Analecto

8 de novembro de 2009

Vamos abandonar o termo.

Filed under: Saúde e bem-estar — Tags: — Yurinho @ 00:54

O texto abaixo é uma honesta aula filosófica baseada em About “Pedophilia” as a Concept, escrito por Frans E. J. Gieles, com sugestões de como as ideias contidas em tal escrito podem ser usadas para desenvolver o país e ajudar as pessoas a se compreenderem.

Me diga você o que é.

“Pedofilia” é um termo que parece ter um significado diferente dependendo de quem pronuncia a palavra. Meu sobrinho já foi chamado de pedófilo por abraçar uma menina dois anos mais nova e ele é menor de idade. Se um pedagogo, um juíz, um psicanalista e um jornalista se sentassem pra discutir esse caso, talvez cada um tivesse seu próprio conceito de pedofilia e começariam a discussão pensando que o seu conceito de pedofilia é o conceito que o outro tem. Não é assim que funciona. A palavra “pedofilia” não significa a mesma coisa pra mim e pra você e isso é problemático. Não é possível falar de alguma coisa sem saber como defini-la antes.

Originalmente, “pedofilia” significa “amor por crianças”. Com a apropriação dessa palavra pela psiquiatria, o significado foi sendo mudado aos poucos. “Amor” passou a ser “amor, inclusive sexual”. Com a ascendente medicalização do conceito, o termo “pedofilia” se tornou cada vez menos pessoal e operacionalizado. “Amor, inclusive sexual” passa então a ser “predisposição ao sexo com criança”. Assim, ao menos no ramo psiquiátrico, a pedofilia é uma predisposição sexual orientada a crianças. Ela não implica um ato. Esse termo foi então apropriado pela mídia, que é menos séria que a psicologia. Logo, “pedofilia” deixou de significar uma atração, passando a designar um ato. Então, para um jornalista e também para um leigo, não há diferença entre “pedofilia” e “estupro de vulnerável”, que é o conceito legal que designa relação sexual com pessoa legalmente incapaz de emitir consentimento válido.

Finalmente, com a apropriação do termo pelos leigos, aí é que o conceito sai dos trilhos de uma vez por todas. São incluídos no termo as suspeitas. Não precisa, pro leigo, haver sexo pra haver pedofilia. Basta que um adulto estranho seja muito próximo de uma criança. Como a pedofilia tem uma carga negativa de significado, ela rapidamente degenera em xingamento: você chama de “pedófilo” aquele cara que faz algo que você particularmente reprova, desde que tal ato envolva interação com uma criança. Essa interação não precisa ser afetiva. Bateu na criança? Deve ser pedófilo. Fugiu com ela? Deve ser pedófilo. Matou ela? Eita, aí é que é pedófilo mesmo. E por aí vai. E pensar que essa palavra já designou amor… Isso faz com que “pedofilia” seja um termo tão carregado que se torna impreciso se comunicar com essa palavra. O que é pedofilia pra um leigo não é pra um juíz, psiquiatra, jornalista ou historiador.

Vamos abandonar o termo.

Essa confusão semântica tem a vantagem de permitir que culpemos o pedófilo por tudo de ruim que acontece à sociedade. Veja, nossa sociedade não é perfeita, ela tem problemas. A forma como nossas crianças estão se desenvolvendo também é problemática. Como qualquer coisa pode ser “pedofilia”, imaginar que existe uma “cultura da pedofilia” que infecta nossas crianças com o vírus do fracasso ou que lhas priva de sua inocência é uma forma cômoda de responsabilizar alguém por nosso próprio fracasso como pais e sujeitos democráticos. Se a criança começa a desenvolver sua sexualidade que lhe é natural e faz algo reprovável no processo, não é culpa da educação que os pais deixaram de dar a ela. A culpa é dos pedófilos que injetam “ideologia de gênero” nos desenhos infantis, por exemplo. O pedófilo se tornou o bode expiatório. Colocamos na pedofilia a culpa pela nossa própria incapacidade de amar e educar nossas crianças. Basta prender os pedófilos e tratá-los e nossas crianças passarão a se desenvolver como nós queremos.

Fica claro que a palavra “pedofilia” começou a ser um estorvo social. Um termo que tem diferentes significados dependendo de quem o pronuncia é um termo confuso. Por causa disso, é preciso que procuremos um outro termo pra passar a mensagem ou que separemos o termo em suas partes integrantes, discutindo cada uma em separado. O círculo terapêutico B4U-ACT usa o termo “atração por menores” para designar a atração sexual por pessoas que sejam legalmente incapazes de ter relações sexuais por conta da idade. Se quisermos voltar a usar o termo “pedofilia”, temos que ter em mente que ele repousa na definição de outros três termos: com que idade alguém é considerado “criança”, com que idade alguém é considerado “adulto” e o que caracteriza “sexo”? Somente de posse desses três termos, o termo se torna claro, na medida em que ele designa atração sexual sentida por uma adulto em relação a uma criança.

Recomendações.

Um dia desses, o filósofo Paulo Ghiraldelli chamou Jesus de pedófilo, o que causou um alvoroço. Mas, como o Paulo já é idoso, é compreensível ele ter usado essa palavra. O que ele queria dizer é que Jesus gostava de crianças. Se você pegar um Aurélio antigo, você verá que esse é o significado dado ao verbete no dicionário. Mas não é mais assim hoje. Ninguém, ao dialogar com a geração mais nova, pode dizer que Jesus foi pedófilo sem causar escândalo, porque a palavra “pedofilia” tem uma conotação sexual hoje que lhe é inalienável. Isso é agravado pelo fato de que a pedofilia como conceito não tem mais a carga neutra que tinha nos círculos psiquiátricos. “Pedófilo” tem carga negativa, é uma palavra que virou xingamento. Com a expansão desse termo, “pedófilo” passa a ser qualquer um que faça com uma criança algo que eu desaprovo, particularmente nutrir uma amizade ou intimidade com ela. Isso mostra que o termo “pedofilia” foi tão vulgarizado que não lembra mais em nada o conceito original e nem o conceito médico. A ciência vem procurando alternativas ao termo, como “atração por menores”.

Diante disso, é importante que também nós, os leigos, deixemos essa palavra de lado e busquemos outra ou outras, deixando claro o significado e a conotação existente em cada termo. “Atração por menores” é sentimento. “Estupro de vulnerável” é ato, quando criminoso. Não há termo pra designar intimidade casta experimentada entre adulto e criança e o principal candidato, “amizade intergeracional”, é longo demais pra ser prático. Se quisermos manter o termo “pedofilia”, precisamos desidratá-lo, até que ele passe a designar um conceito fechado, ou voltar a usá-lo como ele era usado na medicina: uma atração sexual por criança prépúbere, quando experimentada por um adulto, o que não implica um ato, mas sempre implica um sentimento.

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