Analecto

14 de fevereiro de 2012

Pois vamos lá.

THE ARCH LINUX?! | SoFurry.

Fiquei encarregado de falar do meu passado, então é o que vou fazer… Meus documentos de nascimento sempre foram confusos e estranhos. Primeiro, porque meu nome foi escrito incorretamente (tenho que desinstalar o pacote de idioma Português-PT) e segundo porque a data está errada. Não metamos as patas traseiras pelas dianteiras, vamos falar da história do meu nome.

Minha mãe queria que meu nome fosse Abraão, que é o nome do meu avô materno. Meu pai queria que eu me chamasse Cézar, que é o segundo nome dele. Meu tio, Ernandes, ficou sabendo da história e disse que o nome ia ficar obsceno e gesticulava, com as duas mãos, sempre que que falava Abra-ão. De fato, não era um nome bom para uma criança da cidade, onde nomes bíblicos que não sejam Mateus, Marcos, Lucas ou João são desencorajados. Minha mãe então lembrou do filho de uma amiga dela, cujo nome era Yuri. Em sua falta de criatividade e desespero por um nome bom, ela manifestou ao meu pai seu desejo de dar-me Yuri como nome.

Quando nasci, o homem do cartório teve a audácia de escrever meu nome terminando em “e”, Yure, alegando que Yuri era nome de menina e que ele não tinha corretivo. Ele deve ser algum vidente, porque eu iria me tornar otaku doze anos mais tarde e esse nome poderia me tornar alvo de piadas envolvendo mulheres homossexuais. Então ele poupou uma criança de um destino cruel.

Antes que colocassem a data do meu nascimento, minha certidão se perdeu. Ela foi encontrada cerca de dez dias mais tarde, mas tinha outro problema: ninguém lembrava em que dia eu havia nascido. Que vergonha. Sem saber a data exata, colocaram a data do dia em que a certidão foi encontrada. Assim, eu havia crescido achando que eu era de Libra e foi um choque quando descobri, oito anos mais tarde, que sou de Virgem.

Explicados os buracos na minha certidão, vamos à minha infância. Aos quatro anos, peguei hepatite A. Por que documentar isso? Foi um fator decisivo para a formação da minha fobia. Eu vomitava todos os dias e, apesar de não ficar assutado, certamente fiquei nervoso. Quando eu havia melhorado, minha mãe e minha professora faziam piada do ocorrido, o que me deixava mortalmente envergonhado. Eu não queria que ninguém soubesse e eu corava sempre que minha mãe contava o ocorrido a alguém e ficava irado quando faziam pouco caso daquilo. Mas eu não sabia articular essas sensações, então eu ficava quieto. Eu mesmo não as entendia. Para falar a verdade, parte do meu medo de vomitar é medo de ser visto.

Aos cinco anos, descobri que amo, simplesmente sou obcecado (obrigado, corretor automático de ortografia) por personagens de desenhos animados que precisam de um banheiro com urgência. Fator definitivo para minha parafilia. Nos anos seguintes, eu desafiava meus coleguinhas a prender a urina pelo máximo de tempo possível, brincando com o orgulho deles e dizendo que eles não eram realmente “machos” se não fizessem isso. Funcionava, e como funcionava. Eu me deleitava assistindo eles “dançarem”. Lembro do dia em que juntei sete pivetes do bairro na mesma rua pelo simples prazer de vê-los desesperados… e eu tinha mais ou menos oito anos. Eu tinha uma vítima favorita. Tão ingênuo e tolo, sempre caindo vítima das minhas perícias de influenciar. E ele era mais alto e forte que eu e ainda assim nunca levei uma surra dele por isso. Ele faria qualquer coisa para provar que é “forte”, provavelmente influência do desenho Dragon Ball Z.

Voltando um pouco no tempo, meus pais tinham orgulho de mim por eu ser uma “mente brilhante”. Eu era extremamente curioso, lia tudo o que eu via pela frente aos seis anos, nunca tirava menos que nove. Até meu pai assinar TV Show quando eu estava na quarta série. Cartoon Network arruinou minha vida. Na quinta série, minhas notas começaram a cair e eu passava horas na frente da televisão. Na verdade, a televisão modelou meu comportamento de tal forma que eu perdi minha identidade. Eu era um personagem ou outro, mudando de “personalidade” dependendo da situação. Eu era o Dexter na hora de estudar sério, Yui quando brincava de luta, Kerberos quando falava com um certo colega e o Culumon nas horas vagas. Em algum momento, durante a quarta série, minha irmã me apresentou a Pokémon, na época sendo televisionado no oito (Record). Foi o primeiro desenho animado japonês que eu assisti. Lembro de certa vez, quando eu voltava da escola, me sentir irritado por Pokémon passar tão cedo, de forma que eu tinha que correr da escola para casa assim que a aula acabava para não perder o começo. Daí, numa noite, antes de dormir, eu rezei, pedindo encarecidamente ao Senhor que Pokémon passasse no Cartoon Network. Minhas preces foram atendidas e o anúncio da estreia começou a ir ao ar no Cartoon Network no dia seguinte. Deus existe.

Aos nove anos, na quinta série, eu tinha o hábito detestável (-10 pontos) de molhar as calças pouco a pouco por vergonha de pedir para ir ao banheiro. Fui descoberto durante a aula de Educação Religiosa. Minha professora, apelidada de Cão, ficou sabendo e fez questão de me humilhar na frente de trinta e oito crianças mais velhas que eu pelo menos alguns meses. Foi o fim para meu hábito e fiquei envergonhado por algumas horas. No dia seguinte, eu já estava bem.

Influenciado por Sakura Card Captor, desenvolvi um interesse em tarô. Meu pai então me deu um baralho de tarô, acompanhado de um livro escrito por Nicodemos Del Valle. Nunca, nunca esquecerei esse nome. Uma das recomendações do livro era nunca tirar a sorte numa sexta-feira (“a sexta-feira é sempre nefasta”). Lembro de esquecer esse detalhe e tirar minha própria sorte numa sexta. A Morte, O Pendurado, O Diabo, A Torre e uma outra carta que não lembro o nome deram as caras. Fiquei assustado e resolvi nunca mais tirar minha própria sorte. Não que eu não tirasse a dos outros. Eu ganhava dinheiro com aquele baralho e com quiromancia, que aprendi com meu tio enquanto ele estava bêbado. O diretor da minha escola, interveio e tentou me desencorajar de praticar magia na escola (e tentou me encorajar a cortar meu cabelo), mas não deu muito certo e coloquei um amigo no mesmo caminho, dando a ele outro exemplar do livro de Nicodemos. Yu-Gi-Oh! começou a ser televisionado na Globo e ele inventou uma camada de tradução para tirar a sorte usando cartas de Yu-Gi-Oh! depois que minha irmã destruiu o baralho original num ataque de fúria. À título de curiosidade, o Exodia era equivalente a O Diabo.

Aos doze anos, eu já havia parado com a magia depois que minhas crenças religiosas levaram a melhor. Aí eu conheci um outro cara. Nos tornamos amigos e ele me mostrou um exemplar da Dragão Brasil número 112, como se eu já não fosse nerd o suficiente. Aprendemos a jogar RPG de mesa, um jogo que nós não entendíamos direito como funcionava até adquirirmos a Dragão Brasil número 115, que veio com o sistema que usei por cinco anos: GURPS Lite 4ª Edição. Não só jogávamos quase todos os dias como também adaptamos a Libertação de Valkaria para o GURPS Lite.

Aos treze anos, eu tive minha primeira aula de Filosofia com uma professora, a qual eu devo muito mesmo. Foi naquele dia que eu decidi que eu queria me formar em Filosofia. Eu comecei a pegar livros de Filosofia emprestado, começando com Explicando a Filosofia com Arte, seguido pela Antologia Ilustrada de Filosofia de Ubaldo Nicola, o melhor livro que já tive o prazer ler. Aos treze anos também, notei que meus amigos estavam ficando “cansados” de mim, tipo você. Eu comecei a ficar triste com isso, vendo que eles gastavam mais tempo entre si do que comigo. Comecei a descer lentamente ao poço. Todas as minhas atividades dependiam dos meus amigos para serem feitas e eu raramente saía de casa para outra coisa que não fosse RPG. Aliás, os meus jogadores estavam faltando às seções cada vez mais. Acho que o tinha um cara que só jogava porque a seção ocorria na casa dele. Aos catorze anos, eu resolvi que não precisava mais de companhia e que eu deveria ficar sozinho. Eu estava triste todos os dias, o tempo todo, acordava mal e dormia mal. Meus amigos perceberam isso tarde demais e a ajuda que eles me davam era inútil, porque eu pensava que eles só queriam me ajudar por sentirem-se culpados pelo que me fizeram e, portanto, não era algo feito de coração, mas por simples egoísmo. Às vezes eu pensava que eles faziam isso simplesmente porque lhes fora ensinado que essa era a forma certa de agir e que eles não tinham nenhuma base sólida para agir daquela forma. Assim, eu via suas tentativas de me ajudar como uma simples obrigação social.

Tempo passou e pior eu fiquei. Comecei a querer me matar, mas nunca tive coragem de fazer isso. Eu chorava por qualquer coisa e não me importava mais com meus estudos nem com minhas diversões. Eu havia ficado desapontado com Deus e eu até queria que ele me odiasse porque eu não merecia o amor Dele. Achava que Deus estava só perdendo tempo comigo. Lembro de ter chorado no meio da rua porque alguém disse que Jesus me amava.

Falando em religião, eu também descobri, aos quatorze anos, o quão bom é levar uma patada até o final.

Sexualidade à parte, tive um ataque forte de náusea durante uma madrugada daquele ano. Eu não consegui dormir, comia sal, tomava remédios e rezava. Sempre que eu sentia que eu ia vomitar, eu tomava um Plasil. Era náusea verdadeira e não somática, então eu realmente corria risco de vomitar. Na verdade, era uma possibilidade quase certa. Mas eu lutava contra o destino com todas as minhas forças. Nisso, quase tive uma overdose. Na manhã seguinte, o enjoo havia sumido, mas os efeitos colaterais do Plasil haviam me trancado em posição fetal. Meus músculos estavam enrijecidos de tal forma que eu quase não podia me mover. Meus pais acharam que eu tinha tentado me matar. A terapia começou naquele mesmo dia, embora eu não houvesse dito que a razão de eu ter tomado tantos remédios não era depressão; se eu dissesse, talvez o terapeuta me mandasse enfrentar meu medo. Tomei duas pílulas de Fenergan e fiquei adormecido por quase trinta horas. Nesse tempo, meus amigos sentiram minha falta e vieram saber o que havia acontecido. Eles me viram sendo levado do carro do meu pai para a cama e me dói imaginar como eles se sentiram. Levando em consideração meu estado de espírito naquele ano, eles provavelmente também pensaram que eu havia tentado suicídio.

Durante a terapia, antidepressivos sufocaram minha depressão. Eu gradualmente parei de chorar, meus pensamentos suicidas gradualmente sumiram. Atribuo minha melhora inteiramente aos remédios; eu queria continuar deprimido só para dar desgosto aos meus médicos porque eu via terapia como domesticação.

Aos dezesseis anos, eu já havia me recuperado. Naquele período, comecei este blog.

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5 Comentários »

  1. […] Deus não fizesse diferença em minha vida, eu nunca poderia afirmar sua existência. Já tive duas orações atendidas, acho que isso […]

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    Pingback por Anotações sobre a essência do cristianismo. | Analecto — 4 de setembro de 2017 @ 14:08

  2. […] subitamente e de forma melhor do que eu havia pensado. E não havia sido a primeira vez, mas a segunda. Parei meus planos e comecei as anotações imediatamente, reiniciando minha leitura da Bíblia, […]

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    Pingback por Paulo. | Pedra, Papel e Tesoura. — 6 de março de 2016 @ 18:27

  3. […] sobre seu passado, sobre como as pessoas a tratavam mal e eu pude fazer correspondências com meu período depressivo. É a primeira menina com a qual me envolvo dessa forma. Ela é tão fofa que eu me sinto […]

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    Pingback por A bomba. « Pedra, Papel e Tesoura. — 21 de agosto de 2012 @ 19:17

  4. wow… thanks for sharing this, and I’m very sorry about the Hep-A incident.
    It’s odd, but when I read where you said your friends were spending less time with you, I saw myself in elementary and middle school and how my friends stopped talking to me… in high school, I had basically no true friendsa dn learned to go on without them.
    And how could anyone lose a birth certificate? Didn’t the hospital have a record at least?
    *hugs*

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    Comentário por 1childish1 — 16 de fevereiro de 2012 @ 01:50

    • Not at all. People at the hospital were just incompetent. Birth certificates are just paper for them. As for the hepatite A, it’s past now, though it did left scars on my psique. Everytime I feel nausea, I get the urge to eat salt, but I think you already know that. I’m trying to stop, but I need to find a replacement for the salt first. Any suggestions on how to relieve anxiety right away (also, mostly times it’s purely somatic and will go with salt, prayer or even pawing)?

      Em 16-02-2012 01:50,

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      Comentário por Yure T. Kitten — 16 de fevereiro de 2012 @ 12:09


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