Analecto

15 de março de 2012

E como se quebra um tabu?

O texto abaixo é uma honesta aula filosófica baseada em Abuse by Defintion? The Taboo as Excuse, escrito por Frank van Ree, com sugestões de como as ideias contidas em tal escrito podem ser usadas para desenvolver o país e ajudar as pessoas a se compreenderem.

O que é um tabu?

Tabu é qualquer proibição que não possa ser suficientemente justificada pela razão. A maioria dos grandes tabus em todas as culturas é sexual. No Ocidente, a homossexualidade e até mesmo o sexo oral já foram tabus. Se um tabu não se apoia na razão, no que ele se apoia? Geralmente na religião ou na estética (é feio, por isso deve ser também errado). Ainda existem tabus hoje em dia. Por exemplo, não há evidência conclusiva de que pornografia faça mal a adolescentes que a consomem. Por outro lado, há quem defenda o contrário, que pornografia não faz mal a nenhum adolescente. Outro tabu dos nossos tempos é a relação sexual precoce: no Brasil, a idade a partir da qual uma pessoa pode legalmente fazer sexo é catorze anos, mas, enquanto muitos dizem que tal idade é muito baixa, há quem diga que ela poderia ser doze.

Esses são exemplos de tabus graves, que poucos ousam desafiar. Mas existem tabus mais leves que são quebrados cotidianamente, quando não há punição estatal associada à tal quebra. Exemplo: pornografia. Um monte de gente consome pornô, mas o fato de que esse ainda é um “tabu fraco” é mostrado pelo fato de que temos vergonha de falar dela. Embora muitos consumam pornografia e tal indústria gere um lucro exorbitante, poucos que a consomem admitirão consumi-la, isso se alguém tiver o nervo de perguntar em primeiro lugar. Não é estranho? Sexo está em todos os lugares nos veículos de comunicação de massa, mas, quando é pra discutir nossa própria vida sexual (a relação que temos com a pornografia faz parte da nossa vida sexual, mesmo que escolhamos não consumir pornô), mesmo com um amigo, somos tomados de vergonha. Por quê? Para alguns teóricos, a origem do tabu (e, consequentemente, dos sentimentos de culpa e vergonha associados ao desrespeito ao tabu) é a necessidade de estar em grupo e de manter a ordem do grupo. Então, talvez a vergonha venha da sensação de que falar dessas coisas prejudica nosso pertencimento a um grupo ou à sociedade.

Exemplo de tabu: a relação precoce.

Qualquer relação sexual na qual pelo menos um dos participantes não tem catorze anos é crime (ou ato infracional, se ambos forem menores de idade). O nome do crime é “estupro de vulnerável”, codificado penalmente no artigo 217-A, desde 2009. A parte interessante é que a lei chama de estupro até mesmo relacionamentos que ela própria reconhece como consensuais. É verdade, qualquer sexo forçado deve ser punido, especialmente se a vítima é criança ou adolescente. Mas pessoas do direito questionam se faz sentido punir qualquer um que se relacione com pessoa que não tenha catorze anos ainda. Pense: se a relação é inócua, voluntária e há afeto entre as partes, seria necessário punir, especialmente se ambos são adolescentes? É importante observar que não precisa haver sexo pra que a relação seja punível, basta que se figure um “ato libidinoso”. Se a libidinosidade é a diferença entre o namoro e a amizade, a lei está implicitamente dizendo que é proibido namorar antes dos catorze anos. Dois adolescentes de doze anos que se beijam podem, se tiverem azar, acabar conduzidos ao conselho tutelar. Nesse sentido, há fundamentação racional pra esse tabu (proteção à criança), mas a fundamentação racional é insuficiente: é preciso punir relacionamentos sem violência real, feitos de mútuo acordo?

De onde se origina esse tabu? O que torna um relacionamento inofensivo entre crianças e adolescentes tão abominável, a ponto de merecer um artigo no Código Penal? Duas coisas: informação insuficiente e desigualdade de força. Vivemos num mundo que valoriza a igualdade nos relacionamentos e a informação entre as partes. Então, permitir tais relacionamentos equivale a dizer que igualdade, por exemplo, ou plena informação não são sempre necessárias. Uma relação sem esses elementos é ilegal por atacar valores sociais, particularmente os construídos pelo feminismo, que preza pela igualdade. Mas e se o relacionamento for positivo? Mesmo assim será suprimido. Não por ter prejudicado alguém, mas por ter contrariado valores sociais, por ser “ofensivo”, desonrando valores que temos por caros. Por causa disso, Allie C. Kilpatrick argumenta que existem duas formas de abuso: o abuso de vítima humana e o abuso dos valores sociais, que são desafiados e questionados com a atitude que se rotula abusiva.

E como se quebra um tabu?

Um tabu é mantido quando existe vergonha de discuti-lo. Quando você fala algo que desautoriza um tabu, todo o mundo rapidamente tenta te fazer sentir vergonha do que você falou. Se você cede e se envergonha, retirando o que disse, você trabalha para a manutenção do tabu. É também assim que tabus são criados. Se alguém tenta fazer sentir vergonha de como você pensa, do que você fala ou da forma como você age, você não deveria ceder. Se você cede, você contribui pra que a preferência de um grupo se transforme em política pública. É verdade, sempre devemos obedecer às leis, mas isso não quer dizer que as leis devem permanecer indiscutidas. Analogamente, se você se omite em uma discussão porque o debatedor tenta fazer você sentir vergonha de sua posição, você ajuda o debatedor a tornar sua opinião hegemônica.

Se a origem do tabu é a necessidade de pertencimento a um grupo, somente um sentimento social pode mantê-lo. A vergonha é um dos sentimentos sociais mais poderosos, porque nos leva a nos conformar com a forma de pensar do grupo. Passamos a querer mudar quem nós somos a fim de pertencermos à sociedade, mesmo quando discordamos de algum aspecto dela. Isso é uma atitude apenas parcialmente racional, porque se funda, em última análise, no medo, que é uma emoção.

Recomendações.

Como o ser humano não é um ser sujeito somente à razão, sempre haverá tabus, em todas as culturas. Não importa qual seja o tempo ou o local, sempre haverá pelo menos uma proibição irracional ou apenas parcialmente racional vigendo. Isso é especialmente válido em relação aos tabus que se originam na religião. A religião é um assunto indiscutível pra aqueles que têm fé. Então, ao menos esses tabus nunca deixarão de existir.

Maioria dos tabus ocidentais dizem respeito às relações sexuais, quais são lícitas e quais são ilícitas. O tabu sexual mais popular, em todas as culturas, é o incesto, o qual é parcialmente racional, especialmente hoje que sabemos que relações incestuosas podem ocasionar fetos defeituosos (o que nos leva a nos perguntar se o incesto protegido entre irmãos deveria ser abominável). Claro que existem proibições sexuais válidas, como a interdição ao estupro. Não estou querendo dizer que qualquer interdição sexual seja tabu. Mas a homossexualidade já foi uma interdição sexual para a qual não se encontrava amparo racional. Quem sabe? Talvez, no futuro, percebamos que nossos tempos não são tão liberais como poderiam ser.

Quando um tabu é detectado, seja ou não um tabu sexual, ele pode ser contestado pela sua franca discussão. Se você quer que algo que você considera tabu deixe de ser tabu, você precisa discuti-lo. Graças à Internet, é possível discutir um tabu sem sofrer consequências físicas por conta disso. Ninguém pode de dar um murro pela Internet. Por outro lado, é possível fabricar um tabu reprimindo aqueles que discutem um tema que ainda não é tabu.

Por exemplo: o feminismo frequentemente é contestado pela biologia, a qual diz que existem diferenças de comportamento e vocação entre os sexos que são proporcionadas por fatores biológicos, como configuração hormonal e fiação cerebral. Tais diferenças explicam a regra de que mulheres são população minoritária em cursos de ciências naturais e exatas. Toda regra tem sua exceção e dizer que nenhuma mulher seria boa em ciências naturais seria sexismo, isto é, julgar todas as mulheres pelo fato de serem mulheres, sem levar em conta o mérito individual. Olha a Marie Curie.

Mas o fato é que, se devemos crédito à biologia, as diferenças de comportamento entre homens e mulheres não podem ser totalmente atribuídas à cultura. Poderíamos até inferir que a cultura é moldada por algumas de tais diferenças, e não a cultura que engendra todas as diferenças entre os sexos. Você tende a gostar daquilo no que você é bom. Se a mulher, em geral, subtraindo os casos excepcionais, é melhor em ciências sociais do que em ciências exatas e da Terra, é natural que elas não prefiram ciências naturais. Forçar uma representação totalmente igualitária em cursos de ciências naturais seria forçar um número de mulheres a cursar o que elas não gostariam de cursar, o que seria um atentado a sua autonomia.

Se alguém quisesse reprimir tal tipo de discurso, seria necessário torná-lo indiscutível, não por sua validade, mas incutindo vergonha aos que o professam. Quem diz algo assim, mesmo que seja um doutor renomado, seria rotulado de fascista, sexista ou misógino. Pela vergonha, tenta-se fazê-lo deixar sua opinião ou não tocar mais no assunto. Contestar o dogma de que as diferenças sociais entre os sexos, particularmente na distribuição sexual nos cursos de ciências exatas, deve-se somente à cultura torna-se tabu. Não o questionamos, só aceitamos, por medo de que a contestação prejudique nosso pertencimento à sociedade. Isso, obviamente, representa um risco à democracia. Sempre que se cria um tabu, isto é, uma proibição inquestionável, se reduz nossa capacidade de questionar e, consequentemente, opera-se uma nova redução no nosso direito de liberdade de expressão, fundamental a uma democracia plural. Se somente discursos favoráveis forem permitidos, não há democracia “plural”, mas supremacia ideológica.

Novamente, graças à Internet, é possível defender qualquer ideia de forma mais ou menos anônima. Então, questionar qualquer tabu ou impedir a escalada de uma atitude que fabrique novos tabus, não necessariamente implica em um estigma social. Por causa disso, ninguém deveria sentir vergonha de, na Internet, defender opiniões “politicamente incorretas”, desde que seja capaz de fazer isso legalmente, sem recorrer ao artifício do discurso de ódio ou das notícias falsas. Como cidadão que preza pela liberdade de expressão, é preciso que você não permita que novos tabus sejam estabelecidos. Pra isso, tenha consigo a seguinte regra: sempre que alguém tentar fazer sentir vergonha ou culpa por suas posições, não ceda. Se você ceder, você ajuda aquela pessoa a transformar sua própria preferência em política pública. Digo “preferência”, porque, se fosse verdade, a pessoa se daria ao debate, em vez de tentar calar você.

3 Comentários »

  1. O FF está te aborrecendo amiguinho? Espero não ter contribuído para isto. Eu sou furry, você é furry então pode desabafar, nós furries nos entendemos não é?

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    Comentário por alekbunny — 16 de março de 2012 @ 03:21

    • Sinto falta de um colega. Ele está namorando e deixou de falar comigo porque o namorado ficou com ciúme e porque ele se sente tentado a fazer algo comigo. Algo que talvez o namorado dele não goste. Fora que tenho me sentido mal por ter sido pego fazendo algo que eu disse que jamais faria e por perceber tarde demais que não posso enganar a mim mesmo.

      Em 16-03-2012 03:21,

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      Comentário por Yure T. Kitten — 16 de março de 2012 @ 11:47

      • Ok agora você falou por enigmas X3 Eu estou disponível para conversarmos pelo msn durante a manhã entre às 10:00 e 12:00 hs ou de noite a partir das 00:20 hs. Quero falar com você e tentar ajudar.

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        Comentário por alekbunny — 17 de março de 2012 @ 00:56


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