Analecto

30 de setembro de 2021

Ética.

Filed under: Saúde e bem-estar — Tags:, , — Yure @ 19:09

Um dia, o vigia do metrô me perguntou o que é filosofia. Este tipo de pergunta tende a causar embaraços em qualquer um, inclusive aos filósofos. Felizmente, eu tenho uma resposta pronta pra satisfazer os leigos: filosofia é o estudo racional das coisas que a ciência não estuda. Eu falo isto porque tanto a filosofia como a ciência são meios de buscar racionalmente a verdade, mas são meios diferentes. A definição que eu uso se segue necessariamente disto. Se é racional, mas não ciência, é filosofia. O vigia ficou satisfeito. Aí eu dei exemplos de coisas que a filosofia estuda, mas que a ciência não estuda: metafísica, lógica, epistemologia, teoria do conhecimento, ética, estética, arte e política. Claro que eu não usei estes nomes (falei “Deus”, “bem e mal”, “prazer e dor”, entre outros). E este texto é sobre um destes objetos da filosofia: a ética.

Ética é a parte da filosofia interessada na ação individual correta. Mas “correta” é relativo, então precisamos definir o que torna uma atitude “correta”. Historicamente, a ética estava interessada na busca da felicidade (é o caso dos filósofos do período helenístico, como Epicuro e Sêneca), então ação correta era aquela que levava à felicidade. Mas, desde Kant, a ética está preocupada com a ação justa. Então, embora tenha havido um período na história da filosofia em que a ação correta era aquela que conduzia à vida feliz, hoje a ética considera a ação correta como aquela que é “justa”. Infelizmente, este é outro termo ambíguo: a justiça aristotélica não é a justiça kantiana. Dependerá do ponto de vista… E é sobre estas duas éticas que eu pretendo escrever hoje: a ética das virtudes (Aristóteles) e a ética do dever (Kant).

Virtudes aristotélicas.

Para Aristóteles, existem dois tipos de virtude: as que devem ser buscadas em grau máximo e as que devem ser buscadas pela mediania. Entre as que devem ser buscadas em grau máximo se incluem a sabedoria, a ciência e o conhecimento prático. Não se pode falar em “excesso de sabedoria”, embora possamos falar de carência de sabedoria (ignorância). No entanto, as virtudes morais funcionam de um jeito diferente…

Virtudes morais devem ser buscadas pela mediania. O excesso e a falta de determinada disposição arruína a virtude. Isso ficará mais claro se usarmos exemplos. Comecemos pela disposição para enfrentar o perigo. Se você tem falta de disposição pra enfrentar o perigo, você é covarde. A pessoa covarde foge dos riscos que precisa assumir. Porém, se você procura riscos e perigos desnecessários, você está sendo temerário. O temerário busca riscos sem necessidade, o que é uma forma idiota de agir. Se você enfrenta os riscos que você precisa enfrentar, sem procurar riscos desnecessários, você é corajoso, sendo a coragem o meio-termo entre a covardia e a temeridade. Para falar dos nossos tempos, podemos dizer que tanto o covarde quanto o temerário têm razões diferentes para não se vacinarem: o covarde tem medo irracional da vacina, enquanto o temerário acha que não precisa dela e que obtê-la é perda de tempo. O temerário talvez até mesmo rejeite o uso de máscara.

Outro exemplo é a liberalidade. Você é liberal quando você gasta sem se endividar e dá seu excedente aos que precisam dele mais do que você. O excesso de disposição para o gasto se chama prodigalidade e é um vício: você gasta até contrair dívidas ou dá dinheiro aos outros quando você necessita de tal dinheiro mais que aqueles que recebem o dinheiro que você dá. A carência de disposição para o gasto é a avareza, caracterizada pela relutância em gastar até com o necessário e a retenção do excedente mesmo que outro precise dele mais que você.

Ainda outro exemplo é a humildade. Aristóteles reconhece que não existe nome pra muitos vícios e o excesso de disposição para resistir à arrogância não tem nome, mas é caracterizado por recusar recompensas e elogios que você merece. É um tipo de injustiça para consigo mesmo. Já a arrogância, a falta desta disposição, é caracterizada por se achar mais importante do que realmente se é. Humildade é estar ciente da sua importância, sem se atribuir mais ou menos do que se merece.

Mas suponhamos que você queira adquirir uma virtude ou se livrar de um vício… Como fazer isso? Felizmente, Aristóteles afirma que a virtude pode ser ensinada. Isso porque tanto virtudes como vícios são hábitos. O que faz a virtude e o vício é o hábito de agir de determinada forma. Assim, para adquirir uma virtude ou largar um vício, você deve praticar. Pratique a moderação de suas disposições naturais e você adquirirá virtude moral, se é isso que você quer. Porém, se você se acostumar a agir com excessos ou carências, você adquirirá vícios morais. Quando adquirido, o vício é difícil de quebrar, justamente porque se tornou hábito. Também a virtude, depois de contraída, é difícil de corromper. É igual a aprender uma nova habilidade, como o desenho ou a música.

O imperativo categórico.

Sobre a ética das virtudes de Aristóteles, basta o que já dissemos. Entremos agora no assunto da ética do dever, de Kant. Ele começou sua reflexão sobre a ética após perceber que a moral de diferentes povos é muito diferente entre si. Ele se perguntava se não haveria algum princípio moral com o qual todos nós poderíamos concordar. Sua ideia não era criar uma lei única que valesse em todos os lugares e em todos os tempos, mas apenas um princípio que pudesse ser aceito por todos (ou grande maioria), o que já seria de grande ajuda no entendimento entre os seres humanos.

Kant elabora, então, aquilo que ele chamou de imperativo categórico. É “imperativo” porque é uma ordem e é “categórico” porque não comporta exceções. Ele é resumido na frase “age de tal forma que tua ação possa se tornar lei da natureza”. Em outras palavras: aja como se todo o mundo fosse te imitar. Quando você estiver diante de um dilema moral, avalie cada opção segundo o critério: qual destas opções tornaria o mundo mais justo se todos a escolhessem? Se você conclui que a opção X é a opção que tornaria o mundo mais justo se fosse escolhida por todos, você não apenas pode fazer essa escolha, você deve. É que todo ser humano tem um compromisso com seus pares. Então, se algo passa na avaliação do imperativo categórico, é seu dever moral agir daquela forma, sem exceções. Daí o nome “ética do dever”. Para Kant, este princípio moral pode ser adotado por todos. Aliás, deve ser.

Importante observar que, embora a ideia kantiana do imperativo categórico não ser aplicada pela maioria das pessoas hoje, a ideia de princípios morais mínimos não foi abandonada. A sua encarnação mais recente é a Declaração dos Direitos Humanos, que elenca direitos mínimos inerentes à pessoa humana.

O problema de éticas 100% racionais.

O problema que Kant não viu e que David Hume viu é que nossas emoções e sentimentos têm uma força muito grande em nossos julgamentos morais. Por esta razão, tentar fazer uma moral ou elaborar um princípio moral totalmente racional é ingenuidade. Na hora das escolhas concretas, a emoção conta muito. É muito difícil a um ser humano “fazer a coisa certa” na hora em que a escolha deve ser tomada (embora a razão tenha um papel preparatório para tal escolha antes de ela ser requerida). Com isto, Hume propõe que a emoção não pode ser excluída da reflexão ética, tendo tanto peso ou até mais peso que a razão no momento da escolha concreta.

A nossa lei não é agnóstica a isto. Por esta razão, existem atenuantes de pena para crimes cometidos em certas condições de estresse emocional. A maioria das pessoas concorda que um homicida é mais digno de perdão se matou por medo de perder a própria vida ou pra defender o filho. Também é mais digno de perdão o ladrão que rouba por necessidade e não por luxo. Assim, a ideia de que emoções prejudicam nossa reflexão moral é tão verídica que nossas leis refletem isto.

Recomendações.

Como Hume bem observou, a emoção pesa bastante na hora de fazer uma escolha concreta. Talvez por isso seja difícil fazer o que é certo. A emoção ofusca a razão e seria ingenuidade pensar que esse não é o caso. Mesmo a pessoa que parece incorruptível, diante das tentações da riqueza ou do prazer sexual pode acabar fazendo algo que depois se arrepende. Mesmo que a pessoa tenha a virtude de resistir a tais tentações, ceder repetidas vezes a tais impulsos logo produzirá um vício, se dermos crédito ao que também diz Aristóteles. No entanto, também Aristóteles diz que é mais fácil simpatizar com a pessoa que fez algo errado por falta de força de vontade (sabendo que é errado e não querendo fazer, mas incapaz de resistir), embora seja mais difícil, inclusive indesejado, simpatizar com a pessoa que faz algo errado de boa vontade e sem arrependimentos. Considerar isso nos levará a promulgar leis melhores.

Se virtude é um hábito, não seria ruim nos treinarmos para obtê-la através da prática. Isso é particularmente verdade no caso das virtudes intelectuais, como a sabedoria, que são buscadas pelo grau máximo, em vez de pela mediania. Busquemos, portanto, o máximo de conhecimento possível. Além disso, sendo hábito, a virtude pode também ser ensinada e tal dado não pode ser ignorado pelo sistema educacional. A virtude deve ser ensinada e crescer pela prática. No entanto, algumas virtudes são mais fáceis para alguns e mais difíceis para outros. A ajuda mútua deveria ser empregada no aperfeiçoamento moral, atento aos limites de cada um.

É preciso entender que o vício é algo prejudicial. Se não é prejudicial, é improvável que seja vício. A insistência na virtude não deve ser usada como pretexto pra atitudes exageradas, especialmente por parte de legisladores. Quando você estiver se perguntando se algo que você está fazendo é vicioso, seria interessante pensar se aquilo está fazendo mal a você ou aos outros. Se não estiver, talvez não seja algo com que se preocupar. A partir do que momento em que passa a fazer mal, você entrou no âmbito do vício e a prática repetida do ato formará o hábito de agir viciosamente.

Algumas dúvidas morais podem ser respondidas ao observar o comportamento moral de outras culturas. Talvez lidemos melhor com nossos problemas morais vendo como outros povos resolvem os mesmos problemas. Não obstante, mesmo que não adotemos as ideias de outras culturas, é importante também respeitá-las, em vez de condenar suas escolhas morais com base nas de nossa sociedade. Cada povo é diferente e é melhor assim.

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