Pedra, Papel e Tesoura.

27 de julho de 2016

Comecei a jogar Undertale.

Filed under: Computadores e Internet, Jogos, Passatempos — Tags:, — Yure @ 11:26

Um pouco tarde, admito, mas pensei que seria digno de notar. Dois anos atrás, eu conheci um cara pela Internet. O que nos uniu foi nossa paixão por fofura, isto é, pessoas gordas. Ele gostava dos meus desenhos e percebeu que eu participo de alguns de seus gostos. Na época, ele era muito capitalista e queria tornar seus amigos felizes através do poder do dinheiro, focando em obter tanto sucesso profissional quanto possível. Como eu sigo o caminho oposto, preferindo ter apenas o bastante e o que está ao meu alcance, ao passo que faço aquilo que penso que me fará feliz, nossa amizade foi um pouco conturbada no início. Eventualmente, ele percebeu que era possível ser feliz com o bastante e que talvez ele devesse procurar fazer aquilo que ele gosta, não necessariamente aquilo que paga melhor. Ele desenvolveu um gosto maior pela biologia, depois que seu desejo de enricar deixou de sufocar seu interesse pela natureza.

Após altos, baixos, gordos, magros, ficamos muito amigos. Antes de ontem, ele me disse que iria passar um mês longe da Internet para começar uma nova fase de sua vida, mas queria me presentear. Então ele me comprou três jogos no Steam, afora o já comprado Terraria. Eu até tentei recusar, porque pensei que o dinheiro faria falta (ele até admitiu que Undertale era um tanto caro), mas acabei aceitando porque ele insistiu até eu ficar sem graça. Além do mais, é melhor aceitar a caridade para que ela não deixe de ser oferecida.

Como eu não tenho conta bancária e não vejo isso como prioridade até eu estar formado, eu não poderia ter adquirido esses jogos de outra forma. Além do Undertale e do Terraria, tenho o Jumpjet Rex e o Tower Conflict. São jogos com gráficos bem fracos em relação aos mais realistas, porque meu PC é de 2009, ganho no primeiro SPAECE. Era realmente o melhor computador possível para a época do concurso, mas a tecnologia de então é ultrapassada agora.

Agradeci os presentes, mas espero sinceramente que os recursos não lho façam falta, especialmente porque ele não disse para onde ele vai. O começo do Undertale é bem triste. Meu sobrinho chorou quando me assitiu jogando, mas riu das cenas seguintes. Em todo o caso, estou jogando lentamente para não acabar muito cedo ou me distrair dos Dois Tratados Sobre o Governo, que estou lendo agora.

17 de julho de 2016

Anotações sobre o ensaio sobre o entendimento humano.

  1. A grande diferença entre animal e vegetal é a percepção.
  2. Prazer e dor nos movimentam. Prazer e dor nos dão motivação. Sem prazer ou dor, seríamos totalmente indolentes.
  3. O prazer e a dor guiam nossas ações. Nos aproximamos do prazer e nos afastamos da dor.
  4. A solidez depende de espaço ocupado. Se uma gota d’água estivesse compactada de tal maneira que seria impossível mover suas partículas em qualquer direção, ela seria impenetrável.
  5. Devem existir outros seres com mais sentidos que o ser humano. Se esse animal impressionante pudesse fazer ciência, sua ciência seria superior. É por isso que nossa ciência nunca será perfeita. Temos um número limitado de sentidos e os sentidos que temos são limitados em alcance. Estamos perdendo muita coisa que não percebemos. Por causa disso, a ciência é limitada.
  6. O filósofo diz que é difícil que alguém prove que ele está errado nesse ponto. Tente você imaginar um cheiro ou gosto que nunca sentiu. Poderia um cego de nascença ter qualquer ideia de cor? Ou um surdo de nascença ter ideia de som?
  7. Não é possível obter ideias simples de outra forma além dos sentidos e da reflexão. Da mesma forma, não é possível perder ideias já apreendidas. A menos que se esqueça, mas ninguém esquece algo porque quer.
  8. Existem dois tipos de ideias, para o filósofo: as simples (vinda diretamente dos sentidos ou da reflexão) e as complexas (obtidas pela combinação de ideias simples ou pela subtração de características, ideias processadas enfim).
  9. Exemplo: quando dormimos um sono sem sonhos.
  10. O fato de alguém me dizer que eu estou sempre pensando não prova que realmente estou.
  11. Nem sempre pensamos. Existem momentos em que, simplesmente, não estamos ocupados com pensamento algum. Acontece comigo com frequência.
  12. Para o filósofo, a alma e as ideias começam a surgir ao mesmo tempo. Ora, mas as ideias só podem começar a existir quando começamos a perceber as coisas. Então, alma, percepção e armazenamento de ideias começam ao mesmo tempo. Não nascemos com ideias inatas, mas nascemos com meios de obtê-las: a memória e os sentidos.
  13. A criança está interessada no que há fora de si e em seu corpo, nos dados sensoriais. A reflexão, isto é, tornar a própria mente objeto de estudo, não lhes é interessante e frequentemente é uma meditação que só se faz depois de adulto.
  14. Então, afora os sentidos, a reflexão é o único meio de obter conhecimento puro.
  15. O filósofo chama de “reflexão” o ato da mente tomar a si própria como objeto.
  16. Embora todas as ideias tenham sua raiz primordial na sensação, é possível obter ideias novas pela combinação de ideias que já juntamos ou pela subtração de suas características em nossas mentes. Ou seja: podemos obter ideias novas também brincando com as ideias que já temos, dadas pelos sentidos.
  17. Ideia é conteúdo mental.
  18. Se seu argumento não é infalível, ao menos seja coerente consigo mesmo.
  19. Para o filósofo, dizer que algo é “inato” implica estimular o ouvinte a não duvidar do que está sendo dito.
  20. Ninguém nasce tendo fé. Também a ideia de Deus não é inata.
  21. Também a fome e a sede, por exemplo, não são inatas. Só formamos ideias dessas coisas quando as sentimos.
  22. Se os princípios inatos podem ser corrompidos e já há pessoas corrompidas, então esses princípios já não são mais universais. Ora, mas as ideias inatas são provadas justamente pelo assentimento universal. Assim, esses princípios ficam improváveis.
  23. Se os princípios morais de justiça, verdade e coisas que tais fossem inatos, estando em nossas mentes o tempo todo, como é que quebramos esses princípios com tanta facilidade, de caso pensado, mesmo depois que os aceitamos?
  24. Virtudes são sancionadas por sua utilidade. Mas utilidade varia de pessoa para pessoa. Por isso que algumas pessoas vêem a honestidade como algo ruim, porque derivam sua existência e bem-estar da desonestidade. Para essas pessoas, virtude é ser desonesto. Então, virtude, ao menos como nós filósofos concebemos, não é universal.
  25. Para que algo seja considerado justo, precisa ser provado justo. Se precisa de prova, não é inato.
  26. Os princípios de justiça variam conforme a comunidade. O que é justo aqui, não é justo lá. O que é injusto lá, não é injusto aqui.
  27. Há pactos entre os ladrões. Também os ladrões têm compromissos a honrar. Mas será que o fato de até ladrões terem decência constitui prova de que a ideia de ação justa existe de maneira igual em todas as pessoas? Existem princípios morais inatos?
  28. O fato de uma verdade ser evidente não a prova como inata.
  29. Se é inato tudo aquilo que é universalmente aceito, então várias ideias triviais são inatas. Inclusive muitas que universalmente vistas como aprendidas.
  30. A razão se desenvolve pelo exercício sensorial, mnemônico, abstrato e linguístico.
  31. Processo de conhecimento para o filósofo.
    1. Os sentidos captam os objetos (lembrando que, em filosofia, objeto é tudo aquilo que é estudado por um sujeito ou com o qual ele entre em contato).
    2. Nossa mente forma conceitos a partir dos objetos.
    3. Esses conceitos vão para a memória, onde são nomeados.
    4. Quando invocados da memória, os conceitos podem ser estudados abstraídos dos objetos que os originaram.
    5. A linguagem é formada pelos conceitos nomeados, que são sofisticados conforme a memória é preenchida (“folha em branco”).
  32. Verdades obviamente lógicas são ignoradas por muita gente, que nunca se deu ao trabalho de pensar nesses assuntos. Eu, por exemplo, só começar a pensar que “existe tudo aquilo que existe” quando entrei em contato com a filosofia pré-socrática. Eu acho até que eu não teria parado pra pensar nisso de outra forma.
  33. Os argumentos a favor do inatismo frequentemente discordam com o significado do termo “inatismo”.
  34. O que é raciocinar? Deduzir uma informação nova a partir de informações já conhecidas.
  35. Se Platão estivesse certo, então já sabemos tudo, só que esquecemos. É o mesmo que nada. Aliás, Platão diz até que esquecer é perder conhecimento. Então a alma sabe, esquece e agora não sabe mais. Estranho. Parece contraditório, mas não é: aprender é obter conhecimento novo (que, para Platão, é impossível), enquanto lembrar é recuperar conhecimento que se tinha antes.
  36. “Existe tudo aquilo que existe” e “aquilo que existe no dado instante não pode deixar de existir neste dado instante” não são preceitos inatos. Afinal, crianças não sabem disso. São coisas óbvias, é verdade, mas, se fossem inatas, as crianças saberiam. Platão dirá que elas nascem, sim, conosco, mas estão esquecidas e devem ser lembradas. Porém, Platão ressalva que a alma as aprendeu no mundo espiritual, antes de encarnar, então elas nascem conosco na medida apenas em que “nascer” é unir alma e corpo. Mas que elas sempre estiveram na alma, Platão provavelmente não concordaria; de outra forma, ele estaria se contradizendo, pois diz que alma aprende no outro mundo e que só o aprendizado terrestre é lembrança.
  37. A unanimidade não constitui prova. Se todo o mundo concorda que ideias inatas existem, isso não prova que elas existem.
  38. Mesmo que existissem, elas não são necessárias, porque o conteúdo das ideias supostamente inatas pode ser ensinado e adquirido por outros meios. Então, se elas existissem, as ideias inatas seriam redundantes.
  39. Diz o filósofo: nenhuma ideia nasce conosco. Ele está em aberta polêmica com Descartes.
  40. “Ideia” é conteúdo mental.
  41. Podemos usar como regra geral que é conhecível aquilo que depende de nós, isto é, sobre o que podemos influir.
  42. Se tivermos um critério justo de avaliação sobre o que podemos e o que não podemos conhecer, o ceticismo (a doutrina segundo a qual não existe conhecimento seguro) perderá o sentido.
  43. Se existirem mesmo coisas que não podemos conhecer, isso não justifica que não tentemos conhecer aquilo que podemos. Se há algo que possamos conhecer, então devemos conhecer. Só se deve permanecer ignorante quanto àquilo que não pertence ao nosso entendimento.
  44. Deus nos deu condições universais de subsistência. Se tem alguém passando fome é porque sua comida está sendo roubada, mesmo que indiretamente, por alguém.
  45. Ele quer saber até onde vai nosso entendimento, o que implica um pressuposto de que existem coisas que a mente humana não pode conhecer. Kant se fará a mesma pergunta. O positivismo dirá que existem mesmo coisas sobre as quais se calar.
  46. Método: investigar de onde vêm as ideias (conteúdos mentais), qual sua extensão, e o que caracteriza a fé ou opinião de que algo é verdadeiro sem provas.
  47. Objetivo: diferenciar conhecimento e opinião, obter um método de estudo, obter um meio de moderar discussões sobre coisas incertas.
  48. Saber o que é o entendimento é fundamental para delinear o caminho ao conhecimento seguro. É um trabalho sobre a natureza da nossa faculdade de entender as coisas.
  49. Corrigir erros e mal-entendidos também ajuda no progresso científico.
  50. Quando se publica alguma coisa, tem que ser numa linguagem que um monte de gente entenda. Sua linguagem deve ser adequada ao público-alvo, então, se você quer que seu trabalho seja apreciado por um grande número de pessoas (o que invariavelmente incluirá os leigos), tem que ser escrito em linguagem simples.
  51. As pessoas que mais aproveitarão o Ensaio são aquelas que se aproximam da condição do filósofo: estudantes que praticam filosofia como passatempo. Platão também diz que os que mais aproveitam o texto são, em primeiro lugar, seu fazedor e, em segundo lugar, aqueles que mais parecem o fazedor.
  52. O filósofo pode ter cometido alguns excessos, mas admite que está com preguiça de revisar seu livro para tirar informação inútil e completar alguns raciocínios curtos demais.
  53. O livro pode ser resumido.
  54. Como todo bom inglês, o filósofo não queria se delongar. Ele procurou ser sucinto.
  55. A inspiração do livro foi uma conversa entre amigos. Enquanto discutiam sobre assuntos presentes, o consenso ficava difícil de obter. O filósofo então pensou que algumas discussões poderia estar excedendo a capacidade conceitual deles. Sobre o que se pode realmente discutir? Quais debates são esforço fútil?
  56. Este livro foi escrito para que o filósofo pudesse manter registro de sua própria reflexão sobre o assunto (o entendimento humano). Se você já é versado no assunto, o livro talvez não te ensine nada de novo.
  57. Diz o filósofo que as nossas ideias desaparecem quando não estamos pensando nelas, de forma que a memória não é tanto um banco de ideias, mas um banco de diretrizes sobre como “ressuscitar” uma ideia para pensarmos nela. Eu prefiro pensar na possibilidade de ser um banco de ideias mesmo, porque me parece que o filósofo está sendo radical demais sempre que fala de percepção.
  58. As memórias que são lembradas mais facilmente são as de eventos muito prazerosos ou muito dolorosos. Também a repetição ajuda a memória.
  59. A memória dá utilidade a várias de nossas faculdades mentais. A mente sem memória é quase completamente inútil.
  60. Esquecer é perder conhecimento.
  61. Estupidez é só ser lento pra lembrar o que aprendeu. O contrário é a vivacidade.
  62. O vivaz faz melhores julgamentos e discernimentos, por perceber mais facilmente as diferenças entre as ideias.
  63. As crianças, quando têm memória madura o suficiente, podem, embora lentamente, inventar sua própria linguagem e o fariam se não fosse o convívio com os adultos. Prova disso são os nomes estranhos com os quais as crianças nomeiam as coisas.
  64. Se cada coisa tiver um nome próprio, não lembraremos os nomes das coisas. Por isso chamamos pelo mesmo nome objetos que guardam semelhança (cadeira é cadeira, quer tenha braços ou não, encosto alto ou não, quer seja de madeira, plástico ou ferro).
  65. Fazemos isso pela via da abstração. O que é uma cadeira? É um assento artificial com encosto. Então, tudo o que puder ser descrito dessa forma pode justamente ser chamado “cadeira”. Se encontrarmos algo de comum entre dois objetos, podemos lhes dar um nome comum baseado nessa característica.
  66. Em adição, a abstração nos permite nomear essas características comuns que há nas coisas, tornando adjetivos em substantivos. Exemplo: a mesa é dura, tal como é a pedra, tal como é o ferro, então essa característica pode ser nomeada e eu escolho para ela o nome de “dureza”. Não existe dureza fora da matéria, então eu só posso considerá-la em separado como um conceito abstrato. Essa é uma ideia derivada de outras ideias que são, por sua vez, derivadas de dados sensoriais. Portanto, conceitos abstratos automaticamente não são ideias simples.
  67. Se extensão não é solidez, fica um pouco mais difícil para Descartes afirmar que o nada é alguma coisa porque pode ser medido. De fato, existem coisas que não têm corpo, como as coisas espirituais, mas o nada não é espiritual. Então, ele deve ser corpo. Mas todo o corpo é sólido e o nada não tem solidez. Então o nada volta a ser nada: o fato de poder ser medido não o torna alguma coisa, pois não é corpo (uma vez que não tem solidez) e nem é espírito. Ora, então o que estamos medindo quando medimos o “nada”? Uma área, certamente, mas não o nada.
  68. Tempo é duração, tal como espaço é extensão. Medimos o espaço com centímetros, metros, quilômetros, mas o tempo medimos com dias, meses e anos, por exemplo.
  69. O tempo só é percebido enquanto estamos conscientes e pensando. Não percebemos o tempo passar se dormimos.
  70. Como o tempo está relacionado com a percepção, não percebemos o tempo passar se estamos muito concentrados em uma coisa específica. Só percebemos a passagem do tempo se percebermos algum tipo de sequencialidade, isto é, quando diferentes pensamentos nos ocupam, um de cada vez. Se nos concentrarmos, perderemos a noção de tempo. Por isso não percebemos a passagem do tempo durante o sono: adormecidos, não percebemos sequencialidade alguma.
  71. Se sonhamos, voltamos a perceber a passagem do tempo, embora somente no sonho. Se não sonhamos, não percebemos. Então, passagem do tempo é coisa de nossa cabeça, algo oriundo de nossa percepção. Se deixamos de perceber, isto é, de sentir, o tempo morre pra nós. Por outro lado, mesmo percepções ilusórias, como o sonho, nos despertam sequencialidade e sensação de passagem do tempo.
  72. Tempo não coincide com movimento. Por exemplo, dois objetos distantes estão se movendo, mas estamos aqui, parados, os observando. Como estão distantes, muito distantes, o movimento deles não é percebido por nós. Quando o movimento é percebido, depois de um dia, dizemos que os objetos passaram um dia parados, quando na verdade estavam em constante movimento e ainda estão. Então, o tempo de repouso é calculado pela percepção. Tudo está em constante movimento, mas só podemos calcular o tempo das variações que percebemos. Além do mais, como diz Agostinho, é possível medir tempo de repouso. Então tempo não precisa se originar do movimento, porque, se medimos o tempo de repouso, o movimento marca o término, sendo então a noção secundária. Ufa. Provavelmente não deu pra entender.
  73. Tempo é constatação de duração, seja de movimento ou de repouso. É um aparelho mental. Nisso, o filósofo concorda com Agostinho e Kant, posteriormente, concordará com ambos.
  74. Medir o espaço requer uma referência, com a qual podemos criar medidas de extensão (centímetro, metro, quilômetro…). Medir o tempo pode ser feito da mesma maneira e o movimento dos astros parece uma boa referência. De fato, o movimento dos astros não é o tempo e podemos continuar medindo o tempo mesmo depois que o movimento celeste cesse, pois já teremos a referência e as medidas que serão mecanicamente ajustadas (segundo, minuto, hora…).
  75. Não há conexão necessária entre tempo e duração. Kant dirá, então, que o tempo é parte de um aparelho mental. As durações podem ser apontadas por nós, mas somente porque o tempo, coisa da nossa cabeça, nos permite ver sequencialidade no presente eterno.
  76. Itinerário do amadurecimento do órgão “tempo” em nosso aparelho mental cognitivo:
    1. Percebendo que uma coisa vem depois e outra veio antes, aprendemos que existe sucessão.
    2. Quando nos acostumamos com a sucessão, percebemos que alguns estágios dela são retidos por nós por alguns instantes, aprendendo que existe duração.
    3. Utilizando referências de durações mais ou menos iguais, chegamos a aprender as medições de duração.
    4. Pela repetição do uso das medições, passamos a usá-las sem auxílio de referências, o que nos permite medir antecipações e memórias (daqui a um dia, um ano atrás).
    5. Quando nos damos conta disso tudo, aprendemos o conceito de eternidade, que é esse presente indeterminado que dividimos, e, consequentemente, inferimos que deve haver algo que sempre existiu, pois, de outra forma, nada existiria agora (logo, que nosso conceito de sucessão é limitado e, consequentemente, toda essa capacidade até agora).
    6. Finalmente, percebemos que o tempo é coisa de nossa cabeça, uma forma que a razão encontra de apreender instantes do eterno. Esse é o maior grau de maturidade do nosso órgão temporal.
  77. Para uma coisa sem existência objetiva, o tempo se revela um troço irritante.
  78. O nosso pensamento está impregnado de números. Não é possível raciocinar plenamente sem números.
  79. No ensino fundamental, aprendemos que tudo é matemática. Isso é metafórico. Quer dizer que a linguagem matemática permeia nosso raciocínio de tal maneira, que nossa própria relação com o mundo depende também de sua mediação. Não é que tudo seja matemática, mas que a matemática é uma lente pela qual olhamos o mundo.
  80. Toda a matemática depende de uma ideia simples: unidade. Se não fosse o número um, não seria possível somar, subtrair ou o que quer que fosse. Ele não é o primeiro à toa.
  81. A demonstração matemática é a mais exata. Conhecimento seguro depende dela.
  82. O movimento depende de espaço vazio.
  83. Quem supõe que algo existe agora, levando em consideração a contingência dos seres, deve, necessariamente, admitir algo de eterno.
  84. Temos a ideia do infinito apenas em potência, uma vez que sempre podemos adicionar mais uma unidade ao número que imaginarmos. Mas a ideia do infinito em ato, não a temos.
  85. Também a ideia de poder depende da percepção. Com efeito, não poderíamos constatar o poder de algo sobre outro algo se não apreendemos tal relação, o que é feito sensualmente ou pela reflexão.
  86. Existem dois tipos de poder: o que age sobre outro e o que recebe a ação. Assim, o gelo tem o poder de ser transformado em água, o que só pode acontecer se algo agir sobre ele. Também o fogo tem poder de transformar o gelo em água, agindo sobre ele. Isso não é diferente do sistema de potências de Aristóteles; é a mesma coisa dita de modo diferente.
  87. Para o filósofo, todo o poder, inclusive o de mudança, requer relação entre dois ou mais elementos. Já Leibniz dirá que existe algo que tem poder de mudança sobre si mesmo.
  88. Nossas ações podem se resumir em duas categorias: pensamento e movimento.
  89. O poder é relação, mas não agente. Portanto, você não pode culpar “o poder” por opressão, mas quem exerce o poder. É necessário acusar alguém.
  90. Antigamente, quando se perguntava o que digeria nossa comida no estômago, se respondia que era a “faculdade digestiva”. Isso é tão válido como dizer que o que digere é aquilo que digere. Isso me lembra de Hobbes, quando ele diz que Aristóteles, ao dizer que a pedra cai porque tem tendência a cair, está dizendo que a pedra porque sim.
  91. O ser humano é livre para fazer tudo o que está a seu alcance, o que não significa que ele é livre para fazer tudo o que quer. Afinal, algumas coisas que ele quer simplesmente não são possíveis.
  92. Quando usamos palavras sem saber claramente o significado, nos expressamos de forma infantil.
  93. Substância é aquilo que faz com que algo seja o que ele é, tanto em sua essência como em suas afecções (acidentes). O filósofo vai dizer que, embora tenhamos essa definição, ainda não sabemos exatamente o que isso significa, tanto que muitas aplicações do termo estão erradas.
  94. A ideia de substância não é simples, mas complexa: não apreendemos as substâncias das coisas pelos sentidos, mas pela decomposição de seu conceito (obtendo essência) e pela reunião de características que normalmente seguem esse conceito (obtendo acidentes).
  95. Muitas vezes, o apela à substância é um argumento gratuito. “É assim porque é propriedade de sua substância”, é como dizer “porque sim”. Se não sabemos exatamente o que é substância, é melhor não usá-la como argumento em debate.
  96. A ideia de espírito surge do fato de não compreendermos como as emoções e os sentimentos se originam do corpo. Se não vêm do corpo, mas vêm de nós, então não somos somente corpo.
  97. A ideia de substância é tão composta, em vez de simples, que sempre que alguém fala “ferro”, nossa mente compõe uma ideia a partir de várias características encontradas no ferro. Imaginamos algo duro, cinza, oxidável, fundível… A ideia é composta.
  98. A existência real da substância nunca foi provada, diz o filósofo.
  99. Muitas palavras implicam relação. “Velho”, por exemplo, só é velho em relação a algo que possamos chamar de “novo”. Como essas relações são frequentemente subjetivas, os céticos achavam que verdades absolutas não era possíveis, porque tudo seria questão de ponto de vista. “Perto” e “longe”, “grande” e “pequeno”, são relações relativas. Mas se você diz “tem sessenta e cinco anos”, não é mais relativo. Acaba assim o argumento do cético, porque a matemática aplicada ao relativo o torna absoluto.
  100. “Criação” é fazer algo a partir do nada. Isso só compete a Deus.
  101. Também “certo”, “errado”, “bem”, “mal”, “justo” e “injusto” são relativos à lei. Só é possível emitir julgamento moral segundo uma lei estimada pelo emissor. Assim, algo que os seres humanos consideram justo segundo suas leis pode ser injusto para Deus. O contrário também é possível, pois os Evangelhos e a Lei não condenam muitos comportamentos que são considerados criminosos (embora Paulo e, posteriormente, Pedro aconselhem a sujeição ao Estado).
  102. Virtude é o comportamento digno de louvor. Vício é o comportamento digno de censura. Se consideramos que Aristóteles diz que virtude e vício são hábitos, virtude é o bom hábito e vício é o mau hábito.
  103. Para um trabalho desenvolvido no ócio, o Ensaio é um excelente livro de teoria do conhecimento.
  104. Ideia distinta é aquela que é perfeitamente apreendida por um órgão sensorial (ou reflexão) perfeitamente funcional. Isso é um ideal, óbvio, pois não sabemos o quão apreendida é “perfeitamente apreendida” nem o quão funcional é “perfeitamente funcional”.
  105. A linguagem não está na capacidade de articulação sonora. Os papagaios também formam sons articulados, palavras, mas não as usam para se comunicar.
  106. A linguagem está na correspondência entre estímulo e ideia. A palavra que eu digo deve ser entendida pelo ouvinte e vice-versa. A linguagem é tanto a capacidade de emitir ideias por estímulos sensoriais como a capacidade de interpretar estímulos sensoriais como sinais de ideias. Então, a fala não é o único meio de comunicação.
  107. Como já foi dito, uma boa linguagem comporta certo grau de generalidade. Se cada coisa fosse chamada por um nome particular, teríamos um vocabulário tão grande como inútil. As coisas que guardam semelhança devem ser chamadas pelo mesmo nome. A busca por significados exatos foi o que ocasionou a busca pelas essências (em que condições eu posso chamar certo objeto de “cadeira”, isto é, o que é a essência da “cadeira”, suas características fundamentais sem as quais ela seria outra coisa?). Platão dirá que as essências vêm de outro lugar e que são imutáveis, enquanto Aristóteles dirá que as essências estão nas coisas, Tomás dirá que a essência (natureza) é a definição da coisa. Parece uma discussão boba, quando você entende que, no final das contas, esses caras apenas estão discutindo o significado das palavras.
  108. Também uma boa linguagem comporta negações, palavras que não servem para indicar presença, mas ausência de determinada ideia. Hobbes dirá a mesma coisa, isto é, que são necessárias palavras que indiquem ausência para evitar que o pensamento do ouvinte vá numa direção indesejada. Então, palavras que designam ausências servem para que o ouvinte não suponha, em meu discurso, a presença de uma ideia que na verdade não está lá. Exemplos de ausências são “silêncio” (ausência de som), “escuridão” (ausência de luz), “mal” (ausência de bem), entre outras palavras que indicam ausências.
  109. Nomes de coisas espirituais também têm sua origem em nomes de coisas sensíveis. “Espírito” é respiração, “anjo” é mensageiro, “evangelho” é boa notícia (inclusive, segundo meu professor de história da filosofia, o termo “evangelho” tem origem pagã, porque os gregos que davam boas notícias em nome da deusa Hera chamavam seus oráculos de “evangelhos”). Traçando as origens dos termos religiosos, encontraremos, eventualmente, raízes em termos materiais, que são aplicados ao espiritual por razões de semelhança.
  110. A razão de sermos entendidos de forma errada não vem das palavras, mas das ideias que temos. Seu eu digo “ouro” para alguém, a criança que só viu ouro pela televisão e sabe que é algo amarelo brilhante, vai pensar que estou me referindo a algo amarelo brilhante, o que está apenas meio certo. Alguém mais velho, que já pegou em ouro, sabe que ele é também muito pesado. Ele entenderá melhor o que estou dizendo, mas não totalmente, se eu mencionar que ouro tem certo grau de fusão. Eu só posso ser plenamente entendido por quem tem a mesma ideia de ouro que eu tenho. Quanto mais distante da minha for a ideia de ouro do ouvinte, menos ele vai entender o que estou dizendo. Imagine isso com termos como “traição”, “vingança”, “normal“, “sexo”; são termos que variam segundo contexto cultural. “Sexo”, por exemplo, não invoca a mesma ideia num religioso, num político e num biólogo. Por isso que o bom discurso começa pelas definições, para que todo o mundo que pegue o texto saiba do que estou falando.
  111. É possível falar palavras abstraídas de seus significados. Por exemplo, quando cantamos uma música a fim de nos divertirmos, entoamos a letra sem necessariamente pensar nela. Além disso, frequentemente cantamos sozinhos, sem que alguém nos ouça. Então, quando dizemos algo, não necessariamente o fazemos a fim de nos comunicarmos, então as palavras perdem o sentido e o significado. Outro exemplo é quando falamos palavrões por impulso; não estamos diante de uma poça de esperma sempre que ficamos enfurecidos. Então, são palavras, sim, mas não as emitindo querendo dizer o que elas querem dizer.
  112. O objetivo da linguagem é a comunicação. Embora hoje a escrita deva seguir regras formais de ortografia e gramática, para que o texto escrito por um cearense seja entendido corretamente pelo leitor paulista (imagine se cada um escrevesse como fala), é tolo que as pessoas corrijam a fala uns dos outros. A única regra à qual linguagem falada deve seguir é a simples máxima “estou falando e tu entendes”. Se eu estou falando e você está entendendo, então tá tudo ótimo, mesmo que eu pronuncie errado alguma coisa ou incorra num pleonasmo. Além do mais, a linguagem escrita segue à linguagem falada. Se algum dia a pronúncia “errada” de alguma palavra for adotada pela maioria, ela se tornará oficial na escrita e a grafia antes considerada “certa” se tornará arcaica e, portanto, esteticamente incorreta numa redação. A linguagem falada tem prioridade sobre a escrita, por isso os acordos ortográficos periódicos acontecem. De fato, por questões de padronização e entendimento, a escrita tem regras, mas elas só são válidas na escrita, não são absolutas e não precisam ser adotadas na fala.
  113. O fato de usarmos nomes gerais na maior parte das vezes não implica que nunca usamos nomes particulares. Os nomes gerais são o que hoje chamamos de substantivos comuns: rio, montanha, pessoa, por exemplo. Os nomes particulares, segundo o filósofo, são o que nós chamamos de substantivos próprios: Amazonas, Everest, Maria, João, por exemplo.
  114. Gosto do fato de o filósofo invocar constantemente o exemplo das crianças na aquisição de linguagem e de ideias. A negligência do infantil nos leva a considerar apenas adultos no raciocínio, o que nos levaria a muitos erros quanto ao desenvolvimento dos nossos conceitos. Se quisermos saber de onde tiramos nossas ideias, temos que recorrer ao dado instante em que nos damos conta delas: a infância. Eis o problema de Descartes. Não levando em consideração que houve um tempo em que ele apreendeu ideias a partir do mundo sensível, um tempo em que ele tinha pouco de racional e muito de animal, ele não percebeu que as nossas mais elevadas ideias são na verdade combinações e abstrações feitas a partir de dados sensoriais, com as quais convivemos a tanto tempo que cremos serem inatas. Mas ele poderia argumentar: “como então surge em mim a ideia de Deus?”. Partindo do pressuposto de que Descartes era cristão, e não apenas um cara obcecado em escapar da Inquisição, ele deveria acreditar que Deus se relevou a nós por sinais sensíveis registrados na Escritura. Então, supor que Deus não pode se manifestar sensualmente e só é atingível pela razão é negar a Escritura. Então, o pensamento de Descartes nega sua fé. Por isso tem gente que diz que Descartes era secretamente ateu e só estava jogando argumentos a favor de Deus em seus livros para não acabar queimado.
  115. Se adotamos o sistema de essências, não podemos dizer que cada ser tem uma essência própria. A essência da ideia “homem” está contida na essência de “Pedro”. Pedro, então, tem uma essência própria e mais a essência de “homem”. Também as essências de “animal”, “vivo”, “contingente”, “perecível”, “criado”… Por isso o sistema de essências não é mais tão levado a sério.
  116. Embora palavras refiram-se à ideias, referem-se à coisas reais por extensão, uma vez que uma coisa real originou a ideia.
  117. Para o filósofo, as ideias simples não podem ser definidas, somente as ideias complexas. Faz sentido: as ideias complexas são definidas utilizando ideias simples, mas uma ideia simples não pode ser definida por outras ideias simples (porque isso implica que ela é composta), nem tampouco pode ser definida por ideias complexas.
  118. Quando tentamos definir uma ideia simples, corremos o risco de apenas lhe apresentar um sinônimo. Exemplo: o que é o movimento? Mudança. Ora, mas isso é trocar um sinônimo por outro. De fato, isso não é de todo mau, mas pode ser insuficiente.
  119. Se alguém não sabe o que é a luz, dizer que ela é uma onda ou feixe de partículas rápidas e minúsculas provavelmente não explicará nada ao leigo. Isso significa que alguns conhecimentos não são absorvidos por quem ainda não recebeu outros conhecimentos dos quais tal conhecimento depende.
  120. Ideias simples só podem ser obtidas pelos sentidos. Sua definição, por assim dizer, “definitiva” é um punhado de sensações obtidas pela interação com o objeto que as origina. “Movimento”, ideia simples para o filósofo, não deve ser definido com palavras, mas com a experiência do movimento. Então, se algo não pode ser definido satisfatoriamente com palavras, só saberemos o que é depois de experimentar.
  121. Definir um sabor com palavras, por exemplo, nunca é suficiente. O mesmo ocorre com cheiros e com cores.
  122. Quando concebemos a ideia de casamento, podemos, pelo processo de abstração e trabalho da ideia, conceber a noção de adultério, mesmo que o adultério nunca tenha sido concebido ali. Suponhamos que eu tenha elaborado um sistema de regras para um novo jogo. Essas regras nunca foram feitas, então nunca antes foram quebradas. Mas, à medida que componho as regras, concebo a noção de trapaça, isto é, concebo como as regras podem ser quebradas, mesmo que elas nunca tenham sido quebradas. Então, pelo processo de combinação e de abstração, sou capaz de conceber ideias sem correspondência real, mesmo que elas se originem de coisas reais (que servem de referência, como as regras hipotéticas).
  123. Por causa disso, porque nem todos chegam às mesmas concepções pela abstração ou combinação de ideias simples, isto é, porque as ideias complexas variam segundo contexto, que existem palavras que não podem ser traduzidas para outro idioma. A palavra “saudade” é exclusiva do português e do galego, porque outros povos não chegaram à noção de um tipo de nostalgia ao mesmo tempo triste e alegre, que carrega o desespero da volta daquilo que nos trazia felicidade, embora essas mesmas memórias sejam fonte de uma melancólica alegria. Outro exemplo, é a palavra morrinha (conforme usada pelos que falam galego), que é definida como “saudade que leva à morte”, um tipo especial e doentio de melancolia nostálgica.
  124. Um objeto pode ter essência composta: corpo é “matéria limitada, extensa e sólida”. Então a essência de corpo não é algo simples e indivisível, mas quatro características que podem muito bem ser separadas (matéria, limite, extensão e solidez). Por isso o filósofo afirma que essências são ideias complexas e não simples.
  125. Além disso, essas características não são exclusivas à noção de corpo. Outras coisas têm matéria (universo), limite (área), extensão (espaço) e solidez (agora, você me pegou).
  126. Não se surpreender não significa não ser ignorante.
  127. Por que os deuses pagãos e até mesmo o Deus verdadeiro se mostram tão humanos ao nosso entendimento? O filósofo dirá que é porque não podemos conhecer a divindade sem o filtro dos sentidos. Sempre que conhecemos algo, comparamos com algo que já conhecemos. Então Deus, sendo Deus, deve ter essas coisas (justiça e amor, por exemplo) em grau infinito. Por isso Hobbes e Tomás dirão que as emoções divinas são metafóricas, fruto de um entendimento humano genuinamente limitado. Já eu acredito que as emoções divinas são fato.
  128. Deísta.
  129. O filósofo diz, com Tomás, que existe uma hierarquia cósmica: o animal mais baixo está próximo, em termos de perfeição, à mais elevada planta. A diferença é que Tomás, embora deixe implícita a ordem cósmica nos seres materiais, está mais interessado na relação cósmica entre o mais elevado ser humano e o mais baixo anjo, o mais alto anjo e Deus. Faz sentido que o filósofo trate disso agora, pois ele acabou de discutir como Deus tem qualidades infinitas, ou seja, ele está se referindo ao que Tomás se refere com o argumento dos graus de perfeição.
  130. Uma coisa só é verdadeiramente diferente de outra se recebe um nome distinto, o que implica que a diferença entre água e gelo é subjetiva (para um, são coisas diferentes, mas, para outro, são estados diferentes da mesma coisa).
  131. Tomamos forma e cor como sinais distintivos das coisas. Por isso que somos capazes de ver um leão em um desenho. Não é um leão de verdade, só um desenho que representa um leão. Mas a forma e a cor nos dizem exatamente o que o desenho representa.
  132. É mais fácil nomear uma máquina do que um animal, porque sabemos exatamente o que a máquina é, o que faz, quem fez e de que é feita. Então é mais simples nomeá-la apropriadamente.
  133. As palavras servem para duas coisas: registrar pensamentos e comunicar pensamentos.
  134. Enquanto que o uso de palavras para registro é de um só tipo, é possível comunicar pensamentos por dois meios: civil e filosófico.
  135. O uso civil das palavras numa conversa serve unicamente para comunicação cotidiana. O uso filosófico, porém, serve unicamente para argumentar, discutir, provar, demonstrar, enfim, para debater um assunto filosófico ou científico.
  136. Nomeamos as coisas arbitrariamente. O cachorro não se chama cachorro por nenhuma razão particular, mas porque alguém teve que chamá-lo de alguma coisa e decidiu que seria assim.
  137. É possível aprender o nome primeiro e depois o que significa, também é possível o contrário.
  138. Existem diferentes palavras cujos significados não são unânimes. Exemplo: honra.
  139. Nomes referentes a comportamentos humanos não são unânimes em sua maioria. É mais fácil obter um consenso sobre nomes relacionados à coisas naturais.
  140. O filósofo diz que o uso de nomes gerais para comunicação é adequado para conversas civis, mas não filosóficas.
  141. Existem palavras que não significam nada.
  142. Existem palavras que são usadas levianamente. Por exemplo, quando falamos de algo que não conhecemos. Pergunte ao seu pastor, por exemplo, o que significa “graça”, em sentido religioso. Vejamos em quanto tempo ele responde e quantas vezes gagueja.
  143. Existem palavras que são usadas, no mesmo texto, para se referir a coisas diferentes.
  144. Palavras não são coisas.
  145. Um mal-entendido pode ser causado por supor que o que eu entendo por determinado termo é entendido do mesmo modo por outra pessoa.
  146. Às vezes, duas pessoas discordam apesar de estarem dizendo a mesma coisa. A razão de discordarem é que um não entende o palavreado do outro.
  147. Não se deve usar palavras abstraídas de seus significados. Além disso, as palavras devem, num discurso científico, significar o que devem significar. Ou seja, não podemos usar palavras que já tem um sentido corrente de uma forma inusitada. Assim, são banidas do discurso científico as metáforas e as gírias. Temos que aumentar as chances de nossas ideias corresponderem com as ideias dos outros. Deixar o discurso obscuro de propósito é desonesto.
  148. Novamente: devemos definir as palavras-chave do discurso antes de começar o discurso.
  149. Se não é possível dizer o que significa uma ideia simples, então temos que apontar um exemplar correspondente na natureza. Se, por qualquer razão, alguém não souber o que é uma “terça menor“, o jeito é cantar pra ele. Use exemplos para definir ideias simples, porque exemplos funcionam melhor que palavras. Se isso não for possível, use um sinônimo, pois algumas pessoas que temem a palavra “cão” por identificarem com “diabo”, conhecem o objeto referido pelo termo “cachorro”.
  150. Se duas pessoas olham a mesma pepita de ouro e um deles corretamente a identifica como falsa só de olhar pra ela, não necessariamente ele tem olhos melhores; pode ser que apenas tenha prática. Quantos neurônios Einstein tinha a mais que você? Nenhum. Se ele era um intelectual, é porque ele praticou essas habilidades. Claro que ter talento ajuda.
  151. A melhor forma de ensinar um idioma é mostrando as coisas primeiro e depois dizendo como se chamam, diz o filósofo. Se você ensina a palavra primeiro e depois mostra o objeto relacionado a ela, está ensinando também, mas de uma forma não recomendada.
  152. Só se pode discutir sobre aquilo a que é possível atribuir identidade, relação, coexistência ou existência. Se algo escapa a esses critérios, não podemos chegar a conclusões sobre ele.
  153. É possível, e frequentemente acontece, inclusive por razões práticas, que alguém aceite algo sem provas.
  154. “Lembrar” é invocar conhecimento adquirido. Então esquecer é perder conhecimento.
  155. Algo é verdade pra nós na medida em que nossa memória diz tal. Depois de aprender uma coisa, não vemos a necessidade de aprender novamente, a menos que isso se mostre insuficiente (o que significa que estamos desatualizados).
  156. Intuição é apontar verdadeiro ou falso logo ao entrar em contato com a questão. Se baseando apenas na impressão superficial, não é racional.
  157. Raciocinar, para o filósofo, é comparar ideias a fim de concluir alguma coisa.
  158. O raciocínio precisa de provas, diz o filósofo.
  159. Quanto mais provas forem necessárias, mais difícil será demonstrar algo, mesmo que seja verdade. É difícil acompanhar o raciocínio. Por isso você não pode entender física sem antes aprender matemática, porque as verdades físicas se apoiam em verdades matemáticas e na observação. Se você fosse aprender algo de um físico sem antes aprender matemática, ele teria que despender tempo em lhe ensinar os fundamentos antes de ir direto à questão. Mas se você não teve tempo para praticar, então provavelmente não será capaz de entender as verdades matemáticas necessárias à compreensão do raciocínio no pouco tempo destinado à discussão. Então, em situações em que “um conhecimento depende de outro”, alcançar conclusões é sempre mais difícil, pois é mais demorado e requer mais atenção. Explicações “rápidas” não explicam nada em situações assim.
  160. Demonstrações sempre incluem intuições. Essas intuições são os elementos “óbvios” do raciocínio, coisas com as quais tanto expositor e rebatedor concordam. Se não houvesse nada de óbvio no raciocínio, ele precisaria de cada vez mais provas. Quando reconhecemos algo como óbvio, avançamos o raciocínio. Tem coisa mais boba do que pedir provas para o calor do Sol? É óbvio que o Sol produz calor. Se formos pedir provas de tudo o que ouvimos, nunca chegaremos à conclusão alguma. É como o menino do castelo, que sempre pergunta “por quê” até que alguém lho diga “porque sim.”
  161. Além disso, demonstrações, diferente das intuições, são terrenos férteis para mentiras. É difícil duvidar do óbvio, mas é fácil enganar com o raciocínio.
  162. Há três tipos de conhecimento: intuitivo, demonstrativo e sensitivo. Parecem análogos ao processo científico de entrar em contato, elaborar lei e testar lei.
  163. É possível conhecer claramente duas ideias, mas não ser capaz de ver como elas se relacionam.
  164. Não é possível conhecer além de nossas ideias. As ideias brutas nos são trazidas pelos sentidos (impressões sensoriais) e pela reflexão, sendo relacionadas, combinadas e analisadas pelo raciocínio, para criar novas ideias. Ora, mas a mente não cria ideias novas se não pelas ideias brutas, trazidas por um número limitado de limitados sentidos. Então, nosso conhecimento é limitado por aquilo que podemos perceber e pelo nosso raciocínio sobre coisas percebidas. Esse é o limite insuperável da ciência: só temos cinco sentidos e nossos cinco sentidos são limitados em alcance. Mesmo convertendo um sinal acústico em visual, pela via do osciloscópio, não somos capazes de perceber, mesmo com tal ferramenta, algo que não pode ser visto, ouvido ou sentido. Da mesma forma, alguns animais têm mais sentidos do que nós, talvez conheçam o mundo melhor que nós. Mas nosso conhecimento também é limitado pelas relações que fazemos entre as ideias brutas a fim de gerar novas ideias, pela composição e abstração. Então, um animal com mais sentidos e menos raciocínio provavelmente sabe menos que nós, mesmo que tenha um número maior de ideias brutas. Além disso, existem cores que não podemos perceber, frequências sonoras que não podemos ouvir e não há remédio pra isso. Trabalhar com essas coisas requer conversão em algo que possamos ver, ouvir ou sentir. Mesmo que aumentemos os nossos sentidos através de ferramentas, existe muita coisa no universo que nós ignoramos. Um conhecimento de todo o universo requereria mais que cinco sentidos, todos de um alcance maior que o que temos.
  165. Os preceitos morais da religião não dependem da ideia da imortalidade da alma. Se alma é ou não imortal, isso não faz diferença: se Deus é todo-poderoso e nos prometeu ressurreição, então ele deve dispor de meios quer a alma seja imortal ou não.
  166. Ninguém sabe exatamente o que é a alma. Dizer que é “princípio de movimento” não basta. Não sabendo exatamente o que é, nenhum argumento sobre a mortalidade ou imortalidade da alma é absoluto. Como se pronunciar com certeza sobre algo que não se conhece a fundo?
  167. A alma é extensa ou não?
  168. Temos alma (consciência) e nossas dúvidas provam a existência dela. Mas o que é? O filósofo diz que nunca saberemos.
  169. Dizer que a alma não existe porque não podemos conhecê-la de todo é recalque.
  170. Sempre que afirmamos ou negamos o fazemos com base em identidade, relação, existência ou coexistência.
  171. Um objeto pode até ter duas cores e dois odores, mas cada característica precisa ser examinada de cada vez.
  172. Para o filósofo, a moral é uma ciência demonstrativa, baseada em Deus. Se Deus é infinitamente bom, belo, justo, útil e prazeroso, nossas leis e nosso comportamento devem refletir essas qualidades tanto quanto for possível, a fim nos aproximar da divindade. Então, mesmo que bondade, beleza, justiça, utilidade e prazer fossem somente ideias reguladoras, seria possível mostrar que comportamento ou qual lei em dado contexto pode ser a melhor, mais bela, mais justa, mais útil e mais prazerosa.
  173. A moral também tem princípios evidentes, como “onde não há propriedade privada não existe roubo.”
  174. Outra: “nenhum governo permite plena liberdade.”
  175. Uma das razões pelas quais a moral não é considerada ciência demonstrativa pela época é o fato de que ela é principalmente palavra. “Justiça” tem diferentes significados para diferentes pessoas. O que é justo pra um não é para outro.
  176. Distância e tamanho posam como empecilhos ao conhecimento, porque nossos sentidos não são capazes de perceber coisas muito distantes ou muito pequenas. Se estiver longe ou for minúsculo, necessitamos de ampliação (microscópio ou telescópio).
  177. Para o filósofo, ciência (conhecimento seguro) dos corpos e coisas físicas é impossível, porque nossas ideias são imperfeitas, óbvio: nossos sentidos são limitados tanto em número como em qualidade.
  178. Diz o filósofo: não há como saber se existem seres mais perfeitos que os humanos e menos perfeitos que Deus na ordem cósmica. Tomás coloca os anjos aí.
  179. A relação entre corpo e alma nos escapa. Como eventos naturais afetam nossa mente? Como a mente afeta os corpos? Isso não implica que a mente também é material? Se não é material, por que sentimos o que ocorre em nossos corpos?
  180. Investigar certos assuntos é trabalho perdido. Nesse caso, quando reconhecemos que não podemos concluir uma resposta.
  181. Até aqui, quase tudo parece bem. O que não está bom é o fato de que, sendo conhecimento a percepção de que há relação entre ideias, as quais dependem dos sentidos ou da reflexão em última instância, todas as nossas verdades são particulares, porque ninguém percebe diferentes coisas exatamente do mesmo jeito. Existirão, por exemplo, verdades para daltônicos e para pessoas de visão boa, sendo essas verdades mutuamente excludentes entre os dois grupos.
  182. Identificamos verdades pela correspondência entre ideias e não entre palavras. Raciocinar com palavras abstraídas de seus significados, isto é, sem verificar se as ideias representadas pelas palavras realmente correspondem, nos leva às ilusões. É preciso verificar a validade dos argumentos, ver se as palavras ditas realmente correspondem com o as ideias que representam e se as ideias se relacionam como as palavras se relacionam. Um exemplo são as metáforas. Coitado de quem entende uma metáfora de forma literal. Também torcendo o significado de uma palavra, é possível formar silogismos enganosos. Mas não é possível enganar dessa forma quem tem ideias claras sobre a matéria em discussão e sabe que aquela palavra, se pretende significar o que normalmente significa, não deveria ser usada daquela forma.
  183. Usar palavras com significado manipulado é mentir.
  184. A generalização cobre muitos casos particulares, mas não todos. Então, generalizando, precisamos admitir a possibilidade de exceções.
  185. Se dizemos que todo o ouro é amarelo e encontramos algo que tem tudo para ser ouro, exceto sua cor característica, há dois modos de resolver a questão. Pela via material, podemos dizer que é um ouro “excepcional”, uma exceção à regra de que todo o ouro é amarelo. Pela via nominal, podemos dizer que, se todo o ouro é amarelo, aquilo não é ouro e deve ser chamado por outro nome. Isso me lembra uma aula que eu tive de filosofia da ciência.
  186. Como dizer se algo é ouro se não sabemos o que é ouro? Mas como saberemos o que é ouro se não o vimos? Se vimos o ouro, temos que chamá-lo de alguma coisa. Então a coisa vem antes do nome que lha é atribuído. Porém, nosso conceito de ouro pode permanecer o mesmo durante toda a nossa vida? Se sim, tudo aquilo que parece com ouro deve ter um nome próprio, o que poderia se apresentar problemático se aplicamos o mesmo método a tudo o mais. Por isso as generalizações. O limite nominal deve ser estabelecido para evitar que as generalizações cheguem ao absurdo.
  187. “Verdades” teóricas, ainda não comprovadas, não devem ser chamadas de “verdades”. Esse é outro problema da ciência. Enquanto não houver uma prova que eu possa ver e constatar que é assim, e essa prova é sensorial, não passa de mera matemática.
  188. Alguns conhecimentos serão sempre probabilísticos.
  189. Existe um número de afirmações das quais não é possível duvidar. O filósofo as chama axiomas, mas o leigo as chama “coisas óbvias.” “Todo o solteiro é um não-casado.”
  190. Verdades evidentes não são as mesmas verdades que absorvemos por hábito.
  191. As ciências por vezes prescindem das coisas óbvias. Quando uma ciência não se funda em coisas óbvias ou depois as nega, passa a ser suspeita.
  192. Mas uma ciência suspeita não necessariamente está errada. O fato é que elas precisam de provas sensoriais. E de fato, ciências assim avançam mais e mais rápido do que aquelas que apenas repetem o óbvio.
  193. É necessário ir além do óbvio para obter conhecimento novo.
  194. É possível, pela lógica, provar algo que está errado. Isso se chama “mentir de maneira crível”. Mas isso só é possível se você usa palavras com significado distorcido ou faz relações que não existem. É uma lógica falsa, que só faz sentido nas palavras, mas não na realidade.
  195. Quem fala palavras sem saber o que significam, age como papagaio e não como ser humano.
  196. Descartes identificava a prova de sua existência no ato de duvidar, mas o filósofo aponta outra certeza: se eu sinto alguma coisa, estou vivo, porque eu não posso sentir nada se eu não existir. Então, o filósofo aponta como provas de nossa existência a dúvida (já apontada por Descartes) e a sensação. Além do mais, se eu sinto alguma coisa vindo de algum lugar, quer dizer que outra coisa além de mim existe, então o filósofo, por extensão, prova a existência do mundo.
  197. Para o filósofo, a ausência de ideias inatas não inviabiliza o caminho para a prova da existência de Deus.
  198. Se o nada é estéril, é necessário que haja algo de eterno e que sempre esteve lá. Se houvesse um instante em que nada existisse, então nada existiria agora.
  199. É necessário que exista um ser que não foi criado. Um criador que não é criatura. Se só houve criatura criando criaturas, quem criou a primeira criatura? Se não foi ninguém, então não é criatura, mas criador.
  200. Esse criador eterno é, naturalmente, o mais poderoso dos seres.
  201. O conhecimento precisa ser dado por outro ser também capaz de conhecimento. Para o filósofo, é impossível que um ser receba a capacidade de conhecer a partir de um ser que não tem essa mesma capacidade, razão pela qual seres humanos geram humanos tão capazes de conhecimento como seus pais e seres de razão inferior geram seres de razão proporcional a deles. Então, o criador eterno é também mais inteligente que nós. Tomás chega à mesma conclusão por outros meios, constatando que há ordem na natureza, estações periódicas, dia e noite a seu tempo, enfim, uma ordem cósmica, sendo que ordem só pode ser dada por alguém que pensa.
  202. Há outros seres inteligentes no universo. Dizer que só o ser humano é capaz de conhecimento é arrogância.
  203. Se o fato de eu poder conceber um Deus em minha mente fosse uma prova de sua existência, isto é, de que ele colocou essa ideia lá, então os deuses pagãos também existem. Portanto, o argumento ontológico e o argumento das ideias inatas servem para provar qualquer deus. Diga-se de passagem, as cinco provas estipuladas por Tomás também. Na minha modesta opinião, o único a mostrar que a crença no Deus judaico-cristão, pela via racional, é plausível é Pascal, e ele não deu prova definitiva de que Deus existe, mas apenas de que vale a pena crer. Então as cinco provas de Tomás devem ser usadas em conjunto com a aposta de Pascal. Há um Deus, vale a pena crer que é o Deus judaico-cristão.
  204. O filósofo diz que é necessário que exista um ser necessário. Isso é uma citação indireta ao trabalho de Tomás. É engraçado, se não triste, o fato de que os pensadores da Idade Moderna façam tantas alusões à Patrística e à Escolástica sem dizer claramente que o pensamento não é deles e que já foi pensado antes.
  205. Um ser irracional, diz o filósofo, não pode produzir um ser racional. Então o ser necessário é racional. Se não fosse, não haveria seres racionais atualmente. O parecer da ciência é diferente, de que seres com razão superior “acontecem” devido a mutações e, por causa dessas habilidades estranhas que obtiveram por mutação, sobrevivem mais e passam essas características aos descendentes. Então, enquanto que a teologia diz que um ser só pode criar um ser que é inferior, a ciência diz que um ser superior pode advir de um inferior e que seu grau de superioridade é determinado pela sua aptidão à sobrevivência. A filosofia contemporânea, porém, diz que um ser que sobrevive mais tempo não é superior senão segundo um critério subjetivo, e que a seleção natural é “energia desperdiçada em todas as direções”, de forma que alguma coisa desses monstros mutantes tem que sobreviver, implicando que evolução não necessariamente é progresso (afinal, o homem das cavernas era mais inteligente e mais forte que o homem atual, mas pereceu porque seu corpo, sendo muito melhor que o nosso, precisava de mais comida, então o homem moderno prevaleceu sobre algo claramente melhor simplesmente porque sua constituição física é mais econômica). É importante eu colocar isso aqui para mostrar as limitações do argumento e não parecer que estou escrevendo de má-fé.
  206. O filósofo também cita indiretamente a primeira via (do movimento) de Tomás: algo não pode mover sem que algo a mova primeiro. Alguém pode argumentar que seres animados podem mover a si mesmos. Sim, é verdade, mas quem pôs a natureza em movimento? O mundo tem alma? Alguém deu movimento à natureza.
  207. A existência de algo não pode ser provada pela definição dada a esse algo pela minha mente. Se assim o fosse, meus sonhos poderiam ser reais.
  208. Existência deve ser assumida pela via sensual. Para que algo possa ser dado como existente, precisamos de provas empíricas ou demonstrativas disso. Se não é possível provar dessa forma, aquele algo não existe para nós.
  209. Aprendizado não pode se dar em nós mesmos. Todo aprendizado depende de sujeito (quem estuda) e objeto (o que é estudado).
  210. Memórias não nos trazem a mesma dor ou prazer que seus eventos originários.
  211. É possível saber coisas óbvias sem que sejam colocadas em palavras.
  212. A matemática nos permite conhecimento que parece sobre-humano à primeira vista.
  213. Mas as conclusões racionais precisam de validação experimental. Se é matematicamente possível, mas não encontra demonstração prática, não pode ser dado como real, apenas como provável.
  214. Um conhecimento é validado pela sua utilidade. Nosso conhecimento precisa servir para nos aperfeiçoar em algum sentido, seja moral e espiritual, seja material ou econômico. Eu, por exemplo, não escolhi filosofia por uma questão meramente profissional; eu esperava que ela me aperfeiçoasse e refinasse minha conduta.
  215. O que o filósofo chama de “julgamento”, os leigos chamam de “faculdade de chute”. É você achar que algo dará certo ou errado, achar que algo é útil ou inútil, achar que algo é prazeroso ou doloroso, isto é, dar chutes, afirmações gratuitas feitas sobre algo incerto.
  216. Conhecimento difere de julgamento (chute) por dispor de provas ou demonstrações. O conhecimento completa o julgamento e vice-versa.
  217. Entre o chute e o conhecimento está o provável. É uma afirmação que se assenta em provas, sim, mas falíveis. Por isso é provável (tem provas), mas não certeza (porque as provas não são absolutas, mas condicionais, falíveis, suspeitas ou, de alguma outra forma, indignas de plena confiança).
  218. A probabilidade, tal como chute, nos leva a assumir como verdadeiro algo que ainda não sabemos se é ou não verdade. O pior que pode acontecer é eu errar, mas a chance de erros parece pouca.
  219. “Fé” é uma afirmação baseada em probabilidade. Eu tenho provas, as provas não são tão boas, mas são convincentes. Então, se eu faço uma afirmação com base em provas assim, estou as dando crédito, isto é, acreditando.
  220. Usar a probabilidade de maneira justa requer não apenas o reconhecimento de que algo é “provável”, mas verificar também a opinião contrária. Sempre que lidamos com probabilidade, temos que verificar todas as posições, as prováveis e as improváveis, a fim de julgar qual opção é a mais provável e qual é a menos provável, de forma que possamos fazer uma boa escolha.
  221. É preciso admitir que coisas prováveis podem não ser verdade, mesmo que a chance seja baixa.
  222. É preciso também tolerar quem tem opiniões discordantes sobre o mesmo assunto. Se é uma discórdia meramente intelectual, então não há necessidade de insistir com quem não aceita um argumento. Tenha misericórdia dele, em vez de ódio.
  223. Quando encontrar um argumento oposto ao seu, antes de condenar o argumento do outro como errado, verifique se você realmente tem razão. Reveja seus pressupostos.
  224. “Confiança” é acreditar no testemunho de muitas pessoas.
  225. Deve-se desconfiar quando o testemunho, mesmo o de muitas pessoas, contradiz algo que parece evidente ao que julga.
  226. Tudo aquilo que excedeu nossas ideias, sendo que todas elas têm início na percepção, é automaticamente suspeito. Então, quando falamos de algo que não vimos, ouvimos ou sentimos, ou que inferimos por combinação de ideias simples ou abstração, estamos chutando ou lidando com probabilidade. Assim, temos fé e não conhecimento. Não é diferente ter fé num cientista e num padre, o sentimento é o mesmo, pois muitas vezes não entendemos a matéria em questão.
  227. A razão vai além dos sentidos. De fato, o sentidos nos dão a matéria bruta, mas é a razão quem a trabalha. Se interpretamos a realidade pelo que ela nos parece ser, diríamos que o Sol é do tamanho que parece, que o mundo é achatado porque a visão só vai até certo ponto, que só existem frequências sonoras entre doze e 20.000 hertz…
  228. Muitas vezes, a prática de silogismo não é necessária.
  229. A prova disso é que Aristóteles inventou o silogismo como o conhecemos. Se o silogismo fosse extremamente necessário, então todos antes de Aristóteles estavam errados em tudo.
  230. Todos os raciocínios corretos, diz o filósofo, podem ser reduzidos à silogismo. Então é melhor usar o silogismo pra mostrar algo que você já sabe que é verdade, do que usá-lo para, com ele, chegar à verdade.
  231. Por vezes, utilizar silogismos pode até atrapalhar o raciocínio. Portanto, devemos saber quando usá-los.
  232. Para o filósofo, uma das provas do livre-arbítrio é a de que Deus pune os maus. Ora, mas Lutero questiona a presença do Apocalipse de São João em sua Bíblia, um livro do Novo Testamento que é todo sobre isso. Para Lutero, o Apocalipse não é canônico. Lutero provavelmente sabia que a presença na Bíblia de um livro sobre a punição dos maus seria um obstáculo a sua doutrina de justificação pela fé sem as obras, então ele moveu o Apocalipse para o apêndice de sua Bíblia, junto com a Epístola de São Paulo aos Hebreus e a Epístola Católica de São Tiago. Esses livros põem forte ênfase nas obras, mas Lutero diz que têm tanta importância como Tobias ou Judite têm para os católicos: é bom saber, mas não constituem regra de salvação, ou seja, são de cênon secundário. Será que o questionamento do Apocalipse, dos Hebreus e de Tiago não foi feito somente por orgulho?
  233. É mais fácil prosseguir um raciocínio pela via sequencial ascendente em vez do silogismo. No silogismo, partindo de uma proposição geral, mediados por uma proposição particular, chegamos à conclusão. Na sequência ascendente, examinando um caso particular, automaticamente inferimos que, para ele fazer sentido, outra coisa também deve. Me queimei, porque entrei em contato com o calor, porque coloquei a mão no fogo, porque me distraí após acender o fogão, porque eu não prestei atenção quando quis preparar comida, porque eu estava com fome… Ou, para usar o exemplo do livro, “Deus pune os maus, o que só pode ser feito justamente se formos culpados, a qual só pode existir em quem é responsável por seus atos, os quais só podem ser seres livres…” Então, se Deus pretende punir os maus, os seres humanos são livres. Há uma conexão, que é obtida mais rápida do que se trabalhassem com silogismo, diz o filósofo.
  234. Se o silogismo precisa de prova empírica, ele não basta por si.
  235. O silogismo serve também para mentir. Pra não falar que ele conclui errado se qualquer das proposições for falsa.
  236. As proposições precisam de provas, mas as melhores provas são as empíricas e as matemáticas. Então, no final das contas, o silogismo não se basta porque suas proposições nem sempre se bastam.
  237. O silogismo pode até organizar o pensamento que já temos, mas não serve para nos dar conhecimento novo, diz o filósofo.
  238. Embora o conhecimento das coisas gerais traga muita felicidade, ele não é tão útil como o conhecimento das coisas particulares. Então, quando queremos resolver problemas, é estudando o caso particular que encontramos a solução rapidamente. Se procurarmos a solução de um problema particular a partir de meditações sobre aquilo que é mais geral, levaremos mais tempo para resolver o problema. Aristóteles diz que o conhecimento que parte do geral para o particular é mais seguro (é a ciência ou arte), embora não sempre funcione, enquanto que o conhecimento do particular pelo particular (mera experiência) pode até funcionar sempre no caso particular, mas impede que a solução seja aplicada a outros problemas. Então, embora queiramos resolver problemas e problemas são particulares, não podemos fazer ciência sem generalizações. Então, resolvendo particulares pelos particulares, podemos sempre resolver um determinado problema, mas organizando vários particulares segundo regras gerais podemos resolver, na maioria dos casos, vários problemas. A falha disso é que generalizações muito abrangentes se distanciam dos casos particulares. Por isso que a filosofia primeira (a metafísica), sendo a mais geral e a mais interessante, é também a mais inútil das atividades do espírito.
  239. Pra o filósofo, aquilo que sabemos por intuição não precisa ser raciocinado. Isso me parece arriscado.
  240. Mostrar que o outro está errado não necessariamente te afirma como certo. Os dois podem estar errado. Escolher a opção “menos pior” não torna essa opção a correta.
  241. Diz o filósofo que, mesmo por inspiração divina, ninguém pode fazer alguém entender algo acerca do qual não tem ideias. Por isso Dionísio diz que não é possível discursar sobre Deus, porque ele é diferente de tudo o que conhecemos. Então, por essa incompatibilidade, Deus está totalmente fora do alcance do intelecto. Agostinho também diz algo interessante sobre isso: Moisés, ao receber a revelação de como se deu a criação, pode ter visto várias coisas que nunca havia visto mas, pressionado a escrever, teve que usar palavras aproximadas ao que viu, para que os leitores pudessem entender. Então, a criação descrita por Moisés pode muito bem ser metafórica, porque Moisés não tinha palavras para descrever o que viu. Ezequiel, ao usar termos como “era como que” ou “pareciam com” está usando aproximações para descrever sua revelação. Então, não confundamos “parece” com “é”. Se não fizessem essas comparações e aproximações, seus textos seriam ininteligíveis.
  242. A revelação não discorda, diz o filósofo, daquilo que a reta razão pode descobrir. De fato, ela pode falar de coisas que excedam a razão, mas não contradiz a reta razão quando discursa sobre aquilo que a razão pode apontar.
  243. A revelação, diz o filósofo, não pode ser admitida se contradiz aquilo que a razão apreende intuitivamente. Por isso que os profetas também faziam milagres, porque Deus sabia que o povo não acreditaria numa mensagem tão distante do senso comum se os profetas não operassem sinais para provar que a providência divina estava com os profetas. Então, se alguém afirma que Deus falou com ele dizendo que a ressurreição é possível, verifique se ele ressuscita depois que morrer. Foi o que aconteceu no caso de Jesus. Ele veio mostrar que a ressurreição é possível e fez isso morrendo e ressuscitando por meio da providência. Se isso fosse feito diante dos olhos de alguém, essa pessoa não poderia negar o que viu.
  244. Se o terreno da razão e o da fé não forem delimitados, diz o filósofo, então qualquer proposição, afirmando ter a ver com fé, não pode ser racionalmente contradita. Isso fomenta o fanatismo religioso e o extremismo.
  245. Só é possível errar em probabilidade ou chute. Porque o conhecimento, na medida em que é absoluto, nunca erra. Então não é possível errar pela reta razão, diz o filósofo.
  246. Para o filósofo, existem quatro fontes de erros: provas insuficientes, inabilidade para interpretação da prova, ignorância deliberada, critério de probabilidade suspeito.
  247. Se há interesse em saber a verdade sobre algo, a oposição deve ser ouvida.
  248. Ignorância deliberada frequentemente tem origem na preguiça.
  249. É possível errar nas probabilidades porque algumas pessoas simplesmente, diante de opiniões discordantes, em vez de ficarem com a mais provável, automaticamente assumem que não há resposta certa.
  250. Uma verdade não contradiz a outra, mas princípios por vezes o fazem e também as autoridades por vezes o fazem.
  251. A persistência no engano pode ser ocasionada por orgulho ou medo da vergonha.
  252. Mesmo que a Bíblia seja verdade, ainda é um texto. Textos são passíveis de múltiplas interpretações.
  253. Para o filósofo, é exagero dizer que a maioria está sempre errada.
  254. Para o filósofo, as ciências devem ser divididas em três grupos: física, moral e lógica. Elas são quase equivalentes à nossa divisão atual em ciências naturais, humanidades e ciências exatas. A diferença é que a linguagem está na lógica. Então, para que a divisão atual e a do filósofo fossem idênticas, língua portuguesa e matemática deveriam ser matérias de mesma classe, com todo o resto sendo ciência natural ou humana.

9 de julho de 2016

Igreja não é fundamental.

Filed under: Saúde e bem-estar — Tags:, — Yure @ 11:50

Eu tenho um amigo que é um adolescente autista. Inclusive, foi ele quem me levou a abandonar minha leitura bíblica que eu estava fazendo na época, para recomeçá-la fazendo um fichamento. Ele me conta que tem tentado participar dos cultos que sua família participa. Pelo que ele me contou, ele participa de cultos neopentecostais. Dá pra ver por que isso é um tormento pro coitado do menino.

Ele detesta barulho e detesta caos. Mas cultos neopetencostais frequentemente se afiguram como ambas as coisas pra ele. As pessoas gritam, choram, caem moles no chão, é o fogo caindo do céu. Essas coisas o perturbam grandemente. Além disso, ele atende às aulas dadas pelos mestres da igreja à qual ele atende e, como é de se esperar, esses mestres não ensinam outra coisa senão a paranoia, o medo e o sentimento de dependência ao ensinamento vazio que cataliza os dízimos.

“Você não é cristão de verdade se não dançar e cantar durante a adoração.” Como eu disse, ele é autista. Não é fácil pra ele fazer essas coisas. Além do mais, a dança e o canto não são nenhuma garantia de salvação (Mateus 19: 16-19 / Lucas 18: 18-20). Eu aconselhei pra ele o seguinte: igreja não é tudo igual, procure alguma que você gosta e, se nenhuma aparecer, não vá de jeito nenhum. Eu sou da opinião de que igreja não é fundamental e que você parece ter mais chances de se salvar esquecendo que esses ensinos particulares existem. Mas sou só mais uma voz nesta mixórdia de credos.

O fato é que esses cultos estão fazendo mal a ele, quando ele tem intenções sinceras de ser cristão. Isso nos leva a pensar: se Deus é pra todos, porque ele, que não escolheu ser autista, tem dificuldade em se aproximar dele? Algo está errado aí. Mas eu preferi não entrar em detalhes pra não confundir a cabeça dele. Só dei esse conselho e disse que ele não precisa aceitar tudo o que o ensinam como correto. Que ele tivesse bom senso. E isso ele parece ter mais que os pais e irmãs dele.

5 de julho de 2016

Os grupos de estudo.

Filed under: Organizações — Tags:, , — Yure @ 15:37

O grupo de estudos em Walter Benjamin é tão besta que estou sinceramente desmotivado. Acontece que Benjamin é um pensador tão distante do que estou acostumado que eu tenho mais chances de entender toda a Metafísica ou a Suma Contra os Gentios do que o Narrador. Ele não se expressa de maneira clara, pontual, não vai direto ao ponto e isso quer dizer muita coisa quando você lê, como agora, uma comparação entre ele e autores de linha aristotélica da pesada. O problema de Benjamin é não fazer questão de ser entendido, ou é o que parece, de forma que estou empurrando as atividades desse grupo com minha pança, a qual nem tenho. Pegue o Experiência e Pobreza ou o Narrador e você se divertirá com uma historinha legal e um estilo romântico de escrita que é belíssimo, mas a única coisa de filosófica que ele diz nesses dois textos é simplesmente algo com que discordo de pés bem juntos e dedo levantado: a experiência acabou, a arte de narrar definha. Faz todo o sentido que ele pense assim na Alemanha do século vinte, porque ele nunca viveu aqui, no país onde as pessoas contam histórias pelos cotovelos e se dão conselhos mutuamente mesmo quando ninguém pede conselho a elas (pois uma das formas de partilhar e adquirir experiência, em sentido de moral formativa, é pela via do conselho). Mas claro que os garanhões universitários doutrinados em Benjamin não tolerariam um disacordo com alguém de baixa classe como um aluno da graduação.

O grupo de Sartre não acontece. Só atendi a uma das duas reuniões que ocorreram desde abril. Isso é escusável: a orientadora do grupo é vice-coordenadora, então ela é mesmo muito ocupada. Eu não exijo que ela apareça, mas gosto de ir assim mesmo para que ela veja que eu tenho interesse.

O grupo de Agostinho é uma disciplina; não somos requiridos a fazer nada além de ler o texto. Diferente dos outros grupos de estudo, em que somos requisitados a fazer algum texto, artigo, fichamento, sei lá, o grupo de Agostinho não nos exige nada além da leitura. O problema é que estamos lendo as Confissões, as quais eu já li e fichei. Eu poderia entregar meu fichamento pra ele quando ele pedisse alguma coisa.

Por causa da greve, não estou indo a aula nenhuma, pois ninguém está dando aula. Para não ficar sem fazer nada, pois preciso de atividades complementares, estou fazendo um curso pela Internet. É sobre direito da infância e da juventude. O advogado me mostrou e resolvi fazer, já que vale vinte horas. Acabando esse, farei outro e mais outro. Ou poderia até fazer três concomitantemente e acabar logo com sessenta horas ao fim de julho. Isso supriria a falta que fazem os grupos de estudo, cada um valendo quinze horas. O que eu não posso é gastar dez reais por dia pra aprender nada.

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