Pedra, Papel e Tesoura.

22 de janeiro de 2017

Anotações sobre a crítica da razão prática.

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  1. Se não existir liberdade, não há necessidade de leis; nada é nossa culpa.
  2. Quem tem conhecimento, quer partilhá-lo.
  3. Quem não quer partilhar conhecimento, pode muito bem não tê-lo.
  4. O salto de dificuldade entre este livro e o que eu estava lendo antes é absurdo. É difícil entender qualquer coisa neste livro. Tem um ditado na faculdade que diz: “o aluno da graduação que lê a obra de Kant e não tem dificuldade, não está entendendo.” Tem muito jargão, os quais conheço, usados de forma que me são inusitadas. A construção das frases é intrincada e cansativa. Mas tenho que permanecer determinado.
  5. O conceito de liberdade é importante para empiristas e também moralistas.
  6. A Fundamentação da Metafísica dos Costumes é pressuposta. Kant acha que seria melhor esse livro antes.
  7. Espero que a linguagem fique um pouco mais simples depois do prólogo… Por enquanto, ele ainda não está raciocinando. Quando ele começar, ou ficará mais fácil… ou muito mais difícil…
  8. Não se deve inventar palavras novas se a velhas servem. É infantil que alguns filósofos inventem termos novos só pra aparecer, quando não há necessidade disso. Prejudica o entendimento de quem lê.
  9. Não é possível provar, pela razão, que a razão não existe.
  10. A matemática mostra que a matéria pode ser infinitamente dividida. Mas empiricamente, isso não é possível. A razão se contradiz, então, porque chega a diferentes conclusões com meios diferentes. É preciso escolher um. Mas qual?
  11. David não era cético, diz Kant.
  12. A diferença entre uma máxima e uma lei é que a máxima é um princípio prático que pode muito bem ser válido só pra mim. É uma regra do meu comportamento. A lei é um princípio prático que é ou deve ser universalizado.
  13. Uma regra prática é racional: visa um fim, delineia meios, visiona efeitos.
  14. “Imperativo” é uma regra prática que visa um dever-ser. Eu devo fazer isto para obter este objetivo.
  15. O imperativo é sempre objetivo.
  16. O imperativo hipotético é o que só vale enquanto eu tenho meios de obter o objetivo particular visado. O imperativo categórico é o que continua valendo quer eu tenha ou não forças de chegar a um objetivo não-particular.
  17. O imperativo categórico é praticamente exato, isto é, uma ação prática que sempre levará a um resultado bom. O hipotético é relativo.
  18. O imperativo hipotético é admissível se eu quiser. Já o categórico me obriga. Eu seria burro se não fizesse algo que sei ser sempre bom.
  19. Os princípios práticos, máximas, visam a felicidade pessoal.
  20. Para Kant, felicidade é levar uma vida agradável. Você é feliz se gosta da sua vida.
  21. Existem prazeres que são “delicados”, como os prazeres intelectuais.
  22. A obrigação do filósofo é ser consequente. Muitos não são. Muitos não foram.
  23. A razão é uma faculdade superior de desejar. É possível desejar sem paixão, quando tomamos o caminho razoável, mesmo que desejemos com paixão o contrário. A razão quer uma coisa, a paixão quer outra. Uma das duas é superior, sempre que se contradizem. A razão tem preferência, caso a conciliação não seja possível.
  24. Há um princípio que determina todos os nossos julgamentos: a felicidade. Sempre fazemos algo a fim de fruir da felicidade, a melhor e mais intensa, a mais duradoura felicidade. Mesmo os que se suicidam o fazem porque querem se afastar da dor que é o oposto da felicidade. Mas quando você se afasta do oposto, vai na direção do posto.
  25. Todos os seres finitos, mas racionais, almejam felicidade. É o único desejo comum a todos.
  26. A felicidade é o contentamento com sua situação. Porque isso varia, a felicidade de um pode não servir a outro.
  27. A felicidade baseia a relação entre objeto e desejo. Mas ela não determina nada precisamente. É um objetivo cujo caminho pode ser escolhido ao engano. Nós podemos fazer algo pensando que nos trará felicidade (desejamos um objeto com base na felicidade), mas esse objetivo não nos diz que ele pode ser alcançado por meio do objeto desejado.
  28. Não posso tornar meios subjetivos de ser feliz um tipo de lei. Mas será que é possível fazer o caminho contrário? É possível ser feliz pela observância das leis?
  29. O amor-próprio não pode ser lei. Ele varia de pessoa pra pessoa. Só pode ser lei aquilo que todos podem (ou pelo menos a maioria pode) fazer da mesma forma.
  30. Meu comportamento particular não deve ser universalizado. Eu não posso esperar que todos ajam exatamente como eu.
  31. A marca do imperativo categórico é sua universalidade. Se eu quero fazer alguma coisa e raciocino que o mundo seria um lugar melhor, isto é, que todos poderiam ser mais felizes se fizessem o que estou pra fazer, se a ordem do mundo mudasse pra melhor, eu sou obrigado a fazer, por uma questão moral. Isso é falho, porém. O conceito de “mundo melhor” varia tanto quanto os meios de se obter a felicidade. Mesmo que não seja perfeito esse “agir como se todos tivessem que seguir meu exemplo”, é, sim, possível viver dessa forma. Eu vivia assim na adolescência, quando eu entrei em contato com Kant através de um livro de introdução à filosofia. Era tranquilo, mas também porque nunca fui provado com uma escolha difícil. Numa escolha difícil, é simples anestesiar a consciência examinando a universalização de comportamento por diversos ângulos até achar um que agrade, eu sabia disso aos catorze. Eu queria ser mais claro, mas parece que a complexidade da linguagem do livro é contagiosa.
  32. Não é possível que todas as pessoas queiram a mesma coisa da mesma forma.
  33. Uma vontade é livre quando só tem que prestar contas a si mesma. Ela faz leis de suas próprias máximas.
  34. As leis da natureza, sua mecânica, são o oposto da liberdade. Dizem que estamos no meio dos dois: da liberdade humana e da determinação natural.
  35. Sob o devido estímulo, uma pulsão pode ser resistida. Se eu cedo à vontade de urinar sempre que vejo uma árvore, será que isso torna a vontade irresistível? Se tivesse uma multidão enfurecida perto da árvore, eu resistiria, certo? Ou, pelo menos, empreenderia esforço. Então, por razões práticas, não se pode admitir um crime cometido por impulso com alegação de que não foi possível resistir, mesmo que realmente seja irresistível. Claro que isso só funcionaria com raridades. Certos comportamentos são mesmo irresistíveis ou muito difíceis de resistir, constituindo uma injustiça proibi-los ou puni-los severamente, notavelmente os que entram na lei natural.
  36. Para Kant, não é errado morrer pra fazer a coisa certa.
  37. Para Kant, devemos sempre agir como se os outros fossem nos imitar. Não é simplesmente dar bom exemplo, mas zelar por um futuro mais livre ou ordenado. Se eu reconheço que o mundo seria melhor se todos adotassem certo comportamento, não é minha obrigação adotá-lo de imediato, eu, que faço parte do mundo?
  38. A vontade humana pode ser pura, mas não é santa. Podemos inventar preceitos de vida particular, máximas, que são imorais. Por exemplo, as pessoas que fazem da vingança sua moral de vida. Agem moralmente para si, pois vêem nisso um valor, mas agem de forma imoral para os outros.
  39. O que sustenta as leis é a autonomia da vontade. Supõe-se que sou senhor dos meus atos. Portanto, um crime foi cometido de caso pensado. Para isso, não há desculpa diante dos humanos.
  40. Se eu levo em conta a felicidade dos outros em minhas máximas, elas têm grau maior de universalidade. Eu posso fazer isto, desde que não prejudique ninguém.
  41. Se é sempre lícito fazer qualquer coisa mesmo às custas dos outros, desde que haja vantagem para quem faz, então as pessoas prejudicadas deveriam se conformar. Isso não acontece. É porque não é justo. É errado.
  42. Prudência é ato de conservação de si, para Kant.
  43. A máxima da prudência é conselho. A lei moral é ordem.
  44. A obediência à lei vem antes da felicidade, diz Kant. Assim, a ética deixa de ter como objeto a vida feliz e passa a ter como objeto a vida justa.
  45. Eu não posso ordenar que o outro tenha aquilo que eu mesmo não tenho. “Seja feliz”: como vou dizer isso quando eu mesmo não consigo ser?
  46. Não podemos fazer tudo o que queremos. A satisfação do desejo muitas vezes está fora do nosso alcance.
  47. É possível se sentir culpado por ter extraído benefício de uma ação imoral e desaprovar sua própria conduta. Isso, para Kant, mostra que o agir justo e a felicidade são coisas diferentes. Para ele, a justiça deve vir antes de nossa felicidade. Se a felicidade pessoal envolve uma ação injusta, ele diz que devemos sacrificar nossa felicidade à justiça. O problema disso é o seguinte: se todos queremos a felicidade, não iríamos inventar a justiça humana se esta trabalhasse contra aquela. Donde decorre que Kant não está falando da felicidade do todo ou da maioria (que firmam o pacto social), mas da felicidade particular: tem sempre alguém insatisfeito com as leis, mas nunca todos ao mesmo tempo. Com efeito, se isso acontecesse, a lei seria suspensa.
  48. Um castigo injusto não é castigo, é abuso.
  49. O castigo não é o mal. Dizer que o crime do castigado foi ter atraído o castigo pra si é absurdo. O castigo não é o principal, é só consequência. O crime dele foi o que o levou a ser castigado. Se você assume que o crime é receber castigo, está afirmando que cometer delitos só é uma ação errada se você for pego.
  50. O criminoso que se atormenta com a culpa dos crimes cometidos é moralmente bom. Ele não está cometendo crimes de bom grado, mas talvez por necessidade. O problema é que muitos criminosos não sentem nenhum peso na consciência pelos crimes que cometem, mesmo quando são feitos por motivo fútil. Na verdade, alguns estão até orgulhosos do fato, a ponto de tornar o crime público.
  51. Da mesma forma, o que comete atos virtuosos sem se sentir embaraçado ou envergonhado é também moralmente bom, pois não se incomoda em fazer o bem mesmo quando sabe que pode lhe resultar em prejuízo material, moral ou de alguma natureza qualquer.
  52. Um bom jeito de se sentir culpado com um crime é pensando nas consequências de cometê-lo, diz Kant. O fato é que isso não funciona muito bem hoje. Quando um criminoso comete um delito, mesmo que de moderada gravidade, pode pensar “sou um caso isolado que não faz diferença”. Não passa pela cabeça dele que esse comportamento seria prejudicial se praticado em larga escala, especialmente porque a lei impede o delito em larga escala. Enquanto ele se ver como um caso isolado ou parte de uma minoria inexpressiva, não sentirá culpa pensando nas consequências.
  53. Quando a minha vontade é determinada por motivos sensíveis, esse motivo é subjetivo. Com efeito, os sentidos variam de pessoa à pessoa. Então, o que eu vejo, ouço ou sinto pode não ser o que você vê, ouve ou sente. Mas, se a minha vontade é determinada por motivos racionais, esse motivo é objetivo. Isso porque, se levado pelo mesmo raciocínio que eu, qualquer um chega à mesma conclusão. Não é uma questão pessoal, mas de lógica.
  54. Segundo a doutrina do imperativo categórico, o suicídio é imoral: se todos se suicidassem, a humanidade deixaria de existir. Isso não pode ser bom pra nós.
  55. Para Kant, a prova de que somos livres é a lei moral. Se alguém diz “não faça isso”, eu posso desobedecer. Então, se eu posso desobedecer ou obedecer dependendo do meu julgamento, sou livre em alguma coisa. Não somos totalmente livres, mas livres sem dúvida.
  56. Causa e efeito são coisas diferentes. Se eu reconheço que a planta cresce, devo supor que ela cresce por uma causa que não é ela.
  57. O empirismo de David argumenta que a causalidade, relação de causa e efeito, é um hábito mental. De tanto ver objetos caindo quando os soltamos, pensamos que há relação entre soltar um objeto e ele cair. Esse hábito é seguro, mas pode ser que, um dia, eu solte um objeto e ele não caia. David não é nenhum idiota que anda pelo fogo várias vezes porque entende que em uma dessas vezes o fogo pode não queimá-lo, porque o hábito é seguro, mas uma informação segura não precisa, por isso, ser universalmente válida e nem eterna. Esteja preparado pra o dia em que o sol não nascer.
  58. Embora esse ceticismo empirista não se extenda à matemática, ele engloba todo o tipo de lei da ciência que se fundamenta em fenômenos. As leis da física, por exemplo, podem um dia ser violadas ou invalidadas por exceções, por exemplo. Existirá casos em que a regra estará errada. Não há regra, nem mesmo uma lei da ciência, capaz de prever todas as exceções.
  59. Isso não quer dizer que não seja possível qualquer tipo de verdade, só que as verdades de fenômeno podem encontrar exceções ou mudar. É lógico que havendo chuva, eu me molharei se ficar sob a nuvem. Mas não há garantia de que sempre choverá (chuva é fenômeno). Então, as verdades puramente lógicas, como “o triângulo é um polígono de três lados” persistem, mas, na medida em que elas se apoiam em fenômenos, como “precisarei ir ao banheiro depois de beber um litro d’água”, dependem da veracidade dos fenômenos e de sua regularidade. O edifício é sólido, é o alicerce, que é a relação de causa e efeito, que muitas vezes é frágil.
  60. Os mais céticos são os intelectuais. Estranho, à primeira vista, que se tenha menos certezas quanto mais se sabe.
  61. Para Kant, a relação de causa e efeito não é absoluta. Ela existe, mas dentro de um ponto de vista experimental. Ela é uma ligação entre fenômenos, não necessariamente entre coisas-em-si, relativa ao ponto de vista da experiência que estou executando.
  62. É um absurdo usar um conceito nulo. Fale palavras que significam alguma coisa quando raciocinar.
  63. Porém, se um conceito nulo obtém desdobramentos práticos, então ele não é totalmente nulo, mas apenas se refere a um objeto indeterminado. Afinal, ele tem conteúdo prático.
  64. A razão pura prática tem seus objetos. Os objetos da razão pura prática são os efeitos da liberdade. Quando esses efeitos são representados em conceitos, temos os conceitos com os quais ela trabalha.
  65. Nossas escolhas de bem e de mal são regidas pela razão. Queremos o bem e nos afastamos do mal. O fato dessas escolhas serem racionais se vê pela sua imperfeição, pois a razão humana é imperfeita. Muitos identificam o bem em coisas más ou o mal em coisas boas.
  66. Bem e mal são conceitos racionais. Se o julgamento de bom ou ruim está somente nos sentidos, estamos confundindo “bom” com “agradável”. É como o meu sobrinho que diz “refrigerante é bom”. Eu tenho que corrigi-lo, dizendo: “não é bom, só gostoso.” Para Platão, o “acorde da justiça” é feito das notas “bondade, beleza e utilidade”. Prefiro pensar que a bondade é combinação de beleza, utilidade e justiça. Um ato bom é belo, útil e justo. Refrigerante é só “belo”, no sentido de agradável aos sentidos, mas não é útil; pelo contrário: faz mal. Acho que não é injusto tomar refrigerante, mas ainda assim, se faz mal, não é bom.
  67. A ambiguidade de um idioma prejudica a filosofia feita naquele idioma, mesmo quando traduzido. Parte da incompreensibilidade da filosofia escolástica vem de palavras latinas de significado muito abrangente. São vagas demais.
  68. Há diferença entre ser e estar. O valor da pessoa vem do seu caráter menos mutável. Seu valor não é denegrido por sua condição transitória.
  69. É possível receber um bem doloroso. É também opinião de Epicuro: a dor que resulta em benefício é boa. Além do mais, a beleza (prazer) de suportar um ato doloroso poderá vir depois.
  70. A inclinação de procurar o prazer e se afastar da dor não pode virar lei, porque cada um procura o prazer e foge da dor à sua maneira. Isso não quer dizer que é errado, mas que é pessoal.
  71. “[…] contradiz todas as regras fundamentais do método filosófico […].” O que é método filosófico? Que regras são essas, exatamente?
  72. Não se pode tomar como resolvido algo que ainda não foi debatido de forma conclusiva. Então, o Novo Ensino Médio não deve ser forçado por medida provisória, porque o debate sobre ele ainda não acabou.
  73. Para Kant, a existência da lei prova a existência do bem e condiciona que bem é esse que está sendo buscado. Eu concordo em parte: a existência da lei prova a existência do bem, pois as leis buscam o bem. Mas o bem é pressuposto da lei. A lei não condiciona o bem, mas o contrário. Levando em consideração que outros pensadores sugerem que a lei vem depois do crime, isto é, elas são feitas para barrar maus comportamentos depois que se manifestam (não existe leis na China contra o sexo forçado entre homens simplesmente porque isso nunca foi denunciado, embora existam leis contra estupro e abuso de menores), esse bem provavelmente é a ordem social visada pelo contrato.
  74. Algumas pessoas falam do que não entendem ocultando sua ignorância atrás de palavras ambíguas. Só parecem que sabem.
  75. Ler este livro, pra mim, é quase infrutífero. É muito difícil compreender.
  76. Não queira para os outros o que você não iria querer pra si. Não recomende o suicídio se você não se suicidaria.
  77. O empirismo frequentemente desconsidera a moral.
  78. A lei moral trabalha contra a presunção.
  79. Ele é muito rígido. Parece dar a entender que a lei sempre trabalha contra nossas inclinações, mesmo as inócuas, como se a vida moral fosse se frustrar constantemente.
  80. Para Kant, quebrar as leis é sempre presunção. Se ela trabalha contra o amor próprio, é desejável que nos rebaixemos às leis. Porque ele não vive no Brasil hoje. E eu pensando que Rousseau era conformista.
  81. Só é possível respeitar pessoas, não coisas. Quando dizemos que “respeitamos as coisas dos outros”, na verdade estamos respeitando esses outros, não interferindo em sua propriedade.
  82. Não confunda respeito com admiração.
  83. Respeito é reconhecer alguém como superior a você, diz Kant, ao menos em integridade. Hobbes dirá algo parecido no seu comentário ao Quinto Mandamento, pois ele diz que eu estou desonrando meus pais se não os obedeço, se honrar (respeitar) for reconhecê-los como melhores. Então, desobedecer é dizer que você pode fazer um melhor trabalho sozinho e que os pais estão errados em lhe dar ordens. Ouvir isso de um filho é uma desonra. Se ele não for emancipado dos pais, é, sim, desrespeito àqueles que o sustentam supor-se de mais valor que esses que o sustentam.
  84. Esse reconhecimento de superioridade é marcado por sincera reverência (“curvar o espírito”).
  85. É possível respeitar alguém e não demonstrar isso.
  86. Para Kant, o respeito não é um sentimento prazeroso. Será que ele não está confundindo respeito e inveja?
  87. Oh, sim, ele está: “Tratamos com afinco de encontrar […] um defeito qualquer no exemplo que nos deixa humilhados, buscando uma compensação […].” Isso não é respeito, mas inveja, recalque.
  88. Para Kant, o respeito à lei é o único objetivo moral. Mas, se o respeito é doloroso, o objetivo moral, para Kant, é a dolorosa submissão às custas da felicidade pessoal. Isso é um absurdo. Eu espero que eu tenha entendido isso errado.
  89. Máximas e interesses são próprios de seres finitos, diz Kant.
  90. A submissão voluntária à lei implica violência feita às inclinações do subjugado. Isso é contraditório. Ou é voluntário ou é violento. Não posso sofrer violência voluntária, mesmo quando essa violência é consequência necessária e indesejada do que escolhi. Se escolhi, ou seja, se fiz voluntariamente, então eu aceito o que quer que a lei venha a fazer sobre mim ou minhas inclinações. Então nada do que ela pode fazer, mesmo se eu quebrá-la e receber punição, pode ser chamado de violento, porque eu escolhi. Violência é justamente algo que se sofre contra a vontade, à força, um conceito que exclui ação voluntária, ao menos do receptor.
  91. Para Kant, o agir moral é o que é feito de acordo com o dever. Todos temos o dever de obedecer às leis, então agir dentro das leis é “moral”, para Kant. Mas a minha pergunta é: sempre? Se eu obedeço a uma lei injusta, minha ação é moral? Para Kant, sim.
  92. É possível fazer o bem sem leis. Mas usar isso como desculpa para infringir as leis é orgulho, diz Kant.
  93. Para Kant, a regra de Lucas 10:27 não é literal. Para ele, não é possível amar um ser (Deus) que não se pode sentir e não é possível amar outra pessoa por causa de um mandamento. Mas é possível amar Deus se cremos que tudo é sua obra. Mesmo que não o sintamos, sentimos sua criação e sua criação nos é boa. Como não amar quem nos faz bem, mesmo que lá da transcendência? A ordem para amar é o impulso para a construção do amor verdadeiro, se for devidamente cultivado quando se mostrar. Além do mais, esse amor não tem um sentido vago, mas específico: “como a ti mesmo”. Quer dizer que eu tenho que fazer ao outro o que eu gostaria que me fosse feito se eu estivesse em sua situação, e não fazer a ele o que eu não aceitaria que fosse feito a mim, também relativo à sua situação. São demonstrações de amor, mesmo que de um amor em potência, pois isso aproximará os dois indivíduos. Se os dois chegarem a ser pelo menos amigos, já há amor, pois amizade é um tipo de amor, se tomamos amor no sentido platônico de sentimento de aproximação dos diferentes sem negar suas diferenças, visando prazer obtido na companhia e bem-estar do próximo.
  94. Kant conclui que amar a Deus ou ao próximo quer dizer cumprir os deveres relativos a um e ao outro. O problema é que isso põe os dois amores em relação de igualdade, o que contradiz o enunciado bíblico que coloca esses amores como diferentes. Além disso, ele chama de amor prático o cumprimento “com satisfação” desses deveres. Mas a satisfação de cumprir um dever também não pode ser ordenada, se quisermos ser consequentes com sua observação sobre o amor ordenado, porque eu não posso me obrigar a ficar satisfeito, tanto como eu não posso me obrigar a amar (posso tentar amar, mas nem sempre dá certo, então seria inútil transformar isso numa obrigação). Ele se contradiz em sua conclusão, então. Ou se admite que o amor é outra coisa que não é a simples honra “com satisfação” aos compromissos ou então se tira esse “com satisfação” do texto, transformando amor em cumprimento de obrigação.
  95. A definição de “amor a Deus” dada por Kant é mais um meio de prevenir o fanatismo religioso. Só que não dá certo: o fanático, no auge de sua doença, pode ainda pensar que Deus lhe dá um mandamento novo de matar todo o mundo. Se amar a Deus é tão-somente obedecer seus mandamentos, então ele, munido de Kant, irá (tentar) matar todo o mundo. É preciso adicionar aí a razão ou, pelo menos, um critério pra saber quando é Deus que se comunica conosco e não outro ser. Hobbes menciona a Primeira Epístola Católica de São João pra saber se a voz é de Deus (ou representante) ou de outro ser, mas Kant parece não ter pensado nisso o bastante. O fato é que seu argumento é sem efeito contra o fanatismo.
  96. Há duas ações segundo a lei: obedecendo à letra (agindo conforme manda a lei) e obedecendo ao espírito por trás da letra (cumprindo o escopo da lei por outros meios que não os especificados pela letra da lei). Um é o ato e o outro é a intenção. O agir perfeito segundo a lei implica os dois.
  97. Para Kant, uma boa ação não é digna de louvor se ela foi feita por inclinação emotiva. Ela só seria digna disso, pra ele, se essa boa ação fosse feita por dever. Não vejo como fazer sua obrigação possa ser mais digno de louvor do que fazer espontaneamente, mesmo quando não se tem nada a ver com o negócio.
  98. Fazer a obrigação é exemplo a ser seguido. Mas boas ações espontâneas (feitas, por exemplo, por amor, paixão, amizade, entre outros) devem passar em branco, diz Kant.
  99. Isso é porque, ele diz, as boas ações louváveis sempre envolvem ir contra nossas inclinações. Logo, Madre Teresa, que fazia boas ações porque sentia prazer em fazê-las, não merece ser lembrada, no conceito de Kant, porque tinha inclinação aos atos que praticava. Alguém pode argumentar que Madre Teresa sentia que tinha o dever de fazer o que fazia, mas Kant diria que não: se há prazer, não é feito por dever, porque dever é penoso. Espero que a Crítica da Razão Pura seja mais interessante.
  100. Para Kant, usar outra base fora as leis para nos impulsionar à ação é violar os “limites da razão prática”. Muito estranho pra alguém que fala tanto de liberdade.
  101. A natureza é meio. O ser humano é fim.
  102. Se empregamos um humano como meio, devemos pensá-lo também como fim, nunca só como meio. Em outras palavras, numa situação em que muitas pessoas trabalham juntas, todas devem tirar benefício.
  103. É a primeira vez que penso em desistir de ler um livro de filosofia. Mas tenho que permanecer determinado.
  104. A Crítica da Razão Prática é o oposto polar da Ética.
  105. O dever não tem nada a ver com o gozo da vida. Pra quê fizeram leis então?
  106. Kant limita um pouco as coisas agora: não é que eu deva me opor à felicidade, é só que eu devo preferir o dever à felicidade sempre que eu tiver que escolher entre os dois. Alguma coisa de saudável em um pensamento logicamente torcido.
  107. Quanto mais felizes estamos, menos queremos quebrar as leis, diz Kant. Mas e quanto aos que derivam sua felicidade do crime organizado? As pessoas que adquirem sua felicidade cometendo crimes (possibilidade implícita em Aristóteles, quando ele diz que é feliz estar com posse do que se ama) não os deixam de cometer ao alcançarem a felicidade.
  108. Para Kant, mesmo que eu seja absolvido de um crime que eu cometi, a culpa por tê-lo cometido pode me levar a assumi-lo. Mas e quando até o advogado de defesa não sente nenhum peso na consciência ao deliberadamente soltar alguém que sabe ser culpado? A função do advogado é defender uma pena justa ao cliente. O advogado só pode tentar “soltá-lo” se ele entender que o cliente não é culpado. Mas o advogado íntegro, se souber que o cliente é mesmo culpado, não se preocupará em soltá-lo, mas só em garantir que ele não receba uma pena maior do que ele merece. O problema é que hoje tem muitos clientes e advogados que não têm muita consciência sobre a qual se possa aplicar qualquer peso.
  109. Acabo de descobrir que teologia não tem nada a ver com religião.
  110. Se você encontra um problema no seu raciocínio, admita-o. Tente resolvê-lo, mas, se não conseguir, o mostre pelo menos. Quem sabe outro, no futuro, o resolva. Os problemas precisam ser expostos para serem consertados.
  111. Será que ele não está só juntando um bocado de jargão pra ver quem pensa que ele está falando sério?
  112. Não é possível conhecer a coisa em si, mas somente a coisa como me parece ser. Trabalhamos sobre fenômenos que podem ou não representar as coisas como são, diz Kant.
  113. O título de “filósofo” só pode ser usado por quem ama a sabedoria, mas a marca desse amor, diz Kant, é o domínio de si mesmo e o interesse em dar seus conhecimentos ao público. Não basta saber, é preciso divulgar e viver segundo o ensino pregado.
  114. O que é o sumo bem? É o bem perfeito (terminado) ou o bem supremo?
  115. Algo é lógico por identidade, algo é real por causalidade. Então, é possível fazer sentido e estar enganado. É uma mentira crível.
  116. Para Kant, não há relação entre virtude e felicidade, em polêmica com Ari.
  117. Para os seguidores de Epicuro, “virtude” era a prudência, a forma de conseguir a felicidade. Para os estóicos, “felicidade” era a consciência de ser virtuoso.
  118. Empregar a razão de forma errada é tão válido quanto não tê-la, diz Kant. Eu digo que é pior que não tê-la.
  119. Todos os interesses são práticos em última análise.
  120. O deus de Kant não é, nem de longe, o Deus bíblico. A filosofia especulativa como sucessora do deísmo não começa com Hegel, mas aqui, em Kant.
  121. A fé pode assentar-se na razão.
  122. Para Kant, todas as leis devem ser encaradas como mandamentos divinos, como se a vontade divina se manifestasse por meio das leis humanas. Essa religião com fundamento racional que Kant chama de cristã está em oposição a Isaías 10:1-2. A revelação diz que existem pessoas que promulgam leis injustas e que estas serão punidas por Deus por privarem os pobres (órfãos e viúvas) de seus direitos. Se as leis humanas tivessem algo de divino, Deus não prometeria punição a legislador nenhum. A proposta do teto, o Novo Ensino Médio, tudo isso deve ser tratado como divino, diz Kant. Isso, sim, é irracional, chamar Deus de fonte da justiça e tratar como divinas as leis injustas. E depois chamar isso de religião racional.
  123. Dever é diferente de temor e diferente de esperança. Uma ação motivada por temor ou por esperança é uma ação motivada por interesse. Para Kant, dever é desinteressado. Você faz porque é certo. Essa é a única ação digna de louvor, pra Kant. Ele está tomando dever num sentido diferente do nosso. No nosso conceito, se você quer conservar a vida, é seu dever relativo ao objeto assumir quaisquer meios necessários para obtê-lo. Então, se você teme morrer, você deve se manter vivo. Mas, como Kant tem feito até agora, ele insiste que o dever não tem nada a ver com interesse (inclinação) ou com felicidade, porque, senão, não é dever.
  124. Se deve obedecer mesmo quando a lei não promete nem benefício e nem punição. Olha que besteira. Pra quê seguir uma lei assim? Eu só poderia seguir uma lei assim se eu visse nela um meio pra obtenção da minha felicidade. Mas aí não é mais dever, diz Kant.
  125. Algumas virtudes valem porque são difíceis de conseguir e não por trazerem vantagem. Fala sério…
  126. O respeito próprio se origina da consciência da própria liberdade.
  127. O que me dá relevância no universo é minha liberdade. O ser humano seria insignificante no universo se não a tivesse, porque é dela que vem a nossa potência para o infinito.
  128. Se for buscar um tesouro imaginário, pelo menos não ignore os tesouros reais.
  129. A filosofia deve coordenar a ciência. O povo não deve participar desse método, mas só dos resultados.
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