Pedra, Papel e Tesoura.

23 de agosto de 2016

Anotações sobre os diálogos entre Hylas e Philonous.

Filed under: Livros, Passatempos — Tags:, , , — Yure @ 14:59
  1. O contato com a natureza revigora a mente. É mais fácil pensar no silêncio campestre do que no ruído urbano.
  2. O ceticismo total (segundo o qual a única verdade é a de que não há verdade em nada mais) é prejudicial, pois põe tudo no relativismo.
  3. Uma das causas do ceticismo é o fato de que pessoas de autoridade, como filósofos e cientistas, por vezes afirmam que não existe nenhum conhecimento seguro ou professam como verdade coisas extravagantes. Se esses estudiosos ora parecem que estudam em vão e ora parecem enganar-se de todo, quanto mais o leigo. Mas não se deveria pensar assim.
  4. Por vezes, o conhecimento do leigo é mais seguro.
  5. Se aproximar de um objeto ingenuamente pode dar mais resultado do que se aproximar do mesmo com ciência.
  6. Quando você é convencido de que está errado, mude seu proceder. Permanecer no engano é manifestação de nefasto orgulho.
  7. A tese do livro é mostrar que não existe matéria, isto é, que a matéria é coisa da nossa cabeça.
  8. Cético é quem duvida de tudo.
  9. Quem nega não é cético. O cético duvida, isto é, nem afirma e nem nega.
  10. Se durante uma discussão, o oponente fala uma besteira, mas uma besteira pequena, não vale a pena discutir sobre ela.
  11. Negar a matéria não nega a matemática, por exemplo. É possível praticar matemática sem a matéria, mesmo que ela tenha relações com a matéria. Eu posso somar 2 e 4 para obter 6, sem necessariamente fazer essa operação com palitinhos.
  12. O “verdadeiro cético” não afirma sequer a realidade sensível.
  13. O que é uma “coisa sensível”: aquilo que posso aprender somente pelos sentidos ou aquilo que eu posso apreender com ajuda de instrumentos que auxiliam os sentidos?
  14. Por exemplo: lendo um livro, eu vejo letras e vejo a palavra “gato”. Porém, o que diz que aquela palavra é gato é a mente, que aprendeu a interpretar os sinais daquela forma. Os olhos podem apenas dizer que as letras G, A, T e O estão escritas ali. Então, o que é sensível? A palavra “gato” ou as letras que compõem o nome?
  15. Agravado quando a palavra se refere a algo somente inteligível, mas não sensível, como Deus. O que é sensível? As letras, a palavra ou Deus?
  16. Ouvir um som não iguala ouvir a causa do som.
  17. As causas e a relação de causalidade são inferências racionais, não sensíveis.
  18. A linguagem é arbitrária: não temos razão para chamar o gato de gato, quem deu esse nome só o deu porque precisava dar um nome ao bicho e esse foi o primeiro que lhe veio à mente.
  19. As coisas sensíveis são, para Berkeley e também David, um “feixe de percepções”. Elas não existem fora da nossa mente, de forma que algo só existe se é percebido. Kant explica o fenômeno de outra forma: as coisas que nos causam sensações existem sem que as percebamos, mas, como nossos sentidos são limitados, aquilo que percebemos delas não necessariamente corresponde ao que elas são. Ou seja: quando interagimos com alguma coisa, apreendemos as sensações que ela causa e formamos um conceito dela, uma ideia, com a qual trabalhamos. Essa ideia pode ou não corresponder à coisa. Quer corresponda ou não, nós não podemos saber. A coisa como ela aparece é chamada “fenômeno”. Assim, Kant conclui, em oposição a Berkeley, que as coisas existem sem que as percebamos, mas que só podemos conhecê-las como “fenômeno”, isto é, quando ela aparece e como ela nos parece. O que existe em nossa mente é o conceito obtido da coisa através da interação com ela; não é como se as coisas que sentimos só existem em nossas mentes. Afinal, somente um corpo pode estimular outro, o que significa que as coisas têm existência corpórea fora de nós.
  20. O calor tem existência real ou é uma sensação nascida em nós? Se ele fosse totalmente dependente de nós, não o sentiríamos nunca, porque o calor só se manifesta como sensação se estamos próximos de uma fonte de energia que nos produza essa sensação. Então, embora o calor seja uma sensação reativa, ele não se manifesta sem objeto. Há um objeto que produz uma energia que nos causa a sensação de calor. Ausente o objeto, ausente a sensação.
  21. O grande problema aqui é de onde vêm as sensações: se forem reativas, são subjetivas; do contrário, são objetivas. O calor existe no objeto? Ou o calor é uma sensação nossa que só existe se a percebemos? Isso também depende do que você chama de calor. Se você chama “calor” a sensação de desconforto oriunda da interação com objetos quentes, então é reativa e subjetiva. Se você chama “calor” de energia calorífica emanada por determinado objeto, ele é objetivo, pois o objeto emana essa energia quer sintamos ou não.
  22. Não existe sensação intensa que não provoque dor ou prazer.
  23. Como definir prazer ou dor sem acabar explicando o que é sensação?
  24. Para alguns, dor e prazer não são distintos das sensações que os provocam. O problema é que eu tenho um monte de amigos que sentem prazer em coisas estranhas, como pancadas no traseiro, cócegas, sujar fraldas… Se o prazer e a dor fossem indistintos das sensações que os provocam, não deveriam todos sentir prazer nessas coisas? Eu, pelo menos, gosto do meu traseiro sem marcas.
  25. Para Berkeley, calor “intenso” não existe sem uma mente que a perceba. Porém, se tomamos calor como energia, a energia existe independente de nós, só que, sem uma mente que a perceba e nomeie, realmente não chamaríamos isso de calor. As palavras não são as coisas. Além disso, sem uma mente que a perceba, o calor-energia não provoca o calor-sensação, que são coisas que eu distingui. Porém, é importante lembrar que Berkeley não nega o calor real nas coisas, mas nega a intensidade do mesmo fora da mente.
  26. Mudança de opinião: o prazer e a dor existem na mente apenas e dispõem as sensações em intensidade. Como o texto é escrito em forma de diálogo, os personagens mudam de opinião quando consideram melhor as coisas.
  27. Morno causa prazer, mas é calor em estado mediano. Mas Berkeley chama o morno de apatia, nem prazer, nem dor. E se eu realmente sinto prazer no morno (porque é inegável que um banho de água morna é prazeroso)? Se o morno é apatia, então a apatia causa prazer, o que invalida o argumento de que o morno não é prazeroso e nem doloroso. Se o morno não é apatia, não é realmente morno, pois o morno “verdadeiro”, segundo o argumento, não deveria causar prazer.
  28. Esse problema é interessante: os graus de calor e de frio só existem na mente porque prazer e dor, que os dispõem em graus de fraco e intenso, são mesmo subjetivos. O que me é frio é quente para outro. Mas e se usássemos um critério objetivo para medir frio e calor? Numa sala que faz vinte e sete graus (frio pra mim, cearense), não importa se o calor é prazeroso ou doloroso; faz vinte e sete graus e pronto. Então, se eu posso usar critérios não-subjetivos para medir o calor, por exemplo, então ele não é de todo subjetivo. Me sinto tão esperto fazendo essas refutações que me pergunto se eu não estou errado.
  29. Usar critérios subjetivos para graduar calor e frio leva a absurdos.
  30. Prazer e dor existem só na mente e a prova disso é que algo que é prazeroso para uns é doloroso para outros. Se prazer e dor fossem inerentes às coisas, todos sentiriam prazer ou dor com as mesmas coisas e não haveria “gosto pessoal”.
  31. A linguagem em plena acepção da palavra é a linguagem vulgar. Se eu estiver falando e você estiver me entendendo, então perfeito.
  32. A mesma coisa se mostra diferente dependendo do método de observação. A cor da parede é diferente à distância, quando próxima e quando focada com microscópio.
  33. Se o microscópio é mais confiável, nossa percepção das cores é falha.
  34. “Movimento”, na época de Berkeley, era a mudança de posição de um corpo em relação a outro corpo, usado como referência.
  35. A razão de a cor ser uma característica subjetiva é que diferentes pessoas e animais percebem diferentes espectros. Mas, se definimos cor como frequência de reflexo da luz sobre um objeto, ela é objetiva, existe fora de nós. Assim, existiria uma cor-reflexo e uma cor-sensação.
  36. Porém, embora objetiva, a cor não depende das coisas onde a cor se mostra, mas no seu grau de reflexão e intensidade da luz. De fato, se a luz é vermelha, o objeto amarelo sob ela parecerá laranja.
  37. Figura e extensão existem nos corpos ou só na mente? Será que os animais percebem extensão e figura do mesmo jeito que nós?
  38. Animais pequenos percebem o mundo em escala diferente. Mas nem por isso podemos dizer que a extensão é subjetiva. Isso pela mesma razão do calor: se eu usar um critério subjetivo (como “maior que” e “menor que”) para lidar com extensão, eu chegarei ao absurdo se eu tentar afirmá-la como objetiva. Porém, se eu convencesse todos os animais do mundo a adotar o sistema métrico, não importaria o tamanho de alguma coisa, pois todos os animais a mediriam da mesma forma e chegariam à mesma extensão. Se eu uso um critério objetivo, posso afirmar algo como objetivo. “Maior que” e “menor que” podem ser subjetivos, mas “dois metros” não pode.
  39. O mesmo com a velocidade: “rápido” e “lento” são subjetivos, “vinte quilômetros por hora” não é subjetivo.
  40. A velocidade é inversamente proporcional ao tempo em que determinado objeto chega a um objetivo. Quanto menor o tempo para chegar, maior a velocidade.
  41. As qualidades secundárias, como cor e sabor, são identificadas pelo prazer e pela dor. Já as primárias, não causam nem um e nem outro. É assim, diz Berkeley, que os filósofos distinguem entre qualidade secundária e primária quando, no raciocínio dele, é tudo secundário (subjetivo).
  42. Embora as coisas tenham existência objetiva, a ideia que fazemos delas é subjetiva.
  43. Se a extensão é subjetiva, não é parte da matéria. Mas se a matéria não tem extensão, como ela pode existir? Novamente, vale lembrar que a concepção de extensão em Berkeley chega ao subjetivismo porque ele exclui a matemática de seu raciocínio.
  44. Filosoficamente, substância e substrato são a mesma coisa.
  45. Cuidado para não usar termos filosóficos por hábito, sem saber realmente o que querem dizer. Especialmente se estamos falando de Aristóteles. Na universidade é muito comum os alunos falarem na “dialética” sem serem capazes de explicar satisfatoriamente o que ela é. Hegel é o novo Aristóteles.
  46. O que é a matéria, afinal? Como a filosofia trabalha com palavras, nós precisamos de significados para as palavras com as quais trabalhamos. Se temos uma ideia vaga sobre determinado termo ou não temos termo para uma ideia apreendida, não é possível fazer filosofia sobre essas coisas. As coisas devem ser nomeadas e os nomes precisam se referir às coisas.
  47. Se você concebe algo em sua mente, não há garantia de que esse algo exista fora dela. O grande problema de Berkeley é algo como isto: se uma árvore cai, mas ninguém a viu cair, sua queda faz barulho? Berkeley se posiciona na negativa: se ninguém viu, não existe árvore. Para Berkeley, algo só existe se percebido.
  48. Não é possível dizer a distância exata de algo só olhando pra ela. A Lua e o Sol, se vistos da Terra, podem parecer que estão à mesma distância, ao menos pra mim. Eu só concebo que a Lua está mais próxima porque eu li sobre isso. Quanto mais distante, mais difícil é dizer a distância exata.
  49. Se eu concebo distância como uma “linha” entre o olho e o objeto focado, não vejo essa linha. Ela é hipotética.
  50. Se eu vejo uma estátua de Júlio César, eu estou vendo a estátua. Quem me diz quem ela representa é a razão.
  51. Muitas vezes, a conexão de uma ideia à outra é puro costume. Isso é evidenciado no preconceito racial, por exemplo: porque muitas pessoas de pele escura e que se vestem de determinada forma praticam assaltos ou traficam drogas, algumas pessoas concluem disso que os negros que se vestem de tal forma tendem ao crime. Elas muitas vezes não se dão conta de pensam dessa forma por costume.
  52. Eu escuto o veículo ou o som que ele produz?
  53. Só é possível ouvir o som. Só é possível ver a imagem. Só é possível perceber o fenômeno, o que não necessariamente nos dá uma ideia segura do objeto que o produz.
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