Pedra, Papel e Tesoura.

2 de dezembro de 2016

Receio pelo meu futuro.

Filed under: Notícias e política, Organizações — Tags:, , — Yure @ 15:36

Aos treze anos, eu tive minha primeira aula de filosofia e amei a disciplina, embora não pela habilidade da professora. Eu comecei a estudar filosofia por conta própria no ano seguinte porque só tínhamos filosofia no primeiro ano do ensino médio, com sociologia no segundo ano e no terceiro. Eu nunca tive grande interesse por sociologia, que parecia ser uma disciplina que eu nunca iria usar, mas filosofia me servia para aprimoramento moral e esclarecimento sobre questões que a ciência não respondia.

Eu passei no vestibular pra universidade estadual aos dezesseis anos e me senti ótimo lá dentro no começo. Mas, ao longo do curso, a universidade entrou em greve cinco vezes, atrasando a formação dos licenciandos em dois anos e meio. O curso que deveria já ter acabado ainda está rolando. E agora que filosofia se tornou opcional no ensino médio, eu temo pelo meu futuro. E o que mais me frustra é o fato de que isso não teria acontecido se eu tivesse escolhido cursar filosofia na federal, onde os meus colegas que entraram anos depois de mim se formarão no mesmo ano que eu.

O que eu vou fazer com este diploma que estou tão perto de conseguir? O que os outros licenciandos farão? O meu sonho é, desde a adolescência, dar aula de filosofia no ensino médio público, mas, vendo o cenário atual da educação, me parece que terei que relativizar esse objetivo, tentando me aproximar dele aos poucos. Talvez eu não possa ensinar filosofia, mas será que esta licenciatura me habilita a ensinar alguma outra coisa? Se alguma escola particular ainda tiver aulas de filosofia, eu quereria ir pra lá? Mas entre ensinar filosofia na rede particular e ensinar outra coisa na rede pública, o que eu escolheria? A filosofia pode voltar ao ensino médio como obrigatória a tempo da minha formatura? Eu não posso mais contar com minha sorte.

Eu tenho um curso de informática e um de inglês. O ensino técnico profissionalizante permite a entrada de professores de “notório saber”. Quem lê este diário sabe que eu entendo muito de Linux, apesar de não ser certificado nisso. Eu não poderia, talvez, tentar tirar uma mordida no ensino técnico, já que eu não preciso ser habilitado pra ensinar? E eu teria alguma vantagem por ter cursado disciplinas pedagógicas na universidade. Então eu tenho tanto conteúdo como método. Mas eu ainda não sei se é isso que eu virei a fazer. O ensino técnico profissionalizante como currículo do ensino médio é algo tão diferente pra mim, já que eu nasci depois da adoção do currículo único, que talvez eu queira fazer algo com que já tive contato, como história ou geografia, que são do currículo humanístico. Mas eu não sei se o curso de filosofia habilita pra essas áreas. O que sei é que existiram, ao longo de todo o período da filosofia como obrigatória, professores de história lecionando filosofia. O contrário, professores de filosofia lecionando história, aconteceu durante a ditadura militar.

Parece que meu sonho será mais uma ideia reguladora a partir de agora, em vez de um objetivo que precise ser alcançado com máxima prioridade. Com efeito, eu desisti de muita coisa por causa desse sonho, mas agora eu vejo que, apesar da minha determinação, fatores externos como o atraso do curso e a remoção da filosofia do ensino médio obrigatório o inviabilizaram. Tudo parecia tão simples, que não cogitei a possibilidade de falhar. Que irresponsável.

25 de novembro de 2016

Greve de consumidores?

Filed under: Notícias e política — Tags:, , — Yure @ 19:47

Eu vejo que muitas pessoas estão transtornadas com o desgostoso futuro que parece nos aguardar. É verdade que, segundo uma pesquisa do Ibope, maior parte da população é a favor de cortes em gastos públicos, mas esse resultado não pode ser ligado à PEC 55. A tentativa do MEC foi criar dados para provar que a PEC 55 tem apoio da população, mas veja só qual foi a pergunta feita pelo Ibope para provar isso: “você é a favor de cortes de gastos públicos?” Claro que só responderia “não” quem entendesse que isso é uma pergunta capciosa. A PEC 55 realmente corta gastos, mas não no salário dos políticos, nem em cartões corporativos ou coisas assim. Os gastos serão cortados na educação, na saúde e na segurança, coisa que nós, pobres, usamos cotidianamente. O Brasil não pode virar a Grécia, mas não pode fazer isso passando por cima de nós.
Muitos estão entrando em greve por causa disso, e isso me lembrou de uma ideia que eu tive quando eu era mais novo. Claro que eu, sozinho, não faço diferença, mas eu queria deixar esta ideia aqui pra ver o que outros pensam dela: greve de consumidores. Será que isso existe com o nome que lhe damos? Alguém já tentou fazer isso?
Existem coisas que não podemos deixar de consumir, como água e comida, então o necessário precisa ser mantido. Mas, tal como a segurança não entra em greve toda de uma vez, mas somente certos setores, não precisamos deixar de consumir de todo, mas consumir somente aquilo que é extremamente necessário ou que já nos comprometemos a pagar. Todos compramos, movimentamos muito dinheiro, às vezes mais do que deveríamos. Se cada um comprar apenas metade das futilidades que compra no mês (futilidades sendo qualquer coisa que não se comprometeu a pagar, como dívidas, ou qualquer coisa que não é essencial), imagine quanto dinheiro deixa de ser movimentado. Isso tem duas vantagens.
A primeira é que gastamos menos dinheiro, deixando os nossos recursos para emergências e economias. A segunda, e a melhor, é que o estoque de produtos aumenta. Ora, quando há muito estoque, há liquidação, ou seja, os preços diminuem. Quanto menos consumimos, mais baratas as coisas ficam, não é verdade? Isso seria uma forma segura de protesto contra o governo, além de ser muito eficiente. Com efeito, a polícia pode até entrar numa escola ocupada e talvez ferir estudantes, mas a polícia não pode entrar na nossa casa e nos forçar a ir ao supermercado. Além disso, a política do Temer é claramente neoliberal e de Estado mínimo, ou, pelo menos, para lá caminha. Então, um de seus maiores objetivos é o crescimento econômico pela via privada. Mas deixando de comprar, invalidamos esse objetivo. Claro que não vamos deixar completamente de comprar, mas deixando de comprar futilidades minamos o caminho para o objetivo deles.
Se começássemos agora, seríamos ouvidos logo, porque a temporada natalícia está às portas. O natal do ano passado foi ruim em termos de vendas e tudo indica que este será pior. O governo precisa desse dinheiro, pois arrecada impostos também assim. Nós temos o dinheiro que eles querem. Esse dinheiro é nosso refém. Alguém pode argumentar que a greve de consumidores pobres não adianta, porque os ricos ainda consumirão, pois não são afetados por esse governo. Bom, muitos ricos são empresários. Eles enriquecem com o que nós, pobres, damos a eles, comprando o que produzem. Deixando de comprar, os empobrecemos, e cada vez mais quanto mais pessoas deixam de consumir. Além disso, pobres ainda são maioria. Movimentando um pouco de dinheiro, cada um soma com os outros grandes quantidades de moeda, talvez tanto quanto os ricos movimentam. Mas se as empresas empobrecem, não demitirão funcionários? Sim, demitirão, mas ela não pode demitir a maioria, porque se arriscaria à falência. Está no melhor interesse das empresas manter mão de obra, fora que entrar numa greve assim não afeta os concursados. Ao final da greve, com o dinheiro que guardamos, voltaríamos a consumir, as empresas voltariam à estabilidade e ofereceriam empregos novamente. O seguro-desemprego deve servir até o fim da greve ou até depois.
Se feito em larga escala, isso causaria um caos tão grande, que seria necessário a imprensa dizer que nada está acontecendo. As empresas fechariam, a arrecadação de impostos diminuiria e teríamos mais dinheiro guardado. Ficaria claro que é o pobre que sustenta o Brasil. Talvez isso não acontecesse, talvez não desse certo sozinho, mas em conjunto com outros movimentos de protesto ajudaria bastante e talvez nem fosse necessário corte de gastos nas empresas. Imagine você: greve de consumidores contra a PEC 55 e a MP do Ensino Médio. É tão pirado, tão maluco, que é difícil pensar que venha a dar resultado. Mas, considerando os pressupostos e a lógica, será que não faz sentido tentar?
Se alguém quiser fazer tal audácia, basta se perguntar antes de comprar: eu preciso disto? Minha vida pioraria se eu não comprasse este item? Eu posso viver até o final da greve sem ele? Se eu não preciso, se sua falta não vai me afetar negativamente e se eu posso viver sem este item até o final da greve, não vou comprá-lo. Posso viver até o final da greve sem arroz? Claro que não! Mas posso deixar pra comprar roupas novas quando o governo me ouvir? Experimente, vá até onde puder com esse raciocínio. E papel? Lápis de cor? São coisas que eu uso muito. Mas já tenho lápis o bastante e uso pouco papel. E eletricidade? Claro que vou continuar pagando as contas, já que minha comida estragaria se minha geladeira parasse. Água e comida sempre são lícitas? Se você pudesse passar a greve sem comer ou beber, seria ótimo, mas não vou exigir o que eu não faria.
Em suma, gastar menos e cada vez menos seria uma ótima forma de protesto, tanto porque afetaria diretamente o Estado quanto porque é segura e não vai atrair a ira da polícia. É uma boa saída pra quem quer fazer alguma coisa pra ajudar, mas não sabe o quê. Mesmo que não dê certo por si só, é uma ajuda. É melhor que ficar parado assistindo.

Agora basta da minha loucura pueril. Só dá certo ser ingênuo e infantil se formos todos juntos.

7 de novembro de 2016

Sobre o movimento estudantil.

Filed under: Notícias e política — Tags:, , — Yure @ 19:17

Um certo colunista da Época comparou a Ana Júlia com aquelas pessoas que fazem desmatamento na Amazônia para que outros paguem a conta. Seu argumento é de que o movimento estudantil está prejudicando muitos para obter pouco benefício, pois tanto a medida provisória como a proposta de emenda constitucional contra as quais os estudantes protestam estão avançando a despeito do movimento.
Na verdade, é o contrário: o governo é que faz “desmatamento”, o movimento estudantil é que é a “paga da conta”. A maioria da população é contra tanto a proposta quanto a medida, então os parlamentares que votam a favor dessas medidas votam contra a democracia, a qual deveria zelar pelo desejo da maioria.
Quando o Estado deixa de honrar seus compromissos com os súditos, tampouco os súditos precisam honrar seus compromissos com o Estado. O Estado começou e se o movimento se calasse, nós teríamos que “pagar” uma conta ainda maior. Imagine você, cearense que assiste Cidade 190, Barra Pesada, Os Malas e a Lei, se a proposta de emenda constitucional que limita os gastos públicos fosse aprovada. O que aconteceria conosco? Quem, afinal, está fazendo “desmatamento” aqui? Teríamos que “pagar a conta” com nossa submissão à violência?
O argumento de que o movimento estudantil não dá resultado não se sustenta: a presença da ideologia do movimento ganha espaço no parlamento, com pressões para retirar a medida provisória e voltar ao projeto de lei, que tinha o texto diferente, que vinha sendo debatido há cerca de uma década. De fato, é quase trocar seis por meia-dúzia, mas é alguma coisa.
Aqui, na minha cidade, os alunos estão conformados, o movimento estudantil é zero aqui. Não há escolas ocupadas. Como eu não posso fazer nada, comecei a rezar, pedindo que Deus ajude aos estudantes que lutam pela democracia e pela justiça, debaixo de som alto à noite, porque nosso Deus é Deus de justiça.
Outro ponto da coluna da Época é que a rede particular não adere ao movimento. Mas isso é natural: o Estado deve zelar pelas coisas públicas, apenas secundariamente pelas privadas. Então, se os alunos da rede privada não aderem, fazem bem, embora melhor fariam se aderissem, pois mostrariam que se preocupam. Nada tem a ver colocar a rede de ensino privado na história, como se isso fosse um dado relevante. Aliás, pode até ser, porque com aumento de tempo de estada do aluno na escola, ao passo que os gastos com a educação diminuem, a escola pública se tornará uma opção inviável; com efeito, no ensino de tempo regular, nem todas as escolas têm merenda, então imagine passar sete horas lá. Com o aumento da carga horária, é de se esperar que a mensalidade da rede privada aumente também. Educação não será coisa de rico, mas de muito rico. É o Estado nos traindo.

29 de outubro de 2016

Como eu voto.

Filed under: Notícias e política, Organizações — Tags:, , — Yure @ 18:46

Eu sei que a temporada eleitoral já passou. É o quanto eu venho procastinando este texto. Com o estabelecimento do teto para gastos da união e o novo ensino médio, porém, pensei que talvez fosse interessante escrever isto para deixar o recado. Assim, o texto pode se tornar relevante na próxima temporada eleitoral.
Antes que alguém pergunte, eu não gosto nem do teto de gastos nem do novo ensino médio. Mas eu aprendi esses dias que não se deve discutir política, mas votar. Então, eu posso pelo menos falar de como votar, em vez de entrar em detalhes sobre essas coisas. Talvez eu até entre, mas noutra ocasião (afinal, é meu blog, eu escrevo o que eu quiser).

Primeiro, é necessário verificar se esta é uma condição em que a reeleição é possível. Se a reeleição é possível, é necessário verificar se o candidato eleito anterior fez um bom trabalho ou não em seu último mandato. Para avaliar isso, é necessário ter critérios, que são pessoais. É importante frisar o caráter de pessoalidade dos critérios, porque as notícias, sendo facilmente manipuláveis, não constituem critério de avaliação de um governo, senão as consequências sensíveis da administração. Isso quer dizer que eu não devo me perguntar se o governo vai bem no Brasil inteiro ou na maior parte do Brasil, o que requereria buscar informações nos noticiários, mas se o governo vai bem pra mim, tão-somente.

A pessoalidade do voto tem dupla função: afastar o indivíduo de possíveis mentiras e garantir a democracia. Como eu disse, as notícias e a opinião dos outros podem ser manipuladas, corresponder à verdade apenas parcialmente ou simplesmente não ser o que você observa. Então, se expor às opiniões dos outros e às notícias pode servir como meio de levar o indivíduo a ver coisas que não estão lá. Por outro lado, dar esse caráter de pessoalidade ao voto garante uma democracia mais justa: se a maioria das pessoas, em suas experiências pessoais, verifica, através de seus critérios pessoais, que o governo vai mal, essa maioria, pelo poder do voto, motivado por interesses pessoais, retira do governo aquilo que lhe faz mal. Muito se fala que a mídia de massa é manipuladora, mas as pessoas nem por isso encaram o noticiário de maneira crítica. Então, se a televisão tem interesses, ela usará seu aparato mediático para manipular a opinião da maioria, o que não aconteceria se o noticiário não constituísse critério de avaliação política, mas somente a experiência pessoal. A manipulação de massa constitui vantagem desleal e, por extensão, uma perversão da pureza democrática. Um julgamento democrático “puro” requer que o indivíduo vote por ele mesmo. Afinal de contas, se a maioria, por esse processo, reprova ou aprova o sistema estabelecido, a democracia é propriamente feita: é a opinião da maioria falando pela própria maioria, que vê as coisas pelos seus próprios olhos e não pelos olhos dos outros.

Os meus critérios são sempre: educação, saúde e segurança. Se a educação funciona pra mim, então ele (o último candidato eleito que procura reeleição) fez um bom trabalho na educação pra mim. Se a saúde vai bem pra mim, então ele fez um bom trabalho na saúde pra mim. Se a segurança vai bem pra mim, então ele fez um bom trabalho na segurança pra mim. Para determinar se essas coisas vão bem, eu ajo de maneira pragmática: a educação vai bem se eu aprendi satisfatoriamente o que eu queria, a saúde vai bem se eu recebi tratamento satisfatório para minhas doenças, a segurança vai bem se eu não fui vítima de violência. Se as três condições forem preenchidas, então devo reeleger o último candidato eleito. Se as três condições não forem preenchidas, então para onde foi o dinheiro público? Ou foi mal usado ou desviado. Não reeleger. Se ele for bem em apenas um ou dois critérios, devo pesar perdas e ganhos. Se os benefícios cobrirem os malefícios, devo reeleger. Caso contrário, não.

Outras pessoas têm diferentes critérios e isso é importante, pois o governo ideal pra mim não é o governo ideal para outros. Muitos têm como critério a mobilidade urbana, o meio-ambiente, a economia, os empregos, entre outros. É importante que cada um tenha seus critérios, mas ainda mais importante é que esses critérios sejam pessoais e que avaliem a experiência pessoal do cidadão com o governo. Não vote pelo Brasil inteiro; se cada um vota por si, já vota pelo Brasil inteiro, mas, procurando votar segundo a opinião do outro, pode-se acabar votando por uma minoria, o que é o contrário da democracia.

Segundo, caso o candidato que tenta se reeleger falhe nos meus critérios, caso haja vários candidatos dentre os quais escolher ou caso o último candidato eleito não procure ou não possa se reeleger, é necessário pesquisar qual dentre os candidatos disponíveis é mais qualificado. Isso também é feito segundo critérios, que devem também ser pessoais. Em páginas que catalogam candidatos na Internet, é possível ver algumas informações sobre cada candidato: idade, profissão, filiação partidária, “nome de guerra” e ficha criminal por exemplo. Além disso, um bom jeito de obter informações sobre um candidato é ouvindo o que ele tem a dizer, via propaganda política e debates, e o que os outros candidatos dizem dele. Enquanto não é lícito ouvir fontes de terceiros, mesmo quando se dizem imparciais, é lícito ouvir os que estão inseridos na competição. Pela propaganda política e sobretudo pelos debates, eu posso saber quem tem mais chances de preencher os critérios pessoais que não foram preenchidos na etapa anterior.

Antes de julgar seriamente, devemos eliminar do julgamento todos os candidatos que têm nomes políticos jocosos ou propositalmente engraçados, que tenham propagandas políticas que faltam com o decoro, com a seriedade, que façam piada ou que infundem um ar de comédia a um assunto tão sério. O último que fez isso e se deu bem se mostrou uma decepção. O primeiro critério é ficha criminal: um candidato que já cometeu crimes políticos ou que tenham relação com a política local deve ser evitado. Se ele cometeu outros crimes, não políticos e não relacionados à política, é justo lhe dar uma chance. O segundo critério, para desempate do primeiro, é a profissão. Prefiro sempre os candidatos que têm profissões públicas, não por serem melhores ou piores, mas porque, para novos candidatos, me é urgente assegurar que terão preferência pelas coisas públicas: o Estado se ocupa do que é público e apenas secundariamente do que é privado. Assim, eu não iria querer um Estado que descuida das coisas públicas, que são dele, para cuidar das coisas dos outros, embora nem por isso as deva atrapalhar ou destruir. Então, o público deve ter prioridade sobre o privado e profissionais públicos sabem das vicissitudes encontradas em seus ofícios, o que significa que têm clarividência ao menos dos problemas que devem ser enfrentados na coisa pública. Filiação partidária é o critério seguinte, o qual é usado para desempatar caso haja empate no critério anterior. Isso porque filiação partidária não diz muito hoje: com candidatos mudando de partido, às vezes como quem muda de roupa, é possível ver que “ideologia de partido” é um conceito desacreditado. Ainda acontece, é verdade, mas não com frequência a ponto de filiação partidária ser primeiro critério. Eu diria de quais partidos eu gosto se isso não contradissesse o que eu disse no começo sobre não acatar recomendações de candidato de terceiros.

Resumindo, temos o programa de dois casos. Caso 1: reeleição possível. Caso 2: reeleição impossível.

Caso 1: candidato fez bom trabalho em todos os critérios pessoais, reeleger. Se o candidato não fez um bom trabalho em todos os critérios pessoais, verificar perdas e ganhos do último mandato. Se o candidato não fez um bom trabalho em nenhum critério pessoal, não reeleger, seguir para caso 2.

Caso 2: eliminar todos os candidatos que não são sérios. Verificar quais candidatos atendem ao primeiro critério pessoal, eliminar os que não atendem e prosseguir. Verificar quais candidatos dos que sobraram atendem ao segundo critério pessoal, eliminar os que não atendem, prosseguir. Continuar testando todos os candidatos e eliminando aos que não atendem aos critérios pessoais, em ordem do mais importante ao menos importante. Caso faltem critérios e nenhum dos candidatos restou, anule seu voto. Caso faltem critérios e ainda há empate, opte por aquele dentre os restantes que causaria menos dano se eleito. Se ainda assim persistir, tanto faz dentre os que restam.

5 de outubro de 2016

Anotações sobre o Candido ou o otimismo.

Filed under: Livros, Passatempos — Tags:, , , — Yure @ 16:37
  1. Uma crença da época é a de que as coisas, sendo feitas para um fim, sempre visam o melhor fim possível pra elas. Essa é uma encarnação do otimismo metafísico.
  2. A própria vida depõe contra essa ideia. Se tudo vai bem, porque muitas coisas terminam mal?
  3. O metafísico muito aplicado acaba ficando ignorante das coisas deste mundo. É um risco já apontado por Platão: o filósofo que persegue as ideias, isto é, os conceitos, as coisas como “realmente são”, as essências, se torna um grande pateta na vida pública. Se a metafísica não guardar relação com o concreto, torna-se alienante.
  4. Se o mundo é o melhor possível, porque ocorrem guerras? Um dos lados é (ou ambos os lados são) o mal.
  5. O filósofo treme quando participa da guerra.
  6. Se este é o melhor dos mundos possíveis, por que adoeceis?
  7. A crença de que este é o melhor mundo possível e que tudo se ordena para o melhor e que todo o mal é aparente nos leva a duvidar de que o Diabo exista. Voltaire era cristão, não nos esqueçamos.
  8. Acreditar que as desgraças particulares contribuem para o bem geral não faz sentido, se o raciocínio for levado às últimas consequências. Porque, se “contribuir” quer dizer adicionar bem, então o mundo é melhor quanto mais desgraças ocorrem.
  9. Em certo ponto da história, o ser humano se corrompeu. Deus não deu armas para os humanos destruírem uns aos outros, mas nós as fizemos porque sentimos necessidade, a qual não teria surgido sem ódio e interesse.
  10. Se tudo vai tão bem, por que os bons morrem e os maus prosperam?
  11. A crença no melhor mundo possível também leva à rejeição do conceito de pecado original, da queda de Adão e Eva e de outros conceitos religiosos. Mas sobretudo, ela leva à crença no destino e de que não existe liberdade, ou que a liberdade é irrelevante de todo. Nem Lutero afirmou tal, ele que acreditava que o livre-arbítrio não influi na salvação (a fé seria o único determinante, pra ele).
  12. Se este é o melhor dos mundos possíveis então todas as mortes são necessárias. Mas como? Muitos matam por motivo fútil.
  13. Todo o mundo é religioso em meio a uma tragédia.
  14. A noite de sábado para domingo é dia de descanso ou dia de missa?
  15. A crença no melhor dos mundos possíveis só se sustenta numa mente muito ingênua. A pessoa sensata eventualmente percebe que não é assim.
  16. Se o otimismo metafísico estivesse pelo menos parcialmente certo e houvesse mesmo um mundo melhor possível, provavelmente não é este. Observe que no raciocínio de Leibniz isso não é possível: Deus fez o mundo fazendo escolhas e fez as melhores escolhas porque é sumamente sábio. Então, por “mundo”, Leibniz entende toda a criação. Seu argumento é belíssimo, mas errado, finalmente, pois isso não se verifica.
  17. Tal como os cristãos, muçulmanos também têm dificuldade em observar o amor. Existe ódio em todos os lugares.
  18. O medo é a principal força que nos impede de cometer suicídio quando a vida deixa de dar lucro por ser vivida.
  19. Se este é o melhor dos mundos possíveis, por que muitos estão insatisfeitos com seus corpos, seus vícios ou condição social? Muitos não gostam de si mesmos ou da vida. Como isso pode no melhor mundo possível?
  20. Quando não se tem o que se procura em um lugar, pode-se procurá-lo em outro.
  21. No otimismo metafísico, todos os homens são iguais.
  22. Se este é o melhor dos mundos possíveis, porque muitas vezes nos vemos obrigados a cometer crimes?
  23. Um pensamento da época era de que era possível saldar o pecado do assassinato salvando a vida de alguém.
  24. Antigamente, algumas mulheres selvagens tinha macacos por maridos. Sim, literalmente.
  25. A natureza verdadeira não é como querem os otimistas metafísicos.
  26. Não é uma boa ideia argumentar com canibais sobre como matar outros humanos, mesmo que para saciar a fome, é pecado…
  27. Pessoas primitivas também têm suas leis e estatutos.
  28. Sempre há civilização perto de rios.
  29. Se você está desesperado e anda sem rumo, mesmo que não encontre algo agradável, encontrará algo novo.
  30. Sempre que possível, junto útil e agradável.
  31. A inocência de um povo é mantida pelo convívio interno apenas. Quando um povo se relaciona com outros, perde essa inocência original.
  32. O ouro e as jóias só têm valor aonde são raros.
  33. Se você já tem o necessário, por definição não há necessidade de pedir algo a Deus. Você só teria que agradecer.
  34. Num país onde todos conhecem bem a religião, não há necessidade da classe sacerdotal.
  35. Permanecer sempre no mesmo lugar consolida opiniões, mesmo que sejam opiniões erradas. É preciso viajar se o que se quer é renovar a opinião.
  36. Não há melhor cumprimento que o abraço e talvez um beijo na bochecha.
  37. Quando se está bem em algum lugar, não há necessidade de mudar.
  38. Se o mundo é o melhor possível, porque podemos deixá-lo melhor?
  39. O amor pode durar mais que a riqueza.
  40. Existe um passado negro implícito em muitos bens de consumo. Você sabe de onde vêm as coisas que você compra?
  41. Se somos todos irmãos, como é que nos tratamos tão mal?
  42. Otimismo é sustentar que tudo está bem, mesmo quando não está.
  43. Não há lugar na Terra onde tudo vá bem.
  44. Com tanto mal no mundo, é escusável pensar que o Diabo é seu governante. As testemunhas de Jeová pensam assim.
  45. A mágoa interior pode ser pior que a miséria pública.
  46. Do ponto de vista humano, um acontecimento pode ser diabólico ou divino dependendo de quem julga.
  47. O mundo pode ser tão cruel que há quem pense que ele só existe pra nos frustrar.
  48. Quando se é rico, todos querem ser teus amigos ou, pelo menos, te prestar serviço.
  49. Tratar doenças leves pode agravá-las.
  50. Martinho quis jogar o padre pela janela. Faz sentido no contexto.
  51. Martinho é o melhor personagem disto tudo.
  52. É possível rir de raiva.
  53. Existem pessoas que ganham a vida criticando outras. Como isso dá dinheiro, criticam defeitos que não existem. Por exemplo: os juízes do Ídolos ou aquele estrangeiro escroto daquele programa de competição culinária.
  54. Uma mão ruim é um registro da má sorte que se teve ao longo do jogo.
  55. Falar mal dos outros muitas vezes é uma tentativa de obter atenção e sentir-se importante.
  56. O otimismo metafísico era impopular. O pessoal não gostava muito de ler obras dessa escola.
  57. Se este o melhor dos mundos possíveis, como até as relações familiares e fraternais podem ser insuportáveis?
  58. Mulher muito amável pode muito bem ser pistoleira.
  59. O dinheiro submete.
  60. Matar alguém sem necessidade serve para assustar os outros e mantê-los na linha.
  61. Algumas nações são tão ruins que não vale a pena tocar seu solo com os pés.
  62. É natural se sentir otimista quando as coisas vão bem.
  63. Se este é o melhor dos mundos possíveis, por que existem mulheres que apanham por causa de homens que não amam?
  64. É arriscado ser marido de uma médica ciumenta. Por um lado, ela pode curar-te de tuas enfermidades, mas pode, por capricho, te matar com o tratamento.
  65. Prostitutas não têm vida fácil.
  66. Quando tudo parece bem com alguém, cogite a possibilidade de essa pessoa estar dissimulando sua tristeza.
  67. Existe infelicidade também nos templos religiosos, pois muitos perseguem a religião forçados pelos pais ou, de alguma outra forma, à contragosto.
  68. Insatisfação profissional é um fato. Acontece quando pessoas escolhem uma profissão tendo o lucro que ela pode dar como único critério.
  69. Dar dinheiro a alguém não necessariamente melhora a situação dela. Há casos em que dar mais dinheiro piora as coisas.
  70. Várias experiências ruins levam a pessoa a encarar a vida com todo o cinismo.
  71. Quando uma pessoa parece feliz pra nós, pode ser que o seja porque não entendemos o sofrimento dela. A luta do professor não é a do médico, a luta do médico não é a do policial.
  72. A mulher humilde é mais fácil de manter. As orgulhosas fazem péssimas companheiras.
  73. Viver muito bem causa tédio.
  74. A música complexa, se não for bela, não presta.
  75. Alguns livros só são obtidos para dar um ar de cultura à estante. Seus donos não os lêem.
  76. Os tolos admiram tudo num escritor famoso. É preciso ler ciente da possibilidade de que o escritor pode se enganar.
  77. Os céticos, que duvidam de tudo, admitem que sabem tanto quanto o vulgo. Então, o vulgo não precisa ouvi-los pra aprender filosofia. Os sábios, que estão certos de algumas coisas, também não os darão ouvidos. Não precisamos de ajuda pra sermos ignorantes.
  78. Ninguém com juízo lê teologia, diz Voltaire. Então eu não tenho juízo.
  79. É bom escrever o que se pensa. Em alguns lugares, como a universidade, se é forçado a escrever o que não se pensa.
  80. Não se importe tanto se os outros não pensam como você.
  81. Quando você tem padrões muito altos, se priva do prazer. Você passa a ser “bom demais” pra qualquer agrado.
  82. Os melhores estômagos não são os que rejeitam os alimentos. Quando você deixa de consumir o que a vida tem de bom, como se fosse mau, você não é saudável. É preciso consumir o bom e se afastar do mau, não rejeitar tudo por se sentir “acima” de tudo. Não é saudável viver só de prazer, mas não saudável viver sem nenhum prazer, mesmo que isso signifique baixar seu nível e tomar parte em algumas diversões dos pobres.
  83. Hoje banqueiro, amanhã desempregado.
  84. Se este é o melhor mundo possível, por que nem os governantes estão a salvo da desgraça?
  85. Nem os ricos estão a salvo da desgraça.
  86. Como este é o melhor dos mundos possíveis se problemas vêm em sequência?
  87. Não há como comparar o sofrimento de diferentes pessoas sem ser elas. Isso porque diferentes pessoas têm diferentes níveis de tolerância. Alguém pode sofrer muito com pouca causa e alguém pode permanecer otimista quando tem razões de sobra para se lamentar. Não se deve cobrar que todos sofram de igual maneira diante das mesmas causas.
  88. Sofrimento é subjetivo. Não pode ser medido.
  89. O sofrimento aproxima os homens. Mesmo que em uns seja maior e as causas sejam variadas, o sofrimento é de igual natureza em todos.
  90. Por que se chama o mau condutor de barbeiro? Porque, há muito tempo, quando era requisitada uma perícia que ninguém tinha, se chamava o barbeiro pra resolver de improviso. Fazer pontos num ferimento e não há médico? Chama o barbeiro. Operar um parto e não há obstetra? Chama o barbeiro. Dirigir um carro e ninguém tem carteira? Chama o barbeiro. Como o barbeiro também não tinha essas perícias, o trabalho ficava mal feito. Por isso se chama o mau condutor de barbeiro.
  91. Se este é o melhor dos mundos possíveis, por que crimes pequenos são ora punidos como grandes?
  92. Há filósofos que permanecem no engano somente para não se contradizerem.
  93. Se este é o melhor dos mundos, por que há gente tão ingrata?
  94. O pessimista acaba sendo mais lúcido e se frustra menos.
  95. É melhor o sofrimento físico ou a completa falta do que fazer?
  96. Martinho é Schopenhauer.
  97. Alguns filósofos sustentam algo de que discordam, porque aprenderam a fazê-lo assim.
  98. Se a pessoa morre por causa de envolvimento político, diz Voltaire, bem feito pra ela; morrer na política é um risco de que todos os parlamentares estão cientes.
  99. O trabalho atua contra o tédio, contra o vício e contra a necessidade.
  100. Obter seus bens pelo trabalho é mais construtivo do que obtê-los sem esforço.
  101. Ser rei é um negócio perigoso. Ser trabalhador acaba sendo mais tranquilo.
  102. Ao homem Adão foi dada a tarefa de trabalhar o jardim do Éden (Génesis 2:15). Ele nasceu pra trabalhar, isto é, transformar e manter a Terra pela sua ação. Marx chega à mesma conclusão por pressupostos não-bíblicos (adicionando que o trabalho é a parte da essência humana e que o ser humano que não trabalha não deve ser realmente humano).
  103. A vida é suportável quanto menos se pensa e quanto mais se trabalha. Se você parar de trabalhar para pensar, você se torna consciente de sua miséria e tentará mudá-la. Claro que mudar é necessário, mas a vida de quem percebe a miséria e opera a mudança é inquieta. É preciso coragem pra pensar. Coragem e tempo livre.
  104. Existem filosofias que não valem o seu trabalho diário.

27 de setembro de 2016

Anotações sobre o dicionário filosófico.

  1. Os árabes, segundo alegam, descendem de Abraão por meio de Ismael. Observe como os árabes foram muito melhor sucedidos que os judeus no período de tempo narrado pelo Velho Testamento.
  2. Não é possível conhecer a nós mesmos plenamente.
  3. Alma é vida.
  4. “Três quartos” da humanidade não se importa com a questão da alma. “Um quarto” chega a fazer a pergunta. Mas respostas não se vêem.
  5. A alma só se torna um problema filosófico depois da revelação. Isso não seria problema e nem seria indagado se a crença na alma não tivesse sido espalhada pela Igreja.
  6. De onde vem o pensamento? Não é do corpo, mas vem de nós.
  7. O fato de haver movimento (vida) em órgãos que não estão sujeitos à nossa vontade levou os antigos a admitirem que mais de uma alma habita o corpo: uma pensante, uma emotiva, uma vegetativa.
  8. Os defensores da alma só podem se apoiar na religião.
  9. A Bíblia Sagrada não menciona alma imortal. A sua imortalidade é especulada. Ela fala de ressurreição dos corpos, é verdade, mas não de migração das almas.
  10. A Lei não fala de vida futura nem de imortalidade. Vida futura e ressurreição só aparecem a partir dos Profetas. A observância ou não da Lei de Moisés resultava, segundo essa própria Lei, em consequências terrenas. Por isso que o Novo Testamento, mais incisivamente em Paulo, diz que as obras da Lei não produzem vida eterna, como produz a aceitação e obediência a Jesus, porque a Lei nunca prometeu vida eterna em primeiro lugar. Então, se você quer uma boa vida terrena, a Lei de Moisés promete uma boa vida terrena se observada. A vida eterna, porém, vem do Messias. Porque cada coisa serve a um propósito, Jesus nunca invalidou a Lei de Moisés enquanto estava conosco, na Terra: é possível ao judeu observar os dois. O gentio, que nunca se submeteu à Lei de Moisés, ainda pode adotar preceitos dela para viver bem, mas não deve esperar a salvação por meio dela (salvo, talvez, o Decálogo).
  11. O debate teológico é irrelevante. Devemos ser bons e não querer entender coisas que não cabem no nosso entendimento e sobre as quais a revelação se cala.
  12. Amizade é um contrato. Importante levar em consideração que “contrato” nem sempre tem uma conotação capitalista ou interesseira. O radical “trato” com o prefixo “com” (junto) sugere que o significado do termo é algo próximo a “tratar junto”, ou seja, quando duas ou mais pessoas combinam de, juntas, alcançar determinado objetivo. No caso da amizade, esse objetivo é felicidade pura e simples. Estamos juntos porque somos felizes juntos.
  13. Diz Voltaire que a lei grega antiga não sancionava a pederastia e que, na verdade, o estereótipo do grego antigo como pederasta é devido ao costume. Isso quer dizer que a lei não permitia expressamente a prática, mas, como todo o mundo fazia, ficava por isso mesmo. É que nem baixar música pela Internet. Dependendo do detentor do direito autoral e da lei local, isso pode virar caso de polícia, mas, como todo o mundo faz, fica por isso mesmo.
  14. O amor erótico existe em muitos animais, mas a cópula não ocorre com todos. Por exemplo, peixes desovam e têm as ovas fecundadas externamente pelo esperma masculino. Esse tipo de peixe não tem sexo porque não ocorre, propriamente, parceria. Embora muitos animais experimentem luxúria, o ser humano, quando confrontado com o impulso, não precisa ter sexo imediatamente. Ele tem seu cortejo, tem os beijos, as carícias, enfim: ele torna a ocasião sexual um evento romântico. Outros animais podem, mas o ser humano é mais interessante em seu romance. Assim, para nós, o sexo é apenas o ápice. Tem preliminares e todo um carinho depois do ato. Seja criativo, faz parte da sua espécie.
  15. Para Voltaire, só o ser humano conhece a prática de beijar.
  16. O ser humano não entra no cio. Sua temporada sexual nunca acaba. De fato, existem períodos em que a fêmea está mais fértil, mas o macho humano não precisa esperar esse tempo e a fêmea humana muitas vezes também não espera. Se o sexo fosse condicionado somente à determinada época, o ser humano teria uma relação com o sexo mais próxima da dos animais, que praticam por reprodução (diz Voltaire), mas, porque podemos fazer sexo quando quisermos, isso implica que podemos fazer sexo somente por prazer, sem visar reprodução.
  17. O ser humano aperfeiçoa sua prática erótica. Pelo estudo do corpo e o avanço médico, sabemos como melhorar o ato sexual, como nos tornar mais sensíveis ao prazer do sexo, maximizamos o prazer.
  18. Sexo parece mais gostoso quando feito com quem você gosta.
  19. Como o ser humano procura mais prazeres em relação ao sexo, ele está sujeito a mais frustrações.
  20. Uma piada: um mendigo estava pedindo dinheiro na rua quando um nobre falou com ele. O nobre disse: “Você não tem vergonha de pedir dinheiro na rua em vez de trabalhar?” O mendigo responde: “Eu estou pedindo é dinheiro, não é conselho, não.”
  21. O amor próprio é natural. Se não amamos a nós mesmos, nos deixaríamos morrer.
  22. O homossexualismo nunca foi obrigatório em nenhuma lei, mas nem todos os códigos proibiam. Isso porque, em muitas nações, a homossexualidade era tão normal que puni-la legalmente atrairia a ira da população. Nenhuma pessoa na Terra legisla contra um costume, a menos que tenha problemas mentais.
  23. O termo “anjo” tem origem babilônica. Por causa disso, nos melhores textos, esse termo só aparece pela primeira vez na Profecia de Daniel. Antes, Israel não tinha um nome específico para os representantes de Deus.
  24. Depois que matamos, enterramos os mortos. Temos mais consideração pelos mortos do que pelos vivos.
  25. A caça pode levar ao canibalismo: um inimigo morto não é tão diferente de um frango abatido.
  26. O canibalismo ocorreu com menos frequência na história do que o sacrifício humano aos deuses pagãos.
  27. As igrejas primitivas rejeitavam, em uníssono, o Apocalipse de São João. Os testemunhos favoráveis ao Apocalipse vinham de pessoas de pouco crédito e tanto intelectuais como o vulgo o viam com suspeita. O atribuíam a João, mas qual João? O escritor se identifica como João apenas. O João do Santo Evangelho Segundo São João se identifica como “discípulo amado”, a Primeira Epístola de São João o identifica por nome e esses são o mesmo João por partilharem do mesmo estilo de escrita. A Segunda Epístola e São João e também a Terceira foram escritas por “João, o presbítero”, o qual tem estilo de escrita diferente. Mas o Apocalipse foi escrito somente por “João” e tem estilo de escrita díspar de todo o resto da Obra Joanina. Pra piorar, li em algum lugar que, no original em grego, “Jerusalém” está escrito errado.
  28. O Apocalipse de São João foi provavelmente escrito depois que João estava morto.
  29. Porque o livro é de natureza alegórica, os eventos ali narrados podem representar vários eventos históricos. Assim, como o fim está próximo (e está), o Apocalipse poderia significar a terceira guerra mundial contra o Estado Islâmico, como antes se pensava que ele se referia ao reinado de Carlos IX, por exemplo.
  30. Sócrates foi acusado de ateísmo e condenado por corromper a juventude. Mas quem espalhou o boato de que Sócrates era ateu foi um poeta que escrevia comédia. Em uma delas, ele usava Sócrates como personagem, o mostrando como ateu e ladrão.
  31. É muito fácil desvirtuar um texto para provar uma intenção que o escritor não tinha.
  32. Os populares absorvem más reputações com mais facilidade do que boas. É mais fácil lembrar do suspeito de um crime do que de um herói confirmado.
  33. Os chineses, na época de Voltaire, não eram cristãos, mas nem por isso ateus.  Tinham a concepção de um ser supremo e justo, que vinga injustiças e premia bons atos.
  34. É mais fácil ao fanático matar do que ao ateu.
  35. O ateu é aquele que rejeita a ideia de Deus. Quem não acredita porque nunca foi exposto à ideia de Deus não é ateu, pois, não tendo nenhuma ideia da divindade, não se posiciona nem contra e nem a favor.
  36. “O catecismo anuncia Deus às crianças e Newton o demonstra aos matemáticos” era um provérbio de época.
  37. Beleza é relativo. Para Voltaire, não existe beleza absoluta.
  38. Leibniz acreditava que vivemos no melhor dos mundos possíveis. Mas como se explicaria então a miséria humana? A miséria humana não é boa ao próprio ser humano e provavelmente não é boa para o próprio Deus.
  39. Diz Voltaire que o enigma de Epicuro não foi inventado por Epicuro, mas por um padre que, usando a fama de Epicuro como ateu, atribuiu o enigma a Epicuro para refutá-lo depois, como se estivesse refutando uma opinião em alta conta entre os ateus. O problema é que Epicuro, na Carta Sobre a Felicidade, admitia a existência de Deus como imortal e sumamente feliz. Então ele não era ateu. O enigma é o seguinte: por que Deus permite a maldade se Deus é bom? Se ele pode, mas não quer, ele não é bom. Se ele quer, mas não pode, não é onipotente. Se ele não quer e nem pode, é mau e impotente. Se ele quer e pode, então por que permite?
  40. Essa questão é mais pertinente entre religiosos do que entre ateus. Alguns, por exemplo, estipulam dois princípios: mal e bem. A razão da existência do mal é o confronto de duas forças igualmente poderosas. Raciocinam assim os maniqueístas. Agostinho foi um deles antes de se converter ao cristianismo.
  41. Tudo era bom, a razão do mal é o pecado original. Ou seja, o mal ocorre porque nós, seres imperfeitos, fazemos péssimas escolhas.
  42. Nem todas as potências se atualizam e que existem coisas que fazemos que não geram nenhum efeito grandioso no universo, como queriam alguns da época de Voltaire que achavam que todos os atos, pela cadeia de causalidades, eventualmente afetariam o mundo inteiro.
  43. A cadeia de efeitos relacionados à determinada causa eventualmente termina. Todos os meus antepassados, até eu, se reproduziram, o que ocasionou meu nascimento. Mas, do jeito que as coisas vão, tenho grandes dúvidas sobre minha capacidade de continuar esse movimento.
  44. Causas pequenas frequentemente geram efeitos pequenos, que geram efeitos menores e cada vez menores. A cadeia de efeitos, eventualmente, se extingue, porque sabemos que, depois de iniciado, a menos que seja mantido, o movimento cessa.
  45. Nossas fontes de prazer e dor, elementos constituintes do caráter, não podem mudar, embora possam ser escondidas. Você pode fingir ser algo que não é, mas não pode mudar seu caráter. Dada a oportunidade, ele se mostra. É melhor você aprender a gostar de si mesmo, porque você não pode ser ninguém mais. Mesmo que finja ser outra pessoa, tenha aprendido a se comportar, quebramos a educação que nos foi dada eventualmente e esse evento que causa tal transgressão frequentemente é a ascensão ao poder. Por isso se diz que é possível conhecer o caráter da pessoa dando poder de governo a ela. Na minha modesta opinião, isso acontece porque nós recebemos essa educação de superiores. Ela se fragiliza quanto menos pessoas são superiores a nós. Assim, se eu recebi determinada educação de minha mãe, mas virei presidente e, portanto, senhor de minha mãe, que me importa agora a educação que ela me deu? Talvez seja por isso que meu irmão se tornou tão valente com minha mãe, porque agora ele trabalha. Quando ele arrumar casa própria, temo que deixe minha mãe de todo.
  46. Na época de Voltaire, já se tinha noção de que havia outros planetas, outras estrelas solares, e que toda essa criação universo afora adorava Deus. Lembro de uma história em quadrinhos em que um personagem perguntava se o habitante da Lua descendia de Adão e Eva. Não. Mas isso não implica dizer que Deus não fez outras criaturas universo afora. Afinal, até os cães, gatos e outras criaturas aqui na Terra mesmo não descendem de Adão e Eva. Portanto, o argumento de que “todos partimos de Adão e Eva” não invalida a possibilidade de vida inteligente em outro lugar. Alguém pode se perguntar então porque Deus teria um carinho especial só com a humanidade. Ele ama a criação inteira, mas tem um pacto com Israel. Então, é por Israel que sua atenção se volta frequentemente sobre nós, humanos. E, se não se voltasse, não teria enviado seu filho para ensinar o caminho da salvação também aos gentios. Mas isso é especulação da minha parte, acate quem achar válido.
  47. Não esconda sua ignorância. Quando não souber, confesse que não sabe.
  48. Se Deus está em tudo, inclusive em mim mesmo, não seria eu parte da divindade? Bom, se a luz perpassa o vidro, por acaso é parte do vidro?
  49. Se Deus está em mim, como não envergonhá-lo com meus atos? Basta fazer o que Deus exige de mim, que, segundo o livro, é ser justo.
  50. Faça ao outro o que gostaria que fosse feito a você, é como se define justiça no diálogo do catecismo chinês. Pascal chama isso de “caridade“.
  51. Deve-se viver, segundo o livro, como se viveria na vida seguinte.
  52. Se as recompensas vêm depois da morte, muitos concluem por isso que a alma deve ser imortal.
  53. Alma é princípio de movimento. Segundo o livro, razão, memória e paixões também habitam na alma. Mas “alma” é apenas um substantivo coletivo para designar todas essas coisas, não tendo existência real ou autônoma. Quando nos referimos à vida e às qualidades mentais, usamos o termo “alma”.
  54. Animais têm memória, paixões e ideias. Têm “alma”, isto é, vida e mentalidade. De onde vem a alma? Ela vem de outro lugar? É feita no instante da geração? Não sabemos. E talvez não convenha saber.
  55. Se Deus está em mim, pra quê preciso eu de alma?
  56. A crença na imortalidade da alma nos compele à justiça. Se a alma é imortal e seu destino após a morte depende dos atos cometidos em vida, então eu quererei ser bom.
  57. Mas sejamos bons quer a alma exista ou não.
  58. Se a vida acabasse na morte, definitivamente, sem esperança de vida futura, tanto para bons quanto para maus, os crimes cometidos em vida e que não foram punidos em vida permaneceriam impunes. Isso é injusto, especialmente porque o bom e o mau acabariam do mesmo jeito. Mas, se eu creio que Deus é sumamente justo, então é necessário que os maus sejam punidos em algum instante, mesmo que seja depois da morte. Observe que isso não necessariamente justifica o Inferno, pois a punição pode vir da elevação dos bons. A recompensa dos bons com a vida eterna e a punição dos maus com a segunda, e definitiva, morte, seria justiça também.
  59. A voz da razão é a voz de Deus, diz o livro.
  60. A memória nos mantém. Se perdermos a memória, seremos outra pessoa.
  61. É meio estranho que cultos tão pequenos reividiquem para si a verdade, como se todo o resto estivesse no engano. Bom, foi o que fez o estoicismo.
  62. Não basta não praticar o mal, deve-se praticar o bem.
  63. O bom amigo aponta os defeitos do outro, com tato, para não machucar. Se você não corrige o outro, trabalha para sua destruição. Isso não é amizade.
  64. A amizade não precisa ser norma de religião, porque a melhor amizade é espontânea. Ela acontece sozinha, pela convivência.
  65. Vários preceitos da religião cristã, como amar os próprios inimigos, já existiam em outras nações que nunca haviam ouvido falar de Cristo.
  66. Existem diferentes graus de virtude. As virtudes de menor grau são as que são úteis apenas a nós mesmos, como a temperança e a prudência. As virtudes de maior grau são aquelas que são úteis ao todo, isto é, a nós e aos outros, como a tolerância e a benevolência.
  67. A hospitalidade é uma virtude esquecida.
  68. Há riscos na prática de qualquer virtude.
  69. Não haverá necessidade de vingança se as boas ações forem recompensadas.
  70. Gosto não se discute.
  71. Contenda causa mais danos que a tolerância.
  72. Quando pregar, fale da moral, não das controvérsias. Deixe o julgamento para o ouvinte.
  73. A moral é mais importante do que a teologia.
  74. A prática da comédia pode ser construtiva, se usada como meio de aprendizado.
  75. Uma festa pode matar tanto quanto uma batalha. Um torneiro de futebol pode matar tanto quanto uma guerra.
  76. Talvez houvesse menos abuso de drogas se houvesse mais trabalho.
  77. A Escritura não precisa ser questionada. Mas se deve questionar a opinião humana.
  78. É possível ter certeza e estar errado.
  79. A certeza matemática é propriamente certeza.
  80. A certeza lógica é propriamente certeza.
  81. Os babilônios já sabiam que a Terra girava em torno do Sol.
  82. Muitos filósofos esconderam a verdade para não serem perseguidos, uma vez que a verdade poderia não ser entendida. Isso aconteceu mesmo no caso de Heráclito, que editou sua filosofia em folhas douradas que eram colocadas num cofre, o qual só poderia ser aberto depois de sua morte. Assim, se alguém achasse suas ideias escandalosas, não poderia persegui-lo; estava morto.
  83. “Cada planeta coloca seu céu no planeta vizinho.” Isso me lembra de uma música.
  84. Não é necessário saber física pra ser santo.
  85. Não é de hoje que filósofos do ocidente admiram a filosofia oriental.
  86. Mas se a filosofia oriental não ficou popular no ocidente até recentemente é porque se tinha, na Idade Moderna, o preconceito de que a China, por exemplo, era um governo ateu. Havia um grande preconceito contra ateus.
  87. No oriente, se tinha o hábito de recompensar as virtudes e punir os crimes. Mas, no ocidente, nunca um governo foi bem-sucedido em recompensar dignamente a virtude de alguém, limitando-se apenas ao castigo do crime.
  88. O ocidente cresceu mais rapidamente em ciências naturais. Mas o oriente cresceu mais rapidamente em humanidades. Pelo menos, até a Idade Moderna.
  89. O oriente obteve o basilar primeiro.
  90. A nação judaica absorveu, segundo o livro, um grande número de práticas já adotadas no Egito.
  91. Se essas práticas entraram no culto judaico é porque Deus as santificou. Isso é interessante porque eu tenho a impressão de que Voltaire é católico. Os protestantes têm como principal argumento contra o catolicismo o fato de que um número grande de práticas pagãs entraram no culto católico. Mas Voltaire aqui está argumentando que não importa se as práticas são pagãs se Deus não as condena. Se assim o fosse, nem mesmo o batismo, diz o livro, seria ritual cristão, pois já era praticado religiosamente antes da vinda de Cristo em religiões da Ásia. Assim, Deus poderia santificar algumas práticas, argumenta Voltaire, e incorporá-las no culto.
  92. Podemos enumerar propriedades do corpo, mas sem exatamente saber o que ele é.
  93. Voltaire critica Berkeley: se nada é corpo e tudo são ideias do nosso espírito, como é que eu morro se levar um tiro?
  94. Voltaire critica Berkeley também com o mesmo argumento que usei antes: medições subjetivas são contraditórias, é verdade, mas o sistema métrico não é. Esse ataque pode também ser feito aos céticos, ironicamente combatidos por Berkeley, e que sustentavam a mesma coisa sobre a extensão dos corpos, embora mais modestamente. Os céticos não concluíam que não existe extensão só porque tamanho “depende” de quem o vê, mas simplesmente supunham que, por causa disso, tamanho é relativo e não se pode se pronunciar sobre extensão de maneira absoluta.
  95. Muitos platônicos dos três primeiros séculos se converteram ao cristianismo. Trouxeram consigo a filosofia platônica.
  96. Para Voltaire, fazia “pouco tempo” que os cristãos tinham perdido o poder de fazer exorcismos, poder antes confiado aos judeus, os quais também o perderam.
  97. Há mais evidência bíblica contra a Trindade do que a favor. Mas a doutrina da divindade de Cristo prevaleceu por votação nos concílios ecumênicos, quando duzentos e noventa e nove dos presentes se mostraram a favor da divindade de Cristo e dezoito apenas o consideravam filho e criatura.
  98. As primeiras conversões ao cristianismo na China começaram porque os cristãos se mostraram úteis e pacatos. Se mostrassem muito diferentes da cultura local ou se não trouxessem algo de útil, seriam recebidos com suspeita. A conversão não foi feita à escândalos e extravagâncias, mas por amizade e utilidade pública.
  99. Mesmo que eu pregue para cem pessoas, é natural que nem todos se convertam. Para Voltaire, esse é o sentido do provérbio “muitos são chamados, mas poucos são escolhidos” (Mateus 22:14).
  100. Os populares brigam com os punhos, mas os intelectuais brigam com críticas escritas. Da mesma forma que um desentendimento mesquinho pode degenerar em agressão física, muitas críticas filosóficas são movidas por inveja, mesquinharia ou orgulho, em vez de compromisso com a verdade.
  101. O gênio irritável é escusável nos artistas, na maioria das vezes.
  102. O conteúdo de uma peça ou música muitas vezes escapa à plateia, que está lá pra se divertir, não necessariamente pra pensar ou criticar o trabalho do compositor. Por isso os que compõem letras profundas, de crítica social e coisa e tal são relegados ao “nicho”, a um público pequeno em relação aos artistas que dão prioridade ao apelo estético potencial de seu trabalho.
  103. Na arte, dar prazer é o principal. Se você quer vincular uma ideia a um trabalho artístico, mas não consegue fazê-lo de forma “bela” ou “sublime” ou, de alguma forma, agradável à plateia, então sua ideia ficaria melhor numa dissertação, não no meio artístico. Porque, quando se ouve uma música, se pensa em se divertir. Se a música não agrada, ninguém se importará com a ideia que a música está tentando mostrar. O mesmo é válido pra pintura, pro teatro, pro cinema, pra todas as formas de arte, sejam estéticas, sejam técnicas (como jogos eletrônicos). Prazer primeiro, ideia depois.
  104. Um artista tem autoridade pra criticar outro artista. Difícil é achar um artista com integridade o bastante pra fazer isso satisfatoriamente.
  105. O melhor crítico de arte é o bom artista, de bom gosto e bem treinado, que não deixa seu julgamento ser prejudicado pela inveja ou pelo orgulho.
  106. Na mitologia grega, o destino é maior que os próprios deuses.
  107. O ser humano não pode mudar as leis da natureza. No máximo, pode usá-las a seu favor.
  108. Deus entende todos os idiomas. Não há necessidade de orar em latim.
  109. Para o devoto vulgar, teologia não lhe passa pela cabeça. Sua fé é toda prática.
  110. Saber teologia não ajuda a ser justo, bom ou civil.
  111. Por que se pinta Deus com uma barba? Por acaso ele é humano? Se a toupeira adorasse a Deus, provavelmente o conceberia como uma toupeira divina. “Imagem e semelhança” não é literal.
  112. Já se pensavam que existiam espécies de homens que haviam sido extintos. Nossa espécie, de fato, foi apenas um dos tipos de homem: havia outros dois. Esses eram o arcaico e o neandertal. Sabe-se que viveram juntos, como espécies diferentes da mesma família (não como raças diferentes, mas como bichos diferentes), como ocorre com as diferentes espécies de gato, cada uma com diferentes raças
  113. Escalas de gradação de seres estão fadadas a ser incompletas.
  114. O pessoal da Idade Moderna media planetas com muito acerto, mesmo sem ter nossos instrumentos.
  115. Todos têm opinião política.
  116. Não adianta aconselhar um mau governante: ele não quererá ouvir. Deve-se aconselhar aqueles que ainda não subiram ao governo, isto é, a nova geração de governantes.
  117. Nenhum governo humano dura pra sempre.
  118. A virtude é mais necessária numa monarquia, para que o monarca governe bem. Numa república, é mais necessária a honra, porque ninguém que tenha má reputação perante a maioria seria eleito.
  119. Existem muitos insatisfeitos com o próprio governo e que prefeririam viver em outro país.
  120. Leis variam de lugar para lugar também por causa do clima e da geografia.
  121. Mas não existe um lugar onde só se deva obedecer às leis.
  122. Não se deve julgar costumes passados usando os modernos como referência, diz o livro.
  123. Antigamente, tocar os genitais um do outro era um sinal de respeito e de promessa. Hoje, quando fechamos negócio, preferimos apertar as mãos. Imagine você, depois de fechar negócio, ser afagado entre as pernas e ter de fazer o mesmo com o negociante.
  124. Diz Voltaire que a palavra hebraica frequentemente traduzida por “coxa” significa, na verdade, “testículos”. Então, colocar a mão sob a coxa de alguém (Génesis 24:2) seria, se o raciocínio proceder, um eufemismo para colocar a mão sob o saco. Diz Voltaire que esse tipo de tradução era normal na época porque os tempos haviam mudado e os genitais se tornaram motivo de pudor e de vergonha. Então, seria deselegante traduzir literalmente esses termos na literatura sagrada. Mas não eram motivo de vergonha nos tempos narrados no Velho Testamento. Eram como qualquer outra parte do corpo.
  125. Isso mostra como os costumes mudam segundo região e contexto histórico.
  126. Virtude é praticar o bem.
  127. Fanatismo é o excesso de fé. É a fé que mata.
  128. A marca do fanatismo é condenar à morte quem não pensa como o fanático.
  129. Os fanáticos, ao falar de sua fé, tremem, ganham um brilho diferente nos olhos, aumentam o tom da voz, irrompem em movimentos súbitos. São apaixonados. A fé sobrepujou a razão.
  130. O fanático cristão tem em mente os exemplos de célebres assassinatos do Velho Testamento. Não passa pela cabeça deles a tolerância, a compaixão, a caridade e o amor de Cristo. Os tempos em que os judeus tinham que subjugar as gentes da Terra Prometida passaram. Não há, hoje, contexto para assassinar ninguém em nome da fé cristã ou judaica. No caso dos judeus porque as sentenças de morte previstas na Lei só podem ser executadas na presença de pelo menos duas testemunhas (Deuteronômio 17:6 / Deuteronômio 19:15) cujos testemunhos devem ser analisados por um sacerdote legítimo (Deuteronômio 17:9). Só que o templo onde isso acontecia está inviabilizado. No caso dos cristãos, matar fere o Decálogo (Êxodo 20:13 / Mateus 19:18), o amor (Lucas 10:27) e a Lei Áurea (Mateus 7:12).
  131. Se o fanático se julga inspirado por Deus, ele não ouvirá aos magistrados. As leis nada são para ele.
  132. Como persuadir alguém que julga que está matando em nome de Deus?
  133. As religiões orientais não têm fanáticos, por serem predominantemente filosóficas. Não há espaço para a paixão em movimentos conduzidos racionalmente. Como a fé é um sentimento e as religiões do Livro incorporam a fé, o judaísmo e o cristianismo estão fadados a ter fieis fanáticos. Claro que nem todos o são, mas a existência deles é, infelizmente, natural. Isso também não implica que as religiões do Livro não incorporam razão: a filosofia teve muita contribuição delas. Mas como não há necessidade de fé numa religião oriental, pois tudo está explicado racionalmente e o caminho para a divindade é reverso (normalmente, Deus se revela a nós, mas, nas religiões orientais, o fiel chega ao sobrenatural pela razão), só seria possível se tornar fanático sendo doente.
  134. Seitas de filósofos sinceros também não têm fanáticos. Argumentam entre si para converter uns aos outros de escola para escola, mas não vão ao ponto de matar quem se opõe. Isso porque forçar o outro a se calar (pra sempre) é quase um atestado de derrota: o matei porque não aceito que estou errado. Aí é que ninguém vai dar ouvidos a você.
  135. Deus fez tudo visando um propósito, pensam os otimistas metafísicos. Então, se eu coloco um anel no dedo é porque Deus fez o dedo também pra receber o anel. O problema é que os produtos humanos são ordenados por humanos, enquanto os naturais são ordenados pelo divino. Não foi Deus que fez o anel. Se eu o fiz, dou a ele a função que eu desejar.
  136. Quando os sentidos se enganam na percepção de algo, isso não quer dizer que Deus está nos enganando, como diz Platão em um diálogo cujo nome esqueci. Exemplo: quando olhamos a Lua, a vemos pequena. Será que Deus nos engana mostrando aos nossos olhos uma Lua pequena? Não é isso. É que estamos concebendo o tamanho da Lua com informação insuficiente. Nós cometemos o engano porque esperamos que Deus revele a verdade sempre facilmente, mas não é o que ocorre. Não basta só olhar, é preciso pensar. O engano está, então, na atitude de tomar as coisas pelas suas aparências, como se estas bastassem. Portanto, mentir “em nome de Deus” não é justificável.
  137. Não é que nossos olhos estejam enganados, é que a informação dada foi mal-interpretada pela razão.
  138. Mentir para uma criança a fim de deixá-la mais receptiva ao remédio amargo também não é boa ideia. Quando ela colocar o remédio na boca, vai te achar um mentiroso. Você se dá à perda de crédito por seu próprio filho. Além disso, se você for sincero ao dizer que o remédio, apesar de amargo, o fará bem, ele talvez até entenda que é necessário se expor ao desprazer para obter algo melhor. Isso o torna corajoso e sábio, pois entenderá que é possível julgar perdas e ganhos de cada ação e que algumas dores são necessárias.
  139. Mentir para fins religiosos leva ao ateísmo. A religião passa a ter fama de ridícula.
  140. Os operários poderiam ser instruídos como os letrados. Seria interessante que todos recebessem a mesma educação.
  141. Mas, para Voltaire, não se deve fazer isso senão com certos saberes. Existem saberes úteis a todos, que devem ser ensinados a todos. Platão dirá que é a matemática, Voltaire dirá ser a justiça.
  142. A crença de que Deus recompensa os bons e pune os maus basta para conduzir as pessoas crentes ao bem. Mais teologia que isso não é necessário.
  143. Se o filósofo descrente critica a religião, quanto mais atacará tudo o mais. Nada é impassível de dúvida para ele. Esse é o comportamento padrão da filosofia, aliás. Filósofos que salvaguardem certas coisas da dúvida, como os filósofos que também são religiosos, são raros (a menos que se conte os fanáticos da universidade, que passam a vida inteira repetindo um escritor sem nunca cogitar a possibilidade de que este possa estar errado, ainda mais quando é um desconhecido da Itália cujo nome começa com “Vi” e termina com “co”).
  144. “Quem te disse que Deus pune?” Ora, “quem te disse que não?”. Para Voltaire, suspender o juízo do filósofo basta. Não precisamos convertê-lo. Já a Carta dirá que é preciso proibir o discurso ateu.
  145. Chamamos nossas faculdade mentais de “espírito” por razões aleatórias. Queríamos um nome legal pra dar a uma coisa que não compreendemos.
  146. Tem muita coisa que não sabemos. Quando consideramos o quanto ignoramos, ficamos até com vergonha de assumir o cargo de doutor ou professor.
  147. Sem misericórdia, poucos estariam vivos. Basta ver com que facilidade matam os que são tomados pelo desejo de consumir drogas. Seu vício supera sua humanidade e, sufocando sua misericórdia, tornam o assassinato seguinte mais fácil do que o último.
  148. Fazer algo “para a glória de Deus”, segundo Voltaire, é inútil: que benefício poderia Deus tirar da glória dos atos humanos? De fato, a Bíblia diz que devemos dar glória a Deus, mas veja lá como vai fazer.
  149. Dar glória a Deus com atos vãos pode até ferir o terceiro mandamento (Êxodo 20:7). Matar ou roubar para a glória de Deus, imagine só.
  150. Para Voltaire, Deus não se ocupa dos seres humanos o tempo todo. Ele tem o universo inteiro com que se preocupar. É por isso que temos que orar para que ele atente para nós. Ele não virá se não formos em sua direção.
  151. Toda a Criação tem um grau de autonomia. Deus não precisa intervir o tempo todo em sua criação porque ela tem condições de funcionar sozinha. Ela é toda inteligente e ordenada. Se Deus tivesse que intervir com tanta frequência, em que sentido a Criação teria sido concluída no dia seis?
  152. Voltaire é um escritor bem sarcástico. Dá pra rir lendo.
  153. Passar fome ou adoecer nem sempre dependem da vontade humana. Mas entrar em guerra, sim.
  154. Para dar leis a alguém, é necessário consenso do que recebe a lei.
  155. Há soldados que vão pra guerra sem saber contra quem lutarão e por que lutarão. Só querem ser pagos.
  156. Antigamente, os exércitos eram abençoados por padres, os quais pediam a ajuda de Deus para vencer o exército oposto. Isso já é pecado grande o bastante. Depois da guerra, nem sempre agradeciam a Deus, mesmo que tivessem um bom saldo de mortes. Isso provavelmente é um pecado menor, já que eu acredito que Deus não ajudaria na guerra (fazia no tempo do Velho Testamento para o estabelecimento da nação judaica como especial).
  157. O cristão que participa da guerra e que prega contra todos os tipos de vício fora da ocasião de guerra comete hipocrisia: fala contra pecados pequenos, que nem sempre são pecados, mas comete os grandes. Como corrigir o outro se eu faço pior que ele (Mateus 7:5 / João 8:7)?
  158. O amor é a única esperança de reparo da conduta humana. Mas frequentemente trabalhamos contra o amor.
  159. Os pecados que não são cometidos contra o amor parecem ser menores do que os cometidos contra o amor. Na verdade, alguém escreveu que a prática da caridade, uma manifestação de amor, perdoa pecados (1 Pedro 4:8). De fato, não há quem não peque, mas sejamos bons pelo menos.
  160. A guerra causa mais males do que todos os vícios cometidos por uma só pessoa em toda a sua vida.
  161. De que vale a virtude numa guerra?
  162. É especialmente triste quando os que morrem na guerra são jovens guerreiros. Tinham uma vida inteira pela frente e morrem aos vinte anos.
  163. Pra não falar das crianças mortas entre as batalhas.
  164. Antes da subida do primeiro rei, Israel era governada por juízes, enviados de Deus. Quando Israel resolveu que seria bom se subjugar a um rei, como os gentios faziam, eles estavam rejeitando o próprio Deus (1 Samuel 8:7).
  165. O governo de Israel passou a ser monárquico e humano. O pecado de Adão se repete.
  166. Voltaire identifica contradições entre os livros dos Reis e os livros das Crônicas. Como Deus já não mais governava Israel diretamente, mas podia apenas dar conselho por meio dos profetas, é natural que a história tenha sido escrita de forma secular. Se Deus fosse o único escritor dos livros de Samuel, Reis e Crônicas, esses livros não deveriam se contradizer em relação à ordem em que os fatos acontecem. Isso mostra que os escritores estavam narrando os fatos conforme sua lembrança. O mesmo se dá no Novo Testamento: os Evangelhos têm contradições históricas. Isso não quer dizer que Jesus nunca existiu ou que ele não é o Messias (sua vida está cheia de profecias concluídas), mas que os livros que narram sua história, principalmente o Santo Evangelho Segundo São Lucas (o qual, em Lucas 1:3, admite que seu evangelho é fruto de uma pesquisa e não de divina inspiração), foram escritos por humanos, esforçando suas memórias humanas e capacidades humanas. É importante lembrar que os evangelhos se contradizem apenas em relação à cronologia, mas não em relação à doutrina, ou seja, a Bíblia pode até ser infalível moralmente, mas não é, certamente, inerrante. Além do mais, se os Evangelhos fossem inspirados, ou seja, como que “ditados” por Deus para humanos copiarem, todos os Evangelhos canônicos deveriam concordar em tudo, de forma que um só bastaria. Mas, se temos quatro, é para que o leitor, lendo os quatro, identifique a história real, que transparece nos quatro pontos de vista (um aluno, uma testemunha ocular, um pesquisador e um apóstolo).
  167. Outro argumento de Voltaire contra a possível inspiração divina por trás de Reis e Crônicas é de que são histórias com quase zero valor moral, segundo ele. A Lei e as Profecias são bastante edificantes em termos morais. Mas a História (de Josué até Ester) é, para Voltaire, um banho de sangue: é morte após morte, assassinato após assassinato.
  168. Idolatria é adorar uma imagem ou representação. Render culto a uma imagem, como uma estátua, lhe oferecendo orações, sacrifícios, súplicas e gestos de respeito. Tomás, canonizado como santo pela Igreja Católica, já condenava a adoração de imagens e até mesmo de Maria, embora implicitamente. Para ele, Deus deveria ser sempre o centro do culto. Se hoje se sustenta que os católicos rendem culto à Maria ou aos santos canonizados, me pergunto como e quando a Igreja começou a fazê-lo, porque Tomás, na Idade Média, já achava isso errado. Ironicamente, depois que morreu, Tomás foi feito o santo padroeiro da educação e recebe culto.
  169. Muitas vezes, a estátua ou a imagem é meramente um meio do fiel se concentrar na divindade ou pessoa que está representada. Ele não é tolo o bastante para achar que a estátua é a pessoa representada.
  170. O engano do idólatra não é adorar a estátua, mas adorar a divindade falsa, diz Voltaire. Na verdade, e com isso concorda Tomás, o engano está em adorar qualquer coisa que não o Deus verdadeiro.
  171. Assim, o fiel que reverencia uma estátua de Maria, diz Voltaire, não está rendendo culto à estátua, mas à Maria, a qual é representada pela estátua.
  172. A procissão tem origem pagã. Hobbes dirá que isso não invalida a carga pagã do ato, mas Voltaire diz que um costume, se incorporado à religião verdadeira, pode ser santificado. Com efeito, a circuncisão, conforme Voltaire diz um pouco antes, já era adotada no Egito e foi feita por Deus um sinal sagrado. Também segundo ele, o próprio batismo também era praticado entre gentios e entre judeus prosélitos. Então, muitos costumes hoje tidos por religiosos não se originam no cristianismo ou no judaísmo.
  173. Outras religiões jejuam.
  174. Porque os fieis ora chamam Maria de “Nossa Senhora de Fátima”, “Nossa Senhora da Assunção” e coisas que tais, se são a mesma Maria? Antigamente, porque as estátuas de Maria eram nomeadas segundo o lugar onde ficavam. Assim, por exemplo, se tivesse uma estátua de Maria numa cidade chamada Neves, ela seria chamada “Nossa Senhora de Neves”, referindo-se à estátua e não à Maria. Então, ver a “Nossa Senhora de Neves” quer dizer ir à Neves, ver a estátua de Maria que lá está.
  175. Se fosse a estátua a ser adorada e não a divindade por trás da estátua, então haveria vários deuses Apolo, um para cada templo.
  176. O termo “idólatra” tem origem cristã. Antes do cristianismo, ninguém falava de idolatria, porque não existia essa palavra.
  177. As coisas sagradas podem se tornar ídolos. Por exemplo, a serpente de cobre feita por Moisés para curar os israelitas do veneno das víboras (Números 21:9) teve que ser destruída porque o pessoal estava lhe oferecendo sacrifícios e a adorando (2 Reis 18:4).
  178. Não era a estátua de Júpiter que lançava os raios e nem a estátua de Netuno que agitava os mares. As estátuas não eram vistas como deuses.
  179. Os protestantes atacam a igreja católica chamando-a de idólatra, mas as imagens dos santos não são os santos. A imagem de Jesus ou a cruz não são Jesus. Se o fiel se ajoelha diante dessas coisas, está adorando aquilo que a cruz representa, que é Jesus. Ele não tem em mente que está rendendo graças à imagem diante dele.
  180. O ser humano parece ter sido feito pra crer em Deus, pois vários povos têm suas religiões. Mas as diferentes religiões mostram que cada povo concebe uma divindade como acha plausível. Seria necessário que o Deus verdadeiro aparecesse pra alguém e se revelasse como tal para que fosse de outra forma.
  181. Havia uma pressão católica para fazer oferendas às estátuas, no Renascimento. Isso porque os padres recolhiam as oferendas depois. Então, mesmo que o fiel não visse a ligação entre estátua e santo, era interessante ao padre fazer essa ligação para obter, depois, as oferendas feitas aos pés da imagem.
  182. Não é possível ler história universal sem sentir vergonha, em algum ponto, de participar do gênero humano, tamanhas atrocidades por ele feitas e exaustivamente documentadas historicamente.
  183. Só Deus pode tirar a vida de um ser humano. O assassinato seria, dada essa premissa, usurpação de direito divino.
  184. Os sábios da antiguidade, mesmo que não professassem publicamente, chegavam frequentemente à conclusão monoteísta: se existe algum Deus em algum lugar, ele é único.
  185. O muçulmano tem mais razão em chamar os cristãos de idólatras: maior parte do cristianismo é católica e os católicos, mesmo quando não adoram as imagens, fazem um bom trabalho parecendo que o fazem.
  186. São nossas necessidades que nos levam a nos servir uns dos outros. Se não houvesse necessidade de serviço, não haveria necessidade de servidores. Sem servidores, não haveria chefes.
  187. Para Voltaire, o inimigo não é a desigualdade, mas a dependência. Se não dependêssemos uns dos outros, não precisaríamos nos submeter e seríamos iguais. Eu, porém, penso que a dependência entre os seres humanos não necessariamente causa a desigualdade. O que causa a desigualdade é a urgência de determinadas necessidades. Como algumas são mais urgentes que outras, são tidas em mais conta, recebem maior número de trabalhadores e se tornam ambientes mais propícios à exploração. Se todas as necessidades tivessem o mesmo valor, haveria um mutualismo: o com cada um capaz de suprir uma ou outra demanda, os papeis de senhor e servo seriam alternados periodicamente. Além do mais, sejamos realistas: não é possível acabar com a dependência entre seres humanos. Sempre precisaremos um do outro.
  188. Voltaire já via a sociedade humana como dividida em duas classes: opressor e oprimido. Marx chamará essas classes de dominante e trabalhadora.
  189. Voltaire diz que o ritmo ativo do trabalho impede o trabalhador de perceber sua própria miséria. Marx dirá que isso é uma manifestação de alienação.
  190. É possível uma revolução se a classe oprimida se servir bem do ferro contra a classe opressora sem coragem.
  191. A existência de dominadores é possível porque o ser humano tem tendência à maximizar o prazer. Se lhe for dado o meio para isso, ele quererá apenas ter sexo, comer e ganhar dinheiro sem trabalhar.
  192. A sociedade atual só pode subsistir se houver gente miserável: alguém que já tenha tudo e baste a si mesmo não quererá trabalhar pra ninguém. Se todos tivessem condições de sobreviverem de seu próprio trabalho, não teriam chefes, não haveria dinheiro nem exploração, não haveria trabalho assalariado e nem escravidão. Como existem pessoas que não têm condições suficientes de subsistência, elas precisam se subjugar a quem possa dá-las.
  193. Igualdade é o estado natural do ser humano. Mas está perdida há muito tempo e provavelmente não voltará por forças humanas. Voltaire conclui que não é possível voltar ao estado de igualdade.
  194. Algumas nações eram tão mal-governadas que estipulavam leis que proibiam os cidadãos de se mudarem pra outro lugar. Afinal, se pudessem, não ficariam lá e o Estado não poderia lucrar com arrecadação de imposto e força de trabalho.
  195. A coisa certa a ser feita é governar tão bem que os súditos queiram ficar e que os outros queiram vir pra cá.
  196. É especialmente ruim se sujeitar a quem tem menos capacidade que você.
  197. Todos os povos, para colocar um freio nos crimes secretos, criaram religiões segundo as quais os deuses punem as pessoas depois da morte. Assim, há uma barreira dupla contra os crimes: a cadeia para crimes públicos e o Inferno para crimes secretos. Mas o judeus foram um povo singular também nisso: Deus não revelou a Moisés nada sobre a vida futura. Deus pune, sim, mas nesta vida. Esse é o parecer judaico. Com efeito, a Lei não promete vida eterna, mas somente bens presentes, materiais (chuva, paz, saúde…). Pondo as coisas dessa forma, pra quê esse negócio de “evangelho da prosperidade“? A Lei de Moisés promete tudo o que o evangelho da prosperidade promete sem cobrar dinheiro por isso. Então, se o que você quer é fartura, saúde e segurança, terá mais chances de obter virando judeu em vez de atender à Universal.
  198. Para o judeu, alma é vida. Ela não é imortal.
  199. O problema é que muitos maus prosperam.
  200. A crença no Inferno tem finalidade política.
  201. O dilúvio total parece impossível: não tem água o suficiente no mundo. Porém, um dilúvio local é mais crível.
  202. Se o dilúvio foi universal, então foi um milagre.
  203. É inútil explicar cientificamente o dilúvio, se ele tiver sido universal e, portanto, milagroso. Afinal, um milagre é uma providência divina que ignora as leis de causalidade a que estamos acostumados. Como não se faz ciência sem causalidade (relação de causa e efeito, segundo a qual um efeito natural provem de uma causa natural), é impossível pra ciência explicar o dilúvio universal, caso tenha acontecido. É melhor nem tentar.
  204. É ingênuo pensar que os animais são máquinas só porque são “irracionais”.
  205. Treinar um animal mostra que os animais não agem sempre da mesma forma. Seu comportamento muda com a ação humana.
  206. A presença da linguagem não é o único sinal de razão, emoção ou sentimentos. Animais os têm e não usam a linguagem humana.
  207. Os animais sentem dor. Pra quê teriam nervos se não fosse também para sentirem prazer e dor?
  208. Será que os animais têm alma? Isso também não importa: o fato é que sentem, lembram, vivem, se comunicam entre si, aprendem…
  209. Muitas afirmações sobre as almas dos animais são gratuitas, como se não quisesse dar uma reflexão profunda sobre criaturas tidas por irracionais.
  210. Não se deve querer saber o que é uma coisa sem saber antes se ela existe. É o que fez Anselmo e todo o mundo sabe no que deu.
  211. Máquinas não têm alma, mas a marca da máquina é a operação humana. Quem opera os animais? Se operam sozinhos como nós fazemos, têm vontade, que é uma faculdade mental e, portanto, espiritual, anímica.
  212. Não é possível julgar sem antes conhecer.
  213. As leis variam de país para país, estado para estado, cidade para cidade. Os valores variam de pessoa para pessoa. Se as leis são tão voláteis, no final das contas, o que vale, é fazer bons acordos.
  214. Muitas leis justas acarretam punições injustas.
  215. Existem muitas leis perigosas.
  216. Bom senso nos leva a legislar. Justiça interior nos leva a legislar bem.
  217. O país conquistado fica sob leis arbitrárias. Leis justas são decididas de comum acordo.
  218. O cachorro do déspota vive melhor que seus súditos.
  219. Em Atenas e em Roma, uma regra religiosa só poderia existir se o Estado deixasse. Assim, se a Igreja quisesse que algum dia fosse dedicado a um santo ou coisa assim, portanto feriado, teria que pedir autorização ao Estado. Afinal, imagine se a Igreja, sem consenso estatal, tornasse feriado todos os dias do ano, de forma que a maioria da população não trabalhasse por razões religiosas. Isso seria um atentado assassino à economia.
  220. Os padres e os pastores são súditos do Estado.
  221. O padre não deve matar um cara porque ele é pecador: o padre deve orar pelos pecadores e não julgá-los.
  222. Sacerdotes não devem ser isentos de impostos.
  223. Leis que precisam ser interpretadas são facilmente corrompidas. Hobbes, ciente do problema, dirá que convém que cada lei venha com uma descrição das condições que levaram à sua promulgação (para que a lei expire quando esses condições não mais existirem) e o propósito ao qual ela serve (para que só se possa interpretá-la de um modo).
  224. Impostos devem ser proporcionais. Quando mais ganha, mais imposto paga.
  225. A lei que proíbe algo bom é inválida, ninguém a respeitará.
  226. Liberdade é o poder de escolher entre aquilo que me é dado escolher. Ela não é absoluta, pois há coisas que me ocorrem e que estão além da minha escolha.
  227. Isso significa que a liberdade é a mesma em todos os animais. O ser humano não tem mais liberdade que o cachorro, por exemplo, no sentido de que a liberdade é a mesma em ambos: o poder de escolher entre as opções dadas. No máximo, se eu quisesse sustentar que o ser humano é mais livre, eu poderia argumentar que a quantidade de opções para nós é maior.
  228. A liberdade é igual em todos, o que varia é o número de opções.
  229. Não é possível querer sem razão. Fazemos escolhas visando nossa felicidade.
  230. “Quero porque quero” é absurdo.
  231. A nossa liberdade é racional. Nós pensamos antes de escolher, para verificar quais razões nos levam a escolher uma opção e não as outras. Os insensatos reflectem menos tempo.
  232. Não escolhemos o que desejamos, mas escolhemos se é ou não sábio satisfazer o desejo.
  233. Indiferença é uma escolha. Sartre diz a mesma coisa quando ele diz que a inação já é um posicionamento. Então, não existem escolhas “neutras”. Pascal dá um exemplo prático na dicotomia entre cético e dogmático.
  234. A loucura em Voltaire é a doença, não simplesmente o comportamento anormal, como em Erasmo. Como uma pessoa pode agir loucamente se a alma (residente no cérebro) é de igual natureza às outras almas, de pessoas saudáveis?
  235. Todos são loucos para a loucura, diz Voltaire, porque os sábios, teorizando sobre a loucura, chegam a conclusões sem sentido. A única saída, a meu ver, assumindo a alma incorruptível como pressuposto, seria teorizar uma lesão ou doença no caminho entre a sensação e a alma, seja essa imperfeição no cérebro, no órgão sensorial ou em qualquer lugar entre um e outro. Isso não parece repudiar a pureza da alma, a qual é alimentada com informações distorcidas e, portanto, emitindo julgamentos distorcidos. Claro que a medicina atual tem visões diferentes sobre o assunto e eu mesmo talvez não sustentasse esta opinião que acabo de formular. Estou apenas tentando dar uma resposta adequada à época em que o livro foi escrito.
  236. É fácil se manter virtuoso quando não há tentação a enfrentar.
  237. Alguns costumavam dizer que é lícito roubar se não formos usar o produto do roubo. Mas veja se isso faz algum sentido.
  238. Ricos e pobres são passíveis de morte. Então, por que não morrer rico?
  239. O excesso de riqueza é que é ruim. “Excesso” é algo que está em tão grande volume ou quantidade que torna-se prejudicial. O excesso de riqueza seria então uma quantidade exorbitante de dinheiro a ponto de prejudicar alguém. Faz sentido no período de Voltaire: por volta desse tempo, se tinha a sensação de que o comércio era um “jogo de soma zero”. Então, para cada homem muito rico há homens muito pobres. Para o pensamento da época (posso estar enganado), se alguém tem excesso é porque, mesmo que indiretamente, esse alguém está privando outros de sua parte.
  240. As inovações são vistas como desnecessárias por muitos, como sendo fúteis e, portanto, viciosas. Pra quê computador se tenho máquina de escrever? Pra quê cortar as unhas ou aparar os cabelos se crescerão de novo? Essas coisas já foram novidade e muitas novidades são vistas com maus olhos por pessoas que estão acostumadas com o que já têm.
  241. Falar muito pra responder uma pergunta é tão suspeito quanto ficar calado. Em um caso, se finge saber. Em outro caso, se admite não saber.
  242. O que é a alma? Ou melhor: o que é a matéria? Todos sabem a resposta sensualmente, mas poucos são capazes de colocar essa resposta em palavras de maneira satisfatória (por favor, não diga que é cada divisória do caderno).
  243. A geometria é mais segura que a metafísica.
  244. Nada vem do nada.
  245. Nenhuma mitologia concebe, diz Voltaire, um universo que tenha vindo do nada. Elas pressupõem um caos anterior. Tem que ser um Marcelo para bolar um mito tão absurdo. Que bom que ele não o levou a sério, reservando-o ao seu cenário de campanha.
  246. Somente para as religiões do Livro é que a eternidade da matéria é ofensiva: a criação divina é a exceção ao “nada vem do nada”, porque foi do nada que Deus criou as coisas.
  247. De acordo com Voltaire, por muito tempo, também os judeus não sabiam exatamente se Deus tinha feito tudo do nada ou se a matéria lhe era co-eterna.
  248. No princípio, Deus criou os céus e a terra (Génesis 1:1), mas isso não necessariamente quer dizer que Deus criou céus e terra do nada. O verso seguinte (“a terra era informe e vazia…”) também não sugere isso.
  249. Voltaire aponta que, em hebraico, o termo utilizado para designar Deus no Génesis 1:1 está no plural.
  250. Um punhado de estudiosos judeus de antes da época de Voltaire afirmam a co-eternidade da matéria, como um princípio mau. Deus teria, dizem, a moldado para torná-la boa, ordenando o caos.
  251. Esse pensamento não é exclusivamente judaico e nem neles se origina. O estudioso foi provavelmente inspirado por outras versões do princípio do cosmos.
  252. Só é possível dividir por movimento, diz Voltaire.
  253. O sistema de co-eternidade da matéria é problemático.
  254. Admitir a co-eternidade da matéria não afeta a moral, para Voltaire, porque essas questões teológicas não nos impedem de sermos bons como Deus quer que sejamos. Só me pergunto se isso não seria alguma blasfêmia…
  255. A maioria das questões metafísicas e teológicas é irrelevante em termos morais.
  256. Para Voltaire, o ser humano não nasce mau. O pecado de Adão e Eva ficou lá com os dois, então. Ele não seria transmitido de pai para filho como quer Tomás. Hobbes também dirá algo parecido, quando ele diz que o ritual de batismo católico envolve algo que parece um exorcismo, como se o bebê a ser batizado já estivesse possuído por um demônio. Para Hobbes, batismo é só se banhar na água com alguém dizendo a fórmula batismal, não havendo necessidade do óleo sagrado ou da saliva do padre sendo quase que enfiada no nariz do bebê (me pergunto se isso ainda é feito). Importante ressaltar que a opinião da Igreja Católica é a de que qualquer um pode batizar na ausência de um sacerdote. Meu pai, por exemplo, batizou uma criança no bairro em que eu morava. Ora, mas esse batismo, considerado válido, não tem a tal saliva nem o óleo sagrado. Fica assim patente que maior parte do ritual do batismo é desnecessário, com os únicos elementos indispensáveis sendo a água e a fórmula (“fulano, eu te batizo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” ou “em nome de Jesus”, dependendo do viés doutrinário). Sem falar nas preliminares (confissão e arrependimento dos pecados, os quais a criança não precisaria fazer porque nasceu faz pouco tempo). Se o pensamento de Voltaire se estende até à doutrina do pecado original, ele está contradizendo Paulo, para quem todos têm uma mancha de maldade (Romanos 5:12) que só pode desaparecer pela doutrina de Cristo. Se ele contradiz Paulo sem contradizer Jesus, então pouco me importa.
  257. Se eu nascesse doente, não haveria médico capaz de me curar. Minha “doença” seria parte de minha natureza.
  258. A criança não é má por natureza. Se ela pratica o mal, é porque teve uma educação ruim. Ela aprendeu a fazer isso, diz Voltaire. Isso parece uma questão de ponto de vista. Os delitos infantis são, para uns, marcas de inocência e, para outros, marcas do pecado original. Eu sempre achei que essa reflexão sobre a natureza do ser humano, ser mau ou bom de nascimento, é uma questão de ponto de vista. Agostinho, por exemplo, discorda. Estudiosos contemporâneos também vêem as coisas assim, as crianças agem por instinto, como bichinhos. Se esses instintos são aceitáveis na sociedade, a sociedade as verá como boas. Do contrário, as verão como más. Então, pelo menos pra mim, a bondade ou maldade inerente à criança depende do contexto histórico e social, dos valores que os adultos têm, porque são os adultos que julgam se a criança é boa ou má, se ela precisa de correção ou incentivo, se em apenas alguns comportamentos ou em todos os comportamentos.
  259. “O primeiro ambicioso corrompeu a terra.” Os comportamentos ruins passam de pessoa para pessoa, como doenças, transmitidas pelo exemplo.
  260. Nem todos os que estão expostos a males morais os contraem.
  261. Voltaire compara a maldade inerente com os animais que caçam sem culpa. Isso me parece outra evidência do lance do ponto de vista: o comportamento moral dos animais também é questão de ponto de vista. Aliás, eu não gosto de aplicar conceitos humanos, como moral, aos animais. Não têm essa preocupação de certo ou errado, tendo seu comportamento guiado pelo prazer, pela utilidade pessoal ou pela utilidade da espécie. Bem e mal, moral, são conceitos estranhos aos bichos. Mas Voltaire diz que, se o ser humano fosse mau por natureza, agiria como os animais que caçam sem remorso.
  262. Praticar o mal requer tempo livre. Quem trabalha muito não tem tempo pra roubar, diz Voltaire. Observe que hoje, porém, há quem faça profissão do crime.
  263. De acordo com os cálculos de Voltaire, uma em cada mil pessoas pode ser chamada “má”.
  264. Há menos maldade na Terra do que se pensa, segundo Voltaire. O que nos faz pensar que estamos perdidos é a constante exposição à notícias, boatos, lamentos de pessoas que sofreram injustiças de alguém. Foi assim que perdemos a presidente, com as notícias fazendo parecer que o país estava perdido sob sua administração, quando tinha muita gente que, desligando a televisão pra ir pro trabalho ou pra farra, não via nada disso de que as notícias falavam. Se o Brasil estivesse tão ruim, não precisaríamos das notícias pra nos dizer isso.
  265. O povo judeu foi oprimido várias vezes e cruelmente. Esperavam um salvador poderoso e grande. Quando Jesus apareceu, não acreditaram, porque Jesus veio pacificamente e tinha tomado a forma de ser humano. Ficava difícil acreditar que Jesus libertaria alguma coisa.
  266. Isso levou os judeus a acreditarem em vários falsos messias que apareceram depois de Jesus. Quando um deles, condenado à morte, tentou obter misericórdia se convertendo ao Islã, resolveram deixar de crer em messias humanos, diz Voltaire. Esse último falso messias foi morto pelo exército do sultão, se tornando piada para muçulmanos e vergonha para os judeus da época.
  267. A migração das almas para outros corpos depois da morte é um dogma de origem oriental e é mais velho do que muitos pensam. Com efeito, Platão, herdando dos pitagóricos, se refere a essa ideia como muito confiável.
  268. Se milagre é uma coisa admirável, então tudo é milagre: pra que milagre maior do que o de estarmos vivos? Como isso pode acontecer? Por que nós e não outros?
  269. O milagre, em sentido estrito, porém, é a providência divina que age fora da causalidade. É quando Deus resolve fazer algo que exceda o funcionamento normal da natureza. Exemplo: ressuscitar alguém (2 Macabeus 7:9 / Mateus 16:21).
  270. Dizer que Deus não iria querer “quebrar” as regras da criação, mesmo sendo dono delas, para favorecer um povo seleto que tem um acordo com ele (como os judeus, por exemplo) é negar a compaixão divina. É como se Deus tivesse feito suas criaturas e não as amasse a ponto de fazer uma modificação perfeitamente reversível e temporária nas leis cósmicas, um acontecimento que poderia inclusive ser local.
  271. Para os que crêem, mas não em milagres, a execução de milagres é contraditória: as ações divinas não seriam perfeitas, dizem, se Deus tivesse que mudá-las, mesmo que temporariamente.
  272. Para o mecanicista, tudo sempre tem explicação lógica. Milagres podem ser cientificamente explicados, dizem.
  273. Imagine se a academia recebesse a denúncia de um milagre em execução, mandasse um professor ao local pra interromper e pedir que ele executasse o milagre na faculdade, assistido por médicos e físicos só pra saber se o milagre é realmente tal. Seria embaraçoso.
  274. Óbvio que não foi Moisés que escreveu o Pentateuco, uma vez que o Pentateuco termina com a morte de Moisés e a declaração de que seu túmulo nunca foi encontrado (Deuteronômio 34:5-6). Como Moisés poderia ter escrito isso? Ele provavelmente tinha um escriba. Hobbes dirá que quem escreveu o Pentateuco foi Josué. Ainda existe a possibilidade, embora remota, considerando o estilo de escrita, de que maior parte tenha sido escrita por Moisés e somente o Deuteronômio ou mesmo somente o final de Deuteronômio tenha sido escrito por Josué. Assim, seriam “livros de Moisés” no sentido de que são livros sobre Moisés (com adição do Génesis, que fala do que havia antes de Moisés), tal como os Evangelhos são livros sobre Jesus.
  275. De acordo com a tradição ortodoxa, a Lei foi queimada durante o exílio babilônico. Um escriba teve que reescrever tudo. Então, se levamos em consideração os livros desse escriba contidos na Versão dos Setenta, foi ele quem escreveu toda a Lei e mesmo todo o Velho Testamento como o conhecemos.
  276. Foi provavelmente esse escriba quem completou o Deuteronômio.
  277. O Levítico, diz Voltaire, proíbe casar com cunhadas, mas o Deuteronômio deixa. Isso porque o Deuteronômio representa as “segundas leis”, que entram em vigor na entrada de Israel na terra prometida. Então, o Deuteronômio tem prioridade.
  278. “Pátria” é o conjunto de famílias em determinado território. Quanto maior a pátria, mais difícil é amá-la, porque famílias distantes se estranham.
  279. A perseguição obcecada de títulos elevados (como na política) revela mais o amor próprio do que o amor pela pátria.
  280. Todo o mundo deseja as mesmas coisas: educação, saúde, segurança… Então, quando votamos, não votamos pela pátria, mas por nós mesmos, porque esperamos que o Estado nos garanta essas coisas. Então, é sua vida que deveria formar a base para sua escolha eleitoral, não as notícias. Pense bem: se a vida estiver ruim pra maioria, então a situação não será reeleita, mas a oposição, porque a maioria não quer mais a situação. Porém, se você leva as notícias em consideração, a propaganda feita por elas desequilibra a eleição, porque se insere um elemento estranho ao julgamento do voto democrático. Se sua vida estiver indo bem, reeleja a situação para que continue como está. Se ela estiver indo pior do que no mandato anterior, procure outros candidatos. As escolhas políticas do país são péssimas porque se pensa que assistir às notícias te torna culto e informado, mas não necessariamente é assim. “E se o político for ladrão e isso passar nas notícias, devo levar isso em consideração?”, alguém pode perguntar. Bom, você sente os efeitos de seu roubo? A educação, a saúde e a segurança estão ruins pra você apesar desses roubos? Se estiverem, então não vote mais nele. Se estiverem, então ele é do tipo “rouba, mas faz”. “Mas eu não deveria escolher políticos que não roubam?”, alguém pode perguntar. Se você pensar dessa forma, não votará em ninguém, porque só se fala nos que roubam. Sobre os honestos, se guarda silêncio na mídia. Preste atenção: existe notícia sobre político honesto? Quase zero ou mesmo zero. São desconhecidos. Por essa razão, as notícias não deveriam ser critério de julgamento para o voto individual, porque ela é parcial, focando-se no negativo apenas, o que dá a impressão de que todos os políticos nacionais são ruins (é notável como o político mais bem-falado no Brasil é o presidente dos Estados Unidos). Se o voto é individual, a vida da pessoa é que deveria dizer se reelege ou não. Afinal, se a vida da maioria estiver ruim, claro que não ele não irá se reeleger.
  281. Para Voltaire, todos os governos foram repúblicas algum dia. Outros dirão algo parecido ao afirmar que todas as monarquias foram eletivas em algum ponto.
  282. Que tipo de governo é o melhor? Os reis preferem a monarquia, os ricos preferem a aristocracia e o povo prefere a democracia. Claro que a “melhor forma de governo” depende do interesse pessoal…
  283. Por que, na época de Voltaire, a maioria dos governos europeus era monárquico? Ele diz “perguntai-o aos ratos que decidiram amarrar um sino no pescoço do gato.” Eu conheço essa fábula. Era um vez um gato assassino que perseguia os ratos da casa a fim de comê-los e fazia um bom trabalho nesse esporte. Os ratos, tementes por suas vidas, se reuniram numa assembleia para decidir o que fazer. Quem desse a melhor ideia seria proclamado rei dos ratos. Então, um deles se levantou e disse: “irmãos, o gato só nos pega porque ele é sorrateiro, mas, se agarrarmos um sino ao redor de seu pescoço, ouviremos sua aproximação e teremos tempo de fugir!”. Ele foi proclamado rei dos ratos sob muita festa e gulodice. Mas, no dia seguinte, alguém tinha que colocar o plano em execução. Quem? Os ratos começaram a pressionar o novo rei até que ele abdicou do cargo, porque ficara evidente que ele é quem eventualmente teria que fazê-lo. Moral da história: fácil falar, difícil fazer. A alusão que Voltaire faz é provavelmente a de que os europeus da época gostavam da monarquia porque todo o trabalho político ficava com o rei, a quem podiam pressionar e culpar. É o ambiente propício à alienação de responsabilidade.
  284. O ódio às nações opostas às ideias da pátria, infelizmente, parece fazer parte do sentimento de patriotismo.
  285. Você é patriota quando não se importa quando sua nação enriquece às custas de outras. Você é patriota quando não se conforma quando outra nação enriquece às custas da sua.
  286. Jesus deu a Pedro as chaves do reino dos céus e disse que sobre ele seria a Igreja construída (Mateus 16:18-19). Essas frases ambíguas foram entendidas de formas diferentes dependendo de quem as interpretava, ora servindo como argumento a favor da não sujeição da Igreja ao Estado, ora servindo como argumento de que Pedro foi o primeiro papa…
  287. As igrejas primitivas eram comunidades. A Igreja única só apareceu no fim do segundo século. E deixou de ser única no Grande Cisma. E ficou ainda menos única com a Reforma Protestante. Agora a Igreja é dividida em três denominações: católica, ortodoxa e protestante.
  288. Voltaire diz: não há prova de que Pedro esteve em Roma ou que tenha sido posto numa cruz invertida.
  289. Os papas não eram perfeitos. Então, suspeitar de sua infalibilidade é escusável. Esse argumento também serve contra Paulo e Pedro. Entravam em conflito (Gálatas 2:14). Fica difícil saber qual dos dois, então, é inspirado, mesmo quando ambos operaram feitos sobrenaturais (Atos 3:6 / Atos 14:13), o que não é garantia de comunhão com Jesus (Mateus 7:21-23).
  290. Preconceito é uma opinião sem julgamento.
  291. A criança é cheia deles, recebendo valores dos pais antes de ter idade para julgá-los.
  292. Existem “bons” preconceitos. São aqueles que o julgamento vê que estão corretos quando o julgamento é exercido. Se fôssemos esperar que as crianças desenvolvessem juízo para educá-las, não o faríamos antes da adolescência, o que poderia ter efeitos catastróficos.
  293. Os olhos enganam, mas o ouvido não o faz.
  294. Antigamente, nos tempos do Velho Testamento, se subjugar a Deus não necessariamente significava que os deuses das outras nações eram falsos, diz Voltaire.
  295. O fato de o Santo Evangelho Segundo São João se referir a Jesus como o “Verbo” tem motivações filosóficas. De acordo com alguém, o movimento filosófico da patrística começa com João e com Paulo, os quais, vendo a dificuldade do ensino de Cristo em ganhar adeptos entre os gentios, escrevem seus textos em resposta às objeções feitas pelos filósofos da época. “Verbo”, no original em grego, é “logos“, um conceito filosófico já existente entre os gentios. João identifica em Jesus aquilo que os filósofos sabiam que existia sem nunca terem visto. O ensino de Cristo se impõe, então, como a verdade procurada exaustivamente pela filosofia.
  296. Alguns erros de raciocínio ocorrem. Por que Deus os permite? Diz Voltaire que é porque esses erros não alteram a doutrina principal.
  297. Os crimes cometidos em nome da religião cristã superam os crimes cometidos em nome de qualquer outra religião.
  298. Se você for falar de alguma coisa com alguém, não dê provas a menos que o ouvinte as peça. Se você começar por dizer que o que você está falando já está provado, o ouvinte se prepara para julgar, o que requer a tomada de uma posição incrédula. Se depois dessa prova ele ainda se mantiver incrédulo e você disser que a culpa é dele, ele ficará com raiva de você. Então, deixe as provas para os que as querem.
  299. Quando alguém não pensa como você e você fica com raiva dessa pessoa, você está manifestando orgulho. Você tem para si que seu raciocínio é melhor e a recusa a ele é uma afronta à sua auto-estima.
  300. Antigamente, se acreditava que a alma residia no peito, porque emoções fortes são sentidas no coração primeiro.
  301. Dar sentidos forçados a textos claros é trabalhar contra o entendimento do texto.
  302. Pra quê Salomão tinha tantos cavalos em tempos de paz? Ora, pra passear com as mulheres dele!
  303. “Entender num escritor o contrário do que ele diz é zombar da humanidade.” Meu Deus, a gente bola de rir.
  304. Voltaire deixa bem claro ao dizer que ele abominava os judeus. Aliás, ele (um tanto presunçosamente) estende esse pensamento à toda a cristandade quando diz “nós”, isto é, os cristãos, “abominamos os judeus”. Ora, mas não era Jesus judeu? Ele faz uma exceção ao dizer que, se os cristãos recebem algo dos judeus, esse algo deve carregar a marca divina. Jesus é o filho de Deus, então ele traz essa marca. Do ponto de vista de Voltaire, um bom número de livros do Velho Testamento não é inspirado. Ai, põe esse no Índice. Se Voltaire escrevesse algo assim hoje, seria preso por intolerância religiosa. Fica claro que ele odiava os judeus (apesar de falar da tolerância mais à frente).
  305. Só temos cinco sentidos. Não há como imaginar como seria ter um outro. Os cientistas modernos consideram, contudo, o equilíbrio como um sexto sentido.
  306. Pode existir, em algum lugar, seres com mais de cinco sentidos. Se esse animal pudesse fazer ciência…
  307. Mas pense como deve ser a vida de alguém com mais de cinco sentidos. Não temos poder sobre nossos sentidos, não escolhemos quando nossos sentidos se sensibilizam a determinado objeto. Nós acordamos com a luz em nossos olhos, o barulho em nossos ouvidos, cheiros e gostos também nos acordam e acordamos por causa do frio e do calor. Mais sentidos significa mais sensibilidade e mais estímulo, mais estresse e mais insônia.
  308. Pensamento e sensação são igualmente interessantes.
  309. A sensação também é uma faculdade dada a nós pela divindade. Então, há algo de divino em toda a criação, inclusive nos animais ditos irracionais.
  310. Descartes foi o primeiro cara, segundo Voltaire, a dizer que já nascemos sabendo alguma coisa. Alguém demonstrou que Descartes esquece que essas verdades inatas não passam pela cabeça das crianças.
  311. Alguns erros são afirmados porque alguém de má reputação afirma o contrário. Se um mal-falado fala a verdade, se assumirá, com base em sua reputação, que ele mente e se tomará como verdade o oposto, uma falsidade.
  312. Para Voltaire, “memória” é sensação contínua.
  313. Voltaire se pergunta: como sentimos algo nos sonhos se os sentidos adormecem? É que os sentidos nunca adormecem.
  314. Se adormecem e a alma está livre pra pensar no que quiser, então nossa alma é doida, pois sonhos são doidos.
  315. Premonições oníricas são coincidência, para Voltaire. Disso eu não sei, mas minha irmã já sonhou com a morte de três pessoas, as quais morreram enquanto ela dormia: o marido dela morreu baleado, uma amiga nossa morreu de câncer e o outro morreu sabe-se lá do quê. Importante lembrar que essas pessoas estavam todas vivas no dia anterior aos sonhos e mortas ao fim destes.
  316. Mas se os sonhos realmente predizem algo, por que falham na maioria das vezes? Nem tudo com o que sonhamos se efetiva.
  317. A Lei não proíbe a interpretação mística dos sonhos. Com efeito, Daniel (2:36 em diante) a praticava, embora com a ajuda de Deus.
  318. A obtenção do perdão divino é um fato. Mas alguns supersticiosos pensam que podem obtê-lo por meio de alguns rituais que podem ser repetidos para cada infração. Até mesmo na religião judaica, o abuso dos sacrifícios de animal se tornou algo irritante ao Deus (veja o contexto de Jeremias 6:20), porque se estava usando esse canal de perdão irresponsavelmente, como um meio de licença para pecar. O atual canal de perdão divino é o perdão mútuo (Mateus 6:14 em diante), que muitas vezes é difícil fazer, especialmente quando a ofensa é grande.
  319. É melhor não pecar do que pecar e depois se expiar. Falar é fácil.
  320. Para Voltaire, é possível adorar sem culto.
  321. Os tempos mais horríveis eram ricos em superstições.
  322. O tirano é a pessoa que faz de sua vontade a lei, toma as posses dos súditos e as usa para tomar as posses dos outros países. Assim, se clarifica o que é o “mau monarca” mencionado antes.
  323. A oligarquia é pior que a tirania. Com efeito, um homem ruim tem bons momentos. Mas um grupo de homens ruins não os tem: um esforça a maldade do outro.
  324. Um tirano é mais fácil de seduzir. Mas uma assembleia de corruptos não se pode seduzir. Se você seduz um, os outros integrantes provavelmente anularão seu esforço, colocando o seduzido de volta no mau caminho.
  325. Resumo da sociedade ocidental: ou se é bigorna ou martelo.
  326. Tolerância é perdoar o defeito do outro.
  327. Seita de Nicolau“, diz Voltaire, é o nome que os opositores davam aos que praticavam comunismo cristão (todas as posses deveriam ser públicas e se mulheres fossem posses seriam também públicas).
  328. A Igreja, antes do advento do catolicismo, não era única. Não havia “a Igreja do Primeiro Século”, mas igrejas do primeiro século e do segundo século antes de aparecer a Católica. Essa igreja para todos (católico quer dizer universal, uma igreja só para todos os cristãos) não durou, pois o Grande Cisma dividiu a Igreja em igrejas, a católica e a ortodoxa. A Igreja Católica foi ulteriormente divida com a Reforma Protestante. A denominação protestante inclui um sem-número de igrejas (Universal, Evangélica, Adventista, Jeovismo, Santos dos Últimos Dias, Luterana, Calvinista, Presbiteriana…). Então, a coisa mais parecida com o primeiro século, ironicamente, é agora. E mesmo sendo todos cristãos, adeptos da religião do amor, se odeiam mutuamente.
  329. Os judeus não forçam os outros a se converterem. Na verdade, o parecer judaico é de que também os que não são judeus (os gentios) podem obter o favor divino observando as leis de Noé, ao passo que muitos cristãos crêem que somente cristãos poderão ser salvos.
  330. A tolerância judaica deveria ser imitada pelos cristãos, mas o estereótipo que os cristãos têm dos judeus é só o de nação guerreira e amam usar exemplos do Velho Testamento pra justificar seu ódio.
  331. É monstruoso perseguir alguém por diferença de opinião. É lícito se indignar se ele pratica algum mal, mas não se ele fala alguma besteira. Se o problema é só de opinião, convença-o de que está errado. Se não puder, paciência. Já se o problema é de atos cometidos, seja em decorrência da opinião ou não, existe uma justiça para coisas assim.
  332. Há exemplos históricos de cristãos que se aliaram a muçulmanos para guerrear contra cristãos.
  333. Francisco I se aliou aos luteranos alemães contra o imperador, ao mesmo tempo que permitia que se queimassem luteranos em sua própria casa (na França) por razões políticas.
  334. Se houver duas religiões em um território, atacarão uma a outra. Se houver trinta, não haverá ataques.
  335. Virtude é beneficência para com o próximo.
  336. Temperança é uma virtude pessoal. Ela é de menor monta que as virtudes que servem ao coletivo. Por causa de seu caráter pessoal, Voltaire desqualifica a temperança como algo que nos torna “virtuosos”. Somos virtuosos fazendo bem a outros além de nós mesmos.
  337. Como vivemos em sociedade, algo só nos é realmente bom se serve também aos outros.
  338. A pessoa que vive reclusa não faz bem nem mal a ninguém. Se não faz bem, como é virtuosa?
  339. É possível, para Voltaire, ser santo sem ser virtuoso.
  340. Da mesma forma, se alguém é vil, não será vicioso se sua vileza não prejudicar ninguém.
  341. Pra Voltaire, a sociedade aumenta os defeitos e diminui as qualidades.
  342. É possível não ser virtuoso sempre. É possível não ser vicioso sempre.

8 de setembro de 2016

Terminei Undertale.

Terminei Undertale esses dias e resolvi, certo dia, assistir alguns vídeos a respeito do jogo. Não demorou para eu achar um vídeo bastante controverso sobre a possibilidade de Sans ser Ness, do jogo Earthbound. Faz muito sentido, mas, ainda assim, eu não vejo como isso poderia ser possível sem quebra de direito autoral, o que inviabiliza a teoria por razões práticas e de bom senso. Apesar disso, achei o vídeo interessante e resolvi comentá-lo com minha amada coelhinha. Foi quando as coisas ficaram preocupantes.

Ela reagiu com preocupação, imediatamente me perguntando por que eu estava assistindo estas coisas e, em menos de um minuto, outro amigo apareceu pra tentar me “salvar” do “perigo” da base de fãs de Undertale. Eu fiquei ao mesmo tempo assutado e confuso: é só um vídeo sobre um jogo. Mas parece que tanto esse amigo quanto minha amada levam esse jogo extremamente a sério. Meu colega, o qual gosto de chamar de “Pipi”, porque o nome de usuário dele é “Duplo P”, argumentou severamente contra a minha prática de assistir vídeos sobre determinado jogo sem tê-lo jogado suficientemente e me alertou contra a peçonha dos fãs que comentam o jogo exaustivamente a ponto de doutrinar novatos em “escolas” de hermenêutica lúdica.

Eu fiquei um pouco engasgado ali, com tantos argumentos que me pressionaram a engolir. Quando Pipi acabou, eu tive minha vez de falar. Falei que tenho vinte e três anos e uma sadia faculdade de julgar, lembrei que Undertale é somente um jogo (apesar de ser um bom jogo), que eu estou ciente dos riscos de ler um comentário antes de ler a obra comentada e que a opinião do comentador não substitui a minha. Ele ficou um pouco embaraçado depois disso.

É verdade que um jogo como Undertale está fadado a gerar polêmicas entre os fãs, que interpretam o jogo de maneiras diferentes. O que me preocupa é que muitos fãs se esquecem de que um jogo não deveria servir como fermento para contendas. Isso é propriamente fanatismo. Brigar por um jogo, contender contra uma escola de interpretação oposta, alertar para os perigosos estragões (spoilers) como se eles fossem destruir totalmente o proveito do jogador, nada disso tem base sólida. Tudo isso se baseia em algo que não foi feito para ser tomado dessa forma. A experiência de jogo é completamente pessoal. A forma como eu jogo, os estragões que eu consumo ou deixo de consumir, se eu pactuo ou não com a interpretação de outro, quantas vezes eu tenho que terminar um jogo antes que eu possa dizer que o joguei “suficientemente”, tudo isso é tão pessoal que eu quase me senti ofendido com aquela disputa. Sinceramente, se eu não conhecesse os dois, teria pena deles. Foi quase como se eles pensassem que estragões têm a mesma importância e impacto em toda a plateia. Eu não me importo nada com eles. Além disso, eu só comecei a consumir estragões de Undertale por curiosidade e porque eu nunca pensei que eu iria algum dia conseguir o jogo: não tenho conta bancária e o jogo parecia que ficaria disponível somente para Windows Mac OS por um bom tempo. Nunca me passou pela cabeça que eu ganharia o jogo de presente, dias depois da versão para GNU/Linux aparecer de súbito (obrigado, Senhor).

Isso não é problema do jogo, mas da base de fãs. A forma como os fãs tomam o jogo e se relacionam com outros jogadores é o que torna Undertale problemático, quando o jogo em si é uma obra-prima. Já existem certas pessoas que rejeitam certos jogos ou outros produtos de entretenimento porque temem aqueles que consomem tal produto. Não querem ser como eles ou tomar partido em disputas sem sentido. Isso já acontece com o RPG de mesa há muito tempo, com os jogos de cartas colecionáveis, com a animação japonesa, e isso faz parte do argumento do Pipi. Eu só temo que tal reação virulenta dele seja um indicador de que também ele é um potencial estraga-prazeres dentre os fãs. Nunca nada assim me acontecera. Eu até entendo que ele estivesse preocupado com o meu divertimento, mas houve um enorme excesso e visível raiva. Outra pessoa talvez desistisse de comentar o jogo com outros ou talvez até tivesse deixado de jogar.

Ele pediu desculpas e eu o desculpei. Não deixamos de ser amigos por causa disso. Se tivéssemos, isso, sim, seria o cúmulo.

23 de agosto de 2016

Anotações sobre os diálogos entre Hylas e Philonous.

  1. O contato com a natureza revigora a mente. É mais fácil pensar no silêncio campestre do que no ruído urbano.
  2. O ceticismo total (segundo o qual a única verdade é a de que não há verdade em nada mais) é prejudicial, pois põe tudo no relativismo.
  3. Uma das causas do ceticismo é o fato de que pessoas de autoridade, como filósofos e cientistas, por vezes afirmam que não existe nenhum conhecimento seguro ou professam como verdade coisas extravagantes e se contradizem. Se esses estudiosos ora parecem que estudam em vão e ora parecem enganar-se de todo, quanto mais o leigo. Mas não se deveria pensar assim.
  4. Por vezes, o conhecimento do leigo é mais seguro.
  5. Se aproximar de um objeto ingenuamente pode dar mais resultado do que se aproximar do mesmo com ciência.
  6. Quando você é convencido de que está errado, mude seu proceder. Permanecer no engano é manifestação de nefasto orgulho.
  7. A tese do livro é mostrar que não existe matéria, isto é, que a matéria é coisa da nossa cabeça.
  8. Cético é quem duvida de tudo. Embora Berkeley fale contra os céticos, é interessante notar que seus argumentos lembram os dez ataques contra a verdade, utilizados amplamente na escola cética, compilados por Pirro, expoente do ceticismo. Berkeley chega ao cúmulo de levá-los a extremos que Pirro não ousaria levar.
  9. Quem nega não é cético. O cético duvida, isto é, nem afirma e nem nega. Voltaire dirá que isso não é possível. Pascal concorda que, pelo menos na dicotomia entre dogmático e cético, não escolher nem um e nem outro já é ser cético.
  10. Se durante uma discussão, o oponente fala uma besteira, mas uma besteira pequena, não vale a pena discutir sobre ela.
  11. Negar a matéria não nega a matemática, por exemplo. É possível praticar matemática sem a matéria, mesmo que ela tenha relações com a matéria. Eu posso somar 2 e 4 para obter 6, sem necessariamente fazer essa operação com palitinhos.
  12. O “verdadeiro cético” não afirma sequer a realidade sensível.
  13. O que é uma “coisa sensível”: aquilo que posso aprender somente pelos sentidos ou aquilo que eu posso apreender com ajuda de instrumentos que auxiliam os sentidos?
  14. Por exemplo: lendo um livro, eu vejo letras e vejo a palavra “gato”. Porém, o que diz que aquela palavra é gato é a mente, que aprendeu a interpretar os sinais daquela forma. Os olhos podem apenas dizer que as letras G, A, T e O estão escritas ali. Então, o que é sensível? A palavra “gato” ou as letras que compõem o nome?
  15. Agravado quando a palavra se refere a algo somente inteligível, mas não sensível, como o amor. O que é sensível? As letras, a palavra ou o amor?
  16. Ouvir um som não iguala ouvir a causa do som.
  17. As causas e a relação de causalidade são inferências racionais, não sensíveis.
  18. A linguagem é arbitrária: não temos razão para chamar o gato de gato, quem deu esse nome só o deu porque precisava dar um nome ao bicho e esse foi o primeiro que lhe veio à mente.
  19. As coisas sensíveis são, para Berkeley e também David, um “feixe de percepções”. Elas não existem fora da nossa mente, de forma que algo só existe se é percebido. Kant explica o fenômeno de outra forma: as coisas que nos causam sensações existem sem que as percebamos, mas, como nossos sentidos são limitados, aquilo que percebemos delas não necessariamente corresponde ao que elas são. Ou seja: quando interagimos com alguma coisa, apreendemos as sensações que ela causa e formamos um conceito dela, uma ideia, com a qual trabalhamos. Essa ideia pode ou não corresponder à coisa. Quer corresponda ou não, nós não podemos saber. A coisa como ela aparece é chamada “fenômeno”. Assim, Kant conclui, em oposição a Berkeley, que as coisas existem sem que as percebamos, mas que só podemos conhecê-las como “fenômeno”, isto é, quando ela aparece e como ela nos parece. O que existe em nossa mente é o conceito obtido da coisa através da interação com ela; não é como se as coisas que sentimos só existem em nossas mentes. Afinal, somente um corpo pode estimular outro, o que significa que as coisas têm existência corpórea fora de nós.
  20. O calor tem existência real ou é uma sensação nascida em nós? Se ele fosse totalmente dependente de nós, não o sentiríamos nunca, porque o calor só se manifesta como sensação se estamos próximos de uma fonte de energia que nos produza essa sensação. Então, embora o calor seja uma sensação reativa, ele não se manifesta sem objeto. Há um objeto que produz uma energia que nos causa a sensação de calor. Ausente o objeto, ausente a sensação.
  21. O grande problema aqui é de onde vêm as sensações: se forem reativas, são subjetivas; do contrário, são objetivas. O calor existe no objeto? Ou o calor é uma sensação nossa que só existe se a percebemos? Isso também depende do que você chama de calor. Se você chama “calor” a sensação de desconforto oriunda da interação com objetos quentes, então é reativa e subjetiva. Se você chama “calor” de energia calorífica emanada por determinado objeto, ele é objetivo, pois o objeto emana essa energia quer sintamos ou não.
  22. Não existe sensação intensa que não provoque dor ou prazer.
  23. Como definir prazer ou dor sem acabar explicando o que é sensação?
  24. Para alguns, dor e prazer não são distintos das sensações que os provocam. O problema é que eu tenho um monte de amigos que sentem prazer em coisas estranhas, como pancadas no traseiro, cócegas, sujar fraldas… Se o prazer e a dor fossem indistintos das sensações que os provocam, não deveriam todos sentir prazer nessas coisas? Eu, pelo menos, gosto do meu traseiro sem marcas.
  25. Para Berkeley, calor “intenso” não existe sem uma mente que a perceba. Porém, se tomamos calor como energia, a energia existe independente de nós, só que, sem uma mente que a perceba e nomeie, realmente não chamaríamos isso de calor. As palavras não são as coisas. Além disso, sem uma mente que a perceba, o calor-energia não provoca o calor-sensação, que são coisas que eu distingui. Porém, é importante lembrar que Berkeley não nega o calor real nas coisas, mas nega a intensidade do mesmo fora da mente.
  26. Mudança de opinião: o prazer e a dor existem na mente apenas e dispõem as sensações em intensidade. Como o texto é escrito em forma de diálogo, os personagens mudam de opinião quando consideram melhor as coisas.
  27. Morno causa prazer, mas é calor em estado mediano. Mas Berkeley chama o morno de apatia, nem prazer, nem dor. E se eu realmente sinto prazer no morno (porque é inegável que um banho de água morna é prazeroso)? Se o morno é apatia, então a apatia causa prazer, o que invalida o argumento de que o morno não é prazeroso e nem doloroso. Se o morno não é apatia, não é realmente morno, pois o morno “verdadeiro”, segundo o argumento, não deveria causar prazer.
  28. Esse problema é interessante: os graus de calor e de frio só existem na mente porque prazer e dor, que os dispõem em graus de fraco e intenso, são mesmo subjetivos. O que me é frio é quente para outro. Mas e se usássemos um critério objetivo para medir frio e calor? Numa sala que faz vinte e sete graus (frio pra mim, cearense), não importa se o calor é prazeroso ou doloroso; faz vinte e sete graus e pronto. Então, se eu posso usar critérios não-subjetivos para medir o calor, por exemplo, então ele não é de todo subjetivo. Me sinto tão esperto fazendo essas refutações que me pergunto se eu não estou errado. Acaba que Voltaire pensa da mesma forma. Interessante notar que o argumento de que o calor é relativo porque ele se manifesta diferentemente em diferentes pessoas é cético e tem sua origem em Pirro e está implícito em Protágoras.
  29. Usar critérios subjetivos para graduar calor e frio leva a absurdos.
  30. Prazer e dor existem só na mente e a prova disso é que algo que é prazeroso para uns é doloroso para outros. Se prazer e dor fossem inerentes às coisas, todos sentiriam prazer ou dor com as mesmas coisas e não haveria “gosto pessoal”.
  31. A linguagem em plena acepção da palavra é a linguagem vulgar. Se eu estiver falando e você estiver me entendendo, então perfeito.
  32. A mesma coisa se mostra diferente dependendo do método de observação. A cor da parede é diferente à distância e diferente quando próxima e quando focada com microscópio.
  33. Se o microscópio é mais confiável, nossa percepção das cores é falha.
  34. “Movimento”, na época de Berkeley, era a mudança de posição de um corpo em relação a outro corpo, usado como referência.
  35. A razão de a cor ser uma característica subjetiva é que diferentes pessoas e animais percebem diferentes espectros. Mas, se definimos cor como frequência de reflexo da luz sobre um objeto, ela é objetiva, existe fora de nós. Assim, existiria uma cor-reflexo e uma cor-sensação. Essa distinção é minha e não está no livro.
  36. Porém, embora objetiva, a cor não depende das coisas onde a cor se mostra, mas no seu grau de reflexão e intensidade da luz. De fato, se a luz é vermelha, o objeto amarelo sob ela parecerá laranja.
  37. Figura e extensão existem nos corpos ou só na mente? Será que os animais percebem extensão e figura do mesmo jeito que nós?
  38. Animais pequenos percebem o mundo em escala diferente. Mas nem por isso podemos dizer que a extensão é subjetiva, eu digo. Isso pela mesma razão do calor: se eu usar um critério subjetivo (como “maior que” e “menor que”) para lidar com extensão, eu chegarei ao absurdo se eu tentar afirmá-la como objetiva. Porém, se eu convencesse todos os animais do mundo a adotar o sistema métrico, não importaria o tamanho de alguma coisa, pois todos os animais a mediriam da mesma forma e chegariam à mesma extensão. Se eu uso um critério objetivo, posso afirmar algo como objetivo. “Maior que” e “menor que” podem ser subjetivos, mas “dois metros” não pode. Voltaire usa este exato argumento contra Berkeley.
  39. O mesmo com a velocidade: “rápido” e “lento” são subjetivos, “vinte quilômetros por hora” não é subjetivo.
  40. A velocidade é inversamente proporcional ao tempo em que determinado objeto chega a um objetivo. Quanto menor o tempo para chegar, maior a velocidade.
  41. As qualidades secundárias, como cor e sabor, são identificadas pelo prazer e pela dor. Já as primárias, não causam nem um e nem outro. É assim, diz Berkeley, que os filósofos distinguem entre qualidade secundária e primária quando, no raciocínio dele, é tudo secundário (subjetivo).
  42. Embora as coisas tenham existência objetiva, a ideia que fazemos delas é subjetiva.
  43. Se a extensão é subjetiva, não é parte da matéria. Mas se a matéria não tem extensão, como ela pode existir? Novamente, vale lembrar que a concepção de extensão em Berkeley chega ao subjetivismo porque ele exclui a matemática de seu raciocínio.
  44. Filosoficamente, substância e substrato são a mesma coisa.
  45. Cuidado para não usar termos filosóficos por hábito, sem saber realmente o que querem dizer. Especialmente se estamos falando de Aristóteles. Na universidade é muito comum os alunos falarem na “dialética” sem serem capazes de explicar satisfatoriamente o que ela é. Hegel é o novo Aristóteles.
  46. O que é a matéria, afinal? Como a filosofia trabalha com palavras, nós precisamos de significados para as palavras com as quais trabalhamos. Se temos uma ideia vaga sobre determinado termo ou não temos termo para uma ideia apreendida, não é possível fazer filosofia sobre essas coisas. As coisas devem ser nomeadas e os nomes precisam se referir às coisas.
  47. Se você concebe algo em sua mente, não há garantia de que esse algo exista fora dela. O grande problema de Berkeley é algo como isto: se uma árvore cai, mas ninguém a viu cair, sua queda faz barulho? Berkeley se posiciona na negativa: se ninguém viu, não existe árvore. Para Berkeley, algo só existe se percebido.
  48. Não é possível dizer a distância exata de algo só olhando pra ela. A Lua e o Sol, se vistos da Terra, podem parecer que estão à mesma distância, ao menos pra mim. Eu só concebo que a Lua está mais próxima porque eu li sobre isso. Quanto mais distante, mais difícil é dizer a distância.
  49. Se eu concebo distância como uma “linha” entre o olho e o objeto focado, não vejo essa linha. Ela é hipotética.
  50. Se eu vejo uma estátua de Júlio César, eu estou vendo a estátua. Quem me diz quem ela representa é a razão.
  51. Muitas vezes, a conexão de uma ideia à outra é puro costume. Isso é evidenciado no preconceito racial, por exemplo: porque muitas pessoas de pele escura e que se vestem de determinada forma praticam assaltos ou traficam drogas, algumas pessoas concluem disso que os negros que se vestem de tal forma tendem ao crime. Elas muitas vezes não se dão conta de pensam dessa forma por costume.
  52. Eu escuto o veículo ou o som que ele produz?
  53. Só é possível ouvir o som. Só é possível ver a imagem. Só é possível perceber o fenômeno, o que não necessariamente nos dá uma ideia segura do objeto que o produz.

17 de agosto de 2016

Anotações sobre a carta sobre a tolerância.

  1. A tolerância entre cristãos é sinal distintivo de uma verdadeira igreja, em sentido tradicional da palavra como “coletivo de cristãos”. Se orgulhar de ser católico, se orgulhar de ser ortodoxo, se orgulhar de ser protestante, no final são manifestações de orgulho, que revelam muito mais o desejo de superioridade do que a doutrina de Cristo, que inclui a humildade (Mateus 11:29), o oposto do orgulho. Erasmo chamará esse orgulho de “presunção“.
  2. O cristão deveria ser caridoso e ter boa vontade para com todo o mundo, inclusive com os que não são cristãos. Como é, então, que muitos cristãos não são capazes de caridade e boa vontade até com outros cristãos?
  3. A religião é um regulador de comportamento. O cristão que não se comporta como cristão não é cristão, mesmo sendo batizado, por exemplo.
  4. As ações revelam o cristão, não o endereço da igreja onde se congrega.
  5. Se você não se esforça em amar o próximo, não está tão preocupado com sua salvação. Quanto mais com a dos outros.
  6. Por exemplo: pastores que cometem todo o tipo de loucura claramente errada de um ponto de vista bíblico. São, propriamente, cegos guiando cegos. Porque, não querendo a salvação eterna, guiam aqueles que querem. Cairão ambos no abismo (Mateus 15:14). O padre ou o pastor deveria ser exemplo de comportamento cristão. Do contrário, não serve ao ofício.
  7. Suponhamos que você persiga uma menina que cometeu aborto, mas pouco tempo depois sua própria filha o faz. Você vai perseguir sua filha da mesma forma que persegue a estranha? Se sim, você não ama sua filha. Se não, você é parcial e injusto. Portanto, não se deve perseguir ninguém.
  8. Não se deve converter à força. Nem todos os que não vão à igreja não são cristãos.
  9. No dia do julgamento, Jesus julgará um por um (Apocalipse 20:12), e não igreja por igreja. Portanto a controvérsia sobre qual igreja é a correta não tem relevância para a salvação, que é obtida por esforço pessoal do crente de se aproximar de Deus pelas boas obras.
  10. Não é a teologia da outra igreja que merece ataques, mas os vícios praticados pelos crentes. Não se deve pregar contra os católicos, contra os ortodoxos, contra os protestantes, mas contra o roubo, contra o adultério, contra o assassinato…
  11. A conversão não deve ser forçada pela força individual, pelo exército ou pelo Estado. Ninguém é obrigado a crer. Se fosse crime não ser cristão, como o juizado me julgaria, sendo a fé pessoal? Eu poderia até ir pra igreja, comer o pão partido, tomar o vinho, ouvir o sermão, atender à escola dominical e praticar tudo aquilo que é tido por cristão (católico, neste caso), mas, se for à força, não vale pra Deus. Se fosse pra converter pela força, Deus poderia fazer todo o mundo acreditar neste instante. Mas isso violaria o livre-arbítrio dado a nós por ele.
  12. Por causa disso, não se deve misturar Igreja e Estado. Se o cristianismo, por exemplo, se tornasse uma obrigação civil punida por leis humanas, que bem isso faria aos ateus? Nenhum bem, mas o contrário: veriam a religião como uma obrigação, tão civil quanto o serviço militar obrigatório. Talvez isso até os afastasse da fé verdadeira, que é interior. O filósofo, aqui, em polêmica com Hobbes. Surpreso? Não deveria estar.
  13. O Estado não deve, nem pode, “cuidar das almas”.
  14. Isso porque o poder estatal é coercitivo material, não tendo, portanto, nenhum poder sobre o espírito. Se você espanca o ateu até ele dizer que virou cristão, é claro que ele falou da boca pra fora. Além do mais, uma conversão assim é errada, porque Jesus não ensinou isso. Jesus argumentava. Isso tem poder sobre o espírito.
  15. Além do mais, Deus não deu ao Estado o direito de impor a religião. Ao menos, não ao Estado gentio, pois sabemos que Estado e religião andavam juntos em Israel, através da Lei, que é ao mesmo tempo religiosa e civil.
  16. O Estado regula este mundo. Ele não tem poder sobre o outro mundo.
  17. Além do mais, leis mudam de país para país. Se o Estado tivesse o poder de sancionar um culto que ocasionasse a salvação, mas outro Estado fizesse o mesmo com outro tipo de culto, apenas um poderia estar certo. Será plausível que alguém seja condenado por ter nascido em outro país?
  18. A Igreja é uma associação voluntária de homens livres que procuram juntos a salvação eterna.
  19. Não é estranho que igrejas tenham regras diferentes, como condições de exclusão, distribuição de cargos e datas de reunião. Essas regras são particulares e variam de igreja pra igreja, não produzem salvação.
  20. Não há necessidade de bispo descendente de apóstolo para que Cristo esteja entre nós (Mateus 18:20). Este é um ataque à ortodoxia. Se os ortodoxos acreditam que uma igreja só pode ser validada pela descendência apostólica, tudo bem, mas que fique claro que isso é uma exigência particular da igreja deles e que não fornece salvação se for seguida ou quebrada. Mandamento de homem.
  21. Há diferentes igrejas, vá pra qual você achar melhor. Mas tenha em mente que não é essa escolha que te salvará, mas sua aderência à doutrina de Jesus.
  22. Há mais chance de se salvar lendo a Bíblia do que indo pra igreja. Muitas igrejas demandam de seus fieis comportamentos que a Bíblia nem sequer menciona. A Bíblia diz o que é necessário à salvação (Lucas 18:20) e você nem sequer precisa pertencer a uma igreja pra fazer essas coisas. De fato, é recomendado, mas não é fundamental.
  23. Eu não posso excluir da minha igreja alguém que Cristo não excluiria da vida eterna.
  24. Os cristãos não deveriam perseguir, mas pelo contrário: Jesus disse que os cristãos seriam perseguidos. Há mais razão de se estar feliz em receber perseguição, se for em nome da justiça (Mateus 5:10).
  25. Tal como o Estado deve se aparelhar para o bem-estar material do povo, a Igreja deve se aparelhar para seu bem-estar espiritual. Então a igreja não deve impor aos fieis nenhuma regra que não tenha essa finalidade. Dízimo de dez por cento? Não precisa; isso já era considerado abuso na Idade Média.
  26. Se a Igreja não deve usar a força, como vou punir quem não obedece? No máximo, você pode excluir a pessoa da Igreja. Deixe o resto pra Deus.
  27. O Estado deve tratar todos de maneira igual, independente do credo.
  28. As outras religiões talvez façam piada das perseguições dentro do cristianismo.
  29. Com direito uma igreja persegue outra?
  30. A igreja certa tem direito de perseguir as erradas, não é? Mas qual é a certa? A minha, claro.
  31. Se eu devo amar meus inimigos (Lucas 6:27), quanto mais os que não me fizeram nenhum mal.
  32. A autoridade eclesiástica é somente eclesiástica. O papa não deveria ser rei e nem pastor deveria ser deputado.
  33. Se alguém não vai pra igreja ou pro culto, é problema dele. Não cabe a mim punir o pecado do outro. Como pode um pecador punir um pecador, se a punição só pode ser ministrada por um superior, neste caso, alguém que não peca (João 8:7)?
  34. Observe como a dissidência entre cristãos é sobre coisas de pouca importância. Essas controvérsias são exagero.
  35. Se há apenas uma cura para uma doença, mas essa cura é desconhecida, eu tenho culpa por escolher a que eu acho certa? Se só houver uma igreja “certa”, ninguém sabe qual é. Então a minha escolha não é condenável.
  36. Eu não sou obrigado a acreditar em ninguém em matéria de salvação, mas na revelação apenas. Se eu lesse a Bíblia, poderia julgar com mais propriedade a qual grupo pertencer, se eu tivesse necessidade. Como a salvação é pessoal e como não há consenso sobre como chegar lá, eu não tenho obrigação de acatar a opinião de alguém tão ignorante como eu.
  37. Os israelitas, preferindo seus reis em relação aos profetas, foram levados à práticas erradas. Não há garantia da segurança do ensinamento do padre ou do pastor. Se eu não conheço a Bíblia, não serei capaz de dizer se estão ensinando corretamente. Então, se eu tiver em confiar na interpretação de alguém sobre revelação divina, por que não em minha interpretação? Afinal, os profetas escreveram livros. Estão aí e eu posso lê-los.
  38. Se um país tiver uma religião oficial, não será a religião do governante? É muita presunção filiar todos à igreja do presidente.
  39. Se Igreja e Estado fossem a mesma coisa, isso seria um desastre em termos de culto: as práticas da religião poderiam mudar dependendo de quem está na administração estatal. Imagine só: o culto à moda da social-democracia, o culto à moda do PT, o culto à moda do Partido Verde ou do Partido Socialista Cristão, do do Pratido Comunista (paradoxo)… Será que eu poderia mudar de culto assim tão facilmente sem um pingo de peso na consciência?
  40. Cultuar por obrigação não produz salvação. Observe que Pascal sustenta que ir pra igreja à força repetidas vezes acaba fazendo o indivíduo dar uma chance à fé.
  41. A religião só é frutífera se o fiel acredita que ela é a verdadeira.
  42. Não se deve exigir dos fieis algo que Deus não exige.
  43. Aquilo que é ilegal não deve ser parte de nenhum culto dentro do território onde tal comportamento é ilegal. Por exemplo: o mórmon pode, religiosamente, se casar com mais de uma mulher. Como isso é ilegal no país, não podem ter várias mulheres em território nacional, mesmo que seja religiosamente aceito.
  44. “Ninguém pode ser despojado de seus bens terrenos por motivo religioso.” Fala isso pra Universal.
  45. Se Igreja e Estado se fundem, quem não é cristão pode ter seus bens, liberdade e vida sob risco. Confiscar bens porque o súdito é “idólatra” seria um exemplo de como o governante se sentiria tentado a usar a religião como desculpa pra explorar a população.
  46. A cobiça é pecado, mas não é crime. Será que se Estado e Igreja se fundissem, os políticos corruptos seriam perseguidos por manifestarem cobiça? Ou será que usariam a oportunidade para aumentar ainda mais suas posses?
  47. Se o Estado obriga os ateus à Igreja, mesmo que ateu não acredite, não entende nada de salvação.
  48. O dever do Estado é salvaguardar a segurança e a paz em seu território. Ele deve punir apenas comportamentos que ameacem a paz. Então, por exemplo, embora Paulo diga que ser homossexual é pecado (1 Coríntios 6:9), isso não precisa ser proibido por lei, porque ser homossexual não necessariamente ameaça a paz no território estatal. Ao menos, num contexto cristão.
  49. A verdade pode ser descoberta sozinha, mas o engano precisa ser mantido por mais de uma pessoa ao mesmo tempo para se perpetuar.
  50. O cristão deve converter os outros, mas não deve usar a força pra isso.
  51. A vida em sociedade é mais longa.
  52. Se o Estado é democrático e a maior parte da população é cristã, ele provavelmente não entrará em conflito com a Igreja. Afinal, o Estado democrático zela pela felicidade da maioria, então ele não entrará em conflito com a Igreja se a maioria das pessoas é cristã.
  53. Se o Estado prescreve algo que a Igreja condena, o fiel realmente fiel preferirá ser punido pela lei do que pecar. Isso não ocorreria se as autoridades fossem realmente apoiadas por Deus (Romanos 13:1).
  54. Se uma igreja quer ter privilégios legais sobre as outras ou sobre quem é ateu, deve ter esse interesse combatido; isso só seria possível se a Igreja tivesse laços com o Estado, o que não pode acontecer. Além de que isso seria injusto.
  55. A Igreja não pode se opor ao Estado. Hobbes dirá o mesmo.
  56. O filósofo diz que o ateísmo é intolerável, mas, considerando que ele diz que ninguém é obrigado a crer, ele provavelmente está se referindo às pregações ateias, isto é, à difusão na sociedade do discurso anti-teísta. Se o filósofo diz que isso é intolerável, ele está dizendo que convencer os outros de que Deus não existe deveria ser crime. Parece contraditório. Mas a razão disso é que a crença em Deus é um duplo estanque contra comportamentos destrutivos ao Estado. Alguém que não teme as leis, mas teme a Deus, não quererá roubar. Então, remover a crença no divino é remover uma barreira que contém a tendência criminosa.
  57. Uma igreja que não tolera as outras provavelmente está mais interessada em conseguir fieis pra sua denominação do que realmente salvar as almas do rebanho.
  58. A tolerância religiosa deve se tornar lei. É importante lembrar que o filósofo está se referindo às religiões que não trabalham contra o Estado, como aquelas que requerem sacrifício humano, quando o assassinato é crime.
  59. A religião é causa de dissenções estatais, dirão alguns, mas isso porque os membros de determinada religião podem estar se sentindo oprimidos. É como a cor da pele. Não é a “raça” que é causa de dissenção, mas a opressão sofrida pelos de determinada cor. Pessoas oprimidas se rebelam, é natural. A causa nesses casos não é nem religião e nem cor da pele, mas a discriminação.
  60. Uma missa, por exemplo, pode ocorrer fora do templo. Lembro de quando eu era parte da Legião de Maria (na infância, se me lembro bem), por vezes fazíamos “ofícios”, que eram orações e cânticos públicos. Era embaraçoso, mas ocorria. As testemunhas de Jeová, também, têm atividades públicas, como a pregação itinerante. Se as religiões têm um aspecto público, então elas não devem ter o que esconder do Estado.
  61. Uma igreja que encoraja comportamentos criminosos deve ser punida, mas as que não encorajam nem por isso devem receber benefício estatal.
  62. O Evangelho não sanciona a exclusão social com base em religião. Não há base religiosa para banir do país os judeus, os muçulmanos ou os ateus.
  63. A existência de outras religiões não necessariamente é uma ameaça aos cristãos.
  64. Em muitos sentidos, a religião cristã é a pior, por causa das dissidências e perseguições entre os próprios cristãos.
  65. Nesse sentido, não é a religião que é ruim, mas os fieis.
  66. Deixar a Igreja Católica em favor da Protestante é normal. O contrário acontece também. Isso não é apostasia. A apostasia é deixar o cristianismo, isso é, deixar de crer em Cristo como cristão. Por exemplo: tornar-se ateu, judeu, muçulmano… Apesar de que existem judeus que crêem em Cristo e observam a Lei de Moisés, diferindo dos outros judeus apenas por terem aceito Jesus como o Messias. Alguém pode se perguntar se é possível seguir o Evangelho e a Lei ao mesmo tempo, mas basta lembrar que a Lei não promete salvação eterna, mas benefícios terrenos (Deuteronômio 28:1-14). Então um complementa o outro para o judeu crente: a Lei para benefício terreno e o Evangelho para a salvação. Com a vinda de Jesus, foi revelado que existem porções da Lei que nos tornam elegíveis à salvação (Mateus 19:16-19). Então, observar toda a Lei causa a salvação e benefício terreno, mas, se tudo o que o indivíduo quer é ser salvo, o Evangelho basta. Acho que foi isso que Tiago quis dizer quando recomendou porções da Lei aos gentios convertidos (Atos 15:28-29), sem, contudo, condicioná-las à salvação, porque a observância dos preceitos da Lei, mesmo por quem não é judeu, permite benefício terreno e uma boa vida. Mas isso é minha opinião.
  67. Para o filósofo, católicos e protestantes, embora ambos cristãos, participam religiões diferentes, por terem diferentes regras de fé. A distinção é simples para o filósofo, é a mesma distinção feita pelo Deu A Louca Na História: o protestante acredita na Bíblia, mas não acredita no Papa. Hoje, os reconhecemos como diferentes denominações na mesma religião.
  68. Ser um herege é simplesmente dividir uma religião ou denominação em diferentes grupos com base em questões sobre as quais os fundamentos calam. No protestantismo, no qual a Bíblia é a única regra de religião: é lícito batizar bebês? A Bíblia não diz claramente que não. Então, se a opinião corrente era de que sim, os que disserem não são hereges.
  69. Assim, herege é quem divide a Igreja.Mas se a discordância é sobre algo que a regra de fé não cobre, então que diferença faz? Assim, as heresias são sempre desnecessárias, com a decisão de escolher um ou outro caminho sendo totalmente pessoal e não uma razão para dividir a igreja em grupos diferentes.A heresia é uma divergência em regras de fé (fundamentos) e o cisma é uma divergência de culto ou disciplina (práticas).Acreditar na Bíblia basta. Se você não a nega e nem toma outros fundamentos além dela como norma de religião, provavelmente não é herege nem cismático.

12 de agosto de 2016

Anotações sobre os dois tratados sobre o governo.

  1. Se o poder monárquico é de natureza paterna, por que os reis dominam mais que suas famílias?
  2. Se a monarquia é o governo que Deus escolheu para os homens, porque ele não pune as democracias (pelo contrário, as nações mais ricas do mundo frequentemente são democráticas)?
  3. A interpretação mais clara é preferível à mais obscura.
  4. Se queremos provar algo com base em uma fonte textual, não podemos nos pronunciar sobre o que o texto não diz.
  5. Se o poder de começar e terminar guerras só pode residir na mão dos monarcas, então todos os governos do mundo são monárquicos.
  6. É possível comandar sem ser necessariamente rei.
  7. Toda herança implica regras para determinar o herdeiro.
  8. Fora que Deus teria deixado regras para determinar a sucessão do poder paterno de Adão se isso fosse importante.
  9. Se isso fosse algo relevante e só os sucessores “legítimos” de Adão pudessem governar alguma coisa, ao passo que não sabemos quem são esses “legítimos” (supondo que não seja todo o mundo, o que já é errado), então nenhum governo é legítimo.
  10. A especulação sobre quem deve suceder com base num direito de paternidade obtido de Adão é irrelevante. Uma resposta para tal arremedo de pergunta não colocaria ninguém no trono e nem poderia manter alguém lá.
  11. Se o primogênito for um babaca, não seria ainda mais babaca o pai que deixa seu domínio a ele e não ao filho mais novo, o qual não é um idiota? Donde decorre que nem sempre é sábio deixar o primogênito suceder.
  12. Qual o sentido de dizer que eu devo obedecer sem dizer a quem obedecer?
  13. E se o pai não tivesse filhos, quem o sucederia num sistema político pautado em primogenitura? Prova de que o poder político é um acordo, não uma determinação natural que passa de pai pra filho.
  14. O primogênito não tem domínio sobre os irmãos.
  15. É possível comprar o direito de primogenitura (Génesis 25:31), de forma que o primogênito não receba o que deveria receber.
  16. Se algo é concedido condicionalmente, não é absoluto, óbvio.
  17. Além do mais, se o reino pertence à descendência de Adão, Jesus não poderia ser rei. Com efeito, embora descenda de Davi, de Judá, de Israel e eventualmente de Adão (Mateus 1:1), não é uma descendência biológica, posto que foi concebido pelo poder do Espírito Santo (Lucas 1:35). Portanto, afirmar tal coisa pode até ser blasfemo, pois implica que Jesus não poderia governar legitimamente.
  18. Se ao “herdeiro legítimo de Adão”, então a todos: não existe uma pessoa que não descenda dele.
  19. Há poder. Mas a quem pertence?
  20. Suponhamos que somente os herdeiros de Adão possam ser soberanos legítimos. Se é possível usurpar poder e também é possível ser rei, neste caso, ilegítimo, sobre uma massa humana qualquer, então a tese de pátrio poder de Adão é inútil.
  21. A opinião corrente era a de que todos no mundo eram senhores ou escravos em algum sentido. Como o filósofo pretende afirmar que podemos ser livres e, portanto, optar por não ser senhor ou escravo, ele terá que refutar essa opinião vigente em seu tempo.
  22. Suponhamos que o pai tenha direito absoluto sobre a mulher e os filhos, mas morre deixando mulher e filhos sob cuidado do primogênito. Se esse poder é realmente absoluto, o primogênito passa a ser senhor dos irmãos e herda como esposa a própria mãe.
  23. Pai e mãe são os que criam, não necessariamente os que geram.
  24. “Injúria” é ofensa ao direito de alguém.
  25. O direito à herança vem do dever paterno de sustentar os filhos.
  26. As propriedades de alguém, quando esse alguém morre, não deveriam se tornar públicas? Se isso não acontece, diz o filósofo, é porque há um consenso da sociedade segundo o qual as posses do pai passam aos filhos. Mas isso não é direito de paternidade, senão também contrato.
  27. Se Adão fosse senhor absoluto, sua autoridade retornaria para Deus quando Adão morresse, não passando ao descendente.
  28. Não é possível discorrer sobre obediência sem mencionar a quem ela é devida.
  29. Se é a paternidade que nos dá direito absoluto, então o súdito não deve obediência absoluta ao monarca a menos que este seja seu pai. Como isso acontece, decorre que não é a paternidade que tira a liberdade de alguém, mas o contrato.
  30. “Novo nada” é uma novidade que não muda nada. Mudamos tudo para nada mudar, isso é um novo nada.
  31. Mas há limites quanto ao quinto mandamento, segundo o filósofo. Porque o avô não pode ordenar ao pai que abdique do respeito dos filhos, de forma que os filhos passem, por concessão paterna, a honrar o avô. Hobbes diz que isso é válido e More diz que nem sempre é válido, representando uma posição mediana.
  32. Interessante como o filósofo diz que o filho não deve desrespeitar a mãe nem se o pai o ordenar, da mesma forma que a mãe deve punir o filho se ele desrespeitar o pai. Os pais devem agir como uma entidade só perante o filho.
  33. Portanto, o pai não tem direito de reivindicar o respeito total do filho, pois a mãe também merece o devido respeito.
  34. Na verdade, quando se fala de família, o parecer das Escrituras é de que pai e mãe têm igual importância. O pai não é mais importante que a mãe, do ponto de vista do filho.
  35. Usar versos bíblicos abstraídos do contexto para facilitar seu uso arbitrário é distorcer a palavra divina. Especialmente quando se usa apenas metade de um verso para provar seu ponto.
  36. É grave pecado matar, especialmente se for como sacrifício a um deus pagão e muito mais grave se o sacrifício for os filhos (Salmos 106:38).
  37. Atos cometidos pela paixão são extravagantes. A pessoa que abdica da razão, isto é, do bom senso, cometerá loucuras. Essas loucuras, se encontrarem outros que as cometam, tornam-se moral local quando a maioria comete. Isso dá origens às doenças sociais.
  38. O desejo de proteger o filho leva os pais a extremos.
  39. O pai, fecundando a mãe, tem interesse limitado à família. Mas Deus, dando a capacidade de reprodução a suas criaturas, tinha interesse na manutenção da criação inteira.
  40. O dilúvio não aconteceu apenas para a cultura judaica-cristã. Outros povos relatam o dilúvio.
  41. Além do mais, se os pais realmente desse vida ao filho, a mãe deveria ter direito maior que o pai, pois carregou a criança por nove meses e é a primeira a alimentá-lo.
  42. Além disso, o pai e a mãe fazem o corpo do filho, mas quem dá a vida e a razão é Deus. Por isso o pai não pode tomar “de volta” a vida do filho, diz o filósofo, porque não foi ele quem deu essa vida em primeiro lugar.
  43. Pai também não é rei. Se eu dei a vida ao meu filho, não necessariamente tenho direito de tirar essa vida dele. Então, o pai também não tem direito absoluto sobre o filho, mas somente aquele que lhe cabe como pai, que é o de educá-lo com recompensa e punição, acompanhado do dever de mantê-lo vivo e saudável.
  44. Afirmações sem provas podem ser negadas até sem razão.
  45. Esposo não é rei.
  46. Se a mulher se submete ao marido, isso é uma submissão conjugal dentro da família, não uma submissão de nível político e nem uma submissão absoluta. Se o fosse, o marido poderia, impunemente, matar a esposa se desejasse. Então, se Deus diz que não se deve matar outro ser humano (Êxodo 20:13), mas Paulo e Pedro dizem que a mulher tem que se submeter ao marido (o que provavelmente é conselho e não mandamento, pois Jesus não lista essa submissão como caminho para a vida eterna, conforme consta em Lucas 18:20), então essa submissão não é absoluta. O filósofo junta, assim, outra prova contra o uso das Escrituras para basear a submissão total da mulher e a monarquia familiar.
  47. Se o marido fosse monarca da mulher, haveria um monarca em cada família. Isso parece Aristóteles.
  48. O filósofo entra para o clube feminista, com Platão: a submissão de Eva, embora seja uma maldição divina, não é uma lei colocada sobre todas as mulheres, na visão dele, o que significa que a mulher não precisa ser submissa ao marido a menos que isso seja acordado no instante do casamento. Quem se submete a quem, ou se alguém se submete a alguém, é algo decidido entre marido e mulher de comum acordo, diz o filósofo. Paulo dirá outra coisa, mas Paulo é suspeito. Também Pedro (1 Pedro 3:1 e 1 Pedro 3:5).
  49. A submissão de Eva é uma maldição feita contra Eva, não uma vantagem conferida a Adão.
  50. Se Adão fosse mesmo monarca, porque ele deveria trabalhar para comer? Deus não disse que Adão deveria fazer alguém trabalhar pra ele (Génesis 3:19). Então, ele não tinha servos. Sem súditos, não há monarca.
  51. Como Eva pecou primeiro, ela foi submetida a Adão. Imagine só: se Adão tivesse pecado primeiro, talvez ele fosse submetido à Eva, o que levaria a uma inversão e tanto de toda a história humana.
  52. A justiça nos permite ter aquilo que merecemos ter. A caridade nos permite, quando temos falta, ter o excesso de um outro. Pra alguém apontado como “liberal”, eis uma passagem bem comunista, já que isso é outro meio de dizer “de cada um segundo sua capacidade, a cada um segundo sua necessidade.” Isso mostra também que o comunismo não necessariamente se mostra avesso à religião, porque esta passagem está inserida numa discussão religiosa no livro.
  53. Tendo excesso, não ajudar quem tem falta é pecado (Tiago 2:16).
  54. Deus não nos dá o direito de dominar outro a ponto de matá-lo de fome se desejarmos. Pelo contrário, a caridade é frequentemente apontada como o meio de penitência, de forma que possamos ser perdoados de nossos pecados por ela (Eclesiástico 3:14, 2 Tessalonicenses 1:3, 1 Pedro 4:8). Então, a Bíblia não pode, absolutamente, ser usada como meio de justificar a tirania.
  55. É mais fácil crescer e se multiplicar sem monarquia.
  56. A Terra é de todos os seres humanos, tal como são todos os seus recursos. Temos igual direito à natureza. O desperdício de um causa a falta no outro.
  57. Antes de cogitar se a Bíblia está se manifestando por metáforas, verifique se o significado literal faz sentido. Tomar coisas óbvias por metafóricas sem necessidade permite a fácil distorção da Escritura. Levar ao pé da letra coisas metafóricas também leva à distorções, mas deve-se dar prioridade ao significado literal na medida em que este faça sentido. Se não fizer, só então se deve procurar por metáforas.
  58. Usar a Bíblia para condenar filósofos é um negócio complicado: muitos filósofos conhecem a Bíblia melhor que a maioria dos religiosos.
  59. Usar a Bíblia como argumentação contra ignorantes de fé permite provar o que quer que o orador queira.
  60. A monarquia humana é um estilo de governo impróprio para o povoamento da Terra inteira (Génesis 1:28). Um território tão grande não pode ser governado por um único ser humano. Multidões de governos estavam destinadas a acontecer.
  61. A Terra é nossa, de todos os seres humanos juntos. Nenhum ser humano pode arrogar a Terra para si com base no direito natural. Isso, claro, não justifica a gradual destruição do planeta: ter recursos não significa usá-los irresponsavelmente.
  62. A posição do filósofo de que nenhum ser humano tem direito natural de governar outro pode ser defendida por Davi (Salmos 8:6), o qual diz que a criação foi posta sob nossos pés. “Nossos”, da humanidade inteira, não de uma pessoa só. Isso é confirmado no Novo Testamento (1 Timóteo 6:17).
  63. Adão e Noé não tinham autoridade sobre outros seres humanos. Se supormos que a autoridade sobre “tudo quanto se move” (Génesis 1:26) inclui também os seres humanos, então Deus, o qual disse que “tudo quanto se move” poderia servir de mantimento pra Noé e sua família (Génesis 9:3), sanciona o canibalismo, o que não é verdade.
  64. A propriedade de Adão não era sobre outros seres humanos a princípio. O fato de que a autoridade de Adão pertencia também a outros humanos fica patente no capítulo nove do Génesis, onde Deus concede também a Noé o domínio sobre a Terra. Em adição, tal como não foi concedido a Adão, não é concedido a Noé o domínio sobre outros seres humanos. Isso indica que a submissão da mulher por ocasião da queda é condicional (somente quando ela lida com um homem), implícita (não havia necessidade de Noé ser lembrado dela) ou instintiva (como se ela se sentisse compelida a isso).
  65. A propriedade de Adão sobre a Terra não era só dele, mas também de Eva. E poderia muito bem se estender à toda a humanidade. Logo, Adão não era monarca, pois monarca é só um.
  66. Adão é proprietário da Terra no Génesis, mas não é monarca. O proprietário de uma terra não é necessariamente monarca dele, especialmente se ele próprio está subjugado ao governo de outra pessoa. Adão estava subjugado a Deus. Proprietário, sim, mas não monarca.
  67. Discurso bonito nem sempre está correto.
  68. Se algo tem potência para ser, mas ainda não existe em ato, então é só uma possibilidade. Possibilidades não são coisas de fato.
  69. Não existe monarca sem súditos.
  70. Adão não foi feito monarca do mundo imediatamente após sua criação, a menos que se use como argumento a proximidade dos versos. Com efeito, Adão foi feito em Génesis 1:27, recebendo a designação de senhor (do planeta) em Génesis 1:28, mas existe um longo tempo entre ambos os versos, porque o Génesis, nesta parte, não é escrito sequencialmente. No verso 27, Adão é criado, mas no 28 Eva é mencionada, sendo que a criação de Eva só é detalhada no verso 18 do capítulo seguinte. Então, essa afirmação só faria sentido para quem não leu o Génesis além do primeiro capítulo.
  71. Adão era senhor da Terra enquanto planeta, não senhor de outros seres humanos. Observe que Deus, em Génesis 1:28, fala tanto a Adão como à Eva, como se ambos tivessem igual direito à posse da Terra.
  72. Se Adão recebeu a designação divina de governar, então havia liberdade antes. Ele não nasceu naturalmente senhor de tudo.
  73. Dizer que Adão tinha direito de soberania porque fora criado primeiro está incorreto: os animais vieram antes (Génesis 1:25-26). Também, se levamos a criação ao pé da letra, foram criados diretamente por Deus, tal como o ser humano. Então, se usamos o argumento de antecedência, os animais têm tanto direito de subjugar uns aos outros quanto os humanos têm, mas não o fazem senão pela força, que é considerada método ilegítimo de domínio entre nós, humanos.
  74. Adão era naturalmente livre e também Eva. Adão não submeteu Eva, foi Deus quem submeteu Eva a Adão por ocasião do pecado original (Génesis 3:16). No início, então, uma pessoa não ordenava sobre outra. Então, não é possível usar o Génesis para defender que a autoridade absoluta entre seres humanos sempre existiu. Nascemos livres, nos submetemos depois, diz o filósofo.
  75. Não se esquive da questão que você quer tratar. Ao escrever um texto, esgote a questão.
  76. O discurso vigente na época dizia que Adão era soberano máximo e que tinha autoridade sobre tudo e todos e que, por isso, o governo absoluto conseguido pelos homens não repudia a autoridade divina. Mas o que se vê na Bíblia é que Adão era submisso a Deus. Além do mais, outra das razões do discurso era de que o poder tinha que residir num rei único porque os Dez Mandamentos dizem que devemos “honrar nosso pai”. Ora, mas o mandamento completo é “honra teu pai e tua mãe”, então usar esse verso dessa forma para defender o poder monárquico é insustentável.
  77. Prove tantos pressupostos quanto puder. Não fica bem um discurso que afirma coisas gratuitamente, sem provas.
  78. Pouco crédito merece o texto que se funda numa suposição.
  79. Abuso dos súditos leva à rebelião. Hobbes cogita a possibilidade.
  80. Um discurso assim é muitas vezes feito para adular a autoridade vigente.
  81. O discurso vigente na época era de que o rei deveria ter o direito de fazer tudo o que quisesse com seus súditos (absolutismo), e que esse direito era sancionado pelo próprio Deus. Isso é interessante, porque Paulo (Romanos 13:1) e Pedro (1 Pedro 2:18) também pensam assim. Então, se o filósofo refutar esse discurso estará refutando também Paulo e Pedro. Essa eu quero ver, já que esse é um assunto que muito me interessa.
  82. Quando você não define algo de maneira clara, acaba definindo o termo pelo seu uso ao longo do discurso. Um ouvinte perspicaz poderia montar uma definição com base nas características do termo e expô-la, o que seria altamente humilhante. É o que venho fazendo com o termo “experiência”, de Walter Benjamin, escritor irritante. Então, se você não define um termo, talvez por capricho, isso não impede o ouvinte de defini-lo, o que pode ter consequências catastróficas para o discurso, especialmente se o ouvinte perceber que o termo é contraditório.
  83. As leis baixadas pelo governo são menos eficazes do que as leis firmadas entre a própria comunidade.
  84. O que é paternidade? Me parece que o filósofo usará a mesma técnica usada por Bacon: o primeiro livro destrói o discurso atual e o segundo livro estabelece um discurso novo.
  85. Se você acusa alguém de não definir os termos do discurso, é bom que você defina os seus pra não passar por hipócrita.
  86. Havia, na época, um discurso que defendia a escravidão, baseando-se em um conceito de “patriarca”, o qual deveria ser alguém com direito de governo absoluto. Esse discurso tanto não explica o que é exatamente que dá direito ao patriarca e se baseia numa citação bíblica censurada (“honra teu pai”, em vez de “honra teu pai e tua mãe”), para sancionar a obediência a uma pessoa só. Colocar esse direito na figura do patriarca (pai de família) em vez da figura do altivo rei talvez tinha por função facilitar a adoção do discurso pela população, que via o pai como uma figura mais benigna.
  87. Se nascemos sob a autoridade de nossos pais, quando nos tornamos livres?
  88. Uma das formas de estabelecer um discurso é atacando e destruindo o discurso vigente.
  89. Destruir um discurso pode ser feito de uma vez por todas se seus pressupostos forem destruídos. Remova o alicerce e a casa cairá.
  90. Diz o filósofo: escravidão não provê ninguém de qualquer vantagem.
  91. Liberdade nem sempre é ausência de governo. Quando alguém decide se submeter a outro de livre vontade porque vê nisso um benefício, ainda pode se considerar livre. Com efeito, escolheu servir.
  92. No debate sobre este assunto, uma das armas da oposição do filósofo foi chamar o oponente de ateu. Um truque sujo de argumentação é, além de qualificar sua posição, desqualificar a do outro com argumentos que transcendem o debate, atacando a pessoa e não o discurso.
  93. É possível que alguém com a fantástica autoridade paterna exista ainda hoje, mas provavelmente não governa. Isso significa que não necessariamente o detentor dessa autoridade, se existir, torna-se governante por virtude dela.
  94. O governo dos hebreus podia muito bem ser aristocrático ou democrático representativo. Afinal, Israel rejeitou o governo divino exercido na Terra pela via dos juízes, preferindo um governo humano, personificado na figura do rei (1 Samuel 8:5). Então, as decisões dos governos de Israel não necessariamente eram teocráticas, tanto que os reis não tinham obrigação de consultar os profetas ou de acatar o conselho divino, embora os melhores reis, como Davi, o tenham feito (1 Samuel 22:5). Além do mais, Deus, sendo Deus, não teria exercido um governo ruim sobre Israel. Então, o fato de haver reinados ruins na história de Israel (particularmente o que começa em 1 Reis 12:20) mostra que Deus não necessariamente os governava. Então Deus nada tem a ver com governos humanos. Isso é até ilustrado por Jesus, quando ele nominalmente separa Deus do governo, representado por César, na questão do imposto (veja o contexto de Mateus 22:21). Esta posição é contradita diretamente por Paulo, para quem os governos humanos são instaurados por Deus (Romanos 13:1).
  95. Uma pessoa pode ser rei, pai, marido e senhor de escravos. Se o poder fosse um só, não haveria formas diferentes dele coexistindo numa mesma pessoa. Existem diferentes tipos de mando, nem todo o governo é político, na visão do filósofo.
  96. O poder político reside nos três poderes: legislativo (faz as leis), executivo (aprova ou rejeita as leis) e judiciário (juízes, advogados, promotores). É o uso das leis para obter o bem público, isto é, o bem dos súditos do Estado.
  97. Para Hobbes, o ser humano é mau e tem que ser civilizado pelo governo. Alguns dizem que parece ilógico que Deus tenha criado o ser humano assim. Mas, se você levar em consideração que Adão e Eva viviam sob o governo de Deus antes de pecarem e que, depois da queda, viveram sem governo, até que a posição de Hobbes faz sentido: não demora pra aparecer os primeiros sinais de maldade, como o homicídio de Abel, que ocorre já na segunda geração de humanos (Génesis 4:8).
  98. O amor entre as pessoas é um incentivo à prática da política: se eu amo o outro e esse outro tem um problema que eu posso resolver, por que eu não resolveria o dele? Se estivesse em meu poder, eu poderia resolver esse problema pra todos os que o enfrentam.
  99. Existem comunidades ainda em estado de natureza.
  100. Pessoas diferentes têm capacidades diferentes, de forma que precisamos um do outro pra sobreviver.
  101. Outro meio de argumentar contra alguém é usar argumentos favoráveis vindos de outras pessoas que defendem outras ideias defendidas pelo oponente. Por exemplo: eu quero atacar o discurso de um cristão protestante sobre a política, sendo que eu tenho uma posição liberal e o oponente uma posição conservadora. Eu pego argumentos de protestantes liberais para agregar ao meu discurso, porque outro protestante terá mais dificuldade em criticar alguém de sua própria denominação.
  102. Para o filósofo, é preciso que os crimes sejam punidos, porque temos o dever de zelar por tantas pessoas quanto for possível e um criminoso pode causar dano à várias pessoas.
  103. A boa punição consiste em três níveis: deve ser o bastante para que o ato infracional redunde em prejuízo ao criminoso, deve ser o bastante para que ele se arrependa do que fez, deve ser o bastante para desencorajar os outros. Enquanto nem todos os crimes devem ser punidos com a morte, de um ponto de vista jurídico, tampouco devem as transgressões do direito passar impunes.
  104. O governo, como conceito político, é sancionado por Deus, diz o filósofo. Porém, isso não significa que Deus dá autoridade civil a pessoas específicas. Com efeito, Deus nada tem a ver com o governo humano, desde o incidente narrado por Samuel (1 Samuel 8:5).
  105. Embora os súditos estejam submissos ao governo, os governos não estão submetidos uns aos outros.
  106. Polemizando com Pascal, o filósofo aponta que existem sociedades tribais que não desenvolveram religião nenhuma.
  107. Só saímos do estado de natureza quando nos filiamos à alguma sociedade. Como isso não faz diferença (eu estando no Brasil, mas sem me considerar brasileiro e exercendo meu estado natural, quebrando leis brasileiras em território brasileiro, serei punido do mesmo jeito, mesmo não sendo súdito do Estado), é como se todos estivessem em estado de natureza o tempo todo, algo dito por Sartre com outras palavras, ou seja, a submissão a alguém não assegura que eu não possa trair essa submissão quando eu quiser.
  108. Querer poder absoluto sobre outra pessoa implica entrar em guerra com ela, se ela preza sua liberdade.
  109. A legítima defesa é um recurso justo de um ponto de vista jurídico, porque, na iminência da morte, sendo a vida um bem que os humanos não podem restituir, o agredido não tem tempo para apelar à lei. Se a vida está em risco e não há como acionar as autoridades, é lícito, juridicamente, matar. Estranho ele dizer isso (Mateus 19:18).
  110. A essência do estado de natureza é a ausência de juiz. A essência do estado de guerra é a violência.
  111. A liberdade natural consiste em não estar sujeito a ninguém.
  112. A liberdade civil é se submeter às leis estatais porque você consentiu com isso, porque viu benefício nisso.
  113. A vida não é nossa, então não podemos concedê-la para outra pessoa, pela via da escravidão. Isso não anula a possibilidade de se sacrificar pelos amigos (João 15:13), porque, embora a vida não seja totalmente nossa, esse é um de seus usos lícitos. Mas, essencialmente, quer dizer que eu não posso dar minha vida para outro controlar. Sartre dirá o mesmo.
  114. É normal cair em erros que você mesmo condena.
  115. A minha força de trabalho e meu corpo são propriamente privados. Para o filósofo, embora as coisas na natureza sejam de todos, no sentido de que todos têm direito a elas, aquilo que obtive com meu corpo, pela minha força de trabalho, é meu. A menos que nos lembremos à caridade cristã, cessa aqui um possível comunismo, porque essa caridade é a única coisa em seu livro até agora que impede alguém de pegar uma grande quantidade de bens comuns para si, pela sua força de trabalho, privando outros do que ele tem em excesso.
  116. O que origina o direito à propriedade: o trabalho, o acordo ou os dois?
  117. “O que está no chão não tem dono” se origina aqui.
  118. Se precisássemos de permissão pra apanhar, por exemplo, comida do chão, morreremos no estado de natureza.
  119. Para o filósofo, a propriedade privada começa com o trabalho, mesmo que seja só a colheita. Isso porque o trabalho “imprime” uma marca pessoal do trabalhador naquilo que a natureza produziu. É como se o trabalho “escrevesse o nome” do trabalhador no seu produto. Se tem seu nome, é seu.
  120. A água que corre no rio é de todos. Mas a água que eu colocar no meu jarro, é minha.
  121. Então, a propriedade privada começa quando alguém se apropria de algo a que antes todos tinham direito. Essa posição é sustentada também por Rousseau e Marx.
  122. Para o filósofo, não se deve consumir mais que o necessário, ou seja, não podemos tirar, por egoísmo, algo que não vamos usar do domínio comum. O problema aqui é que o filósofo se apoia na religião para pressionar este preceito. Se o mundo inteiro fosse cristão praticante, a doutrina do filósofo poderia acabar em um perfeito comunismo, com cada um obtendo o necessário pelo trabalho e deixando o excesso para os carentes. Mas, como isso não acontece, a doutrina do filósofo acaba terminando em liberalismo, com os que mais podem trabalhar obtendo excesso, às custas dos menos capazes, que tornam-se miseráveis.
  123. Não observar esse princípio leva à disputas inclusive de terreno. É o que acontece com o Movimento dos Sem-Terra, que toma pela força as terras que os senhores têm em excesso e que muitas vezes nem está em uso, pressionando pela reforma agrária.
  124. Para o filósofo, a posse de terras é obtenível pelo contrato. Isso porque a terra é um caso especial: ser dono de terras significa ser dono de tudo o que ela produz. Se isso não fosse concedido pelos outros habitantes locais, seria uma prática abusiva. Então, a propriedade de bens da própria terra é obtida pelo trabalho, mas a propriedade de terras é obtida por contrato, uma vez que isso implica posse de tudo o que aquela terra produzir.
  125. Se a terra não estiver em uso e nem estará em uso em breve, pode invadir. Esse preceito justifica a colonização do país pelos portugueses e também a invasão de terras pelo Movimento dos Sem-Terra. O filósofo não veria nada de errado nem em um, nem em outro.
  126. A raridade de algo aumenta seu valor.
  127. Em alguns lugares do mundo, o direito que o senhor tem sobre suas terras expira se ele não usá-las de forma construtiva. Seria um bom jeito de começar uma reforma agrária no nosso país, permitindo que a posse de terras não utilizadas expirasse em, digamos, três anos. Uma boa ideia seria transformar essas terras inúteis em reservas ambientais, leiloá-las a outros senhores ou mesmo vendê-las aos sem-terra. Quando eu leio isso, penso nas fábricas construídas ao lado de florestas no bairro industrial da minha cidade. Toda aquela floresta pertence aos donos das fábricas, mas estão praticamente intactas.
  128. Antes, a pessoa tinha direito ao que podia usar. Agora, a pessoa tem direito ao que puder pagar.
  129. O trabalho estabelece a diferença de valor de cada coisa. Por isso são mais caras as coisas que dão mais trabalho pra fazer, mesmo quando não são tão úteis.
  130. Terra plantada vale mais que terra bruta. Casa pronta vale mais que o terreno que ocupa. Isso porque o comprador é poupado do trabalho de plantar ou de construir a casa.
  131. De todas as coisas que usamos, apenas uma pequena parte vem da natureza sem passar pelo trabalho humano (o ar que respiramos, por exemplo, mas até as frutas que compramos são colhidas, cuidadas, transportadas até nós, para então ser vendidas).
  132. A natureza nos provê “de muito de pouco”: muita comida, muita água, muito solo, muito abrigo. Mas só podemos ter mais do que isso se trabalharmos essa comida, essa água, esse solo. Por isso, diz o filósofo, os índios selvagens tidos em mais alta conta vivem numa situação menos confortável do que um trabalhador que se desdobra por um salário mínimo. Eu penso um pouco diferente: melhor uma mão cheia com tranquilidade do que duas cheias com sofrimento. Se o índio acha que vive bem o bastante, ele não precisa trabalhar pelas comodidades que eu tenho. Não é que o índio seja “preguiçoso”, como diz o estereótipo. Será que é tão ruim não ver vantagem em conseguir mais e mais sucesso?
  133. O uso do dinheiro é consentido por um grande número de pessoas. Não serve o dinheiro que só vale dentro de um grupinho. Ele tem que servir para um grande número de pessoas para ter efeito.
  134. O que tornou o ouro e a prata medidas de valor entre as nações (como uma espécie de moeda universal) foram três coisas: durabilidade, raridade e dificuldade de falsificação. Uma boa moeda deveria ter as três coisas, isto é, deveria ser durável, difícil de obter (para estimular o trabalho) e difícil de falsificar.
  135. Dar pra outro o que você não usa é um melhor do que acumular sem usar.
  136. O que determina uma posse ilícita é o desgaste. Você não pode obter algo se não vai usar, porque essa coisa estraga sem ter sido usada. Então seria melhor dar pra outro aquilo que se estragaria por desuso se permanecesse com você. Isso significa que não é possível a posse ilícita de um diamante: ele não se estraga.
  137. Ouro não serve pra muita coisa, mas dura pra cacete. O escambo de coisas por ouro acabou tornando o ouro uma moeda conveniente.
  138. A invenção do dinheiro estimulou o ser humano a querer mais que o necessário.
  139. Isso porque o dinheiro permite comprar as posses desejáveis dos outros. O negócio é possível. Se não houvesse dinheiro, não haveria esperança de obter licitamente o que é do outro, ao menos não de maneira fácil. Com o dinheiro, é simples como perguntar se está à venda e por quanto.
  140. Diferentes comunidades têm diferentes moedas. Numa comunidade sem moeda e sem comércio, cada um fica apenas com o que lhe basta. Não geram excedente.
  141. Isso não significa que as pessoas peguem o excedente e estraguem ele. A existência do dinheiro permite vender o que não está em uso, isto é, o excedente, a fim de obter dinheiro para comprar outra coisa que se venha a querer.
  142. A busca por dinheiro e poder, no fim das contas, é uma busca por segurança. Trabalhamos demais, para obter excedente, que é vendido e convertido em dinheiro. No caso de uma catástrofe ou de um desejo forte por algum bem material, teremos dinheiro para sanar o problema. Deve ser isso que o povo chama “segurança social”.
  143. O dinheiro torna lícito ter mais que o necessário, na medida em que o excedente serve a alguma coisa, mesmo que seja ao comércio.
  144. Todos são livres por natureza. Quer dizer todos os adultos. Os pais submetem os filhos porque os filhos morreriam se fossem deixados totalmente livres. Além disso, em sociedade, as pessoas devem obediência umas às outras por gratidão, por trabalho, por sobrevivência, por amor ou amizade, por conselho, por interesse, por medo… A sujeição só vale em sociedade. Se não pertencemos a uma, não estamos sujeitos. Se pertencemos, nos sujeitamos a quem acharmos melhor. Por exemplo, os filhos se sujeitam aos pais porque os pais as alimentam, vestem e educam. Se os filhos se rebelam são disciplinados ou, em casos extremos, morrem ao tentar viver por conta própria, pois precisam da proteção paterna.
  145. O domínio dos pais sobre os filhos é temporário. Se o filho permanece submisso aos pais depois de adulto, é porque ele vê benefício nisso, não mais por obrigação.
  146. Se as pessoas pudessem ser mais felizes sem lei, ela desapareceria. É o caso das leis inúteis, que acabam sendo quebradas por todo o mundo, até eventualmente perderem relevância.
  147. A lei tem por função dar a todos uma quantidade decente de liberdade. Afinal, se não houvesse restrições e todos tivessem liberdade absoluta, ninguém seria livre, porque todos estariam constantemente com medo do que o outro poderia fazer com elas.
  148. O adulto é aquele que já adquiriu razão e juízo o bastantes para governar sua própria vida. Então, pais de crianças especiais que têm dificuldade de chegar a esse estado podem ter que subjugar os filhos por mais tempo.
  149. Os adultos, diz o filósofo, pensam pelas crianças.
  150. Se os pais morrem deixando o filho totalmente só, essa criança passa a ser responsabilidade do Estado, até que este encontre uma nova família para a criança ou até que a criança adquira razão suficiente para conduzir sua vida.
  151. Somos mais livres quando submetidos a leis justas.
  152. Quem não chegar ao nível suficiente de razão nunca será um adulto livre.
  153. O nível de razão suficiente é determinado pela capacidade de aprender as leis. Quando o indivíduo tiver idade o bastante para aprender as leis de seu Estado, ele já é adulto.
  154. O filho deve ser governado com amor, mas não sem justiça.
  155. Mesmo depois de deixar os pais, o filhos lhes deve respeito, embora não obediência, diz o filósofo.
  156. Se o pai respeita o filho será respeitado por ele.
  157. O pai ou a mãe que não presta assistência ao filho (alimentação, educação e segurança), é um criminoso, uma criminosa.
  158. Os pais devem recompensar o bom comportamento do filho e punir seu mau comportamento. Mas é mais comum um pai ou mãe frouxos do que um pai ou mãe severos. Por isso muitas crianças são mal-criadas, embora existam crianças que sofram abuso. Equilibrar recompensa e punição é uma das coisas mais difíceis de ser pai.
  159. Um bom critério é o benefício do filho. A recompensa e a punição são excessivas quando redundam em dano para a educação do filho, pois tanto recompensa demais quanto punição demais o estragam.
  160. Se o pai controla o filho como um monarca controla seu povo, põe em risco sua independência futura. O filho não saberá se virar sem os pais.
  161. Exigir servidão por serviço prestado é extorsão ou chantagem. Só o Estado pode fazer isso, mas não civis entre si. Claro que você ainda pode ceder seus serviços por um salário, mas isso não é servidão. More discorda.
  162. O pai pode dar mais herança ao filho favorito.
  163. “Piedade” é respeito aos pais.
  164. Há muito tempo, pode ser, os pais podiam ser reis em suas famílias.
  165. Os pais são os melhores juízes para desavenças entre irmãos.
  166. Também no princípio, os patriarcas eram sacerdotes.
  167. A primeira sociedade foi entre homem e mulher, depois entre pais e filhos, só então entre cliente e servidor.
  168. O fim do sexo é a procriação, o que seria inválido se o filho morresse logo após nascer. Isso significa que o pai e a mãe devem permanecer juntos, cuidando do filho, para aumentar suas chances de sobreviver. Isso quer dizer que a mãe não pode levar o filho pra longe do pai e criá-lo sozinha, nem o pai deveria se afastar da mãe depois que o filho nasce. Tomás chega a conclusões parecidas.
  169. Se a mulher tem problemas a resolver, mas que não afetam o pai ou o filho, o pai não deve se intrometer se ela não quiser. Das coisas dela, ela cuida. Porém, diz o filósofo, aquilo que afeta a família toda deve ser resolvido pelo pai, a menos que os dois tenham acordado que a mãe deva resolver.
  170. Se os pais se divorciam, a mãe não necessariamente fica com os filhos. Seria interessante que a guarda dos filhos em caso de separação fosse decidida no instante do matrimônio. Hoje nos casamos, mas, se nos separarmos, quem fica com os filhos? Isso tornaria as pensões mais justas, porque decidir pensão logo após o divórcio, com os ânimos ainda quentes, pode levar a rixas.
  171. Cliente e servidor são denominações bem mais velhas que a informática.
  172. A razões dos escravos não serem vistos como membros da sociedade civil, diz o filósofo, é que esta se destina à preservação da propriedade privada, sendo que os escravos não têm direito a posses.
  173. Os escravos são prisioneiros de guerra e poderiam ter morrido. Isso é tido como prova de que o conquistador tem direito sobre suas vidas. Por isso Hobbes diz é lícito, numa guerra, vender a liberdade para continuar vivendo.
  174. Apesar de que, antigamente, o escravo, embora totalmente submisso ao senhor, era considerado parte da família.
  175. Minha propriedade: minha vida, minha liberdade, meus bens.
  176. O fim do estado de natureza está condicionado à eleição de um juiz.
  177. As frases deste livro são quase tão longas quanto as dos Princípios.
  178. Assassinos são inimigos da humanidade inteira.
  179. Em monarquias absolutas, o monarca é frequentemente injusto: pode fazer tudo impunemente.
  180. Os governantes devem estar sob as leis que estabelecem para a população.
  181. Os pobres também deveriam participar da política; também têm propriedades.
  182. Qualquer grupo de pessoas pode fundar pequenos governos. Lembrando que um pequeno governo dentro de um grande governo deve obediência ao governo hospedeiro.
  183. A existência de um governo não afeta a liberdade dos que estão fora dele.
  184. Democrata: a maioria decide pelos demais.
  185. Num governo em que a minoria decide, ocorrem dissensões. Isto é, mais do que ocorreria num regime democrático.
  186. As democracias, diz o filósofo, são os governos mais estáveis. Monarquias e aristocracias duram menos, é o que ele diz.
  187. Uma democracia pode concordar em tomar decisões somente quando um certo número de votos além da maioria é atingido, mas não deveria aceitar sugestões de um número de indivíduos que constitui a minoria. Assim, eu posso decidir que só será legal determinada coisa se o plebiscito reunir 51%, 60%, 70% dos votos, mas nunca posso sugerir a legalização com base em um plebiscito que pode legalizar algo com menos de 50% dos votos a favor, diz o filósofo. Assim, mudanças muito drásticas podem requerer mais que a “maioria simples” dos votos.
  188. Se não há registro de algo, isso não necessariamente significa que não aconteceu.
  189. O desenvolvimento de habilidades intelectuais só pode surgir em sociedades que já resolveram questões de sobrevivência. Como essas questões são facilmente resolvidas pelo governo, a invenção da escrita, que é oriunda de habilidade de intelecto, não acontece em sociedades sem governo. Donde decorre que o governo antecede a escrita. Por isso há poucos registros escritos sobre épocas anteriores ao governo.
  190. No Brasil primitivo, ninguém era submisso a ninguém. As pessoas só se submetiam a “capitães” em caso de guerra. Terminada a guerra, terminava a sujeição.
  191. Governos patriarcais foram minoria. Os índios nativos brasileiros não se sentiam superiores em cargo uns aos outros.
  192. O costume de obediência aos pais na infância se estende à vida adulta. Eu que o diga.
  193. A população escolhe o governante.
  194. Todas as monarquias foram eletivas no começo.
  195. O governo deve ser exercido pela persuasão mais do que pela violência, porque o objetivo do governo é o bem-estar dos súditos.
  196. Em Israel, antes da monarquia, não havia grande diferença entre ser juiz (governar) e ser chefe de guerra. O fato de Israel ter começado assim, como nação guerreira, é a razão do epíteto divino: Jeová dos exércitos.
  197. A constituição de chefe militar muitas vezes marca transição entre estado de natureza e monarquia.
  198. O rei, em Israel, era sobretudo general.
  199. A monarquia é campo de muitas misérias.
  200. Os governos que não se iniciam pelo consenso do povo frequentemente se iniciaram pela violência.
  201. Se nascemos todos sob um governo e por isso não temos liberdade de iniciar outro, como se explica a rebelião?
  202. Segundo a doutrina do poder paterno, o filho deve se submeter ao governo ao qual o pai está submisso. Ora, mas se um inglês tem um filho com uma inglesa, mas o garoto nasce e vive no Brasil, por causa da nacionalidade do pai ele é um súdito do governo da Inglaterra? Não: enquanto ele for um cidadão brasileiro, ele deve observar as leis brasileiras. Então, a quem eu me submeto não é uma questão de herança, mas meramente política e territorial: eu me submeto ao líder da região, quer seja do agrado do meu pai ou não. Ou ainda: eu posso me rebelar e simplesmente não obedecer, transferindo a questão para o âmbito pessoal.
  203. Ninguém nasce súdito. Eu me submeto conforme a minha necessidade.
  204. O filósofo tem lá seus tons de anarquista.
  205. Quem viaja não necessariamente é súdito do país para o qual viaja.
  206. As leis para visitantes são reduzidas. Mas também seus direitos. Coisa estranha seria um estrangeiro votar em nossas eleições.
  207. A função do Estado é assegurar a propriedade e o bem comum. É necessário assegurar a propriedade porque todos roubariam todos se assim não fosse.
  208. Quando me torno súdito de um Estado, abdico do meu direito de punir os outros. As punições deverão ser ministradas pela lei. Assim, fica ilegal o ato de “fazer justiça com as próprias mãos”.
  209. Quando me torno súdito de um Estado, abdico do meu direito de fazer o que achar necessário para meu próprio bem ou dos outros. Isso porque a sociedade seria uma confusão se cada um simplesmente fizesse o que “acha certo”.
  210. O que faz uma lei ser uma lei é o consenso da sociedade, não a arbitrariedade do governante, ao menos em um regime democrático. Se a população não quer, a lei será quebrada, mesmo que por baixo dos panos. Não podem colocar a maioria dos cidadãos na cadeia; ia faltar presídio. Seria interessante que as leis fossem todas votadas em plebiscito, mas, como isso seria muito frequente, seria necessário, em primeiríssimo lugar, tornar o voto facultativo. Se o voto fosse obrigatório, a população seria mobilizada às urnas com frequência e tais plebiscitos seriam impraticáveis.
  211. No final das contas, quem manda é o legislativo. Mas o legislativo não pode obrigar um cidadão a quebrar a lei. Se isso for necessário, a lei deve ser mudada ou mesmo revogada, pois não seria justo dar a uma só pessoa ou grupo de pessoas o poder de quebrar leis.
  212. A lei de natureza é subjetiva. Então, ela não serve em situações positivas, como a delimitação de direitos, porque, sendo subjetiva, todos são juízes e todos podem julgar a seu próprio favor.
  213. O absolutismo monárquico e o aristocrático é pior que o estado de natureza. Colocar todos os poderes na mão de um só cara é loucura.
  214. O Estado não pode expropriar nada dos súditos, a menos que estes consintam, uma vez que o trabalho do Estado é também garantir o direito de propriedade privada.
  215. Se o Estado tivesse o direito de tirar propriedades quando quisesse, então, na prática, tudo é do Estado e ninguém tem propriedade privada.
  216. Qualquer causa que envolva expropriação de bens é suspeita.
  217. O pagamento de impostos é necessário, mas deve haver consenso sobre quanto e quais impostos pagar, o que deveria ser feito de maneira democrática. Assim, há consenso da sociedade em ceder recursos ao Estado para manter tal sociedade unida.
  218. As leis devem valer para ricos, pobres, famosos e anônimos. Elas não devem ser parciais.
  219. As leis devem destinar-se ao bem público. Uma lei não pode fazer mal a maioria da população ou se promulgada a fim de favorecer uma minoria.
  220. As leis não devem sancionar a cobrança de impostos indecentes. Os impostos devem ser decididos democraticamente, através de plebiscito ou pela via representativa.
  221. Os legisladores não podem abdicar do exercício.
  222. Já que só se fazem leis de tempos em tempos, não há necessidade de legislativo permanente: depois que terminam de elaborar e votar determinada lei ou conjunto de leis, voltam às suas vidas e outro corpo legislativo, com outros integrantes, pode ser convocado para decidir outra lei ou conjunto de leis no futuro.
  223. Embora o legislativo não seja permanente, o executivo precisa ser. Porque as leis, depois de feitas, precisam ser executadas constantemente, diz o filósofo.
  224. O terceiro poder, para o filósofo, é o federativo e não o judiciário. O poder federativo é encarregado de firmar alianças com outros países e também de declarar guerra quando necessário.
  225. Frequentemente o poder executivo e o federativo são exercidos pelas mesmas pessoas.
  226. A população deve moldar o legislativo, escolhendo quem entra e quem sai. Depois de escolhido, o legislativo é supremo e os outros poderes lhe estão subordinados. Porém, se o legislativo trai a população, a população não precisa se resignar e pode rebelar-se, caso o legislativo se recuse a mudar (claro, no caso de a própria população não ser o legislativo, ou seja, no caso de uma democracia representativa).
  227. Se o Estado não honra seus deveres para com a população, tampouco a população deve honrar seus deveres para com o Estado. Assim, súditos e Estado entram em guerra.
  228. Quem convoca as reuniões do legislativo, diz o filósofo, é o executivo.
  229. O bem do povo é a suprema lei estatal. Tudo o que se orienta para este fim é politicamente justificado.
  230. Se um crime é cometido para o bem do povo, é perdoável.
  231. Se a absolvição de alguém não causará mal a ninguém, que seja absolvido.
  232. Se o interesse do monarca não é o bem público, é um tirano.
  233. Nesse caso, o governante quererá tratar os súditos como servos.
  234. Se o governante quisesse o bem público, a população não iria se importar com o que quer que ele fizesse, mesmo que fosse criminoso. Talvez até perdoasse uma possível ganância. É um caso de “rouba, mas faz alguma coisa”, como o Lula.
  235. Se o judiciário é réu, quem julga?
  236. Se o monarca é réu, quem julga?
  237. O poder paterno (do pai sobre o filho) é natural. Mas o pai não é dono do filho.
  238. O poder político, isto é, coletivo, para o bem de todos, é sancionado por pacto entre os integrantes de uma sociedade. Isso quer dizer que nem toda a política é estatal: existe política familiar, sindical, entre amigos, nas mesas de jogo de interpretação…
  239. O déspota é automaticamente inimigo, diz o filósofo.
  240. O prisioneiro de guerra é uma posse, diz filósofo.
  241. O pai deve ensinar ao filho como usar sua propriedade. Que propriedade o filho tem? Liberdade, vida e bens. Ele tem que aprender que suas ações têm consequências, tem que aprender a preservar a própria vida e aprender a cuidar bem de suas coisas e dinheiro.
  242. A conquista de território não é início de governo, mas fim de um governo existente. O “espaço em branco” pode ser preenchido com o governo do conquistador (expansão de território) ou mesmo com um governo novo, feito entre conquistador e novos súditos, por consenso.
  243. Os pactos motivados pelo medo são inválidos, diz o filósofo.
  244. Se um crime é cometido por muitos ainda é um crime. Vale lembrar que uma lei quebrada pela maioria não deveria existir; o comportamento majoritário não pode ser criminalizado. Então, o filósofo se refere ao crime cometido por um grande número de pessoas, mas, ainda assim, um número menor que a metade da população.
  245. Se o pai não consegue justiça, o filho talvez consiga. Um apelo legal pode ser feito pela família inteira, até que justiça seja feita.
  246. Numa guerra, o crédito da vitória não é só do general. Isso me lembra do costume das pessoas de dizer que tal música é do Renato Russo, esquecendo que ele era integrante de uma banda chamada Legião Urbana. Imagine Napoleão sem seu exército, ou Russo sem os outros integrantes. Nada seriam.
  247. Se eu conquisto um local, os habitantes dali podem até se sujeitar a mim. Mas eu não posso sujeitar quem eu já trouxe comigo da mesma forma que sujeito os que foram conquistados.
  248. Os filhos não devem ser culpados pelos crimes dos pais.
  249. Para o filósofo, eu posso matar um ladrão que tenta me assaltar, mas não posso tomar o dinheiro dele e deixá-lo vivo. Isso porque o conquistador tem direito às vidas dos conquistados em guerra, mas não às suas posses. Lindo, mas isso não acontece.
  250. Se eu entro em guerra com alguém e venço, só tenho direito àquilo que o outro perdeu. É como quando apostamos. Se eu vencer uma aposta, eu ganho o que você apostou.
  251. Desonrar os deveres acarreta perda de direitos.
  252. Para o filósofo, as promessas feitas por Deus o obrigam ao seu cumprimento, pois Deus, sendo sumamente justo, quererá cumprir as promessas que faz.
  253. Conquistar pela força é tão imoral que também Deus, diz o filósofo, apoiaria uma rebelião popular contra um tirano. Novamente, se assumirmos que Paulo tem razão (Romanos 13:1), então um certo personagem bíblico, que não se subjugou ao rei da Assíria, fez errado mesmo que Deus estivesse com ele (2 Reis 18:7). Eu amo quando isso acontece. Essa dicotomia reafirma o que eu disse e que o filósofo disse antes: Deus nada tem a ver com os governos humanos. Pois esse personagem, observante da Lei, rebelou-se contra o domínio que lhe fora imposto e foi bem-sucedido com ajuda divina, o que mostra que a vontade de Deus pode se opor aos governantes humanos. Então como Paulo pode dizer que Deus é responsável pela ascensão deste ou daquele governante, mesmo quando estes se opõem ao mandado divino? Embora haja casos em que Deus tenha feito isso, como quando ele usou o rei da Babilônia (Jeremias 25:9) e posteriormente Ciro, a história da monarquia em Israel e também eventos da história secular mostram que isso não necessariamente acontece. Com efeito, vários reis obtiveram o ódio de Jeová, por exemplo, pela idolatria (como a rainha de 2 Crônicas 15:16), o que não seria possível se Deus os usasse. Portanto, Deus usa os governos quando quer obter alguma coisa com isso. Um mau governo nada tem de divino.
  254. A conquista é a tomada do governo por um estrangeiro. A usurpação é a tomada do governo por um cidadão.
  255. Se não houver critério de escolha do monarca, qualquer um pode ser. Na prática, é anarquia.
  256. Tirano é político corrupto.
  257. O rei não está acima dos acordos que faz com seus súditos. Deus não desonrou o acordo com Noé, então o rei que desonra os acordos com os súditos é, no mínimo, suspeito. Platão dirá “tirano“, tal como o filósofo. Nós preferimos o termo “corrupto”. Observe que um governante pode ser tirano a partir de certo instante e mudar seu proceder depois, como os políticos que “roubam, mas fazem alguma coisa”.
  258. Corrupção de governo não ocorre somente na monarquia, mas também nas aristocracias e democracias. Também ocorre nas relações pessoais.
  259. Se eu recebo herança de meu pai e meu irmão recebe outra parte da herança, eu não posso tomar a parte do meu irmão. Se eu fizesse, mesmo que eu fosse o filho favorito ou que tivesse recebido menos, eu seria um ladrão. Afinal, os bens eram do pai, que decide quem fica com o quê é o pai.
  260. O guarda que abusa de seu poder não é melhor que o rei que abusa do poder dele só porque seu abuso tem menor alcance. Aliás, isso revela que ele provavelmente abusaria de seu poder em maior escala se subisse de posição.
  261. Para o filósofo, é errado que a polícia arrombe minha casa, mesmo com mandado de busca e apreensão. Exceto, claro, se for para o bem de todos.
  262. Se alguém tenta me assassinar, eu não tenho tempo de chamar as autoridades. Matar o agressor conta como legítima defesa. Se me roubam o dinheiro, eu posso apelar pra lei. Então matar o ladrão é crime. Eu só posso alegar legítima defesa se eu não tiver como apelar à justiça.
  263. O político que atrai a suspeita do povo está lascado. Pode atrair uma rebelião sobre ele.
  264. Há diferença entre dissolução do governo (depor os governantes) e dissolução da sociedade (voltar ao estado de natureza).
  265. É possível a sociedade se dissolver e os governantes não se darem conta. Nesse caso, o governo já não vale mais nada.
  266. Primeira causa de dissolução: guerra. Segunda: leis inaceitáveis.
  267. Não são os nomes ou a reputação dos governantes que faz o governo, mas sim suas ações.
  268. Se um governante suprime o poder legislativo, acabou com o governo, diz o filósofo.
  269. Se um governante manipula a eleição do legislativo, acabou com o governo, diz o filósofo.
  270. Se um governante entrega o poder a um estrangeiro, acabou com o governo, diz o filósofo.
  271. Também é possível acabar com o governo se o poder executivo é suprimido. Sem executivo, as leis existentes são inúteis.
  272. A população tem direito de evitar a tirania e de se livrar dela.
  273. Usar a polícia, o dinheiro público ou a concessão de cargos para corromper a política é causa de rebelião.
  274. Alguns políticos são descarados o bastante para deixar transparecer suas intenções maliciosas em debates, por exemplo. A defesa da presidenta nunca foi derrubada, mas foi ignorada por um grupo que, se reconhecendo maioria, sabia que os fatos não tinham poder sobre o número de seus votos. Foi um espetáculo, uma encenação. Esses políticos não estão comprometidos com o governo. Para não dizer que a administração do Partido dos Trabalhadores é santa, trazer a Copa do Mundo e as Olimpíadas ao Brasil, em vez de investir em educação, saúde e segurança, foi um péssimo movimento, no mínimo.
  275. Votar sem levar o debate com a devida seriedade é sinal patente de má intenção.
  276. A população deveria convocar um novo legislativo sempre que sentir vontade, diz o filósofo.
  277. Se o povo tiver uma boa razão pra odiar o governo a qual está submetido, ele pode, se quiser, se rebelar.
  278. Se o legislativo muda ao sabor do povo, o povo não tem razão de se rebelar: o que quer que saia de ruim é culpa dele apenas.
  279. Usar a força sem autoridade já é entrar em guerra.
  280. Quem aplica golpe contra o governo é culpado de todo o mal que se segue ao golpe. Também os que apoiam o golpe são culpados.
  281. Mesmo sem atacar os governantes, ainda podemos resistir às suas más intenções. A rebelião é o ataque ao governo. Se defender do governo não é rebelião, mas resistência.
  282. A resistência não pode se manter pra sempre. Eventualmente, a rebelião se faz necessária, a menos que se admita rendição.
  283. Numa guerra entre povo e governante, um não é superior ao outro.
  284. Se o rei, de caso pensado, quer destruir o povo, deixa de ser rei.
  285. Se o rei passa a ser submisso a outra pessoa, deixa de ser rei.
  286. O juiz do político é o povo.
  287. O povo pode interpretar as leis.
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