Analecto

10 de julho de 2012

Uma pequena rima com um grande efeito.

Filed under: Saúde e bem-estar — Tags:, , , — Yure @ 23:27

Pondering death. by Yure16 — Fur Affinity [dot] net.

Recebi más notícias ontem. Não é a bobagem de sempre, arte ou sentimentos que agora percebo que não têm importância. Não na frente do que aconteceu. Kiyote, meu pai-de-pelo, morreu no dia vinte e três de junho. Éramos como pai e filho que, por infortúnio, cresceram separados. Nos correspondíamos online e jogávamos juntos, embora eu admita que eu não tinha muito tempo para ele. Quando recebi a notícia, fiquei chocado e confuso, mas, depois de chorar, me senti bem melhor e consegui recobrar o juízo. Pensando sobre o ocorrido, lembrei de uma passagem de Sócrates. Platão, ao narrar os últimos momentos de seu mestre, conta como Sócrates permanecia sereno da iminência de sua morte. Há duas possibilidades:

  1. Se houver vida após a morte, então nós poderemos nos acostumar e levar nossos conhecimentos para o Além, onde poderemos usá-los em prol de uma pós-vida melhor. O cristão dirá que a pós-vida pode ser boa, sem sofrimento, clamor ou dor. Então, Kiyote estaria melhor agora, sem os problemas de saúde que o afligiam.
  2. Se não houver vida após a morte, ele estará inconsciente, como num longo sono sem sonhos. Observe que perdemos os sentidos e a consciência todas as noites ao dormimos, logo a morte não é necessária para a perda dos sentidos e geralmente perdemos a consciência antes da parada completa das funções vitais. Não há aspirações, nem desejos, logo não há frustração, dor e desespero. Não posso dizer que Kiyote estaria melhor, porque ele não estaria de fato, no sentido de existir. Mas, do ponto de vista socrático, é uma condição melhor que a vida, porque a eternidade passaria como qualquer noite de sono e se o cadáver de alguma forma voltasse a vida não poderia saber quanto tempo passou desacordado e o período da morte não seria-lhe relevante.

Aceitei que ele está morto. Mas a dor não pertence ao cadáver, a dor pertence aos vivos. Sinto falta dele e me arrependo de não ter dado a ele tanta atenção quanto ele merecia. Durante o drama artístico pelo qual passei, ele se prontificou a desenhar arte tradicional comigo e a me apresentar a outros artistas tradicionais. Quando eu era ameaçado, ele vinha e me protegia. Ele me tratava como o filho que nunca teve. E temo não lhe ter dado o devido respeito.

Hoje, resolvi visitar a antiga página dele e encontrei uma rima que ele fez para mim e eu nunca havia lido. É meio boba, eu sei, mas eu gostei… Posso imaginar o sorriso dele quando ele a escreveu e o sorriso que ele imaginou que eu teria quando eu lesse. Mas eu chorei. Sem dúvida, não foi a reação que ele esperava, mas eu não resisti.

Tinkle, Tinkle, little Yure
Yellow pee is very pure.
Diaper is a small size five
Change your butt then beddy bye
Tinkle Tinkle little Yure
crinkle butt is wet for sure.

Bom, ele sabe da minha parafilia. Quando jogávamos, eu assumia o papel de uma criança e ele tomava conta de mim, era tudo “faz de conta”, mas agora que ele se foi e nunca mais vai voltar, começo a pensar no valor que ele tinha pra mim e no quão feliz ele talvez ficasse quando jogava comigo. Acho que você só percebe o valor de alguém quando esse alguém se vai. Mas, de alguma forma, me sinto um pouco melhor ao saber que ele está morto; pior que saber que alguém que você ama morreu é não saber o que aconteceu e ficar sem resposta. Em julho, enviei mensagens preocupadas à ele e só fui saber o que aconteceu quando um outro amigo dele espalhou a notícia. Laghost, o tigre, me mostrou o jornal com a bomba. Fique completamente sem reação.

Ontem, cheguei ao cúmulo de pedir a Deus que Kiyote ressuscitasse, mas por que Deus me ouviria? Eu me afasto dele mais e mais a cada dia que passa, decepcionado com o mundo de hoje e pelo fato de Deus não mover-se a nosso favor. Se Ele não houve o choro de tantas pessoas, por que ouviria o meu? Ou o de Kiyote quando teve um aneurisma torácico?

Eu sinto muito, pai, mesmo sabendo que você discordaria, fui um mau filho. Sinto sua falta, muito mesmo, e nem se passaram dois dias desde que fiquei sabendo. Mas uma coisa é certa: você não sente nenhuma dor, provavelmente está melhor que eu e eu não posso trazê-lo de volta. Preciso continuar com minha vida. Essas lembranças me causam dor, contudo. Mesmo que você não esteja triste, poderia estar feliz agora me pondo para dormir e eu feliz com sua companhia.

A vida de Kiyote não era muito boa, contudo. Constantemente deprimido, tinha problemas de saúde e nunca se casou. E ele tinha quarenta, acho.

Sinto-me melhor agora. Mas ainda estou muito sensível. Melhor eu esquecer a rima por enquanto. Mas eu gostei dela e meu papai a fez para mim. Ele quer que eu a sorria a lendo. E queria cantá-la para mim. Acho que só poderei pôr os olhos naquela rima daqui a uma semana, no mínimo.

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9 Comentários »

  1. […] A música é chamada If e foi a primeira música (um cover) que ouvi do meu pai-de-pelo, que morreu de ataque cardíaco há um tempo. Ainda lembro daquele dia. Ele postou, aí eu ouvi e comentei algo […]

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    Pingback por Sinto falta. | Pedra, Papel e Tesoura. — 26 de dezembro de 2013 @ 19:28

  2. […] nenhum, já que as minhas crenças na pós-vida estão morrendo. É que o aniversário da morte do coiote está se aproximando e começo a ficar meio pensativo de novo. É daqui a dois meses. Mal conhecia […]

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    Pingback por Consolando na Vida Real. « Pedra, Papel e Tesoura. — 12 de setembro de 2012 @ 21:56

  5. […] não tenho muitos problemas com isso, dado que acontecimentos recentes me fizeram, finalmente, questionar a possibilidade de existência do Deus judaico-cristão (espero […]

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    Pingback por Ainda nada. « Pedra, Papel e Tesoura. — 6 de agosto de 2012 @ 20:41

  6. “Dou-lhe os meus sentimentos”

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    Comentário por Roger — 14 de julho de 2012 @ 00:36

  7. *hugs you tightly*
    I can’t say that I feel your pain, for I haven’t lost anyone that close to me… but I definitely do feel bad hearing such news. Death has always been something some of us fear, but the fear is not for ourselves of what could happen to us when we die, it is for the ones who still live; who could tell them you died? How would they feel?…
    God may not bring him back or listen to us (so it seems), but all we can do is hope and believe that Kiyote is much better right now than he is. That one of the theories is true and that he is in no pain; no more suffering, no more depression, just constant sleep and dreams (like in Hamlet’s speech).

    And being honest here, I didn’t know him, but seeing how close you were to him, I cried when I read the poem. I can’t stop it, but it feels so sad to read that now, even though the reaction expected from him, like you said, was another.
    I am sorry if I can’t say anything else… because i never knew what to say in these situations… all I can say is that my respects go for him and anyone who knows him and was close to him, including you…

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    Comentário por 1childish1 — 11 de julho de 2012 @ 17:25

    • Seeing that you care is more than enough to make me feel better. Em 11-07-2012 17:25,

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      Comentário por Yure T. Kitten — 11 de julho de 2012 @ 22:25


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