Pedra, Papel e Tesoura.

10 de abril de 2014

Abril, primeira parte.

Não tive noites de sono lá muito boas, graças a minha irmã e a filha dela. As duas são muito barulhentas e só falam gritando, o tempo todo. Assim, dormir cedo é complicado (por causa da minha sobrinha) e é complicado dormir à tarde (por causa da minha irmã). Na verdade, faltei aulas para consertar meu sono e tenho tomado cápsulas de erva cidreira.

Quase tive meu primeiro desmaio. Pra começar, minha mãe me acordou tarde e tive de pegar dois ônibus. Certo, já fiz isso antes, incontáveis vezes. Mas desta vez, por causa da chuva, todas as janelas do segundo ônibus estavam fechadas. Sem falar que estava lotado. Então, comecei a passar mal, pouco oxigênio pra respirar. Comecei a ficar mal mesmo e decidi ir para a parte da frente, onde eu achei que haveria mais ar. Ao fazer isso, me afastei das janelas e fiquei completamente sem ar respirável. Enquanto eu pegava o dinheiro para passar pela catraca, minhas pernas começaram a adormecer e dobrar. Pensei “droga, vou desmaiar”. Minha visão começou a turvar. Achei que fosse passar, mas… minha visão começou a escurecer, não mais consegui me mexer e… adormeci em pé. Era uma questão de tempo até minhas pernas cederem. Ouvi alguém dizer

O cara tá passando mal!

e, de repente, me puxaram pelo ombro para fora do meu sono. Me colocaram numa cadeira e várias pessoas ficaram preocupadas. Por alguns segundos, me perguntei o que estava acontecendo e onde eu estava, mas aí lembrei. Eu disse que eu estava sem ar e rapidamente abriram as janelas perto de mim. Daí me senti melhor. Se eu tivesse realmente desmaiado, caído, acho que não faria muita diferença. Na verdade, perder a consciência em pé me fez sentir uma coisa que eu já sabia, mas apenas teoricamente: do ponto de vista do desmaiado, desmaio e sono não têm diferença. Eu perdi a consciência antes de desmaiar. Seria como pegar no sono, pra mim.

Cheguei à faculdade, atrasado, mas a tempo de assistir a aula de Filosofia da Ciência. Discutimos o cronograma e me foi dado o artigo Introdução à filosofia da ciência, do Professor Doutor Silvio Seno Chibeni. Ainda não li o artigo, mas assisti os vídeos que o professor me pediu pra ver, o tal História da Ciência. Fiquei impressionado com o fato de que os cientistas do passado, que ficaram tão famosos, como Galileu e Newton, eram motivados mais pelo desejo de fama do que por compromisso com a verdade. Na realidade, meu professor me falou (e o vídeo reforçou) que é muito ingênuo pensar que a ciência trabalha unicamente para a verdade; ela está constantemente coibida por fatores sociais, políticos, históricos e, principalmente, econômicos. Sem fundos, cientistas perdem a segunda chave para abrir as portas do progresso: instrumentos. Instrumentos científicos custam grana e, para obter os fundos, os cientistas não raro apelam ao Governo. Mas e se o Governo não estiver interessado na invenção que tornará a vida do ser humano tão fácil a ponto dele não mais precisar da indústria farmacêutica (e provavelmente não estará)? A ideia não sai do lugar.

O professor também me falou de um outro documentário, o qual não pretendo assistir, chamado Who Killed the Electric Car?, que expõe os relatos e evidências de que pessoas de dentro da indústria de carros tradicionais literalmente saiu matando pessoas que construíram carros elétricos movidos à bateria. Por quê? Isso tiraria os carros tradicionais do negócio. Então a grande empresa precisa acabar com a pequena enquanto ainda tem chance. É muito complicado você querer mudar o mundo imediatamente, você precisa esperar por condições propícias, especialmente no mundo capitalista ocidental.

Os tópicos a serem discutidos na disciplina são:

  1. A aplicação científica do método indutivo.
  2. Crítica ao método anterior.
  3. Falsificacionismo de Popper.
  4. Crítica ao falsificacionismo.
  5. Teoria como estrutura, no olhar do senhor ilustríssimo Lakatos.
  6. Teoria dos paradigmas de Kuhn, que é o lance de que a ciência é movida muito mais por interesses egoístas e não pelo bem público.
  7. Anarquia epistemológica em Feyerabend.
  8. Tópicos aleatórios.

O tópico sete não é certo, pode ou não acontecer. Os tópicos de um a três caem na primeira prova e os tópicos de quatro a seis caem na segunda prova.

Em problemas metafísicos um, foram decididos os temas que trataremos nos seminários. Pois é, temos que ficar logo à par da situação. O professor parece rigoroso, mas é apenas bastante metódico. Na verdade, prefiro professores organizados, em vez de professores muito largados. De toda forma, tenho que construir um plano de apresentação para ser entregue ao professor. O plano, obviamente, será publicado aqui na hora certa, tal como o texto que apresentarei.

Meu assunto é, nada mais, nada menos, que a Metafísica, aquela compilação de livros sem nome do senhor Aristóteles. Eu já li alguns pedaços da Metafísica e um punhado de comentários, mas jamais li os catorze livros em sua completude. Acho que posso, com alguma dedicação, ler a Metafísica de Aristóteles antes da apresentação de fato. Os livros não são longos, talvez dê pra ler um por dia. No dia catorze, contudo, devo entregar o plano de apresentação ao professor. Só espero não ter preguiça de ler o livro de fato. Se bem que só tenho de expor os três primeiros livros da Metafísica.

Considerando o vocabulário aristotélico, a forma como os étimos se relacionam e coisas assim… os alunos, a maioria do terceiro semestre, não entederia. O plano de apresentação é quase um artigo, então creio que muitos se beneficiarão do meu escrito.

30 de março de 2014

Polícia Militar.

Resolvi ouvir a trilha sonora do Diddy Kong Racing depois que Apple me recomendou. E aí lembrei de uma página no The Cutting Room Floor que mencionava uma música que estava no teste de som, mas que não tocava em lugar nenhum no jogo em si. Na trilha sonora, ela é chamada The Secret Tune. Honestamente, eu não estava gostando da trilha sonora do jogo até ouvir essa música em especial. É o lado mais feliz do David Wise posto numa seringa. Eu não esperava ouvir esse tipo de coisa de um compositor famoso por ter criado a atmosfera densa de Diddy’s Kong Quest, mas, caramba, é muito legal!

O curso de Marx, ao qual não pude ir, foi adiado depois que Mardônio morreu. Colocar o nome da capital e a palavra “morte” na mesma frase é quase redundância. Interessante que não apenas bandidos matam na capital, policiais também matam de forma totalmente criminosa. Um especialista disse no Fantástico que o bandido, pra ser preso no estado, tem que ser muito azarado.

A prepotência de policiais militares costuma matar vários inocentes, aos quais são negados direitos básicos. Um par de policiais militares não apenas atirou numa certa mocinha como também colocou-a no porta-malas da viatura, que depois abriu. A roupa dela enganchou no porta-malas e o corpo dela ficou pendendo do lado de fora. Ela foi arrastada por uns trezentos metros. Depois a Polícia Militar pediu desculpas à família de mocinha morta, mas isso não a traria de volta. Lembro de um colega da faculdade que me falou que um colega dele queria entrar pro Ronda do Quarteirão para “meter porrada em negros”. É complicado quando até aqueles que deveriam manter a cidade segura colaboram com a sua posição na grade de cidades mais violentas do mundo (a capital está em sétimo lugar, segundo o jornal O Povo).

Só me preocupo com o fato de que estou acordando durante a tarde. Nada mal para quem estava com insônia, mas não é o recomendado para quem voltará às aulas matinais. Preciso colocar meu sono nos eixos, de algum jeito. Não é tarefa fácil considerando como meu quarto está ensopado por causa das goteiras. Com as obras do andar de cima, a coberta da casa foi parcialmente removida, deixando os quartos vulneráveis. Poderíam ter esperado a temporada de chuvas terminar antes de começar a obra. Pelo menos, tem obra.

28 de março de 2014

Sexismo arcaico.

Arquivado em: Saúde e bem-estar — Tags:, , , , — Yure Kitten @ 20:40

Como se não bastasse o BOL bloquear minha conta furry, uma certa pesquisa apresentada no sítio juntou algumas moscas desocupadas e vadias na seção de comentários. A pesquisa era algo como “é normal um homem preferir se masturbar sozinho em vez de fazer sexo?”. Cara, pelo amor de Deus. Eu não entrarei em detalhes sobre o quão normal isso é, já que “normal” é algo que é praticado pela maior parte de um determinado público. Eu não sei como é a vida íntima da maioria dos casados, então não posso falar a respeito.

Mas se há homens fazendo isso, deve ser porque há alguma vantagem implícita. Mas que vantagem poderia haver nisso, alguém pode perguntar-se. Ora, isso não é óbvio? É você e você mesmo, sem regras, sem contratempos, sem dever respeito a ninguém e por vezes você é o melhor indicado para dar prazer a você! Não deveria ser difícil de compreender.

A rejeição da masturbação em frente ao sexo deve ter raízes culturais em algum tipo de cisma arcaico: se você se masturba é porque você não tem parceiros, logo lhe faltam atributos atraentes num círculo de indivíduos onde a capacidade de sedução é levada em altíssima conta. Você não é ninguém em meio a esses vultos se você não é “pegador”. Com as mulheres, se o homem masturba-se apesar de viver com a moça, tem-se a velada certeza de que a moça é incapaz de satisfazê-lo sexualmente. Mas tudo bem. A masturbação tem um histórico ruim no Ocidente…

Mas pois bem. Se não podemos falar a respeito do quão normal é a prática da masturbação numa vida a dois, podemos discutir os efeitos positivos ou negativos de tal ato ou ausência dele.

Masturbação relaxa, isso é fato. Talvez você tenha um par de fantasias embaraçosas que gostaria de colocar em prática sem os olhos atentos de outra pessoa por perto e talvez esteja frustrado por não poder aliviar a vontade de escorregar de determinada forma. Então certo, vá em frente. Além do mais, enquanto você está tendo sexo com alguém, tem sempre os contratempos que se pode esperar ao fazer sexo: dores, doenças, reclamações e pressão para “dar seu melhor”. Essas coisas por vezes tornam o sexo mais uma obrigação que um prazer. Sexo significa responsabilidade e várias coisas boas e construtivas estão relacionadas à responsabilidade, certo? Que tal enumerá-las? Trabalho, imposto, contas, estudos… Se sexo está tornando-se mais uma responsabilidade do que uma diversão, é compreensível que um homem por vezes prefira se masturbar em vez de ter sexo.

Masturbação satisfaz. Ou, pelo menos, o faz na maioria das vezes. Claro que há quem ache que masturbação um negócio próximo do pão sem margarina, mas pode ser o contrário. Talvez a pessoa com quem você se relacione simplesmente não lhe satisfaça. Além do mais, que pessoa é mais versada na sua sexualidade do que você mesmo? Você sabe estimular cada centímetro, cada nervo, de um jeito a afetar cada camada da pele. Você conhece técnicas que talvez tenha vergonha de ensinar cara a cara. Engraçado, não é? Mas acontece. É compreensível, então, que um homem se masturba em vez de ter sexo se a pessoa disponível não estiver a altura.

Masturbação é inconsequente! Não há outra pessoa ali para você se preocupar. Você só precisa dar prazer a si mesmo e a mais ninguém, não há necessidade de respeito e em sua imaginação não há lei que precise ser respeitada (a não ser que você seja cristão). Não é perfeito? Parceiros são chatos, demandam afeto, compromisso e podem lhe trazer mais malefícios que benefícios… Além do mais, pra quê ter filhos num mundo com sete bilhões de pessoas? Adote um filho, ora, estará fazendo um favor à criança e à ONU!

Mas sério, sem brincadeiras, masturbação dentro de uma relação não necessariamente significa que a relação está fraca. Uma relação não é algo platônico, lindo e cheio de babados, como “unir-se ao outro num só corpo”. Não, isso é ultrapassado e poético demais pra fazer o mínimo de sentido na Pós-Modernidade. Então o que é a relação? Está implícito na palavra. É a dinâmica entre duas ou mais individualidades, é você, sendo você, viver junto com outra pessoa, sendo outra pessoa, e ser capaz de sustentar com o outro uma situação boa para ambos. É viver com o outro em relativa harmonia sem negar as diferenças entre os dois.

Outro ponto do cisma arcaico é que todas as relações importantes são pautadas no sexo, mas isso é muito baixo. Mesmo que um dos participantes de uma relação se masturba, por qualquer razão que seja, isso não necessariamente significa que o lado sexual da relação está enfraquecido ou que os outros lados da relação, como o lado afetivo, estejam fracos. Uma coisa sem importância como a masturbação só pode ser motivo de alarde na cabeça de pessoas incipientes que acham que namoro ou casamento é só sexo e, mesmo que fosse, uma coisa não impede a outra.

20 de março de 2014

Mórmons.

Recebi a visita de um gorducho levado que não vejo há anos. Desde que virou mórmon, tem estado meio sumido e, desde que me mudei, deixei de vê-lo por aí. Ele está mais magro do que eu esperava, mas, ainda assim… “atraente”. Tenho essa fixação por gente gorda. Se ele algum dia ler isto, espero que ele tome isto como um elogio sincero. Ele trouxe dois outros mórmons, um deles dos Estados Unidos, com quem conversei um pouco em inglês (ele falava em inglês e eu respondia em português). Os mórmons têm tentado me converter, eu acho. Na verdade, os mórmons têm conversado comigo, mas pois é. Minha mãe, que é testemunha de Jeová, disse que os mórmons são os apóstatas previstos em Reveleção, que pregariam falácias de porta em porta, mas eu não acreditei muito nisso, não. Na minha modesta opinião, os mórmons são a religião cristã mais livre de escândalos. Os católicos têm pedófilos em suas hierarquias, o nome dos evangélicos está sujo com pastores que se aproveitam da ignorância dos fiéis, as testemunhas de Jeová previram o fim do mundo dez vezes até se tocarem (ou melhor, “perceberem”, porque testemunhas de Jeová não “se tocam”) de que é presunção querer saber o que nem Jesus sabe e a Igreja Universal… bom, é a Igreja Universal.

Gostaria de deixar claro que todas as perguntas e reflexões que farei nos parágrafos seguintes são inocentes, eu não tenho intenção de ofender ou de converter.

Os mórmons me entregaram o panfleto “A Restauração do Evangelho de Jesus Cristo”, o qual li e fiz umas observações. Os mórmons me falaram que a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias é a única que tem autoridade divina, doze apóstolos e um profeta, imitando assim o ministério de Jesus. De acordo com os mórmons, João Batista, Tiago e outras duas entidades passaram o sacerdócio a Joseph Smith que, por sua vez, intitulou doze apóstolos, cuja a autoridade é passada de administração à administração. Mas aí surge um problema: por que os apóstolos, quando ainda estavam vivos, na época dos primeiros cristãos, não passaram o sacerdócio a outras pessoas, ao invés de esperar até 1820 para passá-lo ao Joseph? De acordo com o que sei de história, os apóstolos passaram, sim, essa autoridade, e foi assim que surgiram as primeiras igrejas (igreja significa “comunidade”, assim, igrejas cristãs são comunidades cristãs). Pode um apóstolo passar a autoridade para mais de um indivíduo em épocas diferentes? Meu bom senso diz que não… Os mórmons também não sabiam a resposta, mas negaram que os apóstolos transferiram sua autoridade ao longo da história, embora tenham admitido que outros apóstolos foram chamados para completar os doze conforme apóstolos velhos morriam.

Na página onze do panfleto enorme, está escrito:

Em 1820, como havia feito ao longo da história, nosso Pai Celestial mais uma vez escolheu um profeta para restaurar o evangelho e o sacerdócio à Terra.

Isso me deixa um tanto perturbado. Se o problema era espalhar o Evangelho por toda a terra, inclusive a América, por que esperar por 1820? Talvez a Terra não estivesse preparada por completo, não sei… O que me pergunto é por que 1820 e por que Joseph Smith. Quais são os critérios divinos de escolha? Já me deparei com esta questão antes, mas acho que só posso confessar minha completa ignorância quanto aos modos de operação transcendentes. Ainda assim…

De acordo com os mórmons, em 1820, havia uma vasta liberdade de culto e, por isso, Deus teria esperado até esse ano para dar a revelação ao Smith. Se Ele o tivesse feito na Idade Média, onde o pessoal era obrigado a ser católico, o movimento mórmon não teria alcançado a mesma magnitude.

Outra coisa que me incomoda é a introdução ao Livro de Mórmon. Na página quinze, consta:

O Livro de Mórmon é um “registro da comunicação de Deus com os habitantes das Américas e contém [como a Bíblia] a plenitude do evangelho eterno” (Introdução do Livro de Mórmon).

O Livro de Mórmon, pelo que sei da doutrina mórmon, é a tradução do conteúdo das placas de ouro desenterradas por Smith. Elas estavam escritas em uma cifra (mais especificamente, egípcio reformado) que, com auxílio divino, Smith conseguiu decodificar. Cifras são um tipo de escrita, então essa comunicação ocorreu depois que a escrita apareceu em território americano. Mas será que há registro histórico dessas placas de ouro antes de serem desenterradas? Temos registros históricos de muitos acontecimentos bíblicos, notavelmente sobre a vida de Jesus, examinados de um ponto de vista cético, mas dessas placas nunca ouvi falar. Não ter registro histórico de um movimento dessa natureza que aconteceu após a introdução da escrita é, no mínimo, suspeito. Deveria haver algum documento, entalhe, qualquer coisa que sugerisse alguma pista sobre as placas de ouro antes de caírem nas mãos de Smith. Os mórmons me disseram que não há, contudo.

Outro ponto de divergência que encontrei, ainda na página quinze, reside no quão subjetivo é o resultado da oração em que pedimos sabedoria ao Pai. De acordo com os mórmons, essa oração (que eu fiz) deveria revelar se o Livro de Mórmon é verdadeiro:

Deve pedir a seu Pai Celestial que confirme que ele é Sua palavra. Ao fazer isso, Ele revelará a você por meio do Espírito Santo que o livro é verdadeiro.

Isso é sustentado pelo quinto capítulo de Gálatas, onde são enumerados os frutos do Espírito Santo (amor, gozo, paz, benignidade, bondade, fé, mansidão, temperança…). Sentir qualquer desses frutos após a oração, mesmo que em um grau minúsculo, pode levar uma pessoa a interpretar a sensação como um sinal positivo da parte de Deus. Isso é problemático porque um católico, protestante, testemunha de Jeová, budista, espírita, esoterista, muçulmano, satanista e até mesmo um hegeliano podem sentir essas coisas durante uma prática interna de sua religião. A sensação de paz após a oração é comum em muitas pessoas de diferentes cultos, as quais pedem coisas variadas em suas orações, coisas por vezes até anticristãs. Isso significa que a sensação de paz experimentada por uma pessoa que pergunta a Deus se ela pode confiar na Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias não é um sinal confiável de que Deus aprova aquilo, pelo menos não do ponto de vista racional. Um dos meus colegas disse que o Espírito Santo age em todas as pessoas e não apenas em uma religião específica, mas isso não sana minhas dúvidas quanto a validade dos frutos experimentados no mormonismo em relação à validade dos frutos experimentados em outros cultos.

Não me entenda mal, contudo. Pascal já dizia que convém apostar na existência de Deus e os pragmáticos também deixavam a religião passar na medida em que isso fosse benéfico ao praticante. Eu entendo que os mórmons veem valor em suas crenças e que cada um tem seu vazio metafísico que demanda preenchimento, logo não posso desaprovar a crença do próximo se eu tiver capacidade de me colocar no lugar dele. Se os mórmons vivem bem com sua religião, então tudo bem.

Minha mãe fica muito preocupada com minha saúde espiritual, mas acho que faço o meu melhor. Talvez o meu melhor não seja o bastante, mas prefiro ser rejeitado por Deus por ter feito aquilo que achei que estava em concordância com Sua vontade do que ser rejeitado sem nem sequer fazer esforço em não ser. Se os outros estiverem certos e eu errado, bom, paciência.

Acho que nunca falei mal de Deus, pelo contrário, teve um período em que só o que eu fazia era falar bem Dele. Basta pesquisar por “adolescência” na barra de pesquisa deste diário para saber o quão religioso eu costumava ser. Na verdade, olhando pra trás, vejo que fui o primeiro fundamentalista da minha família; eu tomava as Escrituras em sua completude no sentido literal. Não havia espaço para interpretação de texto, era fazer o que estava escrito sem pensar duas vezes. Até que tive uma aula de Ética que me ensinou o que eu nunca tinha pensado em procurar saber: como a Bíblia foi formada. Aí eu revisei minhas crenças e deixei de lado, aproximadamente, noventa e quatro por cento das minhas práticas. Com o passar do tempo e conforme eu aprendo sobre História, vejo que fiz a escolha correta ou, pelo menos, a única escolha que eu vi e até hoje vejo como correta.

Me inscrevi num curso sobre Marx que durará dez semanas e ocorrerá nos sábados, pra ter certeza que terei mais um certificado só a massa pra eu mostrar pra quem quer que me peça. Amo colecionar coisas e acho que colecionar certificados de cursos de filosofia é um ótimo passatempo por uma variedade de razões. Por falar nisso, nem me preocupei em pegar meu certificado do curso de informática e este acabou ano passado. Está bom de eu pegar, não só o meu, mas o da minha mãe também.

Apesar de eu ter poucos créditos, falei com minha mãe e ela me disse que não preciso me preocupar em trabalhar antes de me formar e que eu não preciso me sentir mal por não contribuir com a renda da família! Ainda assim, me sinto mal com isso de todo jeito. Eu nunca pensei que política algum dia faria diferença na minha vida; o descaso de Cid Gomes com a educação tem impacto direto sobre mim e meu futuro. Se eu cursar poucas disciplinas neste semestre também, acho que me aplicarei para um estágio, já que terei de fazer isso cedo ou tarde. Meu colega advogado e salvador de almas em meio-período me falou de uma tal Torre Quixadá onde eu posso conseguir estágio. Isso contaria como crédito extracurricular, parece. Preciso de trezentas horas de crédito extracurricular, acho, e o estágio durará mais ou menos isso, então… só tenho a ganhar, certo?

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