Pedra, Papel e Tesoura.

7 de fevereiro de 2016

Intensivamente.

Filed under: Computadores e Internet, Livros, Passatempos — Tags: , , , — Yure @ 14:37

Caso você esteja se perguntando por que eu quase não falo mais de minha vida, mas não falto com a publicação de fichamentos de obras filosóficas: bom eu estava lendo a Bíblia Sagrada intensivamente e consegui terminá-la por inteiro em um mês e meio. Isso somado ao esforço de manter minha monografia e meu relatório de estágio tem me deixado sem tempo para discorrer sobre minha pacata existência, não que isso venha a ter qualquer impacto negativo na sua.

Minha monografia vai bem e tudo indica que defenderei-a depois do carnaval. Estou um pouco nervoso não quanto à defesa, mas quanto ao tempo. Espero que eu consiga terminá-la a tempo. Se eu conseguir, defendê-la será fácil e rápido. Talvez eu nem precise de texto, mas preparei um só para não repetir o incidente na disciplina de economia política, quando me deu um branco irrecuperável durante a apresentação do tema que estudei exaustivamente. Então, pra eu não ter que inventar conteúdo, convém levar algo escrito como apoio.

Já meu relatório de estágio, vai mal. Não por falta de conteúdo, mas porque a professora é muito exigente com detalhes e tudo o mais. Como sempre, acabarei dando alguma gambiarra neste artigo para entregá-lo nos trinques sem esforço (escreva o sumário, preencha os tópicos com pensamento próprio e depois procure no material citações que apoiem o que você já escreveu).

Se não tenho tempo para meu diário, quanto menos para desenhar e outras coisas! Aliás, me arrependo de ter criado uma conta no Weasyl. Sítio infeliz. A comunidade é uma droga e tem o Cloudflare. Inkbunny sempre acaba sendo o melhor de qualquer jeito.

6 de fevereiro de 2016

Utopia.

Filed under: Livros — Tags: , , , — Yure @ 13:23
  • Confiantes em excesso por causa da bússola, alguns capitães desafiavam o mar descuidadamente.
  • Se falava muito dos perigos enfrentados durante uma navegação, mas pouco sobre os locais visitados.
  • Viajar para outros lugares e conhecer os costumes alheios permite julgar seus próprios costumes com maior propriedade.
  • A diferença entre serviço e servidão é apenas linguística.
  • Não é feliz quem adota um trabalho que não condiz com o próprio caráter.
  • Não adianta um conselheiro real se o rei não quer conselho.
  • Melhor administrar seu próprio reino com perfeição do que conquistar os reinos dos outros.
  • Não tem sentido aconselhar quem já se acha o tal. Será que foi por este livro que More foi condenado à morte?
  • Havia, na época de More, uma tendência a não tentar dar um passo além da geração anterior, como se a geração anterior fosse um modelo de perfeição que deveria ser seguido, mas não superado.
  • Que sentido tem em punir de morte aquele que rouba para não morrer? Se ele vai morrer de qualquer jeito, morrerá de barriga cheia, ao menos.
  • Matar alguém por roubar só seria plausível numa sociedade em que todos têm condições de subsistência, porque assim ninguém teria que roubar por estar faminto, todos os roubos seriam por razão fútil.
  • Quem é educado no luxo e na preguiça torna-se um empregado inútil.
  • Lembro de um colega que costumava dizer que a população carcerária brasileira seria eficientemente reduzida alistando todos os presos nas Forças Armadas. Bom, para More, na pessoa de Rafael, o soldado e o ladrão não são tão diferentes. Enquanto que um fere o próximo a serviço do Estado, o outro faz o mesmo a serviço de seus próprios interesses. Quando os seus interesses chocam-se com os do Estado, o soldado pode virar ladrão e vice-versa. Então, talvez seja uma má ideia dar à população carcerária as armas do Estado…
  • Luís XI manteve tropas de mercenários em seu exército. Maquiavel tinha razão.
  • Um exército experiente não garante vitória.
  • A criação abusiva de animais para propósitos comerciais já era um problema na época de More. Na pessoa de Rafael, ele narra como os criadores de carneiros devastavam tanto território quanto podiam para transformar o que pudessem em pastagem.
  • Embora o problema fosse também ecológico, Morus vê nessa devastação consequências agrárias.
  • Interessante como o preço da lã havia subido a ponto dos próprios tecelões não poderem comprá-la. Imagine você produzir mercadoria para seu patrão e depois sua mercadoria ser vendida a um preço que você mesmo não é capaz de pagar.
  • A admistração pobre da economia é uma das causas da bandidagem.
  • Um problema ecológico pode também se afigurar econômico e agrário.
  • Para evitar monopólio, deve-se controlar o mercado. Os ricos não podem comprar tudo o que querem.
  • A má educação literalmente prepara para o crime. É preparar alguém para ser punido apenas.
  • Que punição deve ser dada ao ladrão? Se, por um lado, não pode ser a morte, também não pode ser algo leve.
  • O roubo não pode ser punido com a morte porque o dinheiro roubado não paga uma vida. É injusto tirar da pessoa algo inestimável quando ela roubou algo de valor finito.
  • Se Deus disse pra não matar, não se deveria matar, ainda mais por razão tão fútil.
  • Limitar os mandamentos de Deus é como dizer que a Lei divina só vale no limite permitido pela Lei humana.
  • A Lei Mosaica é pesada, mas previa uma pena de compensação pelo roubo, não a pena capital. Como é que na nova Lei, a do amor, um Deus sumamente justo iria permitir que o roubo fosse punido com a morte, quando não era antes, naquilo que Tomás chama de Lei do temor?
  • Se damos a mesma punição ao roubo e ao assassinato, o latrocínio é um bônus. Porque, roubando alguém, eu posso eliminá-lo para evitar que o crime deixe testemunhas. Quero ver se me matarão duas vezes pelos dois crimes.
  • A melhor punição, para Morus, na pessoa de Rafael, seria restituir o objeto roubado ou lhe dar o valor equivalente à pessoa ofendida. Depois, o ladrão seria escravizado. Isso é como o serviço comunitário, exceto que você pode bater nos condenados com chicote. Eles podem ser usados em obras públicas ou podem ser contratados pelos cidadãos para suas obras particulares.
  • É difícil conspirar se os conspiradores não se reunem. Especialmente se delatar compensa.
  • De tanto jogar os dados, acaba saíndo um jogada boa. Ou olhos de cobra (falha crítica).
  • Instruir um louco em sua loucura significa mostrar ao louco as causas e as consequências da loucura que comete. É dar para ele uma aula sobre a própria loucura.
  • Os reis não acatam o conselho filosófico porque são criados em ambientes que favorecem a cabeça dura.
  • Muitas vezes, o objetivo do governo é contra a sabedoria filosófica. Também por isso que Maquiavel diz que a política joga com suas próprias regras. O modo de agir filosófico é a ética e o modo de agir do governo é a política. Elas normalmente se opõem. Então, a filosofia pode, no máximo, procurar entender a política, sabendo que ele não pode praticá-la sem que o próprio filósofo se torne parte da política, porque só os políticos a fazem.
  • Às vezes se é tão obcecado pelo poder que não é mais possível administrar todos os territórios conquistados.
  • Uma discussão legal sempre pode ser torcida e tornada obscura.
  • É o povo que escolhe seu rei e permite que ele permaneça rei. Nenhum povo permanece oprimido pra sempre.
  • É possível justificar verbalmente (“prerrogativa”) coisas que não podem ser justificadas logicamente.
  • O Estado tem um compromisso com a população. Se o Estado não honra esse compromisso, nem tampouco a população precisa honrar seu compromisso com o Estado.
  • Deixar as pessoas miseráveis é armar contra si mesmo. Não tendo nada a perder, aí é que o povo pode querer se rebelar. Se o povo for bem cuidado e tiver direito à subsistência, propriedade privada e coisa e tal, o povo não irá querer se rebelar nem se houver motivo, para não perder o que tem.
  • A filosofia tem hora, lugar e modo. Não adianta falar de filosofia com todo o mundo e ela deve ser apresentada de formas diferentes segundo o ouvinte.
  • Nem por isso se deve deixar completamente de falar de filosofia só porque é estranho a… quase todo o mundo. Afinal, os costumes cristãos também são diferentes dos costumes mundanos e nem por isso os cristãos deixam de pregar seus costumes por aí.
  • O dinheiro e a propriedade privada são a raiz da corrupção dos Estados.
  • Para Platão, o sábio deve evitar os negócios públicos porque a política é do mal.
  • A propriedade privada gera as duas classes sociais que Marx chama de proletariado e classe dominante. Morus não usa esses termos, mas se refere a essas classes, sem dúvida.
  • Morus advoga que todos viveriam na abundância se os bens fossem comuns, mas seria necessária abundância de bens para isso ser possível. Do contrário, todos seriam pobres.
  • Parece contraditório que só se possa dividir os bens depois que a propriedade privada for abolida, mas essa contradição é aparente. Com o fim da propriedade privada, algo passa a pertencer a todos, passando de mão à mão conforme a necessidade.
  • A propriedade privada é um mal crônico. Conviver com ela requer leis que minimizem os danos por ela causados.
  • Possuir ciência não iguala possuir perfeição moral.
  • Tecnologia e ciência não precisam crescer na mesma progressão.
  • É notável como o governante da ilha é escolhido. Cada quarto da população escolhe um representante e um grupo de sábios deve escolher qual dentre os quatro representantes deve ser governante.
  • Uma questão não é deliberada no senado no mesmo dia em que ela é trazida. Os que farão o debate terão que refletir sobre a questão individualmente antes de debaterem na reunião seguinte, para evitar que decisões sejam emitidas apressadamente.
  • Todos deveriam saber agricultura.
  • O que não impede ninguém de aprender outro ofício.
  • As roupas poderiam ser feitas em casa. Deve-se priorizar o conforto, não o estilo.
  • O filho pode, se quiser, aprender a profissão do pai, além da agricultura. Se ele quiser aprender outra profissão que não seja agricultura ou a profissão do pai, terá que ser adotado por outra família, na qual o ofício desejado seja praticado.
  • Alguém pode aprender quantos ofícios se queira, mas só pode praticar um. Se o Estado tiver demanda por um tipo de profissão e você souber essa profissão, você terá que desempenhá-la, mesmo que queira fazer outra coisa que você saiba (como agricultura, que todos devem saber).
  • Ninguém deve se matar de trabalhar.
  • Se todos trabalhassem, cada um poderia dedicar apenas seis horas por dia ao trabalho e o Estado se manteria.
  • Seis horas trabalhando, oito horas dormindo, quatro horas comendo, o tempo que sobra pode ser preenchido com qualquer atividade que se queira, desde que não seja prejudicial à comunidade.
  • Se os víveres já estiverem sendo produzidos em quantidade suficiente, trabalhar mais seria desnececessário. Então, se decreta redução da jornada de trabalho.
  • Os filhos e os netos devem obediência ao parente mais velho, não necessariamente ao pai. Então, se avô viver com os pais, é ao avô que o neto deve obedecer, não ao pai.
  • Caso o mais velho não possa governar a família por ocasião de doença mental ou senilidade, o segundo mais velho assume, quer seja avô, mãe ou pai.
  • O habitante da Utopia vê como necessária a guerra travada contra um povo que não está usando as terras que tem como devia.
  • O mais velho da família a governa.
  • Essa visão de fazer guerra contra os povos “ociosos” justifica a invasão europeia sobre o continente americano.
  • O medo excessivo de passar necessidade é uma porta aberta para a ganância e para a avareza.
  • A prática do abate de animais causa dessensibilização do ser humano. Então, a criação de animais para o consumo não é feita por cidadãos comuns.
  • Hospitais lotados favorecem infecção hospitalar. Século dezesseis, pessoal.
  • Hospitais de boa qualidade encorajam as pessoas a procurar ajuda por seus problemas. Se o hospital não for decente, a pessoa pode preferir a automedicação, medicina alternativa, feitiçaria ou simplesmente esperar que o mal desapareça. Mas todas essas coisas favorecem a contaminação dos que estão próximos, porque a doença não está sendo tratada como devia.
  • As mulheres preram a comida, os homens limpam.
  • As leituras sobre moral, feitas durante as refeições, devem ser curtas para não causar tédio. Além do mais, se deixa mais espaço para a reflexão dessa forma.
  • O viajante pode dormir nas casas que podem acolhê-lo. Em troca de uma manhã ou tarde de trabalho, ele ganha direito a uma refeição naquela casa. Assim, ele pode permanecer útil à sociedade apesar de estar viajando.
  • O excesso de uma região vai para a região que está com carência.
  • Não conte com a safra do ano seguinte; tenha excedente de emergência.
  • Se for dado a um mercenário uma quantia exorbitante, ele não irá se vender a ninguém mais e talvez morra pela pátria. Maquiavel tem suas dúvidas.
  • Compre a traição dos soldados inimigos.
  • O ferro serve pra muita coisa, mas pra quê serve ouro e prata? Só pra fazer moedinhas. A prata e o ouro não têm em si mesmos todo o valor que pensamos que eles têm, sendo esse valor atribuído por nós a eles. Todas as coisas realmente úteis e saudáveis estão disponíveis em todo o lugar, mas a natureza esconde o supérfluo.
  • Um bom jeito de diminuir o valor atribuído ao ouro e à prata é ligando eles à ideias ruins. Em Utopia, o ouro e a prata são utilizados para coisas simples e nada luxuosas, como privadas e correntes para os encarcerados.
  • Os diamantes, as pérolas e as pedras preciosas em geral são dadas às crianças como brinquedos, desenvolvendo um esteriótipo de que são coisas infantis. Assim, a criança deixa de valorizar essas coisas conforme vai crescendo, da mesma forma que deixa de valorizar bilas, bonecas e bolas.
  • Pessoas que vivem modestamente não necessariamente o fazem por necessidade. Podem muito bem desdenhar do luxo.
  • As roupas não mudam a natureza da pessoa. Um bode bem vestido ainda é um bode.
  • Não precisamos nutrir nenhum compromisso com os homens ricos. Faria mais sentido se a riqueza fosse medida pela quantidade de objetos úteis e não pela quantidade de moedas, que não salvam ninguém em um lugar onde não haja comércio.
  • Diferentes pessoas podem chegar às mesmas conclusões: talvez outra pessoa que nunca ouviu falar de Platão tenha chegado às mesmas teorias que ele tinha. Platão apenas foi o mais famoso divulgador desse pensamento, mas nada garante que foi o único.
  • A filosofia moral de Utopia é voltada principalmente para a felicidade humana.
  • Os utopienses tendem ao epicurismo. Também para eles, a razão leva as pessoas a aceitar o que diz a fé.
  • Existem perguntas que são comuns aos filósofos célebres inobstante o tempo em que viveram.
  • Não basta ser feliz; é preciso ensinar os outros a sê-lo.
  • Prova de que todos os seres humanos são fundamentalmente iguais é o fato de que a natureza dispensa o mesmo tratamento a todos os humanos.
  • O ser humano pode fazer o que desejar para obter a felicidade (desejo privado), desde que isso não fira a lei vigente (desejo público).
  • Se sacrificar pelo próximo também é um desejo que a pessoa tem. Esse autruismo também visa o prazer próprio.
  • Prazer pleno é tudo aquilo que causa bem-estar sem trazer um mal futuro para si próprio ou para os outros.
  • Não é estranho que caviar seja tido em tão alta conta sendo que nem é taõ gostoso assim?
  • Como as pedras preciosas não têm valor em si mesmas, são vendidas a diferentes preços dependendo do lugar.
  • Por que uma falsificação é tão indigna se muitas vezes não podemos dizer a diferença entre original e cópia?
  • Tem coisa mais besta do que acumular dinheiro somente para admirá-lo, sem gastá-lo? Bom, existe gente assim.
  • O dinheiro às vezes é tão difícil de manter que queremos escondê-lo, mesmo quando nunca mais o veremos, somente para não sentir a dor de perdê-lo.
  • A caça esportiva é doentia.
  • Os desejos naturais são limitados, mas os desejos artificiais podem ser infinitos.
  • A saúde é a mãe de todos os prazeres.
  • É melhor prevenir do que remediar.
  • O prazer puro é o que tem menos mescla de sofrimento.
  • Os prazeres que nos mantém vivos são fáceis de saciar.
  • Procurar a fama de “virtuoso” é até vago, mesmo com o pretexto de estar se preparando para enfrentar uma tentação. Às vezes essa tentação nem vem.
  • A medicina ainda é admirável mesmo em locais onde ela não é necessária: nunca se sabe quando se vai precisar dela. Além do mais, mesmo que ninguém ficasse doente, ainda precisaríamos dos médicos pra falar de qualidade de vida (palavras do meu amado pai).
  • Se não fosse pro ser humano conhecer as coisas, Deus não lho teria dotado da faculdade de pensar. Os segredos da natureza existem para que nos entretamos na leitura do livro natural, também obra divina.
  • As ciências naturais são um ato de piedade, a justa apreciação da obra divina.
  • A imprensa renascentista tinha o mesmo valor que o computador tem hoje.
  • O que comete crimes sem necessidade, depois de ter sido perfeitamente educado, é mais digno de punição.
  • É dado o direito de eutanásia para o habitante de Utopia, caso ele seja doente incurável e caso sua doença torne sua vida insuportável.
  • A idade mínima para o casamento em Utopia é dezoito para mulheres e vinte e dois para os homens.
  • Fornicação é crime.
  • Se a fornicação fosse livre, ninguém iria querer se casar.
  • Às vezes se tem mais cuidado com a escolha de um cavalo do que de um cônjuge.
  • Os pretendentes devem ver a nudez um do outro antes de se casarem, para que não se desapontem com o corpo do outro após casados. Esse exame permite que o homem e a mulher vejam se realmente gostam da aparência um do outro.
  • A beleza do corpo não é tudo, mas é muita coisa ainda assim.
  • O divórcio não pode ser fácil, para que o próprio casamento não perca a razão.
  • O adultério recorrente recebe pena capital.
  • Cada crime é um caso único. Não há crime (além do adultério) com penalidade fixa. Cada crime é julgado segundo a ocasião, segundo as condições e razões.
  • O Estado não pune os filhos nem as esposas, cabendo aos pais e ao marido a punição pelos crimes cometidos na família. O Estado só pune filhos e esposas se o delito cometido por eles atenta contra os bens públicos.
  • A escravidão é preferível à pena de morte quando possível.
  • O escravo rebelde é morto sem julgamento.
  • A tentativa de cometer um crime é punida como se o crime tivesse sido completado.
  • O crime é punível, a boa ação deveria ser recompensada.
  • É difícil cumprir tantas leis, especialmente quando são difíceis de entender.
  • Se as leis fossem poucas e fáceis, não haveria necessidade de advogados.
  • A interpretação mais óbvia de um texto deve ser considerada a mais justa.
  • Aquilo que a natureza não une não pode ser unido por um acordo humano. Então, em vez de firmar tratados, é melhor ter alianças condicionadas pela utilidade. Maquiavel provavelmente pensava da mesma forma, mas com palavras diferentes, dizendo que o tratado pode ser violado quando a necessidade dele deixa de existir.
  • Promessas humanas não são dignas de confiança.
  • Se os reis quebram as promessas, quanto mais a população que os tem por exemplo.
  • Num tratado, existe sempre o direito de punir o que o quebra. Então, se faz um tratado já pensando em como bater se o outro quebrá-lo e como me defender se eu quebrá-lo. Eles não favorecem, então, a amizade.
  • A vitória em batalha não é razão de vanglória.
  • Para Morus, um país pode se meter numa guerra que não lhe pertence se julgar que a causa de um dos lados é correta.
  • Todos os cidadãos devem estar prontos para se tornarem soldados em caso de guerra. Devem ser todos treinados. Claro que isso é ideal; os gastos com tal empresa seriam muito altos.
  • Derrotar os oponentes pela astúcia, não pela morte.
  • Estratégia: tornar a população contra o Estado.
  • O povo comum não vai à guerra de boa vontade, mas à força. Então, se tiverem que participar da guerra, que seja como defensores, não como atacantes.
  • As mulheres participam do esforço bélico.
  • É interessante que toda a família vá à guerra.
  • Se a família do soldado tiver seu sustento garantido, o soldado tem uma preocupação a menos para lhe distrair na linha de frente.
  • Se for bater em retirada, não deixe isso transparecer como tal. Se não for bater em retirada, faça parecer que vai.
  • As armas originais não podem ser vistas pelo inimigo antes de seu uso.
  • Ao conquistar o inimigo, não destrua seus recursos. Faça uso deles, em vez disso.
  • O inimigo conquistado deve pagar os custos de guerra.
  • As tropas estrangeiras não podem entrar em seu território, mesmo as aliadas.
  • Ninguém pode ser agredido, mesmo verbalmente, por causa da religião.
  • A dissenção religiosa favorece a conquista do território por um inimigo.
  • É permitido tentar converter alguém pela razão, mostrando os pontos falhos da religião do outros e os pontos fortes da sua. Argumentar. Mas, se o outro não se convencer da pregação, fica por isso mesmo. Ele não deve ser convertido à força.
  • A religião verdadeira é apontada pela razão.
  • Em Utopia, é proibido deixar de acreditar na imortalidade da alma ou na Providência. Que bom que esse lugar não existe, não queria que minha mãe fosse pregar lá.
  • Para More, quem não crê que a alma é imortal necessariamente se volta contra o Estado. Afinal, se a alma não sobrevive a morte e não há ressureição, nada do que eu faço será divinamente punido e tudo me seria permitido. Só que não é bem assim. Deixar de crer na imortalidade da alma não anula a crença no Juízo Final, como mostram as testemunhas de Jeová, que são bastante tementes ao Estado. Só significa que o Juízo Final será depois da ressureição.
  • A fé não é totalmente uma escolha.
  • Quem tem uma religião mais austera, que exige coisas como celibato ou vegetarianismo, não deve ser ridicularizada; ninguém escolheria tal caminho se não visse nele algum valor. Com o tanto que a religião não traga males aos que não praticam dela, não parece digna de repreensão, no dizer de Morus.
  • Os sacerdotes são professores de primário.
  • Em Utopia, as mulheres só podem entrar no sacerdócio se forem velhas e viúvas.
  • A tolerância religiosa em Utopia vai à grandes extremos: as cerimônias públicas devem ensinar apenas aquilo que é comum à todas as religiões locais, de forma que todos possam atendê-las, com os rituais específicos sendo praticados em casa.
  • É mais fácil orar quando há um “clima” para isso, como velas, liturgia e tal. Tomás dirá a mesma coisa. Mas nem More e nem Tomás dizem que Deus olhará para essas coisas ao ouvir a prece, porque Deus é espírito. Elas servem para ajudar o fiel a se concentrar.
  • Se houver um culto que melhor agrade a Deus, os habitantes de Utopia suplicam a Deus que lhes mostre, porque o sensato quer se converter ao melhor culto.
  • Como é que, em nossa sociedade, quem mais ganha são os que menos trabalham?
  • Os que menos ganham são aqueles cujo trabalho é mais necessário.
  • Como terá velhice próspera aquele que não consegue juntar o bastante enquanto ainda é jovem? Muitos adultos em pleno vigor trabalham muito e ganham pouco, temendo a possibilidade de uma velhice miserável.
  • É ainda pior quando os impostos tiram mais do pouco que temos.
  • Para Morus, se o dinheiro fosse abolido, vários males seriam eliminados. A pobreza, ironicamente, seria somenete um deles.
  • Se não fossem as leis, que legitimam tudo o que o Estado faz, ficaria patente que o Estado é um grande ladrão.
  • “Orgulho” é a tendência de medir sua própria importância não por aquilo que se tem, mas por aquilo os outros não têm.
  • O orgulho quer passar por cima dos outros. Se a pessoa é rica, mas não atormenta os pobres para se sentir importante, não é orgulhosa.

5 de fevereiro de 2016

A Bíblia Sagrada.

Filed under: Livros — Tags: , , , — Yure @ 12:46

Anotações sobre a Bíblia Sagrada:

as Sagradas Escrituras conforme entendidas por alguém de vinte e três anos.

Velho Testamento.

O primeiro livro de Moisés, chamado Gênesis.

Capítulo I.

Esta parte sempre me causa confusão. De fato, Deus criou o céu e a terra, a qual não tinha forma, mas tinha água. Imagino que a água esteja embutida no conceito de terra.

Deus havia criado o céu no primeiro dia, mas outro céu no dia segundo. De acordo com Agostinho, o céu criado no primeiro dia foi o “Céu do Céu”, ou seja, a morada de Deus na realidade transcendente. O céu criado no segundo dia, criado a partir das águas, é o céu que vemos diariamente.

Também neste capítulo, é dito que os répteis são oriundos da água. Os animais produzem seres semelhantes a si pela reprodução. Isso não parece, necessariamente, anular a seleção natural. Porque, conforme os animais migram, eles se adaptam aos locais onde se alojam. Segundo a doutrina da seleção natural, os animais que desenvolvem habilidades diferentes ou que nascem diferentes, mas que, por causa das diferenças, sobrevivem mais tempo no ambiente ao qual se adaptaram, perpetuam suas características diferentes aos seres da geração seguinte. Se você for partidário da doutrina de que um dia para Deus não é literal, ou seja, que os dias criativos não são de vinte e quatro horas, a seleção natural teria sido possível até o sexto dia. Mas a linguagem bíblica menciona tarde e manhã, sugerindo um dia normal de vinte e quatro horas. Então, o debate permanece. Segundo Dionísio, as coisas que vêm por revelação divina nem sempre são passíveis de verbalização fiel. Ou seja, Moisés estaria usando palavras aproximadas para descrever o que Deus lhe mostrou. Inobstante, não posso tirar o crédito daqueles que interpretam o Gênesis de maneira diferente, porque é um livro complexo.

Neste capítulo, o ser humano é apontado como aquele que é superior, ou pelo menos destinado a ser superior, aos animais. Porém, ele está abaixo dos seres espirituais. Daí a célebre afirmação de que o ser humano está a meio caminho tanto do anjo como da besta.

Segundo a minha tradução, a frase “em que há alma vivente” é usada neste capítulo na descrição dos animais. Ou seja, existe algo vivo, que se chama alma, dentro dos animais. E de fato, animal é corpo dotado de alma (princípio do movimento). Resta saber se ela teria existência autônoma, ou seja, se ela independe do corpo. Em adição, aqui é dado o direito do ser humano de comer quaisquer outros seres vivos se desejar.

Capítulo II.

“Todo o seu exército” parece poder ser também predicado de “céus”, não somente de “terra”. Se for dessa forma, o exército celeste poderia ter sido feito entre o sexto e o sétimo dias, mas todos os dias criativos foram descritos até o fim. Então, quando foram feitos os anjos? Sendo criaturas celestes, talvez tenham sido feitos junto com o Céu do Céu.

Também neste capítulo, o sétimo dia da semana é santificado. Importante ressaltar que aqui se abençoa o sétimo dia, que não precisa ser um dia específico da semana. Importa é que haja um dia de descanso em cada intervalo de sete dias.

Segundo minha tradução, há neste capítulo a primeira ocorrência do tetragrama (o nome próprio de Deus), que há muito tempo é transliterado como “Jeová”, “Iavé” ou “Javé”. Como a transliteração exata é disputada, a maioria das Bíblias Sagradas em português traduz o tetragrama como “Senhor”, “Deus” e similares. A razão do desconhecimento da transliteração é uma proibição judaica imposta aos fiéis, que ordenava que o nome próprio de Deus jamais deveria ser pronunciado, para evitar o risco de alguém usar o Nome levianamente. Como o hebraico, na época, não tinha vogais escritas, a pronúncia de uma palavra só podia ser mantida pelo seu uso oral constante. Como o Nome não podia mais ser pronunciado, sua pronúncia exata foi esquecida.

O corpo humano é feito de elementos naturais, mas o espírito, ou seja, a força vital, que talvez habite no sangue, tem origem divina. Isso sustenta a tese de Tomás de Aquino, que chama Deus de “movente imóvel”, aquele que iniciou o movimento sem estar submetido ao mesmo.

Neste capítulo é apresentada também uma das questões mais sérias do judaísmo e do cristianismo: por que Deus daria ao ser humano a possibilidade de desobediência? Ele não poderia programar a humanidade para não pecar desde o início? Se ele fizesse tal coisa, o livre-arbítrio não seria fatual, mas ilusório. Se Deus deu o livre-arbítrio ao ser humano, a capacidade de fazer escolhas, será que ele não precisaria dar a ele também a possibilidade de desobediência? Afinal, somos livres para escolher também não seguir os preceitos divinos. Donde decorre que, se Deus não tivesse dado possibilidade de transgressão, ou seja, de avaliar se algo compensa ou não, ele não estaria nos dando um livre-arbítrio completo. Não é possível escolher quando há apenas uma opção.

Não comendo da árvore da ciência do bem e do mal, os seres humanos não conheciam a ética. Eles não se preocupavam em parar para pensar se o agir deles estava correto. Eles não duvidavam de sua moral porque a moral que seguiam era a moral divina, que, até o momento, era composta apenas de uma regra.

Capítulo III.

A serpente havia dado ao ser humano o seu primeiro teste de julgamento. E, com sua astúcia, convenceu a mulher de que comer do fruto proibido era uma boa ideia. Veja que os humanos não podiam fazer julgamento de bem e de mal, mas ainda podiam fazer julgamento de utilidade. E logo que comeram, passaram a ter conhecimento ético. Isto é, passaram a ser capazes de refletir sobre suas próprias ações e a dizer o que era certo e o que era errado, um conhecimento até então restrito a Deus. Agora que eles sabiam o que era certo e o que era errado, eles não mais podiam, por exemplo, andar nus e permanecer inculpes; se eles fizessem algo errado, agora que sabiam que era errado, seriam culpabilizados. Se eles não tivessem comido desse fruto, gozariam de uma prazerosa ignorância ética, porque poderiam cometer atos “errados” à vontade, não sabendo que esses atos eram errados. No dizer socrático, quem erra por ignorância não precisa ser punido. Isso significa que não havia regras no Éden, exceto pela única regra que a mulher quebrou, junto com Adão. É por isso que os animais, que nunca veem nada de errado em seus atos, cometem atos que nós julgaríamos errados se praticados por seres humanos, porque o ser humano sente que estaria a cometer algo errado, sente a aproximação da vergonha e da culpa. Esses são dois elementos fundamentais do pecado original. A vergonha e a culpa nos fazem “sentir” quando algo é errado e, se insistimos em praticar ainda assim tal ato, estamos nós mesmos errados. Não estaríamos errando por simples ignorância, estaríamos errando de caso pensado. Errando de propósito. Nesse caso, você poderia ser punido. Sem a vergonha e a culpa, o ser humano não veria nada de errado em seus atos, podendo dar livre vazão aos seus instintos, que seriam benignos, já que não havia maldade no Éden.

Como parte da punição pela violação da regra única, a mulher estaria fadada a milênios de submissão ao sexo masculino. Donde decorre que, no Éden, a mulher e o homem não estavam dispostos em hierarquia.

Completando a sentença penal, Deus insere a morte no mundo. Tendo feito o mundo inteiro para seu próprio deleite e depois o tendo dado ao ser humano por amor a sua criatura, ser desobedecido em algo tão simples deve ter sido altamente ultrajante. Agora, o ser humano tinha que trabalhar mais para continuar vivo.

Comer da árvore da vida poderia cancelar o efeito da pena de morte que havia acabado de ser dada. Então o acesso a ela foi vetado.

Capítulo IV.

Deus atenta para os que são bons. Além disso, praticar o bem afasta os pensamentos maus. Segundo Aristóteles, a virtude é um bom hábito e o vício é um mau hábito. Quanto mais se pratica um hábito, mais difícil é deixá-lo. Então, se uma pessoa tem a virtude da honestidade, ou seja, se pratica a honestidade há muito tempo, é mais difícil para tal pessoa cometer um ato desonesto. Ela sente-se desconfortável. Tal é com o viciado. De tanto praticar o mal, é difícil ao viciado praticar o bem. Então, quanto mais bem se pratica, mais afastado se fica do mal.

“Conhecer” pode ser tomado no sentido de “ter sexo com”, de acordo com minha leitura desta tradução. Mas, supondo que não seja, me pergunto de onde veio essa mulher, pois ela não é descrita como sendo procedente de Adão e Eva. Se “conhecer” for ter sexo, então Caim pode muito bem ter levado uma das filhas de Adão e Eva, mas, até o momento, Adão e Eva não haviam concebido uma menina. Então, é confuso.

Antes deste capítulo, o Nome não era invocado.

Capítulo V.

Na tradução que eu uso, “Adão” é substituído por “homem”. As palavras “homem” e “mulher” são substituídas por “macho” e “fêmea”. Ou seja, homem seria a espécie. Donde decorre que a fêmea do homem poderia também ser chamada homem.

O meio pelo qual os humanos daquela época conseguiam tamanha longevidade é disputado. Alguns dizem que é porque ainda estavam próximos o suficiente de Deus. Outros sugerem que o pecado original não tinha afetado tanto a primeira geração, afetando as gerações seguintes de modo progressivo, posto que o pecado original é transmitido de pai para filho. Outros ainda dizem que os costumes da época (consumo de vinho, exercício físico por meio do trabalho e outros hábitos tidos por saudáveis hoje) favoreciam tal coisa.

Também neste capítulo ocorre o arrebatamento de Enoque. Isso mostra que, apesar de estarmos sendo punidos por Deus por causa do pecado cometido no Éden, Deus ainda atenta para pessoas especiais.

Capítulo VI.

Depois de cento e vinte anos que a população humana havia se voltado quase completamente para o mal, ocorreria o dilúvio.

Deus estava decidido a eliminar o gênero humano. Porém, por causa de Noé, ele teve misericórdia da humanidade. Deixando Noé e sua descendência viverem, ele estava dando uma segunda chance ao gênero humano, eliminando da face da terra os maus e permitindo que a descendência de Noé se perpetuasse.

Capítulo VI.

Muitos sustentam que o dilúvio foi local, ou seja, atingiu somente a terra até então habitada, e não global. Outras culturas também mencionam o dilúvio, o que tanto implica que ele aconteceu, como implica que há sobreviventes. Se há sobreviventes além de Noé, provavelmente foi local. Porém, se o dilúvio não atingiu certos homens, então ele não aconteceu em toda a terra habitada. Ou seja, esse argumento a favor do dilúvio local é contraditório. Existem outros, mas eu não os conheço.

Capítulo VIII.

Deus não mais pensará em destruir toda a humanidade e nem pensará em destruir o mundo.

Capítulo IX.

A vida do corpo reside no sangue. Na minha tradução, “vida” é substituído por “alma”.

Capítulo X.

Ou seja, só depois do dilúvio as pessoas começaram a se espalhar pela Terra. Isso parece reforçar a ideia do dilúvio local: se não havia pessoas em outros lugares, faria sentido inundar toda a terra?

Capítulo XI.

Muitos acreditam que a primeira língua do mundo era a hebraica.

A confusão dos idiomas foi feita como punição pela arrogância das pessoas dali, que queriam construir uma grande torre a fim de obter reconhecimento e glória entre os povos que viriam a se formar. Muitos religiosos apontam para este momento como aquele em que se originaram as primeiras línguas. Outra razão para a confusão das línguas era de que a torre poderia posar como impedimento ao povoamento completo da Terra, pois, tendo tamanho ponto de referência, as pessoas talvez não quisessem explorar o incerto, permanecendo em um só lugar. Outros ainda sugerem que a torre seria um monumento de adoração aos seus construtores, que queriam igualar-se a Deus. Mas eu penso que isso aconteceu porque a torre daria àquele povo uma glória indevida entre os outros povos que viriam a nascer depois.

Capítulo XII.

Aqui, Deus está denominando Abrão, posteriormente Abraão. Ele se tornaria mais tarde pai da fé.

Aqui também ocorre o primeiro pecado de adultério. Parece-me que foi assim que eles descobriram que Deus não gostava da violação do casamento, uma instituição que foi dada aos humanos ou feita por eles em algum ponto indeterminado. Provavelmente decorrência da falta cometida por Adão e Eva. Isto é, a mulher agora seria dominada pelo homem, seria como uma de suas posses. Então, pegar a mulher do próximo para ter sexo com era como um tipo de roubo.

Capítulo XIV.

Já existia um culto formal a Deus. Este culto provavelmente começou quando as pessoas começaram a invocar o Nome. Aqui, vê-se que, nos tempos de Abrão, já tinha hierarquia sacerdotal.

É costume da Bíblia Sagrada se referir a pessoas como almas, talvez porque o termo animal como corpo dotado de alma não havia sido estabelecido nos tempos representados pelo texto massorético. Em algumas traduções, o termo “pessoa” é usado em lugar de “alma”.

Capítulo XV.

Deus está provavelmente alertando a Abrão sobre escravidão que seria depois imposta aos hebreus pelos egípcios.

Capítulo XVI.

O início do capítulo dá a entender que ter relações fora do casamento, com consenso do parceiro, não é violação do direito do cônjuge, não sendo, assim adultério. Por outro lado, a lei não havia sido dada formalmente e os limites do casamento talvez não estivessem bem claros ainda.

Capítulo XVII.

Aqui, Abraão foi confirmado. Com a fé que teve até agora, Abraão mostrou que era digno de ser pai da fé.

A circuncisão seria uma espécie de “marca” para identificar quem pertencia ao gênero dos que partilhavam da aliança divina com Abraão. Se você se perguntava a razão da circuncisão judaica, aí está sua dúvida clarificada.

Capítulo XVIII.

Interessante que apareceu “o Senhor”, que foi depois chamado “meu Senhor”, apesar de três pessoas estarem ali. Muitos apontam aqui uma evidência a favor da Trindade. Especialmente considerando que as pessoas não foram distinguidas senão em número, sendo referidas como uma entidade só. Alguém, contudo, poderia objetar que o fiel estava se referindo a apenas uma em particular, não aos três coletivamente como se fossem um só. A Trindade é um tema tão controverso que honestamente não sei como me posicionar perante essa questão. Certamente há um Pai, um Filho e um Espírito Santo, mas só posso confessar minha completa ignorância quando se põe a possibilidade de serem um só.

Neste capítulo dito que Deus pode ler pensamentos e intenções. Também é dito que ele operar qualquer tipo de movimento.

Por último, há a longa e talvez divertida passagem da negociação de Abraão com Deus, que mostra duas coisas: que Deus atenta para nossas razões e as releva e que ele não destrói ninguém sem razão. Ou seja, há razões por trás dos atos divinos.

Capítulo XIX.

Estou usando uma Bíblia Sagrada antiga, de 1819, como base, mas checando as passagens que acho importantes em uma versão mais atual da mesma Bíblia. Em ambas as versões, no diálogo entre Ló e os sodomitas, está o termo “conhecer”, porém, em outras Bíblias, o termo usado é “ter relações com”. Então, a última parte ficaria algo como “traga-os para fora, para que tenhamos relações com eles”. Essas relações são sexuais. Daí se origina o termo “sodomia” como prática do sexo anal, porque, em algumas Bíblias, os sodomitas queriam ter sexo com os anjos, que desceram em forma de homens.

Os sodomitas eram altamente truculentos e prepotentes. Eram verdadeiros animais. Muitos especulam que a prática homossexual entre os sodomitas, que parece não aparecer em todas as Bíblias, não foi a razão de sua condenação, mas um mero agravante. Se eles fossem só homossexuais, talvez não teria acontecido o que aconteceu.

Também há uma das passagens mais controversas. Tomás de Aquino diz que, julgando com base nas formas da Lei, existem três períodos da humanidade fiel: o período da Lei Natural, o período da Lei do Temor e o período da Lei do Amor. Este seria o primeiro período. Antes da entrega da primeira forma da Lei por meio de Moisés, muitas coisas que mais tarde seriam proibidas eram permitidas. Neste caso, o incesto.

Capítulo XXI.

Aqui, a promessa divina a Sara foi cumprida. Ela, aos noventa anos, teve um filho afinal.

Capítulo XXII.

Deus, como último teste a Abraão, ordena que ele sacrifique seu filho. Abraão, sem duvidar, pondo Deus acima do amor que ele tinha ao único filho, vai ao local devido, pronto para matar seu filho.

Tudo o que Deus queria era saber se Abraão realmente teria a coragem de matar o filho por amor ao divino. E ele tinha fé o bastante. Agora, não restava dúvida.

Claro que, depois de tamanho teste, Deus não iria deixar Abraão sem recompensa.

Capítulo XXIV.

Na falta da mãe, uma esposa pode consolar. Alguém disse que os homens, ao procurarem uma esposa, querem alguém que lembre a mãe em algum sentido. Mas não é isso que esse verso quer mostrar. Acontece que Isaque se consolou depois da morte da mãe porque a esposa lhe supriu uma falta familiar. Quando um ser humano perde parte da família ou toda a família, ele pode reencontrar a felicidade perdida na construção de uma nova, ou pela reparação. Isso acontece porque o ser humano, como animal social, precisa de vínculos afetivos com outros seres humanos, mas precisa de vínculos especialmente fortes, além da amizade. Esses são os vínculos familiares. Nem toda família é boa, contudo. Então, não basta ser uma família, tem que ser a família correta, na qual o indivíduo se sinta feliz nela.

Capitulo XXVII.

Esaú é um personagem bíblico tido por odiável, mas eu não consigo sentir ódio dele. Ele vendeu sua primogenitura por estar com fome e foi tapeado pelo irmão mais novo que, fingindo-se outra pessoa, roubou as bênçãos destinadas a ele.

Hoje, chamaríamos isso de injusto. Mas, pela mesma razão que Adão e Eva nada sofriam por andar nus, o que hoje é visto por muitos como obsceno, o ato de Isaque não foi visto como injusto por não haver lei contra o que ele fez.

Capítulo XXX.

Outra coisa que hoje acharíamos, no mínimo, estranho ou até criminoso: o aluguel sexual. Novamente, não havia lei alguma no momento. Além disso, Deus provavelmente tinha um propósito para isso, pois este capítulo narra o nascimento dos doze indivíduos que depois gerariam as doze tribos de Israel.

Capítulo XXXII.

Isso faz parte da formação da religião judaica. Não bastava um pacto, como o de Abraão, era necessário um povo. E, como visto no capítulo trinta, Jacó teve os doze filhos de onde viriam as doze tribos.

O tabu do nervo encolhido não tem origem divina. Ele é um costume tradicional. Na verdade, não parece haver proibição na Lei que viria posteriormente acerca do consumo desse nervo.

Capítulo XXXIII.

Parece que Esaú não guardava mais mágoa de Jacó, ou melhor, Israel.

Capítulo XXXV.

A alma, o princípio do movimento, é o que mantém vivo o corpo? Outro texto sugere que é o sangue. Talvez alma seja consciência e princípio do movimento, enquanto que o sangue seja aquilo que vivifica o corpo. De fato, se alguém tem sangue e fluxo sanguíneo em seu corpo, portanto vida, mas não tem movimento ou consciência, ela não é muito diferente de um vegetal. Por outro lado, se um animal morre, a alma “sai”. Enquanto o corpo animal está vivo, está nele o princípio do movimento. Se a alma se desliga do corpo, mas o fluxo sanguíneo não cessa, ele se torna um vegetal, ontologicamente falando. Além do mais, no caso de pessoas em estado vegetativo, não fosse os aparelhos que as mantém vivas, não sobreviveriam muito tempo. Talvez o fluxo sanguíneo e a presença da consciência sejam as coisas que mantém, juntas, o corpo vivo. Se um dos dois se ausenta, o corpo e o espírito cessam de funcionar. A diferença é que, se a consciência se ausenta primeiro, o corpo ainda funciona por mais um tempo, provavelmente para possibilitar a volta da consciência, mas em última instância cessa também se ela não volta a tempo. Mas a consciência não parece permanecer viva após a morte do corpo. A menos, é claro, que o termo “sair” usado no texto sugira que ela realmente vai para outro lugar não descrito. Digo isso porque “sair” também pode, muito raramente, significar simplesmente “desaparecer”. Também neste texto é mencionado o mais jovem dos filhos de Israel, que viria a formar a décima segunda tribo: Benjamim.

Chamada dos doze filhos de Israel e suas mães.

Capítulo XXXVIII.

Muitos utilizam este texto como prova de que a masturbação é pecado, mas não precisa uma leitura muito atenta para descobrir que o coito na verdade estava sendo interrompido. O que fez com que Deus matasse Onã foi a desobediência a uma ordem direta, vinda do próprio Deus, que disse para Onã dar descendência ao seu irmão. Onã não quis e, toda vez que tinha sexo com a mulher do irmão, interrompia o coito e ejaculava no chão. Deus então o matou por sua desobediência.

A imoralidade sexual já era vista com maus olhos antes da Lei. Provavelmente porque o conhecimento do bem e do mal, isto é, a capacidade de julgar eticamente, estava incutida nesses povos junto com o pecado original. Então, embora não houvesse Lei para dizer que era errado, eles condenavam pelo seu próprio julgamento. Esse julgamento por vezes coincidia com o Deus, pois já foi visto que Deus punia os adúlteros, não pela presença da Lei, mas por fazerem o que sentiam que era errado.

Capítulo XLI.

Nos tempos antigos, Deus costumava mandar sonhos às pessoas. Havia intérpretes capazes de revelar, do conteúdo onírico, uma visão do futuro. Me parece que isso não acontece mais hoje, porque os profetas cessaram de aparecer.

Os sonhos que prediziam o futuro tinham características próprias. Aqui, vê-se que eles eram persistentes. Os sonhos videntes se repetem em essência, embora tenham pequenas diferenças entre si, mas que não alteram o significado. Mas qual a razão dos sonhos virem a estrangeiros também, se só podiam ser interpretados por hebreus? Talvez para aumentar o crédito dos hebreus, para que os outros povos vissem que eles eram diferentes e tinham um Deus verdadeiro com eles. E de fato, o faraó começou a tratar José muito melhor depois que teve seu sonho interpretado acuradamente.

Capítulo XLV.

Predestinação. Os irmãos de José o venderam para o Egito porque lhe foi revelado, por meio de sonhos, que seus irmãos e seus pais se curvariam diante dele. Eles esperavam, com isso, invalidar a profecia, mas ela aconteceu de qualquer jeito. O ato deles apenas confirmou a profecia, que não teria sido cumprida sem a venda inicial.

Capítulo L.

Parece que a venda de José foi parte do plano divino para que os filhos de Israel se multiplicassem com dignidade. Afinal, José, na sua estada no Egito, gozou de riquezas e respeito. Convinha que fosse daquela forma, para favorecer a multiplicação do povo de Deus.

O segundo livro de Moisés, chamado Êxodo.

Capítulo I.

O novo faraó, que não conhecia José, viu que o povo de Israel estava se multiplicando grandemente no Egito. Temendo que aquele povo estranho se levantasse contra ele, tornou-os escravos. Como Deus tinha dito a Abraão, os hebreus agora sofreriam quatrocentos (e trinta) anos de escravidão.

Aqui também há uma mentira benéfica, proferida pelas parteiras hebreias. O comando do faraó era de que as parteiras matassem qualquer menino que nascesse das hebreias, mas, por medo do que Deus poderia fazer com elas, elas não faziam isso. Como ainda não havia uma lei explícita contra a mentira e como a mentira visava um bem maior, essa mentira foi provavelmente perdoada.

Capítulo II.

Novamente, não havendo lei contra assassinato, até Moisés eliminou um egípcio, escondendo o cadáver e fugindo da punição pelo seu ato. Mas isso também teve sua importância.

Capítulo III.

Muitos pensam que Jeová apareceu a Moisés pessoalmente no momento em que ele viu a sarça em chamas, mas aquilo era, na verdade, uma visão angélica. Inobstante, a voz divina foi ouvida. Ou seja, a voz era de Deus, mas a imagem era de um anjo.

Embora o Nome tenha começado a ser invocado no Gênesis, parece que ele já havia sido esquecido no Êxodo. Ou seja, as pessoas sabiam que havia um Deus, mas haviam esquecido seu Nome. Neste capítulo, o Nome é revelado novamente. Ou seja, há um interesse da parte de Deus que seu Nome seja usado, do contrário ele não teria o dado a Moisés. O Nome é traduzido como “Serei” na Bíblia que eu uso, mas essa tradução há muito não é usada inclusive por razões lógicas (se ele ainda virá a ser, não poderia falar com Moisés). Nas versões mais modernas da mesma Bíblia, o Nome é traduzido como “Eu Sou”. Outras traduções incluem “Eu Sou o Que Sou”, “Me Tornarei o Que Quiser Me Tornar”, “Mostrarei Ser o Que Eu Me Mostrar Ser”, “Tornar-me-ei” (embora esta tenha o mesmo problema de “Serei”) e “Causo o Que Vem a Ser”, esta última inclusive se harmoniza com Tomás de Aquino, embora não tenha sido usada por ele. Então, tanto não há acordo na pronúncia, como não há acordo na tradução do Nome.

Capítulo IV.

Moisés operou sinais milagrosos para atrair a confiança dos hebreus que estavam no Egito. De acordo com Tomás, isso é o sinal distintivo do profeta. Não existe profeta incapaz de operar algum sinal milagroso, porque faria com que o profeta fosse tido por pessoa comum e não fosse ouvido. É necessário provar que Deus age por meio do profeta e essa prova vem pela operação de sinais.

Também é controverso o fato de Jeová ter deliberadamente “endurecido o coração” do faraó para não deixar os hebreus irem embora. E ele o fez dez vezes, quando as pragas atingiram o Egito. Isso foi feito para que, pela intensidade e quantidade dos sinais operados por Deus em Moisés atraísse a fé dos hebreus. Afinal, o Deus que atormentou o Egito por amor de seu povo certamente seria louvado e nunca mais esquecido. Foi a forma escolhida por Deus de atrair seu povo de volta a ele de forma segura e eficiente.

Capítulo VII.

As ciências ocultas podem imitar os sinais divinos, mas de forma limitada e imperfeita.

Capítulo XII.

Começa o calendário judaico.

Também é instituída aqui a páscoa, que serve para lembrar o livramento dos israelitas do jugo egípcio.

Embora Jeová tenha dito a Abraão que as escravidão duraria quatrocentos anos, ela acabou durando trinta anos mais. É uma diferença irrelevante.

Em adição, a páscoa só podia ser celebrada entre os hebreus. Porém, alguém podia ser considerado parte do povo se tivesse seu prepúcio removido. Isso significa que o judaísmo não é uma religião fechada.

Capítulo XIII.

A terra prometida já era habitada, inclusive pelos descendentes de Esaú. Eles contenderam com os descendentes de Israel por um bom tempo. A rixa entre Esaú e Jacó perdurava pela sua descendência.

Capítulo XIV.

O plano divino funcionou. Deus conseguiu a fé de Israel após humilhar a poderosa nação egípcia.

Capítulo XVIII.

Durante o êxodo, antes da entrega da Lei escrita, Moisés declarava oralmente a vontade de Deus. Ela não era dada a todos de maneira sistemática. Moisés falava os mandamentos no momento devido, quando necessário e as pessoas iam a ele resolver seus problemas legais.

Capítulo XIX.

Na iminência da entrega da primeira forma da Lei, Deus dá o aviso de que as coisas ficarão mais sérias. Os israelitas dizem, com todas as letras, que obedecerão à Lei que estava para ser dada. Logo veremos que a primeira transgressão, e que transgressão, viria em breve.

Capítulo XX.

Os primeiros mandamentos: não adorar outros deuses, não usar o Nome levianamente, não trabalhar no sétimo dia da semana, respeitar os pais, não assassinar, não adulterar sexualmente, não roubar, não mentir com intenção de prejudicar o próximo, não nutrir desejo de posse sobre o que já tem dono. Observe como esses mandamentos podem ser facilmente reduzidos a dois: adoração solene a Deus sobre tudo o mais e amor ao próximo na medida do amor próprio.

Capítulo XXI.

As punições por morte e por injúria são postas aqui na famosa lei do talião. Matar alguém como consequência de um pecado grave não fere o mandamento que diz “não matarás.” Eu costumava me perguntar como os israelitas entravam em tantas guerras e matavam tanta gente sem ter que pagar pelos assassínios. Mas, lendo esta passagem, me parece que Israel era também um instrumento de punição divina. Eles matavam e não tinham que expiar esse pecado porque eles estavam eliminando, por exemplo, adoradores de outros deuses ou pessoas injustas. Ou seja, se o mandamento “não matarás” é limitado quando a morte é causada a alguém que pecou gravemente, Israel seria um instrumento de punição divina, que seria ministrada aos povos os quais se opunham a Israel. Outra razão poderia ser que os mandamentos só eram válidos dentro de Israel. Outra ainda era de que eles se expiavam do pecado em momentos não narrados, porque era permitido a Israel se purificar dos pecados cometidos pelo sacrifício de animais segundo a intensidade do pecado.

Capítulo XXII.

Aristóteles costumava dizer que o ladrão sempre deve restituir mais que o que ele roubou, isto é, restituir o que roubou e mais um pouco como punição. A Lei também sustentava a mesma coisa. E é o que muitos pensam até hoje, que não é justo que o ladrão simplesmente devolva o que roubou sem ser punido pelo roubo em primeiro lugar.

Também nesse capítulo é dado todo o direito de matar quaisquer feiticeiros. Também aparece a segunda prática sexual considerada pecado: a bestialidade, o sexo entre ser humano e outra espécie de animal. Importante ressaltar que, no caso da feiticeira, é dito “não deixarás viver”, ou seja, matar uma feiticeira é uma obrigação. Mas, no caso da bestialidade, é dito “certamente morrerá”, sem dizer que essa morte deve ser operada pelos próprios israelitas.

Capítulo XXIII.

Este capítulo contém regras para julgamentos e exortações contra a mentira. Diz categoricamente que, embora não se deva desfavorecer o pobre na defesa de sua causa, não se deve também favorecê-lo injustamente. Cada um deve ser julgado segundo o ato cometido, não segundo condição social e econômica ou coisas do gênero. Vale lembrar que aqui é Israel. Embora houvesse dinheiro, não havia um sistema capitalista como o de hoje, então os israelitas viviam de forma mais ou menos igual, com pouca ou nenhuma miséria entre eles. Mas hoje, é necessário atentar para as causas do roubo, já que o roubo de quem o faz por necessidade é diferente do roubo do político corrupto.

Também neste capítulo é feita menção ao ano sabático: uma vez a cada sete anos, os israelitas deviam despender um ano inteiro sem trabalhar. É nesse sentido que se fala de semana de anos.

São regularizadas as três festas que os israelitas deveriam celebrar e todos deviam comparecer nessas festas: a páscoa, a festa da sega e a festa da colheita. As três festas era anuais.

Essas ordenanças visavam uma boa vida imediata, na Terra. Até o momento, não há menção de vida futura após a morte.

Capítulo XXIV.

Os israelitas se comprometem a cumprir todos os mandamentos. Eles confirmam que será assim.

E finalmente, a Lei é escrita.

Capítulo XXIX.

Caso alguma lei fosse quebrada, era possível se expiar pelo pecado. Se isso não fosse possível, o israelita teria que pagar pelo que fez. Havia pecados inexpiáveis, contudo. Também havia condições, como a impureza, que poderiam impedir o indivíduo de expiar o pecado. Ele tinha que se livrar da impureza antes.

Capítulo XXXII.

Este capítulo mostra a fraqueza de vontade dos primeiros israelitas. Após dizer que guardariam os mandamentos, quebram justamente o primeiro, forjando para si um ídolo dourado para adorar em lugar de Deus, o qual se propôs a puni-los. Mas Moisés implorou a Jeová para não fazer isso e o convenceu a mudar de ideia. Isso ilustra o fato de que Deus, embora justo, pode também ser flexível. É nesse sentido que Deus é dito misericordioso e perdoador.

Capítulo XXXV.

É feita menção de mulheres e homens sábios. Mas eles eram sábios porque, após terem visto o que Deus podia fazer por eles e contra eles, acharam melhor acatar suas ordens e fazer por onde agradá-lo.

Em adição, é feita menção à sabedoria de de certo artífice, o qual havia sido dotado por Deus de grande sabedoria secular e prática, para as obras que deveriam ser feitas no Tabernáculo. Mas se Deus provê sabedoria além da sabedoria moral, ele não é totalmente oposto à sabedoria secular. Além disso, a sabedoria secular, segundo Tomás de Aquino, pode elevar a pessoa ao conhecimento do divino. Não parece haver razão para Deus reprovar esse tipo de saber também, mesmo quando imperfeito, porque a tendência do saber secular é seu constante aperfeiçoamento. Se o conhecimento secular puder aproximar o ser humano do conhecimento divino, como inclusive aconteceu comigo, então não vejo por que Deus se oporia a este. Porém, sendo Deus a verdade, o conhecimento secular que nega sua existência é necessariamente falso, também segundo Tomás.

O terceiro livro de Moisés, chamado Levítico.

Capítulo I.

Aqui continua a Lei escrita. Este capítulo regula os sacrifícios de expiação pelo pecado. O pecado deve ser expiado com a vida de um ser, razão pela qual pecados humanos eram perdoados com o sacrifício de animais. Porém, havia pecados que não podiam ser expiados, como o assassinato, quando não aprovado por Deus.

Capítulo V.

As culpas deviam ser acertadas com Deus, mas as impurezas podiam ser purificadas por conta própria. Os israelitas eram muito limpos, muitas coisas que hoje temos por essenciais na higiene já eram praticadas por eles.

A primeira forma da Lei punia atos e pensamentos, abstraídos da intenção. Isso significa que o israelita devia se expiar também de pecados que não sabia que tinha cometido, tal como os do que cometera sem querer. Isso era feito por um sacrifício especial.

Capítulo VII.

Estar impuro nas cerimônias era um pecado grave, punido com banimento. Era necessário se purificar para participar das refeições feitas em honra a Jeová. Sendo essas refeições sacrifícios, o que estava em condição de impureza poderia ser impedido de expiar pecados que precisava expiar.

Os israelitas eram proibidos de ingerir sangue ou gordura. A ingestão de sangue resultava em banimento.

Capítulo IX.

Para manter a fé dos israelitas, Deus tinha que operar coisas sobrenaturais com frequência. Neste capítulo, fogo divino consumiu o sacrifício que acabara de ser feito.

Capítulo XI.

Este capítulo delineia as coisas que os israelitas podiam ou não comer. Muitos animais eram considerados ilícitos e imundos. Hoje sabemos que essa lei tem fundamento, pois as carnes proibidas são justamente aqueles tidas por menos saudáveis hoje. Era do interesse de Deus manter Israel saudável e longeva, talvez isso estivesse por trás da proibição de vários tipos de carne de animal. Mas por que Deus não disse a Israel de forma clara por que ele estava banindo aqueles tipos de carne? Imagine você se Deus fosse explicar que certos tipos de carne favorecem o aparecimento de câncer ou acumulam micro-organismos com mais facilidade, ou que a água aparentemente limpa contém vários seres invisíveis capazes de adoecer o corpo. Deus não faz proibições sem razão. Mas, se ele não as explica, é porque não convém fazê-lo. Se ele fosse explicar as razões por trás do banimento dessas carnes e da água aparentemente limpa, mas contaminada, talvez os israelitas achassem tudo muito absurdo. De fato, essas seriam razões perfeitamente plausíveis para nós, mas era mais fácil para Israel crer em milagres do que na ciência, especialmente considerando o estado da ciência da época.

Capítulo XV.

Aqui consta a lei daquele que tem um “fluxo”. Costumava se pensar que esse fluxo era qualquer tipo de líquido genital, mas, um pouco à frente, o fluxo seminal é mencionado. Além disso, o “fluxo” parece constante ou regular, ao passo que a ejaculação ocorre em um momento apenas. É por isso que parece mais plausível hoje interpretar “fluxo” como corrimento. Se for corrimento, parece que as pessoas tinham também que oferecer sacrifícios quando eram afligidas por certas doenças. Já no caso do fluxo seminal, que é mencionado logo em seguida ao fluxo, ele realmente torna o homem impuro, mas essa impureza não é pecado: ela não exige sacrifício ou expiação. A impureza do sêmen é então apenas física, tanto que o indivíduo poderia, para se livrar da impureza do sêmen, se banhar e passar um tempo em casa, até o cair da tarde. Ele não tinha que fazer sacrifício. Alguns utilizam este capítulo como meio de sustentar que a masturbação é pecado, por causa da impureza do sêmen, mas, se fôssemos evitar qualquer coisa que nos fizesse impuros para a Lei, também evitaríamos o próprio sexo, o que não convém, pois o sexo muitas vezes implica emissão seminal.

Capítulo XVII.

Neste capítulo é ordenado aos israelitas que todos os sacrifícios sejam feitos unicamente a Jeová. Não se podia sacrificar a outros deuses. Para assegurar isso, qualquer sacrifício feito tinha que ser trazido à Tenda de Encontro.

Novamente é feita a proibição do consumo sanguíneo. Em Bíblias mais antigas, é dito que a “alma está no sangue”, mas as mais modernas dizem que a “vida está no sangue”. Isso é feito para evitar confusão entre os significados de alma como “consciência” e como “força de vida” ou princípio de movimento. Em todo caso, o sangue mantém o corpo vivo. Essa força de vida parece também poder ser chamada de alma. Mas, para evitar confusão, chamá-la de “vida” também é possível e talvez recomendado, para que não se pense que o termo “alma” é sempre tomado no mesmo sentido.

Capítulo XVIII.

Aqui ocorre a célebre interdição ao incesto, uma das formas proibidas de sexo. O ser humano não podia ter sexo com um membro da família nem com parente próximo. Alguns membros da família não tinham sequer o direito de despir o parente próximo ou membro da família (me parece que irmãos podiam se ver nus se houvessem sido despidos pelo pai, por exemplo, mas o irmão não podia despir a irmã e, em certas situações, se despir diante dela por conta própria). Considerando o já exposto sobre o banimento de certos tipos de carne, o banimento de certos tipos de sexo poderia talvez servir para evitar deformidades genéticas à longo prazo e para reduzir a incidência de doenças venéreas.

Ocorre neste capítulo a primeira regra contra o sexo entre homem e homem, entre mulher e animal e entre homem e animal. Mas observe: não há regra contra o sexo entre mulher e mulher. Por quê? Porque sexo é penetração com órgão genital. A mulher não tem órgãos genitais capazes de penetrar, então a proibição de algo assim não teria qualquer sentido. Mas pensar dessa forma tem implicações controversas: se sexo é penetração e é banido o sexo entre homem e homem, ser humano e besta, mas, por ser penetração, não é banido o sexo entre mulher e mulher (tal coisa não existe), decorre que nem todas as manifestações de homossexualidade são banidas pelo Levítico, mas apenas a penetração.

Praticar uma das formas proibidas de sexo é inexpiável e punido com banimento.

Capítulo XIX.

Aqui são expostas várias leis guardadas também pelos cristãos. Há uma forte relação, neste capítulo, entre amor e justiça.

Essas leis mencionadas aqui são válidas também para aqueles que Israel acolhia.

Capítulo XX.

Nova interdição ao incesto e a punição estipulada ao adultério. Quem toma a mulher do próximo é punido com a morte, segundo o Levítico.

Capítulo XXI.

Somente podiam ser tomadas como esposas as virgens. Caso a moça tivesse perdido a virgindade com alguém, teria que permanecer com este.

Capítulo XXIV.

Punição pela blasfêmia: morte por apedrejamento. Punição pelo assassinato: morte também. Porque a expiação pelo pecado é feita com sangue (em geral dos sacrifícios) equivalente ao pecado, o pecado de assassinato deve ser punido com a morte porque não há sangue capaz de pagar pelo derramamento de sangue de outro ser humano.

Capítulo XXVI.

Esta passagem confirma que a obediência a Deus traz benefícios nesta vida, mas, diferente dos cristãos, os israelitas não esperavam bênçãos futuras após a morte. Todos os benefícios listados são terrenos. A desobediência era punida com castigos também terrenos. Não se fala de coisas como “Paraíso” ou “Inferno de fogo”.

O quarto livro de Moisés, chamado Números.

Capítulo I.

Por que construir um Tabernáculo se Israel estava migrando para a Terra Prometida? Eles fariam o Tabernáculo e o deixariam ali? Meu irmão disse que Israel estava às portas da Terra Prometida, então faria sentido fazer um Tabernáculo próximo de onde os israelitas iriam se estabelecer. A razão de já não terem entrado na Terra Prometida era que Deus não havia dado o sinal ainda. Mas isso não é razoável. E aqui é dito que era viável um Tabernáculo para o povo migrante. Parece que o Tabernáculo era removível, ou seja, ele podia ser desarmado e seus utensílios levados ao próximo local de acampamento. Ele não era um templo no sentido tradicional, mas como se fosse um tipo de tenda ou tendas. Maior parte do trabalho caía sobre os utensílios sagrados.

Capítulo V.

Os impuros por doença tinham que ficar fora do acampamento (arraial), para não contaminar o local onde os israelitas estavam. Além disso, Deus habitava ali, porque a coluna de nuvem aparecia sobre o Tabernáculo quando necessário.

Capítulo VI.

Para manter o Nome em uso, dito Nome tinha que ser invocado nas bênçãos. Este capítulo traz instruções para abençoar alguém.

Capítulo IX.

Dependendo da impureza, um israelita não poderia participar de certas comemorações, como a Páscoa.

Também neste capítulo é dito que os israelitas acampavam em determinado lugar dependendo do tempo que a nuvem de Jeová permanecia sobre o Tabernáculo. A nuvem poderia ficar sobre o Tabernáculo por dias ou meses.

Capítulo XIV.

Ao verem a Terra Prometida, os espiões viram que estava habitada por povos fortes e por gigantes. Eles rapidamente se desesperaram, achando que haviam sido levados do Egito para lá apenas para serem mortos perante os atuais ocupantes do lugar. Calebe tentou incentivar o povo, contudo.

O povo ainda não tinha plena fé em Jeová, eles tinham dificuldade em crer que Jeová iria mesmo eliminar os povos que habitavam naquela terra.

Israel estava pronto para apedrejar Moisés, Arão e Calebe, os quais acreditavam que Deus seria capaz de dar aquela terra a Israel. Mas Deus interveio, irado com a falta de fé de Israel: depois de todos os sinais, Israel ainda não acreditava que Jeová podia fazer tudo. Mas Moisés negociou com Deus novamente, obtendo perdão para o povo.

Mas não para todo o povo. As crianças, Calebe e Josué seriam aqueles que herdariam a Terra Prometida. O resto morreria.

Seria dado um tempo para as crianças crescerem antes de entrarem na terra que agora estava tão próxima. Por causa da conduta de Israel, o tempo de espera foi estendido em quarenta anos.

Capítulo XV.

O termo “fornicação” pode também ser usado como sinônimo de “traição”, no sentido de trair os mandados divinos ou de adorar outros deuses.

Capítulo XVI.

Aqui ocorre a querela entre Moisés e um israelita, o qual juntou um grande grupo de pessoas que ele julgava santas em meio a Israel, alegando que Jeová estava com eles e não com Moisés. Talvez o pessoal fosse realmente santo, mas Deus nunca havia dito que tiraria o cargo de Moisés. Aí está o erro dele. Ele achou que poderia se levantar como líder do povo de Deus sem aprovação divina. Talvez ele tivesse imaginado que Deus não se importaria se ele provasse ser melhor, supondo que bastava chegar e lançar o desafio, estando puro e com as expiações em dia.

A terra se fendeu sob o rebelde e sua congregação no dia seguinte, tragando tantos quanto podia. Os que escaparam, foram queimados. E ainda mais morreram no dia seguinte, vítimas de doença. Isso porque o rebelde raciocinou além do que fora revelado.

Capítulo XIX.

Mais regras são impostas aos filhos de Israel. É notável, porém, a regras que diz que o jarro descoberto é considerado imundo. Levando em consideração que as penas e as recompensas pelo cumprimento ou descumprimento da Lei são corpóreas, realmente penso que Deus queria proteger a saúde israelita além de acostumá-los a manterem-se limpos, porque as expiações podiam ser penosas e era do interesse do israelita evitá-las. Imagine se algo sujo caísse no jarro e líquido fosse depois armazenado nele ou se algo sujo caísse no jarro com líquido.

Capítulo XX.

Para saciar a sede da congregação, Jeová disse que Moisés batesse com seu cajado contra uma penha, duas vezes, para que dela saísse água. Mas Moisés e Arão, ao fazerem isso, não disseram ao povo que aquele milagre era operado por Deus. Em vez disso, deram a entender que estavam fazendo o milagre eles mesmos, de seu próprio mérito. Por causa desse erro, Moisés perdeu o direito de entrar na Terra Prometida e Arão morreu, dando o sacerdócio ao seu filho. Deus estava sendo severo porque era necessário convencer o povo escolhido de que ele era o único Deus verdadeiro e que ele não era apenas amável, mas também temível. Israel o estava decepcionando muito e foram as constantes intervenções de Moisés que o impediram de eliminar todo aquele povo. Toda essa rigidez era necessária para conseguir o temor de Israel quando não era possível obter o respeito. Depois que a fé estivesse incutida naquele povo, as gerações seguintes poderiam herdar tal fé.

Capítulo XXI.

Novamente Moisés interveio pela vida do povo. Este é o relato da serpente de cobre. Jeová havia mandado serpentes para matar os filhos de Israel, mas, com a intervenção mosaica, foi feita uma serpente de cobre que foi posta numa haste, de forma que aqueles que olhavam para a serpente de cobre ficavam curados dos efeitos do veneno. Se você se preguntava por que o símbolo da medicina é uma cobra em uma haste, aí está sua resposta.

Capítulo XXII.

O cavaleiro não viu o anjo de Jeová bloqueando o caminho, mas a jumenta que o conduzia viu e tentou desviar-se. Porém, como o cavaleiro não viu o anjo, não entendeu a razão de a jumenta se desviar e a espancou de volta ao caminho.

O cavaleiro feriu a jumenta três vezes por não ver o anjo ali. Então, para dar um susto no homem, Jeová concedeu à jumenta o poder temporário de falar. A jumenta inquiriu sobre os espancamentos, perguntando o que ela havia feito. Se ela perguntou o que havia feito sendo que Deus apenas lha deu poder de usar de linguagem, mas não é mencionado que também deu poder para raciocinar além das próprias emoções, a jumenta entendia que havia nexo causal entre fazer algo ruim e ser espancada.

Na verdade, quando o cavaleiro ameaçou a jumenta de morte, ela inquiriu se ela havia feito algo tão ruim a ponto de merecer a morte, justo ela que lho havia servido a vida inteira. Isso significa que, do ponto de vista bíblico, os animais não apenas têm emoções como também pensam. Alguns podem argumentar que Jeová (ou anjo ali presente) estava usando a jumenta como instrumento para falar, mas não é do feitio de Deus (ou de um anjo) se passar por outro ser: se fosse mesmo Jeová, ele teria se identificado, em vez de dar a entender que era a jumenta a falar. Porém, o fato de animais serem usados como sacrifícios e como alimento sugere que os animais podem ser usados para necessidades humanas. Mas a existência de emoção e pensamento num animal sugere que a morte de um animal não deve ser feita sem necessidade.

O anjo repreendeu o cavaleiro por sua conduta.

Capítulo XXIII.

Aqui é dito que não precisamos odiar aquilo que Jeová não odeia. A Bíblia é, para o cristão, a forma mais segura de conhecer a vontade divina. Então, se algo não é biblicamente proibido, esse algo não é odiado por Jeová. Não há necessidade do cristão evitar tal algo, ao menos não por razões espirituais.

Também é dito que Deus não volta atrás no que diz. Porém, as múltiplas negociações de Moisés parecem sugerir que Jeová não precisa cumprir um determinado objetivo de um determinado modo. Ele disse que daria a Terra Prometida à descendência de Abraão, mas queria eliminar Israel. Porém, é importante ressaltar que em todas as vezes em que ele mencionou a Moisés que destruiria Israel ele não pareceu incluir o próprio Moisés. Ou seja, ele poderia poupar Moisés e uma mulher e se livrar do resto de Israel, suscitando por Moisés uma nova descendência a Abraão. Tomás de Aquino ainda diz que o arrependimento divino deve ser tomado em sentido metafórico. Deus não se arrepende das promessas que faz.

Capítulo XXVI.

De todos aqueles que saíram do Egito para habitar a Terra Prometida, somente Calebe, Josué, Moisés e os filhos daquela geração ficaram. Os que entrariam na terra integravam uma geração quase completamente diferente.

Capítulo XXVII.

A autoridade de Moisés é transferida para Josué, também a pedido de Moisés, porque Moisés estava para morrer e não queria deixar Israel sem um representante humano da vontade divina.

Capítulo XXXI.

Após dar mais algumas regras aos israelitas, eles partem para a guerra. Por vezes eu me perguntava como os israelitas iam para a guerra e matavam tantos sendo que foram ordenados a não matar. Mas aqui é visto que eles se expiavam do pecado cometido por matar e da impureza por tocar em mortos. Mas o assassinato não é inexpiável? Parece que não é quando Deus o ordena.

Capítulo XXXII.

Mais desobediência, mais mortes. Jeová proíbe mais pessoas de entrar na Terra Prometida por serem petulantes. Se você leu todos os livros até aqui, você pode imaginar como aquele povo era altamente irritante. Imagine você ter que aturá-los décadas no deserto.

Capítulo XXXIV.

Aqui é dito os limites espaciais da Terra Prometida, Canaã. Também ela é repartida entre as tribos que ainda não tinham herança.

Capítulo XXXV.

Regras para homicidas acidentais. Caso alguém matasse outro por acidente, seria refugiado em uma cidade própria para receber esse tipo de assassino. Porém, não conta como acidente se a pessoa intencionalmente fez algo que poderia matar o indivíduo. Por exemplo, suponhamos que eu dê um golpe com barra de ferro em alguém com intenção de ferir, mas não de matar, apesar de saber que o golpe proporcionaria uma chance de morte, e eu mato o indivíduo sem intenção, eu seria condenado como homicida doloso. Afinal, embora eu quisesse apenas ferir a pessoa, eu sabia que meu golpe proporcionaria chance de morte. Eu aceitei o risco de matar, então é homicídio doloso.

O quinto livro de Moisés, chamado Deuteronômio.

Capítulo I.

Observe como aqui é dito que as crianças dos israelitas, antes de Jeová se indignar a ponto de impedir um grande número de entrar em Canaã, não conheciam nem o bem e nem o mal. Isso significa que o pecado original, a ética, é passado de pai para filho não em estado ativo, mas potencial. A criança aprende o que é bom e o que o mau conforme cresce e avalia a moral de sua conduta. Se continuássemos crianças e nunca pensássemos se o que fazemos é bom ou ruim, talvez não fôssemos culpados de nossos atos, porque estaríamos agindo com ignorância o tempo todo. Depois que você começa a ter dúvidas sobre seus comportamentos e mais ainda quando identifica certas coisas como erradas, você passa a ser culpado se faz algo que você sabe que é errado ou quando você faz algo sem ter certeza de sua moralidade. Importante ressaltar que o ser humano é limitado e não deveria ter tal capacidade, porque sua limitação o impede de performar um julgamento perfeito. Por isso ele sofre, confundindo o bem com o mal e vice-versa. Ele não erra sempre em seu julgamento, nem por isso sempre acerta. Afinal, se o julgamento moral não fosse limitado pela condição humana, todas as leis do mundo seriam idênticas.

Capítulo VIII.

Durante o discurso de Moisés, é revelado que os anos no deserto foram um grande teste para saber quem era realmente fiel.

Capítulo XII.

O sangue é a alma, isto é, a vida. A vida do corpo reside no sangue. A Bíblia pode se referir a três coisas quando usa o termo alma: vida, consciência e pessoa. De fato, se há duas pessoas ali fora, há duas vidas ali fora, pois são duas pessoas vivas e com consciência.

Capítulo XIII.

Jeová continuaria tentando os israelitas e os testando mesmo após eles entrarem em Canaã. Por exemplo, ele poderia enviar um sonho ou profecia a alguém para levá-lo a adorar outros deuses, mas isso seria para saber se alguém acreditaria no sonhador ou profeta que dissesse tal coisa.

Inclusive, se o profeta ou sonhador der crédito à profecia ou ao sonho, ele mesmo morreria. Até mesmo o instrumento do teste está sob teste.

Quem quer que procurasse afastar um israelita da adoração de Jeová teria que morrer, mesmo que fosse amigo próximo ou membro da família.

Capítulo XVII.

Quando um rei se levantava sobre Israel, tinha que escrever uma cópia da Lei em um livro, para evitar que a Lei se perdesse. Essa tradição é mantida até hoje entre os massoretas, de onde vêm as cópias mais confiáveis do Velho Testamento em hebraico e aramaico. Estudos entre as cópias massoréticas e os manuscritos do Mar Morto, que são bem mais antigos, revelam que o sentido permanece o mesmo, embora o texto não seja exatamente igual. Isso porque a adulteração ou censura da Lei pelo copista era divinamente punida, então o sentido tinha que ser preservado. A divergência entre cópias não parece ser culpa dos massoretas, mas dos que copiavam antes deles. Em adição, outras entidades fazem outros tipos de cópia.

Capítulo XVIII.

Não deve haver entre os israelitas nenhum adivinho, feiticeiro ou coisas do gênero. Se alguém quiser saber do futuro, deve consultar o profeta que Jeová levantar. Porém, como se identifica um profeta? O profeta deve, necessariamente, atender dois requisitos: deve falar em nome de Deus e suas profecias devem se cumprir. Se ele não fala em nome de Deus, mas de si mesmo ou de outra entidade, não é profeta. Se alega falar em nome de Deus, mas a profecia não se cumpre, é falso profeta. Ora, muitas entidades, inclusive em nossos tempos, previram datas para o fim do mundo, para o julgamento, para a vinda do Reino de Deus, mas ainda estamos aqui. Segundo a Bíblia, nenhuma dessas entidades merece qualquer crédito depois dessas tentativas falhas, pois tal profeta está condenado à morte. Isso já elimina várias possibilidades de filiação que o cristão não denominado tem a sua disposição. Se ele se pergunta para qual igreja deveria ir, aí está um critério de avaliação: verificar se a tal igreja já fez alguma previsão falha sobre o futuro. Se sim, ela não durará mais muito tempo, então nem se proponha a ir.

Capítulo XXII.

Interdição ao travestismo: o israelita não podia se vestir de mulher e a israelita não podia se vestir de homem.

Aqui também fala que a mulher tinha que ter “provas de virgindade” para o caso de um homem a tomar e dizer que ela não era virgem no momento do coito. Essa prova de virgindade é o hímen. Em geral, o hímen se rompe na primeira relação sexual, causando sangramento. Então, para saber se o homem estava mentindo quando disse que a mulher não era virgem no momento da primeira relação sexual, o lençol da cama sobre a qual eles transaram testificaria a falsidade ou não. Os pais da moça procurariam por manchas de sangue no lençol. Observe que o problema aqui não é o hímen, mas a virgindade. Ser virgem é nunca ter tido relações sexuais com alguém, mas a mulher poderia ter perdido o hímen por outros meios, como a masturbação intensa. Então, para a mulher israelita, manter o hímen íntegro até a primeira relação sexual era uma questão legal, para evitar a má fama caso o homem viesse com o argumento de que a moça não era virgem. Ou seja, o hímen era a única prova que ela teria de sua virgindade. O hímen não é a virgindade em si.

Era de suma importância manter a integridade do hímen porque, se a mulher não tivesse nenhuma prova de que era virgem e o homem reclamasse, ela seria apedrejada até a morte por fornicação, mesmo que fosse realmente virgem e nenhum homem tivesse sexo com ela até aquele dia.

Capítulo XXIII.

Aqui são descritas restrições sobre quem pode se juntar ao povo de Jeová. Integrantes de determinados povos não podiam se converter aos israelitas.

Também é dito que os soldados, caso tenham “acidentes” noturnos (provavelmente polução ou enurese), deveriam ficar longe dos outros por estarem sujos, mas poderiam voltar depois de certo tempo e depois de um banho. Também a micção e a defecação tinham que ser feitos fora do acampamento e o dejeto tinha que ser enterrado em um buraco, que deveria ser feito com um instrumento como uma pá, não com as mãos.

Nenhum israelita poderia oferecer seu corpo na prostituição.

O dinheiro da prostituição jamais podia ser oferecido ao templo de Jeová.

Capítulo XXX.

Deus nos permite escolher entre o bem e o mal. O bem e o mal ficam claros aos israelitas através da Lei. Se entregar ao conceito divino de bem e de mal é negar à capacidade de julgamento moral que adquirimos por causa do pecado original, tal julgamento deveria ser restrito a Deus. Então, a obediência a Lei nos permite afastar-nos do pecado original, porque estaríamos deixando o julgamento de bem e de mal para Deus fazer. Observe que existe outros tipos de julgamento, como útil e inútil, belo e feio, entre outros, que não são vetados ao ser humano, mas somente o de moralmente bom e moralmente mau. Se o julgamento fosse completamente vetado, não haveria livre-arbítrio nem tampouco teria ocorrido o pecado original, que fora cometido porque a serpente havia se aproveitado do julgamento de útil e inútil de Eva.

Capítulo XXXI.

Deus já sabia que Israel o trairia novamente.

Capítulo XXXII.

Jeová não é um Deus “bonzinho”, mas um Deus justo. Ele fere e mata quem ele julga que deve ser ferido ou morto, segundo as obras daquela pessoa. Ele também recompensa quem deve ser recompensado.

O livro de Josué.

Capítulo VI.

Relato da tomada de Jericó. Hoje se sabe que um som de determinada frequência pode abalar estruturas pesadas sem precisar ser alto. A vibração do grito de Israel (que eram muitos) e a vibração das buzinas de carneiro (que era grave) pode ter enfraquecido consideravelmente o muro de Jericó. Mas isso é especulação.

Capítulo IX.

Juramentos feitos em nome de Deus devem ser cumpridos, mesmo depois que o juramento se configura como prejuízo. Por isso Jesus diz que é mais sábio nunca jurar.

Capítulo XXI.

Jeová cumpre as coisas boas que promete, mas pode voltar atrás se toma uma decisão de fazer mal a alguém, por causa da abundância de misericórdia. Isso parece natural de ocorrer em um ser com implacável senso de justiça, mas que é movido por fortes sentimentos de amor. Ele pune, mas ouve os pedidos de perdão, procurando uma punição equilibrada. Israel conseguiu possuir a Terra Prometida.

Capítulo XXII.

Para manter Israel na fé verdadeira, alguma severidade era necessária. Os rubenitas edificaram um altar ilícito em seu território e as outras tribos, vendo que aquilo tinha sido feito sem permissão divina, temeram ser punidas todas pelo pecado de uma só tribo. Se alguma tribo de Israel pecasse gravemente, todas as tribos poderiam ser punidas, dependendo da extensão e gravidade do pecado.

Não era permitido mais que um altar para fazer sacrifícios. Mas os rubenitas logo esclareceram que o altar era de testemunho, não de holocausto ou oferta. Isso era permitido.

Capítulo XXIV.

Servir a outros deuses é imperdoável. O israelita que servisse a outro deus além de Jeová seria castigado até voltar para Jeová completamente.

Também neste capítulo parece estar a origem das expressão “testemunha de Jeová” como pessoa que só a Deus serve e que, pelos seus próprios atos e palavras, deixa tal fato patente. Porque tal pessoa é “testemunha contra si mesma” de que escolheu Jeová por Deus.

A testemunha de Jeová, após se admitir uma, deve “deitar fora os deuses falsos”. Hoje existe uma igreja cujos fieis adotaram esse rótulo de testemunhas de Jeová, o que explica a série de esforços para se purgar de qualquer tipo de “ídolo”, que, para eles, são os costumes pagãos que se infiltraram no Cristianismo. Isso inclui o banimento de qualquer feriado ou festa aceita por outras igrejas, mas que tem origem pagã. Em outras palavras, o bom jeovista não celebra outra coisa que não a Páscoa, pois eles identificam origens pagãs na vasta maioria de festas celebradas em outras denominações. Como os cristãos devem muito ao Judaísmo, não é nada estranho que denominações tirem seus nomes de passagens do Velho Testamento.

O livro dos Juízes.

Capítulo II.

A geração seguinte não conheceu as coisas que Deus havia feito por Israel. Por causa disso, não tinham tanta fé como seus antepassados. Então, se afastaram de Deus para servir, por exemplo, a Baal.

Logo ficou evidente que as gerações seguintes, se não tivessem um “juiz” que representasse Deus entre o povo, não seriam capazes de se manter no caminho de Jeová. Para manter os filhos no caminho dos pais, uma sucessão de juízes foi levantada, um após o outro.

Capítulo III.

De fato, quando Jeová precisa punir alguém, pode usar outros povos, mesmo quando ímpios, para punir tal pessoa. Ele não precisa agir pessoalmente, mas pode agir por meio de outras causas. Mas, pelo que foi visto antes, quando Jeová usa alguém, por exemplo, para ferir ou para matar, de forma alguma esse indivíduo é cobrado pelo pecado que cometeu, pois Israel ferira muitos ímpios sem prestar contas disso, acredito que porque Israel era a ferramenta de Jeová para limpar a Terra Prometida.

Capítulo IX.

Se alguém peca contra seu próximo e o próximo não tem como revidar a ofensa, Deus pode se vingar pelo ofendido. Vide Abimeleque, que matou todos os seus irmãos e foi eventualmente morto por uma mulher, que, do alto de uma torre, lhe jogou uma mó na cabeça.

Capítulo X.

A saga no livro dos Juízes tem uma lição de moral. Observe como Deus faz bem aos israelitas na medida em que o servem, mas os israelitas deixam de obedecer Jeová quando se acostumam com a paz, voltando a ele nos momentos de aflição. Todos os momentos de aflição seriam evitados se a obediência a Deus fosse constante, mas os israelitas preferiam recorrer a Deus e obedecê-lo somente quando passavam por dificuldades.

Capítulo XI.

Ele jurou que ofereceria a primeira pessoa que o recebesse em casa como sacrifício humano a Jeová se ele ganhasse a guerra contra os amonitas. Bom, ele ganhou. E a pessoa que foi recebê-lo na volta pra casa foi sua filha única.

Capítulo XIV.

Ao contrário da crença popular, a força de Sansão não vinha do cabelo. Acontece que o espírito divino lhe dava aquela força durante seu voto de nazireu. O voto de nazireu envolve jamais cortar o cabelo. Cortado o cabelo, quebra-se o voto e a ligação com o espírito divino. A força de Sansão era transcendente, de forma alguma procedia de seu corpo. Ele também perderia sua força se bebesse vinho ou comesse algum animal impuro. A força realmente não vinha do cabelo em si.

Capítulo XXI.

Mais um problema com os juramentos a Deus. O que você fará se jurar algo a Deus e depois se arrepender?

O livro de Rute.

Capítulo I.

Interessante como os nomes das pessoas eram adjetivos de seus idiomas. Hoje, existem nomes próprios em muitos idiomas, como o meu, Yure, mas este é um nome que nada diz para falantes de português. Mas as pessoas dos tempos do Velho Testamento assumiam nomes de adjetivo, como Mara, que significa “amarga”. Era como se dirigir a uma pessoa pelo nome Amarga, porque era realmente uma pessoa amarga. Assim, os adjetivos que nomeavam as pessoas tinham relação com aparência física, personalidade, ocupação ou esperanças para o futuro do filho. Além disso, o nome podia ser mudado conforme a vontade do dono do nome e a aceitação das pessoas ao redor (não adiantava querer mudar de nome adjetivo se ninguém reconhece em você tal adjetivo). Era como ter apelidos em vez de nome próprio.

Capítulo II.

Se os mortos estão mortos como Jeová pode ser benfeitor também para com os mortos? Ou a personagem está se expressando metaforicamente ou a crença de que a vida não termina na morte se estabeleceu em algum momento. Porém, nada garante os conceitos de imortalidade da alma, Paraíso ou Inferno ainda, mas que Deus é bom também com os mortos. Porém, o conceito de ressurreição, presente no judaísmo, pode representar melhor a crença deste período, uma vez que os conceitos de imortalidade da alma, Paraíso e Inferno, na concepção moderna, são cristãos.

O primeiro livro de Samuel.

Capítulo I.

Não raro, a oração precisa ser feita repetidas vezes para ser atendida. Ela não precisa ser feita em voz alta.

Capítulo VIII.

Israel não tinha rei, apenas juízes, que representavam a vontade divina. O rei de Israel, por assim dizer, deveria ser Jeová, mas volta e meia Israel se corrompia com a adoração de ídolos. Eventualmente, desejaram um rei.

Capítulo IX.

Houve um tempo em que vidente e profeta eram a mesma coisa. Mas como vidente é aquele que vê e o profeta não necessariamente vê, por vezes somente ouve, o que Deus lhe permite ver ou ouvir, as palavras passaram a designar objetos diferentes.

Capítulo XV.

Jeová prefere obediência em vez de sacrifícios expiatórios. Às vezes penso se, por um acaso, os sacrifícios, sendo penosos e caros, pois custavam os melhores animais, não eram um recurso psicológico para evitar o pecado. Afinal, se eu tiver que sacrificar dos meus animais sempre que eu pecar em alguma coisa, é melhor não pecar em primeiro lugar. Dessa forma, supondo que assim o fosse, se esperaria que os israelitas evitassem ao máximo o pecado a fim de evitar os custos de expiação. Observe também que Saul pegou os despojos do povo invadido e derrotado e havia bezerros e vacas entre os despojos, sendo que Jeová ordenara que todos os animais fossem mortos durante o ataque. Mas Saul ficou com os animais a fim de sacrificá-los. Assim, havia um excedente de animais para expiar vários pecados, de forma que Saul poderia pecar mais vezes e ser perdoado mais vezes, posto que o custo de expiação diminuíra. Se eu tenho mais animais para me expiar, posso pecar mais vezes sem me preocupar, pervertendo assim o propósito do sacrifício.

Saul, em sua defesa, diz que apenas ouviu a voz do povo. Então, parece que todo o Israel iria se beneficiar do excesso de animais.

Também, no mesmo capítulo, Samuel diz que Jeová não é homem para se arrepender, mas o final do capítulo diz que Jeová se arrependeu de ter posto Saul por rei sobre Israel. Segundo Tomás de Aquino, o arrependimento divino deve ser sempre tomado em sentido metafórico. Mas visto que as consequências do arrependimento divino sempre se mostram, ao passo que as consequências da imutabilidade são modestas, eu tenho mais razões para crer que a imutabilidade é que é metafórica. Deus não quebra promessas feitas aos que a ele obedecem por uma questão de compromisso, como se vê no caso de Moisés, mas pode se arrepender de outras coisas. Além disso, todas as vezes que se diz que Jeová não se arrepende, tais palavras são ditas por um personagem humano, ao passo que as vezes em que se diz que Jeová se arrependeu são passagens ditas por um narrador, o escritor do livro, que está sendo inspirado no momento da escrita. Logo, o narrador tem autoridade superior.

Capítulo XVI.

Deus vê o “coração”, isto é, as intenções.

Capítulo XXIV.

Jeová havia dado Saul nas mãos de Davi, isto é, havia lhe dado a oportunidade de matá-lo. Mas não havia ordenado Davi a matá-lo. Então, Davi resolveu poupar Saul. Isso significa que Deus pode prover uma pessoa de duas opções igualmente boas. Nem todas as decisões que fazemos são entre certo e errado, mas às vezes entre duas coisas certas. Nesse caso, nenhuma dos posicionamentos acarreta punição.

Capítulo XXVIII.

Saul pede ajuda a uma médium para contatar Samuel, o qual havia morrido. Samuel perguntou por que Saul o fizera “subir”. Samuel estava embaixo. Ora, mas Samuel havia sido profeta. Ele estava então no Inferno? Como? Subir só pode ter sido da sepultura, porque Samuel não tinha razão para ser punido. Levando em consideração que era costume dos israelitas se referir a morte como um tipo de sono, será que Samuel estava consciente? Lembrando que consultar médiuns e pessoas envolvidas com ocultismo era proibido.

O segundo livro de Samuel.

Capítulo I.

Davi amava Jonatã mais que amava as mulheres e isso não era nada ilícito. O amor não é ilícito. Existem limites que são claros, qualquer coisa abaixo deles é fazível.

Capítulo VII.

Jeová esteve na Terra, embora em forma invisível, habitando o Tabernáculo, desde que fez os hebreus saírem do Egito. Ele estava aqui. Se ele não se manifestou foi para que os israelitas não morressem, porque sua aparência não deve ser vista por quem não está pronto para vê-la.

Capítulo XI.

Davi comete adultério com uma viúva. Isso conta como fornicação. Até agora, não se faz menção ao casamento ou ao matrimônio, então fornicação não tinha o sentido de sexo pré-marital como tem hoje. Pelo que pude observar, havia, em vez de casamento, o “tomar para si”. O homem escolhia uma mulher virgem e ficava com ela para sempre ou até repudiá-la. Se ela vivesse com os pais, os pais tinham que aprovar tal coisa. Porém, ele tinha que se certificar de que ela era virgem, porque o costume era de que a mulher tinha que permanecer com aquele que lha tomou a virgindade (salvo em caso de estupro). Então, escolher qualquer uma poderia levar o indivíduo a escolher uma mulher que não era virgem e escolher uma mulher que não era virgem poderia levar o indivíduo a escolher uma mulher que não havia sido repudiada, o que é adultério. “Fornicação”, então, parece poder ser entendido como um termo genérico para as formas ilícitas de sexo.

Capítulo XII.

Não tem sentido se sacrificar ou se causar sofrimento de propósito por causa de uma pessoa morta: o seu sofrimento não a trará de volta.

Capítulo XVI.

Se Deus manda alguém fazer algo, não há necessidade de perguntar por que tal alguém está fazendo tal algo; “Deus mandou” é razão suficiente, sendo Deus sumamente sábio.

Capítulo XXII.

Durante o cântico, Davi menciona que Jeová retribui segundo nossas ações. Então, o indivíduo moderadamente justo, será recompensado e punido moderadamente. O indivíduo severamente injusto, será punido severamente. O indivíduo puro, terá recompensa maior. Não é, então, como se Deus punisse todos igualmente e olhasse apenas para os pecados.

Capítulo XXIII.

A profecia das últimas palavras de Davi parece se referir a Jesus.

Capítulo XXIV.

Jeová pode ser mais misericordioso que os seres humanos, tanto que Davi preferiu ser punido por ele do que pelos seus inimigos.

E de fato, logo Jeová se arrependeu do castigo que estava desferindo sobre Israel. É mais fácil conseguir a misericórdia de um amigo do que de um inimigo.

O primeiro livro dos Reis.

Capítulo III.

Já que agora o ser humano era capaz de discernir entre o bem e o mal, o que não deveria ter acontecido, mas aconteceu, convinha fazer um bom uso disso. O problema é que o ser humano não era capaz de discernir perfeitamente por causa de sua natureza limitada, então Salomão, quando chegou a hora de subir ao trono de Israel, pediu sabedoria a Deus, para julgar corretamente entre bem e mal. Deus lhe deu sabedoria de forma bastante liberal, mas, visto que Salomão posteriormente se corrompeu, parece que saber o que é bom e o que é mau não garante que não faremos o mal. Ou poderia ser que Salomão recebeu uma faculdade de julgar superior, mas não perfeita, já que não fazemos o mal se o reconhecemos como tal. O julgamento de Salomão foi falho. Ou ainda pode ser que, mesmo sabendo que era errado, ele teve pouca força de vontade para perseverar no que é correto.

Jeová ama a sabedoria e se alegrou com o pedido de Salomão, o qual preferiu pedir sabedoria em vez de riqueza, fama ou saúde. Até porque, tendo sabedoria, essas coisas viriam por consequência.

E neste capítulo ocorre o famoso caso das duas mulheres que clamavam o mesmo filho. Quando Salomão propôs partir o menino ao meio, a mãe verdadeira disse que era melhor a mãe falsa ficar com menino do que matá-lo. Isso, mesmo que não provasse que a mãe verdadeira realmente fosse a verdadeira, seria o bastante para dar o filho a ela, porque se importava com a vida da criança. A outra não se importava se o menino seria partido ou não.

Capítulo IV.

Salomão tinha sabedoria e entendimento. Sabedoria provavelmente designa saber prático, enquanto que entendimento pode ser capacidade de abstração. Ele também tinha “entendimento do coração”, o que provavelmente indica sabedoria emocional. Talvez ele soubesse como as emoções funcionavam e como elas afetavam o comportamento das pessoas.

Ele disse vários provérbios e escreveu vários cânticos, mas também falou de árvores, animais terrestres e aves. Esse tipo de conhecimento, que mais tarde seria chamado biologia, não era estranho à época e os egípcios o praticavam até certo ponto, de maneira limitada e ainda muito mística, com finalidades médicas, por exemplo. Se minha interpretação está correta e se essa sabedoria foi provida por Deus a Salomão, então Deus não se opõe à ciência.

Capítulo VIII.

Os templos não são a casa de Deus senão em sentido metafórico, porque Deus habita um local transcendente. Os templos, na verdade, são locais onde o fiel pode se achegar melhor a Deus, e é nesse sentido que se pode dizer que Deus “está” neles. Em adição, este capítulo diz que não existe uma pessoa no mundo que não peque. Donde decorre que, se Deus fosse condenar todos os que pecam, ninguém sobraria.

Capítulo XI.

Talvez Salomão soubesse o que era melhor, mas teve pouca força de vontade para perseverar no melhor. Porque, por exemplo, o viciado em drogas sabe que deve parar, sabe que parar é melhor, sabe que se sentirá melhor se vencer o vício, mas não tem força de vontade para vencer as crises de abstinência. Donde decorre que não basta saber o que é melhor para fazê-lo, é necessário poder fazê-lo, o que requer energia, seja mental ou física. Salomão já estava velho quando caiu vítima dos encantos das mulheres das terras proibidas. Ele não teve forças para resistir à demanda carnal ou aos apelos emocionais das moças. Isso significa que aquele que faz algo mau nem sempre o faz por ignorância do bem, exceto quando o faz voluntariamente (porque a vontade se orienta para o bem, mas a pessoa má confunde mal e bem e não praticaria o mal de boa vontade se não visse algum benefício no que faz, ao mesmo tempo que falha ao julgar a extensão do benefício e do malefício). Alguém pode fazer o mal também porque não tem força para fazer o bem, como nos casos de coação interna ou coação externa, que podem tanto interferir em seu reto julgamento, por incitar emoções como medo, luxúria e coisas que tais, quanto na qualidade de suas ações. Nesses casos, se faz o mal por fraqueza.

Capítulo XIII.

Se a palavra de alguém entrar em conflito com a palavra divina, a palavra divina deve ser atendida. Neste relato, um varão de Deus foi ordenado a não beber ou comer durante sua missão, mas um outro indivíduo, fingindo ser profeta, disse que um anjo lho havia dito que ele estava liberado da restrição. O varão preferiu comprar a palavra do outro cara, em vez de continuar seguindo a palavra do próprio Deus, o que lhe levou à morte. Como não vejo nenhum profeta nos dias de hoje e como Deus não falou comigo até hoje, a palavra divina, pra mim, é a Bíblia. Se uma ordem humana contradiz uma ordem bíblica, a ordem humana deve ser desconsiderada.

Capítulo XVII.

Restituição da alma do filho da viúva. A alma “voltou” ao filho, mas de onde ela voltou? Porém, quando se diz, por exemplo, que o vigor “voltou” a alguém, não está implícito que o vigor se escondeu em algum lugar para depois retornar. Isso não necessariamente implica a imortalidade da alma, mas pode ser entendido dessa forma, dependendo do referencial doutrinário do leitor. Além do mais, “alma” pode ser entendido como “vida” ou princípio do movimento. Então pode ter sido uma ressurreição com vida nova, o que não necessariamente implica que a consciência do indivíduo de manteve viva em algum outro lugar. Mas aí você lembra do que aconteceu com a vidente…

O segundo livro dos Reis.

Capítulo I.

Como disse Tomás, os profetas operam feitos milagrosos. Pedir por sinais sobrenaturais é um bom meio de testar se alguém realmente é profeta.

Capítulo II.

Em que sentido o espírito de Elias repousa sobre Eliseu?

Capítulo III.

O espírito de Elias pode ser o dom da profecia, que passou para Eliseu.

Capítulo X.

Jeová recompensou Jeú por ter feito sua vontade, embora parcialmente. Jeú eliminou de Israel todos os servos de Baal, mas não se livrou dos dois bezerros de ouro que haviam em território israelita. Ainda assim, matar todos os servos de Baal lho havia dado uma recompensa: sua linhagem seria abençoada com o trono de Israel até a quarta geração.

Capítulo XII.

Joás foi feito rei aos sete anos e foi um dos bons reis de Judá, tendo instrução sacerdotal desde a infância. Ele teve, então, educação diferenciada. A educação infantil tem fator determinante na formação do caráter. Os outros reis tiveram educação normal, talvez em casa.

Capítulo XIV.

“Não matar” tinha exceções. Certos pecados eram punidos com a morte e o israelita era escusado do pecado caso matasse quem merecesse morrer por seu pecado.

Capítulo XVI.

Primeiro uso do termo “judeu”, significando integrante da tribo de Judá.

Capítulo XVII.

Judá estava indo bem até subir um rei iníquo. Israel estava pecando muito e sendo castigada com frequência, mas a tribo de Judá, até aquele momento, estava fazendo as coisas certas.

Capítulo XX.

Ezequias recebeu a visita do profeta Isaías, o qual lhe notificou de que morreria em breve. Ezequias, que era alguém que fazia o que Jeová pedia e andava segundo a Lei de Moisés, apelou para Jeová com oração e súplica, sendo atendido. Deus lho deu mais quinze anos de vida. Deus ouve as orações daqueles que fazem a vontade dele, não apenas por amor, mas também por uma questão de compromisso, por ser justo.

Capítulo XXIII.

Desde que os juízes deixaram de existir e começaram a subir reis, a Lei divina estava sendo gradualmente esquecida, a ponto de não mais se celebrar sequer a páscoa. A vantagem de se ter uma lei escrita, contudo, é a de que alguém pode retomá-la e lê-la, trazendo seus súditos de volta a ela. Foi o caso de Josias, que viu na restauração da Lei uma saída para os problemas de Israel.

O primeiro livro das Crônicas.

Capítulo XVI.

A benignidade de Jeová é para sempre, embora sua ira seja contingente.

É interessante notar que, após o salmo, a congregação disse “amém” e também louvou com grande júbilo. Hoje as pessoas reclamam de alguns crentes que fazem escândalos e gritam de júbilo e fé, quando saem de si durante suas reuniões. Houve um tempo, pelo que pude entender de Erasmo de Roterdão, que isso também acontecia na igreja católica. Não é errado jubilar e louvar em voz alta durante as reuniões, se esses são louvores ao divino, pois Judá se comportava assim, ao que parece, na administração de Davi.

Capítulo XXIX.

Jeová se agrada das sinceridades. Ou seja, é melhor servi-lo de boa vontade do que por medo. Ele quer obediência, mas, se possível, porque reconhecemos que é o melhor.

O segundo livro das Crônicas.

Capítulo VI.

Na oração de Salomão, é pedido justiça, para que Deus continue punindo os maus e justificando os bons, mas nunca numa medida além do merecido.

Porém, é pedido que o pecado do que se arrepende seja perdoado.

Capítulo VII.

A glória divina tinha aspecto sensível. Ela expulsava pessoas do templo, por exemplo. Ela não era simples reconhecimento, o conceito de glória que temos, mas imagino que fosse algum tipo de brilho ou força que, mesmo que invisível, era sensível de alguma forma.

Capítulo XII.

O rei deixou os mandamentos divinos depois que conseguiu tudo o que queria. Pelo que foi punido. É que algumas pessoas só lembram de Deus quando estão em apuros. Depois que obtém o que desejavam, deixam Deus de lado.

Seguir as leis de um Estado é, em geral, mais difícil que seguir a lei divina.

Capítulo XIII.

Jeová é criterioso com o sacerdócio. Os outros sacerdotes da época, que serviam a outros deuses, tornavam qualquer um sacerdote.

Capítulo XV.

Se você procura Deus, ele o achará. Se você o deixar, ele o deixará.

Observe como os israelitas não tiveram que fazer nada em especial para voltar aos caminhos divinos, além de querer voltar. Para se reconciliar, bastaria querer e voltar às práticas corretas e deixar as ruins que conflitam com as novas. Ou seja, se livrar da adoração anterior, caso existisse. Então, já se poderia passar para as práticas, como os sacrifícios.

Capítulo XVI.

Asa procurou os médicos em vez de Deus para se livrar de sua enfermidade, mas ele morreu. Isso não significa que devamos deixar a medicina de lado, mas que a medicina da época era muito limitada. Quando a medicina não pode fazer mais, parece lícito recorrer ao divino. Mas a medicina da época podia muito pouco. Não foi sábio recorrer a ela.

Capítulo XXIII.

Já que os levitas tinham o ofício sacerdotal, imagino que o livro Levítico se chame assim porque era incumbência levítica ministrar a lei. Então, os detalhes da lei eram deles para eles ministrarem, enquanto que a população ficava sabendo dos princípios gerais que evitavam a quebra dos detalhes (como os dez mandamentos) e as coisas que poderiam causar pecados mais frequentemente (como as classes de animais impuros). Essa reflexão me ocorreu porque neste capítulo é usada a expressão “Sacerdotes Levíticos”.

Capítulo XXIV.

A longevidade já se tornara ocorrência rara. Joiada viveu cento e trinta anos, “farto de dias”, mas já não era mais comum viver tanto. Viver esse tempo era privilégio daqueles que eram muito fieis, por causa das bênção terrenas de Jeová. E, como visto, muitos preceitos da Lei, embora tivessem a obediência divina como ponto principal, também colaboravam para a longevidade. Então, seguir a Lei promovia longevidade por consequência.

Capítulo XXV.

O israelita não pode matar um pai pelo pecado do filho, nem um filho pelo pecado do pai. De fato, a punição pode se estender às gerações, mas a morte é uma pena pessoal.

Capítulo XXVI.

Uzias, depois de já se ter fortificado, foi dominado por seu orgulho e pensou que, por sua glória e reputação guerreira, poderia performar o ofício sacerdotal da queima de perfumes no altar. Mas a ordem divina era de que somente os sacerdotes levíticos podiam fazer aquilo. Porque seu orgulho o levara a desobedecer a ordem divina da hierarquia sacerdotal, ele foi afligido com lepra. Então, toda sua glória e poder militar de nada mais lhe serviam, porque ele passou a ser obrigado por Lei a morar à parte do resto do povo. Importante lembrar que não é qualquer autoridade que merece nossa servidão, mas a autoridade divinamente instituída. Resta saber quais autoridades são divinamente instituídas hoje. Em essência, o pecado de Uzias foi a desobediência à Lei, que é divina, e instaura o ofício levítico como sagrado.

Capítulo XXX.

Uma multidão de pessoas que comeram a páscoa estava impura. Como havia muitos, nem todos puderam ser purificados, mas Ezequias, atual autoridade, orou pelo povo que havia comido impuro a páscoa. Então, o povo foi perdoado, embora não tivessem se purificado para a páscoa, o que era proibido pela Lei. Então, havia mais de um jeito de se purificar, paralelo à Lei, que podia ser concedido a alguns.

Capítulo XXXII.

É interessante como os livros do texto massorético fazem referência uns aos outros. A mesma história é contada nas Crônicas, nos Reis e na profecia de Isaías, por exemplo. Isso nos permite ver a mesma história do ponto de vista de diferentes autores, embora o ser que ordenou a escrita seja um só.

O livro de Esdras.

Capítulo I.

Ciro era o imperador mais poderoso da época. Quando o povo de Deus havia sido libertado do cativeiro babilônico, Ciro ordenou que eles fossem à Jerusalém, em Judá, para que o templo fosse edificado. Ele fez isso por inspiração divina, para cumprir a profecia do exílio babilônico, que não deveria durar para sempre nem arruinar os judeus.

Capítulo III.

O novo templo de Jerusalém era modesto em relação ao anterior, de forma que os sacerdotes que lembravam de como ele era antes ficaram muito decepcionados.

Capítulo IV.

Ciro mudou de ideia depois que lhe fora enviada uma carta contando que os judeus, no passado, eram muito dominadores e que eles poderiam posar como problema para a administração do rei se eles voltassem a crescer.

Obviamente, a construção do templo continuou quando Dário sucedeu Ciro.

Capítulo VII.

O rei apoiava a religião de Israel, apesar de dela não partilhar. Como rei, isso talvez se devesse à condições políticas, talvez ocasionadas por Deus para que seu povo pudesse aproveitar dos benefícios de uma aliança com o rei. Ou pode ter sido que Deus o fez atentar para a injustiça que seu povo sofria. O fato é que Deus estimulou o rei a ajudar Esdras e o povo de Deus, mesmo que tal rei não fosse partidário dessa religião.

Capítulo VIII.

Depois de ter dito que a mão de Jeová é contra todos os que o deixam e cobre todos os que o ouvem, Esdras preferiu não pedir ajuda ao exército do rei para sua perigosa viagem.

Capítulo IX.

Ao chegar ao seu destino, Esdras viu que os israelitas estavam traindo Jeová de novo, como costumavam fazer antes do exílio babilônico. Desta vez, os príncipes e os magistrados foram os primeiros a quebrar a Lei, tomando para si mulheres de fora da congregação.

Capítulo X.

Ao menos nesta Bíblia, aqui é usado o termo “casamento” (mais especificamente, “casamos”) pela primeira vez, como equivalente do “tomar para si”.

O livro de Neemias.

Capítulo III.

Neemias foi à Judá para ajudar o povo a reconstruí-la. Mesmo que ele não fosse de muita ajuda, ele ainda assim insistiu em ajudar e obteve permissão do governo para ir.

Capítulo IV.

Houve quem não gostasse, contudo. Vendo que Judá estava começando a ressuscitar, ele ficou realmente irado.

Jerusalém estava ficando forte novamente. Seus muros estavam quase concluídos.

Um guerra começava, para evitar que os judeus reerguessem o muro de Jerusalém. Mas eles montaram guarda diariamente. Havia também problemas internos que boicotavam a obra, porque o povo estava começando a se cansar.

A obra não parou, mas a guerra fez com que ela fosse continuada a passo mais lento, pois metade da população adulta estava na obra e a outra metade estava defendendo a cidade. Os obreiros mais fortes carregavam suprimentos em uma mão e armas na outra. O que importa é não parar.

Capítulo VI.

Os muros estavam prontos, mas as portas de Jerusalém ainda tinham que ser concluídas. A guerra se intensificava nos muros.

Os inimigos tentavam atrair Neemias para fora da cidade, a fim de matá-lo.

Capítulo VIII.

Com os muros restaurados, a cidade também o foi, tal como também a Lei.

Capítulo XIII.

A luxúria é a principal queda dos homens célebres. O desejo perverso por envolvimento romântico é fácil de ser negado, mas é difícil livrar-se dele depois de tê-lo aceitado.

O livro de Ester.

Capítulo II.

Logo você vê que o estilo de escrita do livro de Ester é muito diferente de tudo o que já foi lido até o momento. Ele é narrado como um livro de ficção é narrado, se é que é lícito fazer tal comparação, com uma leitura fácil, mais fluida que todos os outros livros. Ele contém uma só história, que é narrada de forma detalhada e autocontida, explicando como e porquês. Os outros livros mostram apenas aquilo que era relevante à fé e à instrução, de forma que a leitura dava grandes saltos temporais em poucas linhas e muitas histórias aconteciam muito rápido. Talvez esse estilo de escrita dissonante de Mordecai (supostamente autor do livro), somado ao fato de que o Nome não ocorre neste texto, tenha contribuído para a remoção do livro de Ester do cânon oficial cristão durante um breve período de nossa história. Sim, houve um tempo em que Ester era considerado deuterocanônico, como são Tobias e os quatro Macabeus. Mas algo em particular que eu gostaria de apontar neste capítulo é como o sexto verso pode ser traduzido de maneiras bem diferentes dependendo do modo de tradução utilizado. Na minha Bíblia, o texto é traduzido por equivalência formal, ficando “[…] que fora transportado de Jerusalém, com os transportados, que foram transportados com Jeconias, rei de Judá: ao qual transportara Nabucodonosor, rei da Babilônia.” A ocorrência de tantas variações de “transportado” se deve ao fato de que, na equivalência formal, um substantivo deve ser traduzido por um substantivo equivalente ou próximo, um adjetivo deve ser traduzido por um adjetivo equivalente ou próximo, um artigo por um artigo, um advérbio por advérbio e assim por diante. Uma palavra deve ser traduzida por outra equivalente ou próxima, pertencente à mesma classe gramatical. Isso prejudica a estética do texto, mas não o significado e ganha-se em fidelidade. Já na equivalência dinâmica, que preserva o significado da frase, mas não necessariamente traduz literalmente nem se preocupa tanto com as classes gramaticais, fica mais ou menos como na Tradução do Novo Mundo: “Ele tinha sido exilado de Jerusalém junto com o povo que foi transportado com Jeconias, rei de Judá, o qual foi levado para o exílio por Nabucodonosor, rei de Babilônia.” Supondo que a palavra equivalente a “transportado” ou “exilado” aparece sempre a mesma, sob diferentes trajes, nesta sentença no idioma original, ela foi substituída por palavras próximas ou outros equivalentes. Não se perde em sentido, ganha-se em estética, perde-se em fidelidade (por se estar traduzindo o mesmo vocábulo com diferentes palavras na mesma sentença, o que poderia dar a entender que palavras diferentes, mas com o mesmo sentido, são usadas).

Capítulo IX.

Ester, após virar rainha, resolveu que seria interessante matar os dez filhos do já defunto homem, que tramava contra os judeus da região. Mas a Lei diz que não se deve matar. E, caso se encontre exceção para matar, que matasse o pai segundo seu pecado e o filho segundo seu pecado, mas nunca o filho pelo pecado do pai e vice-versa. Para obter seu pedido, ela pediu que o rei Assuero desse a ordem para matar. Se a ordem partiu do rei, que não era judeu, sendo que Ester, judia, não podia ordenar nada, mas sugerir apenas, então quem matou foi o rei.

O livro de Jó.

Capítulo II.

Deus também provê a punição e o mal quando necessário. Um Deus sábio deve saber que a punição, que é um mal, mesmo que para o ponto de vista do punido, é necessária, por exemplo. Ele não seria sábio se usasse seu poder apenas para prover coisas particularmente boas, embora as ações de Deus sejam boas no sentido geral, segundo Tomás de Aquino, pois seus atos visam a ordem do universo, mesmo quando não entendemos isso bem.

Capítulo III.

Em situações muito ruins, é melhor morrer. Essa opinião é partilhada por Sêneca.

A morte é um descanso, um repouso.

Capítulo IV.

O ser humano não é mais justo que Deus, se tem entendimento limitado. Ele não sabe de tudo o que acontece neste instante, então só pode tomar um ato justo em proporção particular. E muitas vezes é um ato incompleto ou aparentemente justo, não sendo realmente justo.

Ninguém leva saber ou riqueza para a sepultura. Se não leva saber, então a alma intelectiva parece não subsistir após a morte, como queriam Tomás e Aristóteles.

Capítulo V.

A ira mata os loucos e o zelo mata os tolos. Porque nem o louco pode administrar a ira nem o tolo pode lidar com o zelo.

A razão do trabalho não é a sega do trigo nem o arado. A razão do trabalho vem do próprio ser humano. A terra, por si, não produz trabalho algum, porque o trabalho é um ato genuinamente humano, como diz Marx. Aliás, parece que o trabalho está na natureza humana, porque é escrito que o homem nasce para o trabalho.

A lógica divina é impecável, óbvio. O conselho divino põe os sábios em xeque, porque o entendimento humano é imperfeito e limitado. Mas Deus envergonha os sábios na medida em que seu conhecimento possibilita coisas perversas.

O conselho dos sábios arrogantes é como andar no escuro. Ironicamente, o ateu Xenófanes diz algo parecido quando ele menciona que a prática filosófica é entrar numa casa escura para procurar um objeto perdido chamado “verdade”. Mas mesmo que alguém encontre a verdade lá dentro, não seria capaz de dizer que é a verdade, tanto porque está escuro como porque o filósofo talvez não saiba o que é a verdade e como ela é em primeiro lugar.

Mas Deus pode iluminar o humilde e livrá-lo do mal, então o filósofo que procura a sabedoria divina e a usa na sua leitura do mundo seria, levando o livro de Jó às últimas consequências, mais confiável.

Deus pode reverter os castigos que ele mesmo causa.

Capítulo VI.

Jó sentia-se injustiçado porque sentia que Deus estava causando seus males. Mas Deus havia permitido a Satanás que este tentasse a Jó, a fim de verificar que Jó não lançaria maldição contra Jeová durante toda a tentação. Se Jó soubesse o que estava realmente acontecendo e estivesse vendo que tudo era um teste, talvez pensasse diferente. Afinal, o conceito de justiça que as pessoas têm só é imperfeito porque seu conhecimento dos fatos é imperfeito.

Não é justo repreender uma pessoa sem atentar para as razões de seu delito.

Capítulo VII.

Segundo Jó, o que desce à sepultura não torna a subir.

Capítulo VIII.

Deus não perverte o direito. Se ele estava fazendo mal a Jó (na verdade, era Satanás), era porque o engrandeceria mais tarde, posto que Jó nada havia feito para merecer punição.

Deus não favorece os ímpios.

Capítulo IX.

As razões da punição divina são inquestionáveis.

Capítulo XI.

Jó ainda não maldisse Deus, mas questionou sua justiça, pelo que foi repreendido. Jó se pergunta se fez algo que desagradou a Deus e um dos interlocutores pensa que Jó fez. Estão todos perdidos ali, ninguém sabe o que está realmente acontecendo (se não me engano, esta é a primeira vez que Satanás é referido por esse nome, não se falou na serpente por um bom tempo). Só Deus e Satanás sabem o que realmente se passa. Isso realça a ignorância humana sobre os negócios divinos.

Capítulo XII.

O tempo traz a sabedoria. Mas, como existem velhos ignorantes, ela não chega ao mesmo tempo para todos. Alguns morrem sem obtê-la.

Capítulo XIII.

Não se deve dizer que alguém está sendo castigado por Deus, porque você não conhece os pecados daquela pessoa, nem o que ela faz para ser ou não digna de perdão.

Capítulo XIV.

O pouco tempo de vida humana é cheio de problemas e inquietações.

Se você corta uma árvore, ela se renova. Mas se você mata um ser humano, ele não se recupera disso.

Aqui é dito que o ser humano não tem parte imortal. Ele morre e como que adormece. Não acorda mais, segundo Jó.

A vida é, para Jó, uma dor contínua que só cessa com a morte. Se viver é sofrimento e morrer é descanso, então não é possível ser feliz.

Capítulo XV.

Jó escolheu a “língua dos astutos”, ou seja, dos sábios, para argumentar. Elifaz então argumenta que Jó está esquecendo que a oração existe.

Elifaz continua a argumentação dizendo que a nossa vida é ruim por nossa causa, porque a iniquidade causa problemas futuros. Essa também é a opinião de Agostinho, que diz que a alma desregrada pune a si própria com o resultado de seus atos.

Capítulo XVI.

Jó responde, argumentando que nem todos os males que sobrevém à pessoa são sua culpa. Quem fala dessa forma é quem não tem do que se queixar.

É extremamente frustrante se sentir punido pelo que não se fez.

Capítulo XIX.

Jó ainda não maldisse Deus, mas sentia que o que estava acontecendo com ele vinha do divino. A razão de suas reclamações era que ele sabia que não havia feito nada para merecer aquilo.

Capítulo XXI.

A pergunta de Jó: porque os maus prosperam se existe um Deus Todo-poderoso ao lado dos bons?

Segundo Jó, maus e bons morrem e vão para o mesmo lugar: o solo.

Capítulo XXII.

O prudente é útil a si mesmo. Deus não precisa de nós.

Os ímpios enriquecem, mas naquilo que não tem verdadeiro valor. Deus, quando atentar para o sofrimento dos que são oprimidos pelos ímpios, providencia o fim desse ímpio. Elifaz toma o exemplo do dilúvio.

Se for necessário para manter um justo feliz, Deus pode poupar um injusto por amor ao justo. Isso me lembra de um enigma ateu, no qual é dito que as pessoas que vão para o Paraíso não estarão sumamente felizes, sabendo que seus amigos, que eram ímpios apesar de queridos, estão no Inferno.

Capítulo XXIII.

Não vemos Deus, embora ele esteja presente. Apesar de não o vermos, ele nos vê e nos conhece.

Capítulo XXVIII.

Temer Deus é sábio. Evitar o mal é inteligente.

Capítulo XXXII.

O Espírito inspirador revela a sabedoria.

Capítulo XXXIV.

Jó sustenta que seguir os mandamentos divinos não paga ao fiel. Eles então começam a cogitar a possibilidade de não ser Deus a causar o sofrimento de Jó. De fato Deus permitiu que Satanás atacasse Jó para ver se Jó lançaria maldição contra Deus, mas os ferimentos são causados diretamente por Satanás.

Um oponente de Jó sustenta que “todos são obras de suas mãos”, isto é, que cada um se faz o que é. Por causa disso, todos são fundamentalmente iguais em potencial, embora o potencial se desenrole de maneira diferente. Então, o fato de um ser rico e o outro ser pobre, sendo que ambos tiveram meios de se fazer assim, não indica que um é mais que o outro. É só que o pobre se fez pobre segundo a administração de seu potencial, que é igual ao de todos. E muitos se fazem pobres por escolha.

Capítulo XXXV.

Os males que fazemos na Terra não causam mal algum a Deus.

Capítulo XXXVI.

Deus nada faz sem razão. Se ele estivesse por trás do sofrimento de Jó, não seria sem razão. A tese dele é de que Deus tem a melhor justiça, então a justiça humana imperfeita nem sempre a compreende.

Capítulo XXXVII.

Mesmo que Deus cause sofrimento a alguém, tal sofrimento não compensa o benefício causado a todos nós. Deus fez os céus, as nuvens, os mares e as plantas, que sustentam e dão prazer ao ser humano durante sua vida. Será que merecemos essas coisas?

Capítulo XXXVIII.

Jeová intervém no debate para mostrar que nenhum ser humano pode se pretender mais sábio que ele.

A quantidade de sabedoria e entendimento que nós temos nos foi dada por Deus. De fato, podemos aumentá-la com estudos, mas somos limitados, podemos errar e nunca saberemos tanto quanto Deus. Nada se compara ao conhecimento divino, que é ilimitado.

Capítulo XXXIX.

Jeová cita vários conhecimentos que ele tem, mas que eram inacessíveis aos seres humanos da época. Essas são coisas que a ciência atual pode saber. Isso nos lembra do que disse Tomás de Aquino: que o raciocínio humano está tanto mais correto quanto mais se aproxima daquilo que é revelado. Só que a revelação bíblica dá conclusões e não processos. Então, é como se Tomás comparasse o mundo como um livro didático de matemática, onde constam as respostas das questões atrás do livro. Só que o livro é o mundo, as respostas são a revelação. Então, embora saibamos a resposta de algumas coisas, não sabemos de imediato que processos nos poderiam levar a essas respostas. O processo e o raciocínio são de nossa parte. Além disso, para Tomás, se nossos raciocínios chegam a conclusões que negam o que diz a Bíblia, estamos automaticamente errados. Então, o ser humano, conforme evolui, pode chegar a ter alguns conhecimentos antes exclusivos da divindade, mas, como já dito, nunca chegará a saber tudo, pois ainda existem conhecimentos vetados ao ser humano. Então, pela sabedoria, o ser humano pode se aproximar de Deus.

Observe que Deus, embora tenha vetado o consumo de sangue aos seres humanos, fez certos animais se alimentarem de sangue. Também isso deve ter sua razão para a manutenção da ordem cósmica.

Capítulo XL.

Menções ao Beemote e ao Leviatã.

Capítulo XLII.

Jeová desqualifica o discurso de Elifaz, por falar de Deus sem lhe dirigir elogio.

Terminado o teste, Jó recebeu em dobro tudo o que perdera. Jó admitiu que ele não deveria ter questionado a justiça divina e se arrependeu. Mas não maldisse a Deus em momento algum.

O livro dos Salmos.

Salmo I.

Novamente, a recompensa física da observância da Lei é posta em evidência. Depois do que foi dito no Livro de Jó e em outros livros, alguém poderia entender que não existe vida após a morte.

Admoestação para que não se zombe de alguém.

Salmo II.

Se “messias” quer dizer ungido e se o cristo é filho de Deus, este capítulo então faz referência a Jesus.

Salmo VI.

Ninguém louva Deus depois da morte.

Salmo VIII.

Nós somos um pouco menores que os anjos.

Nós estamos acima do resto da natureza. Mas, tal como um comandante pode arruinar seu exército, a natureza que está nas mãos do ser humano pode ser por ele arruinada. O capitão manda no exército, mas precisa de sabedoria, porque ele precisa do exército. Tal como o ser humano, que manda na natureza, precisa de sabedoria para não arruiná-la, pois dela precisa.

Salmo X.

A fé é aprendida. Ninguém nasce tendo fé. Razão pela qual existem pessoas que não creem.

Salmo XIII.

Nada de errado em pedir coisas a Deus e fazer-lhe perguntas. David faz várias ao longo dos Salmos. Em adição, este capítulo diz “para que não adormeça na morte”, fazendo relação entre morte e sono, ambos estados de inconsciência.

Salmo XIV.

Referência ao ateísmo como loucura. Este salmo inicia a reflexão de Anselmo, o autor do argumento ontológico para provar a existência de Deus. Sabemos que o argumento ontológico é fraco em sua essência e foi duramente criticado. Mas ainda permanece relevante para os metafísicos e historiadores.

Buscar a divindade é um sinal de sabedoria. Os outros livros nos mostram que, na busca pelo Deus verdadeiro, podemos encontrar divindades erradas (Agostinho inclusive nos diz que chamar nosso Deus de Senhor ou Jeová não garante que estamos nos referindo à divindade certa, se não conhecemos realmente a quem estamos invocando), mas esse salmo, que diz que ateus são loucos e que os que procuram Deus são sábios, apesar do risco de encontrar a divindade errada na procura do Deus verdadeiro, parece sugerir que encontrar uma divindade errada não remove a sabedoria do crente, como se fosse melhor procurar o eterno e encontrar um deus falso que ser ateu. De fato, acreditar numa divindade qualquer lhe dá sensibilidade ao lado espiritual das coisas, o que é o primeiro passo na busca do Deus verdadeiro. Porém, negar a existência da realidade espiritual de todo é não ter dado ainda esse passo. E esse é um passo difícil de dar, pois requer afastamento da realidade material em busca da espiritual. Em outra palavras, é mais fácil se converter de uma religião a outra do que do ateísmo à religião.

Salmo XVIII.

Ao puro, Deus se mostra puro; ao benigno, Deus se mostra benigno. É nesse sentido que se diz que Deus nos julga segundo nossa justiça, porque os primeiros critérios do julgamento divino são os nossos, que usamos para julgar os outros.

Salmo XXIII.

Este clássico salmo ilustra a paz que se pode obter pela obediência ao mandamento divino, pois Jeová protege e acalma aqueles que o obedecem.

Salmo XXVIII.

Não adianta ter paz com o próximo e desejar se aproveitar dessa paz para fazer-lhe mal. Deus não se agrada dessa falsidade.

Salmo XXXIV.

Nada falta aos que confiam em Deus. Cedo ou tarde, Jeová proverá.

Salmo XXXVI.

Embora minha leitura diga que este salmo refere-se a benefícios terrenos, Tomás de Aquino frequentemente o usa como se referisse a bens recebidos depois da morte.

Salmo XXXVII.

Não se deve ter inveja dos maus, porque eles perecem logo. Seu sucesso é vaidade.

Também este salmo promete a Terra por herança aos que são mansos. Daqui é tirado o principal argumento jeovista de que o paraíso será na Terra, não no céu.

Salmo XLI.

Atentar para o miserável causa livramento do mal. Mas antes ou depois da expiação? Se o indivíduo já estiver expiado de seus pecados, atentar para o miserável não terá qualquer efeito, porque o indivíduo já estaria livrado do mal que Jeová poderia lho causar por ter culpa. Então, esta sentença faz mais sentido para os que ainda não estão expiados. Isso parece evidenciar que o amor perdoa pecados (pois expiar-se causa livramento do mal, enquanto a permanência do pecado o causa), como é dito também na religião cristã.

Salmo L.

Neste salmo, vemos que Jeová não ingere os sacrifícios feitos pelos israelitas. Mas então por que a administração do perdão é feita pelos sacrifícios? Como eu disse antes, a necessidade de um sacrifício para obter perdão talvez não fosse o ponto principal, mas um meio de garantir que o povo se abstivesse do pecado. Afinal, se o pecado pudesse ser facilmente e confortavelmente expiado, não haveria necessidade de evitá-lo com rigor. Também é dito que Jeová se agrada do louvor e da glória que seus fiéis lhe dispensam. Além do mais, como alguém amoroso e justo, ele defende o fraco que o invoca com fé em sua necessidade. Donde decorre que o sacrifício para expiação do pecado provavelmente era um recurso para estimular a abstinência do pecado e que Deus poderia ministrar o perdão e dispensar favores sem que o indivíduo estivesse quite com as expiações ou puro, desde que tivesse fé e fosse adorador sincero (se bem que, sendo adorador sincero, iria querer fazer os sacrifícios e seguir a Lei).

Salmo LI.

Confirma o comentário logo acima. Ao dizer que os sacrifícios para Deus são a tristeza e o sofrimento, não os holocaustos, Davi parece sugerir que a necessidade e o arrependimento de alguém têm peso maior que o sacrifício feito automaticamente, por questão ritualística. Não significa que o sacrifício não deva ser feito, mas significa que o fator espiritual tem mais peso na administração do perdão, de forma que o sacrifício poderia ser feito mais tarde ou não ser feito. Porém, o arrependimento verdadeiro vem da consciência em bom estado. Simplesmente orar dizendo estar arrependido sem realmente estar não conta. Esses ainda teriam que sacrificar, se não fossem capazes de sentir real arrependimento pelo que fizeram. Então, talvez o sacrifício também servisse ao propósito de manter na linha aqueles que não achavam que seus pecados eram dignos de arrependimento, porque nem todos veem suas ações como más e só as evitariam se a expiação fosse enfadonha ou difícil ou se estivessem sob pena de punição.

Além disso, ter uma boa consciência permitiria que o sacrifício ritualístico fosse feito de boa vontade, o que seria altamente agradável a Deus.

Salmo LXIX.

Aqui, Davi diz coisas que parecer se referirem a Jesus. É dito que ele foi estranho à mãe e aos irmãos e que o zelo pela casa divina o consumiu. O evangelista Mateus atribui a última característica a Jesus, mas Davi poderia também tê-la. E Jesus era estranho à mãe dele e aos seus irmãos, por ter dupla natureza. Também é dito que sua sede foi aplacada com vinagre, sendo que seria dado a Jesus, mais tarde, uma esponja com vinagre para sanar sua sede durante a tortura.

Salmo LXXIII.

Não se deve ter inveja dos injustos, porque eles caem quando suas injustiças são descobertas e contra-atacadas. Mas o justo nada tem a esconder nem precisa temer contra-ataque.

Salmo LXXVII.

Pensar nas coisas ruins sem disso tirar proveito enfraquece a pessoa. Quando não se pode agir sobre uma situação, lembre que Deus pode agir sobre ela e mudá-la, pois Deus pode mudar as coisas como elas são.

Salmo LXXVIII.

Este salmo sugere que Deus pode sentir solidão pela falta de seguidores e sentir ciúme por causa dos deuses falsos. Tomás de Aquino sustenta que nem um nem outro devem ser tomados em sentido literal. Mas, supondo que a solidão possa, por que Deus não suaviza seus mandamentos para obter mais seguidores? Muito simples: a companhia de alguém que destrói a si mesmo e destrói seus projetos deve lhe ser insuportável. Os mandamentos divinos visam a preservação humana e da criação inteira. Se Deus suavizasse os mandamentos para ter mais seguidores, estes seriam seguidores tanto autodestrutivos como destruidores daquilo que Deus construiu nos sete dias criativos. Essa não é uma amizade desejável nem por um ser humano, pois imagine você ser amigo de um suicida que cotidianamente destrói o que você deu duro para construir. Mas se isso fosse literal, Deus então precisa de nós, contradizendo o que diz o Livro de Jó? Não é assim. Deus poderia muito bem substituir a raça humana ou refazê-la se desejasse, como nos mostra o Gênesis. Então, mesmo que ele precisasse de companhia, o que só seria possível numa interpretação literal, nem por isso precisa ser a nossa. Já no caso do ciúme, é difícil pensar em literalidade, considerando que é difícil sentir ciúme por causa do que não existe. Mais fácil sentir raiva por ver sua criação enganada e adorando uma mentira.

Salmo LXXXV.

Aqui parece haver uma referência à ressurreição, quando é perguntado se a ira divina se alongará de geração à geração e se Deus não nos vivificará novamente.

Salmo LXXXVIII.

É interessante como o principal argumento de Davi quando está em dificuldade é ressaltar como Deus não será adorado entre os mortos. Se Jeová se voltar contra todos, prejudicará sua criação. Davi o lembra disso com frequência nos Salmos, como que implorando misericórdia divina diante das dificuldades, ressaltando que ninguém o adorará se todos morrerem. Isso parece atestar para uma possível solidão literal.

Salmo XC.

Como um ser eterno, o tempo talvez passe de forma diferente para Deus. E aqui é dito que mil anos são como um dia para Jeová. Este verso é muitas vezes usado contra os criacionistas da Terra jovem, que acreditam que os dias criativos foram dias literais de vinte e quatro horas. Mas, se você entender este verso de maneira literal, estando de posse da doutrina de Dionísio, então os dias criativos não tinham vinte e quatro horas e a Terra não teria seis mil anos de idade.

Aqui se vê como a expectativa de vida da época de Davi já havia se estabilizado. Então, o ser humano que vivia oitenta anos era considerado longevo. Não se via mais alguém viver séculos, como no Gênesis.

Salmo XCIV.

Jeová é chamado “Deus da vingança” neste salmo. Será que um Deus justo pode se dar à vingança? Certo dia, eu estava conversando com meu sobrinho, então com oito anos, sobre a relação entre justiça e vingança. Ele é bastante questionador e bastante sagaz pra sua idade. Então, chegamos à conclusão de que a justiça humana é a legalização da vingança. Porque você tenta restabelecer a justiça pelo dano ao outro e pela compensação para si. Ora, mas causar dano a alguém pelo dano que este alguém lhe causou é vingança. Mas nem por isso deixa de ser justo. Como a justiça divina é perfeita, ele pune na exata medida do merecido. Mas punir um mau pela opressão que ele causou ao bom é vingar o bom pelo dano recebido. É por isso que Deus não quer que nos vinguemos por conta própria, porque isso poderia nos dar margem de executar uma justiça pobre, que poderia acabar acarretando em punição indevida de nossa parte. Mas isso nos tornaria injustos, repudiáveis ao Deus da justiça. Então, que a vingança seja operada por Deus.

Salmo CIV.

Aqui é ilustrado como Deus fez as coisas de forma sábia. Se as coisas foram feitas com sabedoria, então Deus não deve se opor à ciência, que a extração de sabedoria da natureza, que foi ordenadamente criada por ele. Este capítulo pode ser usado como defesa da quinta via para provar a existência de Deus, a do desenho inteligente: a regularidade da natureza sugere que ela segue um programa estipulado por alguém racional, porque o caos não segue regularidade.

Salmo CVI.

O erro de Moisés que lhe custou a entrada na Terra Prometida foi causado por falta de atenção. Ele já estava irado por causa dos israelitas e falou sem pensar.

Também é feito neste capítulo uma comparação entre deuses falsos e diabos.

Salmo CXII.

Felizes os que buscam as virtudes divinas e quem toma prazer nelas. Aristóteles é dessa opinião, quando diz que a felicidade vem da proximidade daquilo que se ama. Então, embora o amor à virtude dê a felicidade mais estável, nem todos podem ser felizes praticando a virtude, porque nem todos a amam. Os que praticam a virtude sendo forçados a isso, antes estão infelizes. Se eu amo a virtude ou a divindade, tomarei prazer na prática da virtude divina. Mas a filosofia helenística, notavelmente a epicurista e a estoica, também vê felicidade como afastamento da dor. Se você viu como Israel se queixava de Deus com frequência no Êxodo e a multidão de pecados cometidos premeditadamente até Neemias, você vê que alguns preferiam não praticar a virtude. Se não era possível que eles amassem a virtude divina, seria necessário que temessem a dor que se poderia sentir pela inobservância do mandamento. Então, a felicidade não precisa ser somente a aproximação daquilo que se ama, mas também o afastamento da dor (punição) que poderia vir da inobservância do mandamento. A punição manteria virtuosos também aqueles que não gostavam tanto de praticar a virtude, o que poderia os fazer gostar mais desta, por lhes proporcionar afastamento da dor. Então eles passariam a praticar a virtude por conta própria. Não seria a felicidade mais estável no ver aristotélico, mas seria bastante na visão helenística.

Salmo CXXVII.

Se você se propõe a fazer algo para Deus, mas Deus não está operando com você, a obra será vã. Se você faz algo que Deus também gostaria que fosse feito, ele poderá lhe ajudar em tal empresa.

Salmo CXXXIX.

Para Tomás, este capítulo atesta a onipresença divina. Para mim, que acho que uma interpretação metafórica seria mais adequada, este capítulo atesta a onisciência divina.

Provérbios, ou sentenças de Salomão.

Capítulo I.

O temor de Deus como princípio da ciência. Para judeus e cristãos, a natureza é obra divina. Ela nos causa temor e espanto e nos põe frente a frente com nossa ignorância. Aristóteles e Platão estão de acordo que o espanto e a curiosidade são o princípio da busca pelo conhecimento. Para o fiel, o espanto perante a natureza, que é parte da criação, pode muito bem ser uma manifestação do temor divino.

A sabedoria afasta do mal. O louco com muitos recursos destrói a si mesmo.

Capítulo II.

A busca pela sabedoria aproxima o indivíduo de Deus. Tomás novamente reaparece, pois o raciocínio bem conduzido, para ele, não chega à conclusões distantes daquelas obtidas pela revelação.

Deus dá a sabedoria. As palavras divinas constam na Bíblia. Então a Bíblia é um ponto de partida para reflexão. Em adição, Salomão diz várias vezes, embora de maneira implícita, que a finalidade da sabedoria é a segurança e a estabilidade, o afastamento do mal.

Capítulo III.

Se você puder fazer o bem, faça.

Não faça mal aos outros sem razão.

Capítulo IV.

A prudência dos mais velhos é mais segura.

O principal é a sabedoria. Isso me lembra de Pascal, que demonstrou que crer em Deus é algo sábio. Porque existem quatro possibilidades: Deus existe e eu creio nele, Deus existe e não creio nele, Deus não existe e eu creio nele, Deus não existe e não creio nele. Se ele existe e eu creio, eu serei infinitamente recompensado. Se ele existe e não creio, serei infinitamente punido. Se ele não existe e eu creio, ainda posso gozar dos benefícios como aperfeiçoamento moral (se a crença for bem conduzida) e alívio do medo da morte. Se ele não existe e não creio, nada acontece. Analisando as quatro possibilidades, eu tenho mais ganho me aproximando de Deus do que me afastando dele.

Capítulo VI.

As coisas que Jeová mais odeia: arrogância, mentira, assassínio, intenção viciosa, solicitude para o mal, falsa testemunha e intriga.

Cuidado com as mulheres que só querem teu dinheiro, porque essas arruínam facilmente suas vítimas.

A melhor forma de evitar o dano é não se expor ao perigo em primeiro lugar. Não se deve fazer algo sem antes refletir se o dano compensa. Veja se o que você está para fazer é realmente o que você quer e se você está pronto para receber o dano que pode advir disso.

Roubar para saciar a fome é perdoável. Mas ninguém que tem sexo com uma mulher que já é casada pode ser perdoado da mesma forma. Enquanto um é o delito daquele que tem necessidade porque padece, o outro é visto como o delito de quem não tem autocontrole. Então este último é mais difícil de perdoar.

Capítulo VIII.

A sabedoria vale mais que o dinheiro. Porque se você tem sabedoria poderá obter dinheiro. Mas o dinheiro não traz sabedoria. Faz parte da sabedoria a prudência e o julgamento. Não existem cursos para isso. Que não se confunda a sabedoria com simples conhecimento técnico.

A sabedoria proporciona a justiça. De fato, nossa justiça não é a melhor possível, porque nossa sabedoria também não o é, mas pela sabedoria se pode chegar a uma justiça que é o bastante. A melhor justiça possível cabe a Deus somente, que é sumamente sábio.

Tomás vê neste capítulo referências a Jesus. De fato, é dito por Paulo que Jesus foi a primeira criatura de Deus e que através dele foram feitas as outras coisas. Mas aqui é dito que a sabedoria existia antes das coisas criadas no Gênesis. Para Tomás, Jesus é essa sabedoria.

Em adição, a sabedoria personificada diz através de Salomão que quem a achar achará a vida. Jesus mais tarde diz de si mesmo que ele é o caminho, a verdade e a vida.

Donde decorre que odiar a sabedoria é amar a morte.

Capítulo X.

É importante apontar o erro dos outros, para que eles se ajustem e consertem seu proceder. Isso não precisa ser feito de forma dura, pública e humilhante, porque isso poderia impedir o indivíduo de tirar proveito da repreensão. Porém, não é justo que não se repreenda o erro de alguém que você vê errar. Inobstante, que isso seja feito sabiamente.

Capítulo XII.

O orgulho não deve posar obstáculo na obtenção de víveres em momentos de necessidade. Se você está passando necessidade e é orgulhoso demais pra pedir ajuda, morrerá.

Não é possível destruir a verdade. A mentira tem curta duração, porque a verdade se impõe.

Capítulo XIII.

Por que é abominável ao louco apartar-se do mal? Porque, para eles, o mal é um bem. Eles amam o mal porque identificam nele um bem.

É possível tornar-se sábio tendo amizade com gente sábia. Também é possível enlouquecer se enturmando com loucos.

Punir o filho pelos seus erros é demonstração de amor. Porque se você não pune o filho quando ele comete alguma falta grave, está contribuindo para sua má formação e para a perpetuação de seu mal comportamento. Se você odeia seu filho e quer que ele se arruíne no futuro, não puna seus maus comportamentos.

Capítulo XIV.

Desviar-se do caminho divino de propósito é desprezar Jeová.

Existem caminhos que parecem bons, mas que trazem más consequências se tomados. Então, é preciso avaliar não apenas a índole de um ato, mas suas consequências também, antes de tê-lo por justo.

Estar alegre não necessariamente elimina a dor.

A pessoa boa se sente feliz consigo mesma.

Todo emprego digno dá proveito. Se alguém te aconselha a procurar apenas este ou aquele emprego e você gasta todo o seu tempo tentando conseguir apenas este ou aquele emprego, deixa passar várias oportunidades de obter sustento. Então, se você não tem preferência, qualquer emprego serve. Depois que você estiver estável, poderá pensar em arrumar algum outro.

O rei depende de seu povo. Se não houver povo, sobre quem se governará?

Boas decisões são tomadas com paciência. Não se apresse no julgamento.

Capítulo XV.

É necessário responder brandamente. Falar com proposital dureza incita a ira do ouvinte.

A oração dos justos é o bastante, mas o sacrifício dos ímpios não o é. Então, é melhor ter arrependimento verdadeiro e orar por perdão, mesmo que sem sacrificar, do que sacrificar apenas para arcar com uma exigência ritualística.

Jeová ama os que são justos.

Pessoas alegres conservam a beleza do corpo por mais tempo.

Rejeitar a correção é sinal de menosprezo. De fato, se você não se interessa em sempre aperfeiçoar seu comportamento, o que requer acatar críticas sinceras, você menospreza a si próprio e faz pouco caso de sua própria evolução moral.

Capítulo XVI.

O trabalho feito com intensidade sinaliza que o trabalhador realmente precisa daquele emprego. A necessidade motiva o trabalho.

Capítulo XVII.

O louco é mais perigoso do que um animal enfurecido. Vale lembrar que os Provérbios usa o termo “louco” como sinônimo de ignorante, antônimo de “sábio”.

Um filho ignorante é vergonha para os pais.

O silêncio oportuno é sinal de sabedoria. Tanto que um ignorante só é identificado depois que começa a falar.

Capítulo XVIII.

Não responda uma pergunta sem ouvi-la toda.

Mantenha os bons amigos para não ficar sem irmãos.

Capítulo XIX.

Adquirir conhecimento é amar a própria alma, porque o conhecimento aperfeiçoa quem o recebe.

Ter piedade do pobre é como dar algo emprestado a Deus. Donde vem a expressão “Deus lhe pague”, dita pelos mendigos que recebem esmolas.

Se você não conseguiu educar seu filho corretamente e agora ele se tornou um problema para você, nem por isso você deve matá-lo.

Capítulo XX.

É possível conhecer a índole de alguém pelo produto de suas ações.

A punição é a purificação do mau. Sofrer o mal que causou o expia.

Capítulo XXI.

O agir justo é melhor que oferecer sacrifício.

Melhor estar sozinho do que com uma esposa insuportável.

Este capítulo sanciona o pensamento principal de Tomás, pois é dito que não existe raciocínio que obre contra Jeová. Ou seja, nenhum raciocínio correto está contra ele.

Capítulo XXII.

A instrução dada na infância dificilmente se abandona. Se o filho ver o valor da instrução, a levará para a vida toda, especialmente se a recebeu quando criança.

Quem toma emprestado torna-se servo de quem empresta. Obviamente metafórico. Isso quer dizer que quem toma emprestado passa a dever ao que emprestou.

A melhor forma de afastar a ignorância é pela correção.

Capítulo XXIV.

Não é boa ideia se alegrar com a desgraça de qualquer um que seja, mesmo com a desgraça dos inimigos.

A lei humana também precisa ser seguida. Porém, se houver conflito entre a lei humana e a Lei divina, convém seguir a divina.

Se um mal é repreendido, isso é não é um mal para ele, pois é instrução para melhorar. Então, parece lícito se alegrar com sua repreensão.

Capítulo XXV.

Deus deixou algumas coisas ocultas. Cabe à humanidade esquadrinhar essas coisas. Isso mostra que o conhecimento secular serve como meio de ascensão ao conhecimento divino.

Não convém saber o que o outro esconde.

Capítulo XXVI.

Responder o louco segundo sua loucura pode ou não ser feito dependendo do efeito que se quer ou que se teme obter. Se mais te importa não se tornar louco como o ouvinte, então não convém fazê-lo. Mas se queres demonstrar humildade, convém.

Capítulo XXVIII.

Os maus não entendem a justiça. Os bons, que procuram a ciência divina, a entendem plenamente.

Muitos se queixam de que Deus não ouve as orações, mas, segundo Salomão, a oração dos desobedientes é abominável. Em outras palavras, aqueles que nem sequer se esforçam em seguir os caminhos divinos e a fazer a vontade de Deus não têm suas orações atendidas.

Os pobres podem julgar um rico se eles tiverem entendimento. Então, nem mesmo o rico está livre da infâmia e do julgamento.

Os pobres precisam de pouco. A ajuda que se dá aos pobres, como as esmolas, não fará falta.

Capítulo XXIX.

Os sábios entendem a causa dos pobres e seus desejos. Mas os loucos não conseguem entender as razões que levam os pobres a reclamar.

Capítulo XXX.

Convém receber a recompensa pelo trabalho na medida devida. Recebendo demais, nos esquecemos de Deus. Recebendo pouco, somos tentados ao ilícito.

Livro do Eclesiastes, ou pregador.

Capítulo I.

“Vaidade” são os atos que não levam em consideração a finitude da vida. Quando o ser humano quer ser maior que os outros e se esquece que sua vida e seus sucessos não lho farão diferença depois da morte, pensando que ter a melhor vida possível agora fará diferença, age com vaidade, porque se esquece que não levará nenhum prazer, conhecimento ou dinheiro para a morte. Como fim da vida, a morte cessa nossos sentidos e nossas ações. Então, embora nossos atos sirvam para os outros, eles não servem para nós em última instância, porque morreremos e não aproveitaremos nada do que fizemos depois que nossa vida acaba. Então, qualquer cuidado desmedido com esta vida e com o que fazemos nela, especialmente quando visa unicamente a nós mesmos, é vaidade.

As testemunhas de Jeová utilizam o quarto verso para mostrar que a Terra não será destruída no julgamento e para apoiar seus raciocínios sobre o paraíso na Terra.

Aqui, Salomão, na pessoa do Pregador, diz que nada de novo ocorre na Terra. Toda a produção humana e toda a produção natural já aconteceu antes e se repetirá, mesmo que sob diferentes formas e intensidades. Nada deve causar espanto ao sábio, porque tudo o que acontece agora já aconteceu antes em algum momento, mesmo que sob uma roupagem diferente ou com intensidade diferente.

A sabedoria tem por função apontar o caminho para a vida feliz e estável. Mas, quanto mais sabedoria temos, mais vemos o quanto é difícil ter uma felicidade perfeita e de mais problemas nos tomamos conta. Salomão conclui com isso que ter sabedoria demais, na verdade, é uma atitude que obra contra a felicidade.

Capítulo II.

A sabedoria deve ser buscada, por ser mais excelente que a loucura. “Loucura” é usada como sinônimo de “ignorância” ou “imprudência”, não como doença ou comportamento anormal. Na verdade, como diz Erasmo, se a loucura nasce com o ser humano, é a sabedoria que é um comportamento anormal.

Porém, é importante saber que também a busca pelo saber é vaidade. Nossa sabedoria não vai conosco à sepultura. Melhor seria se nossa sabedoria servisse de algo para os vivos depois que nós morremos, porque nosso saber cessa na morte. Até agora, a Bíblia tem se oposto ao conceito de vida após a morte.

Também é vaidade o bom governar. Porque o próximo governante pode muito bem destruir aquilo que o governante anterior construiu com tanto esforço.

Capítulo III.

Não há nada de errado em aproveitar o fruto do seu trabalho. É digno e direito do trabalhador se contentar com o retorno de seu esforço, sem falsa modéstia.

Se todos morremos no fim das contas, qualquer tipo de orgulho é vaidade. Que diferença faz eu ser mais rico ou famoso que meu próximo, se ambos estamos sujeitos à morte, que há de igualar a todos?

Todos retornaremos ao pó.

Capítulo IV.

Um pensamento recorrente na sabedoria antiga é o de que a vida é uma dor. Salomão chega ao ponto de dizer que os mortos estão mais felizes que os vivos, embora metaforicamente, como que dizendo que a vida é uma condição pior que a morte.

Os frutos de nosso trabalho, mesmo quando servem aos outros, podem acabar inspirando inveja em alguém. Os sábios tendem a ficar especialmente frustrados com a imperfeição das coisas e Salomão acabou de apontar que podemos inadvertidamente fazer o mal mesmo quando fazemos boas ações.

Não tem sentido se matar de trabalhar para obter mais que o necessário. O necessário basta e requer pouco esforço para ser conseguido, em relação ao esforço para obter e manter o luxo. O que trabalha para garantir o necessário terá tempo livre e, consequentemente, tranquilidade. Mas o que precisa se esforçar vaidosamente para manter seu estilo de vida luxuoso, que tranquilidade tem?

Capítulo V.

Não jure coisas a Deus se você não tem condições de cumprir com a jura.

Capítulo VII.

A tristeza é uma dor disciplinar. A dor é o primeiro sinal de que algo está errado e, estando triste, você é levado a admitir que algo vai mal e precisa ser consertado. A tristeza é um castigo inegável, uma dor que não cessa até você consertar o que deve ser consertado. Mas como isso requer que o problema seja identificado, a tristeza é a emoção própria dos sábios. Tanto que os idiotas são muito alegres.

Não convém dizer que as coisas de antes eram melhores que as de agora. Não é sábio dizer isso; existem coisas hoje que são melhores e coisas de ontem que eram piores. Não é como se o dia de hoje fosse necessariamente pior em tudo.

Salomão diz que existem pessoas justas que morrem por causa de sua justiça. Ora, mas Jeová disse que o justo seria recompensado e o ímpio seria punido. Mas se existem justos que morrem e ímpios que prosperam, parece que a justiça para esses casos não é feita em vida. Isso se harmoniza com a sentença “justiça para vivos e mortos” no livro de Rute. Mas essa justiça não é feita imediatamente, porque tudo indica que iremos ao pó imediatamente após a morte. Não se faz justiça do pó. A justiça é feita depois.

A sabedoria em excesso é deprimente. A loucura em excesso é mortal.

Capítulo VIII.

Cabe ao sábio interpretar as coisas do mundo. Se você entende filosofia como interpretação e explicação do real (aqui e agora), a Bíblia não se opõe à filosofia.

Capítulo IX.

A memória dos mortos se apaga. Então, não apenas nossas conquistas pessoais são vaidade, mas, se elas não forem úteis aos outros, também a memória dessas conquistas desaparece.

Mesmo que a sabedoria seja mais poderosa que as armas, um só pecador causa grande estrago.

Capítulo XII.

Basta seguir os mandamentos divinos para viver bem. A sabedoria é um adicional: mesmo tendo sua utilidade, não é extremamente necessária.

Cantares de Salomão.

Capítulo III.

Existe um tempo que desperta para o amor.

Capítulo VI.

Salomão tinha várias mulheres e concubinas. Mas isso não significava que ele amava todas igualmente. Ele tinha uma preferida, ao que parece.

A profecia de Isaías.

Capítulo I.

Jeová não estava mais respondendo aos sacrifícios de seu povo, porque eles estavam sendo feitos como exigência ritualística. Eles não estavam realmente se arrependendo de seu proceder e o povo estava em processo de decadência moral. Notavelmente, a taxa de homicídios havia crescido e as mulheres haviam se tornado lascivas. O que Deus queria era que seu povo aprendesse a fazer o bem e se afastar do mal. Isso valia mais que qualquer sacrifício, mas o povo não percebera isso e viam o sacrifício como uma espécie de “dispositivo de perdão”, do qual eles poderiam usar sempre que pecassem. Então, tendo esse dispositivo, pecavam premeditadamente, imaginando que isso os garantiria perdão por qualquer coisa.

Capítulo III.

Como disse Agostinho, a má alma castiga a si mesma com as consequências de seus atos.

Capítulo VI.

Aqui constam algumas profecias, talvez acerca de Jesus, o qual viria e falaria por parábolas difíceis para dificultar o entendimento de sua mensagem entre certos tipos de gente. Nem os que debalde o rejeitariam e nem os sábios locais entenderiam as parábolas, mas somente os interessados e humildes.

Capítulo VII.

Outra profecia acerca de Jesus: nasceria de uma virgem e seria chamado Emanuel, embora não literalmente, se você se lembra de como os nomes eram como apelidos (“Emanuel” significa “Deus conosco”).

Capítulo IX.

Ao ler Isaías dizer “quebrantaste o jugo de sobre seus ombros”, me pergunto se não estava se referindo à suavização da Lei que o messias proporcionaria.

Esse messias prometido herdaria o trono de Davi.

Capítulo X.

Não se deve pedir a alguém algo além de suas forças. Isso é injusto.

Capítulo XI.

Referência ao batismo de Jesus, ao dizer que o Espírito Santo repousaria sobre ele.

Este capítulo, se entendido com certo grau de literalidade, pode indicar que haverá um tempo em que o ser humano não mais contenderá com animais. Pode também indicar, simplesmente, tempos de paz.

Capítulo XIII.

Profecia sobre o fim da Babilônia. Até hoje, o território babilônico é inóspito, deserto, inabitado.

Capítulo XIX.

Aqui é dito que um redentor e protetor seria mandado da parte divina ao Egito. A família de Jesus teve que se abrigar no Egito por uns tempos, de fato.

Capítulo XXVI.

Infelizmente, agir justamente com um ímpio não necessariamente o faz aprender a justiça, nem o faz ter fé, se o ato justo procede de quem a tem.

Aqui fala da esperança de ressurreição. É a primeira ocorrência clara dessa crença: os mortos hão de ressuscitar. Então, o período de sono e inconsciência descrito nos livros anteriores se refere ao intervalo entre morte e ressurreição.

Capítulo XXIX.

Deus conhece suas criaturas, como o oleiro conhece o produto de seu trabalho. Com o diferencial de que Deus é onisciente. O que quer que ele queira saber, saberá.

Aqui também se fala de um livro que não será entendido por todos, mas que será ouvido por surdos e visto por cegos. Talvez seja outra referência a Jesus, o qual tinha poder sobre essas enfermidades.

Capítulo XXXIII.

O que ama a paz terá paz afinal.

Quando os planos divinos estiverem concluídos, não haverá mais doença. Observe como o último verso faz uma relação entre doença e erro ou transgressão. Como se as pessoas adoecessem por conta do pecado ou do erro. Mas que erro? O erro de Adão e Eva, que foi herdado por nós. Segundo Tomás, o pecado original é herdado por via genética. Por causa da corrupção causada pelo ato cometido no Éden, nossos corpos perderam a perfeição que deveriam ter.

Capítulo XXXV.

Quando o propósito divino for efetivado, os cegos e os surdos terão seus sentidos restituídos. Mais ainda: os aleijados terão seus membros restaurados. Isso provavelmente se refere ao momento após a ressurreição.

Capítulo XXXVIII.

Reforçando o dito de Salomão, de que as orações são ouvidas por aqueles que fazem a vontade divina, o relato da quase-morte de Ezequias é mencionado também na profecia de Isaías. Ezequias, informado por Isaías de que iria morrer em breve, chorou e pediu que Jeová se lembrasse do quão fiel ele foi. Jeová então lho permitiu viver mais quinze anos.

Capítulo XL.

É apontado mais tarde que a “voz que grita no deserto” era João Batista.

Capítulo XLII.

Mais profecias acerca do messias prometido, que viria a ser Jesus: o Espírito repousaria sobre ele e ele seria discreto. Também, ele viria a fazer julgamento sobre as gentes.

Operaria sinais milagrosos, como a restituição da visão aos cegos.

Capítulo XLIII.

Não existe salvação fora de Jeová. Isso pode ser usado a favor do trinitarismo: se Jeová é o único salvador, em que sentido Jesus é referido como salvador?

Parece que os sacrifícios eram feitos também como símbolo de honra e apego. O sacrifício tinha que ser acompanhado do reconhecimento de que Jeová é o único Deus, para que o sacrifício fosse recebido favoravelmente.

Capítulo XLV.

A Terra foi feita para ser habitada. Isso evidencia contra a destruição do mundo por Deus, para que as pessoas vivam nos céus. Se a Terra fosse simplesmente ser destruída mais tarde, não teria propósito.

As imagens e os ídolos, como as estátuas e os santos fetiches, não podem salvar ninguém. Nossa salvação procede de Deus somente.

Capítulo XLVII.

Punição sobre Babilônia, por causa da prática sistemática da feitiçaria.

Entre os tipos de feiticeiros citados estão os astrólogos. Ora, mas a astrologia é próxima da astronomia em termos de objeto, embora distantes em termos de fim e de método. Além do mais, a astrologia era tida como ciência em tempos antigos, embora fosse uma das coisas hoje chamadas “ciências ocultas”. Então, qual a diferença entre a feitiçaria, ou ciência oculta, e a ciência lícita? A ciência lícita é secular, ela não se reporta ao espiritual ou ao oculto. Desde que não negue a existência divina ou a revelação, a ciência secular não está errada. Outras questões poderiam surgir daí. Então, quer dizer que a Terra é o centro do universo? A Bíblia não diz isso, ela se cala sobre a posição da Terra. Então, dizer que o centro do nosso sistema solar é o Sol não é antibíblico. Na verdade, a Bíblia, no livro de Jó, diz que a Terra está suspensa no nada. A profecia de Isaías chama a Terra de “círculo”. Então, nunca foi bíblica a crença de que a Terra é sustentada por animais gigantes ou que a Terra é quadrada. A Bíblia não se opõe à ciência secular em geral. Além disso, não há nenhuma recomendação contra a prática de filosofia ou ciência sobre as coisas que a Bíblia não explica.

Capítulo LI.

É interessante como o texto diz que as ilhas aguardarão o braço divino. Até agora, as história bíblica se desenrola ao redor do Egito, da Mesopotâmia, da Assíria e outros lugares dessas regiões. Talvez as “ilhas” sejam os outros continentes, como a América e a Oceania.

Capítulo LIII.

Profecia sobre o sofrimento pelo qual o messias teve que passar. Ele não iria falar coisa alguma para se defender durante o julgamento.

A tortura culminaria com a morte do messias, que seria morto junto com os ímpios, mesmo não tendo feito nada digno de pena capital.

Jesus estaria morrendo para expiar nossos pecados. Resta saber em que sentido e como. Por último, é dito que o messias oraria pelos transgressores. Talvez uma referência à linha “não sabem o que fazem”.

Capítulo LV.

Qual o sentido de comprar algo que não serve pra nada? Talvez seja esse o sentido da sentença de gastar “com o que não é pão”.

Tal como há diferença de nobreza entre o céu e a terra, existe diferença proporcional entre o pensamento divino e o humano. Então, se Deus faz algo e não o explica, é porque não podemos entender no momento.

Se Deus promete algo e não revoga, tal algo acontecerá. A palavra que Deus diz não lhe retorna vazia. Alguém pode se perguntar se há alguma situação em que a palavra divina foi revogada. Bom, a profecia dada a Ezequias sobre sua morte foi revogada e ele ganhou mais quinze anos de vida.

Capítulo LVIII.

Esta passagem fala da má execução do jejum. Tipicamente, o jejum secular é a abstenção de comida por certo período. O jejum espiritual, por vezes, requer algum tipo de humilhação também. Mas o jejum que agrada a Jeová é o jejum de pecado. Não é não comer, mas não pecar contra o próximo e ajudá-lo em sua necessidade. Isso quer dizer que o jejum que agrada a Deus não é a abstenção de comida, mas a abstenção do mal.

Capítulo LXV.

De Judá virá um herdeiro. Os eleitos de Deus possuirão a Terra. Os outros serão mortos. Haverá novos céus e novo solo, nossa triste história será esquecida.

Nesse novo mundo, os animais serão todos herbívoros e cada um terá condições de trabalhar para si próprio, não havendo mais senhores ou escravos.

A profecia de Jeremias.

Capítulo I.

Evidência bíblica da predestinação. Jeová conhecia Jeremias antes mesmo dele ser formado no ventre materno. Mas como conhecer o que ainda não existe? Você só pode conhecer algo em ato ou em potência. Se você não conhece algo em ato, concreto, você ainda pode conhecer algo em potência, como planejamento. Ou seja, Deus estipulou o que Jeremias seria antes que Jeremias fosse concebido. Isso não anula seu livre-arbítrio, contudo, e Jeremias poderia rejeitar seu propósito e ser punido. Mas, como um bom fiel, ele não o fez.

Capítulo II.

Não há quem não peque. Então, é sábio assumir o título de pecador em vez de sustentar o de santo, porque o julgamento é mais feroz para aqueles que julgam-se santos.

Capítulo V.

É especialmente abominável a Deus aqueles que fazem lucro ilícito, isto é, lucro sobre o sofrimento e o engano dos outros.

Capítulo VIII.

A moral de Jeová é clara, pode ser seguida literalmente. Talvez seja o excesso de interpretação que torne difícil seguir certos mandamentos, ao passo que as aves, que nada interpretam, fazem tudo certinho como deve ser. Observe que estou falando de moral, das coisas que se deve ou não fazer, não das profecias ou do conteúdo metafórico.

Não é sábio rejeitar a moral divina. Se é divina, como é que pode ser substituída por um raciocínio humano?

Capítulo IX.

Não devemos nos gabar por sermos sábios, ricos ou valentes. A única coisa digna de se gabar é o conhecimento das coisas divinas. A diferença entre a sabedoria dos sábios e o conhecimento das coisas divinas é seu objeto: a sabedoria normal tem objetos seculares. Isso não significa que Deus é contra a filosofia ou a ciência, mas que não é lícito nos gabarmos de dominá-las.

Aqui também é mencionado que Jeová irá visitar todos os que tem prepúcio como também os circuncidados, ou seja, judeus e gentios. Também é mencionado que Israel tem um coração incircunciso. A circuncisão é um meio de diferenciar Israel dos outros povos, como um sinal para as outras pessoas de que aquele era um integrante do povo de Deus. Mas, como existiam pessoas de dentro da congregação que rejeitavam o proceder aprovado por Deus e pessoas de fora que obedeciam seu mando (como se viu que ocorreu com Ciro), a circuncisão feita no corpo passa a ter menos valor do que a aceitação interna do mandamento divino. A justiça seria feita igualmente para todos, e não de forma diferenciada entre Israel e as gentes.

Capítulo X.

Observe as afirmações feitas sobre os ídolos, mostrando a falta de lógica da adoração de imagens. Como vou temer algo feito por mãos de artífices, que são tão humanos como eu? Devo temer uma estátua que não pode falar, ver ou se mexer? Isso pode ser estendido ao nível da produção intelectual humana também. Na filosofia, já me deparei com argumentos que me enriqueceram muito, mas também com argumentos altamente perturbadores que me deprimiram grandemente. Porém, depois eu me lembro que a produção humana, como humana, é falha por definição. Nenhum conhecimento humano é 100% correto. Então, devo me perturbar com argumentos, que também são produto humano, tal como são os ídolos de metal, madeira e pedra? Isso não é uma defesa de uma atitude anticientífica ou de um ceticismo completo, mas de que o conhecimento não deve ser elevado ao grau de incontestável, na medida em que nosso conhecimento é limitado.

Aqui é dito que o andar humano não pertence a ele próprio. Isso não deve ser tomado em sentido de negação do livre-arbítrio. Nós temos livre-arbítrio, mas Deus, se desejar, pode influir nas nossas condições de escolha, na nossa disposição de escolha e na nossa escolha de forma direta. Somos livres para escolher dentre as opções dadas, mas as opções dadas estão sob custódia divina. Também pode ser entendido de outra forma: Deus pode, se desejar, negar o livre-arbítrio e operar na pessoa por um tempo, como foi feito ao faraó que mantinha cativos os hebreus.

Capítulo XIII.

A palavra de Jeová desceu a Jeremias, mas a palavra disse “assim diz Jeová”. Se a palavra era de Jeová, porque a palavra se refere a Jeová na terceira pessoa? Por isso alguns sustentam que o verbo divino tem existência autônoma. Por exemplo, as testemunhas de Jeová sustentam que o verbo (Jesus) fala em nome de Deus. Então, apoiando-se em Paulo, elas dizem que as palavras ditas nos dias criativos não foram pronunciadas diretamente por Deus, mas por Jesus. A diferença entre eles e os trinitários é que, para os trinitários, Jesus, sendo o verbo (palavra) divino, é uma manifestação de Deus, tal como nossas palavras são manifestações nossas e não seres distintos de nós.

Capítulo XVII.

O coração engana. O coração, isto é, as emoções, é inconstante e não pode ser plenamente conhecido por não ter regularidade necessária. E muitas vezes, nossas emoções e sentimentos nos motivam a fazer o mal.

Capítulo XVIII.

Se arrepender do mal causado faz com que Deus desista da punição que daria àquele indivíduo. Isso porque o indivíduo já se decidiu a não fazer mais a maldade que fez, então, se ele já se corrigiu de seu proceder, não precisa de punição ulterior, já que o propósito da punição é justamente corrigir.

Capítulo XX.

Profecia acerca do exílio babilônico. Judá seria levada à Babilônia, onde ficaria cativa por décadas.

Também aqui é mostrado algumas das sensações típicas do profeta. O profeta que recebe a palavra e tenta não dizê-la sofre grande desconforto, que cresce com urgência, até que ele seja forçado a dar a mensagem que deveria dar. Por isso os profetas profetizam mesmo quando a profecia lhes é causa de escárnio e perseguição.

Capítulo XXII.

Conhecer Jeová é praticar a justiça e a retidão. Isso provavelmente é metafórico, porque é possível praticar a justiça, embora imperfeita, sem ter conhecido Jeová. Porém, aquele que conhece Deus com decência sabe que Jeová se agrada da justiça e da retidão e as pratica liberalmente. Quem conhece Deus procura a justiça e se afasta da injustiça. Em adição, é dito que também os que comem e bebem, mas praticam justiça, conhecem Deus. Isso significa que conhecer Jeová nada tem a ver com ascetismo e melhor o conhece quem é justo do que aquele que jejua, por exemplo.

Capítulo XXIII.

Este texto é utilizado por Tomás de Aquino como prova da existência da Trindade, embora isso dependa do texto usado e do modo de tradução. Aqui diz que Jeová suscitará um renovo da linhagem de Davi. Esse renovo é Jesus. Mas neste texto, Jesus é referido por outro nome. No texto tradicional, Jesus é chamado “Jeová Justiça Nossa”, mas os textos críticos podem chamá-lo de “Jeová É Nossa Justiça”. No texto tradicional, então, Jesus é chamado de Jeová (não Deus, mas Jeová mesmo, o tetragrama é utilizado), enquanto que os textos críticos podem chamá-lo de justiça de Jeová (onde o tetragrama também é usado, mas de forma ligeiramente diferente). Importante ressaltar que tanto o texto tradicional como a Tradução do Novo Mundo utilizam o texto massorético como base para o Velho Testamento, então a diferença surge da divergência na forma de traduzir.

Ainda neste capítulo é dito que Jeová é contra qualquer um que faça uma falsa profecia em nome dele.

Capítulo XXIV.

O exílio babilônico seria feito para o bem de Israel. Porque os israelitas que se rendessem, como Jeová mandou que fosse feito, seriam poupados. Mas aqueles que não ouviram o que disse Jeremias ficaram na cidade, desobedecendo a palavra divina. Posando resistência ao exército babilônico, os que ficassem seriam mortos. Essa seria uma forma de purificar Israel dos desobedientes.

Capítulo XXV.

Setenta anos após o início do exílio babilônico, Israel seria libertada de lá. Babilônia seria reduzida a um deserto perpétuo.

Capítulo XXX.

“Pela multidão de teus pecados, te fiz essas coisas.” Pessoalmente. Isso mostra que, se necessário, Deus fará mal a alguém. Isso é normal, porque a punição é um meio de correção do comportamento. Porém, não há necessidade de castigar aquele que se arrependeu de verdade e não mais praticará o mau comportamento, porque este não precisaria de correção. Então, a punição divina deve ser entendida em sentido construtivo, seja individual ou coletivo, para manter a ordem cósmica. Porém, este verso, por si, não desqualifica completamente a doutrina da permissão, como no caso de Jó: Deus não causou o mal, mas permitiu que o diabo o causasse

Capítulo XXXI.

Se você se pergunta por que os cristãos não adotam maior parte dos costumes judaicos, a profecia de Jeremias explica o porquê. Em nome de Jeová, Jeremias diz que haverá dias em que Israel receberia uma nova Lei, que não seria uma Lei externa como a anterior, porque os israelitas não estavam conseguindo seguir a Lei integralmente, mas uma Lei que seria escrita no coração de cada um, uma Lei que não precisaria ser ensinada. Esta seria a Lei do amor. E ela proporcionaria o esquecimento dos pecados. Se o ditado “Deus é amor” tiver base bíblica, então isso explicaria porque se diz neste capítulo que todos conhecerão a Deus, porque esta seria uma Lei baseada no amor e na justiça, ambas coisas que todos podem sentir, embora também possam ignorar.

Capítulo XXXIII.

Aqui é dito que Jeová coordena os movimentos celestes. Tomás de Aquino usa isto para atacar a astrologia. Com efeito, a astrologia nos tempos de Tomás se propunha a prever o futuro e o comportamento das pessoas, de forma que as pessoas que praticavam maldade podiam usar a astrologia como desculpa para seus atos, dizendo que elas são o que são por causa da configuração estelar sob a qual nasceram. Mas quem governa os céus é Deus. Então, culpar os astros por seus atos equivale a indiretamente culpar Deus pelos erros cometidos por você.

Capítulo XXXVI.

“Todo o mal que penso em fazer-lhes.” Novamente, Deus causará dano se necessário. É errado pensar que Jeová é um Deus “bonzinho”, embora ele também não seja mau. Ele é um Deus sábio, justo e amoroso, preocupado com a ordem cósmica, isto é, com a lógica de sua criação. Para manter essa ordem, de forma que o mundo seja proveitoso aos seres que nele habitam, ele nos dá ordens que, se seguidas, mantém tal ordem. Os que seguem essas ordens são recompensados e os que não as seguem são punidos. Esse é o único meio de fazer com que suas criaturas o obedeçam sem negar-lhes o livre-arbítrio, que é um bem. Isso significa que somos livres para desobedecer, mas, tendo responsabilidade sobre nossos atos, precisamos arcar com as consequências do que fazemos.

Aqui também é mencionado que Jeremias ditou palavras a Baruque, o qual as redigiu em um livro. Isso talvez seja uma referência ao deuterocanônico livro de Baruque, que existe em Bíblias católicas. Mas, como todos os deuterocanônicos, a autenticidade do livro de Baruque é disputada.

Capítulo XLVI.

O castigo que descenderia sobre Israel seria um castigo “com medida”. Ou seja, na medida dos pecados de Israel. Se Israel tivesse pecado pouco, seria castigado pouco. Se tivesse pecado muito, seria castigado muito.

Capítulo XLVIII.

Não se deve confiar nas riquezas como meio de se salvar da destruição. O dinheiro não resolve tudo e é preciso reconhecer seus limites e quando não se pode confiar nele.

Capítulo LI.

Jeremias escreveu a longa profecia contra a Babilônia e pediu que Seraías lesse a profecia na própria Babilônia. Talvez para salvar da destruição alguém que tenha ouvido falar de Jeová e o temesse. Avisando com antecedência, os caldeus que temessem Jeová poderiam repensar sua estada e sair dali. O que se sabe é que, mesmo com o aviso prévio, a destruição de Babilônia foi enorme.

Capítulo LII.

Durante a destruição de Babilônia, Nabucodonosor cativou milhares de “almas”. O termo alma neste capítulo deve ser entendido como pessoa.

As Lamentações de Jeremias.

Capítulo I.

Após a invasão de Nabucodonosor, Jerusalém ficou quase deserta. Aqueles que ficaram na cidade ou foram mortos na guerra ou estavam morrendo de fome ou doença. Os que se renderam foram levados cativos.

Capítulo II.

Esse foi um tempo em que Deus se afastara de Jerusalém: seu corpo político havia sido dispersado, a Lei havia sido esquecida e os profetas não recebiam mais visões.

Este livro como Jeová pode destruir uma sociedade se desejar. Vale lembrar que isso não é feito por capricho: Jeová e Israel tinham um acordo e essas consequências estavam previstas no acordo, caso a Lei não fosse obedecida. Esse não foi um acordo forçado; Israel havia concordado em seguir a Lei, quando ela foi apresentada à congregação no deserto por Moisés.

Capítulo III.

Por misericórdia, aquela seria uma condição passageira. Também por misericórdia, os habitantes não morreram todos de uma vez. Jerusalém precisava de uma punição. Apesar de ter sido moderada pela misericórdia divina, ainda foi uma punição grande. Afinal, embora amoroso, Deus é justo e ele não fez nada que não estivesse previsto na aliança com Israel: o cumprimento ou não da Lei acarretaria consequências físicas em vida.

Após ministrar o castigo, Jeová se compadece do sofrimento daqueles que são castigados. Ele pode até revogar a pena, como aconteceu com Davi, que escolheu ser punido com um período de peste divina, porque sabia que Deus, como alguém misericordioso, revogaria o castigo por amor a Davi e aos justos que haviam em seu povo. Isso não quer dizer que devemos abusar do perdão divino, porque, conhecendo nossas intenções, Jeová se irritaria daqueles que procuram tal coisa a fim de pecar à vontade.

Novamente, este capítulo mostra que Jeová, sendo justo, não é causa apenas de bens. Sendo justo, precisa também punir.

Mas o mal é motivado pelo pecado. Então, a culpa de nossa punição é nossa em primeiro lugar, por estarmos agindo contra a ordem cósmica.

Parece que Deus pode ignorar orações também. Provavelmente quando precisa ministrar uma pena muito dura, de forma que ele não se sensibilize com o clamor dos punidos.

Capítulo IV.

Os principais pecados de Jerusalém foram o assassinato e o adultério. Ambos são pecados feitos contra o próximo.

A profecia de Ezequiel.

Capítulo I.

Observe como Ezequiel assumidamente usa termos aproximados. Isso porque, como diz Dionísio, as visões divinas não podem ser postas em palavras. Então, a linguagem só pode se aproximar do conteúdo divino, sem obter completa fidedignidade. Por isso, as visões proféticas devem ser entendidas em sentido metafórico.

Capítulo III.

Se alguém está fazendo algo errado, devemos avisar que essa pessoa está fazendo algo errado. Se não avisamos, somos também culpados, porque não nos importamos em impedi-la. Se essa pessoa insistir em praticar o mal, contudo, não é mais conosco; a pessoa tem liberdade de escolha.

Se Deus profetiza morte contra alguém e o profeta fala a profecia à pessoa que deveria morrer e a pessoa se arrepende de seu mal proceder, a profecia é revogada.

Capítulo V.

Outro pecado de Israel: mudar a Lei.

Capítulo VIII.

Deus pode ver interiores de edifícios e também mostrá-los a outros. Parte da visão de Ezequiel foi sobre o que os sacerdotes estavam fazendo dentro do templo e Ezequiel, pelo poder divino, viu o que eles faziam e quando faziam.

Capítulo IX.

A razão dos pecados de Israel narrados neste livro: eles acreditavam que Deus havia se afastado de seu povo. Julgando que Deus não estava vendo, eles se voltaram a outros deuses e se deram ao assassinato. Isso mostra que, mesmo entre o povo eleito, existiam aqueles que não eram capazes de obedecer uma ordem sem que lhes fosse incutido o medo de punição. Ora, mas Deus havia dito no acordo que a obediência à Lei também traria benefícios. Por que Israel, em sua maioria, rejeitaria as recompensas divinas? Isso significa que, de um modo geral, o medo de punição tem mais peso no cumprimento de uma ordem do que a possibilidade de recompensa. Razão pela qual o temor divino é uma virtude, pois a pessoa pode se voltar para outras ofertas de recompensa se ela não temer o que pode acontecer por ignorar o proceder correto, através do receio de punição.

Capítulo XIII.

Profecia contra os falsos profetas de Israel. Falar em nome de Jeová profecias que não foram realmente vistas é um erro grave.

Jeová é contra o falso profeta. Isso limita e muito o leque de igrejas aos quais alguém pode se filiar, como dito no comentário sobre o capítulo dezoito do Deuteronômio.

“Alma”, aqui, é utilizado no sentido de vida e no sentido de pessoa.

Capítulo XIV.

Quando eu disse que Deus pouparia um injusto por amor a um justo, este capítulo oferece uma limitação. Os israelitas haviam pecado tão grandemente que Deus não os pouparia do castigo vindouro nem mesmo se Noé, Daniel e Jó o pedissem para não punir. Daniel escreveu um livro profético, que será tratado em breve.

Em certas condições, o castigo é inevitável.

Capítulo XVI.

Se o judeu podia ter várias mulheres e não havia um “casamento”, mas um “tomar para si”, em que sentido “fornicação” era sexo pré-marital? Na verdade, a raiz da palavra “fornicação” é fórnix, do grego, que é relacionado à prostituição. Então, “fornicação”, no contexto judaico, é a prostituição. Razão pela qual, neste capítulo, no verso quinze, algumas Bíblias usam o termo “fornicaste” e outras o termo “prostituíste”. O termo “fornicação” como sexo pré-marital é algo cristão.

Isso explica por que o termo fornicação também é usado no sentido de traição religiosa. Depois que você se compromete com a religião de Jeová, ir para outras religiões é um ato similar ao da prostituta, que fica com um ou outro dependendo da circunstância. Isso aproxima os termos “fornicação” e “adultério”, que é o desrespeito ao compromisso que se tem com um homem, razão porque fornicação também é usado como um termo genérico para as formas ilícitas de sexo. Isso não significa que o homem pode ter todas as mulheres que desejar, porque tomar para si uma mulher que já tem dono também conta como adultério, enquanto que tomar para si uma mulher sem consenso é estupro.

Ao contrário da crença popular, o que causou a destruição de Sodoma não foi a homossexualidade ou o sexo entre pessoas de mesmo sexo, sendo essas coisas meros agravantes. A profecia de Ezequiel diz claramente o que causou a destruição daquela cidade: orgulho e egoismo. Jerusalém havia pecado mais que Sodoma e mais que Samaria.

Capítulo XVIII.

Este capítulo dá a entender que devemos seguir a lei de nossos povos também, além da Lei divina. Claro que o choque entre as duas é facilmente resolvível, pois a Lei divina tem prioridade.

Somos escusados da culpa pelo pecado de Adão na medida em que fazemos a vontade divina. Porém, a corrupção causada pelo ato de Adão ainda permanece no corpo, sendo necessário um novo corpo para uma limpeza completa.

Polemizando com Lutero, para quem as obras humanas não influem na salvação, este capítulo diz que aquele que obra justiça e se arrepende dos males cometidos viverá.

Não é prazeroso para Deus matar os ímpios, mesmo quando é necessário por zelo pela criação. Porque também o ser humano faz parte da criação e eliminar os maus é um mal menor. O ideal seria que os maus se tornassem bons, porque assim a criação não precisaria desse tipo de ajuste.

Capítulo XXIII.

Parece que carícias nos seios são um privilégio de alguma natureza. Este capítulo dá a entender que carícias nos seios podem ser fornicárias. Se assim o for, só é permitido acariciar os seios das mulheres que você toma para si. Por outro lado, dependendo da estrutura gramatical utilizada, a parte dos seios pode ser tomada como mero complemento. Em algumas Bíblias, entre “fornicaram” e “seus seios” há dois pontos (:), indicando modo de fornicação. Em outras, há um ponto (.), indicando que a frase seguinte guarda uma ideia diferente. Para adicionar à confusão, algumas Bíblias usam o termo “tetas da virgindade”, sugerindo que a virgindade é da moça, sendo que a virgindade só pode ser violada no ato sexual, mas outras usam o termo “seios virgens”, sugerindo que a virgindade é do seio, logo, a carícia violaria a virgindade do seio. Porém, olhando para a Lei, não parece haver nenhuma restrição quanto a esse tipo de carícia, exceto se feita, talvez, entre membros da mesma família.

Porém, existem cláusulas que proíbem o contato íntimo com estrangeiros. E a prostituta metafórica teve seus seios apalpados por estrangeiros. Mesmo assim, também não lembro de nenhuma cláusula da Lei que proíba tal.

É necessário aprender com os erros dos outros. Se vemos alguém praticar maldade e a maldade lho retorna maldade, não devemos seguir o exemplo.

Mais tarde, é dito que a abominação de Jerusalém e Samaria foi o adultério e o assassinato. Então, parece que as carícias nos seios foram complementos, pois é algo que normalmente acompanha o ato sexual. Outra abominação foi o ritual de sacrifício humano, feito a outros deuses, no qual o filho de um casal é queimado e depois comido.

Capítulo XXVIII.

Quando um ser humano se julga Deus, em geral ele é o único que se reconhece como tal. Os outros não veem sua suposta divindade.

Capítulo XXIX.

Egito seria reduzido à irrelevância. Babilônia seria elevada sobre o Egito.

Capítulo XXXIII.

Ezequiel era como um sinal de aviso. Quem o ouvisse e ignorasse, teria culpa por tê-lo ignorado. Mas se Ezequiel não avisasse e a pessoa morresse por causa da maldade que cometeu, Ezequiel seria culpado por não avisar que o mal proceder da pessoa a mataria. Então, tanto os Provérbios quando Ezequiel mencionam este ponto, de que devemos apontar quando uma pessoa está agindo mal e apontá-la o caminho correto. Se você se pergunta por que os cristãos insistem em falar pra este, esse ou aquele que tal ou tal ato é errado, saiba que esse proceder é bíblico.

Os pecados de Israel fizeram a congregação perder o direito de possuir a Terra Prometida, a qual estava habitando graças ao esforço mosaico.

Um desses pecados era a hipocrisia. Depois de ouvir a mensagem divina e concordar com ela, não a cumpriam nem mudavam seu proceder, apesar de dizer que a mensagem era construtiva.

Capítulo XXXIV.

Aqui diz que será levantado um só “Pastor” para todas as ovelhas desgarradas, e esse Pastor poderia ser Davi. O problema é que Davi estava morto. Porém, de sua linhagem viria Jesus. Ora, mas se Jesus é um único Pastor, supondo que a menção neste capítulo seja direcionada a ele, como é que existem tantas igrejas com costumes tão diversos, cada uma com seus líderes e “pastores”?

Capítulo XXXVII.

Ressurreição ocorrendo em frente de Ezequiel. Aqui, os ossos são atraídos uns aos outros, ou seja, os componentes que restarem do corpo se reúnem. Os nervos e a carna, já decompostas, são feitos novamente, isto é, são substituídos os elementos irrecuperáveis, como acontece na regeneração natural.

Este é um capítulo bastante fértil. Se a consciência está no cérebro e o cérebro foi substituído, de onde vieram as memórias dos soldados que acabaram de ressuscitar? Com efeito, se tivessem ressuscitado sem memórias ou com memórias diferentes, seriam pessoas diferentes ocupando corpos ressuscitados. A consciência e as memórias devem ter ido para algum lugar e então retornado, a menos que a configuração física do cérebro mude com as memórias, o que não parece ocorrer. Ora, mas o livro de Jó está de acordo com Salomão de que os mortos estão inconscientes. A única forma de harmonizar esses textos é supondo que existe uma parte imortal do ser humano que adormece e depois retorna quando ele é revivificado, acordando então. Essa parte imortal contém nossa consciência e nossas memórias, que são inativadas na morte e reativadas na ressurreição, sem, contudo, desaparecerem. Isso parece louco e impossível, mas Deus é onipotente. Importante ressaltar que essa doutrina já existe e eu não estou sendo original aqui. Deve, inclusive, haver refutação dela em algum lugar. Inobstante, me parece plausível, por enquanto.

Por último, este capítulo pode ser usado a favor da Trindade, porque sugere que a ressurreição dos mortos é sinal capital da atividade divina, sendo que Jesus também ressuscitava mortos. Porém, a refutação típica desse argumento é de que Jesus não fazia as ressurreições de sua própria parte, mas invocando a virtude divina.

Capítulo XLII.

O que é profano? Aqui é dito que deve-se fazer diferenciação entre santo e profano. Essas são coisas que não se misturam. Profano é mundano e santo é limpo, imaculado. Quando se profana alguma coisa, você está sujando o que é santo com algo impuro ou mundano. Profano não necessariamente significa diabólico, mas simplesmente mundano, sujo comparado ao que é santo. Tocar coisas santas requer purificação, uma limpeza dos rastros mundanos, uma santificação. A sujeira típica do profano é o pecado. Então, a limpeza típica do santo é a ausência de pecado. Mas a santidade pode requerer também uma limpeza em sentido secular e estar apresentável para o serviço divino, daí as roupas sacerdotais e os ritos de purificação.

Capítulo XLIV.

A veste sacerdotal podia santificar o profano. Se era necessária uma separação, então não se podia santificar o profano, tal como não se podia profanar o que era santo. Ora, mas se santo não é ter pecado, por que impedir que os profanos se santificassem? Talvez eu esteja entendendo santo em sentido errado. Isso, ou então não tem problema em ser profano, já que é natural que o ser humano peque, desde que arque com as consequências.

A profecia de Daniel.

Capítulo I.

Outra evidência de que Deus não é contra a filosofia ou a ciência. Daniel foi escolhido como assistente do rei babilônico porque era sábio e versado nas ciências conhecidas até então.

Observe como os quatro judeus escolhidos como assistentes reais, além de sábios, eram mais saudáveis que os mancebos reais mesmo se alimentando somente de água e legumes.

Capítulo II.

Sonho de Nabucodonosor. O rei da Babilônia sonhou com uma estátua cuja cabeça era dourada, o peito e os braços eram prateados, a barriga e as coxas eram de bronze, as canelas de ferro e os pés de barro e ferro. Segundo Daniel, esse sonho era profético. A cabeça dourada representa o reino babilônico e as outras partes da estátua, feitas de diferentes materiais, representam potências mundiais que se seguiriam, de forma que a estátua representa a cronologia do governo humano sobre a Terra. Por último, uma pedra cortada por uma força invisível atinge a estátua nos pés, destruindo todos os materiais com o impacto. A pedra então se tornaria um monte, que cobre toda a Terra. É interessante como Daniel dá informações sobre a potência representada pelo pés: um reino dividido, heterogêneo, que é forte em um sentido, mas fraco noutro. Mas Daniel não entra em detalhes sobre as potências que viriam depois de Babilônia. Newton, filósofo e físico, interpretou a ordem das potências: Império Persa, Grécia, Roma. O parecer da Torre de Vigia é de que os pés são os Estados Unidos e a Grã-Bretanha. A pedra é o reino divino, que duraria para sempre, eliminando a necessidade dos governos humanos.

Capítulo III.

Quando os três judeus que estavam com Daniel se recusaram a adorar uma estátua que Nabucodonosor havia levantado, eles foram jogados num forno ardente. Mas, mesmo sendo só três, os que assistiam o forno perceberam um quarto indivíduo lá dentro. Não só isso, os três judeus haviam se transfigurado. Um dos que assistiam disse que eles pareciam “filhos dos deuses”. Isso levou muitos a crer que o quarto indivíduo era Jesus, mas uma leitura cuidadosa de todo o capítulo, mesmo não evidenciando contra essa hipótese, não a suscita: não é possível concluir que era Jesus somente com a leitura deste capítulo. Certamente era um anjo, mas nada garante qual anjo.

Capítulo IV.

Outro sonho de Nabucodonosor, no qual a destruição de uma bela e formosa árvore era anunciada. A árvore era Nabucodonosor, que seria atacado porque Deus dá os reinos do mundo a quem ele quiser dar. E de fato, segundo Neemias, Ciro foi tocado por Deus para atacar a Babilônia, de forma a libertar os judeus. Antes disso, contudo, Nabucodonosor passou uns tempos vivendo como animal, louco, e seu filho eventualmente o sucedeu. É confuso, porque os livros da Bíblia Sagrada não necessariamente são dispostos cronologicamente, mas tematicamente. Primeiro, a Lei; depois, os livros históricos; depois, os livros poéticos de sabedoria; por último, os livros proféticos. No Novo Testamento: santos evangelhos, Atos dos Apóstolos, epístolas paulinas a congregações, epístolas paulinas à indivíduos, epístolas católicas (isto é, “universais”, não sendo relacionadas ao que chamamos de Igreja Católica) e o Apocalipse. Dois livros em segmentos distintos e muito distantes entre si podem muito bem se referir ao mesmo período histórico.

Daniel o aconselhou a limpar-se de seus pecados pela prática da justiça e pela misericórdia com os pobres. Ou seja, o amor e a caridade perdoam pecados.

Capítulo VII.

Daniel tem um sonho como o de Nabucodonosor, mas mais completo. Os fortes e hábeis interpretam os animais como as potências que se seguiriam à Babilônia, que seriam substituídas pelo Reino de Deus.

Capítulo VIII.

Aqui é dito claramente que a Grécia sucederia a Pérsia. A visão é revelada com riqueza de detalhes e a interpretação é feita por Gabriel.

Segundo Gabriel, em algumas traduções, a Grécia, com seu entendimento, faria prosperar o engano em sua mão. Talvez estivesse se referindo à filosofia ou à ciência, esta muito limitada na época, ou mesmo à retórica e à sofística. E de fato, os intelectuais, em suas cadeias de raciocínio, produziram erros célebres que se perpetuaram por séculos graças à fama que esses intelectuais tinham. Aristóteles, por exemplo, embora nos tenha feito grandes contribuições filosóficas, crescendo em prestígio em todas as áreas da ciência da época (sua obra compreende tanto física como zoologia, botânica, retórica, poética, ética, política e vários outros temas), propagou várias noções erradas sobre a gravidade e sobre a estrutura do universo. Ninguém ousava duvidar de Aristóteles, como se seu conhecimento fosse incontestável, e foi necessário um Galileu para mostrar que este intelectual que viveu antes de Cristo estava errado em várias de suas concepções sobre o universo. Uma história famosa contada por Galileu diz que um filósofo aristotélico foi assistir uma dissecação pública. Como um bom aristotélico, ele acreditava que os nervos partiam do coração, mas o médico que operava a dissecação mostrou que não era assim. O médico então perguntou se o aristotélico havia reconhecido o erro do mestre. O filósofo então admitiu que aceitaria a prova prática diante de seus olhos se Aristóteles não tivesse dito que era de outra forma. Os gregos construíram uma tradição de pensamento tão portentosa e imponente que por muito tempo as nações que se seguiram não se opuseram ao conhecimento construído por eles, mesmo quando havia provas práticas de que eles estavam errados. De fato, os gregos estavam certos em muita coisa e, justamente por causa desse entendimento, foram tidos por incontestáveis, o que já é enganoso. Fora que, se o raciocínio é concatenado, é mais fácil duvidar dos efeitos do que dos fundamentos, nos requerendo retornar na cadeia de raciocínios até encontrar o erro, o que requer tempo e mais entendimento que o autor do raciocínio.

Capítulo IX.

Jeová é justo em tudo o que faz. Se os israelitas estavam em exílio, era porque quebraram o acordo que tinham feito com Deus.

O tempo para a vinda do Messias prometido, que daria ao povo uma nova Lei, deveria ser contado a partir do fim do exílio babilônico, segundo Gabriel.

Capítulo X.

Veja como Daniel ficou triste por três semanas “de dias”. Ora, não seria irrelevante apontar esse predicado se não existisse um outro tipo de semana? Existe o conceito de semana de ano. Às vezes, quando a Bíblia Sagrada diz que algo se cumprirá em um número X de semanas, pode estar se referindo à semanas “de anos”, ou seja, X x 7 anos.

As visões e os anjos perturbavam muito Daniel. Diferente do parece geral de que anjos são criaturas “fofinhas” e amigáveis, como são os bebezinhos da Renascença e do Barroco, o anjo bíblico é uma visão perturbadora.

A visão angélica enfraquecia Daniel e ponto de não lho permitir ficar de pé. Ele caía, por vezes dormia, quando interagia com um anjo. Mesmo quando não se mostrava, a presença angélica afetava as pessoas do local, dando-lhes uma sensação desconfortável.

Capítulo XII.

A Torre de Vigia costuma dizer que não existe algo como sofrimento eterno. Que o Deus amoroso jamais permitiria tal coisa. Porém, o segundo verso menciona que alguns dos ressuscitados serão eternamente desprezados. Ora, ser desprezado é sofrer desprezo. Seria então um sofrimento eterno. Porém, a palavra “desprezo” pode ser aplicada à memória do indivíduo. Então, se a Torre estiver certa, esses indivíduos que seriam eternamente desprezados o seriam em memória, depois que tivessem sido destruídos. O problema é que desprezar dessa forma é metafórico e devemos considerar uma interpretação literal antes de procurar uma interpretação metafórica. Embora “ignorar” seja um tipo de “desprezar”, não são equivalentes. Em geral, usamos o termo “desprezar” significando tratar alguém sem respeito ou reconhecimento. Só se pode agir assim com uma pessoa viva. Se fosse entendido como “ignorar”, a interpretação jeovista fará sentido, pois cair no esquecimento é ser ignorado, pois esquecer é perder conhecimento, segundo Platão, e ignorar é não ter conhecimento.

Os sábios serão justificados. É prometida a ressurreição de Daniel.

A profecia de Oseias.

Capítulo I.

O livro abre com uma fornicação. Jeová ordenou que Oseias., profeta, tomasse para si uma mulher fornicadora e gerasse nela um filho. Jeová também diz que foi a prostituição a principal causa de Israel ter deixado a Lei e seu Deus.

Capítulo II.

Em que sentido se diz “afastar o adultério dos seios”, se adulterar é um tipo de sexo? Talvez as carícias nos seios sejam mencionadas junto ao sexo ilícito não por serem ilícitas ou por serem adultério, mas por acompanharem a prática sexual, porque é normal que se massageie ou excite os seios da mulher durante o coito. O adultério, então, continua sendo o coito, posto que seios nem sequer são mencionados na Lei.

Capítulo III.

Agora, Jeová ordena que Oseias. tenha sexo com a mulher de seu amigo, a qual já o traíra antes. É costume divino mostrar profecias por alusões com coisas concretas. Pelo adultério, a traição sexual, Deus demonstra a Oseias., por alusão, como ele se sentiu ao ver que Israel estava o traindo com outros deuses. Oseias. talvez sentisse vergonha por seu ato, talvez se perguntasse como Israel não sentia vergonha de trair o Deus ao qual se comprometera, sendo que o simples ato de tomar a mulher do outro já era razão de vergonha.

Capítulo IV.

As pessoas erram por falta de entendimento. Sim, a Bíblia Sagrada contém conhecimento, mas não todo o conhecimento do mundo. Então, convém buscar também conhecimento secular para evitar o erro de outras maneiras, embora os erros mais graves possam ser evitados pelo entendimento da sabedoria divina.

Aqui também consta a pena para o sacerdote egoísta e ignorante. Aproveitando-se de sua posição, procura se elevar no prejuízo do povo, como os pastores milionários fazem hoje. Mas se conhecessem a palavra divina e cressem nela, não fariam o que fazem.

Notável como o entendimento afasta do mal, e aqui se fala do entendimento provido pelo divino. Mas às vezes é necessário o conhecimento secular para mostrar que o caminho divino é correto. Eu, por exemplo, comecei a crer com seriedade por causa da filosofia.

Capítulo VI.

Melhor que o sacrifício é a beneficência. A vinda do Messias encerraria a prática dos sacrifícios, porque Israel, apoiando-se nesse canal de perdão, fazia sacrifícios sem se arrepender do que havia feito. Se incorresse no pecado novamente, bastaria fazer o sacrifício novamente para ser perdoado. O sacrifício então servia como meio de Israel se excusar de praticar o bem.

Capítulo X.

Aquele que deixou de temer o divino não teme autoridade alguma. Se você tinha alguém estimado como a autoridade máxima do universo, que submetia todos os reinos, mas deixa de temer tamanha autoridade, que mais poderia temer? É diferente de quando você, ao nascer, passa a temer determinado governante, mas depois passa a temer um governante maior que este, mais digno de temor, aos poucos temendo menos ao governante anterior. Não é como se nenhum ateu considerasse qualquer autoridade, mas que a chance disso acontecer é maior entre aqueles que criam e não creem mais.

A profecia de Joel.

Capítulo I.

Israel sofre fome. Seu gado começa a morrer e seus grãos não estão dando resultado suficiente. Além do problema da fome, como ficam os sacrifícios? Em tempos de escassez, como manter recursos para mantimento e recursos para sacrifício?

Capítulo II.

Mesmo sendo justo, Jeová, sendo amoroso, se arrepende das punições desferidas, quando sente que elas podem vir a exceder a medida do necessário. Isso quer dizer que ele não se arrepende como os seres humanos se arrependem, como quem sente que não deveria ter feito tal coisa. “Arrependimento” divino deve ser entendido como “suficiência”. Quando a punição já é bastante, isto é, quando atinge a medida justa, ele cessa a punição. Talvez a confusão sobre o possível arrependimento divino venha de uma dificuldade de cognição entre ser humano e divindade e Deus estaria se manifestando com termos humanamente apreensíveis, mas somente aproximados. Se assim for, arrependimento não é literal. Se for literal, alguém pode se perguntar como ele pode ser justo se revoga punições que promulga. Como alguém que tem ciência das intenções humanas e dos sentimentos humanos, ele pode sentir quando a punição surtiu o efeito devido na pessoa (reconhecimento do erro e arrependimento). Se o efeito for obtido antes do tempo devido para o fim da punição, então a punição pode acabar ali.

Também fala alguns detalhes sobre os últimos dias, quando sinais celestes serão operados e as pessoas voltarão a ter visões e sonhos premonitórios.

A profecia de Amós.

Capítulo III.

Tomás de Aquino usa este texto para mostrar que Deus fará mal a alguém se necessário, como forma de punição. No verso seis, Jeová indaga por meio do profeta Amós se haverá algum mal na cidade que não seria causado por Deus. Israel precisava ser punido e esta linha dá a entender que tudo de ruim que aconteceu com Israel após Amós ter profetizado isto estava sendo divinamente providenciado.

Apesar disso, a linha seguinte mostra que Deus dá um aviso antes de fazer algo dessa natureza, para que aqueles que nele creem tenham tempo de escapar da ira que cairá sobre os descrentes.

Capítulo V.

Devemos detestar a maldade e amar a bondade. Mas ainda precisamos da filosofia e da ciência para fazer esse tipo de distinção sobre atos não tratados pela Bíblia Sagrada. Porque, embora a Bíblia cite várias atos como bons e vários como ruins, existe uma multidão de atos sobre os quais ela cala.

O dia de Jeová, provavelmente análogo ao Juízo Final ou guerra do Armagedom, não é uma data desejável. Não se deve esperar por ela como se fosse algo bom, porque o mal causado naquele dia, na batalha derradeira, será maior do que pensamos. Se não temos entendimento certo de como será esse dia, não podemos dizer que ele será bom, embora os dias que o seguem sejam.

Capítulo VII.

Não se deve impedir o profeta de anunciar a mensagem divina. Se ele for profeta verdadeiro, Deus não se agradaria de que este fosse impedido. Se ele for falso, problema dele com Deus.

Capítulo VIII.

A necessidade espiritual seria elucidada mais adiante, por Jesus, mas aqui lhe é feita referência. Haverá um dia em que haverá um tipo de “fome espiritual”, em que as pessoas buscarão o Deus verdadeiro e não o encontrarão, nem quem fale dele. As pessoas não buscariam a divindade se ela não fizesse falta à existência humana. Também fala que esses serão dias em que as pessoas desmaiarão de sede. Levando em consideração que os dias de fome espiritual não chegaram, talvez eles coincidam com o ponto crítico da crise hídrica global: a água não é renovável e nem por isso o desperdício cessa. Isso me lembra de quando meu sobrinho brigou com meu irmão por vê-lo desperdiçando água, argumentando que um dia a água acabaria no mundo. Meu irmão então disse, irado, que Deus não deixaria a água faltar e que meu sobrinho não tinha que dar crédito à ciência. Isso é má-fé; meu irmão estava usando Deus como desculpa para não se importar com o desperdício de água, sem levar em consideração que a água que ele desperdiça é a água de que outro precisa. O desperdício constitui um pecado contra o próximo. A água pode até ficar escassa de qualquer jeito, já que não é renovável, mas não precisa que fique escassa agora.

A profecia de Obadias.

Não é como se Deus fosse contra os sábios, mas aqui diz que os sábios de Edom e de Esaú seriam mortos. Acontece que essas eram nações más, a maldade é razão da destruição. O conhecimento humano não é proibido, mas não livra o ser humano da ira divina se ela tiver que vir.

A profecia de Jonas.

Capítulo I.

Jonas foi encarregado de profetizar contra Nínive, mas resolveu fugir de seu trabalho e ir para Társis. O barco em que ele estava então foi pego numa tempestade. Os tripulantes resolveram sortear a culpa pela tempestade: por um método que envolvia aleatoriedade, eles escolheriam de qual tripulante era a culpa pela tempestade. Jonas foi escolhido, justamente Jonas, o qual estava desonrando seu papel de profeta. Poderia ser coincidência, mas é mais crível que Deus tenha manipulado a sorte a fim de revelar a culpa de Jonas.

Será que o peixe que tragou Jonas foi uma baleia? Afinal, a taxonomia da época era diferente, segundo o Levítico (por exemplo, alguns mamíferos eram chamados répteis). Poderia também ser outra espécie, criada para aquele propósito apenas, visto que seria difícil a existência de um peixe grande o bastante para consumir um ser humano e mantê-lo indigesto por três dias.

Capítulo III.

A existência do profeta era um ato de amor. Jeová iria “transtornar” Nínive quarenta dias após a profecia, mas, depois que a profecia foi anunciada, todos deixaram seus maus procedimentos e a profecia foi revogada. É melhor preservar suas criaturas, depois de arrependidas, do que eliminá-las, por isso Jeová avisa da punição com antecedência, para que os que são realmente fieis tenham chance de evitá-la pelo reconhecimento e abandono do erro.

A profecia de Miqueias.

Capítulo II.

A profecia verdadeira é gratuita. Nenhum profeta de verdade cobra o ouvinte pela mensagem divina.

Capítulo III.

A expressão “santificam guerra” é recorrente em algumas Bíblias e creio que isso explica como os israelitas faziam tantas guerras quando a Lei dizia para não matar. Guerras “santas” não saldam como pecado e as mortes feitas em guerras santificadas não são contadas como pecado.

Capítulo IV.

Haverá um tempo em que a guerra será desnecessária.

Capítulo V.

O Messias prometido, ou Cristo, viria de Belém.

Capítulo VI.

Aqui diz que Jeová não tira proveito dos sacrifícios feitos, mas que pede apenas que se pratique justiça, humildade e beneficência. Não sei se isso se refere a toda a Lei, o que é pouco provável, ou somente ao perdão. Afinal, o amor perdoa pecados e a necessidade de sacrifícios de comida seria posteriormente revogada. Fora que, quando alguém sentia que tinha pecado grandemente, se vestia com sacos, esfregava cinzas na cabeça, se humilhava, enfim. Isso não seria necessário se a humildade fosse praticada com frequência. Se levar em consideração que se fala aqui de humildade para com seu Deus, talvez humildade seja se colocar em seu devido lugar. Então, a humildade estaria a meio caminho entre a arrogância e seu oposto, cujo nome não sei, pois não estaríamos nos humilhando a todos, mas somente ao superior, nem estaríamos tentando nos exalçar ao nível que não nos convém, que é o de divindade ou qualquer outro cargo que não estejamos prontos para assumir ou que seria melhor desempenhado por outro. Então, a humildade é uma justa humilhação praticada constantemente, que poderia substituir a intensa humilhação praticada pelos judeus após grave pecado ou quando se procurava um favor.

A profecia de Naum.

Capítulo I.

Se Jeová perdoa, como se pode dizer que ele não tem o culpado por inocente? É que, depois que você se arrepende ou é punido pelo seu ato, sua culpa já é expiada, porque você aprendeu a lição, por assim dizer.

Novamente a adoração de Deuses falsos é reprovada. Eu disse que era mais sábio seguir a um deus falso do que ser ateu, porque o adorador falso ainda reconhece a existência de uma realidade espiritual. Porém, tudo indica que isso não torna o adorador falso menos digno de culpa. Pelo contrário: a adoração falsa é pecado. Então, mesmo que adorador falso seja mais sábio que o ateu por reconhecer que existe uma realidade espiritual, ele é mais digno de culpa e de punição que o ateu, o qual, mesmo não tendo essa sabedoria e justamente por não tê-la, não se expõe ao erro da adoração falsa. Isso é natural: a filosofia e a ciência chegam à conclusões verdadeiras, mas também à conclusões falsas. Então, rejeitar a sabedoria, embora nos livro do risco de conclusões falsas, nos priva das conclusões verdadeiras, que nos são úteis, belas, justas e boas, em uma palavra. O fato é que certos assuntos só devem ser adentrados quando se tem maturidade para arcar com as consequências do erro produzido sobre aquele assunto.

A profecia de Habacuque.

Capítulo II.

Ao dizer que o justo viverá por sua fé, parece implicar que o justo sem fé não irá ser poupado. O que salva o justo é a fé que ele tem, porém a fé sozinha não salva o que é injusto.

A profecia de Sofonias.

Capítulo I.

É reprovável adorar duas divindades. Jeová requer adoração exclusiva. Também é reprovável não procurar a divindade e também é reprovável desistir da adoração verdadeira.

Não se deve negar a providência, dizer que Deus não influi em nossas vidas.

Capítulo II.

Os justos que fazem a vontade de Deus talvez serão escondidos da ira divina quando ela vier.

A profecia de Ageu.

Capítulo I.

Como parte do acordo com Israel, Jeová tinha que ser posto em primeiro lugar. A reedificação do templo estava atrasada, mas todos tinham casas para morar e procrastinavam a construção do templo, pondo Deus em segundo plano. Isso era quebra do acordo divino, então Deus tinha o direito de prejudicar Israel.

A profecia de Zacarias.

Capítulo I.

A ira divina não dura para sempre. Mesmo quando Deus pune, ele o faz para que as pessoas se tornem de seus erros. A punição é um ato de zelo pelas criaturas particulares e pela criação em geral.

Capítulo V.

Uma maldição comum é lançada sobre os que roubam e sobre os que juram falsamente. Isso mostra que existe equivalência penal entre alguns pecados, de forma que diferentes pecados, se forem equivalentes, são punidos da mesma forma.

Capítulo VII.

Novamente, o sacrifício tinha pouca importância. O que importava era a prática da justiça e do amor ao próximo. Mas acabou ficando mais cômodo sacrificar do que praticar essas coisas.

Capítulo VIII.

Aquilo que é difícil ao ser humano não é difícil para Deus. Devemos amar a verdade, buscá-la. “Amor pela verdade” é a raiz etimológica da palavra “filosofia”. Se a verdade é Deus, é possível fazer filosofia nessa direção.

Capítulo X.

Os pastores, isto é, líderes religiosos podem fazer um trabalho que deixa a desejar e que Deus talvez não aprove. É sábio duvidar de qualquer sentença moral sem base bíblica que seja proferida por um líder religioso e mais sábio ainda recusar qualquer sentença moral antibíblica. Mesmo que as ovelhas tenham que ter um pastor, o rebanho ainda é de Deus e a ordem dele é maior que a ordem do pastor. E a ordem divina está na Bíblia. Por isso, todo aquele que crê em Jeová, Deus dos judeus e dos cristãos, tem obrigação de ler a Bíblia, a fim de não ser presa de ensinamentos falsos.

Capítulo XI.

O salário do Cristo: trinta moedas de prata. Aqui é feita referência à morte de Jesus, o qual seria traído por dinheiro, aquele exato valor.

Judá seria separada do resto de Israel, pois Jesus era de Judá. Este capítulo encerra com a sentença aos pastores malignos.

Capítulo XIII.

Haverá um tempo em que não mais haverá profetas. Fala algumas profecias, talvez sobre os últimos dias.

A profecia de Malaquias.

Capítulo I.

É apenas justo que devamos adoração a Jeová se ele nos fez e fez todo o universo. Não adorá-lo é ingratidão.

Capítulo II.

Se temos o mesmo pai celestial e se vivemos sobre as mesmas ordens, não deveria haver brigas entre nós. Isso é especialmente válido para a cristandade, que é dividida em pontos de vista doutrinários por vezes inconciliáveis. Isso seria evitado se não fossem incluídas noções estranhas à Bíblia na adoração cristã. Se cada um tivesse sua interpretação própria da Bíblia, haveria apenas uma igreja, na qual um ensinaria ao outro, cada um melhorando sua interpretação usando a interpretação do outro como ponto de referência. Claro que isso não faria com que todos tivessem uma mesma interpretação bíblica, mas, se o texto básico é o mesmo, é mais fácil tolerar as interpretações que são mais distantes da nossa. As brigas eclesiásticas poderiam ser todas evitadas se a maioria dos cristãos praticasse a tolerância.

Capítulo III.

Deus não muda. Isso causou fomentou um ponto de vista teológico que hoje não é mais tão lembrado, que era a questão acerca do devir divino. Filosoficamente, mudança e movimento são a mesma coisa. Então, se Deus não muda, não se move. Mas, filosoficamente, movimento é qualquer mudança de estado, inclusive sentimentos e emoções. Esse ponto de vista teológico, apoiando-se neste capítulo e em Aristóteles, apoiado de todo coração por Tomás de Aquino, pregava que Deus não tinha emoções, de forma que todas as emoções divinas expostas na Bíblia seriam metafóricas. Como isso não me parece razoável, creio que o que não muda em Deus é sua essência divina e todas as características basilares que nela estão, como justiça e misericórdia. Por isso é dito logo em seguida, no verso seis, que Jacó não foi ainda consumido por causa dessa imutabilidade. Mas as características acidentais, como raiva, tristeza, intenções de punição, mudam e mudam segundo a essência. Não creio que seja anticristão dizer que Deus tenha emoções ou que possa mudar de ideia quanto a uma punição por verificar que a pessoa se arrependeu do que faz, mesmo que isso pareça pôr em xeque a primeira via de prova da existência de Deus.

Novo Testamento.

O santo evangelho de nosso senhor, Jesus Cristo, segundo são Mateus.

Capítulo I.

Jesus é dito filho de Davi de modo metafórico. Ele descende de Davi, mas não é literalmente seu filho.

Maria ficou grávida sem que homem algum tivesse sexo com ela. Isso havia sido profetizado no Velho Testamento, de que a virgem conceberia Emanuel. Mas Emanuel quer dizer “Deus conosco”, podendo ser aplicado como título e não literalmente como nome próprio, no sentido moderno da expressão.

Capítulo II.

Como previsto, Jesus nasceria de Belém. É um erro comum pensar que a Bíblia Sagrada foi escrita por uma só pessoa, mas os livros e cartas que a compõem foram escritos em tempos diferentes por pessoas diferentes. Muitas profecias escritas décadas ou mesmo séculos antes da Era Cristã se cumprem na pessoa de Jesus e há relatos seculares a respeito de sua existência. Se os livros escritos antes da vinda de Jesus previram sua vinda com riqueza de detalhes e essa vinda é comprovada pela história, a crença em Jesus é segura. E, crendo em Jesus, se crê também no Deus revelado por ele.

Capítulo III.

João Batista anuncia o reino dos céus. Isto parece apontar para a possibilidade de que o reino dos céus se instaurou com a vinda de Jesus.

Se Deus pode suscitar das pedras mais filhos para Abraão, quanto mais pode filiar um gentio ao mesmo.

Veja como o batismo era ministrado. Qualquer um que vinha com intenção verdadeira de conversão podia ser batizado por João. Bastava querer ser salvo e reconhecer que a conversão a um novo proceder era necessária, ou seja, o proceder cristão. Mas era necessário dar frutos que te tornavam digno de conversão. Esses frutos são descritos no terceiro capítulo do Evangelho segundo Lucas, a saber: a prática da justiça e do amor. Se o indivíduo já não estivesse praticando justiça e amor, não estava elegível para o batismo. O batismo, então, era simples e não requeria preparação além da confissão e da prática do amor e da justiça, não requeria rituais ou metas e podia ser aplicado imediatamente. Então, se você tem dúvidas sobre quem deve te batizar, esse é um bom critério: o batismo precisa ser simples e fácil de obter, porque João não recusava batizar alguém justo e amoroso que se chegasse a ele, confessando os pecados e arrependendo-se deles. O batismo é feito pela imersão, isto é, o indivíduo deve ficar completamente submerso durante o batismo.

Capítulo IV.

Se alguém está em missão para Deus, como Jesus estava, não precisa se preocupar com comida, porque Deus facilitará a obtenção de comida. Ou, na ausência completa de comida, o proverá de força para continuar.

Não se deve colocar Deus a prova, contudo. Então, se não é necessário passar fome, não se deve se privar de comida deliberadamente a fim de ver se Deus o manterá vivo. Era necessário no caso de Jesus, porém, e Deus o proveu de força.

Capítulo V.

Aqui são elencadas as recompensas para certos tipos de atos. Parece que toda a boa ação é digna de recompensa, mas diferentes boas ações são recompensadas de modo diferente. Este capítulo permite que o cristão se oriente para obtenção da recompensa desejada ou mesmo para todas elas, pois são as recompensas para tipos exatos de comportamento.

Jesus não veio acabar com a Lei, mas veio cumpri-la, pois a Lei dá testemunho da vinda de Jesus e da nova aliança (ou concerto). Com a vinda de Jesus, a Lei seria mudada, mas não destruída: veja como os cristãos ainda guardam certos preceitos judaicos.

Ele também não veio substituir as profecias feitas antes dele, mas cumprir as profecias que davam testemunho de sua vinda. Pondo as coisas desta forma, a Lei e os profetas estariam errados se Jesus não viesse. Logo, a vinda de Jesus valida as profecias e valida a Lei anterior, que apontava para a vinda de um “Renovo” que faria uma nova aliança, porque os israelitas não estavam conseguindo seguir plenamente a Lei Mosaica.

Não devemos nutrir intenções contra nosso próximo. Se estamos com raiva de alguém, devemos nos expiar dela, nos reconciliando com a pessoa que nos causou a raiva. Se isso não for possível, nem por isso devemos ofender tal pessoa.

Aqui diz que também não devemos olhar para uma mulher com intenção de cobiçá-la, mas é importante fazer uma ressalva: cobiçar pode ser entendido como desejar possuir ou pode ser entendido mais especificamente como desejar possuir o que é do outro. Se fosse entendido como desejar possuir, não poderíamos jamais desejar mulher alguma. Levando em consideração que o sexo só pode ocorrer dentro do casamento, não desejar mulher alguma posaria um risco para a multiplicação do gênero humano. Então, “cobiçar” refere-se a desejar o que é do próximo, o que se harmoniza com o início do verso vinte e sete, no qual Jesus diz que os antigos não deviam adulterar, que é justamente a profanar um casamento já existente, quer seja o seu ou o do outro.

Segundo Jesus, a única razão para o divórcio é a fornicação, isto é, se uma forma ilícita de sexo for praticada no casamento. Em geral, a fornicação refere-se à prostituição, que pode se afigurar como um tipo de adultério. Então, me parece que o único motivo lícito de divórcio é a traição conjugal. Se o homem separa-se da mulher por outra razão, o divórcio não é espiritualmente válido e, do ponto de vista divino, ambos ainda estão casados. Nesse cenário, se casar de novo é adultério.

A partir de Jesus, qualquer jura passa a ter caráter maligno. Não se deve dizer “juro que sim” ou “prometo que não”, mas apenas “sim” ou “não”. Se comprometer com uma jura ou com uma promessa abre espaço para seu descumprimento, o que não é sábio.

Não se deve resistir ao mal. Não parece errado fugir do mal, mas parece errado contra-atacar o mal que nos causam. Permita que a justiça seja operada cedo ou tarde por Deus.

Devemos ser liberais com nossas coisas, dando algo que nos pedem ou emprestando. Por último, devemos amar também nossos inimigos, o que é fácil depois que se entende que muitos males feitos de propósito são feitos por ignorância do bem, ao passo que os males feitos sem querer não são dignos do nosso ódio.

Capítulo VI.

As nossas boas ações devem ser feitas discretamente, em segredo quando possível. As esmolas, por exemplo, não podem ser dadas com alarde, a fim de atrair atenção.

As orações devem ser feitas em segredo, se possível no quarto pessoal e de porta trancada. As orações não precisam ser longas, pois Deus já sabe do que precisamos, mas, sendo que somos livres, ele permite que tentemos obter tais coisas por conta própria. Então, mesmo que Deus saiba do que precisamos, ele espera que peçamos a ele.

Jesus nos dá uma oração modelo, que é o Pai Nosso. A oração moderna diz “perdoai as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tenha ofendido”, mas no texto crítico e no Texto Recebido traduzido por Almeida consta “perdoa nossas dívidas, assim como nós perdoamos os nossos devedores.” É interessante notar isso porque a alteração feita ao longo dos tempos pode ter carácter de interesse: é mais fácil perdoar uma ofensa verbal do que uma dívida material. Na tradução Almeida de 1819, a oração encerra com a obscura passagem “Porque teu é o Reino, a potência e a glória, para todo o sempre. Amém.” Eu conheci essa passagem através de Tomás de Aquino e nunca vi uma Bíblia que a contivesse. Poderia ter sido uma das irritantes alterações feitas pela editora ao texto original de Almeida, tanto que as Almeidas recentes não incluem essa passagem.

Perdoar as ofensas dos outros nos permite ser perdoados por Deus pelas nossas próprias ofensas. É nesse sentido que o amor perdoa pecados. O perdão deve ser pedido pela oração.

As tarefas espirituais devem ser todas feitas discretamente ou secretamente, quando possível. Isso também inclui o jejum. Algumas pessoas, apoiando-se na profecia de Isaías, onde é dito que o jejum que agrada a Deus é o jejum de pecado, não de comida, preferem trocar o jejum de comida por algum outro tipo de sacrifício. Isso costuma ser feito por católicos na quaresma.

Nosso coração (intenções e emoções) se ordena para nossos objetivos de vida. Então, se buscamos objetivos mundanos, como fama e riqueza, nosso coração se ordenará para a obtenção desses objetivos. Mas, se buscamos objetivos espirituais, nosso coração se ordena nessa direção também. A metáfora do olho sincero e do olho maligno parece complementar isso.

Não é permitido obedecer a duas divindades. Em outras traduções, as divindades são “Deus e as riquezas”. Se este verso sobre Deus e as riquezas ocorre logo após a metáfora do olho, sendo que a admoestação sobre os objetivos mundanos ocorre logo antes da dita metáfora, parece que minha metáfora do olho está correta: o olho sincero é o que procura as coisas espirituais e que guia o corpo (os sentidos mostram os caminhos que a razão deve seguir) na direção dessas coisas, enquanto que o olho maligno é aquele da pessoa que procura maus objetivos, que guia todo o corpo para a perdição.

Se buscarmos seguir a moral divina, as coisas de que necessitamos ficarão mais fáceis de obter. Não precisamos nos preocupar com o dia de amanhã, que ainda não chegou, nem com o dia de ontem, que já passou. As coisas se desenrolam no hoje e é com o hoje que devemos nos preocupar. Isso não significa que devemos deixar de nos preparar para o futuro, mas que, depois de nos prepararmos, não precisamos ficar nos torturando com a possibilidade de sucesso ou de falha. Já nos preparamos, amanhã saberemos.

Capítulo VII.

Não devemos julgar uns aos outros. Este texto parece se referir à pessoas. Ainda podemos julgar atos cometidos pelas pessoas. Então, por que não julgar uma pessoa segundo seus atos? Porque a pessoa pode se redimir de seus atos maus ou abandonar os atos bons. Atos bons sempre são bons e atos maus sempre são maus, mas pessoas podem mudar.

Não devemos corrigir o erro dos outros quando nós mesmos cometemos um erro igual ou pior. Nem tampouco devemos ensinar as coisas divinas a quem não as quer receber (metáfora dos porcos e das pérolas).

Se queremos que Deus nos dê algo, devemos persistir em pedir esse algo. Afinal, se você realmente quer uma coisa, a buscará até conseguir. Se você desiste, talvez não a quisesse tanto assim. Importante lembrar que a oração dos maus não é ouvida e Deus não atenderá uma oração que contradiga seus desígnios.

A mudança da Lei é operada por um resumo que deixa a Lei muito mais fácil de ser seguida: aquilo que eu quiser que seja feito a mim, devo fazer aos outros; aquilo que eu não quiser que seja feito a mim, não devo fazer aos outros. Os preceitos antigos da Lei que não se adéquam a isso não precisam ser seguidos pelo cristão, como se verá.

Devemos evitar os falsos profetas, e o Velho Testamento tem alguns critérios para julgar quais profetas são falsos. Jesus dá um critério mais confiável: o falso profeta não opera retamente a moral divina. O profeta verdadeiro é escolhido dentre os que operam a moral de forma irrepreensível.

A salvação e a entrada no Reino dos Céus depende de fazer a vontade divina pregada por Jesus.

Capítulo IX.

Deus quer que as pessoas tenham misericórdia umas das outras. Se isso fosse feito, nunca o sacrifício de animais teria sido instaurado.

Capítulo X.

O termo alma é usado como diferente de corpo neste capítulo. Então, em certos sentidos, alma não é corpo. Mas veja aqui que é possível que um ser humano mate o corpo de outro humano, mas não é possível ao humano matar a alma. Só Deus pode destruir a alma. Isso joga a favor da imortalidade da alma, mas, visto que não há consciência entre morte e ressurreição, parece que a alma dorme na morte.

Capítulo XI.

João tinha dúvidas sobre Jesus e enviou-lhe uma mensagem da prisão onde estava, perguntando se Jesus era realmente o Messias. Jesus respondeu dizendo que tudo o que as profecias haviam dito sobre o Messias estava sendo cumprido em sua pessoa.

João era Elias. Sodoma aparecerá no dia do juízo. Isso quer dizer que também os maus serão ressuscitados, a fim de serem julgados.

Capítulo XII.

Os discípulos colheram espigas no sábado, o que não era permitido, mas Jesus mostrou que profanar o sábado era lícito na Lei sob certas circunstâncias. Se era para sanar a fome, tudo bem fazer o ilícito no sábado. Recitando que a misericórdia é melhor que o sacrifício, parece que o pecado cometido por amor a um inocente é perdoável.

É lícito praticar o bem no sábado. Quem não está a favor de Jesus, está contra ele. A blasfêmia contra o Espírito Santo é imperdoável.

Ao contrário da crença popular, Maria não permaneceu virgem após ter Jesus, já que Jesus tinha irmãos.

Capítulo XIV.

O contamina o ser humano não é o que ele come, mas o que ele diz. A Lei listava uma série de animais que se não podia comer, mas Jesus, como escreve Marcos mais a frente, havia purificado todos os animais com essa sentença. Comer ou deixar de comer não fere a máxima que resumiu a Lei no capítulo sete. As coisas da Lei que não concordam com a máxima não precisam ser observadas pelos cristãos.

O que contamina o homem é a atualização de sua potência má: os atos maus que procedem de pensamentos maus.

Capítulo XVII.

Moisés e Elias, ambos mortos, reaparecem para falar com Jesus durante a transfiguração. Se a alma fosse perdida com a morte, aquilo não seria possível. Porém, como não se vê a alma ou o espírito, pode ser que ambos tenham sido temporariamente ressuscitados.

No relato do exorcismo falho, algumas Bíblias omitem o verso vinte e um. Se o texto for lido ignorando o verso vinte e um, o texto flui normalmente. Se o texto for lido com o verso vinte e um, parece haver contradição entre o verso vinte e um e o vinte. Suponhamos que a contradição fosse aparente, que tipo de jejum Jesus teria praticado para exorcizar aquele demônio, se ele não havia jejuado desde quando havia sido tentado pelo Diabo? Provavelmente, o jejum de pecado, como descrito na profecia de Isaías. Convém verificar ambas as possibilidades quando essas supressões ocorrem, por questão de segurança e julgamento.

Capítulo XVIII.

Para receber uma melhor recompensa no mundo vindouro, convém viver humildemente neste mundo e receber a mensagem divina sem duvidar dela, como a criança ainda pequena não duvida do que lha dizem os pais.

Quando alguém faz algo errado contra ti, deves avisá-lo de seu erro. Se ele ignorar o conselho, é problema dele; fizeste tua parte.

Nós fazemos muitas coisas erradas e Deus está disposto a perdoá-las se nós perdoarmos aos outros pelas falhas deles. Afinal, as faltas que o outro comete contra você são poucas, mas as faltas que cometemos contra Deus são várias ao longo de toda a vida.

Capítulo XIX.

Este capítulo dá a entender que algumas partes da Lei Mosaica foram legisladas pelo próprio Moisés, não sendo assim inspiradas, como a regra da carta de divórcio. Talvez tenham sido essas regras que foram abolidas com o resumo feito por Jesus. Se isso for verdade, então as regras da Lei Mosaica que nada tinham a ver com amor ou misericórdia, com adoração e com santificação do sábado, tivessem sido legisladas por Moisés. Mas isto é especulação.

Às vezes, não convém casar. Só Deus é bom. Seguir os dez mandamentos basta para sermos salvos.

Porém, o nível de vida dos ressuscitados no Reino dos Céus depende de outros atos sacrifícios. Tudo aquilo que deixamos para servir a Jesus nos será retornado cem vezes mais no Reino dos Céus.

Capítulo XX.

Ministrar as recompensas dos atos em vida não depende de Jesus, as de Deus. Ora, se Jesus fosse Deus, não seria dessa forma. Além disso, se Pai, Filho e Espírito Santo fossem a mesma entidade, por que só a blasfêmia contra o Espírito Santo é imperdoável?

Capítulo XXI.

O zelo pela casa de Deus consome Jesus. Como devemos amar Deus acima de tudo, Jesus, zelando pelo templo, tirou dali os comerciantes. Se fosse uma situação secular, isto é, se não fosse um templo ou outro lugar ou objeto sagrado que estivesse sendo profanado, Jesus provavelmente teria tentado uma abordagem mais pacífica.

Operar milagres depende da fé. Não ter fé de que algo há de acontecer impossibilita a operação milagrosa.

Então, a oração por algo muito difícil deve ser feita com muita fé.

Capítulo XXII.

O fato de algumas das parábolas de Jesus incluírem violência mostra que a violência na ficção não é totalmente execrável, na medida em que se pode tirar algum proveito de um ficção dessa natureza. Ao cristão é vetada a violência real.

O cristão tem duplo compromisso: com o governo e com Deus. Ele deve dar ao governo o que é devido e a Deus o que devido.

A passagem sobre o casamento depois da ressurreição é complexa. Jesus diz que depois da ressurreição, ninguém se dará em casamento, mas que seremos como os anjos do céu. O conectivo “mas” sugere substituição. O casamento seria substituído pela forma como os anjos se relacionam entre si. Segundo Agostinho, todas as coisas eram comuns antes do pecado original. Então, alguém poderia inferir que as mulheres serão comuns após a ressurreição. Como essa nova realidade seria perfeita como deveria ser, o risco de doenças talvez seria inexistente. Ao contrário da crença popular, os anjos tem, sim, sexo, pois alguns anjos no Gênesis desceram à Terra para ter sexo com mulheres humanas, o que não seria possível se eles não fossem sexuados.

Na base de todos os mandamentos divinos estão os dois: amar o Senhor com todo o seu ser e amar o próximo tal como amo a mim mesmo. Toda a Lei começa nesses dois mandamentos e Jesus a resumiu no preceito “fazer ao outro o que eu quero que seja me feito, não fazer ao outro o que eu não quero que me seja feito.”

Capítulo XXIII.

O único mestre é Cristo. Ninguém mais é digno de ser chamado assim. O único Pai verdadeiro é Deus.

Nenhum ser humano pode ser chamado mestre. Isso parece mostrar que não há necessidade de líderes religiosos entre os cristãos. De fato, é interessante ter uma organização, com hierarquia e com objetivos, mas a organização, mesmo em nome de Cristo, não deve ter qualquer poder espiritual moral: as regras de conduta nos deixadas por Jesus já estão nos Evangelhos e em menor grau no Apocalipse, então ler esses livros já seria moral o bastante para salvar um cristão. Não há necessidade de preceitos morais que venham de fora da Bíblia Sagrada e mais: embora um mestre possa ensinar a muitos, cada aluno aprende de um mestre por vez, ou seja, a moral cristã deve ser assimilada individualmente por cada cristão. Então, aprender e seguir a moral é um esforço pessoal, mesmo quando vários cristãos se congregam para determinado fim, como a pregação.

O mais importante da Lei era a misericórdia, a fé e a justiça. Essas coisas eram necessárias. O resto da Lei não devia ser desconsiderado, mas os fariseus, dando excessiva importância aos ritos, esqueciam dos valores que motivavam os ritos.

Purificar nosso espírito purifica o corpo por consequência. Jesus queria juntar o povo de Jerusalém, mas como ele poderia juntá-lo antes de vir à Terra? Além disso, segundo a Lei e os profetas, sua interação com o mundo só começaria com seu ministério na Terra. Então, alguns veem no verso trinta e sete uma evidência a favor da Trindade.

Capítulo XXIV.

Sinais do fim do mundo. Virão falsos cristos (ou pessoas mal-intencionadas em nome de Cristo), guerras acontecerão tanto perto como longe, haverá fome e doenças em larga escala, mas tudo isso é só o começo.

Os cristãos serão perseguidos e odiados, serão entregues à morte. Irmão entregará irmão, falsos profetas aparecerão.

Com a multiplicação do mal, a prática do bem não parecerá compensar, de forma que a caridade se tornará rara.

Mas quem permanecer no caminho de Cristo, mesmo em meio a tantos testes, será salvo. O fim virá quando o Evangelho tiver sido pregado a todos.

O fim do mundo será um evento de tão grande proporção que será necessário que todos parem o que quer que estejam fazendo e corram por suas vidas, sem olhar para trás. Porém, não durará muito tempo; se durasse tempo demais, ninguém sobreviveria. Importante levar em consideração que o “fim do mundo” não é literal. Não é como se a Terra fosse explodir ou deixar de existir. Será um evento grande que operará grande mudança, contudo.

Não se deve mais acreditar em quem opera milagres ou quem vem em nome de Cristo, porque está previsto que falsos cristos virão.

A volta do verdadeiro Cristo será inconfundível, não será possível duvidar de que está acontecendo.

Embora seja possível dizer que “o fim está próximo”, não se deve acreditar em nenhuma previsão de dia exato ou hora exata, porque só Deus sabe quando, exatamente, o fim virá. Então, todos aqueles que preveem dias e horas exatas para o fim do mundo são falsos profetas.

Mesmo com todas essas coisas acontecendo (terremotos, guerras…), os dias do fim ainda poderão se passar por dias “normais”, de forma que todos serão pegos de surpresa.

O escravo fiel e discreto pode muito bem ser qualquer pregador, pois é aquele que dá o alimento espiritual às pessoas e o alimento espiritual é justamente a palavra divina.

Capítulo XXV.

Fazer algo a um necessitado equivale a fazer algo a Jesus. Então, fazer bem a quem precisa é fazer bem a Jesus. Fazer mal a um necessitado é fazer mal a Jesus.

Capítulo XXVI.

Mesmo quando o espírito está pronto, a fraqueza do corpo impede sua plena operação. O corpo, com todas as suas necessidades e cuidados, muitas vezes não está a altura da decisão feita pelo espírito.

Capítulo XXVIII.

Jesus ainda vive e ainda intercede por nós.

O santo evangelho segundo são Marcos.

Capítulo I.

Jesus viria e batizaria com Espírito Santo, não com água, como batizava João. anabaptistas Esta não é uma evidência sólida, contudo, então não podemos concluir que o batismo com água deve ser rejeitado só por causa deste verso.

Capítulo II.

O cristão não precisa se apartar daqueles que são pecadores. Jesus, ele próprio, se aproximou dos pecadores para que, pelo seu ensino e seu exemplo, pudesse chamá-los à conversão. Então, desde que o cristão não tome parte nos atos ilícitos dos pecadores, estar em meio deles é uma boa oportunidade de fazê-los ver, pelo exemplo, que a conversão do caminho ruim é uma boa decisão.

O sábado foi feito por causa do ser humano. Isso dá a entender que a intenção do descanso no sétimo dia era para preservar o bom estado dessas criaturas. Por isso é lícito fazer o bem durante o sábado, porque também o bem preserva o bom estado das criaturas.

Capítulo III.

O Espírito Santo estava em Jesus, porque Jesus disse, após os fariseus lho acusarem de ter espírito imundo, que a blasfêmia contra o Espírito Santo não seria perdoada. Satanás não pode expulsar Satanás, então a expulsão de demônios só pode ser feita por alguém que esteja contra Satanás e que seja mais poderoso que os demônios.

Capítulo IV.

Qual o sentido de falar por parábolas se ninguém iria entender? Não entendendo, eles se esforçariam em procurar um sentido para a parábola. Como só Jesus podia revelar o sentido, os que ouviram a palavra, se realmente cressem em Jesus e quisessem realmente saber o que significava a parábola, teriam que continuar a segui-lo. A administração dessas parábolas poderia, então, ser um meio de filtrar quais dos que ouviam a palavra eram seguidores sinceros, pois os que não fossem não persistiriam na busca do significado.

Porém, a parábola do semeador sugere que alguns podiam entender as parábolas.

Capítulo V.

Jesus era um canal de poder divino. Tanto ele podia invocar o poder divino para operar milagres como os milagres podiam ser operados espontaneamente pela fé que as pessoas tinham nele. Por isso se pode dizer que a fé curou a mulher que sangrava.

Capítulo VIII.

O milagre da multiplicação dos pães nada parece ter a ver com qualquer multiplicação, mas com divisão. Após a bênção, não é mencionado que o número de pães havia aumentado, mas que a quantidade ali presente havia sido dividido entre os viajantes. Cada um recebeu um pedaço, não um pão completo. A quantidade de sobras recolhidas causa confusão, contudo.

É possível que o pregador, após converter e batizar muitos, perca a si próprio. Não é porque ele está trazendo pessoas ao caminho certo que ele próprio está isento de segui-lo.

Capítulo IX.

Marcos também menciona que existem certas espécies de demônios que só saem pela oração. Então, a supressão no Evangelho segundo Mateus é desnecessária.

Se alguém faz boas ações em nome de Jesus, não está agindo contra Jesus. Então, não é necessário, para ser cristão, pertencer a um grupo específico de discípulos. Mas isso suscita uma pergunta: não é contraditório que Mateus escreva que quem não colhe com Jesus está espalhando e que Marcos escreva que quem não é contra Jesus é por ele? Em Mateus, Jesus repreendeu os fariseus dizendo que quem com ele não ajunta, espalha. Isso significa que quem é neutro a Jesus é automaticamente contra ele. Mas Marcos escreve algo oposto: que quem é neutro é automaticamente a favor. Porém, levando em consideração que ele disse uma sentença aos fariseus e outra aos discípulos, sobre as ações de um exorcista, e levando em consideração a explicação de Jesus sobre seu posicionamento relativo ao exorcista, é possível inferir uma coisa: os neutros que são assumidamente a favor de Jesus não são realmente neutros, então a neutralidade em Marcos não é da mesma natureza que a neutralidade em Mateus. Se o exorcista invoca o nome de Jesus, conforme o relato de Marcos, ele é a favor de Jesus, mas é neutro no sentido de que não está no meio dos discípulos com quem Jesus conversava no momento. Já no caso dos fariseus, a neutralidade é doutrinária: a doutrina que se posiciona neutra a respeito de Jesus automaticamente se posiciona contra ele. Isso explica porque em Marcos é usado “nós” (Jesus e discípulos) e em Mateus é usado “comigo” (Jesus em particular, sugerindo sua doutrina personificada).

Capítulo X.

Interessante como foi permitido a Moisés legislar uma regra que ia contra um princípio divino. Jesus restaura a autoridade do princípio original.

Capítulo XI.

É necessário acreditar que o pedido da oração será atendido. Deus só perdoará suas ofensas se você perdoar as ofensas que os outros te fizeram.

Capítulo XII.

Deus de Abraão, Isaque, Jacó, dos vivos. Então eles estão vivos. Porém, seus corpos aqui não estão. Eles só podem estar vivos em sentido metafórico, ou alguma parte deles subsiste. Não pode ser qualquer parte, contudo, tem que ser uma parte que contenha a pessoa e a pessoa é sua consciência e suas memórias. De fato, eles não precisam estar cônscios, mas estão vivos de alguma maneira.

Os maiores mandamentos: amar Deus sobre todas as coisas, amar o próximo como a nós mesmos. Esses mandamentos são maiores que todos os sacrifícios e holocaustos. Ora, mas o sacrifício e o holocausto servem para expiar pecados. Mas seguir esses dois mandamentos não apenas afasta da quebra da Lei como também perdoa pecados previamente cometidos. Mas como amar o próximo como a mim mesmo? A outra ponta da Lei explica: não fazer ao próximo aquilo que eu não gostaria que fosse feito a mim; fazer ao próximo aquilo que eu gostaria que fosse feito a mim.

Capítulo XIII.

Se Jesus é Deus, isto é, se o Filho é o Pai, como ele diz que o Pai sabe a data do fim do mundo, mas o Filho não sabe? É notável como Jesus fala de sinais que não se cumpriam na época dos apóstolos, mas se cumprem agora, aos poucos, com intensidade crescente. É como se ele soubesse que sua mensagem seria escrita e lida por mim e por você no século vinte e um. É bom saber que Deus cuida para que sua palavra permaneça em circulação por mais de dois mil anos.

Capítulo XVI.

No Texto Recebido, este capítulo tem doze versos a mais. Algumas coisas dignas de nota desses versos são que os que forem batizados e crerem serão salvos e que os que creem, com sua fé, podem operar milagres. Nada disso parece repudiar o que já foi dito nos Evangelhos até agora, então a supressão desses versos é desnecessária. Os textos críticos, em geral, terminam este capítulo no verso oito, porque os manuscritos mais antigos não têm os outros doze versos. Mas o resto poderia ter sido comido pela rotura ou talvez o próprio Marcos poderia ter feito outra cópia com as adições. Como não conheço arqueologia, não sei.

O santo evangelho segundo são Lucas.

Capítulo I.

Lucas não viu Jesus. Sua escrita do Evangelho é baseada em testemunhos oculares. Este livro parece ter sido escrito para alguém chamado Teófilo, mas, considerando a raiz etimológica de “Teófilo” (amigo de Deus), esse Teófilo pode muito bem ser qualquer um que tenha interesse pelas coisas divinas. Mas isto é especulação.

É anunciado a Zacarias que João teria a virtude do Elias. Em adição, é dito que esse Elias converteria (pelo batismo) as pessoas ao Deus. Isso significa que Israel estava desviada e precisava do batismo para voltar ao caminho divino.

Capítulo II.

Jesus, como todos os judeus, foi circuncidado. É importante tocar neste assunto porque o nosso salvador veio do judaísmo. Então, não faz qualquer sentido que um cristão seja antissemita.

Capítulo III.

Lucas menciona que João Batista pedia, como frutos de conversão, a prática da justiça e do amor. Era necessário praticar essas coisas já antes de ser batizado.

Capítulo V.

Se só Deus pode perdoar pecados, como pôde Jesus também fazê-lo? Ele tinha “autoridade” para isso, o que não necessariamente o torna Deus. Afinal, os profetas disseram que Jesus iria levar nossos pecados embora, então ele tinha autoridade sobre o pecado. Este capítulo pode parecer evidenciar a Trindade à primeira vista, mas não precisa ser usado dessa forma, podendo ser interpretado em sentido não-trinitário.

Capítulo VI.

A árvore se conhece pelos frutos. Quem pratica boas ações pode ser chamado bom e quem pratica más ações pode ser chamado mau. Mas não é isso um juízo de valor? É lícito fazer este tipo de julgamento? O que me parece é que devemos nos guardar de julgar os outros se nós não quisermos ser julgados. Mas, se desejamos julgar alguém, temos que entender que nós mesmos estamos abertos a sermos julgados. Tanto que Jesus julgou os fariseus como sendo hipócritas e era um julgamento justo já que eles eram hipócritas afinal. Porém, isso abriu Jesus a julgamento. Mas Jesus se importaria em ser julgado por alguém? Claro que não: ninguém podia julgá-lo negativamente.

Capítulo VII.

Quanto mais se ama, mais pecados são perdoados.

Capítulo IX.

Quem se envergonha de ter escolhido a cristandade envergonha Jesus. É preciso se posicionar como cristão mesmo na iminência da morte.

Capítulo X.

O mundo é bem grande, a pregação precisa ser feita por um grande número de pessoas para ser eficiente.

Amando Deus sobre todas as coisas e o próximo como a mim mesmo serei salvo. Mas quem é meu próximo? Meu próximo é quem precisa de mim quando eu posso ajudar. Lembre-se de que a prática da justiça também é necessária e justiça é dar a cada um o que lhe é devido. Se temos um anão e um gigante, ambos precisando ver algo que está além de um muro mais alto que os dois, não daremos aos dois um apoio de mesma altura; antes daremos um apoio maior ao anão e menor ao gigante. A justiça é compensar a condição do outro, a fim de que ele venha a se aproximar à nossa condição. Isso é fazer-lhe justiça. Então, eu devo fazer bem a quem eu puder, na medida em que a pessoa precisar, o que não me impede fazer bem aos outros (é só que o necessitado é prioridade).

Se várias pessoas fizessem dessa forma, a ajuda que cada um teria que dar seria menor, pois cada um contribuiria um pouco para a justiça do necessitado. Além disso, não precisa ser de um culto específico para fazer isso, pois a parábola usada para explicar esse preceito envolve dois judeus e um samaritano, sendo que o samaritano foi o herói da parábola. O bem que os gentios praticam também conta.

Capítulo XI.

Se Salomão foi o mais sábio até hoje, como Jesus parece se por acima dele em sabedoria? É que Salomão foi o mais sábio até o momento da escrita do livro em que é mencionado que ele era o mais sábio até hoje. Como os Evangelhos foram escritos posteriormente, Jesus pode muito bem ter sido mais sábio que Salomão.

O olho é o guia do corpo, podendo ser uma metáfora para nossos desejos: se desejamos o que é bom, nosso corpo se guia para o que é bom; se desejamos o que é mau, nosso corpo se guia para o que é mau.

A metáfora do copo sujo por dentro é apresentada de outra forma neste livro. Segundo Lucas, Jesus disse que agir caridosamente limpa nosso interior. Afinal, a prática cotidiana do bem, de forma que essa prática se torne hábito, afasta do mal.

Capítulo XII.

A abundância de bens materiais não garante a vida de ninguém. Mesmo que a morte nesta vida venha a ocorrer, a obediência a Deus nos dá a vida eterna após a ressurreição.

A punição pelos pecados é diferente para cada um, segundo a quantidade e intensidade dos pecados cometidos.

Capítulo XVI.

Este capítulo contém uma passagem que pode ser usada como evidência da existência do Inferno de fogo, mas as testemunhas de Jeová a veem como uma metáfora para a Geena, que é a destruição eterna.

Capítulo XVII.

O Reino de Deus, segundo este capítulo, não virá com aparência exterior, ficando entre nós. Isso leva muitos a crer que a volta de Jesus é totalmente metafórica, que não o veremos em pessoa e coisas assim. Então, é daqui que são tiradas as crenças de que o fim do mundo (ou Juízo Final, como queira) não ocorrerá de maneira literal.

O verso seguinte, contudo, explica que a volta de Jesus dará um sinal inconfundível. Então, mesmo que o Reino de Deus não seja estabelecido da forma quando todos esperam, certamente a volta de Jesus será reconhecível por todos os que creem.

Esse sinal será de natureza destrutiva, como o dilúvio foi. Então, a volta de Jesus eliminará quem tiver que ser eliminado. Talvez seja nesse sentido que a volta dará um sinal inconfundível, porque muitos morreram por consequência dela.

Durante a fuga dos males causados pela volta, não se deve voltar para salvar pertences.

Capítulo XX.

Este capítulo diz que não haverá casamento na vida futura porque não mais morreremos. Como o casamento tinha por função unir duas pessoas para vínculo sexual, tudo indica que não haverá também sexo. Ou talvez que, havendo sexo, não servirá para fins de reprodução, mas isso implicaria que a razão de existir o casamento como meio de tornar lícito o sexo tem algo a ver com a reprodução, como se para garantir a existência de uma família. Mas isso é especulação.

Deus de Isaque, de Abraão, de Jacó, Deus dos vivos. Do ponto de vista divino, todos estão vivos, porque ele pode ressuscitar e matar quem ele desejar. Então, Isaque, Abraão e Jacó estão vivos em sentido metafórico, porque Deus pode ressuscitá-los conforme a necessidade.

Capítulo XXI.

Segundo Lucas, a perseguição dos cristãos deve ocorrer antes dos outros sinais do fim do mundo.

Capítulo XXII.

O cristão deve comemorar a Páscoa em memória de Jesus. As testemunhas de Jeová afirmam que o controle do mundo pertence ao Diabo, mas, na minha leitura do Velho Testamento, o controle do mundo pertence a Deus e muitas evidência há disso. Eu tenho a impressão de que, se o poder sobre o mundo passa de Deus para Satanás, essa mudança ocorre no verso cinquenta e três. Pode ser só impressão minha, contudo, já que não sou nenhum teólogo. A boa testemunha de Jeová provavelmente me perguntaria como Satanás oferecera a Jesus todos os reinos da Terra durante as provações se ele não fosse realmente dono do mundo. Se eu tivesse que sustentar meu ponto de vista, diria que não faria diferença ele oferecer os reinos cedo ou tarde, porque certamente os teria dado a Jesus se este cedesse, uma vez que o controle do mundo lho seria dado de qualquer jeito. Poderia também ser que Jesus estava antecipando um acontecimento que se efetivaria após sua morte. Isso me leva a crer que o controle do mundo mudou com a morte de Jesus ou, mais provavelmente, um pouco antes.

Capítulo XXIII.

Pontuação faz muita diferença. Em algumas Bíblias está escrito: “vos digo: hoje estarás comigo no Paraíso”. Mas em outras consta: “vos digo hoje: estarás comigo no Paraíso.” No primeiro caso, o ladrão que foi condenado com Jesus estaria com ele no Paraíso naquele mesmo dia, o que sugere que sua alma ascenderia ao transcendente ou talvez que ele seria levado como Enoque foi. No segundo caso, o ladrão não necessariamente iria naquele dia, o que ainda está em conformidade com a ressurreição.

O santo evangelho segundo são João.

Capítulo I.

A Palavra era Deus, sendo que a palavra estava junto de Deus. Como pode alguém ser Deus e estar junto de Deus? Simples: tal como João é homem, nem por isso ele é o único homem. Deus pode então se referir ao gênero de seres divinos, tal como “homem” se refere ao gênero de seres humanos. Do ponto de vista filosófico, ter criado o universo basta para que alguém seja considerado Deus e Paulo, como se verá, diz que a Criação foi obra divina, mas operada por Jesus, como se Jesus fosse um “mestre de obras”. Então, filosoficamente, o título de Deus cabe a ambos (embora somente o Deus maior deva ser adorado). Alternativamente, este texto pode também ser entendido como evidência da existência da Trindade, como se Deus e a Palavra fossem um e o mesmo em essência, mesmo que espacialmente separados.

Qualquer um que crê em Jesus torna-se filho de Deus. Quer o crente seja judeu ou gentio. “Aceitar Jesus”, como dizem, é como um outro tipo de nascimento.

Jesus é a Palavra feita carne, ou seja, o “Verbo Encarnado”, como se diz na escolástica. Jesus existia antes de encarnar.

Capítulo II.

Na cronologia de João, o ataque aos comerciantes do templo foi um dos primeiros acontecimentos narrados, mas foi um dos últimos na cronologia de Lucas. Como os Evangelhos foram escritos depois de Jesus ter morrido, alguns acontecimentos estavam provavelmente sendo escritos em ordem de lembrança. Se o escritor lembrava disto primeiro, escreveria tal antes. Claro que a diferença nas cronologias não afeta o entendimento do texto. Na verdade, a ordem em que as parábolas foram contadas e a ordem em que os milagres foram feitos é o de menos importância.

Capítulo III.

Após ser batizado por João, Jesus batizou alguns também (através de seus discípulos). Ele não passou por nenhuma preparação ou coisa do gênero para começar a batizar. Então, o batismo pode ser feito por quem quer que já tenha sido batizado. Mas quem batizou João? Ele foi escusado disso, já que fora ordenado a batizar pelo próprio Deus.

Jesus recebeu todas coisas na mão, Deus as deu a Jesus. Então, supondo que Satanás esteja no controle do mundo, algo que se pode colocar em dúvida, não é por tempo indefinido.

Capítulo IV.

Deus é espírito. Deve ser adorado em espírito. Então, ele não precisa ser adorado em locais específicos, com roupas específicas ou em posições específicas. A oração, se verdadeira, pode até ser feita em silêncio.

Capítulo V.

O julgamento das pessoas cabe a Jesus. Então, não se poderia dizer que Deus julga alguém, a menos que se fale indiretamente, porque Deus passou para Jesus os critérios de julgamento e ordenou Jesus para julgar. Se ele o fez, é porque relevará o julgamento de Jesus como seu próprio.

Capítulo VI.

Aquele que crê em Jesus e faz sua vontade nunca terá fome ou sede, mas na vida eterna, obviamente. Talvez ainda nesta vida, mas não de modo literal.

Ninguém se aproxima de Jesus sem que o Pai o tenha atraído. Isso dá origem a muitos mal-entendidos. Os versos seguintes explicam: quem ouviu sobre Deus e aprendeu sobre Deus é levado a aprender sobre Jesus. Ou seja, Deus atrai indiretamente, porque ouvir e aprender sobre Deus nos deixa curiosos sobre Jesus. É nesse sentido que o Pai atrai ao Filho.

A ingestão da carne de Cristo (o pão) e do sangue de Cristo (o vinho) propicia a vida eterna. Por isso Jesus nos disse para consumirmos esses alimentos em memória de seu sacrifício. Ora, mas vinho é alcoólico. Donde decorre que a doutrina cristã não se opõe ao consumo de álcool (embora possa se opor à embriaguez). Interessante que Jesus não disse que o pão e o vinho devem ser comidos exclusivamente na páscoa, embora tenha sido na páscoa que o costume se iniciou. Creio que fique à gosto de cada um.

Capítulo VII.

O julgamento não deve ser feito com base na aparência, mas segundo aquilo que algo é. Por isso é mais seguro não julgar uma pessoa, porque aquele que julga deve conhecer aquilo que está julgando. Porém,, o julgamento sobre atos é inevitável.

O verso cinquenta e três é omitido de várias Bíblias.

Capítulo VIII.

Os onze primeiros versos são omitidos de várias Bíblias. De fato, Jesus age de forma bem diferente do normal durante esse relato, ignorando a provação dos fariseus até certo ponto, quando disse que não se deve punir o outro pelos pecados desse outro, porque nem nós mesmos somos plenamente punidos pelos nossos. O propósito desses onze versos, que podem ser facilmente ignorados junto com o último verso do capítulo anterior (o que formaria uma leitura contínua), é mostrar que nós, humanos, não devemos punir o pecado dos outros, porque a punição pelo pecado deve ser ministrada por Deus. Então, a caça aos hereges, às bruxas e também a homofobia perdem o sentido: não cabe ao cristão punir o herege, a bruxa, o homossexual ou quem quer que seja. Ele pode no máximo mostrar que seu comportamento pode estar errado segundo a fé, mas nada pode além disso. Como tal ensinamento não repugna o resto da moral cristã, essa supressão textual é desnecessária. Na versão católica, essa supressão é por vezes revelada na nota de rodapé, fenômeno curioso. Outra possível razão para a supressão é que o verso onze dá a entender que um pecado não é condenável se ninguém condena o pecador por causa dele, ou seja, se o pecado não causou mal a ninguém.

Jesus diz que não julga ninguém, mas deve-se entender essa passagem como se Jesus estivesse dizendo que não julga ninguém segundo critérios próprios. Os critérios de julgamento de Jesus são os critérios que lhe foram dados por Deus. Então, Jesus ainda é um aplicador do julgamento divino, no sentido de que, embora ele esteja fazendo o julgamento, seus critérios vêm de outro lugar.

Quem conhece Jesus conhece Deus. Alguns veem nisto uma referência à Trindade, mas pode ser entendido de outra forma, porque Jesus estava ensinando a vontade de Deus, sendo possível conhecer Deus pela análise de sua vontade.

Abraão viu Jesus e se alegrou. Deve ter sido no momento em que Abraão foi visitado por três entidades, no Gênesis. Talvez, uma delas fosse Jesus, já que a outra era Jeová (ou um representante).

Capítulo IX.

Jesus curou no sábado. Se isso fosse pecado, Jesus seria pecador. Mas poderia um pecador fazer tantos milagres? Donde decorre que, desde a vinda a de Jesus, não usar o sábado como dia de descanso não é mais pecado.

Capítulo X.

Jesus se compara à porta. Quem entra pela porta é permitido entrar, mas quem oferece entrada por cima das cercas oferece uma entrada ilícita. Essencialmente, Jesus é o caminho da salvação; os outros caminhos são ilegítimos.

O verso dezesseis é usado pelos mórmons como justificativa de sua denominação. As “outras ovelhas” seriam os americanos. Então, segundo a doutrina Mórmon, Jesus apareceu na América em algum momento e teve contato com um humano, o qual foi instruído a procurar artefatos contendo o Outro Testamento.

Jesus tem autoridade sobre a morte. O verso trinta parece evidenciar a favor da Trindade, mas não precisa ser entendido sempre da mesma forma, pois pode ser metafórico.

Capítulo XI.

Lázaro já havia ressuscitado antes que Jesus o chamasse para fora.

Capítulo XII.

Para Mateus, Marcos e Lucas, os discípulos trouxeram a montaria que levou Jesus à Jerusalém. Mas João diz que o próprio Jesus encontrou a montaria. Esta divergência também é irrelevante; ele usou a montaria que devia usar.

A vida seguinte é diferente desta. Quem ama a vida que tem neste mundo terá de se readaptar. Quem odeia a vida neste mundo pode se adaptar mais facilmente.

Se o Verbo fosse a voz de Deus, então Deus não poderia falar com Jesus depois da encarnação.

O verso trinta e um dá a entender que a morte de Jesus expulsaria o Diabo da Terra. Isso quer dizer que o reino das trevas mencionado em Lucas seria o mundo sem a presença física de Jesus.

Capítulo XIII.

Devemos amar uns aos outros como Jesus nos amou e o amor de Jesus pelas pessoas se manifestou pelo ensinamento e pelas boas ações. Quem ama, instrui de forma construtiva, o que é uma boa ação. Se temos que amar o próximo como a nós mesmos, quereremos que a pessoa aprenda de nós. Da mesma forma, se eu devo fazer ao próximo aquilo que eu gostaria que fosse feito a mim, devo ensinar aquilo que eu gostaria de aprender se eu não soubesse. O amor precisa ser marcado pelo ensino e pela aprendizagem, que são boas ações.

Capítulo XIV.

Jesus diz aos seus discípulos que haverá lugar para eles na casa do Pai. Mas sabemos que Pedro, por exemplo, morreu. Será que a alma de Pedro subiu para uma morada na casa do Pai? Pode também ser que o tempo de Pedro ir não tenha chegado ainda.

Há vários versos neste capítulo que podem ser tomados a favor da Trindade, mas os comentários que já fiz podem se aplicar também a eles. As obras divinas se manifestam em Jesus, então a unidade pode ser metafórica.

Os pedidos da oração devem ser feitos em nome de Jesus.

Capítulo XV.

A mensagem de Jesus, essencialmente, é que devemos amar um ao outro. Todos os outros mandamentos são baseados neste e a este devem retornar. A exceção é talvez “amar Deus sobre todas as coisas”, que é um amor que devemos ter acima do amor por nós mesmos e pelo próximo.

Capítulo XVI.

Haverá um tempo em que cristãos serão mortos por pessoas que pensam estar fazendo a vontade de Deus.

A morte de Jesus trouxe a nós o Espírito Santo.

Capítulo XVII.

Ser um com Deus ou com Jesus pode ser metafórico, como se tivessem a mesma intenção.

Capítulo XIX.

De acordo com João, Jesus levou sua cruz, mas os outros três evangelistas dizem que Simão levou a cruz de Jesus. Essa divergência também é irrelevante: importa que foi crucificado.

Capítulo XX.

O poder de perdão dos próprios pecados através do perdão dos pecados dos outros foi dado aos discípulos através do Espírito Santo.

Interessante como Tomé chama Jesus de Deus e não recebe repreensão. Talvez porque a vontade divina estava personificada em Jesus.

Capítulo XXI.

Pedro tinha que “apascentar as ovelhas”. Provavelmente zelar pelos fieis depois que Jesus partisse.

O Evangelho segundo João foi escrito pelo discípulo que Jesus amava.

Atos dos santos apóstolos, escritos pelo evangelista são Lucas.

Capítulo I.

Os Atos podem ser lidos logo após o Evangelho segundo Lucas, pois foram escritos pelo mesmo indivíduo e endereçados à mesma pessoa (supondo que Teófilo seja mesmo uma pessoa e não qualquer interessado). Talvez fizessem parte de uma mesma obra de dois livros, o que não era incomum.

A volta de Jesus será literal, se entendermos o verso onze literalmente. Matias substitui Judas Iscariotes, o qual se suicidou de culpa.

Capítulo II.

Os “últimos dias” começaram com a volta de Jesus ao céu, porque a profecia de Joel começou a se cumprir já no livro dos Atos, sendo que a profecia de Joel refere-se aos últimos dias.

Aquele que invocar o nome do Senhor no clímax dos últimos dias será salvo. Então, o problema da pronúncia correta do Tetragrama é de primeira ordem. Mas a Bíblia Sagrada, até agora, mostrou vários caminhos para ser salvo e várias restrições sobre quem pode ser salvo. Convém obedecer a todas a restrições feitas por Jesus e procurar todas as formas de salvação elucidadas por ele. Então, é preciso crer e praticar o que Jesus ensinou, tal como ser batizado. O problema da invocação do Nome permanece, contudo.

Os primeiros cristãos perseveravam na doutrina dos apóstolos. Como os apóstolos receberam sua doutrina de Jesus, então a doutrina apostólica é a doutrina que aprenderam de Jesus. Vale lembrar que “apostólico” aqui se refere ao que foi ensinado pelos apóstolos, não à denominação hoje chamada apostólica.

Os bens dos primeiros cristãos eram comuns e alguém (imagino que fossem os apóstolos) repartia os bens comuns entre esses cristãos conforme a necessidade de cada um. “A cada um segundo sua necessidade” é um princípio do comunismo. A filosofia da Renascença, Agostinho na Patrística e Tomás na Escolástica se voltam para este tema com frequência. Os cristãos, se devem partilhar seus bens com os mais necessitados para manutenção da justiça, em teoria têm tudo em comum.

Capítulo IV.

Os bens que os cristãos tinham eram vendidos e o dinheiro era dado integralmente aos apóstolos, a fim de que eles fizessem o melhor para a igreja com o dinheiro recebido. Então, o que era comprado com o dinheiro era de uso comum da igreja. Essa é uma boa ideia: se o excedente de produção for vendido para nações capitalistas, a fim de que o Estado tenha um tesouro que seria usado exclusivamente para importar aquilo de que o país precisa, talvez as sociedades comunistas não fossem tão pobres, se mantendo em um mundo majoritariamente capitalista, mesmo que o dinheiro não fosse usado pela própria população e ela tivesse acesso apenas aos bens que o Estado obteve.

Capítulo V.

Jesus foi crucificado ou pendurado num madeiro normal? Parece que as testemunhas de Jeová são as únicas pessoas que sustentam que Jesus foi pregado numa estaca de tortura, não numa cruz, ou seja, numa peça linear de madeira.

Capítulo VII.

Moisés previu a vinda de Jesus. O arbusto flamejante que falou com ele era um anjo, não o próprio Deus.

Capítulo VIII.

Se o batismo é feito em nome de Jesus Cristo, então não é a autoridade do batizador que importa, porque é como se Jesus é quem estivesse batizando. Então, quem pode batizar?

Capítulo X.

Pedro teve uma visão na qual todos os animais da Terra lhe foram oferecidos como alimento. Isso mostra que a regra sobre os alimentos lícitos não tinha mais razão de existir para os cristãos. A Lei havia sido resumida à “faça ao próximo aquilo que você gostaria que lhe fosse feito; não faça ao próximo aquilo que você não gostaria que lhe fosse feito”, então as coisas da Lei que nada tinham a ver com isso não precisavam mais ser seguidas. A Lei áurea, contudo, ainda tinha que ser seguida (ame Deus acima de todas as coisas e ao próximo como a si mesmo). Essas coisas da Lei Mosaica tinham que ser seguidas pelos cristãos, mas nada mais precisava.

Não se deve adorar outros humanos. Qualquer um que tema a Deus e obre a justiça é agradável ao Senhor.

Embora a salvação venha do judeus, ela não precisa ser aplicada somente aos judeus. Também os incircuncisos podem ser batizados e começar a obrar conforme a justiça divina.

Capítulo XI.

Os discípulos de Jesus foram chamados de cristãos, pela primeira vez, na Antioquia. Então, se o batismo deve ser operado por um discípulo, pare que qualquer cristão sincero pode batizar. Afinal, parece justo que um cristão possa invocar o nome de Cristo para performar um batismo da mesma forma que invoca o nome de Cristo durante as orações.

Capítulo XIII.

Se um judeu que se converte tem faltas para com sua Lei, a observância da Lei de Jesus o justifica dessas faltas.

Capítulo XV.

Alguns fariseus que haviam se convertido ao cristianismo pregavam que a circuncisão e a observância da Lei Mosaica ainda era necessária. Mas Pedro argumentou que ninguém havia conseguido obedecer plenamente a Lei Mosaica o tempo todo. Inobstante, alguns preceitos da Lei foram mantidos: a abstenção das coisas sacrificadas aos ídolos e da idolatria em geral, a abstenção da fornicação, a abstenção de comer animais mortos por estrangulamento ou afogamento e a abstenção do consumo de sangue. Mas Jesus não resumiu toda a Lei no preceito do amor? Por que, então, guardar especificamente essas coisas da Lei? Talvez por uma questão de utilidade, já que essa decisão foi endorsada pelo Espírito Santo (a fornicação e o consumo de sangue, por exemplo, podem trazer doenças). Porém, desobedecer esses preceitos em caso de necessidade ou de força maior é algo que pode ser perdoado pela graça divina, nos dada pela prática do amor. Por isso, creio que a transfusão de sangue feita para salvar a vida do próximo não deve ser imputada como pecado. Deve ser evitada, certamente, mas ninguém faz transfusão de sangue sem necessidade e disse Jesus, segundo João (capítulo quinze, verso treze), que o maior amor é dar a vida por um amigo. Já o caso da idolatria, é compreensível que seja banida, pois fere a Lei Áurea de amar Deus acima de todas as coisas.

Capítulo XVI.

Para ser salvo se deve fazer a vontade de Deus, conforme dita por Jesus.

Capítulo XVII.

A célebre pregação aos filósofos epicureus e estoicos. Observe que Paulo, para facilitar a pregação, utiliza textos dos poetas trágicos, tidos em alta conta pelos atenienses. Então, não é vetado ao cristão o uso da sabedoria secular para facilitar a pregação.

A pregação parecia estar indo razoavelmente bem até que Paulo tocou no assunto da ressurreição dos mortos. Em primeiro lugar, anunciar um Deus diferente dos deuses gregos não era inaceitável aos filósofos locais: os epicuristas tinham uma ideia diferente de Deus (ao contrário do que se diz, os epicuristas não eram necessariamente ateus e, embora quisesse Lucrécio, Epicuro deixa claro que não é ateu em sua Carta Sobre a Felicidade, onde Epicuro escreve que a existência do divino é “evidente”) e os estoicos. acreditavam num sábio destino natural. Então, a pregação não falhou por se anunciar um tipo diferente de divindade, porque já a ideia tradicional de divindade grega não era mais plenamente aceita. Porém, os epicuristas eram também atomistas: o corpo deve, segundo o atomismo, se decompor em átomos que se espalham por aí. Se alguém ressuscitasse pela recombinação de átomos, não viria a ser a mesma pessoa, porque as memórias e a consciência teriam sido perdidas. A rejeição da ressurreição por parte dos estoicos., que eram altamente racionalistas e tinham a física em alta conta, pode ter sido devido a quão estranha tal ideia parecia a alguém tão acostumado ao ritmo de geração e corrupção da natureza, seu principal objeto de estudo.

Ocorre aqui o batismo de Dionísio, o areopagita. Por muitos anos, a Teologia Mística foi atribuída a ele.

Capítulo XXII.

O judeu que se convertia, embora tivesse a Lei resumida, não precisava abandonar a Lei Mosaica, podendo ficar com que era útil. Também o gentio que se convertia não precisava seguir a Lei Mosaica, além dos preceitos sancionados pelo Espírito Santo, o resumo e a Lei Áurea.

Epístola de são Paulo aos Romanos.

Capítulo I.

Paulo aqui condena o comportamento homossexual como “torpeza”. Mas, levando em consideração que até agora o único comportamento homossexual condenado foi a penetração, talvez estivesse se referindo ao sexo anal entre homens, exclusivamente. Especialmente porque ele diz que os praticantes receberam a punição em seus corpos, talvez referindo-se à doenças. “Torpeza” não necessariamente produz a perdição, já que muitas coisas tidas como “torpes” não foram condenadas por Jesus. Se o fosse, Paulo teria dito algo como Jesus disse (“não herdará o Reino dos Céus” ou, quando um comportamento produz salvação, “será salvo”).

Capítulo II.

É possível praticar as coisas prescritas na Lei sem conhecê-la. Porém, se você quebra a Lei sem conhecê-la, não tem culpa. Praticar a Lei sem conhecê-la, porém, é admirável.

Se aquele que faz o que está escrito na Lei sem ter sido circuncidado conta como circuncidado, será que o que não é batizado, mas faz a vontade de Jesus, conta como batizado? Novamente, Paulo não necessariamente fala por inspiração e Jesus disse que o batismo é necessário.

Capítulo III.

Pela Lei se conhece o pecado. Como Jesus resumiu a Lei, uma conclusão possível desta passagem é a de que só é pecado aquilo que fere o próximo. Porém, outra conclusão é de que, pelo amor, qualquer transgressão da Lei Mosaica é perdoável. O estilo de escrita de Paulo é muito difícil. É muito fácil tirar conclusões erradas de suas epístolas.

Jesus é, para Paulo, uma manifestação de Deus que transcende a Lei, apesar de ter o testemunho da própria Lei e dos profetas.

Essa transcendência da Lei é a fé em Jesus. Esta carta é talvez a principal inspiração de Lutero, quando ele diz no Servo Arbítrio que a fé é o único caminho para se salvar, de forma que o cristão, pelas suas obras, não pode se salvar.

Paulo dá a entender que a fé em Jesus permite salvação gratuita. A fé em Jesus seria então o único caminho.

Para Paulo, a “Lei da Fé” não elimina a Lei Mosaica. Talvez, no máximo, mudasse sua forma, como fez o resumo de Jesus.

Capítulo IV.

É possível, segundo Paulo, ser salvo mesmo sem obrar nada que está na Lei, porque as transgressões da Lei podem ser perdoadas. E Jesus nos ensina que a prática do amor e do perdão mútuo permite que nossos próprios pecados sejam perdoados.

Se estivermos livres da Lei, não haverá culpa por transgredi-la. Abraão foi justificado pela fé em Deus, então os cristãos podem ser justificados pela fé no mensageiro de Deus. Ora, mas a fé de Abraão se manifestou ao seguir piamente aquilo que Deus lho requisitou fazer. Então, o cristão não está escusado de fazer o que Jesus disse pra fazer.

Capítulo V.

Enquanto a Lei Mosaica estava conosco, estávamos submetidos ao pecado. Mas, com a ausência da Lei, não há pecado, porque não é possível transgredir uma Lei ausente.

Parece que Paulo está dizendo que a existência da Lei era permitir que as transgressões se multiplicassem, nos tornando dependentes da graça para nos salvarmos.

Capítulo VI.

Quem é batizado… é desobrigado da Lei? Como dito, o problema das epístolas paulinas é o quão difícil elas são de entender. É necessário tempo e paciência.

Não é por estarmos desobrigados da Lei que devemos pecar à vontade. Ora, mas em relação a qual Lei não podemos pecar? Provavelmente a Lei da Fé, que é a nova forma da Lei Mosaica, que é a manifestada por Jesus. Uma boa saída para entender as cartas de Paulo é interpretá-las não por elas próprias, mas verificando que relação elas têm com os Evangelhos, já que Jesus é autoridade maior que Paulo. Assim, não se negam as cartas, mas se tem uma interpretação mais segura, pois os Evangelhos são claros.

A vida eterna é dada gratuitamente por Deus através de Jesus, mas o pecado produz a morte. Mas qual pecado? O pecado contra a vida eterna, que se manifesta pela rejeição de Jesus.

Capítulo VII.

Seguir a Lei não é pecado. Quebrá-la sem conhecê-la também não. Para Paulo, o cristão está desobrigado da Lei. Se a Lei não é Lei para o cristão, que importa o cristão transgredi-la?

É possível seguir a Lei de Deus com o entendimento e a lei do pecado com o corpo.

Capítulo VIII.

É muito difícil. É como se a purificação do pensamento permitisse a purificação do corpo ou algo assim.

Ou ainda: como se, depois do batismo, o corpo “morresse” (talvez deixe de ter importância), de forma que se pode ser salvo unicamente pela fé, que ocorre no pensamento. Tiago irá discordar disto mais tarde, ao dizer que fé sem obras é inútil. Então, talvez esta interpretação deste texto esteja errada, se supormos que a Bíblia não se contradiz.

Capítulo IX.

Novamente, o gentio que se converte a Cristo não precisa seguir a Lei Mosaica.

Capítulo X.

Novamente é dito que só a fé salva. Porém, se você crê em Jesus, ainda imagino que você deve fazer o que ele disse pra fazer. Afinal, eu não posso chamar Jesus de “senhor” e não fazer o que ele me ordena.

A pregação é importante, porque será salvo quem puder invocar o nome do Senhor. Ora, mas como saber se não houver quem me ensine? Qualquer meio de propagação da palavra conta: a tradução e publicação de Bíblias, a pregação itinerante e também as denominações cristãs, que reúnem a igreja ao redor de um sábio bispo que lhos ensina. Chamo de “igreja” o coletivo de “cristão” (vários cristãos em um lugar, chamo de igreja, mesmo quando são de diferentes denominações) e de “bispo” o que ensina na igreja.

Capítulo XI.

A aceitação das gentes não indica, de modo algum, que os judeus estão automaticamente rejeitados.

Novamente é dito que quem se salva pela graça está escusado das obras. Imagino que sejam das obras da Lei tradicional e não dos ensinamentos de Jesus. Se Lutero tivesse entendido as coisas desta forma, não teria chegado às conclusões que chegou.

A aceitação das gentes não indica, de modo algum, que as gentes não devem respeito aos judeus.

A falta de fé faz cair tanto cristão quanto judeu. As intenções divinas são imperscrutáveis para Paulo. Novamente, Lutero aparece.

Capítulo XII.

A religião deve ser racional, envolver a faculdade de raciocínio. Então, talvez as coisas que Paulo rejeita, mas que não são rejeitadas por Jesus, são rejeitadas por Paulo porque seu raciocínio diz que são erradas.

Parece um incentivo à livre interpretação da vontade de Deus, ajudada pelo raciocínio. A vingança pertence a Deus.

Capítulo XIII.

Obediência à autoridade. Diz Paulo que todas as autoridades procedem de Deus. Então, eu devo me sujeitar ao Estado. Mas e se o Estado me pede para fazer algo anticristão? Então, eu deve deixar de obedecer o Estado. Donde decorre que a obediência à autoridade é um conselho, não um mandamento, até porque Paulo não é profeta e não tem autoridade para nos dar mandamentos de salvação. Se fosse um mandamento, seria um mandamento contraditório. Mas, sendo um conselho, sua prática pode ser adotada oportunamente. Paulo está descrevendo uma condição ideal, assumindo que o Estado não contradiz à Palavra com frequência. Mas a obediência a Deus é mandamento.

Se você quiser desobedecer a autoridade, deve fazê-lo sendo melhor que dita autoridade. Se fizermos o bem, a autoridade deverá reconhecer que age mal.

Outra evidência de que as palavras de Paulo são conselhos, mas não mandamentos, é o verso oito, onde ele diz o que todos aprendemos de Jesus: quem ama o próximo está cumprindo a Lei. Porém, Jesus diz através de Lucas que é mais digno o servo que faz mais do que o que foi ordenado. Então, convém seguir tantos conselhos quanto se possa (e Paulo dirá algo similar em breve).

Os mandamentos são os dez que conhecemos: ame Deus acima de todas as coisas, não adore outros deuses, honre seus pais, não roube, não dê falso testemunho, não adultere, não mate, não cobice, não trabalhe no sábado (sétimo dia da semana, pode ser uma segunda ou o domingo), não use o nome de Deus (qualquer que seja a pronúncia) sem justa razão. E Jesus disse, tanto por meio de Mateus quanto de Lucas, que guardá-los permite que vivamos eternamente (embora a recompensa possa ser aumentada quanto mais nos sacrificamos pelos que de nós necessitam). Paulo inclusive diz que o amor ao próximo resume a maioria dos mandamentos. Então, os primeiros mandamentos no texto original, os quatro do topo, dizem como se deve amar Deus. Os outros seis nos dizem como amar o próximo.

Capítulo XIV.

Devemos ser tolerantes com os descrentes. Não se deve fazer algo se temos dúvidas da moralidade desse algo, ou seja, não se deve fazer aquilo de que não há certeza sobre ser ou não pecado. Devemos antes nos certificar de que não é.

Se uma pessoa não tem certeza sobre a moralidade de algo, não devemos forçá-la a fazer esse algo de que duvida.

Capítulo XV.

Paulo diz: quem ajuda em questões espirituais deveria também ajudar em questões carnais (vestimenta, comida, dinheiro…).

Capítulo XVI.

Nada de errado em uma mulher ocupar alto cargo. Nada de errado em saudar um ao outro com um beijo, desde que sem malícia.

Embora a carta seja atribuída a Paulo, foi redigida por Tércio.

Primeira epístola de são Paulo aos Coríntios.

Capítulo I.

Paulo pede, em nome de Jesus Cristo, que não haja dissenções entre os cristãos. Infelizmente, seu pedido não foi atendido.

As dissenções de que Paulo fala são da mesma natureza que as dissenções de hoje: uns se diziam “de Paulo”, outros “de Cristo” e coisas do gênero, como hoje uns se dizem “católicos”, outros “protestantes” e coisas que tais.

Quando se diz que Deus tornou a sabedoria do mundo em loucura, o que se quer dizer é que a sabedoria secular rejeita as verdades da fé, como a ressurreição. Para o filósofo secular e para o cientista secular, tais coisas são impossíveis. Mas, para o cristão, é loucura que se pense que tal é impossível.

Capítulo II.

A alusão entre a psicofísica humana e Deus com Espírito de Deus parece estar a favor da Trindade. Pois o espírito humano, dentro de nós, conhece nossas intenções, tal como o Espírito conhece as intenções de Deus.

Capítulo III.

Nosso corpo é um templo espiritual. Não se deve deliberadamente causar dano ao corpo. É necessário se tornar louco (crente) para depois se tornar sábio.

Já basta ser “cristão”. Qualquer denominação ulterior é presunçosa. Devemos resolver nossas diferenças e ser um povo só, em vez de nos dividirmos em católicos, protestantes ou o que quer que seja. Quem faz a vontade de Deus, manifesta por Cristo, já está fazendo bem.

Capítulo IV.

É melhor não se confiar de estarmos fazendo a coisa certa mesmo quando não nos sentimos culpados. Cabe a nós obedecer, mas quem nos julgará é Deus.

As dissenções ocorrem porque se procura entender as Escrituras para além do que está escrito. Paulo disse isso obviamente se referindo ao Velho Testamento e à vida de Jesus. Ele não está incluindo suas próprias epístolas (porque “escrito” é passado, então ele está se referindo ao que foi escrito antes dele). Isso parece mais uma evidência de que Paulo está aconselhando, não mandando, porque os mandamentos para a salvação já foram dados por quem tinha autoridade para dá-los. Como Paulo não tem essa autoridade, as normas que ele acrescenta não podem produzir salvação ou perdição, embora ainda sejam sabedoria e devam ser relevadas.

Capítulo V.

Admoestação contra o incesto. Não se deve adotar as práticas condenáveis, mas não se precisa se apartar totalmente dos que as adotam, porque isso é impossível; estão em toda a parte.

Aqui está a razão da prática de desassociação das testemunhas de Jeová. Segundo Paulo, se deve excluir os pecadores do convívio. Mas isso vai contra o exemplo de Jesus, que literalmente comia com os pecadores, quando Paulo literalmente diz para nem isso fazer. Considerando que esta é uma carta aos coríntios, talvez ele estivesse recomendando um mal menor à igreja local especificamente. Pode até ser que ele não estivesse falando literalmente, o que é mais razoável: se devo amar até meus inimigos, quanto mais quem não pecou contra mim. Se alguém peca contra Deus, esse é problema dele com Deus, não cabendo a mim puni-lo por isso. E tal exclusão certamente causa dor ao excluído. Então, Paulo descreve uma condição ideal, como se dissesse que se deveria excluí-los se isso fosse lícito, o que não parece ser (por violar o amor ao próximo). Ou ainda, pode ser que se deva exclui-los até que peçam perdão, o qual deve ser prontamente concedido.

Capítulo VI.

Lista de quem não pode herdar o Reino de Deus, entre eles os homens homossexuais e os efeminados. Considerando que não se fala contra as mulheres homossexuais em momento algum da Bíblia, subentende-se que o pecado da homossexualidade reside no ato consumado, a penetração. É possível ao homossexual se satisfazer com seu parceiro de outras formas. Já quanto aos efeminados, isso varia de cultura para cultura. Os comportamentos “de mulher” variam segundo o lugar do mundo onde você está e também segundo o tempo. Hoje, não é mais considerado efeminado que o homem cuide da casa ou dos filhos, nem é considerado um escândalo que a mulher se dedique ao sustento da casa.

Capítulo VII.

Paulo nem sempre fala por inspiração divina, se é que fala alguma vez, porque aqui ele dá uma ordem que assumidamente não vem da parte de Deus.

Nem todos os que desobedecem ao conselho de Paulo pecam, como no caso dos virgens que se casam.

Para Paulo, o segundo casamento após o falecimento do marido não é necessariamente pecado. Mas será que Jesus não implicou que era? Poderia haver alguma contradição entre Paulo e Jesus? Novamente, Paulo diz isso de sua parte, “segundo meu parecer”.

Capítulo X.

A tentação nunca está além de nossas forças; Deus sempre provê uma saída da tentação quando a própria tentação vem.

Não devemos adorar a mais de um Deus. Tudo era lícito a Paulo, porque não estava debaixo da Lei, mas nem tudo convinha. Então, se Paulo proíbe algo que Jesus não proíbe, talvez esteja fazendo por uma razão de utilidade, não de salvação.

Se algo não parece errado, não se deve evitar praticar tal coisa. Mas, a partir do momento em que alguém levanta a suspeita de algo ser errado, se deve parar de praticar para verificar se é realmente pecado. Se for, a suspensão é para sempre. Se não for, podemos voltar a praticar tal coisa.

Tudo deve ser feito para a glória de Deus. Se algo ofende a glória de Deus, é melhor não fazer, a menos que para evitar um mal menor.

Não se deve ser causa de pecado do próximo. Razão pela qual a maioria, se não todas, as denominações recomendam que as fieis não se vistam provativamente, para evitar que os homens casados da igreja tenham pensamentos adúlteros para com elas.

Capítulo XI.

A cabeça de todo o varão é Cristo. Paulo é varão. Logo, a cabeça de Paulo é Cristo. Donde decorre que os Evangelhos têm autoridade maior que as epístolas paulinas. Se eu tenho algum problema com as epístolas, devo recorrer aos Evangelhos.

As mulheres testemunhas de Jeová, quando oram, devem cobrir a cabeça. Não que a mulher venha a se perder por causa disso, já que o Velho Testamento tem vários exemplos de mulheres que oravam sem fazer isso. Então, é um conselho.

Para Paulo, o homem deve ter cabelo curto. A heresia tem uma papel, que é o de mostrar qual interpretação da Palavra é a melhor. Então, se alguém julga que a igreja está se desviando do Caminho, deve se dar ao esforço de agir da forma que pensa ser mais conforme com ele. É heresia, mas, se for uma heresia mais próxima da verdade, ela irá se impor ao oficial.

Capítulo XII.

O Espírito Santo opera em todos os cristãos. Embora Paulo não aponte “igreja verdadeira”, ele parece sugerir que existe uma hierarquia de cristãos. Se supomos que há hierarquia, então, se vários cristãos estão juntos num lugar, Paulo diz que o apóstolo tem prioridade, depois a tem o profeta, depois a tem o doutor e assim vai. Mas isso não vai contra o ensinamento de Jesus de que devemos todos ser irmãos e ter por mestre Jesus apenas? Jesus não institui hierarquia e o papel dos apóstolos era de pregação. Logo, isto é conselho. Sendo um conselho que envolve toda uma igreja, deve ser aceito de comum acordo. Além disso, a decisão de ninguém da hierarquia pode ir contra nenhum ensino de Jesus (o cristão teria obrigação de desobedecer se assim o fosse). Observe como tal organização seria volátil: o profeta poderia ter menos conhecimento que um doutor e, ainda assim, mais autoridade que o apóstolo, considerando sua natureza como ponte entre Terra e Céu. Novamente, conselho que dever ser de comum acordo. Mas, se se supõe que ele não está falando de hierarquia, mas apenas elencando como a igreja é diversificada, então essa dificuldade desaparece.

Capítulo XIII.

A maior virtude ainda é a caridade. Fazer tudo o que Jesus manda e tudo o que Paulo aconselha, excluindo a caridade, é o mesmo que nada ter feito.

É necessário deixar de ser criança em sentido espiritual. Ou seja, devemos procurar amadurecimento espiritual.

Capítulo XIV.

O ato de falar línguas estranhas ou que nunca estudou é uma manifestação do Espírito Santo, para Paulo.

Para Paulo, a mulher não pode falar na igreja, durante a reunião. Conselho, porque não é dito que a mulher será perdida se o fizer.

Se não se acredita que Paulo fala sob inspiração, o que só poderia ser dito por um profeta, melhor é ignorar o que Paulo diz.

Segunda epístola de são Paulo aos Coríntios.

Capítulo III.

A Letra (Lei) mata e o espírito vivifica. O “Senhor é o Espírito”, no dizer de Paulo.

Capítulo VI.

Novamente, o cristão, no dizer de Paulo, não deve se misturar com pecadores. Mas, novamente, Jesus o fez. Não se deve misturar com pecadores a fim de praticar o que eles praticam, mas para que o cristão os converta pelo exemplo.

Capítulo IX.

Se for dar algo a alguém, dê sem sacrificar sua felicidade.

Capítulo XI.

Se até Satanás pode tomar forma de anjo de luz, tanto mais um qualquer tomar forma de apóstolo para corromper a igreja.

Paulo admite não ser inspirado, pois o que ele fala não é segundo o Senhor. Então, com que autoridade ele diz que homossexuais e efeminados não herdarão o Reino de Deus? O caso do homossexualismo talvez esteja implícito no ato da fornicação (novamente, me referindo ao ato consumado, a penetração), mas não vejo passagens contra ser efeminado nos Evangelhos. Em todo caso, embora Jesus tenha dito que a fornicação é algo ruim, que vem de um coração impuro, ele diz também que basta seguir os mandamentos para ser salvo. Então, parece que a fornicação do adultério é a única grave o bastante para causar a perdição, por se um pecado contra o próximo. Mas também diz Jesus que o servo que faz mais do que lhe é requisitado tem recompensa maior, então, para ter uma recompensa maior, convém se abster da fornicação inteiramente, tal como seguir os conselhos de Paulo, na medida em que seu julgamento não os aponta como contrários à mensagem de Jesus.

Paulo tinha um “espinho na carne”. Esse tema é debatido com muito interesse.

Epístola de são Paulo aos Gálatas.

Capítulo I.

Não é verdadeiro servo de Deus quem oculta a palavra de Deus a fim de agradar seres humanos.

Capítulo II.

As obras da Lei não justificam ninguém. Para se salvar, deve-se fazer o que Jesus ensinou e nele ter fé.

Capítulo III.

A fé justificou Abraão. A fé lhe disse o que fazer para ser salvo.

Capítulo IV.

O Velho Testamento se expressa também por alegoria e drama simbólico. Então, existem porções dele que não são literais, além das profecias que se expressam por termos aproximativos.

Capítulo V.

Para Cristo, o que tem valor é a fé, que obra pela caridade. Ou seja, o amor. Então, pode ser que a lista dos que não se salvarão tenha sido dada aos que queriam se justificar pela Lei. Embora Jesus tenha dito que o adultério é razão de perdição, ele diz que a fornicação em geral é consequência de um coração impuro. É certamente um mal comportamento, mas ele não diz, categoricamente, que outras formas de fornicação levam à perdição. Porém, como não há certeza disso e como os apóstolos sustentaram que o Espírito Santo concorda que a fornicação deve ser evitada de todo, é melhor nos guardarmos dela por uma questão de segurança.

O cristão tem muitas liberdades, mas não deveria usá-las para “dar ocasião à carne”, isto é, para fazer coisas que o corpo deseja, mas que estão em desacordo com a razão.

Porém, lendo o resto do capítulo, Paulo pode estar se referindo à violência. Paulo lista mais comportamentos que causam a perdição, com um número ainda maior de comportamentos que não foram ensinados como errados por Jesus.

Mas ele também faz uma pequena lista de dons do espírito. Entre os profetas, Oseias foi ordenado por Deus a cometer uma fornicação, que é documentada no primeiro capítulo de seu livro. Ora, a fé é listada como dom do espírito, mas a fornicação é listada como causa de perdição. Então parece que cometer um pecado (fornicação) para manter uma virtude maior (fé) é escusável.

Epístola de são Paulo aos Efésios.

Capítulo I.

A graça divina permite perdão dos pecados. Ainda devemos nos esforçar para não fazê-los, mas podemos ser perdoados pela prática do amor.

Capítulo II.

Se estamos salvos de graça, por que ainda fazemos ordenanças? Provavelmente para evitar pecar contra a caridade, que é a garantia da graça. Os cristãos são salvos de graça, mas o cristão que não ama não é verdadeiramente cristão. Então, pode ser que as outras regras que os cristãos tenham que obedecer e que foram entregues por Paulo tenham por objetivo regular o amor, modulando-o dentro de um caminho que Paulo considera justo.

O cristão que se esforça em fazer tudo certinho nem por isso deve se gloriar; não faz além de sua obrigação.

Capítulo IV.

Não se deve guardar rancor e ira. É necessário resolver as diferenças o quanto antes. Isso foi ensinado por Jesus, no Sermão do Monte: não devemos nutrir nenhum desejo contra o próximo.

Se não perdoamos o próximo, Deus não perdoará nossos próprios pecados. Então, aquele que não consegue se libertar de seus pecados por falta de força de vontade deve ser excepcionalmente perdoador.

Capítulo V.

Não se deve nutrir conversas tolas. Como não é dito que isso causa perdição, é um conselho. O bom cristão, que segue também os conselhos, não pode falar nada que não seja justo, belo, útil ou bom. Ou seja, não deveria falar besteiras.

Observe que há uma diferença entre falar de algo e praticá-lo. Praticar certas coisas causa perdição, mas não falar delas.

Paulo põe a avareza no mesmo patamar que a idolatria. Se Deus diz que temos que repartir nossos bens com os necessitados e a avareza o faz manter o dinheiro excedente que poderia ser dado ao próximo, mesmo quando a quantia requisitada é pequena e inofensiva para a sua economia, você está amando mais o dinheiro do que Deus.

Paulo diz que a mulher deve se sujeitar ao marido. Mas, se não diz que causa salvação, é conselho. Isso não significa que o marido

Capítulo VI.

Não se deve provocar a ira dos filhos. Alguns pais irritam os filhos de propósito e sem razão. Se o pai for cristão, Paulo diz que esse pai está agindo mal.

Epístola de são Paulo aos Filipenses.

Capítulo I.

Não importa com que intenção o Evangelho é anunciado. O que importa é que ele está sendo anunciado. Então, se um pastor de má reputação ministra o Evangelho a seus fieis, nem por isso o Evangelho perde o crédito, mesmo que a intenção do pastor se ordenhar o dinheiro dos que atendem ao culto.

Paulo diz que anunciar o Evangelho contribui para a salvação. Então, evangelizar não é um conselho, mas uma demanda. Alguns perguntam porque os cristãos insistem em falar de sua fé. Eis aí a razão.

Não é porque o cristão será recompensado depois da morte que ele deva desejar a morte. Afinal, se todo cristão deve evangelizar, cometer suicídio é fugir de sua tarefa.

Capítulo II.

Devemos relevar também os desejos dos outros em nossas ações. O cristão deve levar em consideração as aspirações de seus irmãos antes de fazer uma decisão. Platão estaria de acordo, porque ele também diz que a atitude tomada visando o próprio bem não necessariamente favorece o todo, mas a atitude tomada visando o todo favorece a própria pessoa que está nesse todo.

Considere o outro como mais excelente do que você, para estimular a humildade. Novamente, a maioria das coisas ditas por Paulo são conselhos.

Capítulo IV.

Devemos ocupar nossas mentes com coisas boas. Conselho. “Tudo posso naquele que me fortalece” merece ser considerado. Quando se diz que o Filho está no Pai, se fala de intenção igual (pois o que o Pai quer, também quer o Filho). Se o Filho tentasse fazer algo que o Pai não gostaria, levando em consideração que o Filho recebe poder do Pai, o Filho falharia. Então, se eu estou em Cristo, há igualdade de intenção. Eu posso tudo, se aquilo que eu quiser também for o que Cristo quiser. Então, se depois de tanto orar, meu desejo não é atendido, talvez a divindade não se posicione a favor do pedido. Talvez você esteja enfrentando um falso problema. Mas, se você tem certeza de que a razão é justa e que Deus não poderia estar se posicionando contra o seu pedido, por não ir contra os seus desígnios, a persistência em orar pode trazer resultado. Outra razão para uma oração não ser atendida é sua procedência ímpia. Se aquele que faz a oração for uma pessoa que não tem compromisso com Deus, tampouco Deus deve compromisso a ele.

Epístola de são Paulo aos Colossenses.

Capítulo I.

Jesus como primeira criatura. Se Jesus é o Verbo, ou seja, a Palavra divina, então era ele quem estava falando quando Deus disse “faça-se a luz”. As coisas foram feitas por meio de Jesus, segundo Paulo. Se Jesus for a Sabedoria a quem Salomão estava se referindo, então essa é uma interpretação aceitável. Também é a forma como Tomás de Aquino, na Suma Contra os Gentios, vê as coisas.

Capítulo II.

A filosofia não deve ser meio de afastar de Deus. Naquele tempo, não havia distinção entre filosofia e ciência. Então, Paulo está dizendo que o raciocínio secular não deve se voltar contra a fé. Paulo não diz que a filosofia é ruim, mas diz que não devemos nos afastar da verdade revelada se a filosofia mostra outro caminho, porque a filosofia é um raciocínio humano, portanto falho, enquanto que a verdade revelada vem de um ser infalível, que é Deus. Porém, ainda é lícito fazer filosofia e ciência sobre as questões que a Bíblia não responde. Basta que não sejamos desviados do Caminho por elas.

O cristão não deve se preocupar com a Lei. Da Lei ficou só o que Jesus perpetuou.

Capítulo III.

Admoestação aos maridos, esposas e filhos. Ninguém deve provocar a ira do outro sem necessidade, para que a família não fique desunida.

Capítulo IV.

Quando a verdade dói, a diga de um jeito que não doa tanto.

Primeira epístola de são Paulo aos Tessalonicenses.

Capítulo IV.

Nos últimos dias, haverá quem presenciará o fim do mundo e não morrerá. Ou seja, haverá quem atravesse a vida terrena para a vida eterna sem morrer. Esta é a raiz da doutrina do arrebatamento.

Capítulo V.

Paulo diz que o fim virá quando todos estiverem aproveitando paz e segurança. Isso serve para mostrar que o fim virá quando não se espera.

Embora Jesus tenha dito que o fim apanhará todos de surpresa, Paulo diz que os cristãos não serão apanhados de surpresa. A contradição é aparente: tanto Jesus disse que é possível saber quando o fim está próximo quanto Paulo está dizendo que o cristão pode ver o dia se aproximando. Nenhum diz que é possível saber o dia exato, mas ambos concordam que se pode saber quando ele se aproxima.

Antes de dizer se algo é ruim, é necessário prová-la, o que não significa experimentá-la. Devemos evitar tudo aquilo que parece mau, a menos que não seja realmente mau.

Segunda epístola de são Paulo aos Tessalonicenses.

Capítulo II.

Considerações sobre a vinda do fim do mundo. É necessário que ocorram as traições primeiro.

Parece se referir ao Anticristo.

Capítulo III.

Nem todos creem. Neste capítulo está a raiz do provérbio “quem não trabalhar não vai comer”, embora isso seja um conselho.

Paulo encerra sua carta dizendo que quem não obedecer o que está escrito nela deve ser excluído. Porém, não completamente: os irmãos ainda podem admoestá-lo. Como isso é Paulo quem está dizendo e como isso não me dá nem me tira a salvação, ainda é conselho. Ora, mas pensar desta forma poderia me fazer desobedecer a carta. Logo, eu poderia ser excluído da igreja sem pecar contra Cristo. Donde decorre que nem todos os preceitos da igreja procedem de Cristo. Esta é uma das razões pelas quais a canonicidade da segunda epístola de Paulo aos Tessalonicenses foi posta em questão (na verdade, alguns pesquisadores duvidam que seis das treze epístolas paulinas realmente foram escritas por Paulo).

Primeira epístola de são Paulo a Timóteo.

Capítulo I.

O fim de todo o mandamento é caridade de coração puro, boa consciência e fé verdadeira. Então, todos os mandamentos, inclusive os mandamentos inéditos das epístolas paulinas (mandamento é tudo aquilo que contribui para a salvação, não estou me referindo aos conselhos), servem para assegurar essas coisas, que são as que justificam o cristão.

A Lei escrita existe para manter na linha aqueles que têm tendência à práticas ruins. A pessoa boa não precisa da Lei escrita porque sua própria bondade e bom julgamento a afasta do que a Lei afasta.

Capítulo II.

Diz Paulo que a mulher deve ser totalmente sujeita ao marido e não pode ensiná-lo em nada. Isso é conselho e a prática o atesta, porque o homem muitas vezes aprende da mulher. O mandamento para a mulher não é diferente do que é dado ao homem e ambos podem se salvar pelas mesmas obras de fé e caridade.

Capítulo III.

Uma igreja é o coletivo de cristãos. Se a igreja acha necessário que haja um líder (ou “bispo”) para mantê-la unida, existem critérios de julgamento para escolha desse líder. Dentre os que se oferecem para o bispado, o escolhido deve ser irrepreensível, bom marido (o que significa que não há nada de errado num líder religioso que constitui família), vigilante, moderado, hospitaleiro, apto para ensinar, sóbrio, honesto, pacífico e não ganancioso. Ele também deve ter boa fama.

Também há orientações para a ordenação dos diáconos. Observe como todas essas coisas são conselhos.

Capítulo IV.

Nos últimos dias, haverá religiões que proíbem o que Jesus permitiu. “Rejeitar as fábulas profanas” significa não acreditar em mitos. Ainda se pode conhecê-los, mas não se deve pensar que são verdade.

Capítulo V.

Ao admoestar alguém, que se faça sem aspereza. A viúva não pode se casar de novo (mas, diz Paulo em outra carta, que ela pode se casar de novo se o marido anterior morreu). E isso não é conselho, porque, diz Paulo, que a mulher viúva que volta a ter relações está condenada.

Paulo já reconhecia que vinho faz bem à saúde e o recomenda para acalmar problemas de estômago, desde que em pequena quantidade.

Capítulo VI.

Quem procura ficar rico torna-se presa fácil do mal. O amor ao dinheiro é a raiz de todos os males.

Os bens providos pela riqueza são incertos. A ciência que afasta da fé é uma falsa ciência.

Segunda epístola de são Paulo a Timóteo.

Capítulo II.

Discussões nas quais não se chega a conclusão podem levar a contendas. Se as pessoas brigam por uma questão aparentemente aporética, não tem sentido continuar a discutir.

Devemos fugir dos desejos da mocidade. Os desejos da mocidade são caracterizados pela falta de moderação. O jovem quer tudo no mais alto grau, da forma como ele quer e quando ele quer, sem refletir se aquilo que ele deseja é realmente bom. Por isso é aconselhado, em contraposição ao desejo da mocidade, a justiça e a paz, nascidas da moderação.

Capítulo III.

Aqui são listados os tipos de pessoas más que existirão em abundância nos últimos tempos. Essas palavras têm valor profético para muitos, apesar de Paulo não ser profeta e apesar da canonicidade desta carta já ter sido posta em questão (lembrando que nem todos os livros que têm sua canonicidade questionada são imediatamente excluídos da Bíblia). Um dos tipos de pessoa que Paulo descreve é aquela que crê, mas que nega a eficácia da religião. São aqueles que creem em Deus, mas não creem que Deus influi positivamente em suas vidas. Essas são as pessoas que menos oram.

Todas as Escrituras são divinamente inspiradas (Paulo, obviamente, não se refere a si próprio, mas às Escrituras antes dele, ao Velho Testamento). Mesmo que Jesus tenha levado a moral do Velho Testamento à perfeição, as profecias e as histórias bíblicas ainda têm seu valor. As profecias que ainda não se cumpriram devem ser estudadas e a sabedoria do Velho Testamento deve ser minerada.

Epístola de são Paulo a Tito.

Capítulo I.

Tudo é puro aos puros. Aos impuros nada é puro.

Capítulo II.

Ao dizer que se deve seguir esses conselhos “para que a palavra de Deus não seja blasfemada”, Paulo parece estar dizendo que, embora esses preceitos não sirvam para salvação, os conselhos servem para que as pessoas de fora da religião nos vejam com bons olhos. Se o cristão for visto em festas mundanas, mesmo que não se embriague ou fornique, mesmo que só para ficar com os amigos, alguém que o conhece pode pensar “como um cristão pode estar num lugar desses?” e pensar que ele é hipócrita ou que sua doutrina é fraca. Ora, mas se fazer tal coisa não obra salvação, Paulo está dando com esses conselhos um estilo de vida estético que faz o cristianismo parecer ainda melhor aos olhos de quem é de fora, portanto atraindo os infiéis. É uma tática de conversão, também para evitar que se fale mal dos cristãos, apartando-os das ocasiões em que se pode falar mal deles e da doutrina, por extensão. Não é pecado, mas é desaconselhável, porque o opositor pode usar esses testemunhos contra a fé cristã, mesmo quando Jesus não condena o que foi feito.

Capítulo III.

Se alguém entende os ensinamentos de Jesus de outra maneira e tem uma interpretação diferente da Palavra, convém discutir com ele sobre isso uma ou duas vezes. Se nem você e nem ele mudarem de posição, deixe por isso mesmo.

O herege está condenado. O herege do cristianismo é aquele que forma seitas, subdivisões, e que opera para cisões dentro da religião. Tarde demais para avisar isso, porque já aconteceu. O único jeito de restaurar uma possível união da religião cristã, se é que houve alguma, é voltando ao cânon estabelecido e que todas as Bíblias carregam. Se todos lessem a Bíblia por conta própria, mesmo que chegassem a conclusões diferentes, o cristianismo seria mais unido do que é hoje, pois cada cristão estaria em posição de debater com outro. E, como disse Paulo, se a opinião não mudar, deixar por isso mesmo e continuar seguindo a nossa leitura da Bíblia.

Epístola de são Paulo a Filemon.

Capítulo I.

Apenas uma carta de Paulo a Filemon, sobre alguns assuntos curtos, inclusive seu filho.

Epístola de são Paulo aos Hebreus.

Capítulo III.

Um sermão de Paulo aos hebreus que ainda não haviam aceitado a vinda de Jesus como a vinda do Messias prometido.

Capítulo V.

Agora que sabemos o bem e o mal, é melhor que usemos esse conhecimento a nosso favor, apesar de não devermos tê-lo em primeiro lugar.

Capítulo VII.

Jesus, sacrificando-se a si mesmo, serviu de sacrifício para todos os pecados de toda a humanidade. Por isso quem crê será salvo: quem crê no sacrifício de Jesus e faz o que Jesus nos ordena será salvo, mas quem deixa de crer está rejeitando o sacrifício e terá que prestar contas de seus pecados. Então, se você se sente culpado de algum pecado que cometeu, perdoe o próximo para ser por Deus perdoado, porque Jesus disse ser isso possível. Fazendo o que Jesus nos diz, obtemos perdão, por participar em seu sacrifício.

Capítulo VIII.

Uma das razões pelas quais alguns pensam que a carta aos hebreus não foi escrita por Paulo é que, passando em revista as Escrituras, ele nos lembra que a Nova Lei seria escrita em nosso coração e em nosso entendimento. De posse da Lei Áurea (ame Deus acima de todas as coisas e o próximo como a si mesmo, isto é, fazendo a ele o que você gostaria que fosse feito a você e não fazendo a ele o que você não gostaria que fosse feito a você), qualquer um poderia julgar seus próprios atos como certos ou errados sem ter que recorrer a um código escrito. Mas Paulo insere uma série de preceitos em suas outras cartas, tantos que seria necessário lê-los diariamente para lembrá-los todos. Alguns parecem até trair o preceito de amor ao próximo, embora muitas vezes seja uma traição aparente. Então, fica difícil saber se o Paulo dos coríntios é o mesmo dos hebreus. O parecer atual é de que são o mesmo Paulo. Como não sou especialista, essa questão é misteriosa pra mim.

Capítulo IX.

Se um testamento só vale depois que o autor do testamento morre, então o Novo Testamento (a Nova Lei) só vale depois que Jesus morre. O cristianismo, então, só começou quando Jesus se sacrificou. Ele não começou com o nascimento (que foi o cumprimento de uma profecia) nem com o batismo de Jesus (que foi o início de seu ministério).

O Juízo Final deve ocorrer depois da morte, segundo esta carta.

Capítulo X.

Os cristãos devem se manter unidos. Eles devem instruir uns aos outros, dar força uns aos outros e exercitarem mútua caridade. Isso não significa participar desta ou daquela denominação, mas que os cristãos devem permanecer unidos e amigos uns dos outros.

Diz Jesus que perdoar os pecados do outro permite que Deus perdoe nossos pecados. Mas Paulo acrescenta que nem por isso devemos pecar de propósito somente porque o amor pode nos salvar.

Capítulo XI.

Ninguém pode se salvar sem fé. Amar Deus acima de todas as coisas é o maior mandamento, maior até do que o amor ao próximo. Como amar Deus sem ter fé nele? É necessário crer que ele existe.

Capítulo XII.

A punição divina não é diferente em natureza da punição que o pai ministra ao filho. É um castigo para lhe mostrar seu erro e fazê-lo não querer cometê-lo novamente. É diferente da condenação divina, que é a reprovação absoluta. E existem pais que rejeitam os filhos que, após deixarem totalmente a disciplina dos pais, se voltam para comportamentos prejudiciais a si mesmos e aos outros.

Capítulo XIII.

Diz Paulo que os anjos estão conosco e que devemos ser hospitaleiros. Porque aquele que hospedamos pode ser um anjo disfarçado.

O matrimônio é sagrado. Jesus é o mesmo hoje e sempre. Então, se ele perdoava os que amavam na medida do amor deles, há esperança para os pecadores.

Antigamente, os sacrifícios para expiação dos pecados eram os corpos e o sangue de animais. Agora, os sacrifícios de expiação são de outra natureza: beneficência.

Paulo diz que devemos obediência ao líder religioso, na medida em que ele sinceramente deseja o bem de nossa alma.

Epístola católica do apóstolo são Tiago.

Capítulo I.

Deus dá sabedoria liberalmente aos que lhe pedem. É importante lembrar que as orações dos injustos não são ouvidas.

As orações não podem ser feitas com dúvida. Deus não provê tentações. Ele não põe obstáculos no cumprimento dos seus mandamentos.

A tentação nasce em nós. O pecado é decorrência da concupiscência e a morte é consequência do pecado consumado. Então, no caso de Tiago, o pecado toma forma de tentativa. Se eu tentei fazer o mal, já pequei. Se eu tentei e consegui, sou digno de morte.

A ira humana não obra justiça perfeita, que só Deus pode operar. A religião verdadeira é se guardar imaculado das práticas mundanas e praticar o amor. Essas práticas mundanas são aquelas que Paulo exaustivamente falou contra.

Capítulo II.

Não se deve tratar as pessoas de forma diferente por causa de status ou dinheiro. A misericórdia atenua a severidade do julgamento divino.

Paulo insiste no poder salvador da fé, mas Tiago diz que quem tem fé e não faz o bem para com o próximo tem uma fé morta. A fé se manifesta nas obras, também com isso Paulo concorda.

Paulo diz que a fé de Abraão o justificou, mas Tiago diz que a obra de Abraão o justificou. Um ponto se liga ao outro, mas um dá mais importância a este ou àquele lado.

Capítulo III.

É muito fácil ofender o outro com palavras. Muitas vezes não pensamos no que estamos dizendo.

A palavra pode ser usada para mentir. Muitas vezes, o termo “terreno” ou “mundano” é usado em sinônimo de “diabólico”.

Capítulo IV.

O diabo se aproxima dos que não resistem a ele. Deus se aproxima de quem o procura. A expressão “se Deus quiser” se origina deste capítulo. Se não sabemos o que acontecerá amanhã, não podemos ter certeza de nossos planos. Também Sêneca diz o mesmo. Em vez de dizer “amanhã, irei”, dizer “irei, se nada me ocorrer” ou “irei se Deus quiser.”

Quem sabe fazer o bem e não faz, está pecando.

Capítulo V.

É errado fazer promessas e juramentos. “Sim”, “não”, basta. Não diga “prometo que sim” ou “juro que não”, por exemplo.

Se você ou um irmão passa dificuldade, ore. Se você ou um irmão está alegre, agradeça. Porque não é justo se dirigir a Deus somente para pedir.

É possível que a oração de um irmão faça Deus perdoar os pecados de alguém. A oração do justo pode muito.

Não devemos esconder nossas faltas daqueles contra quem a falta é cometida. Se fiz algo de errado contra alguém, devo confessar meu erro a esse alguém, em vez de escondê-lo.

A pessoa que avisa o próximo do pecado que está cometendo e o convence a parar, convertendo-o de volta ao caminho correto, é perdoada de muitos pecados.

Primeira epístola católica do apóstolo são Pedro.

Capítulo II.

O cristão está livre de fazer muitas coisas antes necessárias, mas não deveria usar mal sua liberdade.

O cristão ainda deve obediência ao Estado. Mas, se a ordem estatal se opor à divina, devemos ficar com a divina mesmo que sejamos punidos.

Capítulo III.

Pedro diz que há dois tipos de batismo: o banho, que livra da imundície do corpo, e o batismo espiritual, que é necessário à salvação. Então, quando Paulo diz que a imundície é pecado, ele pode estar se referindo à pobre higiene.

Capítulo IV.

A caridade sobre multidão de pecados. É a característica mais importante do cristão, porque é pela caridade que se perdoa os pecados.

Segunda epístola católica do apóstolo são Pedro.

Capítulo I.

Antes de prosseguir, é necessário esclarecer que “concupiscência” é desejo de fazer o que é errado. A má intenção, a intenção de pecar.

Diz Pedro que as profecias são inspiradas por Deus. Tanto que nenhum profeta sério falou em seu próprio nome, mas sempre em nome de Deus. Se supormos que só é inspirado quando aquele que discursa diz que está falando em nome de Deus, então nenhuma epístola é inspirada e todas descendem ao nível de conselho. É preciso tomar este assunto com cuidado, para evitar conclusões precipitadas (apesar de que, sempre que os apóstolos falam em pecado, salvação ou perdição, eles não falam nada que não seja baseado no que Jesus disse, então, embora não seja uma inspiração tradicional, não está distante da vontade divina, que foi manifestada por Jesus).

Capítulo II.

Haverá grandes heresias, que trarão má fama à cristandade. Isso já acontece, porque existe uma multidão de denominações cristãs absurdas.

Comparando traduções, “imundície” pode ser a violação do corpo do outro, usando-o como instrumento de pecado.

Capítulo III.

Um dia para Deus é “como se fosse” um milênio. Então, o tempo passa de forma diferente para quem é eterno. Muito provavelmente os dias criativos não foram dias de vinte e quatro horas.

Pedro assume que as epístolas paulinas são difíceis de entender em alguns aspectos. Mas isso porque Paulo era muio sábio e às vezes falava aos doutos.

Primeira epístola católica do apóstolo são João.

Capítulo I.

Se pecamos, o pecado só é perdoado depois que nos propomos a não fazer mais. Todos pecam, mesmo quando não sabem, então ninguém pode se dizer perfeito. Imagino que não somos julgados dos pecados que não sabemos que estamos cometendo.

Capítulo II.

Só conhecemos Jesus se fazemos o que ele manda. Para João, fazer a vontade de Jesus é a perfeição do amor de Deus. Então, tudo aquilo que os apóstolos mandam, mas que Jesus não mandou, é conselho.

Existe uma concupiscência dos olhos. Deve estar se referindo à cobiça da mulher do próximo e o desejo de riqueza, como diz Mateus.

O anticristo é um movimento. Existem vários anticristos e as pessoas se tornam anticristos. O anticristo é o aquele que professa que Jesus não existiu ou não é o filho de Deus.

Capítulo III.

Quem faz a justiça e ama seu irmão, é de Deus. Quem ama o próximo tem vida eterna. Se achamos que não estamos fazendo nada errado, isso é bom sinal. Não significa que estamos totalmente justos, já que não há quem não peque, mas se achamos que estamos indo bem, é porque nossos pecados ou são muito pequenos ou muito poucos.

Quem crê em Jesus e ama o próximo tem suas orações atendidas. Quem faz isso tem participação em Jesus.

Capítulo IV.

O falso profeta e o anticristo professam que Jesus não veio ao nosso mundo em forma humana.

Quem ama Deus ama também seu irmão. Porque esse é o mandamento. Como amar Deus e não fazer o que ele manda?

Capítulo V.

A caridade divina é guardar os mandamentos de Deus. Esses mandamentos nos foram entregues por Jesus, o qual levou a Lei à perfeição. Tudo indica que meu pressentimento de que as outras ordens da Bíblia Sagrada, como a grande maioria das ordenanças paulinas, são conselhos. Porque, não sendo mandadas por Deus, não produzem salvação.

Neste capítulo ocorre a famosa supressão joanina, uma passagem que afirma a Trindade categoricamente. A canonicidade dessa frase é disputada. No Texto Recebido, está escrito “três são os que testificam no céu: Pai, Filho e Espírito Santo. E esses três são um”, mas os textos críticos dizem “três são os que testificam no céu: Pai, Filho e Espírito Santo. E eles estão de acordo.” É possível entender ambas as frases em sentido não-trinitário, contudo.

Existem pecados que, se cometidos, não causam a perda da vida eterna. Levando em consideração que Jesus disse que, se quisermos ser salvos, basta que sigamos o Decálogo, então os pecados que não levam à morte devem ser aqueles que não ferem os dez mandamentos. Esses podem ser perdoados com oração.

Devemos evitar a idolatria.

Segunda epístola do apóstolo são João.

Capítulo I.

Parece que, para João, o amor é o único mandamento. Ele insiste no amor, tanto na escrita de seu Evangelho quanto na escrita de suas cartas. Ele contrasta enormemente com Paulo. É possível seguir a doutrina de ambos, mas a de João se afigura muito mais leve.

O anticristo não é uma pessoa específica, mas qualquer um que não acredite que Cristo veio à terra como pessoa.

A doutrina de Cristo é a do amor ao próximo e a Deus. Se essa é a doutrina de Cristo, as outras regras dispostas nas epístolas são doutrinas dos escritores. Sábias, sem dúvida, mas não produzem salvação. Porém, convém seguir os conselhos por uma questão de temor a Deus, para o caso de eu estar errado.

Terceira epístola do apóstolo são João.

Capítulo I.

Se deve agir com caridade também com os estranhos.

Epístola católica do apóstolo são Judas.

Capítulo I.

Tal como Deus destruiu os descrentes que estavam entre Israel após tirar seu povo do Egito, ele também pode destruir os descrentes dentre os que se batizaram e se fizeram cristãos, caso abandonem a fé.

Apocalipse do apóstolo são João.

Capítulo I.

O apocalipse não foi uma inspiração direta, como acontecia com os profetas do Velho Testamento. Acontece que Deus quis mostrar às igrejas da Terra o que estava para acontecer, então deu a mensagem a Jesus e Jesus a deu a um anjo, este a dando a João. Então, não há dúvidas sobre a inspiração, embora indireta, deste livro e ele tem tanto valor quanto os Evangelhos para o cristão.

“Igreja” é coletivo de cristão. Não é a “católica” ou a “protestantes” porque essas são denominações. Se há dois cristãos no mesmo lugar, tem-se ali uma igreja, mesmo que sejam de diferentes denominações. Tanto que as igrejas mencionadas neste livro são nomeadas segundo a localidade onde os cristãos estão.

João viu alguém semelhante ao filho do homem, um dos títulos de Jesus, mas esse filho do homem diz ser o primeiro e o derradeiro, um dos títulos atribuídos a Deus. Isso parece uma evidência da Trindade.

Capítulo II.

Devemos evitar a doutrina dos nicolaítas. Não há acordo sobre que doutrina é essa, mas algumas suposições são: a seita que diz que é possível ter mais de uma mulher ou mesmo que as mulheres devem ser um bem comum a todos os homens, a seita dos que não achavam errado comer aquilo que era sacrificado aos ídolos, a seita dos que acreditavam que a fé era o bastante para salvar (mesmo que não operássemos obra alguma).

O profeta não ordena, em nome de Deus, que se quebre alguma ordem previamente dada. Somente Deus e seu Filho podem dar e mudar ordens, então é necessário que o Filho venha para dar o mandamento novo.

Quem não conhece completamente a vontade de Deus deve guardar ao menos o que sabe.

Capítulo VI.

Menção aos quatro cavaleiros do Apocalipse: a morte (que eliminaria um quarto da população mundial), a guerra, a fome e a peste (embora eu não pudesse identificá-lo como peste).

Antes que o Reino de Deus venha, é necessário que todos os que têm amor à Palavra morram. Esta é a raiz da crença jeovista de que é necessário que os 144.000 “ungidos”, como eles chamam, morram antes que o fim venha. O número exato é revelado em outro texto.

Capítulo IX.

Após a queda de três corpos celestes, uma praga de gafanhotos sobrenaturais sobreviria à humanidade. Se o Apocalipse é metafórico, me pergunto o que significa a metáfora dos gafanhotos.

Quatro anjos sairiam do Eufrates para matar um terço dos seres humanos. Me pergunto se é um terço do total ou um terço do que ficou depois da ação do cavaleiro da morte, o qual já iria matar um quarto da população.

Apesar disso, os maus que ficarem não se arrependerão do mal que causam.

Capítulo XII.

O Diabo é derrotado e lançado à Terra com um terço das estrelas do céu. Me pergunto se isso é para agora, para depois ou se já aconteceu. Para as testemunhas de Jeová, o desordeiro Diabo foi lançado à Terra em 1914. Outro ano possível foi 1934. Mas isso é especulação.

Além disso, isso ocorre depois da queda dos três corpos celestes, a menos que a revelação não seja cronológica.

Capítulo XIII.

Adoração da Besta e o número da Besta. Diz que haverá um tempo em que a Besta tomará conta do mundo e quem não a adorar, morrerá. Em adição, quem não tiver o número da Besta na testa ou na mão direita não poderá participar do comércio. Alguns especulam que isso se trata do império de Nero, mas o parecer da maioria é que isso não aconteceu ainda.

Capítulo XIV.

Características dos 144.000: são virgens, nunca mentiram, seguem o mandado de Jesus o tempo todo, nunca quebraram nenhum mandamento.

Capítulo XX.

No Juízo Final, os que forem condenados serão lançados num “lago de fogo”. Então, o Inferno de fogo pode se referir a esse lugar, e não a um lugar que imediatamente sucede à morte (a menos que se pense que morte e inferno coincidem).

Capítulo XXI.

Depois de todos os acontecimentos do Apocalipse, a Terra ficará em pedaços, quase completamente destruída. Ela será, então, reformada.

Aqui está a lista definitiva dos que serão lançados no lago de fogo: os covardes, os incrédulos, os abomináveis (repugnantes, sujos e imundos), homicidas, fornicadores, feiticeiros, idólatras e mentirosos. Então, se alguém antes admoestou contra essas coisas, não era conselho.

13 de janeiro de 2016

O príncipe.

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  • Quando você sucede o governante anterior, a tendência é a de que os súditos se acomodem mais com a sua vinda, especialmente se a família é querida. Por exemplo: o Partido dos Trabalhadores está no poder há doze anos. Depois de oito anos de Lula, Dilma foi bem recebida. Ela foi eleita pelo povo especialmente porque, sendo do mesmo partido que o do Lula, as pessoas esperavam que ela fosse continuar o legado do Lula, que se tornou um dos presidentes mais bem vistos do mundo da política. Mas, apesar da presidenta ter decepcionado um bocado, foi reeleita, parcialmente porque o povo já estava acostumado ao modo de governo do Partido dos Trabalhadores. Apostar em outro partido é último caso.
  • É necessário apoio popular pra se invadir um lugar. Afinal, depois de conquistar um povo, você não pode ameaçar todo o mundo de morte por desobediência, considerando que o número de componentes do povo é maior que o número de componentes do exército, naturalmente. E, mesmo que todos se rebelassem e você matasse todos, sobre quem você iria governar?
  • Para evitar o motim dos cidadãos, o novo governante não pode já chegar alterando as leis e os impostos. Não mesmo; essas são as últimas coisas a mudar.
  • Se você conquista um território com leis e idioma diferentes do seu, você deve se mudar para lá, em vez de controlar o lugar à distância: um rei presente é mais amado (porque as pessoas podem apelar para ele mais facilmente) e mais temido (porque as pessoas estão sob sua vigia). Além disso, se você se mantém longe por causa dos costumes e da língua do país conquistado, você só será notificado dos problemas locais quando seus representante já não puderem mais controlar tais problemas. A sua resolução seria mais difícil. Então, a presença do rei permite que se veja os problemas tomando forma já no começo, quando são ainda fáceis de resolver.
  • Além disso, a presença do rei, que coordena a ação do exército, mesmo que indiretamente, tal como media a relação entre povo e exército, aumenta as chances de vitória numa guerra.
  • A criação de colônias assusta o povo e limita seu campo de ação contra o exército.
  • A ofensa que se faz a alguém deve ser tal que não se deva temer a vingança deste. Ou seja, se você acha necessário ofender alguém, você só deve fazê-lo se puder suprimir ou aguentar o que ele pode fazer em resposta.
  • A criação de colônias é mais discreta. A população local perde suas terras e sua grana, de forma a tornarem-se inócuas ao Estado. Então, criar duas colônias no país assusta o povo, que passa a temer o governante, mas assusta moderadamente, porque poucas pessoas são prejudicadas, embora muito prejudicadas.
  • O governante deve enfraquecer os mais fortes, mesmo que tenha que se aliar aos mais fracos para isso.
  • É necessário cuidar dos problemas presentes sem se descuidar de evitar os problemas futuros. O governo deve ser capaz de se prevenir do que possa lhe acontecer de mau.
  • Como a tuberculose: no início, diagnosticar é difícil e curar é fácil; no fim, diagnosticar é fácil e curar é difícil.
  • Prever os problemas do Estado é coisa digna de alguém prudente. Os problemas do governo devem ser resolvidos antes que venham ao conhecimento público.
  • A guerra é inevitável, mas pode ser adiada.
  • Os valores morais vigentes mudam com o tempo. O que é mal hoje pode ser bom amanhã.
  • Um piso em falso leva a outro.
  • O governante não pode eliminar a camada fraca da sociedade, porque ficaria sem “armas” para combater a camada mais forte, que poderia vir a rivalizar com ele.
  • No âmbito político, não se deve ser causa do aumento do poder de entidade alguma senão cautelosamente. Por exemplo, segundo Maquiavel, a França aumentou o poder da Igreja em seu território. Resultado: a Igreja arruinou a França. O governante não pode produzir armas contra si mesmo. Ele deve se manter no poder e no máximo poder, sem contudo atrair a ira dos súditos.
  • Se há um só governante, é difícil tomar o governo, mas é fácil mantê-lo: toda a lealdade dos súditos será direcionada ao novo governante na medida em que ele não faz nenhuma besteira. Se há vários governantes, como, por exemplo, um monarca e vários barões, é fácil tomar um governo e difícil mantê-lo, por causa dos barões.
  • Se há barões, abre-se brecha para a traição.
  • Um invasor pode subornar um barão para obter fácil entrada na cidade. Ou ainda: o barão pode chamar um invasor por querer tomar o poder.
  • Além do mais, depois da invasão, os barões podem começar uma guerra civil contra o novo governante ou até entre si para ocupar o poder.
  • Se houver autoridades poderosas no Estado invadido, o povo pode se voltar para elas e não para o conquistador.
  • Se sabemos que não podemos resolver algo por conta própria, talvez seja melhor fazer aquilo que já deu certo com outra pessoa, e copiá-la da melhor maneira que pudermos. Assim, mesmo que não possamos ser como a pessoa que resolveu o problema originalmente, talvez possamos resolver o problema minimamente.
  • Manter o poder mais seguramente requer se apoiar o mínimo possível na sorte.
  • Moisés manteve Israel unido na medida em que fazia o que Deus dizia para ele fazer. Outros governantes sem inspiração divina fizeram coisas parecidas. Isso me lembra de Tomás, para quem um raciocínio secular bem conduzido se aproxima do que é ensinado pela revelação divina. Afinal, a revelação é a verdade. Um raciocínio é tanto mais seguro quanto mais da verdade se aproxima.
  • A sorte é inevitável. Não se deve esperar pela sorte, mas ainda se deve saber se defender do azar e aproveitar as oportunidades pela sorte trazidas.
  • Ser chefe e dar ordens é um ofício perigoso e duvidoso.
  • É fácil levar alguém a crer em algo, mas você pode precisar da força e da violência para mantê-lo crente naquilo.
  • Quando se recebe algo pela sorte, você pode dizer que obteve sem esforço. Mas quando um cara de sorte recebe um benefício, encontra mais dificuldade para mantê-lo, em relação ao que o obteve pelo próprio esforço.
  • A má sorte pode também sobrevir a qualquer um. Lembrando que sorte e azar são manifestações de acaso e acaso não quer dizer efeito sem causa, e sim efeito inesperado de causa desconhecida.
  • A população não se rebela contra um bom governo. Um mau governo é causa dos crimes lá cometidos.
  • Se necessário, sejamos cruéis com os criminosos no começo. Depois que o governo for tido como “bom”, podemos diminuir a crueldade.
  • Mas é importante que não pareça que a culpa da crueldade seja do governador. Ele deve ter um ministro expiatório.
  • Governar requer parcerias com autoridades. Se você não pode extinguir as autoridades locais que podem rivalizar com seu poder, você deveria enfraquecê-las ou subjugá-las. É possível enfraquecer uma autoridade de maneira indireta, manipulando os contatos que ela tem, em vez de atacar a autoridade em si. Por exemplo, enfraqueça instituições relacionadas ou, sei lá, mate quem lha dá apoio. É por isso que tem uma piada na universidade que diz que O Príncipe é a bíblia da bandidagem, escrita quando Maquiavel estava detento.
  • Não dê poder a quem você ofendeu no passado.
  • Se alguém te causa dano, ou é por ódio… ou por medo.
  • Melhorar de vida, de governo ou obter um grande benefício que te faça viver melhor e mais seguramente, não garante que você vá esquecer as ofensas que te fizeram. É um engano pensar que aqueles que passam a ter uma vida estável ou mesmo luxuosa necessariamente perdoam as desfeitas passadas. Não é o contrário que acontece muitas vezes? Agora que a pessoa está numa condição melhor que a sua é que ela vai de atacar.
  • Maquiavel não condena a criminalidade como meio de obter o poder, embora esse seja um meio arriscado de obtê-lo. Ouvi do meu professor supervisor de estágio que o lance do príncipe é ensinar o leitor a obter o poder e a manter-se nele. Então, aceitar que o crime é um caminho viável para a obtenção do poder parece lícito para o pressuposto da obra. Até porque isso acontece, fato.
  • Um dos governantes da Siracusa, depois de virar pretor, combinou com seus soldados de matar todos os ricos e senadores do local, depois de convocar uma reunião com estes, para que todos estivessem num mesmo lugar.
  • Conseguir o poder pelo crime requer que não se conte com a sorte.
  • Conseguir o poder pelo crime não é nem um pouco virtuoso, nem glorioso. Mas, se era o que você queria, parabéns.
  • Conseguir o poder pelo crime causa medo nas populações vizinhas.
  • Trazer o pessoal que se quer matar para um local onde todos possam ficar iludidos juntos parece funcionar com ricos, políticos, nobres e seguidores de Baal.
  • Depois de eliminar de uma vez aliados importantes, podemos tolher pelo medo o governo vigente, que terá sua defesa reduzida. Vale lembrar que todos esses modos requerem uma milícia antes.
  • Como, depois de atos tão cruéis, esses governantes se mantém no poder sem que a população lhos queira assassinar? Segundo Maquiavel, a crueldade foi bem administrada: foi momentânea, desapareceu, seus efeitos foram convertidos em benefício. Se ela tivesse continuado após a tomada do poder, sem necessidade, e causassem dor à população, surgiriam conspiradores. A crueldade não pode ser mantida constantemente em altos níveis e deve terminar em algo que a população possa chamar de benefício mais tarde. Dava pra escrever um artigo entre a política na ditadura militar e o Príncipe maquiavélico. Não, dava pra escrever uma monografia.
  • “Aqueles que observam o primeiro modo de agir, podem remediar sua situação com o apoio de Deus […].” Morri de rir.
  • As ofensas precisam ser todas feitas ao mesmo tempo, ou com o mínimo de lapso entre uma e outra, para que a população não deguste o mal por muito tempo, o que poderia fazer aparecer oposição.
  • Nunca vi escritor de cara tão lisa.
  • Quando o governo quer oprimir o povo e o povo não quer ser oprimido, ou acontece o caos, ou acontece a liberdade, ou o povo escolhe outra pessoa a quem servir (em geral, do próprio povo).
  • Quando um político dá apoio a alguém que está em ascensão na comunidade, isso não é feito de graça: o político procura benefício com isso.
  • Maquiavel, quando pensa sobre as diferentes formas de obter e manter, sempre as categoriza em “fácil” ou “difícil”, seja de “obter” ou de “manter”. Então, algumas vezes é fácil obter o poder e difícil mantê-lo, outras vezes é difícil obtê-lo e fácil mantê-lo, e por aí vai.
  • Se você é elevado a governante pelo favor do povo, não vai facilmente encontrar alguém do povo que não te queira obedecer.
  • O governante precisa se manter sempre com o mesmo povo.
  • O governante, se consegue o cargo de governante por meio do auxílio de um outro governante que está contra o povo, deve ganhar o apreço popular.
  • Se alguém espera que você faça o bem e você faz o bem, as pessoas gostam de você. Se alguém espera que você faça o mal e você faz o bem, as pessoas de amam.
  • Nunca ganhe a inimizade do povo.
  • No instante em que o Estado tem paz, todos querem morrer pela pátria. Quando o Estado está em guerra, cadê esses suicidas?
  • Esteja sempre pronto pra guerra: tenha muros altos, tenha fossos, artilharia e suprimentos de reserva, estocados e renovados para caso de conflito.
  • Para manter o povo sob controle em uma situação preocupante, é necessário saber moldar a opinião pública.
  • Se obtém um principado eclesiástico pela virtude… ou pela grana.
  • Quem chega a ser governante religioso, por padrão, fica no poder até não poder mais; a religião o sustenta. Se seu direito de governar parecer divinamente fundamentado, ele permanece no poder mesmo que ele seja ateu.
  • O governo eclesiástico e seguro e feliz: os súditos não ligam, só obedecem; o próprio governante não luta suas batalhas e não ordena seus exércitos.
  • O papado anterior favorece o seguinte. Além disso, a Igreja Católica da época tinha tropas, tinha grana, tinha influência. De fato, um papa não podia levar a cabo um plano muito longo porque o tempo de vida humano não permitia, mas, se ele precisasse fazer algo grande, aqui e agora, tinha poder pra isso.
  • As bases de um bom Estado: boas leis, boas armas.
  • As leis dependem das armas pra funcionar. E, se você tem armas, acabará promulgando leis.
  • Não funde seu governo nas armas dos mercenários.
  • O mercenário ajuda na medida em que você pode dar algo em troca. Então, em tempos de paz, você esgota seus recursos com os mercenários para manter a paz. Se você depende deles para ter paz em seu Estado, os mercenários é quem são os governantes: se você não puder pagar, você fica sem armas e os mercenários tomam o Estado de você. Se você tem armas, se apoie em suas armas.
  • O mercenário se vende a quem oferecer mais.
  • Por causa disso, não arriscam a vida numa guerra. Não se pode contar com mercenários em tempos de severa dificuldade.
  • Apoiando seu governo em mercenários, se obtém lentas e medíocres conquistas, mas rápidas e lendárias perdas.
  • Também não se deveria fazer acordos com estrangeiros para a defesa de seu próprio país, a menos que você seja capaz de trazer as tropas ao seu território para combater seu inimigo e depois ser capaz de tirá-las dali caso resolvam tomar o poder de você quando a guerra acabar.
  • O lance aqui é não atrair nem riscos e nem dívidas.
  • Se você chama alguém para lutar por você, a vitória não é sua. Para o governante, é melhor perder com suas próprias armas do que “ganhar” com as armas dos outros.
  • Usando as armas dos outros, você fica impedido de dar devido valor às suas.
  • O Estado tem que ter seu próprio exército.
  • Não tendo exército próprio, o governante está se expondo à sorte.
  • O príncipe deve saber das coisas da guerra mais que qualquer outro, porque só ao governante cabe começar e terminar uma guerra.
  • As armas são a prioridade do Estado. Desarmar-se é abrir mão do governo.
  • A guerra pode elevar os normais à condição de chefe e governante.
  • A guerra tanto é o ofício próprio do governante que quem sabe guerrear consegue o governo. O governante que não sabe guerrear o perde.
  • O governante desarmado não está seguro. O cidadão armado, se bem armado, está seguro contra o governo. Vê-se com o crime organizado e o tráfico de drogas. O governo não toca neles.
  • A arte da guerra depende da geografia.
  • Ler as histórias dos célebres exércitos anteriores ajuda também na arte da guerra, para que o capitão não fique sem repertório de ações quando lhe sobrevir o acaso e o imprevisto.
  • Polemizando com A Cidade do Sol, Platão e a Utopia, Maquiavel diz que o melhor modo de conceber a política é partir de como ela é, não de como ela deveria ser. A política do dever-ser só funcionaria se todos fossem virtuosos, mas como não é o que acontece… convém analisar como lidar com as coisas no aqui e agora, com auxílio do passado, visando o bastante e a manutenção do bastante, em vez de ficar pensando em como as coisas deveriam ser para ficarem perfeitas.
  • Segundo Maquiavel, não é possível prosperar fazendo somente o bem (dever-ser). Isso porque o bonzinho é eliminado pelos malvados, que constituem maioria.
  • Ser bom depende da necessidade.
  • Miserável é o que tem medo de usar os recursos que tem.
  • É justo sacrificar respeito e cometer um ato tido por “mau” para a manutenção do Estado. Se um governante fosse completamente bom e só tivesse qualidades tidas por “boas”, ninguém o temeria, ele hesitaria em usar suas armas, não asseguraria o direito. É preciso ser bom, mas que o governante seja mau quando necessário, é o que diz Maquiavel.
  • Nem tudo que parece vício não é virtude. Nem tudo que parece virtude não é vício.
  • Você pode até ser liberal, isto é, pode se importar com a condição do próximo e dar-lhe dinheiro em sua necessidade. Mas imagine se o número de pessoas que sabem da sua liberalidade crescesse. Elas iriam a você com seus problemas esperando ajuda sua, duas, três, de repente, dez pessoas. E se você negasse? “Pão duro!”
  • O príncipe não deveria perseguir o título de “liberal” e nem repudiar o título de “miserável”. Dividir os recursos públicos com sabedoria é que é o necessário. Que o povo aprenda a não exigir muito além disso de você.
  • O governante que não gasta demais não precisa roubar o povo. Mas antes miserável que liberal, diz Maquiavel.
  • Você precisa de recursos para ser governante. Se você quer ser príncipe, ou seja, ainda não é, mas quer ser, não pode ser liberal.
  • Se você obtém dinheiro público, que o gaste liberalmente. Despojos de guerra devem ser divididos também pelo exército, liberalmente. Mas seu dinheiro, o seu “salário” de governante, deve ser administrado com parcimônia.
  • Se você for um governante bom, mas cruel, poderá ferir com penas os criminosos. Antes matar uns poucos bandidos do que deixar que muitos cidadãos morram por causa desses poucos bandidos. A população criminosa é minoria. Se você fosse governante e, por piedade, não os punisse ou punisse brandamente, como você asseguraria a segurança de seu Estado? Os criminosos se aproveitariam de sua piedade e a população seria escrava deles.
  • O dono de um Estado recém-fundado precisa ser cruel.
  • A crueldade precisa ser moderada.
  • É possível ser temido e amado, mas não na mesma medida. Se o governante quer se manter no poder, tem que ser mais temido que amado. Isso não quer dizer que se deva ser “mau”, mas que a população, apesar de gostar de você e ter carinho por você, ainda tenha medo do que você possa fazer com elas se elas ferirem o direito. Complicado jogo é a política.
  • Não é possível contar com uma amizade comprada. Convém imaginar que todos os cidadãos são possíveis traidores. Então não dependa do amor deles para sustentar o Estado.
  • É mais fácil fazer mal a quem ama você. Mas tente fazer mal a quem você teme e você constatará o ponto de Maquiavel.
  • Amizades nascem, crescem e morrem muitas vezes em que ocorrem. Mas o medo de punição é um sentimento perene enquanto a causa está lá.
  • É possível ser temido e não odiado, caso não seja possível ser temido e amado.
  • Não se pode abusar do poder de matar. Se a população te odiar… o povo se revelará.
  • É mais difícil esquecer um roubo do que a morte de um ente querido.
  • Se não se tiver um nível decente de crueldade, não é possível manter o exército sob seu controle.
  • Aníbal tinha muitas virtudes que lhe garantiam a admiração de seu exército, mas ele era desumano quando queria ser cruel com alguém. Então, ele era venerado e terrível, mantendo seu exército unido.
  • Se você é muito piedoso com seu exército, os soldados se rebelam contra você. E aí, seu governador reclama de você.
  • Algumas pessoas que traem a confiança de outras se dão muito bem.
  • Combater com as leis é humano, combater com a força é animal. Mas, como combater com leis nem sempre é suficiente…
  • O governante precisa ser tanto humano como animal.
  • Não é necessário, para Maquiavel, que o príncipe mantenha a palavra dada se isso se mostrar prejudicial a ele. Se as razões que o levaram ao trato deixaram de existir, também não é necessário manter o trato.
  • Se todos no mundo fossem bons, isso não seria necessário, e seria desencorajado. Mas, como a política é cheia de pessoas ruins, o bonzinho não sobrevive muito tempo lá dentro.
  • Quem engana sempre encontra a quem enganar.
  • Na política, parecer é mais importante que ser.
  • A prática política muitas vezes se opõe à prática ética. Embora parecer religioso, piedoso, virtuoso seja bom para obter admiração e respeito, você não pode manter o Estado se você realmente agir segundo essas virtudes que aparenta ter. E é por isso que O Príncipe é apontado por muitos como o livro que cindiu ética e política, mostrando que são coisas diferentes e que o sucesso político não apenas independe do sucesso ético como também pode ser prejudicado pela virtude ética do governante. O governante não precisa ser de todo mau, mas tem que saber ser cruel, miserável e mentiroso. E de fato, na visão de Maquiavel, não é possível fazer boa política de outra forma. Mesmo que os fins do governante sejam bons, ele ainda precisará recorrer a meios maus para obter tais fins. Por isso se chama “maquiavélico” aquele para quem “os fins justificam os meios”.
  • Quem tem boas armas terá bons amigos.
  • Não é possível conspirar contra quem é amado pela maioria. Se o governante não for odiado pela maioria, então a maioria não pensa que o povo estaria melhor sem ele. Ora, mas a conspiração visa o bem do povo pela eliminação do governante. Logo, se o governante é amado ou não odiado, ninguém intrigará contra ele, porque o povo não tiraria proveito de sua morte.
  • Se o governante for odiado, o povo procurará meios de matá-lo. Se ele for amado, o povo matará os assassinos.
  • Seria interessante que as atividades que poderiam atrair o ódio do povo sobre o príncipe fossem transferidas a um ministro. Assim, o povo poderia odiar o ministro, mesmo que ele fosse ordenado pelo príncipe.
  • Se você tiver que ser odiado por alguém, que não seja por alguém poderoso.
  • Se alguma parte do governo é corrupta e você depende dela pra fazer alguma coisa, você precisa se corromper também. Por que você acha que o governo do Lula conseguiu fazer tanto pelo povo, mas foi um governo com alto índice de corrupção? Não é possível uma boa intenção passar ilesa pela nossa Câmara dos Deputados sem algum tipo de suborno.
  • Armar os cidadãos não é má ideia. No final das contas, as armas dos súditos acabam sendo “suas”.
  • Não é necessário armar todos os cidadãos, mas apenas aqueles que estariam dispostos a fazer alguns favores ao Estado em troca do direito de portar armas.
  • Desarmar os súditos os faz duvidar da índole do governo.
  • Porém, desarmar os súditos é necessário se você acaba de invadir e conquistar um novo território. Afinal, alguém no território conquistado pode não gostar muito da sua administração.
  • É necessário manter o Estado unido, porque divisões são do que menos precisamos em tempos de guerra.
  • As pessoas dão valor aos que superam dificuldades. Então, para adquirir respeito do povo, é interessante causar inimizades para depois superá-las. Porém, não pode ser evidente que você é causa de algum problema, embora se deva se certificar de que o povo veja que você o solucionou.
  • Se a nação que você conquistou estava contente com o governo antigo, os habitantes provavelmente posaram obstáculo à conquista. Mas é mais fácil contentá-los. Por outro lado, se você conquistou uma nação insatisfeita com o governo anterior, você provavelmente achou apoio na própria população. Mas é mais difícil contentá-los, porque os habitantes agora têm expectativa de que você conserte os problemas causados pela administração anterior.
  • Fortalezas são úteis se você tem medo do povo, mas não muito úteis se você tem medo dos estrangeiros.
  • Não se deve evitar fazer algo necessário por medo dos riscos. Se é necessário para manter o Estado fazer algo arriscado, faça.
  • Fazer festas distrai o povo.
  • A qualidade dos ministros depende da prudência do príncipe.
  • Se ele faz uma boa escolha, é visto como sábio. Se ele escolhe mal, os ministros passam a ser causa de vergonha para o príncipe.
  • O ministro que pensa mais em si do que em você é um mau ministro.
  • Mas isso não significa que você deva desprezar seu ministro: ele tem que amar o trabalho dele e ser bem pago.
  • Para evitar a adulação, você deve dar crédito somente aos sábios, os quais devem saber que você não se sentirá ofendido se te disserem a verdade sobre sua administração.
  • Isso não significa acatar cegamente um sábio. Você deve julgar o posicionamento deles.
  • Não convém ouvir mais ninguém além desses sábios.
  • Não aceite o conselho que você não pediu.
  • Peça conselhos quando achar necessário e deixe claro que é a verdade que você quer ouvir, não alguma mentira confortável.
  • Receber um conselho, em si, requer sabedoria.
  • Por padrão, o ser humano é ruim. É a necessidade que os torna bons.
  • Um príncipe novo é mais vigiado pelo povo do que o hereditário, porque o povo está curioso sobre seu modo de governar.
  • O leigo se compraz no presente. Se o presente é bom, que importa o passado?
  • Se perde o Estado quando o povo passa a ser seu inimigo, quando se perde poder militar ou quando os ricos e poderosos do território não são devidamente controlados.
  • Um vício comum na bonança é não se preocupar com a tempestade. Não é porque estamos em tempos de paz que a guerra não pode acontecer.
  • Se Deus e o acaso governassem todas as nossas ações, não seria possível o livre-arbítrio, que é dádiva divina.
  • Deus e o acaso controlam nossa vida apenas em parte. Nós temos, sim, controle sobre nossas vidas… até certo ponto.
  • Aprendendo com nossos erros e se precavendo, podemos minimizar danos causados por problemas aleatórios.
  • Pensar que tudo é obra de Deus ou do acaso e que, por causa disso, tudo é inevitável. Eis uma imprudência que levou países à ruína.
  • O grau de sucesso de um rei que se apoia na sorte varia segundo a sorte.
  • Nem concordar plenamente com seu tempo e nem discordar completamente dele, se o que se quer é prosperar.
  • Riqueza e glória podem ser obtidas por diferentes meios.
  • Também conceitos metafísicos mudam com o tempo. O conceito de “bem”, por exemplo, tão caro a Platão. Se os tempos mudam a ponto de requererem vícios para prosperar, agir conforme o bem platônico traz prejuízo. Ou seja, o bem torna-se mal e hábitos antes tidos por vícios podem se tornar virtudes. Imagino que Platão se defenderia dizendo que o conceito de virtude é imutável, mesmo que aquilo que entra no conceito possa mudar, tal como a ideia de bem como algo bom não muda, embora mudem os bens particulares. Ou ainda, ele poderia dizer que o agir vicioso, mesmo quando faz bem ao bolso, faz mal à alma, alimentando o cavalo mestiço que nos mantém apegados ao mundo sensível.
  • Quando o acaso é inevitável, ainda está em nosso pode se adaptar da melhor forma às consequências desse acaso. Mas se as novas condições exigem um comportamento completamente oposto ao que se tinha antes, o governo pode não se adaptar a tempo. Também por isso, nenhum governo humano dura pra sempre.
  • O governante não consegue manter um bom governo se as tendências do governo contradizem suas tendências pessoais de comportamento.
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