Nós criamos muitas regras ao redor da sexualidade.

Eu tinha dezesseis anos.

Minha mãe, testemunha de Jeová, havia me dado um livro chamado “Jovens Perguntam: Respostas Práticas”. Eu até que estava gostando do livro até chegar a um capítulo relativamente delicado: masturbação. Nunca fui o tipo de indivíduo que acredita em tudo o que ouve e, levando em consideração como o livro tratava o assunto, senti que aquilo estava incompleto e fugidio dos textos bíblicos citados como referência. Resolvi buscar respostas eu mesmo.

Precisei de muita força de vontade para digitar no Google, entre aspas, “masturbação é pecado”. Eu estava com medo de descobrir algum argumento que derrubasse minha crença de que masturbação era uma prática inocente e sem riscos. Eu tinha muito mais fé naquela época, acreditava que Deus era realmente um indivíduo pessoal que me escutaria e me atenderia se eu andasse dentro de seus princípios, então eu rezava antes de pesquisar para manter minhas bases fortes e não acreditar na palavra de qualquer um.

Coletei textos e textos, chequei referências e referências, refutei refutações e, em três meses, o maior texto que eu já digitei estava pronto. Um ano mais tarde, redigi uma versão condensada em inglês, uma vez que eu já havia me tornado ávido visitante de sites estrangeiros.

Uma coisa me intriga até hoje: qualquer um com um pingo de bom senso chegaria à mesma conclusão que eu cheguei, então como tem tnta gente que acredita que a masturbação é pecado? Ou a homossexualidade? Ou parafilias (das quais eu tenho umas quatro)?

Lendo a respeito, vejo que o sexo fazia muito mais sentido antes da Idade Média, com leis sobre igualdade e punição contra abusos. Era uma prática como qualquer outra, não havia motivos para punir demonstrações de sexualidade, embora punissem abusos porque era uma forma de violência. Ou seja, era necessário consenso, seja entre homens, mulheres, casais e por aí vai. Acho que o desprezo do corpo começou na Idade Antiga também, com a crença de que o corpo era uma prisão para a alma, atrapalhando-a em suas atividades intelectuais. A razão começou a sobrepujar necessidades corporais.

Com a vinda de Jesus, fomos encorajados a deixar algumas práticas sexuais de lado. Seus discípulos, principalmente Paulo, levaram isso um pouco longe demais. Os mandamentos entregues por Jesus não deveriam ser pesados, mas, aparentemente, Paulo recebeu influências de pensadores gregos da época, como epicurismo e estoicismo. Com que autoridade digo isso? Meus professores de ética me disseram isso e, olhando bem, há vários traços dessas disciplinas nos ensinos de Paulo. E alguns não aparecem nos Evangelhos. Digo, Paulo condena a homossexualidade, sendo que Jesus, ele mesmo, nos Evangelhos, nunca disse uma palavra contra os homossexuais. De onde Paulo tirou isso?

Eu ainda tenho muitas perguntas e poucas respostas a respeito disso, mas a Igreja importou certos conceitos da filosofia grega. E aí começou a grande dicotomia sobre masturbação ser ou não pecado. Santo Tomás de Aquino, num belo dia, resolveu refletir sobre sexo. Chegou a conclusão de que, sendo sexo uma coisa feita por Deus para reprodução e povoamento da Terra, quaisquer outras formas de sexualidade vão contra o propósito deste. Assim, masturbação e sexo que não visa reprodução vira pecado. Mas note que isso é pensamento de Aquino. A Bíblia é preto no branco, você não reflete, você faz. Não tem que refletir sobre sexo, não tem que refletir em religião.

Jesus entregou os ensinamentos de Deus para serem seguidos, não para se pensar sobre eles, do contrário não seriam ordens e sim sugestões… de ação… de Deus para os homens. Ridículo. Tudo isso começou porque alguém resolveu refletir e discutir o que não pode ser refletido nem discutido. Paulo, Aquino e agora todos aqueles que levam as bases divinas ao extremo com leis que não salvam ninguém tinham ou têm boas intenções (algumas vezes), mas estão fazendo errado. Se estivessem fazendo certo, não teríamos pessoas sexualmente hipócritas que dizem não praticar parafilias, mas as praticam em segredo porque não podem evitar; se estivessem fazendo certo, não teríamos jovens ficando deprimidos e sentido-se culpados até a morte porque não conseguem parar de se masturbar, o que é natural; se estivessem fazendo certo, não teríamos preconceitos com aqueles de caminhos sexuais diferentes, o que está em total desacordo com a ordem de amar ao próximo como a si mesmo.

Regras demais e poucos seguidores de fato. Na minha opinião, estamos no caminho errado.

Publicado por Yure

Quando eu me formei, minha turma teve que fazer um juramento coletivo. Como minha religião não me permite jurar nem prometer, eu só mexi os lábios, mas resolvi viver com os objetivos do juramento em mente de qualquer forma.

4 comentários em “Nós criamos muitas regras ao redor da sexualidade.

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