isso não impede o ouvinte de defini-lo, o que pode ter consequências catastróficas para o discurso, especialmente se o ouvinte perceber que o termo é contraditório.
  83. As leis baixadas pelo governo são menos eficazes do que as leis firmadas entre a própria comunidade.
  84. O que é paternidade? Me parece que o filósofo usará a mesma técnica usada por Bacon: o primeiro livro destrói o discurso atual e o segundo livro estabelece um discurso novo.
  85. Se você acusa alguém de não definir os termos do discurso, é bom que você defina os seus pra não passar por hipócrita.
  86. Havia, na época, um discurso que defendia a escravidão, baseando-se em um conceito de “patriarca”, o qual deveria ser alguém com direito de governo absoluto. Esse discurso tanto não explica o que é exatamente que dá direito ao patriarca e se baseia numa citação bíblica censurada (“honra teu pai”, em vez de “honra teu pai e tua mãe”), para sancionar a obediência a uma pessoa só. Colocar esse direito na figura do patriarca (pai de família) em vez da figura do altivo rei talvez tinha por função facilitar a adoção do discurso pela população, que via o pai como uma figura mais benigna.
  87. Se nascemos sob a autoridade de nossos pais, quando nos tornamos livres?
  88. Uma das formas de estabelecer um discurso é atacando e destruindo o discurso vigente.
  89. Destruir um discurso pode ser feito de uma vez por todas se seus pressupostos forem destruídos. Remova o alicerce e a casa cairá.
  90. Diz o filósofo: escravidão não provê ninguém de qualquer vantagem.
  91. Liberdade nem sempre é ausência de governo. Quando alguém decide se submeter a outro de livre vontade porque vê nisso um benefício, ainda pode se considerar livre. Com efeito, escolheu servir.
  92. No debate sobre este assunto, uma das armas da oposição do filósofo foi chamar o oponente de ateu. Um truque sujo de argumentação é, além de qualificar sua posição, desqualificar a do outro com argumentos que transcendem o debate, atacando a pessoa e não o discurso.
  93. É possível que alguém com a fantástica autoridade paterna exista ainda hoje, mas provavelmente não governa. Isso significa que não necessariamente o detentor dessa autoridade, se existir, torna-se governante por virtude dela.
  94. O governo dos hebreus podia muito bem ser aristocrático ou democrático representativo. Afinal, Israel rejeitou o governo divino exercido na Terra pela via dos juízes, preferindo um governo humano, personificado na figura do rei (1 Samuel 8:5). Então, as decisões dos governos de Israel não necessariamente eram teocráticas, tanto que os reis não tinham obrigação de consultar os profetas ou de acatar o conselho divino, embora os melhores reis, como Davi, o tenham feito (1 Samuel 22:5). Além do mais, Deus, sendo Deus, não teria exercido um governo ruim sobre Israel. Então, o fato de haver reinados ruins na história de Israel (particularmente o que começa em 1 Reis 12:20) mostra que Deus não necessariamente os governava. Então Deus nada tem a ver com governos humanos. Isso é até ilustrado por Jesus, quando ele nominalmente separa Deus do governo, representado por César, na questão do imposto (veja o contexto de Mateus 22:21). Esta posição é contradita diretamente por Paulo, para quem os governos humanos são instaurados por Deus (Romanos 13:1).
  95. Uma pessoa pode ser rei, pai, marido e senhor de escravos. Se o poder fosse um só, não haveria formas diferentes dele coexistindo numa mesma pessoa. Existem diferentes tipos de mando, nem todo o governo é político, na visão do filósofo.
  96. O poder político reside nos três poderes: legislativo (faz as leis), executivo (aprova ou rejeita as leis) e judiciário (juízes, advogados, promotores). É o uso das leis para obter o bem público, isto é, o bem dos súditos do Estado.
  97. Para Hobbes, o ser humano é mau e tem que ser civilizado pelo governo. Alguns dizem que parece ilógico que Deus tenha criado o ser humano assim. Mas, se você levar em consideração que Adão e Eva viviam sob o governo de Deus antes de pecarem e que, depois da queda, viveram sem governo, até que a posição de Hobbes faz sentido: não demora pra aparecer os primeiros sinais de maldade, como o homicídio de Abel, que ocorre já na segunda geração de humanos (Génesis 4:8).
  98. O amor entre as pessoas é um incentivo à prática da política: se eu amo o outro e esse outro tem um problema que eu posso resolver, por que eu não resolveria o dele? Se estivesse em meu poder, eu poderia resolver esse problema pra todos os que o enfrentam.
  99. Existem comunidades ainda em estado de natureza.
  100. Pessoas diferentes têm capacidades diferentes, de forma que precisamos um do outro pra sobreviver.
  101. Outro meio de argumentar contra alguém é usar argumentos favoráveis vindos de outras pessoas que defendem outras ideias defendidas pelo oponente. Por exemplo: eu quero atacar o discurso de um cristão protestante sobre a política, sendo que eu tenho uma posição liberal e o oponente uma posição conservadora. Eu pego argumentos de protestantes liberais para agregar ao meu discurso, porque outro protestante terá mais dificuldade em criticar alguém de sua própria denominação.
  102. Para o filósofo, é preciso que os crimes sejam punidos, porque temos o dever de zelar por tantas pessoas quanto for possível e um criminoso pode causar dano à várias pessoas.
  103. A boa punição consiste em três níveis: deve ser o bastante para que o ato infracional redunde em prejuízo ao criminoso, deve ser o bastante para que ele se arrependa do que fez, deve ser o bastante para desencorajar os outros. Enquanto nem todos os crimes devem ser punidos com a morte, de um ponto de vista jurídico, tampouco devem as transgressões do direito passar impunes.
  104. O governo, como conceito político, é sancionado por Deus, diz o filósofo. Porém, isso não significa que Deus dá autoridade civil a pessoas específicas. Com efeito, Deus nada tem a ver com o governo humano, desde o incidente narrado por Samuel (1 Samuel 8:5).
  105. Embora os súditos estejam submissos ao governo, os governos não estão submetidos uns aos outros.
  106. Polemizando com Pascal, o filósofo aponta que existem sociedades tribais que não desenvolveram religião nenhuma.
  107. Só saímos do estado de natureza quando nos filiamos à alguma sociedade. Como isso não faz diferença (eu estando no Brasil, mas sem me considerar brasileiro e exercendo meu estado natural, quebrando leis brasileiras em território brasileiro, serei punido do mesmo jeito, mesmo não sendo súdito do Estado), é como se todos estivessem em estado de natureza o tempo todo, algo dito por Sartre com outras palavras, ou seja, a submissão a alguém não assegura que eu não possa trair essa submissão quando eu quiser.
  108. Querer poder absoluto sobre outra pessoa implica entrar em guerra com ela, se ela preza sua liberdade.
  109. A legítima defesa é um recurso justo de um ponto de vista jurídico, porque, na iminência da morte, sendo a vida um bem que os humanos não podem restituir, o agredido não tem tempo para apelar à lei. Se a vida está em risco e não há como acionar as autoridades, é lícito, juridicamente, matar. Estranho ele dizer isso (Mateus 19:18).
  110. A essência do estado de natureza é a ausência de juiz. A essência do estado de guerra é a violência.
  111. A liberdade natural consiste em não estar sujeito a ninguém.
  112. A liberdade civil é se submeter às leis estatais porque você consentiu com isso, porque viu benefício nisso.
  113. A vida não é nossa, então não podemos concedê-la para outra pessoa, pela via da escravidão. Isso não anula a possibilidade de se sacrificar pelos amigos (João 15:13), porque, embora a vida não seja totalmente nossa, esse é um de seus usos lícitos. Mas, essencialmente, quer dizer que eu não posso dar minha vida para outro controlar. Sartre dirá o mesmo.
  114. É normal cair em erros que você mesmo condena.
  115. A minha força de trabalho e meu corpo são propriamente privados. Para o filósofo, embora as coisas na natureza sejam de todos, no sentido de que todos têm direito a elas, aquilo que obtive com meu corpo, pela minha força de trabalho, é meu. A menos que nos lembremos à caridade cristã, cessa aqui um possível comunismo, porque essa caridade é a única coisa em seu livro até agora que impede alguém de pegar uma grande quantidade de bens comuns para si, pela sua força de trabalho, privando outros do que ele tem em excesso.
  116. O que origina o direito à propriedade: o trabalho, o acordo ou os dois?
  117. “O que está no chão não tem dono” se origina aqui.
  118. Se precisássemos de permissão pra apanhar, por exemplo, comida do chão, morreremos no estado de natureza.
  119. Para o filósofo, a propriedade privada começa com o trabalho, mesmo que seja só a colheita. Isso porque o trabalho “imprime” uma marca pessoal do trabalhador naquilo que a natureza produziu. É como se o trabalho “escrevesse o nome” do trabalhador no seu produto. Se tem seu nome, é seu.
  120. A água que corre no rio é de todos. Mas a água que eu colocar no meu jarro, é minha.
  121. Então, a propriedade privada começa quando alguém se apropria de algo a que antes todos tinham direito. Essa posição é sustentada também por Rousseau e Marx.
  122. Para o filósofo, não se deve consumir mais que o necessário, ou seja, não podemos tirar, por egoísmo, algo que não vamos usar do domínio comum. O problema aqui é que o filósofo se apoia na religião para pressionar este preceito. Se o mundo inteiro fosse cristão praticante, a doutrina do filósofo poderia acabar em um perfeito comunismo, com cada um obtendo o necessário pelo trabalho e deixando o excesso para os carentes. Mas, como isso não acontece, a doutrina do filósofo acaba terminando em liberalismo, com os que mais podem trabalhar obtendo excesso, às custas dos menos capazes, que tornam-se miseráveis.
  123. Não observar esse princípio leva à disputas inclusive de terreno. É o que acontece com o Movimento dos Sem-Terra, que toma pela força as terras que os senhores têm em excesso e que muitas vezes nem está em uso, pressionando pela reforma agrária.
  124. Para o filósofo, a posse de terras é obtenível pelo contrato. Isso porque a terra é um caso especial: ser dono de terras significa ser dono de tudo o que ela produz. Se isso não fosse concedido pelos outros habitantes locais, seria uma prática abusiva. Então, a propriedade de bens da própria terra é obtida pelo trabalho, mas a propriedade de terras é obtida por contrato, uma vez que isso implica posse de tudo o que aquela terra produzir.
  125. Se a terra não estiver em uso e nem estará em uso em breve, pode invadir. Esse preceito justifica a colonização do país pelos portugueses e também a invasão de terras pelo Movimento dos Sem-Terra. O filósofo não veria nada de errado nem em um, nem em outro.
  126. A raridade de algo aumenta seu valor.
  127. Em alguns lugares do mundo, o direito que o senhor tem sobre suas terras expira se ele não usá-las de forma construtiva. Seria um bom jeito de começar uma reforma agrária no nosso país, permitindo que a posse de terras não utilizadas expirasse em, digamos, três anos. Uma boa ideia seria transformar essas terras inúteis em reservas ambientais, leiloá-las a outros senhores ou mesmo vendê-las aos sem-terra. Quando eu leio isso, penso nas fábricas construídas ao lado de florestas no bairro industrial da minha cidade. Toda aquela floresta pertence aos donos das fábricas, mas estão praticamente intactas.
  128. Antes, a pessoa tinha direito ao que podia usar. Agora, a pessoa tem direito ao que puder pagar.
  129. O trabalho estabelece a diferença de valor de cada coisa. Por isso são mais caras as coisas que dão mais trabalho pra fazer, mesmo quando não são tão úteis.
  130. Terra plantada vale mais que terra bruta. Casa pronta vale mais que o terreno que ocupa. Isso porque o comprador é poupado do trabalho de plantar ou de construir a casa.
  131. De todas as coisas que usamos, apenas uma pequena parte vem da natureza sem passar pelo trabalho humano (o ar que respiramos, por exemplo, mas até as frutas que compramos são colhidas, cuidadas, transportadas até nós, para então ser vendidas).
  132. A natureza nos provê “de muito de pouco”: muita comida, muita água, muito solo, muito abrigo. Mas só podemos ter mais do que isso se trabalharmos essa comida, essa água, esse solo. Por isso, diz o filósofo, os índios selvagens tidos em mais alta conta vivem numa situação menos confortável do que um trabalhador que se desdobra por um salário mínimo. Eu penso um pouco diferente: melhor uma mão cheia com tranquilidade do que duas cheias com sofrimento. Se o índio acha que vive bem o bastante, ele não precisa trabalhar pelas comodidades que eu tenho. Não é que o índio seja “preguiçoso”, como diz o estereótipo. Será que é tão ruim não ver vantagem em conseguir mais e mais sucesso?
  133. O uso do dinheiro é consentido por um grande número de pessoas. Não serve o dinheiro que só vale dentro de um grupinho. Ele tem que servir para um grande número de pessoas para ter efeito.
  134. O que tornou o ouro e a prata medidas de valor entre as nações (como uma espécie de moeda universal) foram três coisas: durabilidade, raridade e dificuldade de falsificação. Uma boa moeda deveria ter as três coisas, isto é, deveria ser durável, difícil de obter (para estimular o trabalho) e difícil de falsificar.
  135. Dar pra outro o que você não usa é um melhor do que acumular sem usar.
  136. O que determina uma posse ilícita é o desgaste. Você não pode obter algo se não vai usar, porque essa coisa estraga sem ter sido usada. Então seria melhor dar pra outro aquilo que se estragaria por desuso se permanecesse com você. Isso significa que não é possível a posse ilícita de um diamante: ele não se estraga.
  137. Ouro não serve pra muita coisa, mas dura pra cacete. O escambo de coisas por ouro acabou tornando o ouro uma moeda conveniente.
  138. A invenção do dinheiro estimulou o ser humano a querer mais que o necessário.
  139. Isso porque o dinheiro permite comprar as posses desejáveis dos outros. O negócio é possível. Se não houvesse dinheiro, não haveria esperança de obter licitamente o que é do outro, ao menos não de maneira fácil. Com o dinheiro, é simples como perguntar se está à venda e por quanto.
  140. Diferentes comunidades têm diferentes moedas. Numa comunidade sem moeda e sem comércio, cada um fica apenas com o que lhe basta. Não geram excedente.
  141. Isso não significa que as pessoas peguem o excedente e estraguem ele. A existência do dinheiro permite vender o que não está em uso, isto é, o excedente, a fim de obter dinheiro para comprar outra coisa que se venha a querer.
  142. A busca por dinheiro e poder, no fim das contas, é uma busca por segurança. Trabalhamos demais, para obter excedente, que é vendido e convertido em dinheiro. No caso de uma catástrofe ou de um desejo forte por algum bem material, teremos dinheiro para sanar o problema. Deve ser isso que o povo chama “segurança social”.
  143. O dinheiro torna lícito ter mais que o necessário, na medida em que o excedente serve a alguma coisa, mesmo que seja ao comércio.
  144. Todos são livres por natureza. Quer dizer todos os adultos. Os pais submetem os filhos porque os filhos morreriam se fossem deixados totalmente livres. Além disso, em sociedade, as pessoas devem obediência umas às outras por gratidão, por trabalho, por sobrevivência, por amor ou amizade, por conselho, por interesse, por medo… A sujeição só vale em sociedade. Se não pertencemos a uma, não estamos sujeitos. Se pertencemos, nos sujeitamos a quem acharmos melhor. Por exemplo, os filhos se sujeitam aos pais porque os pais as alimentam, vestem e educam. Se os filhos se rebelam são disciplinados ou, em casos extremos, morrem ao tentar viver por conta própria, pois precisam da proteção paterna.
  145. O domínio dos pais sobre os filhos é temporário. Se o filho permanece submisso aos pais depois de adulto, é porque ele vê benefício nisso, não mais por obrigação.
  146. Se as pessoas pudessem ser mais felizes sem lei, ela desapareceria. É o caso das leis inúteis, que acabam sendo quebradas por todo o mundo, até eventualmente perderem relevância.
  147. A lei tem por função dar a todos uma quantidade decente de liberdade. Afinal, se não houvesse restrições e todos tivessem liberdade absoluta, ninguém seria livre, porque todos estariam constantemente com medo do que o outro poderia fazer com elas.
  148. O adulto é aquele que já adquiriu razão e juízo o bastantes para governar sua própria vida. Então, pais de crianças especiais que têm dificuldade de chegar a esse estado podem ter que subjugar os filhos por mais tempo.
  149. Os adultos, diz o filósofo, pensam pelas crianças.
  150. Se os pais morrem deixando o filho totalmente só, essa criança passa a ser responsabilidade do Estado, até que este encontre uma nova família para a criança ou até que a criança adquira razão suficiente para conduzir sua vida.
  151. Somos mais livres quando submetidos a leis justas.
  152. Quem não chegar ao nível suficiente de razão nunca será um adulto livre.
  153. O nível de razão suficiente é determinado pela capacidade de aprender as leis. Quando o indivíduo tiver idade o bastante para aprender as leis de seu Estado, ele já é adulto.
  154. O filho deve ser governado com amor, mas não sem justiça.
  155. Mesmo depois de deixar os pais, o filhos lhes deve respeito, embora não obediência, diz o filósofo.
  156. Se o pai respeita o filho será respeitado por ele.
  157. O pai ou a mãe que não presta assistência ao filho (alimentação, educação e segurança), é um criminoso, uma criminosa.
  158. Os pais devem recompensar o bom comportamento do filho e punir seu mau comportamento. Mas é mais comum um pai ou mãe frouxos do que um pai ou mãe severos. Por isso muitas crianças são mal-criadas, embora existam crianças que sofram abuso. Equilibrar recompensa e punição é uma das coisas mais difíceis de ser pai.
  159. Um bom critério é o benefício do filho. A recompensa e a punição são excessivas quando redundam em dano para a educação do filho, pois tanto recompensa demais quanto punição demais o estragam.
  160. Se o pai controla o filho como um monarca controla seu povo, põe em risco sua independência futura. O filho não saberá se virar sem os pais.
  161. Exigir servidão por serviço prestado é extorsão ou chantagem. Só o Estado pode fazer isso, mas não civis entre si. Claro que você ainda pode ceder seus serviços por um salário, mas isso não é servidão. More discorda.
  162. O pai pode dar mais herança ao filho favorito.
  163. “Piedade” é respeito aos pais.
  164. Há muito tempo, pode ser, os pais podiam ser reis em suas famílias.
  165. Os pais são os melhores juízes para desavenças entre irmãos.
  166. Também no princípio, os patriarcas eram sacerdotes.
  167. A primeira sociedade foi entre homem e mulher, depois entre pais e filhos, só então entre cliente e servidor.
  168. O fim do sexo é a procriação, o que seria inválido se o filho morresse logo após nascer. Isso significa que o pai e a mãe devem permanecer juntos, cuidando do filho, para aumentar suas chances de sobreviver. Isso quer dizer que a mãe não pode levar o filho pra longe do pai e criá-lo sozinha, nem o pai deveria se afastar da mãe depois que o filho nasce. Tomás chega a conclusões parecidas.
  169. Se a mulher tem problemas a resolver, mas que não afetam o pai ou o filho, o pai não deve se intrometer se ela não quiser. Das coisas dela, ela cuida. Porém, diz o filósofo, aquilo que afeta a família toda deve ser resolvido pelo pai, a menos que os dois tenham acordado que a mãe deva resolver.
  170. Se os pais se divorciam, a mãe não necessariamente fica com os filhos. Seria interessante que a guarda dos filhos em caso de separação fosse decidida no instante do matrimônio. Hoje nos casamos, mas, se nos separarmos, quem fica com os filhos? Isso tornaria as pensões mais justas, porque decidir pensão logo após o divórcio, com os ânimos ainda quentes, pode levar a rixas.
  171. Cliente e servidor são denominações bem mais velhas que a informática.
  172. A razões dos escravos não serem vistos como membros da sociedade civil, diz o filósofo, é que esta se destina à preservação da propriedade privada, sendo que os escravos não têm direito a posses.
  173. Os escravos são prisioneiros de guerra e poderiam ter morrido. Isso é tido como prova de que o conquistador tem direito sobre suas vidas. Por isso Hobbes diz é lícito, numa guerra, vender a liberdade para continuar vivendo.
  174. Apesar de que, antigamente, o escravo, embora totalmente submisso ao senhor, era considerado parte da família.
  175. Minha propriedade: minha vida, minha liberdade, meus bens.
  176. O fim do estado de natureza está condicionado à eleição de um juiz.
  177. As frases deste livro são quase tão longas quanto as dos Princípios.
  178. Assassinos são inimigos da humanidade inteira.
  179. Em monarquias absolutas, o monarca é frequentemente injusto: pode fazer tudo impunemente.
  180. Os governantes devem estar sob as leis que estabelecem para a população.
  181. Os pobres também deveriam participar da política; também têm propriedades.
  182. Qualquer grupo de pessoas pode fundar pequenos governos. Lembrando que um pequeno governo dentro de um grande governo deve obediência ao governo hospedeiro.
  183. A existência de um governo não afeta a liberdade dos que estão fora dele.
  184. Democrata: a maioria decide pelos demais.
  185. Num governo em que a minoria decide, ocorrem dissensões. Isto é, mais do que ocorreria num regime democrático.
  186. As democracias, diz o filósofo, são os governos mais estáveis. Monarquias e aristocracias duram menos, é o que ele diz.
  187. Uma democracia pode concordar em tomar decisões somente quando um certo número de votos além da maioria é atingido, mas não deveria aceitar sugestões de um número de indivíduos que constitui a minoria. Assim, eu posso decidir que só será legal determinada coisa se o plebiscito reunir 51%, 60%, 70% dos votos, mas nunca posso sugerir a legalização com base em um plebiscito que pode legalizar algo com menos de 50% dos votos a favor, diz o filósofo. Assim, mudanças muito drásticas podem requerer mais que a “maioria simples” dos votos.
  188. Se não há registro de algo, isso não necessariamente significa que não aconteceu.
  189. O desenvolvimento de habilidades intelectuais só pode surgir em sociedades que já resolveram questões de sobrevivência. Como essas questões são facilmente resolvidas pelo governo, a invenção da escrita, que é oriunda de habilidade de intelecto, não acontece em sociedades sem governo. Donde decorre que o governo antecede a escrita. Por isso há poucos registros escritos sobre épocas anteriores ao governo.
  190. No Brasil primitivo, ninguém era submisso a ninguém. As pessoas só se submetiam a “capitães” em caso de guerra. Terminada a guerra, terminava a sujeição.
  191. Governos patriarcais foram minoria. Os índios nativos brasileiros não se sentiam superiores em cargo uns aos outros.
  192. O costume de obediência aos pais na infância se estende à vida adulta. Eu que o diga.
  193. A população escolhe o governante.
  194. Todas as monarquias foram eletivas no começo.
  195. O governo deve ser exercido pela persuasão mais do que pela violência, porque o objetivo do governo é o bem-estar dos súditos.
  196. Em Israel, antes da monarquia, não havia grande diferença entre ser juiz (governar) e ser chefe de guerra. O fato de Israel ter começado assim, como nação guerreira, é a razão do epíteto divino: Jeová dos exércitos.
  197. A constituição de chefe militar muitas vezes marca transição entre estado de natureza e monarquia.
  198. O rei, em Israel, era sobretudo general.
  199. A monarquia é campo de muitas misérias.
  200. Os governos que não se iniciam pelo consenso do povo frequentemente se iniciaram pela violência.
  201. Se nascemos todos sob um governo e por isso não temos liberdade de iniciar outro, como se explica a rebelião?
  202. Segundo a doutrina do poder paterno, o filho deve se submeter ao governo ao qual o pai está submisso. Ora, mas se um inglês tem um filho com uma inglesa, mas o garoto nasce e vive no Brasil, por causa da nacionalidade do pai ele é um súdito do governo da Inglaterra? Não: enquanto ele for um cidadão brasileiro, ele deve observar as leis brasileiras. Então, a quem eu me submeto não é uma questão de herança, mas meramente política e territorial: eu me submeto ao líder da região, quer seja do agrado do meu pai ou não. Ou ainda: eu posso me rebelar e simplesmente não obedecer, transferindo a questão para o âmbito pessoal.
  203. Ninguém nasce súdito. Eu me submeto conforme a minha necessidade.
  204. O filósofo tem lá seus tons de anarquista.
  205. Quem viaja não necessariamente é súdito do país para o qual viaja.
  206. As leis para visitantes são reduzidas. Mas também seus direitos. Coisa estranha seria um estrangeiro votar em nossas eleições.
  207. A função do Estado é assegurar a propriedade e o bem comum. É necessário assegurar a propriedade porque todos roubariam todos se assim não fosse.
  208. Quando me torno súdito de um Estado, abdico do meu direito de punir os outros. As punições deverão ser ministradas pela lei. Assim, fica ilegal o ato de “fazer justiça com as próprias mãos”.
  209. Quando me torno súdito de um Estado, abdico do meu direito de fazer o que achar necessário para meu próprio bem ou dos outros. Isso porque a sociedade seria uma confusão se cada um simplesmente fizesse o que “acha certo”.
  210. O que faz uma lei ser uma lei é o consenso da sociedade, não a arbitrariedade do governante, ao menos em um regime democrático. Se a população não quer, a lei será quebrada, mesmo que por baixo dos panos. Não podem colocar a maioria dos cidadãos na cadeia; ia faltar presídio. Seria interessante que as leis fossem todas votadas em plebiscito, mas, como isso seria muito frequente, seria necessário, em primeiríssimo lugar, tornar o voto facultativo. Se o voto fosse obrigatório, a população seria mobilizada às urnas com frequência e tais plebiscitos seriam impraticáveis.
  211. No final das contas, quem manda é o legislativo. Mas o legislativo não pode obrigar um cidadão a quebrar a lei. Se isso for necessário, a lei deve ser mudada ou mesmo revogada, pois não seria justo dar a uma só pessoa ou grupo de pessoas o poder de quebrar leis.
  212. A lei de natureza é subjetiva. Então, ela não serve em situações positivas, como a delimitação de direitos, porque, sendo subjetiva, todos são juízes e todos podem julgar a seu próprio favor.
  213. O absolutismo monárquico e o aristocrático é pior que o estado de natureza. Colocar todos os poderes na mão de um só cara é loucura.
  214. O Estado não pode expropriar nada dos súditos, a menos que estes consintam, uma vez que o trabalho do Estado é também garantir o direito de propriedade privada.
  215. Se o Estado tivesse o direito de tirar propriedades quando quisesse, então, na prática, tudo é do Estado e ninguém tem propriedade privada.
  216. Qualquer causa que envolva expropriação de bens é suspeita.
  217. O pagamento de impostos é necessário, mas deve haver consenso sobre quanto e quais impostos pagar, o que deveria ser feito de maneira democrática. Assim, há consenso da sociedade em ceder recursos ao Estado para manter tal sociedade unida.
  218. As leis devem valer para ricos, pobres, famosos e anônimos. Elas não devem ser parciais.
  219. As leis devem destinar-se ao bem público. Uma lei não pode fazer mal a maioria da população ou se promulgada a fim de favorecer uma minoria.
  220. As leis não devem sancionar a cobrança de impostos indecentes. Os impostos devem ser decididos democraticamente, através de plebiscito ou pela via representativa.
  221. Os legisladores não podem abdicar do exercício.
  222. Já que só se fazem leis de tempos em tempos, não há necessidade de legislativo permanente: depois que terminam de elaborar e votar determinada lei ou conjunto de leis, voltam às suas vidas e outro corpo legislativo, com outros integrantes, pode ser convocado para decidir outra lei ou conjunto de leis no futuro.
  223. Embora o legislativo não seja permanente, o executivo precisa ser. Porque as leis, depois de feitas, precisam ser executadas constantemente, diz o filósofo.
  224. O terceiro poder, para o filósofo, é o federativo e não o judiciário. O poder federativo é encarregado de firmar alianças com outros países e também de declarar guerra quando necessário.
  225. Frequentemente o poder executivo e o federativo são exercidos pelas mesmas pessoas.
  226. A população deve moldar o legislativo, escolhendo quem entra e quem sai. Depois de escolhido, o legislativo é supremo e os outros poderes lhe estão subordinados. Porém, se o legislativo trai a população, a população não precisa se resignar e pode rebelar-se, caso o legislativo se recuse a mudar (claro, no caso de a própria população não ser o legislativo, ou seja, no caso de uma democracia representativa).
  227. Se o Estado não honra seus deveres para com a população, tampouco a população deve honrar seus deveres para com o Estado. Assim, súditos e Estado entram em guerra.
  228. Quem convoca as reuniões do legislativo, diz o filósofo, é o executivo.
  229. O bem do povo é a suprema lei estatal. Tudo o que se orienta para este fim é politicamente justificado.
  230. Se um crime é cometido para o bem do povo, é perdoável.
  231. Se a absolvição de alguém não causará mal a ninguém, que seja absolvido.
  232. Se o interesse do monarca não é o bem público, é um tirano.
  233. Nesse caso, o governante quererá tratar os súditos como servos.
  234. Se o governante quisesse o bem público, a população não iria se importar com o que quer que ele fizesse, mesmo que fosse criminoso. Talvez até perdoasse uma possível ganância. É um caso de “rouba, mas faz alguma coisa”, como o Lula.
  235. Se o judiciário é réu, quem julga?
  236. Se o monarca é réu, quem julga?
  237. O poder paterno (do pai sobre o filho) é natural. Mas o pai não é dono do filho.
  238. O poder político, isto é, coletivo, para o bem de todos, é sancionado por pacto entre os integrantes de uma sociedade. Isso quer dizer que nem toda a política é estatal: existe política familiar, sindical, entre amigos, nas mesas de jogo de interpretação…
  239. O déspota é automaticamente inimigo, diz o filósofo.
  240. O prisioneiro de guerra é uma posse, diz filósofo.
  241. O pai deve ensinar ao filho como usar sua propriedade. Que propriedade o filho tem? Liberdade, vida e bens. Ele tem que aprender que suas ações têm consequências, tem que aprender a preservar a própria vida e aprender a cuidar bem de suas coisas e dinheiro.
  242. A conquista de território não é início de governo, mas fim de um governo existente. O “espaço em branco” pode ser preenchido com o governo do conquistador (expansão de território) ou mesmo com um governo novo, feito entre conquistador e novos súditos, por consenso.
  243. Os pactos motivados pelo medo são inválidos, diz o filósofo.
  244. Se um crime é cometido por muitos ainda é um crime. Vale lembrar que uma lei quebrada pela maioria não deveria existir; o comportamento majoritário não pode ser criminalizado. Então, o filósofo se refere ao crime cometido por um grande número de pessoas, mas, ainda assim, um número menor que a metade da população.
  245. Se o pai não consegue justiça, o filho talvez consiga. Um apelo legal pode ser feito pela família inteira, até que justiça seja feita.
  246. Numa guerra, o crédito da vitória não é só do general. Isso me lembra do costume das pessoas de dizer que tal música é do Renato Russo, esquecendo que ele era integrante de uma banda chamada Legião Urbana. Imagine Napoleão sem seu exército, ou Russo sem os outros integrantes. Nada seriam.
  247. Se eu conquisto um local, os habitantes dali podem até se sujeitar a mim. Mas eu não posso sujeitar quem eu já trouxe comigo da mesma forma que sujeito os que foram conquistados.
  248. Os filhos não devem ser culpados pelos crimes dos pais.
  249. Para o filósofo, eu posso matar um ladrão que tenta me assaltar, mas não posso tomar o dinheiro dele e deixá-lo vivo. Isso porque o conquistador tem direito às vidas dos conquistados em guerra, mas não às suas posses. Lindo, mas isso não acontece.
  250. Se eu entro em guerra com alguém e venço, só tenho direito àquilo que o outro perdeu. É como quando apostamos. Se eu vencer uma aposta, eu ganho o que você apostou.
  251. Desonrar os deveres acarreta perda de direitos.
  252. Para o filósofo, as promessas feitas por Deus o obrigam ao seu cumprimento, pois Deus, sendo sumamente justo, quererá cumprir as promessas que faz.
  253. Conquistar pela força é tão imoral que também Deus, diz o filósofo, apoiaria uma rebelião popular contra um tirano. Novamente, se assumirmos que Paulo tem razão (Romanos 13:1), então um certo personagem bíblico, que não se subjugou ao rei da Assíria, fez errado mesmo que Deus estivesse com ele (2 Reis 18:7). Eu amo quando isso acontece. Essa dicotomia reafirma o que eu disse e que o filósofo disse antes: Deus nada tem a ver com os governos humanos. Pois esse personagem, observante da Lei, rebelou-se contra o domínio que lhe fora imposto e foi bem-sucedido com ajuda divina, o que mostra que a vontade de Deus pode se opor aos governantes humanos. Então como Paulo pode dizer que Deus é responsável pela ascensão deste ou daquele governante, mesmo quando estes se opõem ao mandado divino? Embora haja casos em que Deus tenha feito isso, como quando ele usou o rei da Babilônia (Jeremias 25:9) e posteriormente Ciro, a história da monarquia em Israel e também eventos da história secular mostram que isso não necessariamente acontece. Com efeito, vários reis obtiveram o ódio de Jeová, por exemplo, pela idolatria (como a rainha de 2 Crônicas 15:16), o que não seria possível se Deus os usasse. Portanto, Deus usa os governos quando quer obter alguma coisa com isso. Um mau governo nada tem de divino.
  254. A conquista é a tomada do governo por um estrangeiro. A usurpação é a tomada do governo por um cidadão.
  255. Se não houver critério de escolha do monarca, qualquer um pode ser. Na prática, é anarquia.
  256. Tirano é político corrupto.
  257. O rei não está acima dos acordos que faz com seus súditos. Deus não desonrou o acordo com Noé, então o rei que desonra os acordos com os súditos é, no mínimo, suspeito. Platão dirá “tirano“, tal como o filósofo. Nós preferimos o termo “corrupto”. Observe que um governante pode ser tirano a partir de certo instante e mudar seu proceder depois, como os políticos que “roubam, mas fazem alguma coisa”.
  258. Corrupção de governo não ocorre somente na monarquia, mas também nas aristocracias e democracias. Também ocorre nas relações pessoais.
  259. Se eu recebo herança de meu pai e meu irmão recebe outra parte da herança, eu não posso tomar a parte do meu irmão. Se eu fizesse, mesmo que eu fosse o filho favorito ou que tivesse recebido menos, eu seria um ladrão. Afinal, os bens eram do pai, que decide quem fica com o quê é o pai.
  260. O guarda que abusa de seu poder não é melhor que o rei que abusa do poder dele só porque seu abuso tem menor alcance. Aliás, isso revela que ele provavelmente abusaria de seu poder em maior escala se subisse de posição.
  261. Para o filósofo, é errado que a polícia arrombe minha casa, mesmo com mandado de busca e apreensão. Exceto, claro, se for para o bem de todos.
  262. Se alguém tenta me assassinar, eu não tenho tempo de chamar as autoridades. Matar o agressor conta como legítima defesa. Se me roubam o dinheiro, eu posso apelar pra lei. Então matar o ladrão é crime. Eu só posso alegar legítima defesa se eu não tiver como apelar à justiça.
  263. O político que atrai a suspeita do povo está lascado. Pode atrair uma rebelião sobre ele.
  264. Há diferença entre dissolução do governo (depor os governantes) e dissolução da sociedade (voltar ao estado de natureza).
  265. É possível a sociedade se dissolver e os governantes não se darem conta. Nesse caso, o governo já não vale mais nada.
  266. Primeira causa de dissolução: guerra. Segunda: leis inaceitáveis.
  267. Não são os nomes ou a reputação dos governantes que faz o governo, mas sim suas ações.
  268. Se um governante suprime o poder legislativo, acabou com o governo, diz o filósofo.
  269. Se um governante manipula a eleição do legislativo, acabou com o governo, diz o filósofo.
  270. Se um governante entrega o poder a um estrangeiro, acabou com o governo, diz o filósofo.
  271. Também é possível acabar com o governo se o poder executivo é suprimido. Sem executivo, as leis existentes são inúteis.
  272. A população tem direito de evitar a tirania e de se livrar dela.
  273. Usar a polícia, o dinheiro público ou a concessão de cargos para corromper a política é causa de rebelião.
  274. Alguns políticos são descarados o bastante para deixar transparecer suas intenções maliciosas em debates, por exemplo. A defesa da presidenta nunca foi derrubada, mas foi ignorada por um grupo que, se reconhecendo maioria, sabia que os fatos não tinham poder sobre o número de seus votos. Foi um espetáculo, uma encenação. Esses políticos não estão comprometidos com o governo. Para não dizer que a administração do Partido dos Trabalhadores é santa, trazer a Copa do Mundo e as Olimpíadas ao Brasil, em vez de investir em educação, saúde e segurança, foi um péssimo movimento, no mínimo.
  275. Votar sem levar o debate com a devida seriedade é sinal patente de má intenção.
  276. A população deveria convocar um novo legislativo sempre que sentir vontade, diz o filósofo.
  277. Se o povo tiver uma boa razão pra odiar o governo a qual está submetido, ele pode, se quiser, se rebelar.
  278. Se o legislativo muda ao sabor do povo, o povo não tem razão de se rebelar: o que quer que saia de ruim é culpa dele apenas.
  279. Usar a força sem autoridade já é entrar em guerra.
  280. Quem aplica golpe contra o governo é culpado de todo o mal que se segue ao golpe. Também os que apoiam o golpe são culpados.
  281. Mesmo sem atacar os governantes, ainda podemos resistir às suas más intenções. A rebelião é o ataque ao governo. Se defender do governo não é rebelião, mas resistência.
  282. A resistência não pode se manter pra sempre. Eventualmente, a rebelião se faz necessária, a menos que se admita rendição.
  283. Numa guerra entre povo e governante, um não é superior ao outro.
  284. Se o rei, de caso pensado, quer destruir o povo, deixa de ser rei.
  285. Se o rei passa a ser submisso a outra pessoa, deixa de ser rei.
  286. O juiz do político é o povo.
  287. O povo pode interpretar as leis.

27 de julho de 2016

Comecei a jogar Undertale.

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Um pouco tarde, admito, mas pensei que seria digno de notar. Dois anos atrás, eu conheci um cara pela Internet. O que nos uniu foi nossa paixão por fofura, isto é, pessoas gordas. Ele gostava dos meus desenhos e percebeu que eu participo de alguns de seus gostos. Na época, ele era muito capitalista e queria tornar seus amigos felizes através do poder do dinheiro, focando em obter tanto sucesso profissional quanto possível. Como eu sigo o caminho oposto, preferindo ter apenas o bastante e o que está ao meu alcance, ao passo que faço aquilo que penso que me fará feliz, nossa amizade foi um pouco conturbada no início. Eventualmente, ele percebeu que era possível ser feliz com o bastante e que talvez ele devesse procurar fazer aquilo que ele gosta, não necessariamente aquilo que paga melhor. Ele desenvolveu um gosto maior pela biologia, depois que seu desejo de enricar deixou de sufocar seu interesse pela natureza.

Após altos, baixos, gordos, magros, ficamos muito amigos. Antes de ontem, ele me disse que iria passar um mês longe da Internet para começar uma nova fase de sua vida, mas queria me presentear. Então ele me comprou três jogos no Steam, afora o já comprado Terraria. Eu até tentei recusar, porque pensei que o dinheiro faria falta (ele até admitiu que Undertale era um tanto caro), mas acabei aceitando porque ele insistiu até eu ficar sem graça. Além do mais, é melhor aceitar a caridade para que ela não deixe de ser oferecida.

Como eu não tenho conta bancária e não vejo isso como prioridade até eu estar formado, eu não poderia ter adquirido esses jogos de outra forma. Além do Undertale e do Terraria, tenho o Jumpjet Rex e o Tower Conflict. São jogos com gráficos bem fracos em relação aos mais realistas, porque meu PC é de 2009, ganho no primeiro SPAECE. Era realmente o melhor computador possível para a época do concurso, mas a tecnologia de então é ultrapassada agora.

Agradeci os presentes, mas espero sinceramente que os recursos não lho façam falta, especialmente porque ele não disse para onde ele vai. O começo do Undertale é bem triste. Meu sobrinho chorou quando me assitiu jogando, mas riu das cenas seguintes. Em todo o caso, estou jogando lentamente para não acabar muito cedo ou me distrair dos Dois Tratados Sobre o Governo, que estou lendo agora.

17 de julho de 2016

Anotações sobre o ensaio sobre o entendimento humano.

  1. A grande diferença entre animal e vegetal é a percepção.
  2. Prazer e dor nos movimentam. Prazer e dor nos dão motivação. Sem prazer ou dor, seríamos totalmente indolentes.
  3. O prazer e a dor guiam nossas ações. Nos aproximamos do prazer e nos afastamos da dor.
  4. A solidez depende de espaço ocupado. Se uma gota d’água estivesse compactada de tal maneira que fosse impossível mover suas partículas em qualquer direção, ela seria impenetrável.
  5. Devem existir outros seres com mais sentidos que o ser humano. Se esse animal impressionante pudesse fazer ciência, sua ciência seria superior. É por isso que nossa ciência nunca será perfeita. Temos um número limitado de sentidos e os sentidos que temos são limitados em alcance. Estamos perdendo muita coisa que não percebemos. Por causa disso, a ciência é limitada. Certas coisas que existem, portanto, não poderiam ser cientificamente conhecidas.
  6. O filósofo diz que é difícil que alguém prove que ele está errado nesse ponto. Tente você imaginar um cheiro ou gosto que nunca sentiu. Poderia um cego de nascença ter qualquer ideia de cor? Ou um surdo de nascença ter ideia de som?
  7. Não é possível obter ideias simples de outra forma além dos sentidos e da reflexão. Da mesma forma, não é possível perder ideias já apreendidas. A menos que se esqueça, mas ninguém esquece algo porque quer.
  8. Existem dois tipos de ideias, para o filósofo: as simples (vinda diretamente dos sentidos ou da reflexão) e as complexas (obtidas pela combinação de ideias simples ou pela subtração de características, ideias processadas enfim).
  9. Exemplo: quando dormimos um sono sem sonhos.
  10. O fato de alguém me dizer que eu estou sempre pensando não prova que realmente estou.
  11. Nem sempre pensamos. Existem momentos em que, simplesmente, não estamos ocupados com pensamento algum. Acontece comigo com frequência.
  12. Para o filósofo, a alma e as ideias começam a surgir ao mesmo tempo. Ora, mas as ideias só podem começar a existir quando começamos a perceber as coisas. Então, alma, percepção e armazenamento de ideias começam ao mesmo tempo. Não nascemos com ideias inatas, mas nascemos com meios de obtê-las: a memória e os sentidos.
  13. A criança está interessada no que há fora de si e em seu corpo, nos dados sensoriais. A reflexão, isto é, tornar a própria mente objeto de estudo, não lhes é interessante e frequentemente é uma meditação que só se faz depois de adulto.
  14. Então, afora os sentidos, a reflexão é o único meio de obter conhecimento puro.
  15. O filósofo chama de “reflexão” o ato da mente tomar a si própria como objeto.
  16. Embora todas as ideias tenham sua raiz primordial na sensação, é possível obter ideias novas pela combinação de ideias que já juntamos ou pela subtração de suas características em nossas mentes. Ou seja: podemos obter ideias novas também brincando com as ideias que já temos, dadas pelos sentidos.
  17. Ideia é conteúdo mental.
  18. Se seu argumento não é infalível, ao menos seja coerente consigo mesmo.
  19. Para o filósofo, dizer que algo é “inato” implica estimular o ouvinte a não duvidar do que está sendo dito.
  20. Ninguém nasce tendo fé. Também a ideia de Deus não é inata.
  21. Também a fome e a sede, por exemplo, não são inatas. Só formamos ideias dessas coisas quando as sentimos.
  22. Se os princípios inatos podem ser corrompidos e já há pessoas corrompidas, então esses princípios já não são mais universais. Ora, mas as ideias inatas são provadas justamente pelo assentimento universal. Assim, esses princípios ficam improváveis.
  23. Se os princípios morais de justiça, verdade e coisas que tais fossem inatos, estando em nossas mentes o tempo todo, como é que quebramos esses princípios com tanta facilidade, de caso pensado, mesmo depois que os aceitamos?
  24. Virtudes são sancionadas por sua utilidade. Mas utilidade varia de pessoa para pessoa. Por isso que algumas pessoas vêem a honestidade como algo ruim, porque derivam sua existência e bem-estar da desonestidade. Para essas pessoas, virtude é ser desonesto. Então, virtude, ao menos como nós filósofos concebemos, não é universal.
  25. Para que algo seja considerado justo, precisa ser provado justo. Se precisa de prova, não é inato.
  26. Os princípios de justiça variam conforme a comunidade. O que é justo aqui, não é justo lá. O que é injusto lá, não é injusto aqui.
  27. Há pactos entre os ladrões. Também os ladrões têm compromissos a honrar. Mas será que o fato de até ladrões terem decência constitui prova de que a ideia de ação justa existe de maneira igual em todas as pessoas? Existem princípios morais inatos?
  28. O fato de uma verdade ser evidente não a prova como inata.
  29. Se é inato tudo aquilo que é universalmente aceito, então várias ideias triviais são inatas. Inclusive muitas que universalmente vistas como aprendidas.
  30. A razão se desenvolve pelo exercício sensorial, mnemônico, abstrato e linguístico.
  31. Processo de conhecimento para o filósofo.
    1. Os sentidos captam os objetos (lembrando que, em filosofia, objeto é tudo aquilo que é estudado por um sujeito ou com o qual ele entre em contato).
    2. Nossa mente forma conceitos a partir dos objetos.
    3. Esses conceitos vão para a memória, onde são nomeados.
    4. Quando invocados da memória, os conceitos podem ser estudados abstraídos dos objetos que os originaram.
    5. A linguagem é formada pelos conceitos nomeados, que são sofisticados conforme a memória é preenchida (“folha em branco”).
  32. Verdades obviamente lógicas são ignoradas por muita gente, que nunca se deu ao trabalho de pensar nesses assuntos. Eu, por exemplo, só começar a pensar que “existe tudo aquilo que existe” quando entrei em contato com a filosofia pré-socrática. Eu acho até que eu não teria parado pra pensar nisso de outra forma.
  33. Os argumentos a favor do inatismo frequentemente discordam com o significado do termo “inatismo”.
  34. O que é raciocinar? Deduzir uma informação nova a partir de informações já conhecidas.
  35. Se Platão estivesse certo, então já sabemos tudo, só que esquecemos. É o mesmo que nada. Aliás, Platão diz até que esquecer é perder conhecimento. Então a alma sabe, esquece e agora não sabe mais. Estranho. Parece contraditório, mas não é: aprender é obter conhecimento novo (que, para Platão, é impossível), enquanto lembrar é recuperar conhecimento que se tinha antes.
  36. “Existe tudo aquilo que existe” e “aquilo que existe no dado instante não pode deixar de existir neste dado instante” não são preceitos inatos. Afinal, crianças não sabem disso. São coisas óbvias, é verdade, mas, se fossem inatas, as crianças saberiam. Platão dirá que elas nascem, sim, conosco, mas estão esquecidas e devem ser lembradas. Porém, Platão ressalva que a alma as aprendeu no mundo espiritual, antes de encarnar, então elas nascem conosco na medida apenas em que “nascer” é unir alma e corpo. Mas que elas sempre estiveram na alma, Platão provavelmente não concordaria; de outra forma, ele estaria se contradizendo, pois diz que alma aprende no outro mundo e que só o aprendizado terrestre é lembrança.
  37. A unanimidade não constitui prova. Se todo o mundo concorda que ideias inatas existem, isso não prova que elas existem.
  38. Mesmo que existissem, elas não são necessárias, porque o conteúdo das ideias supostamente inatas pode ser ensinado e adquirido por outros meios. Então, se elas existissem, as ideias inatas seriam redundantes.
  39. Diz o filósofo: nenhuma ideia nasce conosco. Ele está em aberta polêmica com Descartes.
  40. “Ideia” é conteúdo mental.
  41. Podemos usar como regra geral que é conhecível aquilo que depende de nós, isto é, sobre o que podemos influir.
  42. Se tivermos um critério justo de avaliação sobre o que podemos e o que não podemos conhecer, o ceticismo (a doutrina segundo a qual não existe conhecimento seguro) perderá o sentido.
  43. Se existirem mesmo coisas que não podemos conhecer, isso não justifica que não tentemos conhecer aquilo que podemos. Se há algo que possamos conhecer, então devemos conhecer. Só se deve permanecer ignorante quanto àquilo que não pertence ao nosso entendimento.
  44. Deus nos deu condições universais de subsistência. Se tem alguém passando fome é porque sua comida está sendo roubada, mesmo que indiretamente, por alguém.
  45. Ele quer saber até onde vai nosso entendimento, o que implica um pressuposto de que existem coisas que a mente humana não pode conhecer. Kant se fará a mesma pergunta. O positivismo dirá que existem mesmo coisas sobre as quais se calar.
  46. Método: investigar de onde vêm as ideias (conteúdos mentais), qual sua extensão, e o que caracteriza a fé ou opinião de que algo é verdadeiro sem provas.
  47. Objetivo: diferenciar conhecimento e opinião, obter um método de estudo, obter um meio de moderar discussões sobre coisas incertas.
  48. Saber o que é o entendimento é fundamental para delinear o caminho ao conhecimento seguro. É um trabalho sobre a natureza da nossa faculdade de entender as coisas.
  49. Corrigir erros e mal-entendidos também ajuda no progresso científico.
  50. Quando se publica alguma coisa, tem que ser numa linguagem que um monte de gente entenda. Sua linguagem deve ser adequada ao público-alvo, então, se você quer que seu trabalho seja apreciado por um grande número de pessoas (o que invariavelmente incluirá os leigos), tem que ser escrito em linguagem simples.
  51. As pessoas que mais aproveitarão o Ensaio são aquelas que se aproximam da condição do filósofo: estudantes que praticam filosofia como passatempo. Platão também diz que os que mais aproveitam o texto são, em primeiro lugar, seu fazedor e, em segundo lugar, aqueles que mais parecem o fazedor.
  52. O filósofo pode ter cometido alguns excessos, mas admite que está com preguiça de revisar seu livro para tirar informação inútil e completar alguns raciocínios curtos demais.
  53. O livro pode ser resumido.
  54. Como todo bom inglês, o filósofo não queria se delongar. Ele procurou ser sucinto.
  55. A inspiração do livro foi uma conversa entre amigos. Enquanto discutiam sobre assuntos presentes, o consenso ficava difícil de obter. O filósofo então pensou que algumas discussões poderia estar excedendo a capacidade conceitual deles. Sobre o que se pode realmente discutir? Quais debates são esforço fútil?
  56. Este livro foi escrito para que o filósofo pudesse manter registro de sua própria reflexão sobre o assunto (o entendimento humano). Se você já é versado no assunto, o livro talvez não te ensine nada de novo.
  57. Diz o filósofo que as nossas ideias desaparecem quando não estamos pensando nelas, de forma que a memória não é tanto um banco de ideias, mas um banco de diretrizes sobre como “ressuscitar” uma ideia para pensarmos nela. Eu prefiro pensar na possibilidade de ser um banco de ideias mesmo, porque me parece que o filósofo está sendo radical demais sempre que fala de percepção.
  58. As memórias que são lembradas mais facilmente são as de eventos muito prazerosos ou muito dolorosos. Também a repetição ajuda a memória.
  59. A memória dá utilidade a várias de nossas faculdades mentais. A mente sem memória é quase completamente inútil.
  60. Esquecer é perder conhecimento.
  61. Estupidez é só ser lento pra lembrar o que aprendeu. O contrário é a vivacidade.
  62. O vivaz faz melhores julgamentos e discernimentos, por perceber mais facilmente as diferenças entre as ideias.
  63. As crianças, quando têm memória madura o suficiente, podem, embora lentamente, inventar sua própria linguagem e o fariam se não fosse o convívio com os adultos. Prova disso são os nomes estranhos com os quais as crianças nomeiam as coisas.
  64. Se cada coisa tiver um nome próprio, não lembraremos os nomes das coisas. Por isso chamamos pelo mesmo nome objetos que guardam semelhança (cadeira é cadeira, quer tenha braços ou não, encosto alto ou não, quer seja de madeira, plástico ou ferro).
  65. Fazemos isso pela via da abstração. O que é uma cadeira? É um assento artificial com encosto. Então, tudo o que puder ser descrito dessa forma pode justamente ser chamado “cadeira”. Se encontrarmos algo de comum entre dois objetos, podemos lhes dar um nome comum baseado nessa característica.
  66. Em adição, a abstração nos permite nomear essas características comuns que há nas coisas, tornando adjetivos em substantivos. Exemplo: a mesa é dura, tal como é a pedra, tal como é o ferro, então essa característica pode ser nomeada e eu escolho para ela o nome de “dureza”. Não existe dureza fora da matéria, então eu só posso considerá-la em separado como um conceito abstrato. Essa é uma ideia derivada de outras ideias que são, por sua vez, derivadas de dados sensoriais. Portanto, conceitos abstratos automaticamente não são ideias simples.
  67. Se extensão não é solidez, fica um pouco mais difícil para Descartes afirmar que o nada é alguma coisa porque pode ser medido. De fato, existem coisas que não têm corpo, como as coisas espirituais, mas o nada não é espiritual. Então, ele deve ser corpo. Mas todo o corpo é sólido e o nada não tem solidez. Então o nada volta a ser nada: o fato de poder ser medido não o torna alguma coisa, pois não é corpo (uma vez que não tem solidez) e nem é espírito. Ora, então o que estamos medindo quando medimos o “nada”? Uma área, certamente, mas não o nada.
  68. Tempo é duração, tal como espaço é extensão. Medimos o espaço com centímetros, metros, quilômetros, mas o tempo medimos com dias, meses e anos, por exemplo.
  69. O tempo só é percebido enquanto estamos conscientes e pensando. Não percebemos o tempo passar se dormimos.
  70. Como o tempo está relacionado com a percepção, não percebemos o tempo passar se estamos muito concentrados em uma coisa específica. Só percebemos a passagem do tempo se percebermos algum tipo de sequencialidade, isto é, quando diferentes pensamentos nos ocupam, um de cada vez. Se nos concentrarmos, perderemos a noção de tempo. Por isso não percebemos a passagem do tempo durante o sono: adormecidos, não percebemos sequencialidade alguma.
  71. Se sonhamos, voltamos a perceber a passagem do tempo, embora somente no sonho. Se não sonhamos, não percebemos. Então, passagem do tempo é coisa de nossa cabeça, algo oriundo de nossa percepção. Se deixamos de perceber, isto é, de sentir, o tempo morre pra nós. Por outro lado, mesmo percepções ilusórias, como o sonho, nos despertam sequencialidade e sensação de passagem do tempo.
  72. Tempo não coincide com movimento. Por exemplo, dois objetos distantes estão se movendo, mas estamos aqui, parados, os observando. Como estão distantes, muito distantes, o movimento deles não é percebido por nós. Quando o movimento é percebido, depois de um dia, dizemos que os objetos passaram um dia parados, quando na verdade estavam em constante movimento e ainda estão. Então, o tempo de repouso é calculado pela percepção. Tudo está em constante movimento, mas só podemos calcular o tempo das variações que percebemos. Além do mais, como diz Agostinho, é possível medir tempo de repouso. Então tempo não precisa se originar do movimento, porque, se medimos o tempo de repouso, o movimento marca o término, sendo então a noção secundária. Ufa. Provavelmente não deu pra entender.
  73. Tempo é constatação de duração, seja de movimento ou de repouso. É um aparelho mental. Nisso, o filósofo concorda com Agostinho e Kant, posteriormente, concordará com ambos.
  74. Medir o espaço requer uma referência, com a qual podemos criar medidas de extensão (centímetro, metro, quilômetro…). Medir o tempo pode ser feito da mesma maneira e o movimento dos astros parece uma boa referência. De fato, o movimento dos astros não é o tempo e podemos continuar medindo o tempo mesmo depois que o movimento celeste cesse, pois já teremos a referência e as medidas que serão mecanicamente ajustadas (segundo, minuto, hora…).
  75. Não há conexão necessária entre tempo e duração. Kant dirá, então, que o tempo é parte de um aparelho mental. As durações podem ser apontadas por nós, mas somente porque o tempo, coisa da nossa cabeça, nos permite ver sequencialidade no presente eterno.
  76. Itinerário do amadurecimento do órgão “tempo” em nosso aparelho mental cognitivo:
    1. Percebendo que uma coisa vem depois e outra veio antes, aprendemos que existe sucessão.
    2. Quando nos acostumamos com a sucessão, percebemos que alguns estágios dela são retidos por nós por alguns instantes, aprendendo que existe duração.
    3. Utilizando referências de durações mais ou menos iguais, chegamos a aprender as medições de duração.
    4. Pela repetição do uso das medições, passamos a usá-las sem auxílio de referências, o que nos permite medir antecipações e memórias (daqui a um dia, um ano atrás).
    5. Quando nos damos conta disso tudo, aprendemos o conceito de eternidade, que é esse presente indeterminado que dividimos, e, consequentemente, inferimos que deve haver algo que sempre existiu, pois, de outra forma, nada existiria agora (logo, que nosso conceito de sucessão é limitado e, consequentemente, toda essa capacidade até agora).
    6. Finalmente, percebemos que o tempo é coisa de nossa cabeça, uma forma que a razão encontra de apreender instantes do eterno. Esse é o maior grau de maturidade do nosso órgão temporal.
  77. Para uma coisa sem existência objetiva, o tempo se revela um troço irritante.
  78. O nosso pensamento está impregnado de números. Não é possível raciocinar plenamente sem números.
  79. No ensino fundamental, aprendemos que tudo é matemática. Isso é metafórico. Quer dizer que a linguagem matemática permeia nosso raciocínio de tal maneira, que nossa própria relação com o mundo depende também de sua mediação. Não é que tudo seja matemática, mas que a matemática é uma lente pela qual olhamos o mundo.
  80. Toda a matemática depende de uma ideia simples: unidade. Se não fosse o número um, não seria possível somar, subtrair ou o que quer que fosse. Ele não é o primeiro à toa.
  81. A demonstração matemática é a mais exata. Conhecimento seguro depende dela.
  82. O movimento depende de espaço vazio.
  83. Quem supõe que algo existe agora, levando em consideração a contingência dos seres, deve, necessariamente, admitir algo de eterno.
  84. Temos a ideia do infinito apenas em potência, uma vez que sempre podemos adicionar mais uma unidade ao número que imaginarmos. Mas a ideia do infinito em ato, não a temos.
  85. Também a ideia de poder depende da percepção. Com efeito, não poderíamos constatar o poder de algo sobre outro algo se não apreendemos tal relação, o que é feito sensualmente ou pela reflexão.
  86. Existem dois tipos de poder: o que age sobre outro e o que recebe a ação. Assim, o gelo tem o poder de ser transformado em água, o que só pode acontecer se algo agir sobre ele. Também o fogo tem poder de transformar o gelo em água, agindo sobre ele. Isso não é diferente do sistema de potências de Aristóteles; é a mesma coisa dita de modo diferente.
  87. Para o filósofo, todo o poder, inclusive o de mudança, requer relação entre dois ou mais elementos. Já Leibniz dirá que existe algo que tem poder de mudança sobre si mesmo.
  88. Nossas ações podem se resumir em duas categorias: pensamento e movimento.
  89. O poder é relação, mas não agente. Portanto, você não pode culpar “o poder” por opressão, mas quem exerce o poder. É necessário acusar alguém.
  90. Antigamente, quando se perguntava o que digeria nossa comida no estômago, se respondia que era a “faculdade digestiva”. Isso é tão válido como dizer que o que digere é aquilo que digere. Isso me lembra de Hobbes, quando ele diz que Aristóteles, ao dizer que a pedra cai porque tem tendência a cair, está dizendo que a pedra porque sim.
  91. O ser humano é livre para fazer tudo o que está a seu alcance, o que não significa que ele é livre para fazer tudo o que quer. Afinal, algumas coisas que ele quer simplesmente não são possíveis.
  92. Quando usamos palavras sem saber claramente o significado, nos expressamos de forma infantil.
  93. Substância é aquilo que faz com que algo seja o que ele é, tanto em sua essência como em suas afecções (acidentes). O filósofo vai dizer que, embora tenhamos essa definição, ainda não sabemos exatamente o que isso significa, tanto que muitas aplicações do termo estão erradas.
  94. A ideia de substância não é simples, mas complexa: não apreendemos as substâncias das coisas pelos sentidos, mas pela decomposição de seu conceito (obtendo essência) e pela reunião de características que normalmente seguem esse conceito (obtendo acidentes).
  95. Muitas vezes, o apela à substância é um argumento gratuito. “É assim porque é propriedade de sua substância”, é como dizer “porque sim”. Se não sabemos exatamente o que é substância, é melhor não usá-la como argumento em debate.
  96. A ideia de espírito surge do fato de não compreendermos como as emoções e os sentimentos se originam do corpo. Se não vêm do corpo, mas vêm de nós, então não somos somente corpo.
  97. A ideia de substância é tão composta, em vez de simples, que sempre que alguém fala “ferro”, nossa mente compõe uma ideia a partir de várias características encontradas no ferro. Imaginamos algo duro, cinza, oxidável, fundível… A ideia é composta.
  98. A existência real da substância nunca foi provada, diz o filósofo.
  99. Muitas palavras implicam relação. “Velho”, por exemplo, só é velho em relação a algo que possamos chamar de “novo”. Como essas relações são frequentemente subjetivas, os céticos achavam que verdades absolutas não era possíveis, porque tudo seria questão de ponto de vista. “Perto” e “longe”, “grande” e “pequeno”, são relações relativas. Mas se você diz “tem sessenta e cinco anos”, não é mais relativo. Acaba assim o argumento do cético, porque a matemática aplicada ao relativo o torna absoluto.
  100. “Criação” é fazer algo a partir do nada. Isso só compete a Deus.
  101. Também “certo”, “errado”, “bem”, “mal”, “justo” e “injusto” são relativos à lei. Só é possível emitir julgamento moral segundo uma lei estimada pelo emissor. Assim, algo que os seres humanos consideram justo segundo suas leis pode ser injusto para Deus. O contrário também é possível, pois os Evangelhos e a Lei não condenam muitos comportamentos que são considerados criminosos (embora Paulo e, posteriormente, Pedro aconselhem a sujeição ao Estado).
  102. Virtude é o comportamento digno de louvor. Vício é o comportamento digno de censura. Se consideramos que Aristóteles diz que virtude e vício são hábitos, virtude é o bom hábito e vício é o mau hábito.
  103. Para um trabalho desenvolvido no ócio, o Ensaio é um excelente livro de teoria do conhecimento.
  104. Ideia distinta é aquela que é perfeitamente apreendida por um órgão sensorial (ou reflexão) perfeitamente funcional. Isso é um ideal, óbvio, pois não sabemos o quão apreendida é “perfeitamente apreendida” nem o quão funcional é “perfeitamente funcional”.
  105. A linguagem não está na capacidade de articulação sonora. Os papagaios também formam sons articulados, palavras, mas não as usam para se comunicar.
  106. A linguagem está na correspondência entre estímulo e ideia. A palavra que eu digo deve ser entendida pelo ouvinte e vice-versa. A linguagem é tanto a capacidade de emitir ideias por estímulos sensoriais como a capacidade de interpretar estímulos sensoriais como sinais de ideias. Então, a fala não é o único meio de comunicação.
  107. Como já foi dito, uma boa linguagem comporta certo grau de generalidade. Se cada coisa fosse chamada por um nome particular, teríamos um vocabulário tão grande como inútil. As coisas que guardam semelhança devem ser chamadas pelo mesmo nome. A busca por significados exatos foi o que ocasionou a busca pelas essências (em que condições eu posso chamar certo objeto de “cadeira”, isto é, o que é a essência da “cadeira”, suas características fundamentais sem as quais ela seria outra coisa?). Platão dirá que as essências vêm de outro lugar e que são imutáveis, enquanto Aristóteles dirá que as essências estão nas coisas, Tomás dirá que a essência (natureza) é a definição da coisa. Parece uma discussão boba, quando você entende que, no final das contas, esses caras apenas estão discutindo o significado das palavras.
  108. Também uma boa linguagem comporta negações, palavras que não servem para indicar presença, mas ausência de determinada ideia. Hobbes dirá a mesma coisa, isto é, que são necessárias palavras que indiquem ausência para evitar que o pensamento do ouvinte vá numa direção indesejada. Então, palavras que designam ausências servem para que o ouvinte não suponha, em meu discurso, a presença de uma ideia que na verdade não está lá. Exemplos de ausências são “silêncio” (ausência de som), “escuridão” (ausência de luz), “mal” (ausência de bem), entre outras palavras que indicam ausências.
  109. Nomes de coisas espirituais também têm sua origem em nomes de coisas sensíveis. “Espírito” é respiração, “anjo” é mensageiro, “evangelho” é boa notícia (inclusive, segundo meu professor de história da filosofia, o termo “evangelho” tem origem pagã, porque os gregos que davam boas notícias em nome da deusa Hera chamavam seus oráculos de “evangelhos”). Traçando as origens dos termos religiosos, encontraremos, eventualmente, raízes em termos materiais, que são aplicados ao espiritual por razões de semelhança.
  110. A razão de sermos entendidos de forma errada não vem das palavras, mas das ideias que temos. Seu eu digo “ouro” para alguém, a criança que só viu ouro pela televisão e sabe que é algo amarelo brilhante, vai pensar que estou me referindo a algo amarelo brilhante, o que está apenas meio certo. Alguém mais velho, que já pegou em ouro, sabe que ele é também muito pesado. Ele entenderá melhor o que estou dizendo, mas não totalmente, se eu mencionar que ouro tem certo grau de fusão. Eu só posso ser plenamente entendido por quem tem a mesma ideia de ouro que eu tenho. Quanto mais distante da minha for a ideia de ouro do ouvinte, menos ele vai entender o que estou dizendo. Imagine isso com termos como “traição”, “vingança”, “normal“, “sexo”; são termos que variam segundo contexto cultural. “Sexo”, por exemplo, não invoca a mesma ideia num religioso, num político e num biólogo. Por isso que o bom discurso começa pelas definições, para que todo o mundo que pegue o texto saiba do que estou falando.
  111. É possível falar palavras abstraídas de seus significados. Por exemplo, quando cantamos uma música a fim de nos divertirmos, entoamos a letra sem necessariamente pensar nela. Além disso, frequentemente cantamos sozinhos, sem que alguém nos ouça. Então, quando dizemos algo, não necessariamente o fazemos a fim de nos comunicarmos, então as palavras perdem o sentido e o significado. Outro exemplo é quando falamos palavrões por impulso; não estamos diante de uma poça de esperma sempre que ficamos enfurecidos. Então, são palavras, sim, mas não as emitindo querendo dizer o que elas querem dizer.
  112. O objetivo da linguagem é a comunicação. Embora hoje a escrita deva seguir regras formais de ortografia e gramática, para que o texto escrito por um cearense seja entendido corretamente pelo leitor paulista (imagine se cada um escrevesse como fala), é tolo que as pessoas corrijam a fala uns dos outros. A única regra à qual linguagem falada deve seguir é a simples máxima “estou falando e tu entendes”. Se eu estou falando e você está entendendo, então tá tudo ótimo, mesmo que eu pronuncie errado alguma coisa ou incorra num pleonasmo. Além do mais, a linguagem escrita segue à linguagem falada. Se algum dia a pronúncia “errada” de alguma palavra for adotada pela maioria, ela se tornará oficial na escrita e a grafia antes considerada “certa” se tornará arcaica e, portanto, esteticamente incorreta numa redação. A linguagem falada tem prioridade sobre a escrita, por isso os acordos ortográficos periódicos acontecem. De fato, por questões de padronização e entendimento, a escrita tem regras, mas elas só são válidas na escrita, não são absolutas e não precisam ser adotadas na fala.
  113. O fato de usarmos nomes gerais na maior parte das vezes não implica que nunca usamos nomes particulares. Os nomes gerais são o que hoje chamamos de substantivos comuns: rio, montanha, pessoa, por exemplo. Os nomes particulares, segundo o filósofo, são o que nós chamamos de substantivos próprios: Amazonas, Everest, Maria, João, por exemplo.
  114. Gosto do fato de o filósofo invocar constantemente o exemplo das crianças na aquisição de linguagem e de ideias. A negligência do infantil nos leva a considerar apenas adultos no raciocínio, o que nos levaria a muitos erros quanto ao desenvolvimento dos nossos conceitos. Se quisermos saber de onde tiramos nossas ideias, temos que recorrer ao dado instante em que nos damos conta delas: a infância. Eis o problema de Descartes. Não levando em consideração que houve um tempo em que ele apreendeu ideias a partir do mundo sensível, um tempo em que ele tinha pouco de racional e muito de animal, ele não percebeu que as nossas mais elevadas ideias são na verdade combinações e abstrações feitas a partir de dados sensoriais, com as quais convivemos a tanto tempo que cremos serem inatas. Mas ele poderia argumentar: “como então surge em mim a ideia de Deus?”. Partindo do pressuposto de que Descartes era cristão, e não apenas um cara obcecado em escapar da Inquisição, ele deveria acreditar que Deus se relevou a nós por sinais sensíveis registrados na Escritura. Então, supor que Deus não pode se manifestar sensualmente e só é atingível pela razão é negar a Escritura. Então, o pensamento de Descartes nega sua fé. Por isso tem gente que diz que Descartes era secretamente ateu e só estava jogando argumentos a favor de Deus em seus livros para não acabar queimado.
  115. Se adotamos o sistema de essências, não podemos dizer que cada ser tem uma essência própria. A essência da ideia “homem” está contida na essência de “Pedro”. Pedro, então, tem uma essência própria e mais a essência de “homem”. Também as essências de “animal”, “vivo”, “contingente”, “perecível”, “criado”… Por isso o sistema de essências não é mais tão levado a sério.
  116. Embora palavras refiram-se à ideias, referem-se à coisas reais por extensão, uma vez que uma coisa real originou a ideia.
  117. Para o filósofo, as ideias simples não podem ser definidas, somente as ideias complexas. Faz sentido: as ideias complexas são definidas utilizando ideias simples, mas uma ideia simples não pode ser definida por outras ideias simples (porque isso implica que ela é composta), nem tampouco pode ser definida por ideias complexas.
  118. Quando tentamos definir uma ideia simples, corremos o risco de apenas lhe apresentar um sinônimo. Exemplo: o que é o movimento? Mudança. Ora, mas isso é trocar um sinônimo por outro. De fato, isso não é de todo mau, mas pode ser insuficiente.
  119. Se alguém não sabe o que é a luz, dizer que ela é uma onda ou feixe de partículas rápidas e minúsculas provavelmente não explicará nada ao leigo. Isso significa que alguns conhecimentos não são absorvidos por quem ainda não recebeu outros conhecimentos dos quais tal conhecimento depende.
  120. Ideias simples só podem ser obtidas pelos sentidos. Sua definição, por assim dizer, “definitiva” é um punhado de sensações obtidas pela interação com o objeto que as origina. “Movimento”, ideia simples para o filósofo, não deve ser definido com palavras, mas com a experiência do movimento. Então, se algo não pode ser definido satisfatoriamente com palavras, só saberemos o que é depois de experimentar.
  121. Definir um sabor com palavras, por exemplo, nunca é suficiente. O mesmo ocorre com cheiros e com cores.
  122. Quando concebemos a ideia de casamento, podemos, pelo processo de abstração e trabalho da ideia, conceber a noção de adultério, mesmo que o adultério nunca tenha sido concebido ali. Suponhamos que eu tenha elaborado um sistema de regras para um novo jogo. Essas regras nunca foram feitas, então nunca antes foram quebradas. Mas, à medida que componho as regras, concebo a noção de trapaça, isto é, concebo como as regras podem ser quebradas, mesmo que elas nunca tenham sido quebradas. Então, pelo processo de combinação e de abstração, sou capaz de conceber ideias sem correspondência real, mesmo que elas se originem de coisas reais (que servem de referência, como as regras hipotéticas).
  123. Por causa disso, porque nem todos chegam às mesmas concepções pela abstração ou combinação de ideias simples, isto é, porque as ideias complexas variam segundo contexto, que existem palavras que não podem ser traduzidas para outro idioma. A palavra “saudade” é exclusiva do português e do galego, porque outros povos não chegaram à noção de um tipo de nostalgia ao mesmo tempo triste e alegre, que carrega o desespero da volta daquilo que nos trazia felicidade, embora essas mesmas memórias sejam fonte de uma melancólica alegria. Outro exemplo, é a palavra morrinha (conforme usada pelos que falam galego), que é definida como “saudade que leva à morte”, um tipo especial e doentio de melancolia nostálgica.
  124. Um objeto pode ter essência composta: corpo é “matéria limitada, extensa e sólida”. Então a essência de corpo não é algo simples e indivisível, mas quatro características que podem muito bem ser separadas (matéria, limite, extensão e solidez). Por isso o filósofo afirma que essências são ideias complexas e não simples.
  125. Além disso, essas características não são exclusivas à noção de corpo. Outras coisas têm matéria (universo), limite (área), extensão (espaço) e solidez (agora, você me pegou).
  126. Não se surpreender não significa não ser ignorante.
  127. Por que os deuses pagãos e até mesmo o Deus verdadeiro se mostram tão humanos ao nosso entendimento? O filósofo dirá que é porque não podemos conhecer a divindade sem o filtro dos sentidos. Sempre que conhecemos algo, comparamos com algo que já conhecemos. Então Deus, sendo Deus, deve ter essas coisas (justiça e amor, por exemplo) em grau infinito. Por isso Hobbes e Tomás dirão que as emoções divinas são metafóricas, fruto de um entendimento humano genuinamente limitado. Já eu acredito que as emoções divinas são fato.
  128. Deísta.
  129. O filósofo diz, com Tomás, que existe uma hierarquia cósmica: o animal mais baixo está próximo, em termos de perfeição, à mais elevada planta. A diferença é que Tomás, embora deixe implícita a ordem cósmica nos seres materiais, está mais interessado na relação cósmica entre o mais elevado ser humano e o mais baixo anjo, o mais alto anjo e Deus. Faz sentido que o filósofo trate disso agora, pois ele acabou de discutir como Deus tem qualidades infinitas, ou seja, ele está se referindo ao que Tomás se refere com o argumento dos graus de perfeição.
  130. Uma coisa só é verdadeiramente diferente de outra se recebe um nome distinto, o que implica que a diferença entre água e gelo é subjetiva (para um, são coisas diferentes, mas, para outro, são estados diferentes da mesma coisa).
  131. Tomamos forma e cor como sinais distintivos das coisas. Por isso que somos capazes de ver um leão em um desenho. Não é um leão de verdade, só um desenho que representa um leão. Mas a forma e a cor nos dizem exatamente o que o desenho representa.
  132. É mais fácil nomear uma máquina do que um animal, porque sabemos exatamente o que a máquina é, o que faz, quem fez e de que é feita. Então é mais simples nomeá-la apropriadamente.
  133. As palavras servem para duas coisas: registrar pensamentos e comunicar pensamentos.
  134. Enquanto que o uso de palavras para registro é de um só tipo, é possível comunicar pensamentos por dois meios: civil e filosófico.
  135. O uso civil das palavras numa conversa serve unicamente para comunicação cotidiana. O uso filosófico, porém, serve unicamente para argumentar, discutir, provar, demonstrar, enfim, para debater um assunto filosófico ou científico.
  136. Nomeamos as coisas arbitrariamente. O cachorro não se chama cachorro por nenhuma razão particular, mas porque alguém teve que chamá-lo de alguma coisa e decidiu que seria assim.
  137. É possível aprender o nome primeiro e depois o que significa, também é possível o contrário.
  138. Existem diferentes palavras cujos significados não são unânimes. Exemplo: honra.
  139. Nomes referentes a comportamentos humanos não são unânimes em sua maioria. É mais fácil obter um consenso sobre nomes relacionados à coisas naturais.
  140. O filósofo diz que o uso de nomes gerais para comunicação é adequado para conversas civis, mas não filosóficas.
  141. Existem palavras que não significam nada.
  142. Existem palavras que são usadas levianamente. Por exemplo, quando falamos de algo que não conhecemos. Pergunte ao seu pastor, por exemplo, o que significa “graça”, em sentido religioso. Vejamos em quanto tempo ele responde e quantas vezes gagueja.
  143. Existem palavras que são usadas, no mesmo texto, para se referir a coisas diferentes.
  144. Palavras não são coisas.
  145. Um mal-entendido pode ser causado por supor que o que eu entendo por determinado termo é entendido do mesmo modo por outra pessoa.
  146. Às vezes, duas pessoas discordam apesar de estarem dizendo a mesma coisa. A razão de discordarem é que um não entende o palavreado do outro.
  147. Não se deve usar palavras abstraídas de seus significados. Além disso, as palavras devem, num discurso científico, significar o que devem significar. Ou seja, não podemos usar palavras que já tem um sentido corrente de uma forma inusitada. Assim, são banidas do discurso científico as metáforas e as gírias. Temos que aumentar as chances de nossas ideias corresponderem com as ideias dos outros. Deixar o discurso obscuro de propósito é desonesto.
  148. Novamente: devemos definir as palavras-chave do discurso antes de começar o discurso.
  149. Se não é possível dizer o que significa uma ideia simples, então temos que apontar um exemplar correspondente na natureza. Se, por qualquer razão, alguém não souber o que é uma “terça menor“, o jeito é cantar pra ele. Use exemplos para definir ideias simples, porque exemplos funcionam melhor que palavras. Se isso não for possível, use um sinônimo, pois algumas pessoas que temem a palavra “cão” por identificarem com “diabo”, conhecem o objeto referido pelo termo “cachorro”.
  150. Se duas pessoas olham a mesma pepita de ouro e um deles corretamente a identifica como falsa só de olhar pra ela, não necessariamente ele tem olhos melhores; pode ser que apenas tenha prática. Quantos neurônios Einstein tinha a mais que você? Nenhum. Se ele era um filósofo, é porque ele praticou essas habilidades. Claro que ter talento ajuda.
  151. A melhor forma de ensinar um idioma é mostrando as coisas primeiro e depois dizendo como se chamam, diz o filósofo. Se você ensina a palavra primeiro e depois mostra o objeto relacionado a ela, está ensinando também, mas de uma forma não recomendada.
  152. Só se pode discutir sobre aquilo a que é possível atribuir identidade, relação, coexistência ou existência. Se algo escapa a esses critérios, não podemos chegar a conclusões sobre ele.
  153. É possível, e frequentemente acontece, inclusive por razões práticas, que alguém aceite algo sem provas.
  154. “Lembrar” é invocar conhecimento adquirido. Então esquecer é perder conhecimento.
  155. Algo é verdade pra nós na medida em que nossa memória diz tal. Depois de aprender uma coisa, não vemos a necessidade de aprender novamente, a menos que isso se mostre insuficiente (o que significa que estamos desatualizados).
  156. Intuição é apontar verdadeiro ou falso logo ao entrar em contato com a questão. Se baseando apenas na impressão superficial, não é racional.
  157. Raciocinar, para o filósofo, é comparar ideias a fim de concluir alguma coisa.
  158. O raciocínio precisa de provas, diz o filósofo.
  159. Quanto mais provas forem necessárias, mais difícil será demonstrar algo, mesmo que seja verdade. É difícil acompanhar o raciocínio. Por isso você não pode entender física sem antes aprender matemática, porque as verdades físicas se apoiam em verdades matemáticas e na observação. Se você fosse aprender algo de um físico sem antes aprender matemática, ele teria que despender tempo em lhe ensinar os fundamentos antes de ir direto à questão. Mas se você não teve tempo para praticar, então provavelmente não será capaz de entender as verdades matemáticas necessárias à compreensão do raciocínio no pouco tempo destinado à discussão. Então, em situações em que “um conhecimento depende de outro”, alcançar conclusões é sempre mais difícil, pois é mais demorado e requer mais atenção. Explicações “rápidas” não explicam nada em situações assim.
  160. Demonstrações sempre incluem intuições. Essas intuições são os elementos “óbvios” do raciocínio, coisas com as quais tanto expositor e rebatedor concordam. Se não houvesse nada de óbvio no raciocínio, ele precisaria de cada vez mais provas. Quando reconhecemos algo como óbvio, avançamos o raciocínio. Tem coisa mais boba do que pedir provas para o calor do Sol? É óbvio que o Sol produz calor. Se formos pedir provas de tudo o que ouvimos, nunca chegaremos à conclusão alguma. É como o menino do castelo, que sempre pergunta “por quê” até que alguém lho diga “porque sim.”
  161. Além disso, demonstrações, diferente das intuições, são terrenos férteis para mentiras. É difícil duvidar do óbvio, mas é fácil enganar com o raciocínio.
  162. Há três tipos de conhecimento: intuitivo, demonstrativo e sensitivo. Parecem análogos ao processo científico de entrar em contato, elaborar lei e testar lei.
  163. É possível conhecer claramente duas ideias, mas não ser capaz de ver como elas se relacionam.
  164. Não é possível conhecer além de nossas ideias. As ideias brutas nos são trazidas pelos sentidos (impressões sensoriais) e pela reflexão, sendo relacionadas, combinadas e analisadas pelo raciocínio, para criar novas ideias. Ora, mas a mente não cria ideias novas se não pelas ideias brutas, trazidas por um número limitado de limitados sentidos. Então, nosso conhecimento é limitado por aquilo que podemos perceber e pelo nosso raciocínio sobre coisas percebidas. Esse é o limite insuperável da ciência: só temos cinco sentidos e nossos cinco sentidos são limitados em alcance. Mesmo convertendo um sinal acústico em visual, pela via do osciloscópio, não somos capazes de perceber, mesmo com tal ferramenta, algo que não pode ser visto, ouvido ou sentido. Da mesma forma, alguns animais têm mais sentidos do que nós, talvez conheçam o mundo melhor que nós. Mas nosso conhecimento também é limitado pelas relações que fazemos entre as ideias brutas a fim de gerar novas ideias, pela composição e abstração. Então, um animal com mais sentidos e menos raciocínio provavelmente sabe menos que nós, mesmo que tenha um número maior de ideias brutas. Além disso, existem cores que não podemos perceber, frequências sonoras que não podemos ouvir e não há remédio pra isso. Trabalhar com essas coisas requer conversão em algo que possamos ver, ouvir ou sentir. Mesmo quando aumentamos os nossos sentidos através de ferramentas, existe muita coisa no universo que nós ignoramos. Um conhecimento de todo o universo requereria mais que cinco sentidos, todos de um alcance maior que o que temos.
  165. Os preceitos morais da religião não dependem da ideia da imortalidade da alma. Se alma é ou não imortal, isso não faz diferença: se Deus é todo-poderoso e nos prometeu ressurreição, então ele deve dispor de meios quer a alma seja imortal ou não.
  166. Ninguém sabe exatamente o que é a alma. Dizer que é “princípio de movimento” não basta. Não sabendo exatamente o que é, nenhum argumento sobre a mortalidade ou imortalidade da alma é absoluto. Como se pronunciar com certeza sobre algo que não se conhece a fundo?
  167. A alma é extensa ou não?
  168. Temos alma (consciência) e nossas dúvidas provam a existência dela. Mas o que é? O filósofo diz que nunca saberemos.
  169. Dizer que a alma não existe porque não podemos conhecê-la de todo é recalque.
  170. Sempre que afirmamos ou negamos o fazemos com base em identidade, relação, existência ou coexistência.
  171. Um objeto pode até ter duas cores e dois odores, mas cada característica precisa ser examinada de cada vez.
  172. Para o filósofo, a moral é uma ciência demonstrativa, baseada em Deus. Se Deus é infinitamente bom, belo, justo, útil e prazeroso, nossas leis e nosso comportamento devem refletir essas qualidades tanto quanto for possível, a fim nos aproximar da divindade. Então, mesmo que bondade, beleza, justiça, utilidade e prazer fossem somente ideias reguladoras, seria possível mostrar que comportamento ou qual lei em dado contexto pode ser a melhor, mais bela, mais justa, mais útil e mais prazerosa.
  173. A moral também tem princípios evidentes, como “onde não há propriedade privada não existe roubo.”
  174. Outra: “nenhum governo permite plena liberdade.”
  175. Uma das razões pelas quais a moral não é considerada ciência demonstrativa pela época é o fato de que ela é principalmente palavra. “Justiça” tem diferentes significados para diferentes pessoas. O que é justo pra um não é para outro.
  176. Distância e tamanho posam como empecilhos ao conhecimento, porque nossos sentidos não são capazes de perceber coisas muito distantes ou muito pequenas. Se estiver longe ou for minúsculo, necessitamos de ampliação (microscópio ou telescópio).
  177. Para o filósofo, ciência (conhecimento seguro) dos corpos e coisas físicas é impossível, porque nossas ideias são imperfeitas, óbvio: nossos sentidos são limitados tanto em número como em qualidade.
  178. Diz o filósofo: não há como saber se existem seres mais perfeitos que os humanos e menos perfeitos que Deus na ordem cósmica. Tomás coloca os anjos aí.
  179. A relação entre corpo e alma nos escapa. Como eventos naturais afetam nossa mente? Como a mente afeta os corpos? Isso não implica que a mente também é material? Se não é material, por que sentimos o que ocorre em nossos corpos?
  180. Investigar certos assuntos é trabalho perdido. Nesse caso, quando reconhecemos que não podemos concluir uma resposta.
  181. Até aqui, quase tudo parece bem. O que não está bom é o fato de que, sendo conhecimento a percepção de que há relação entre ideias, as quais dependem dos sentidos ou da reflexão em última instância, todas as nossas verdades são particulares, porque ninguém percebe diferentes coisas exatamente do mesmo jeito. Existirão, por exemplo, verdades para daltônicos e para pessoas de visão boa, sendo essas verdades mutuamente excludentes entre os dois grupos.
  182. Identificamos verdades pela correspondência entre ideias e não entre palavras. Raciocinar com palavras abstraídas de seus significados, isto é, sem verificar se as ideias representadas pelas palavras realmente correspondem, nos leva às ilusões. É preciso verificar a validade dos argumentos, ver se as palavras ditas realmente correspondem com o as ideias que representam e se as ideias se relacionam como as palavras se relacionam. Um exemplo são as metáforas. Coitado de quem entende uma metáfora de forma literal. Também torcendo o significado de uma palavra, é possível formar silogismos enganosos. Mas não é possível enganar dessa forma quem tem ideias claras sobre a matéria em discussão e sabe que aquela palavra, se pretende significar o que normalmente significa, não deveria ser usada daquela forma.
  183. Usar palavras com significado manipulado é mentir.
  184. A generalização cobre muitos casos particulares, mas não todos. Então, generalizando, precisamos admitir a possibilidade de exceções.
  185. Se dizemos que todo o ouro é amarelo e encontramos algo que tem tudo para ser ouro, exceto sua cor característica, há dois modos de resolver a questão. Pela via material, podemos dizer que é um ouro “excepcional”, uma exceção à regra de que todo o ouro é amarelo. Pela via nominal, podemos dizer que, se todo o ouro é amarelo, aquilo não é ouro e deve ser chamado por outro nome. Isso me lembra uma aula que eu tive de filosofia da ciência.
  186. Como dizer se algo é ouro se não sabemos o que é ouro? Mas como saberemos o que é ouro se não o vimos? Se vimos o ouro, temos que chamá-lo de alguma coisa. Então a coisa vem antes do nome que lha é atribuído. Porém, nosso conceito de ouro pode permanecer o mesmo durante toda a nossa vida? Se sim, tudo aquilo que parece com ouro deve ter um nome próprio, o que poderia se apresentar problemático se aplicamos o mesmo método a tudo o mais. Por isso as generalizações. O limite nominal deve ser estabelecido para evitar que as generalizações cheguem ao absurdo.
  187. “Verdades” teóricas, ainda não comprovadas, não devem ser chamadas de “verdades”. Esse é outro problema da ciência. Enquanto não houver uma prova que eu possa ver e constatar que é assim, e essa prova é sensorial, não passa de mera matemática.
  188. Alguns conhecimentos serão sempre probabilísticos.
  189. Existe um número de afirmações das quais não é possível duvidar. O filósofo as chama axiomas, mas o leigo as chama “coisas óbvias.” “Todo o solteiro é um não-casado.”
  190. Verdades evidentes não são as mesmas verdades que absorvemos por hábito.
  191. As ciências por vezes prescindem das coisas óbvias. Quando uma ciência não se funda em coisas óbvias ou depois as nega, passa a ser suspeita.
  192. Mas uma ciência suspeita não necessariamente está errada. O fato é que elas precisam de provas sensoriais. E de fato, ciências assim avançam mais e mais rápido do que aquelas que apenas repetem o óbvio.
  193. É necessário ir além do óbvio para obter conhecimento novo.
  194. É possível, pela lógica, provar algo que está errado. Isso se chama “mentir de maneira crível”. Mas isso só é possível se você usa palavras com significado distorcido ou faz relações que não existem. É uma lógica falsa, que só faz sentido nas palavras, mas não na realidade.
  195. Quem fala palavras sem saber o que significam, age como papagaio e não como ser humano.
  196. Descartes identificava a prova de sua existência no ato de duvidar, mas o filósofo aponta outra certeza: se eu sinto alguma coisa, estou vivo, porque eu não posso sentir nada se eu não existir. Então, o filósofo aponta como provas de nossa existência a dúvida (já apontada por Descartes) e a sensação. Além do mais, se eu sinto alguma coisa vindo de algum lugar, quer dizer que outra coisa além de mim existe, então o filósofo, por extensão, prova a existência do mundo.
  197. Para o filósofo, a ausência de ideias inatas não inviabiliza o caminho para a prova da existência de Deus.
  198. Se o nada é estéril, é necessário que haja algo de eterno e que sempre esteve lá. Se houvesse um instante em que nada existisse, então nada existiria agora.
  199. É necessário que exista um ser que não foi criado. Um criador que não é criatura. Se só houve criatura criando criaturas, quem criou a primeira criatura? Se não foi ninguém, então não é criatura, mas criador.
  200. Esse criador eterno é, naturalmente, o mais poderoso dos seres.
  201. O conhecimento precisa ser dado por outro ser também capaz de conhecimento. Para o filósofo, é impossível que um ser receba a capacidade de conhecer a partir de um ser que não tem essa mesma capacidade, razão pela qual seres humanos geram humanos tão capazes de conhecimento como seus pais e seres de razão inferior geram seres de razão proporcional a deles. Então, o criador eterno é também mais inteligente que nós. Tomás chega à mesma conclusão por outros meios, constatando que há ordem na natureza, estações periódicas, dia e noite a seu tempo, enfim, uma ordem cósmica, sendo que ordem só pode ser dada por alguém que pensa.
  202. Há outros seres inteligentes no universo. Dizer que só o ser humano é capaz de conhecimento é arrogância.
  203. Se o fato de eu poder conceber um Deus em minha mente fosse uma prova de sua existência, isto é, de que ele colocou essa ideia lá, então os deuses pagãos também existem. Portanto, o argumento ontológico e o argumento das ideias inatas servem para provar qualquer deus. Diga-se de passagem, as cinco provas estipuladas por Tomás também. Na minha modesta opinião, o único a mostrar que a crença no Deus judaico-cristão, pela via racional, é plausível é Pascal, e ele não deu prova definitiva de que Deus existe, mas apenas de que vale a pena crer. Então as cinco provas de Tomás devem ser usadas em conjunto com a aposta de Pascal. Há um Deus, vale a pena crer que é o Deus judaico-cristão.
  204. O filósofo diz que é necessário que exista um ser necessário. Isso é uma citação indireta ao trabalho de Tomás. É engraçado, se não triste, o fato de que os pensadores da Idade Moderna façam tantas alusões à Patrística e à Escolástica sem dizer claramente que o pensamento não é deles e que já foi pensado antes.
  205. Um ser irracional, diz o filósofo, não pode produzir um ser racional. Então o ser necessário é racional. Se não fosse, não haveria seres racionais atualmente. O parecer da ciência é diferente, de que seres com razão superior “acontecem” devido a mutações e, por causa dessas habilidades estranhas que obtiveram por mutação, sobrevivem mais e passam essas características aos descendentes. Então, enquanto que a teologia diz que um ser só pode criar um ser que é inferior, a ciência diz que um ser superior pode advir de um inferior e que seu grau de superioridade é determinado pela sua aptidão à sobrevivência. A filosofia contemporânea, porém, diz que um ser que sobrevive mais tempo não é superior senão segundo um critério subjetivo, e que a seleção natural é “energia desperdiçada em todas as direções”, de forma que alguma coisa desses monstros mutantes tem que sobreviver, implicando que evolução não necessariamente é progresso (afinal, o homem das cavernas era mais inteligente e mais forte que o homem atual, mas pereceu porque seu corpo, sendo muito melhor que o nosso, precisava de mais comida, então o homem moderno prevaleceu sobre algo claramente melhor simplesmente porque sua constituição física é mais econômica). É importante eu colocar isso aqui para mostrar as limitações do argumento e não parecer que estou escrevendo de má-fé.
  206. O filósofo também cita indiretamente a primeira via (do movimento) de Tomás: algo não pode mover sem que algo a mova primeiro. Alguém pode argumentar que seres animados podem mover a si mesmos. Sim, é verdade, mas quem pôs a natureza em movimento? O mundo tem alma? Alguém deu movimento à natureza.
  207. A existência de algo não pode ser provada pela definição dada a esse algo pela minha mente. Se assim o fosse, meus sonhos poderiam ser reais.
  208. Existência deve ser assumida pela via sensual. Para que algo possa ser dado como existente, precisamos de provas empíricas ou demonstrativas disso. Se não é possível provar dessa forma, aquele algo não existe para nós.
  209. Aprendizado não pode se dar em nós mesmos. Todo aprendizado depende de sujeito (quem estuda) e objeto (o que é estudado).
  210. Memórias não nos trazem a mesma dor ou prazer que seus eventos originários.
  211. É possível saber coisas óbvias sem que sejam colocadas em palavras.
  212. A matemática nos permite conhecimento que parece sobre-humano à primeira vista.
  213. Mas as conclusões racionais precisam de validação experimental. Se é matematicamente possível, mas não encontra demonstração prática, não pode ser dado como real, apenas como provável.
  214. Um conhecimento é validado pela sua utilidade. Nosso conhecimento precisa servir para nos aperfeiçoar em algum sentido, seja moral e espiritual, seja material ou econômico. Eu, por exemplo, não escolhi filosofia por uma questão meramente profissional; eu esperava que ela me aperfeiçoasse e refinasse minha conduta.
  215. O que o filósofo chama de “julgamento”, os leigos chamam de “faculdade de chute”. É você achar que algo dará certo ou errado, achar que algo é útil ou inútil, achar que algo é prazeroso ou doloroso, isto é, dar chutes, afirmações gratuitas feitas sobre algo incerto.
  216. Conhecimento difere de julgamento (chute) por dispor de provas ou demonstrações. O conhecimento completa o julgamento e vice-versa.
  217. Entre o chute e o conhecimento está o provável. É uma afirmação que se assenta em provas, sim, mas falíveis. Por isso é provável (tem provas), mas não certeza (porque as provas não são absolutas, mas condicionais, falíveis, suspeitas ou, de alguma outra forma, indignas de plena confiança).
  218. A probabilidade, tal como chute, nos leva a assumir como verdadeiro algo que ainda não sabemos se é ou não verdade. O pior que pode acontecer é eu errar, mas a chance de erros parece pouca.
  219. “Fé” é uma afirmação baseada em probabilidade. Eu tenho provas, as provas não são tão boas, mas são convincentes. Então, se eu faço uma afirmação com base em provas assim, estou as dando crédito, isto é, acreditando.
  220. Usar a probabilidade de maneira justa requer não apenas o reconhecimento de que algo é “provável”, mas verificar também a opinião contrária. Sempre que lidamos com probabilidade, temos que verificar todas as posições, as prováveis e as improváveis, a fim de julgar qual opção é a mais provável e qual é a menos provável, de forma que possamos fazer uma boa escolha.
  221. É preciso admitir que coisas prováveis podem não ser verdade, mesmo que a chance seja baixa.
  222. É preciso também tolerar quem tem opiniões discordantes sobre o mesmo assunto. Se é uma discórdia meramente lógica, então não há necessidade de insistir com quem não aceita um argumento. Tenha misericórdia dele, em vez de ódio.
  223. Quando encontrar um argumento oposto ao seu, antes de condenar o argumento do outro como errado, verifique se você realmente tem razão. Reveja seus pressupostos.
  224. “Confiança” é acreditar no testemunho de muitas pessoas.
  225. Deve-se desconfiar quando o testemunho, mesmo o de muitas pessoas, contradiz algo que parece evidente ao que julga.
  226. Tudo aquilo que excedeu nossas ideias, sendo que todas elas têm início na percepção, é automaticamente suspeito. Então, quando falamos de algo que não vimos, ouvimos ou sentimos, ou que inferimos por combinação de ideias simples ou abstração, estamos chutando ou lidando com probabilidade. Assim, temos fé e não conhecimento. Não é diferente ter fé num cientista e num padre, o sentimento é o mesmo, pois muitas vezes não entendemos a matéria em questão.
  227. A razão vai além dos sentidos. De fato, o sentidos nos dão a matéria bruta, mas é a razão quem a trabalha. Se interpretamos a realidade pelo que ela nos parece ser, diríamos que o Sol é do tamanho que parece, que o mundo é achatado porque a visão só vai até certo ponto, que só existem frequências sonoras entre doze e 20.000 hertz…
  228. Muitas vezes, a prática de silogismo não é necessária.
  229. A prova disso é que Aristóteles inventou o silogismo como o conhecemos. Se o silogismo fosse extremamente necessário, então todos antes de Aristóteles estavam errados em tudo.
  230. Todos os raciocínios corretos, diz o filósofo, podem ser reduzidos à silogismo. Então é melhor usar o silogismo pra mostrar algo que você já sabe que é verdade, do que usá-lo para, com ele, chegar à verdade.
  231. Por vezes, utilizar silogismos pode até atrapalhar o raciocínio. Portanto, devemos saber quando usá-los.
  232. Para o filósofo, uma das provas do livre-arbítrio é a de que Deus pune os maus. Ora, mas Lutero questiona a presença do Apocalipse de São João em sua Bíblia, um livro do Novo Testamento que é todo sobre isso. Para Lutero, o Apocalipse não é canônico. Lutero provavelmente sabia que a presença na Bíblia de um livro sobre a punição dos maus seria um obstáculo a sua doutrina de justificação pela fé sem as obras, então ele moveu o Apocalipse para o apêndice de sua Bíblia, junto com a Epístola de São Paulo aos Hebreus e a Epístola Católica de São Tiago. Esses livros põem forte ênfase nas obras, mas Lutero diz que têm tanta importância como Tobias ou Judite têm para os católicos: é bom saber, mas não constituem regra de salvação, ou seja, são de cânon secundário. Será que o questionamento do Apocalipse, dos Hebreus e de Tiago não foi feito somente por orgulho?
  233. É mais fácil prosseguir um raciocínio pela via sequencial ascendente em vez do silogismo. No silogismo, partindo de uma proposição geral, mediados por uma proposição particular, chegamos à conclusão. Na sequência ascendente, examinando um caso particular, automaticamente inferimos que, para ele fazer sentido, outra coisa também deve. Me queimei, porque entrei em contato com o calor, porque coloquei a mão no fogo, porque me distraí após acender o fogão, porque eu não prestei atenção quando quis preparar comida, porque eu estava com fome… Ou, para usar o exemplo do livro, “Deus pune os maus, o que só pode ser feito justamente se formos culpados, a qual só pode existir em quem é responsável por seus atos, os quais só podem ser seres livres…” Então, se Deus pretende punir os maus, os seres humanos são livres. Há uma conexão, que é obtida mais rápida do que se trabalhassem com silogismo, diz o filósofo.
  234. Se o silogismo precisa de prova empírica, ele não basta por si.
  235. O silogismo serve também para mentir. Pra não falar que ele conclui errado se qualquer das proposições for falsa.
  236. As proposições precisam de provas, mas as melhores provas são as empíricas e as matemáticas. Então, no final das contas, o silogismo não se basta porque suas proposições nem sempre se bastam.
  237. O silogismo pode até organizar o pensamento que já temos, mas não serve para nos dar conhecimento novo, diz o filósofo.
  238. Embora o conhecimento das coisas gerais traga muita felicidade, ele não é tão útil como o conhecimento das coisas particulares. Então, quando queremos resolver problemas, é estudando o caso particular que encontramos a solução rapidamente. Se procurarmos a solução de um problema particular a partir de meditações sobre aquilo que é mais geral, levaremos mais tempo para resolver o problema. Aristóteles diz que o conhecimento que parte do geral para o particular é mais seguro (é a ciência ou arte), embora não sempre funcione, enquanto que o conhecimento do particular pelo particular (mera experiência) pode até funcionar sempre no caso particular, mas impede que a solução seja aplicada a outros problemas. Então, embora queiramos resolver problemas e problemas são particulares, não podemos fazer ciência sem generalizações. Então, resolvendo particulares pelos particulares, podemos sempre resolver um determinado problema, mas organizando vários particulares segundo regras gerais podemos resolver, na maioria dos casos, vários problemas. A falha disso é que generalizações muito abrangentes se distanciam dos casos particulares. Por isso que a filosofia primeira (a metafísica), sendo a mais geral e a mais interessante, é também a mais inútil das atividades do espírito.
  239. Pra o filósofo, aquilo que sabemos por intuição não precisa ser raciocinado. Isso me parece arriscado.
  240. Mostrar que o outro está errado não necessariamente te afirma como certo. Os dois podem estar errado. Escolher a opção “menos pior” não torna essa opção a correta.
  241. Diz o filósofo que, mesmo por inspiração divina, ninguém pode fazer alguém entender algo acerca do qual não tem ideias. Por isso Dionísio diz que não é possível discursar sobre Deus, porque ele é diferente de tudo o que conhecemos. Então, por essa incompatibilidade, Deus está totalmente fora do alcance do intelecto. Agostinho também diz algo interessante sobre isso: Moisés, ao receber a revelação de como se deu a criação, pode ter visto várias coisas que nunca havia visto mas, pressionado a escrever, teve que usar palavras aproximadas ao que viu, para que os leitores pudessem entender. Então, a criação descrita por Moisés pode muito bem ser metafórica, porque Moisés não tinha palavras para descrever o que viu. Ezequiel, ao usar termos como “era como que” ou “pareciam com” está usando aproximações para descrever sua revelação. Então, não confundamos “parece” com “é”. Se não fizessem essas comparações e aproximações, seus textos seriam ininteligíveis.
  242. A revelação não discorda, diz o filósofo, daquilo que a reta razão pode descobrir. De fato, ela pode falar de coisas que excedam a razão, mas não contradiz a reta razão quando discursa sobre aquilo que a razão pode apontar.
  243. A revelação, diz o filósofo, não pode ser admitida se contradiz aquilo que a razão apreende intuitivamente. Por isso que os profetas também faziam milagres, porque Deus sabia que o povo não acreditaria numa mensagem tão distante do senso comum se os profetas não operassem sinais para provar que a providência divina estava com os profetas. Então, se alguém afirma que Deus falou com ele dizendo que a ressurreição é possível, verifique se ele ressuscita depois que morrer. Foi o que aconteceu no caso de Jesus. Ele veio mostrar que a ressurreição é possível e fez isso morrendo e ressuscitando por meio da providência. Se isso fosse feito diante dos olhos de alguém, essa pessoa não poderia negar o que viu.
  244. Se o terreno da razão e o da fé não forem delimitados, diz o filósofo, então qualquer proposição, afirmando ter a ver com fé, não pode ser racionalmente contradita. Isso fomenta o fanatismo religioso e o extremismo.
  245. Só é possível errar em probabilidade ou chute. Porque o conhecimento, na medida em que é absoluto, nunca erra. Então não é possível errar pela reta razão, diz o filósofo.
  246. Para o filósofo, existem quatro fontes de erros: provas insuficientes, inabilidade para interpretação da prova, ignorância deliberada, critério de probabilidade suspeito.
  247. Se há interesse em saber a verdade sobre algo, a oposição deve ser ouvida.
  248. Ignorância deliberada frequentemente tem origem na preguiça.
  249. É possível errar nas probabilidades porque algumas pessoas simplesmente, diante de opiniões discordantes, em vez de ficarem com a mais provável, automaticamente assumem que não há resposta certa.
  250. Uma verdade não contradiz a outra, mas princípios por vezes o fazem e também as autoridades por vezes o fazem.
  251. A persistência no engano pode ser ocasionada por orgulho ou medo da vergonha.
  252. Mesmo que a Bíblia seja verdade, ainda é um texto. Textos são passíveis de múltiplas interpretações.
  253. Para o filósofo, é exagero dizer que a maioria está sempre errada.
  254. Para o filósofo, as ciências devem ser divididas em três grupos: física, moral e lógica. Elas são quase equivalentes à nossa divisão atual em ciências naturais, humanidades e ciências exatas. A diferença é que a linguagem está na lógica. Então, para que a divisão atual e a do filósofo fossem idênticas, língua portuguesa e matemática deveriam ser matérias de mesma classe, com todo o resto sendo ciência natural ou humana.

9 de julho de 2016

Igreja não é fundamental.

Filed under: Saúde e bem-estar — Tags:, — Yure @ 11:50

Eu tenho um amigo que é um adolescente autista. Inclusive, foi ele quem me levou a abandonar minha leitura bíblica que eu estava fazendo na época, para recomeçá-la fazendo um fichamento. Ele me conta que tem tentado participar dos cultos que sua família participa. Pelo que ele me contou, ele participa de cultos neopentecostais. Dá pra ver por que isso é um tormento pro coitado do menino.

Ele detesta barulho e detesta caos. Mas cultos neopetencostais frequentemente se afiguram como ambas as coisas pra ele. As pessoas gritam, choram, caem moles no chão, é o fogo caindo do céu. Essas coisas o perturbam grandemente. Além disso, ele atende às aulas dadas pelos mestres da igreja à qual ele atende e, como é de se esperar, esses mestres não ensinam outra coisa senão a paranoia, o medo e o sentimento de dependência ao ensinamento vazio que cataliza os dízimos.

“Você não é cristão de verdade se não dançar e cantar durante a adoração.” Como eu disse, ele é autista. Não é fácil pra ele fazer essas coisas. Além do mais, a dança e o canto não são nenhuma garantia de salvação (Mateus 19: 16-19 / Lucas 18: 18-20). Eu aconselhei pra ele o seguinte: igreja não é tudo igual, procure alguma que você gosta e, se nenhuma aparecer, não vá de jeito nenhum. Eu sou da opinião de que igreja não é fundamental e que você parece ter mais chances de se salvar esquecendo que esses ensinos particulares existem. Mas sou só mais uma voz nesta mixórdia de credos.

O fato é que esses cultos estão fazendo mal a ele, quando ele tem intenções sinceras de ser cristão. Isso nos leva a pensar: se Deus é pra todos, porque ele, que não escolheu ser autista, tem dificuldade em se aproximar dele? Algo está errado aí. Mas eu preferi não entrar em detalhes pra não confundir a cabeça dele. Só dei esse conselho e disse que ele não precisa aceitar tudo o que o ensinam como correto. Que ele tivesse bom senso. E isso ele parece ter mais que os pais e irmãs dele.

5 de julho de 2016

Os grupos de estudo.

Filed under: Organizações — Tags:, , — Yure @ 15:37

O grupo de estudos em Walter Benjamin é tão besta que estou sinceramente desmotivado. Acontece que Benjamin é um pensador tão distante do que estou acostumado que eu tenho mais chances de entender toda a Metafísica ou a Suma Contra os Gentios do que o Narrador. Ele não se expressa de maneira clara, pontual, não vai direto ao ponto e isso quer dizer muita coisa quando você lê, como agora, uma comparação entre ele e autores de linha aristotélica da pesada. O problema de Benjamin é não fazer questão de ser entendido, ou é o que parece, de forma que estou empurrando as atividades desse grupo com minha pança, a qual nem tenho. Pegue o Experiência e Pobreza ou o Narrador e você se divertirá com uma historinha legal e um estilo romântico de escrita que é belíssimo, mas a única coisa de filosófica que ele diz nesses dois textos é simplesmente algo com que discordo de pés bem juntos e dedo levantado: a experiência acabou, a arte de narrar definha. Faz todo o sentido que ele pense assim na Alemanha do século vinte, porque ele nunca viveu aqui, no país onde as pessoas contam histórias pelos cotovelos e se dão conselhos mutuamente mesmo quando ninguém pede conselho a elas (pois uma das formas de partilhar e adquirir experiência, em sentido de moral formativa, é pela via do conselho). Mas claro que os garanhões universitários doutrinados em Benjamin não tolerariam um disacordo com alguém de baixa classe como um aluno da graduação.

O grupo de Sartre não acontece. Só atendi a uma das duas reuniões que ocorreram desde abril. Isso é escusável: a orientadora do grupo é vice-coordenadora, então ela é mesmo muito ocupada. Eu não exijo que ela apareça, mas gosto de ir assim mesmo para que ela veja que eu tenho interesse.

O grupo de Agostinho é uma disciplina; não somos requiridos a fazer nada além de ler o texto. Diferente dos outros grupos de estudo, em que somos requisitados a fazer algum texto, artigo, fichamento, sei lá, o grupo de Agostinho não nos exige nada além da leitura. O problema é que estamos lendo as Confissões, as quais eu já li e fichei. Eu poderia entregar meu fichamento pra ele quando ele pedisse alguma coisa.

Por causa da greve, não estou indo a aula nenhuma, pois ninguém está dando aula. Para não ficar sem fazer nada, pois preciso de atividades complementares, estou fazendo um curso pela Internet. É sobre direito da infância e da juventude. O advogado me mostrou e resolvi fazer, já que vale vinte horas. Acabando esse, farei outro e mais outro. Ou poderia até fazer três concomitantemente e acabar logo com sessenta horas ao fim de julho. Isso supriria a falta que fazem os grupos de estudo, cada um valendo quinze horas. O que eu não posso é gastar dez reais por dia pra aprender nada.

26 de junho de 2016

Você não precisa ler isto.

Filed under: Jogos, Música, Organizações, Passatempos — Tags:, , , — Yure @ 10:08

Protocolei um processo para transformar duas das minhas disciplinas optativas em complementares. Se for deferido, poderei dar entrada no processo de colação de grau em dezenove de agosto. Nem acredito que poderei terminar o curso de licenciatura em filosofia.

Continuo desenhando como de costume. Ontem, inclusive, fui ao hospital e levei meu bloquinho. A doutora quis ver alguns dos meus desenhos e eu tive que mostrar pra ela alguns seletos, porque não é bom que alguém veja todo o conteúdo que eu desenhei naquele bloquinho, ao menos não enquanto eu estou ao alcance da mão da pessoa. Minha mãe também quis ver, mostrei os mesmos que eu mostrei à doutora, mas tive que tirar o bloquinho da mão dela quando ela quis passar a página. Acho que tenho que ter dois bloquinhos: um pra desenhos em público e outro para coisas mais particulares…

Esses dias, baixei o Ren’Py. Trata-se de um programa para a criação de novelas visuais ou aventuas textuais, aqueles joguinhos em que é descrita uma cena e você tem que decidir o que acontece depois clicando nas opções, de forma que a história progride conforme às ações dos jogadores. No momento, estou elaborando os personagens que figurarão na história. Eis uma boa aplicação pro meu sistema de RPG, já que meu grupo me abandonou.

Tenho composto menos música. Como tenho encontrado competição demais (os desenvolvedores de jogos com os quais eu trabalhava encontraram gente melhor), tenho ficado muito inseguro de compor. Por causa disso, dei uma longa pausa. Voltei a compor ontem, mas não aguento mais o meu próprio trabalho. Sinto como se todas as músicas fossem muito parecidas entre si e já não tenho mais tanto prazer em compor como eu tinha antes.

Ao menos, não tenho mais problemas de insônia. Desde quando comecei a aplicar meu programa de regulação do sono (basta ir pra cama catorze horas após levantar), não tenho mais dificuldade pra dormir. Isso me ajuda a permanecer estável.

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