Analecto

6 de dezembro de 2019

Os "100 aforismos sobre o amor e a morte", de Friedrich Nietzsche.

Filed under: Livros, Notícias e política, Passatempos, Saúde e bem-estar — Tags:, , — Yure @ 15:13

O texto abaixo é uma honesta aula filosófica sobre 100 aforismos sobre o amor e a morte, escrito por Friedrich Nietzsche, com sugestões de como as ideias contidas em tal escrito podem ser usadas para desenvolver o país e ajudar as pessoas a se compreenderem.

Amor, cobiça e ciúme.

“Espero que ela tenha valido a pena.”

A bem da verdade, o amor pode ocasionar sofrimento. Os espíritos mais orgulhosos não admitem que o amor lhes faz sofrer. Por orgulho, então, uma pessoa que sofre por amor não revela esse sofrimento. É vergonhoso admitir que se sofre por amor. Tome por exemplo o amor não correspondido e a inveja por outra pessoa estar com aquele que você deseja pra si próprio. Algumas pessoas lidam com esse sofrimento desqualificando o amor entre aquelas pessoas: “ah, não é amor, é só cobiça, desejo carnal, eles não se amam de verdade.” Isso torna o sofrimento mais tolerável e talvez até te dê a sensação de que o relacionamento entre os dois terminará em breve. É só chamar aquele amor de “cobiça”.

Amor e cobiça são sentimentos muito próximos. Parece que a grande diferença entre um e outro é que um é “bom” e o outro é “mau”. O problema é que muitos podem julgar “bom” e “mau” com base nas suas próprias ambições: é amor quando eu tenho a pessoa que eu quero, mas cobiça quando outro tem a pessoa que eu queria ter. Assim, quando você quer se relacionar, vê todo o mundo se relacionando por aí, exceto você, você diz que ninguém ama de verdade, que tudo é cobiça. Mas você nem se importaria com essa “proliferação de cobiça” se você tivesse um parceiro. Aí, quando você tem, é amor e tudo tá perfeito.

Diferentes pessoas lidam com tal frustração amorosa de diferentes jeitos, porém. Tome o exemplo da mulher que não consegue se relacionar: para lidar com o sofrimento causado pela inveja, ela pode inventar pra si a ilusão de que é melhor que aquelas que têm um homem pra si. É uma recalcada. Essa palavra, “ter”, é adequada, porque muitas pessoas, na medida em que seu amor comporta também ciúme, querem o amado só pra si mesmas. Não querem partilhá-lo com mais ninguém. É como se o amado fosse sua posse mais valiosa. Isso mostra que, embora queiramos que o amor, em seu estado mais puro, seja altruísta, um monte de sentimentos que nós chamamos apressadamente de “amor” são manifestações de egoísmo: você quer o outro, às vezes até sem se importar com o que o outro pensa disso. Isso não é amor.

O ciúme leva uma pessoa a querer toda a atenção do amado pra si. Se o amado divide sua atenção entre o amante e outra atividade, o amante ciumento odiará essa atividade, a menos que tal atividade seja sua profissão, caso no qual o conforto do casal depende da atividade. Por exemplo: suponhamos que o amado gosta de jogar futebol. Se for um joguinho de futebol no final de semana com os amigos, a mulher ciumenta odiará que ele jogue futebol (e poucas coisas são mais tormentosas que o ódio feminino). Já se ele fosse um jogador profissional, ela não reclamaria.

Ao amar, é importante que a pessoa não se dê a outra, como uma posse. Você, ao amar uma pessoa incondicionalmente, isto é, sem estabelecer os termos da relação, o que pode e o que não pode, você se torna um escravo do outro. É preciso estabelecer limites com os quais você possa concordar. Se sua mulher, por exemplo, não discute esses termos com você ou te propõe termos que você vê que são injustos, não aceite (apesar de que a mulher é geralmente enérgica em sua vingança). Tem outras mulheres por aí. Uma coisa é amor, outra é exploração. Não permita que seu amor por alguém seja usado como coleira pela pessoa que você ama. Isso é especialmente grave numa situação em que a pessoa sabe que você a ama, mas não te ama de volta. É esse tipo de pessoa que explora você.

Mas existe um amor sem mescla de ciúme? Um amor “de verdade”? Sim, mas, infelizmente, raramente reconhecemos esse sentimento como amor. É a amizade. A amizade não comporta ciúme. Por causa disso, é o único amor verdadeiro entre os homens.

O casamento, sua durabilidade e seus problemas.

Será que casar vale a pena? Será que você está pronto pra conversar com aquela pessoa todos os dias da sua vida?

Amor eterno é sobrehumano, porque toda paixão acaba. Isso não quer dizer que você não possa voltar a amar alguém que deixou de amar e apenas se aplica ao amor por uma pessoa específica (pois é possível um amor duradouro pela humanidade inteira). Então, um casamento pautado somente na paixão rui quando a paixão esfria. O casamento que almeja a instituição de um amor eterno entre as partes pode degenerar em hipocrisia. Logo, não tenha em mente que o amor durará pra sempre e que o casamento, por causa disso, também durará pra sempre. Ele pode se extendido, porém.

Os casamentos que duram mais tempo são aqueles nos quais uma pessoa tira proveito próprio da outra. Se um for útil ao outro, o casamento se conserva. Mas se só um precisa do outro, o casamento rui. Os maiores amores não nascem apenas do desejo sexual, mas do reconhecimento de que você não pode ser feliz sozinho. Tem algo faltando na sua vida e você precisa dessa coisa pra se completar. Se você sente que uma pessoa que você ama pode te prover algo que te falta, você a amará mais do que se você não visse nela também um meio de completar o que te falta.

O casamento geralmente é feito entre pessoas que gostam ou afirmam gostar uma da outra. Ora, quando você passa a dividir sua casa com alguém de quem você gosta, você acaba gostando menos dessa pessoa. O casamento tem o grave problema de trazer pra mesma casa duas pessoas. E depois talvez uma terceira, o filho. Se manter muito próximo de uma pessoa desgasta a relação. Não apenas a pessoa se sente sufocada, como também você enjoa dela. O casamento, então, torna-se mais difícil de manter com o passar do tempo. Já se o casamento for pautado na utilidade mútua, ele sobrevive ao fim da paixão, porque as duas partes precisam um do outro pra outras coisas além do amor.

Decepção amorosa.

A expectativa elevada é uma subida a um lugar bem alto. Quanto maior a expectativa, maior e mais dura é a queda quando a expectativa é contrariada.

Quando amamos, é mais difícil ver as coisas como elas são. A ideia romantizada que fazemos dos relacionamentos é uma grande fonte de decepção. Nunca se deve entrar num relacionamento pensando que basta você pra fazer o outro feliz. A felicidade é um estado muito pessoal e assumir que você pode tornar alguém feliz é presunção. Você pode ajudá-lo a ser feliz, mas não pode torná-lo feliz. Se você entra num relacionamento achando que bastará sua companhia pra que o outro seja uma pessoa radiantemente alegre, você se decepcionará. “O amor tudo pode!” Eis uma frase problemática…

Outra fonte de decepção amorosa é a imagem que um dos lados deseja manter. Pra poupar o parceiro da dor de encarar aquilo que a pessoa tem de ruim, o amante esconde, ou tenta esconder, todas as suas falhas. Por exemplo: suponhamos que você esteja namorando alguém bem-sucedido, tanto quanto você, ambos têm um negócio e um quer ver o outro feliz, mas você também tem um desejo sexual muito intenso. Você quer ser o melhor pra pessoa que você ama, então você tenta se reprimir quando vocês não têm tempo pra se relacionar. Quando o homem ou a mulher se dedicam a outras atividades, especialmente construtivas, às vezes até pelo bem dos próprios filhos (é o caso do casal em que ambos os sujeitos trabalham pro sustento da família), há menos tempo pro sexo. O desejo insatisfeito pode levar qualquer das partes a adulterar. Então, se uma das partes de um casal, ou as duas partes do casal, se dedicam a coisas construtivas, uma parte deve entender se a outra adultera ou, sei lá, vê pornografia às escondidas.

Mas o fato é que você montou uma imagem de parceiro perfeito. Quando sua falha é descoberta em um momento de fraqueza, é muito provável que a pessoa fique decepcionada com você. Tristemente, muitas pessoas tentam se transformar na ideia que o amado faz delas. Mas se você tem que mudar por amor, você já não está dizendo que a pessoa não te amaria do jeito que você é, ou que você não acredita quando seu amado diz que não quer que você mude por ele?

Muitas vezes, porém, tal criação de expectativa no parceiro é involuntária. O amor verdadeiro traz pra fora comportamentos que nos são excepcionais e não normais. Então, quando o amor começa a esfriar, também essas caracaterísticas começam a desaparecer. Você está menos disposto a ajudar e a se sacrificar, por exemplo, a passar tempo com aquela pessoa. De repente, seu amado passa a se perguntar o que te fez mudar. O amor te fez mudar. É porque o amor desapareceu que você voltou ao seu normal, como era antes de amar.

Amor, medo e respeito.

Para Nicolau Maquiavel, um governante deve preferir ser temido, em vez de amado, sempre que tiver de escolher entre um ou outro. A razão disso é que é mais fácil fazer mal a quem você ama do que a quem você teme.

Existe uma diferença ligeira entre ser amado e ser respeitado. Quando você quer ser respeitado, é importante que o outro não te destrate. A forma mais fácil de fazer isso é causando medo. Ora, onde há amor não há temor. Se esse é o caso, uma pessoa que quer ser respeitada a todo custo precisa se tornar intratável, pra não ser amado. Porque, se ele não for amado, poderá ser temido, o que aumenta o respeito que outros têm por ele. Isso não quer dizer que os amantes não se respeitam, mas que geralmente se respeitam menos do que o empregado respeita seu chefe.

Em adição, o temor nos explica mais sobre o gênero humano do que o amor. Isso porque o amor nos distrai daquilo que o gênero humano (e também a natureza) tem de ruim, enquanto que o temor reconhece o que há de bom e de ruim no outro. Afinal, é importante conhecer aqueles que podem nos fazer mal, tanto pra nos defendermos deles quanto para tirar vantagem deles. O amor, nas humanidades, produz a arte, mas é o medo que produz a ciência.

Amor e a religião cristã.

A ênfase cristã no amor permite a fácil apropriação da religião pela arte, que é também voltada para o amor.

A religião cristã tem uma relação interessante com o amor. O judaísmo nos deu uma religião pautada na força, na conquista. Mas a religião cristã, ao enfatizar o amor, se torna esteticamente atraente. Quem sente falta de amor ou quem considera o amor algo importante sempre acaba vendo valor nos evangelhos. Se Deus é amor e eu me sinto feliz na prática do amor, eu quererei amar até mesmo meus inimigos. Ou, pelo menos, tentar… Se todos amassem uns aos outros indiscriminadamente, a vida na Terra já não seria um paraíso?

No entanto, é interessante que a religião também diga que somos dignos de ódio, nós, humanos. Se assim é, se não merecemos ser amados, como é que eu vou amar o próximo como a mim mesmo? Porque eu me odeio na medida em que eu digo que sou digno de ódio. Quem diz isso com convicção, já se odeia. Como então? Se o amor ao próximo é limitado pelo amor próprio (eu tenho que amar o outro como a mim mesmo, nem mais, nem menos) e eu me considero uma criatura odiável, eu vou acabar me sentindo justificado por odiar todo o mundo.

Assim, quem odeia a si mesmo acaba se tornando perigoso. Convencer a pessoa a se amar é, portanto, uma responsabilidade humanitária. Ninguém pode amar outra pessoa se estiver ocupado sentindo ódio constante de si. É pelo amor de si que a pessoa descobre quem ela realmente é (o famoso “torna-te quem tu és”) e pelo amor ao próximo que ela se aperfeiçoa.

A hora da morte.

A hora da morte pode ser um momento muito crítico. Depende de como concebemos a morte.

A morte é igual pra todos. Se assim é, não faz sentido que agreguemos ao valor de uma pessoa o julgamento de suas ações logo antes de morrer. Não tem importância se a pessoa aceita sorridente a morte ou se chora ao saber que sua vida está chegando ao fim. O que importa são suas ações em vida, particularmente aquelas que foram feitas quando seu corpo estava em melhor estado. Afinal, a pessoa poucas vezes se esforça em recordar como um ente querido morreu, mas lembra até sem querer das coisas que ele fez e ensinou. São suas ações em vida que farão as pessoas sentirem saudade de você… ou alívio por você ter morrido. A verdadeira diferença que faz uma pessoa só é sentida quando a pessoa não está mais por perto. Isso só acontece por causa das ações da pessoa e do impacto delas. Ora, as ações de um moribundo têm menos impacto. Os chamados “últimos momentos” são geralmente os que menos importam. Especialmente se a pessoa tiver deixado pra trás uma produção intelectual que será imortalizada.

Apesar disso, o momento da morte é um momento de muita comoção. Todo o mundo quer dizer algo ao moribundo, quando teve a vida inteira dele pra dizer essas coisas. Todo o mundo pensa que o cara que se vai aos oitenta anos viveu pouco. Você precisa aproveitar a companhia das pessoas que estão vivas enquanto você pode. Se você fica procrastinando, pode ser que depois seja tarde demais. A morte (ou o desaparecimento, a viagem sem volta ou qualquer coisa que signifique que você não verá mais aquela pessoa) é um fato. Se você tenta esquecer a morte a todo custo, se distrair dela, você esquece que as pessoas chegam ao fim. Se você esquece isso, você passa a pensar que sempre há tempo pra conversar, sair, jogar com aquela pessoa. Pensando assim, é mais fácil procrastinar. Aí, quando seu amigo morre, você pensa: “não fizemos metade das coisas que queríamos fazer.”

Eutanásia.

Matar é ilegal. Dependendo das circunstâncias, morrer também é.

O suicida quase sempre age racionalmente. Ele avalia se morrer vale a pena, e só valeria a pena se a vida lhe trouxesse mais sofrimento do que prazer. O suicida racional acredita que morrer lhe deixará no lucro, se a vida não lhe dá mais-valia. Se você deriva da vida muito mais sofrimento do que prazer, a vida vale a pena? Se esse sofrimento estiver lhe matando lentamente, você morrerá de qualquer jeito. Então, se a pessoa dispor de meios de morrer sem dor pra evitar o prolongamento do sofrimento, será que ele não tem direito a isso? Tal raciocínio levou países estrangeiros a sancionar leis que permitem a eutanásia, que é um suicídio assistido. Um médico ou equipe de médicos mata o paciente que escolhe morrer, utilizando sempre meios indolores e suaves. Isso não acontece no Brasil, porém. Aqui, isso é ilegal.

Numa situação em que você sabe que a morte é inevitável, como o caso de uma doença mortal e incurável, não seria interessante agendar a hora e o dia em que você vai morrer e, antes da ocasião, se preparar adequadamente, chamando seus familiares, dando instruções, se despedindo, jogando uma última partida de RPG de mesa só pra terminar a campanha, escrevendo mensagens em um blog ou enviando mensagens aos amigos que você só conhece online? Porque, atualmente, uma pessoa que sabe que vai morrer é mantida viva a todo custo e não tem controle sobre quando morrerá. Aí toda a família é surpreendida e os amigos, especialmente os mais distantes, só sabem que você desapareceu. Se tem uma coisa pior que saber que um ente querido morreu é não saber o que aconteceu. Então tal planejamento não pode ser uma coisa ruim.

A razão da interdição à eutanásia é moral. Nossa moral tem muito de religião também. Na verdade, a moral ocidental é uma tentativa de forçar todos a agirem de forma mais ou menos cristã. Parece injusto com o ateu que deseja se suicidar. Se bem que o ateísmo é incompreensível pra muitos em primeiro lugar.

Recomendações.

Antes de tomar uma decisão que pode mudar sua vida, avalie custos e benefícios.

O ciúme é um dos sentimentos mais baixos que o ser humano pode sentir. Parece até que nós não fomos feitos pra tolerá-lo. O ciúme arruína qualquer relação. Uma relação humana que estimula o ciúme, portanto, deveria ser evitada. Há várias pessoas no mundo, há muitas pessoas que você poderia amar. Por questões sanitárias (ou religiosas, caso você seja adepto de uma religião que não permite ter vários parceiros sexuais), porém, é melhor se relacionar sexualmente com apenas uma pessoa. Mas isso é diferente de amor. Há uma diferença entre amor e sexualidade, seja esse sexo por prazer ou por reprodução. Se o que você quer é amor, derive esse amor de todas as pessoas que estejam dispostas a dá-lo, especialmente na forma de amizade. Somente o sexo deve ser feito responsavelmente. Pondo as coisas dessa forma, uma relação sexual monogâmica deve ser sexual e nada mais. Sua violação não deveria ser vista como uma violação moral ou um ultraje, mas apenas como uma violação, no máximo, higiênica e sinal de que o parceiro é inseguro. Nesse caso, procure outro. Se tal relação tiver uma carga moral ou sentimental acima do que é merecido, haverá ciúme, medo e outros sentimentos que tornarão o relacionamento insuportável. Separar amor e sexo, o expurgo da sensação de posse do corpo do outro, a aceitação da procura e cessão de amor de todos e para todos, o aperfeiçoamento mútuo como objetivo comum entre os amantes, esses são os primeiros passos pra erradicação completa do ciúme na raça humana. A monogamia sexual deve ser vista exclusivamente como uma questão de saúde (uma preocupação reduzida pelos métodos preventidos já disponíveis) e nada mais, enquanto que a pluraridade afetiva, o amor de todos para todos, deveria ser encorajada.

Segue-se portanto que o casamento não tem razão de existir hoje. Em tempos de liberdade sexual, o casamento como compromisso eterno perde sua relevância. Tal relevância é ferida de morte com a facilidade com que divórcios são feitos. Pra que se casar? Ninguém pode te obrigar a se casar. Alguém pode se perguntar se uma monogamia exclusivamente sexual, como questão sanitária ou religiosa, justificaria a existência do casamento. Não justifica. O casamento tem várias cláusulas legais que não são necessárias a esse tipo de relação, cláusulas que não seriam cabíveis nem mesmo pra sexo casual com múltiplos parceiros, a menos que se esteja tentando decidir questões de custódia do filho. A certidão de casamento não tem razão de existir, mas a certidão de nascimento nunca perderá sua relevância. Alguém tem que cuidar do filho. E isso não justifica a existência do casamento mesmo como entidade legal? Também não, tanto porque o mundo é cheio de métodos contraceptivos como porque é possível ser pai sem estar casado com alguém. Não há necessidade de oficializar as coisas perante a corte, exceto naquilo que for necessário à regulação da custódia.

O problema da decepção amorosa pode ser facilmente resolvido adotando a visão de que podemos amar qualquer um e receber amor de qualquer um quanto também reduzindo nossas expectativas em relação à pessoa amada. É preciso parar de pensar que um casamento, ou mesmo um namoro, é uma experiência linda, maravilhosa, romântica, porque muitas vezes não é. É preciso olhar as coisas pragmaticamente. Se você entra em um relacionamento com grandes expectativas, você tem mais chances de ser frustrado. Se você entra com baixas expectativas, você tem mais chances de ter uma boa surpresa. Se seu parceiro te decepciona, procure outro. Há várias pessoas no mundo pra você amar.

Por último, aproveite ao máximo sua vida sem se preocupar tanto com a hora da morte. Se preocupar em excesso com isso te impedirá de aproveitar a vida e fazer algo construtivo com ela. Certifique-se de viver de um jeito que sua marca fique nas pessoas que você conheceu e que seu legado fique, porque as pessoas lembrarão de você por suas ações em vida.

18 de novembro de 2019

This is my last post in English.

Filed under: Notícias e política — Tags:, — Yure @ 15:24

Most of my audience is Brazilian and I have written in Portuguese for most of my days online. I really like to write in my native language, it’s much better for me and it’s easier for me to use a tone that isn’t so dry. When writing in English, I always end up being far too formal. That distances me from the audience. And, probably because I learned English in a school setting, I end up being stuffy when writing in English, like, saying the same thing over and over and sometimes producing long paragraphs. That makes my writing boring.

However, when I write in Portuguese, even when I write about age of consent reform, the positive response is much better, the traffic is faster and more consistent and I receive comments on occasion, though likes are more common than comments. Matter of fact, when I write about age of consent reform, in Portuguese, the responses are always neutral to positive. I don’t get comments, but likes are common. My notes about Rivas’ Positive Memories were liked by people who can be regarded as “normies”. That shows that positive feedback on this stuff can be given by regular people, at least here. That’s probably because the moral panic about adult/minor sex is weaker here: the age of consent is 14 and was almost lowered to 12 in 2011, and, provided that the adult is kind and the relationship is watched by the parents, a lot of people would tolerate this kind of relationship, perhaps more than they would tolerate a peer-aged homosexual relationship involving their child. Yes, depending on where you are in Brazil, adult/child sex (or rather, adult/adolescent sex) is better accepted than homosexuality, in a particular case, even though there are general suspicions.

I think that’s because, in the collective unconscious, there’s the belief that something needs to be harmful to be considered a crime. And, in a particular case, it may be the case, that is, parents, knowing the relationship of their child with a trusted adult, only intervene if damage is clear. All that I’m doing is making sure that statistical evidence and, specially, anecdotal evidence gets in the right hands.

So far, posting in English (in this blog) has brought me less results than writing in Portuguese. However, I noticed that the English version of the MAP Starting Guide, ever since it was posted to Ipce, attracts a lot of attention, but only to that text alone. That means that there are more people reading the stuff I have on Ipce than the stuff I have here, when it comes to English language. So, I was thinking of sending my translations to Ipce or other blogs with better exposure and in English language, such as Heretic TOC, Our Love Frontier and things alike, while leaving my blog only with stuff in Portuguese language.

This decision was also taken because, with the current political climate in Brazil, I feel like the age of consent reform must be put aside; there are more pertinent things to take care of. Our forests are burning, our seas are being polluted, people are hating each other over things that are imagined, rather than real, to the point of families being torn apart and lifelong friends no longer talking to each other. Everyone has become either a fascist or a communist, even though neither side knows what both words mean. With social media, people are also becoming more absorbed in their circle of supporters, causing them to no longer tolerate diverging opinions regarding government and institutions, specifically. Let me tell something funny: while none of the stuff about age of consent reform that I posted received any hate at all, the only time I criticized the president over his economic agenda got hate two days after I published the post containing the criticism. If you are in United States, you may probably find it hard to believe. This is a country where the left (whom they call “communists”) can be more hated than adult/minor sex. The left is subjected to blind hate nowadays, while age of consent reform is open for debate at the same time. Quirky, huh?

I sometimes wonder if that’s because the right-wing is having it’s time in Brazil and the right-wing in Brazil is a carbon copy of the worst things in the North-American right-wing. I would not be surprised if it was riddled full with resentful incels. That makes me also question if the first serious attack on the age of consent is going to come from the right-wing, rather than the left. I like to mention that “whether the left wants to legalize adult/minor sex or not, the fact is that the right can not wait”, because most of the adult/minor sex scandals involve people who position themselves at the right: religious authorities, Bolsonaro supporters, people like that. The right is already doing it. One guy who supported Bolsonaro (I forget if he was an army man or a policeman) was public against adult/minor sex and, yet, was arrested for child porn possession. Another, more recent: a music teacher, who is a Bolsonaro supporter, was arrested and convicted of statutory rape (yes, in a place where the age of consent already is 14, people are still willing to go after people who are younger than that).

But, if the right were to do an attack on the age of consent, wouldn’t the left react? I think that, since the left isn’t particularly concerned with sexualization of minors in Brazil, the reaction would be small. Even experts have a hard time talking to laymen in social media, because people with positive childhood sexual experiences, when given the opportunity, are outspoken about it. That causes experts to concede that those experiences can be positive, but are quick to add that they are “exceptional” and have to rely on emotion to make an absolute ban on such relationships acceptable. By the way, the most outspoken people in that regard, in Brazil, are women. Bruce Rind should come down here and study our ladies, cause I’m sure he would get a smaller rate of negative experiences, compared to the same rates in United States. Summed to that, we have the fact that feminists are a vocal minority here. Most women don’t identify as feminists and many despite it. That being said, a reaction against a possible right-wing attempt at lowering the age of consent would be weak, perhaps null. When the left proposed an age of consent reduction from 14 to 12, people were quick to retaliate. But nowadays, in the current climate, anything that comes from the right meets immediate support from fanatics (almost 30% of our population sides with the president no matter what) and would attain some support from more open-minded people. If the right were to do the same thing, today, it would work, perhaps even with some support from the left.

To sum up, I will stop publishing English texts in this blog and stick with my native language only. My English texts will be sent to other places, where they will likely get more exposure. I would prefer to use my blog to talk only to my people, from now on, about diverse topics, rather than sticking only with age of consent reform.

3 de novembro de 2019

A Bíblia Sagrada e o neoliberalismo.

A Bíblia Sagrada dá vários exemplos de como cristãos deveriam ser caridosos com o próximo, de como a riqueza é algo se deve desprezar como secundário e de como a conduta correta é a repartição, preferencialmente igualitária, da riqueza e dos bens. Apesar disso, os evangélicos elegeram Jair Bolsonaro como presidente da república. Ora, Jair tem um programa de governo neoliberal. Isso só pode ter acontecido porque os evangélicos mantém noções erradas da palavra de Deus e também porque aqueles que querem um sistema justo de distribuição de riqueza ignoram o valor da Bíblia Sagrada e da religião em geral como dispositivos para o avanço dessas pautas.

O voto cristão e Bolsonaro.

Bolsonaro foi eleito com apoio dos evangélicos. Isso não é surpreendente? Como podem pessoas que afirmam se guiar pela escritura sagrada votar em tal sujeito? Que foi feito da ideia de que temos que ler e interpretar a Bíblia Sagrada nós mesmos? Quem são esses fiéis? Não parece haver resposta certa para estas perguntas. Mas teorias existem. E a minha é de que as forças do progresso e da ordem desprezam o potencial da Bíblia Sagrada. É pela torção das sagradas letras que pastores ficam milionários. Por que não usar seu texto em sentido claro para tornar mais fácil a vida dos pobres?

Bolsonaro tem um projeto de poder neoliberal, alavancado pelo seu ministro da economia, Paulo Guedes. Nada é mais anticristão do que o neoliberalismo econômico. Se a oposição tivesse insistido neste ponto, talvez o resultado eleitoral fosse diferente. E quanto à legalização da posse e do porte de armas? Jesus aprovaria isso? Alguém pode argumentar que Bolsonaro é conservador nos costumes, como a Bíblia Sagrada também é. Mas as traduções mais tradicionais da Bíblia Sagrada trazem os onze primeiros versos do capítulo oito do Santo Evangelho Segundo São João, onde é dito que não cabe a um pecador julgar outro pecador. Só pode atirar a pedra quem está sem pecado. Então, não cabe a mim julgar o comportamento do outro, porque também eu cometo erros. Logo, eu não posso condenar um homossexual, por exemplo, tanto quanto não posso condenar um adúltero ou mentiroso. Não cabe a mim condenar. O Novo Testamento não sanciona isso. Então não se deveria votar em alguém que diz que bateria em dois homens vistos se beijando na rua.

Não estou dizendo que deve haver uma fusão entre igreja e governo, porque acredito que o governo só deve proibir aquilo que faz mal ao povo e que a república democrática é o melhor modelo político disponível no momento. Não cabe ao governo cuidar da alma do povo. O que estou dizendo é que a Bíblia Sagrada pode e deve ser usada como dispositivo para justificar a justa repartição de riqueza. E este é o objetivo deste texto, a saber, mostrar como fazer isso. No entanto, para evitar produzir um texto muito longo, me focarei unicamente na pauta econômica, mais especificamente na defesa de um sistema de distribuição de riqueza, no qual a coleta de impostos é convertida em serviços públicos de interesse geral, como educação, saúde, segurança, moradia, sustento, entre outros, de forma que a pobreza não seja impedimento à vida ou à aquirição de emprego. Para garantir isso, deve haver interferência estatal na economia e uma gorda receita tributária (preferencialmente escalonada para que os ricos paguem mais que os pobres).

Só a fé salva?

Em se tratando de evangélicos, temos que lembrar que eles, como protestantes, têm suas doutrinas fundamentais ancoradas ou baseadas no trabalho da juventude de Lutero. Nesse trabalho, podemos destacar duas doutrinas frequentes. A primeira diz que a fé, sem as obras, basta para salvar, e que a prescrição de mandamentos pela sagrada escritura tem como única finalidade nos mostrar que nossas próprias forças não bastam para nos salvar. A fé seria então a única virtude verdadeiramente cristã e o cristão deveria se ocupar somente dela, sem se importar com nada mais (seja porque ele não tem, como ser humano, forças para fazer o que Deus manda, seja porque nenhuma boa obra pode conduzir à salvação do crente). Isso se liga à segunda doutrina, segundo a qual estamos salvos “de graça”. Como pode? Porque o ser humano, incapaz de fazer o bem por conta própria, só pode fazer o bem pela ação divina em sua pessoa. Logo, nenhuma boa ação que ele venha a fazer é mérito dele, mas de Deus, que age nele. Se é assim, não merecemos a salvação e nada do que façamos nos fará merecê-la. Só podemos ser salvos pela graça divina, a qual, como veremos no parágrafo seguinte, parece excluir as obras. Vemos então que a doutrina segundo a qual somente a fé é a virtude própria do cristão (a única) e a doutrina segundo a qual a graça de Deus nos salva (porquanto nenhuma boa ação é mérito nosso) se complementam.

Alguém pode se perguntar se tais doutrinas encontram amparo bíblico. Aparentemente, todo o amparo bíblico para essas doutrinas vêm das epístolas paulinas, particularmente a Epístola de São Paulo aos Romanos. No primeiro capítulo, Paulo diz que todos os males morais que acometem os destinatários da carta vêm da idolatria. Por exemplo: a carta diz, categoricamente, que a imundície é consequência da idolatria. Isso implica dizer que acreditar (veja aqui o papel que tem a fé) em coisas erradas leva a uma degeneração comportamental, porque Deus abandona o idólatra à concupiscência. Por outro lado, a mesma carta também diz que acreditar em Cristo como o único salvador e acreditar que ele ressuscitou dos mortos proporciona a salvação. Em vários pontos da carta aos romanos, a capacidade de justificação pelas obras, particularmente as obras da lei de Moisés, é esvaziada, porque Paulo apresenta a graça e as obras como tendo valor soteriológico mutualmente excludente. Isso apesar de Jesus condicionar a salvação à observância dos dez mandamentos, que fazem parte da lei de Moisés. Na Epístola de São Paulo aos Efésios, é dito que, por causa da fé, a graça de Deus nos salva.

Se você também se pergunta como podem cristãos modernos cometer grandes atrocidades, aí está sua resposta. Se espera que pelo cultivo da fé, Deus aja na pessoa do crente e mude seu comportamento. Enquanto isso não acontece, a única coisa com que devo me preocupar é minha fé. É preciso ser crente, não necessariamente bom, porque, se eu for crente, se espera que serei bom por consequência, já que a divindade agirá em mim e me impulsionará a ser bom. Este é o raciocínio implícito.

Surge uma dúvida: como é possível tal interpretação em face das palavras de Tiago, para quem “a fé sem as obras está morta”? A história responde: Lutero não considerava a Epístola Católica de São Tiago como canônica. Assim, a carta de Tiago, que põe pesada ênfase nas obras, na prática do bem, no trato igual entre os homens e na repartição de bens com os necessitados (como viúvas e órfãos), não foi considerada por Lutero como sendo inspirada por Deus. Isso acontece porque Lutero não queria incluir na sua versão da Bíblia Sagrada nenhum texto deuterocanônico. Saem, portanto, a Epístola de São Paulo aos Hebreus, a Segunda Epístola Católica do Apóstolo São Pedro, a Segunda Epístola Católica do Apóstolo São João, a Terceira Epístola Católica do Apóstolo São João, a Epístola Católica de São Judas, e o Apocalipse de São João, além da já mencionada carta de Tiago.

Se a fé basta para salvar, como podemos convencer tais pessoas de que seu proceder é errado? Se o ser humano é incapaz de praticar o bem com suas próprias forças, de que adianta dizer para alguém mudar de comportamento? E a dúvida que deve ter surgido na mente do leitor cristão: como harmonizar a exortação de Tiago e as palavras de Paulo? Chegaremos em breve a esse ponto.

Para quê ir à igreja?

Mas se a fé basta para salvar, qual é o sentido de ir à igreja? Bastaria crer para ser salvo. O Santo Evangelho Segundo São João, tão citado pela direita (o famoso “e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”, mas observe o contexto deste verso), também diz que haverá tempos em que templos se tornarão obsoletos. Deus é espírito, e convém que ele seja adorado em espírito e em verdade. Qual, portanto, é o sentido de ir à igreja? Não há necessidade de ir à igreja. Ir à igreja faz sentido para um católico, o qual sente que precisa dos rituais, dos sermões, das vigílias, dos jejuns. Mas o protestante e, consequentemente, o evangélico tem como sua única virtude redimidora a fé.

Suponhamos que Lutero esteja correto e suponhamos que a fé habilita o intuito divino a se manifestar em você, melhorando seu comportamento ou, talvez, sua vida em geral. Lembre que no primeiro capítulo da carta aos romanos, Paulo atribui todos os males da população romana à idolatria. Ora, idolatria é adorar algo que não é Deus. Nutrir uma crença falsa. Pense: sua vida melhorou por você ir à igreja? Se sua vida continua a mesma coisa ou piorou, então, segundo essa interpretação da carta aos romanos, você está acreditando em algo errado. Se você nutre crenças erradas, nenhuma quantidade de fé mudará sua vida. Mas como determinar se eu nutro crenças erradas?

Jesus diz que pelos frutos se conhece a árvore e que não pode uma árvore boa dar maus frutos. Veja a atitude dos seus líderes religiosos ou da organização religiosa com que você está envolvido. Por acaso é uma instituição que só se preocupa com dinheiro, que exige dízimo de certa quantia? Ninguém deveria ser forçado a dar o dízimo, muito menos em certa quantidade. Uma igreja que faz do dízimo seu evento central, que vende bens em seus cultos, tem, logo, o lucro como objetivo. Ora, o amor pelo dinheiro é a raiz de todo o mal. Um pastor que só se importa com o dinheiro tem em si a raiz do mal. Uma árvore com tal raiz só pode ser má e uma árvore má só pode dar maus frutos. Saia dessa igreja. Sua vida nunca melhorará por causa de sua permanência nela.

O compromisso cristão com os pobres.

Felizmente, vários evangélicos não agem de acordo com a doutrina protestante tradicional e acreditam que as obras têm seu valor, tanto quanto a fé. Isso é ótimo. Porém, os evangélicos, ao menos em sua maioria, estão preocupados com condutas meramente pessoais em seu caminho para a salvação. Não estão interessados em condutas que afetam positivamente o próximo. Por exemplo: o evangélico pode não ter dificuldade em guardar a pureza sexual, mas ter muita dificuldade em dar uma esmola. No entanto, como vemos na carta de Tiago, a fé sem as obras está morta. As obras que Tiago menciona são, por exemplo, visitar os órfãos e as viúvas em suas adversidades. Isso é tão importante quanto guardar-se imaculado do mundo. Não basta fazer bem a si mesmo. É preciso fazer bem aos outros. Essa é uma fé que dá frutos. Essa é a verdadeira religião.

Se uma árvore, para ser considerada boa, precisa dar bons frutos, então a fé, se é genuína, precisa das obras. Uma pessoa é julgada boa por suas ações. Uma fé verdadeira vem acompanhada das obras. Uma igreja “correta”, se é que há alguma, precisa colocar ênfase nas obras, tanto quanto coloca na fé; ênfase na edificação e no amparo do próximo, tanto quando no cuidado consigo próprio. As obras que o cristão deve fazer são aquelas ordenadas por Jesus, o qual exalta os pobres a todo momento e olha também para os ricos que aos pobres ajudam. Se você crê que a fé correta muda o comportamento, considere se essa é a fé correta: não basta crer, é preciso também ser bom e não apenas bom para si, mas também para os outros. Ora, um sistema de repartição de riqueza que garante que os ricos terão compromisso com os mais pobres e que os pobres, apesar de sua pobreza, não passarão necessidade de vestimenta, comida ou abrigo, tal sistema é defendido pela esquerda. A abdicação do excedente de vestimenta e a repartição da comida eram, inclusive, condições impostas por João Batista para o batizado. Alguém pode argumentar que o governo, se por um lado não pode proibir a homossexualidade, por outro não pode exigir que haja um sistema de repartição de riqueza “cristão”. No entanto, um sistema de repartição de riqueza bom também é uma reflexão civil. Além disso, embora Jesus não tenha nos obrigado a atacar pecadores (pelo contrário), ele nos ordenou a não acumular usura quando podemos usar nossos recursos para ajudar outros que precisam do excedente mais que nós. Logo, se o cristão não deveria votar em homofóbico, ele poderia, se o programa econômico fosse convincente, votar num socialista.

Ciente disto, sujeitos que se levantam contra o neoliberalismo deveriam se apropriar da Bíblia Sagrada tanto quanto os neoliberais dela se apropriam. Primeiramente para criar uma cultura de caridade entre as pessoas, em seguida para mostrar que é a caridade que motiva a economia igualitária. Queremos dar uma oportunidade a todos de ter educação, saúde, segurança e trabalho, não apenas aos ricos, mas também aos pobres, que se voltam para os serviços públicos para obter tais recursos. Não é como faz o neoliberalismo econômico, para quem cada um merece apenas aquilo pelo que pode pagar.

Versos seletos.

A lei de Moisés também estava preocupada com o estímulo à caridade. Um exemplo icônico é a ordem para não recolher a comida que cai durante o transporte após a colheita (Levítico 19:10). Após fazer a vindima, se algum fruto caísse, o dono da vinha deveria deixar o que caiu para trás, porque um outro, mais necessitado, poderia aparecer. Assim, a comida que caísse após a colheita ficava automaticamente para quem a encontrasse primeiro. Afinal, o dono da vinha já teria o bastante para si mesmo. Orientação similar pode ser encontrada em outro verso, no qual é dito que, durante a colheita, o dono da vinha não deveria colher tudo, mas sempre deixar um pouco por colher, para que outros, ao passarem necessidade, pudessem entrar na vinha e colher para si, direito garantido também aos estrangeiros (Levítico 23:22).

O compromisso com o próximo também está em outros livros da lei. Por exemplo, a lei também diz que eu não devo endurecer meu coração ou fechar minha mão para o pobre (Deuteronômio 15:7-11). Pelo contrário: eu devo lhe emprestar o que lhe bastar para que supra sua necessidade. Este texto é interessante por usar o termo “emprestar” em vez de “dar”. Porque se houver pleno emprego, uma pessoa, ao se levantar de sua necessidade, poderá coletar recursos para si mesma e também para retribuir a beneficência prestada. Eu só posso devolver o que me foi emprestado se eu tiver como. Podemos então entender este verso como uma dupla exortação à caridade e também ao trabalho. No assunto do emprego, é fácil fazer um paralelo entre o que diz a lei e a rejeição, por exemplo, à aprovada reforma trabalhista. Porque a escritura diz que o chefe não deve oprimir quem trabalha para ele (Deuteronômio 24:14). Muitas pessoas vão à igreja aos domingos, por exemplo. Não seria uma opressão a essas pessoas se elas tivessem que trabalhar também no domingo, como quer a medida provisória da liberdade econômica?

Essas, porém, são recomendações aos súditos. E quanto aos governantes? Sabemos que um governo que desfavorece os pobres é reprovável a Deus (Isaías 3:14-15). É difícil ler algo assim e não pensar na reforma da previdência. Por pouco ela não foi fatal. O texto aprovado pelo congresso ainda é bem ruim, mas teria sido pior com o regime de capitalização, entre outras coisas removidas em um processo de “desidratação“. Uma reforma que tira de quem não pode se defender é uma pilhagem.

Diga-se de passagem, a opressão aos necessitados foi uma das razões por trás do incidente em Sodoma! É muito interessante que quase todo o mundo, ao lembrar de Sodoma e Gomorra, só recordem dos residentes que tentaram estuprar os anjos recebidos por Ló, quando a própria escritura diz que o pecado de Sodoma foi, ao mesmo tempo, a abundância de riqueza e a opressão aos pobres (Ezequiel 16:49). Ora, pobres só podem existir em uma cidade abastada se a riqueza não estiver sendo justamente distribuída. Considere o Brasil: uma enorme arrecadação tributária, que poderia ser convertida em serviços que todos, pobres e ricos, poderiam usar, mas, especialmente agora, se tira dos pobres para dar aos ricos. Sodoma é aqui. Lembremos que o pecado traz consequências, mas cada um sofre pelos pecados que comete (Ezequiel 18:10-19). Muitos dos que votaram em Bolsonaro, especialmente os chamados “pobres de direita”, já se arrependeram. Se atentarmos para os mais necessitados que nós e deixarmos o emprego da violência, seremos menos dignos de punição. Quem já se arrependeu do voto que deu, bem fez. Faça melhor nos anos seguintes.

Novamente, ainda nos profetas, a escritura diz que o nosso próximo é digno não do nosso desprezo, mas da nossa piedade, misericórdia e juízo justo. Não devemos piorar a vida dos pobres, mas nos comiserarmos (Zacarias 7:9-10). Poderia ser você a passar necessidade. Em um sistema de justa repartição de riqueza, você não perderia acesso ao necessário por ter empobrecido. Quem é misericordioso é também digno de misericórdia. Ao permitir que o pobre tenha educação, saúde, segurança e emprego, também você terá permissão a essas coisas caso você venha a ser pobre depois.

Ao ser perguntado sobre o que fazer para obter a vida eterna, Jesus respondeu com os últimos seis mandamentos e o mandamento de amar ao próximo como a si mesmo. Porém, Jesus também diz que, se quisermos ser “perfeitos”, devemos também vender o que temos e dar o dinheiro aos pobres. A razão para isso é que tudo aquilo que sacrificamos nesta vida nos será dado de volta, talvez em dobro (Mateus 19:17-29). Este verso é interessante porque implica que a vida futura não será igual para todos. Mesmo que a observação do decálogo proporcione a salvação, a vida futura será melhor dependendo do quanto você ajudou o próximo nesta vida. E Jesus fala especificamente de dinheiro. É ajuda material. Novamente vemos aqui que Deus se opõe à opressão aos pobres. Em adição, vemos aqui que a observância do decálogo permite a salvação. Isso porque o decálogo, que ulteriormente se resume no amor devido a Deus e no amor devido ao próximo, é aquilo que fundamenta toda a lei (Mateus 22:37-40). Se admitimos que as obras são necessárias à fé, as obras de que precisamos são aquelas que edificam o próximo, inclusive materialmente.

O amor ao próximo é também importante por outra razão. A escritura diz que o amor devido a Deus e o amor devido ao próximo é mais importante que os holocaustos e sacrifícios (Marcos 12:29-33). Na lei de Moisés, os sacrifícios servem para expiar pecados. Se o amor é mais importante que o sacrifício, pode o amor perdoar pecados? Logo após ensinar a oração-modelo, que diz “perdoa-nos nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos que nos devem”, Jesus diz que o perdão ao próximo nos habilita ao perdão divino. Então, sim, o amor, e o perdão é uma manifestação de amor, proporciona perdão pelos pecados cometidos. Então, quem muito ama tem muitos pecados perdoados. Ame seu próximo, portanto.

E quem é meu próximo? A escritura diz que o amor ao próximo salva, mas, caso alguém queira se justificar, talvez seja necessário saber quem é esse próximo. O próximo é quem mais precisa de nós (Lucas 10:27-37). Novamente, misericórdia, compadecimento, mas também ajuda material. Eis outro gancho para a discussão sobre a distribuição de riqueza contra o neoliberalismo.

Se a Bíblia Sagrada tem se mostrado vermelha agora, os Atos dos Santos Apóstolos, Escritos pelo Evangelista São Lucas vão ainda mais adiante. Há vários princípios de repartição de riqueza na esquerda. Entre eles está “de cada um segundo sua capacidade, a cada um segundo sua necessidade“, assegurando que, ao menos potencialmente, tudo fosse de todos (ou tudo fosse “comum”, daí o termo “comunismo“). Ora, a segunda parte desse lema, “a cada um segundo sua necessidade”, ocorre duas vezes neste livro, uma vez em Atos 2:44-45 e outra em Atos 4:30-34. Na igreja de Jerusalém, pouco tempo depois da partida de Jesus, os devotos vendiam suas posses, davam o dinheiro aos apóstolos, os quais, por sua vez, adquiriam aquilo de que os devotos precisavam e distribuíam os bens segundo a necessidade de cada um. Se alguém precisasse de determinado bem mais que outro, o bem seria cedido ao que dele mais precisasse. Se os apóstolos não fossem uma classe diferente de indivíduo (de forma que havia classes sociais, apesar de os apóstolos se recusarem a ser tratados com reverência) e se Deus não governasse a igreja (de forma que havia, portanto, governo, logo estado), a igreja de Jerusalém seria uma sociedade comunista. É um absurdo que os comunistas da atualidade não estudem este assunto. Esse também é o livro que conta como Tabita, mulher cheia de boas obras e que dava esmolas, foi ressuscitada (Atos 9:36-42) e como um centurião que também dava esmolas foi digno de ser visitado por um anjo (Atos 10:1-4). Novamente, fazer bem aos que precisam. Se alguém precisa de ajuda material, outra ajuda não serve. Fazer bem ao próximo também é uma boa obra e o cristão não deve limitar suas boas obras somente a si mesmo. Essas pessoas davam seu excedente a quem mais precisava e receberam o favor de Deus.

Somos exortados a não tratar as pessoas com diferença (Tiago 2:1-8). Por que um a pessoa que se diz cristã votaria em um projeto de governo que trata diferentemente pessoas de um mesmo segmento, como militares de diferentes patentes? E mesmo que o governo tivesse que taxar o povo de forma diferente, por que taxar mais os que têm menos? O ideal seria tratar todos de maneira igual (homens e mulheres, por exemplo, deveriam se apostentar com a mesma idade e tempo de contribuição), mas, como isso muitas vezes é impossível, não faz sentido tirar de quem pode não sobreviver sem esse dinheiro. É o caso dos pobres.

Orientações.

Este texto, repito, não deve ser visto como uma defesa da união entre igreja e governo. Isso porque um governo cristão deverá elevar o evangelho ao grau de política pública. Um governo que tenta tal coisa, se torna vulnerável e será tomado por outras nações. Ele também se tornará pobre e sua população diminuirá aceleradamente. Esses problemas são expostos por Rousseau em seu Contrato Social, no qual ele diz, sucintamente, que o evangelho, ao pregar a castidade, o desapego aos bens materiais (lembre que é mais fácil um camelo passar pelo olho de uma agulha do que um rico pelas portas do paraíso) e o pacifismo, diminui a população e empobrece o estado, o qual também se vê obrigado a abrir mão de suas forças armadas. Também por esta razão, sempre se deve suspeitar de qualquer governante que se diga cristão: cedo ou tarde, ele terá de escolher entre seu povo e Cristo. A menos que a pessoa pense que exercer função de governante, legislador ou juiz provavelmente (especialmente em tempos de paz) não o colocará em confronto com suas crenças, aconselho que nenhum cristão se candidate a cargo político ou jurídico.

No entanto, a escritura também diz que quem pode fazer o bem e não faz, peca por omissão. Então, de um ponto de vista estritamente pragmático, seguindo o princípio de que devemos fazer bem, inclusive materialmente, ao próximo, devemos votar no projeto de governo que proporcionará o maior bem-estar para o maior número de cidadãos. E este é o uso que eu gostaria que fosse feito deste texto: fazer as pessoas verem que, ao menos no que diz respeito à economia, a Bíblia Sagrada não pode ser usada como fundação de apoio à direita política neoliberal.

As forças de esquerda não estão sabendo como utilizar esse dado. A direita usa a escritura para descreditar as pautas sociais de esquerda, mas não se vê a esquerda usar o mesmo texto para descreditar a direita socialmente e também, principalmente, economicamente. Isso é um problema num país onde o cristianismo é hegemônico e onde o protestantismo ganha cada vez mais espaço. O socialista ou comunista que vê a religião como inimiga já está derrotado no Brasil. O que se deve fazer é usá-la inteligentemente para trazer os cristãos de volta ao amor ao próximo. A direita usou um verso bíblico como seu bordão. A esquerda também poderia adotar um (se não os candidatos, ao menos os eleitores). Tal verso poderia ser Tiago 4:17.

8 de setembro de 2019

The size of the task.

Filed under: Livros, Passatempos — Tags:, , , — Yure @ 15:29

As I said, I am abandoning the annotation format and converting annotations already published into proper texts. The size of the task is this: 122 entries to be modified and 122 to be deleted. While I complete this task, I do not intend to post anything new. At most, you will notice the number of published entries decreasing and the content of some being gradually (or even suddenly) modified. So if it looks like I’m too quiet, I’m actually just doing this maintenance. If you want to talk to me, there’s a contact form on the sidebar. Or you can comment on this entry and I will reply when I see it. I apologize to the six or seven frequent readers of this site! I will be as quick as possible.

O tamanho da tarefa.

Filed under: Computadores e Internet, Passatempos — Tags:, , — Yure @ 15:25

Como eu disse, estou abandonando o formato de anotação e convertendo as anotações já publicados em textos propriamente ditos. O tamanho da tarefa é este: 122 entradas a ser modificadas e 122 a ser apagadas. Enquanto eu termino esta tarefa, eu não pretendo postar nada novo. No máximo, você perceberá o número de entradas publicadas diminuindo e o conteúdo de algumas sendo gradualmente modificado (ou até subitamente). Então, se parece que eu estou silencioso demais, o que acontece é que eu estou apenas fazendo essa manutenção. Se você quiser conversar comigo, tem um formulário de contato aí, do lado. Ou você pode comentar nesta entrada mesmo e eu respondo quando ver. Peço desculpas aos seis ou sete leitores assíduos deste sítio! Serei o mais rápido possível.

What I learned from reading “Recalled Sexual Experiences in Childhood with Older Partners: A Study of Brazilian Men Who Have Sex with Men and Male-to-Female Transgender Persons.”

Filed under: Saúde e bem-estar — Tags:, , — Yure @ 15:02

“Recalled Sexual Experiences in Childhood with Older Partners: A Study of Brazilian Men Who Have Sex with Men and Male-to-Female Transgender Persons” was written by Alex Carballo-Diéguez, Ivan Balan, Curtis Dolezal, and Maeve B. Mello. Below, what I learned reading this text.

  1. The aim of the study is to verify the frequency of occurrence of sexual relationships between boy or transgender with older partner in the Campinas region and to verify if such experiences are related to risky sexual behavior in adulthood.
  2. The method used involves the use of a questionnaire and an HIV test.
  3. Among the participants (575), 85% were boys or cisgender men and 15% were males (biologically) who did not identify as men.
  4. Among the participants, 32% said they had an older sexual partner back when they were children or adolescents.
  5. The average age for the younger party was nine years and the average age for the partner was nineteen.
  6. Most of the older partners were men.
  7. Of all participants who had sexual experiences in childhood or adolescence with an older partner, only 29% considered the experience abusive.
  8. 57% said the experience was pleasant.
  9. 29% say they feel indifferent about the sexual contact that took place in their younger years…
  10. Only 14% say they did not like the experience at the time it occurred.
  11. Transgenders had such experiences more often and had a higher positive response rate than cisgenders.
  12. Precocious subjects did not necessarily develop life-threatening sexual behavior.
  13. It is important to hear the child or adolescent about his or her judgment of the experience rather than assuming that what happened was abuse.
  14. People whose gender (mental and social) doesn’t match what is expected for their sex (biological) may have different perceptions of such experiences.
  15. Not all adult-child sexual relationships are violent.
  16. A good definition of child sexual abuse needs to define what can be considered sexual, at what age one can be considered a child, and what the age difference between participants must be to qualify age disproportion.
  17. It is also important to consider the effect of the participants’ gender in the appraisal of the experience.
  18. A distinction must be made between children’s sexual experience and adolescents’ sexual experience.
  19. A distinction needs to be made between the sexual experience of the child or adolescent from different nations in order to assess whether or not local laws and customs influence how the experience is judged by the child or adolescent.
  20. Finally, it is necessary to know from the child’s or adolescent’s point of view whether he or she considers the occurrence to be a negative experience or not.
  21. Finding out the prevalence of precocious sexual relationships is a very difficult task.
  22. If there is no closed definition of child sexual abuse, comparing results from different studies on the subject will be difficult or even impossible.
  23. Contrary to popular belief, boys can also suffer child sexual abuse.
  24. Most studies on early sexual experiences are conducted in Europe and the United States… which may hinder the generalization of these data…
  25. To alleviate this problem, the study authors decided to analyze data obtained in Brazil.
  26. For the sake of safe data, the study defines “early sexual experience with an older partner” as that which occurs between a person aged thirteen or younger and another at least four years older (for example, between a child of eleven and a teenager of fifteen).
  27. A homosexual boy may look for an older partner because the risk of being discriminated or laughed at is lower.
  28. The study defines “child sexual abuse” as an early sexual experience with an older partner, provided that such experience has caused emotional or physical discomfort.
  29. Study participants were recruited between 2005 and 2006.
  30. To qualify for the study, the subject had to be at least fourteen years old (Brazilian age of consent) at the time of the interview.
  31. Most early sexual experiences with older partners occurred with people outside the family.
  32. Among the experiences that take place within the family, most experiences occur among cousins.
  33. Very few participants have had such experiences with older girls or women.
  34. Such experiences involve games of “show”, intimate caress, masturbation, oral sex or anal sex.
  35. Anal occurred more often among transgenders than among cisgenders, in a ratio of 86% (transgender) to 51% (cisgender).
  36. Only a quarter of participants report being forced during the sexual experience.
  37. Less than a fifth say they have been threatened.
  38. Only one in ten participants reported experiencing physical pain during the experience.
  39. In total, 66% of reported experiences did not involve use of force or presence of pain.
  40. Less than one third of participants considered their early experience an abuse.
  41. 55% said they enjoyed the experience, 29% said they were indifferent and 14% said they did not like the experience at the time it occurred.
  42. Of the 114 subjects who said they did not feel bad at the time the experience occurred, only 22 considered the experience to be abuse even though they were not harmed by it.
  43. Interestingly, of the 76 who claim that experience harmed them at the time it occurred, only 41 considered the experience to be abuse.
  44. It follows that it is easier for a child or adolescent to consider his experience abusive if he has suffered from the experience.
  45. In addition, being abused (negative experience) is correlated with life-threatening sexual behavior in adulthood.
  46. 73% of men and 88% of transgender people deny that their experiences were forced.
  47. 80% of men and 86% of transgenders deny being threatened during the experience.
  48. 91% of men and 77% of transgenders deny having felt pain as a result of the experience.
  49. A minority of respondents say the experience was sexual abuse.
  50. It is necessary to distinguish between “abuse” of the child (when the child suffers) and “abuse” of the customs (when the child does not suffer, what was violated was the social norm that forbids these experiences).
  51. Something is not abuse just because the law says so.
  52. If I do not believe the child or adolescent who denies that the experience was violent, why should I believe the child or adolescent who claims that the experience was violent?
  53. People condemn the Brazilian Carnival because it is a time when many indulge in sexual licentiousness, but such licentiousness is not unique to the Carnival.
  54. A boy who attracts attention from an adult can take pride on that.
  55. Sexual discrimination can affect school performance.
  56. It should be remembered that such data were obtained in Campinas and surrounding areas, but data obtained in other parts of Brazil may differ.
  57. Local culture affects the way we view and judge our sexual experiences at a vulnerable age.

7 de setembro de 2019

Cansaço (e Skyler7).

Filed under: Computadores e Internet, Livros, Passatempos — Tags:, — Yure @ 11:10

Sabe, ontem, eu estava pensando na cama sobre este sítio na Internet e sobre o uso que venho fazendo dele. Eu não gosto mais de falar da minha vida pessoal por aqui, e não tem nada que eu possa dizer sobre o cenário político que outros já não tenham dito. Só o que eu posso fazer com alguma satisfação é a publicação de anotações sobre o que leio. Isso até ontem: estou perdendo a vontade de publicar anotações. A razão pra isso é muito simples: elas são bem feias e não dá gosto de lê-las.

Foi uma péssima ideia de design eu escolher o formato de anotações pra comentar livros, páginas online e artigos científicos. Eu deveria ter escolhido o formato de resenha. Profundamente me arrependo de não ter feito isso. Cinco anos após ter começado, fazendo anotações sobre a Metafísica de Aristóteles, eu começo a ver que foi uma decisão pobre. Quando eu terminar minha leitura e anotações de Male Intergenerational Intimacy, eu vou ver o que eu posso fazer a respeito disso. Eu pensei em transformar as anotações publicadas em resenhas, bastando que eu as reescrevesse. Eu poderia inclusive dedicar meu tempo a isso, a reformar todas as anotações que eu tenho para o formato de resenha. Criar textos de verdade, sabe? Não informações soltas. Até porque resenhas atraem acessos: resenhas são ótimos meios de conhecer uma obra e avaliar se você quer ou não lê-la.

Então, quando eu acabar de ler Male Intergenerational Intimacy, eu começarei a transformar anotações em resenhas. Mas aí eu esbarro noutro problema, que é a linguagem. Depois de fazer cada resenha, eu teria que traduzi-las pro inglês? Logo eu estarei trabalhando e não terei tempo de fazer isso. Então, embora eu não goste muito de fazer isso, eu preciso escolher um idioma para cada resenha, em vez de publicar a resenha em dois idiomas. Eu pensei no seguinte: a resenha será escrita no idioma da obra que eu li. Assim, se eu li um livro em português, também a resenha será em português. Se o livro foi escrito em inglês, também a resenha será em inglês.

Isso casa bem com o fato de que este sítio completou dez anos três meses atrás. Eu preciso repensar o que eu tô fazendo por aqui. Eu tenho preguiça de escrever coisas longas e traduzi-las. Também medo, dependendo do que eu estou escrevendo. Mas preguiça é predominante, porque o medo tem deixado gradualmente de existir. Eu tenho ficado mais confiante. Eu só queria anunciar isto. Por outro lado, textos pessoais, como este, ainda serão disponibilizados em dois idiomas (até eu resolver repensar isso também).

Por último, Skyler, se você estiver lendo, dá uma olhada nisto.

What I learned from reading “Dialogues between Hylas and Philonous.”

Filed under: Livros — Tags:, , — Yure @ 10:07

“Dialogues between Hylas and Philonous” was written by Berkeley. Below, what I learned from reading this book.

  1. Contact with nature invigorates the mind.
  2. Total skepticism (according to which the only truth is that there is no truth in anything else) is harmful because it puts everything into a relativistic framework.
  3. One cause of skepticism is the fact that authoritative people, such as philosophers and scientists, sometimes claim that there is no secure knowledge, profess extravagant things as truth or contradict each other .
  4. Sometimes, the layman‘s knowledge is safer.
  5. Approaching an object naively can be more effective than approaching it with science sometimes.
  6. When you are convinced that you are wrong, change your ways.
  7. Skeptic is a person who doubts everything.
  8. Those who deny are not skeptical; the skeptic doubts, that is, neither affirms nor denies.
  9. If during an argument, the opponent speaks something stupid but it’s also something small, it is not worth arguing about it.
  10. Denying the existence of matter does not negate mathematics.
  11. The “true skeptic” does not even affirm the existence of a sensible reality.
  12. What is a “sensible thing”: what can I learn only by the senses or what can I learn with the help of sensory aids?
  13. For example: reading a book, I see letters and I see the word “cat”.
  14. But it’s the mind who says that word is “cat”, because the mind has learned to interpret the signs that way.
  15. The eyes can only say that the letters C, A and T are written there.
  16. So what’s sensible: the word “cat” or the letters that make up the name?
  17. It’s aggravated when the word refers to something that is intelligible but not sensible, such as love.
  18. Causes and causality are rational, non-sensible inferences.
  19. The language is arbitrary : we have no reason to call the cat a cat, we just needed a word to designate it and we came up wiht that.
  20. Does heat have a real existence or is it a sensation born in us?
  21. The big problem here is where the sensations come from: if they are reactive, they are subjective; otherwise, they are objective.
  22. There is no intense sensation that does not cause pain or pleasure.
  23. How to define pleasure or pain without explaining what is sensation?
  24. Pleasure and pain exist in the mind, whom arranges sensations in intensity scale.
  25. Using subjective criteria to grade heat and cold leads to nonsense.
  26. Pleasure and pain exist only in the mind and the proof is that something that is pleasurable for some is painful for others (the so-called “personal taste”).
  27. Language in the full sense of the word is popular language: if I am speaking and you are understanding me, then it’s perfect and nothing needs to change in the language we use.
  28. The same thing looks different depending on the method of observation.
  29. If the microscope is more reliable, our normal vision is not enough.
  30. “Movement” can be understood as the change of position of one body in relation to another body, used as a reference.
  31. The reason why color is a subjective feature is that different people and animals perceive different spectra.
  32. Small animals perceive the world on a different scale.
  33. “Fast” and “slow” are subjective.
  34. Speed ​​is inversely proportional to the time a given object reaches a goal.
  35. Secondary qualities, such as color and taste, are identified by pleasure and pain, while primary qualities cause neither.
  36. Even when we assume that things have objective existence, our idea of ​​them is subjective.
  37. If the extension is subjective, it would not be part of the matter.
  38. Philosophically, substance and substrate are the same thing.
  39. Be careful not to use philosophical terms out of habit, not really knowing what they mean.
  40. What is matter anyway?
  41. If philosophy works with concepts, then unless we have a closed concept of what is matter, it will not be possible to make a philosophy of matter.
  42. If you conceive something in your mind, there is no guarantee that it exists outside of the mind.
  43. You can’t tell the exact distance of something just by looking at it.
  44. If you conceive distance as a “line” between the eye and the focused object, you do not see this line; the line is hypothetical.
  45. If I see a statue of Julius Caesar, I am seeing the statue; it’s reason who tells me what the statue represents.
  46. Often, the connection from one idea to another is pure custom, as is the case with prejudice.
  47. Do I listen to the vehicle or the sound it produces?
  48. You can only hear the sound, you can see the image , you can see the phenomenon , which does not necessarily give us a sure idea of ​​the object that produces it.

5 de setembro de 2019

What I learned from reading “The importance of sharing clinical information.”

Filed under: Saúde e bem-estar — Tags:, , — Yure @ 15:26

“The importance of sharing clinical information: the case report of an adverse reaction” was written by Alexandra Cadete, Lara Sutil, Carine Silva and Joana Simões. Below, what I learned reading this text.

  1. A doctor may employ a treatment even when there is no consensus on the safety and effectiveness of its use (not that it’s always a good thing)…
  2. When applying antiemetic therapy, it is necessary to choose well which medicine to use, since the incidence of adverse reactions can reach 25% if the subject undergoing therapy is a child.
  3. The extrapyramidal effect, which may be caused by metoclopramide, may be reversed with biperiden.
  4. Metoclopramide can cause a dystonic crisis even without overdose.
  5. If a child is vomiting and an antiemetic must be used, ondansetron or domperidone are better choices, but not metoclopramide.
  6. Antiemetic therapy is used when a vomiting crisis begins to cause dehydration.
  7. A dystonic crisis can occur up to two days after metoclopramide use.
  8. Such reactions are characterized by abnormal postures, spasms and twisting movements.
  9. This effect is more common in children and the elderly, but rare in young adults.
  10. If these effects appear without the subject taking antidopaminergic medication, the patient may have tetanus or a disorder that causes seizure.
  11. An extrapyramidal reaction may be reversed with anticholinergics or benzodiazepines.

What I learned from reading “Childhood sexual experiences with an older partner among men who have sex with men in Buenos Aires, Argentina”.

Filed under: Saúde e bem-estar — Tags:, , — Yure @ 15:19

“Childhood sexual experiences with an older partner among men who have sex with men in Buenos Aires, Argentina” was written by Curtis Dolezal, Alex Carballo-Diéguez, Iván C. Balán, María A. Pando, Marina Mabragaña, Rubén Marone, Victoria Barreda and Maria M. Avila. Below, what I learned by reading their text.

  1. The aim of the study is to evaluate early sexual experiences with older partners in an Argentine population.
  2. Experiences of interest to the researchers were manual, oral, genital, or anal contacts, provided the participating subject was 13 or younger at the time when the experience occurred and provided the partner was at least four years older than the subject.
  3. In a sample of 500 participants, 18% had such experiences.
  4. Most subjects who had early sexual experiences with older partners do not consider the experience to be negative or abusive.
  5. Two-thirds of the participants had such experiences with women.
  6. Among those who had their sexual experience with women, only 4% consider the experience to be child sexual abuse.
  7. Among those who had their sexual experience with men, 44% consider the experience to be child sexual abuse.
  8. It is easier for the child or adolescent to consider the experience abusive if it has been objectively violent or painful, either physically or emotionally.
  9. It follows that the peaceful and voluntary experience is unlikely to be remembered as abusive.
  10. Specifically in this sample, there is no correlation between early sexual experiences and risk of lifetime contamination with HIV.
  11. Those who had early sexual experiences with a man reported use of force or threats more often than those who had such experiences with women.
  12. The study defines “child sexual abuse” as the early sexual experience in which the child or adolescent felt physically or emotionally harmed by his or her older partner.
  13. Homosexual participants more often reported unwanted sexual contact in childhood or adolescence and more often reported rape (unwanted carnal conjunction ) than heterosexual participants.
  14. Child sexual abuse (unwanted sexual experience during childhood or adolescence) is associated with adult functioning problems.
  15. One such problem is the contraction of risky sexual behaviors.
  16. But association is not the same as causality: a lot of children who have actually been abused do not develop any negative symptoms throughout their lives (which does not make such abuses acceptable).
  17. In addition, if the sexual experience has been peaceful and voluntary, the subject is unlikely to develop any negative symptoms in adulthood.
  18. The correlation between psychological problems and early sexual experiences is strong only among the subjects who were forced into such experiences.
  19. Violence may or may not occur in such experiences.
  20. Culture can also influence the evaluation of such child sexual experiences: some of these experiences are seen as games in Brazil.
  21. There are few studies on the effect of Latin American culture on the evaluation of an early sexual experience.
  22. In this sample, most of these relationships occurred outside the family.
  23. The average age for the youngest was 10 years and the average age for the oldest partner was 20 years.
  24. One participant told the researcher that he had a thousand times of sexual contacts with his partner in childhood and adolescence, and told the researcher other things that suggested he was highly sexually active at a vulnerable age.
  25. Half of the subjects who had early sexual experience had oral contact; most had manual contact.
  26. All participants who, in childhood or adolescence, had a relationship with an older woman claim to have penetrated her.
  27. 84% of those who have had experiences with older men claim to have been penetrated.
  28. 18% consider their early sexual experiences to be abusive and most deny being forced, threatened or injured.
  29. Those who had sexual contacts with women were, on average, older than those who had sexual contacts with men.
  30. Apart from the Chad who had one thousand sexual contacts with his partner, four other participants reported having between one hundred and two hundred sexual contacts with an older partner, but most participants reported ten or less.
  31. The woman is less likely to force the boy into a sexual contact.
  32. Each country has its definition of “abuse”: what people in the US call “abuse” may not receive that same treatment in Brazil.
  33. It is more difficult to regard the experience as abuse if the older partner is a woman: when a boy has a sexual contact with a woman, he has had heterosexual contact, free from the stigma of homosexuality.
  34. Such stigma increases the chances of the child or adolescent regarding the experience as negative: a precocious homosexual contact may still be regarded as negative even in the absence of pain or coercion.
  35. Majority of the subjects was not traumatized by their experience.
  36. The fact that something is infrequent does not mean that it is a minor problem: we must not stop combating sexual violence against children and adolescents just because violent experiences are not as frequent as peaceful ones.
  37. The fact that people who had sexual contact in childhood or adolescence in countries where such a thing is taboo suffer more than people who have had the same experiences in places where it is not taboo (or where disapproval is smaller) shows that disapproval of such behavior can have a role in forming negative symptoms.
  38. This study uses a relatively new method (respondent-driven sampling), so care must be taken when generalizing these data.
  39. In South America, it seems that people who have sex with men may still consider themselves heterosexual.
  40. Not every libidinous act before the age of fourteen should be considered rape: early sexual experiences are not uniformly negative and can be arranged in a positive to negative spectrum.
Older Posts »

%d blogueiros gostam disto: