Analecto

1 de maio de 2013

Por que prefere ser mais anônimo?

Percebi que existem quatro comentários marcados como spam na minha fila de moderação. Normalmente, eu permito que comentários sejam postados sem qualquer moderação da minha parte, mas o filtro de spam do WordPress fica ativo o tempo todo, de forma a, sabe, bloquear spam.
Um dos comentários, contudo, foi feito à minha entrada “Bibliografia obscura” e não parecia spam, mas resolvi deixar na lista de spam só por precaução, embora eu esteja quase certo de não haver problema. Deve ser minha tara original por esconder meu IP mesmo sem necessidade e torcer o nariz para o menor suspeito.
Então, aqui vai o comentário, que inicia uma reflexão quanto ao bagulho:

POR QUE DESEJA SER MAIS UM “ANÔNINO”? [sic] TER UMA IDENTIDADE É MUITO MAIS FÁCIL. REALMENTE PREFERE NÃO TER ROSTO?

O autor do comentário, contudo, chama-se “Ninguém”. Bom, Ninguém, essa é uma boa pergunta. Por que eu quero me manter anônimo?
Poucos sabem, mas coleta de informação sem consentimento daquele que envia tornou-se comum. A todo o momento, empresas lhe rastreiam, se infiltram em seu navegador, pegam informação sobre quais sites você usa, de que site você veio, para qual site vai… essas informações são enviadas para essas empresas para propósitos mercadológicos. “Como assim?”, alguém pode perguntar.
Tenho um colega, um calango, que é tarado por fraldas e urina. Recentemente, ele notou que tem visto cada vez mais anúncios sobre fraldas no Facebook e outros sites que dependem de anúncios para funcionar. Ora, mas então os servidores sabem do que ele gosta? Sim, através dessas medidas de rastreamento. Então pode haver alguém lhe rastreando agora e enviando informações para alguma empresa sobre quais sites você visita? Pode. Mesmo os pornográficos? Sim. Mesmo os embaraçosos? Correto. As coisas que você talvez queira manter em segredo podem já ser bem conhecidas em empresas de alguma natureza. Mesmo que eles usem essas informações para propósitos comerciais e não queiram te atacar diretamente, muitos ainda não se sentem confortáveis com essa coleta. Primeiro, porque ela normalmente ocorre sem consentimento. Segundo, normalmente não há consentimento quanto ao quê essas empresas fazem com essas informações, a não ser que você leia e concorde com a política de privacidade do serviço (é sabido, contudo, que as informações podem ser vendidas para outros servidores). Mas essas informações estão seguras, certo? Não, informação em servidores é passiva de vazamento. Informações sobre o que você tem feito online, assim como seu IP (número identificador de usuário), podem vazar para mãos criminosas ou mesmo conhecimento público.
Além do mais, todos os dias são tirados direitos das pessoas, mesmo que de forma velada, e o direito a privacidade não é exceção. Dia após dia tenta-se tornar o cidadão cada vez mais explorável por aqueles que têm dinheiro ou mesmo pelos Estados corruptos. Fazer de tudo para continuar anônimo online é minha maneira de me agarrar com garras e presas a um direito que tem me sido quase vetado por anos de dormência. O que eu faço online é muitíssimo pessoal.
Mas IP e coisas assim são informações muito abstratas. Mesmo que venham a conhecimento público, eu não seria prejudicado por vazamento do meu IP, certo? Enganado de novo. Suponhamos que haja um serviço que atrele seu IP à sua conta (o Google faz, visto que ele dá chilique quando tento acessar o Gmail pelo Tor, dizendo que estou acessando com um IP “diferente do usual”). Num vazamento de informações, os dois, IP e nome, podem tornar-se conhecimento público. E não apenas nome. Preferências, perfil de personalidade, geolocalização e todas essas coisas que você partilha online. Você não só tem sua informação coletada simplesmente, você tem sua informação coletada por indivíduos que você não conhece e nem confia. Talvez os servidores em que essas informações são armazenadas não sejam tão seguros assim pra começo de conversa.
Meu navegador é configurado com Noscript, Self-Destructing Cookies, Donottrackme e Ipfuck. E nem isso garante anonimato completo e ausência de rosto. Se garantisse, não usaria Tor também.
Mas ter uma identidade é, sim, mais fácil. Mas o anonimato não garante ausência de rosto, porque sua personalidade ainda transparece, o que é natural. Talvez você seja uma página vazia para os servidores, mas as pessoas com quem você interage preenchem essa folha. Você ainda tem rosto, na mente daqueles em quem você confia, e não nos bancos de dados de servidores capitalizados.

Hoje, encontrei com outro amigo que não via há muito tempo. Conversamos por um tempo e ele eventualmente perguntou por que eu havia deixado o curso de Informática. Expliquei que era porque o pessoal achava que eu era ateu. No meio da conversa, uma mulher sentada à nossa frente, no ônibus, me perguntou:

Você é professor de filosofia?

Eu respondi que não, mas que estava chegando lá. Aí ela perguntou:

Você é ateu?

Eu disse que não e ela pediu desculpas por me chamar de “ateu” (como se isso fosse insulto). Expliquei pra ela que filósofos não necessariamente são ateus, embora muitos de meus amigos o sejam. Ela disse que, se eu tivesse dito que eu era ateu, ela iria me perguntar no que eu acreditava. Aí eu disse à ela que meus colegas ateus não acreditam em nada que não seja completamente racional (ou, pelo menos, acham que é assim). Ela torceu o nariz com todas as forças. Estranho.

Possivelmente me mudarei para a casa do meu pai, por questões de saúde. Nossos vizinhos vivem queimando coisas e a fumaça invade nossa casa. Antes de ontem, fiquei tão mal que achei que eu fosse desmaiar. Fico sem ar só de lembrar. Desisti de instalar o Unix Amiga Delitracker Emulator para o Audacious, porque precisei fazer mais links simbólicos do que eu tinha paciência pra fazer. Pena eu não rodar Fedora, porque é fácil achar esse plugin compilado em pacotes .rpm (converter pra .deb com Alien não presta). Bom, tudo bem. Posso tocar tantos formatos obscuros que acho que posso me dar ao luxo de reservar o bom e velho .mp3 para músicas que eu não puder arrumar em, sei lá, .tfmx. Afinal, melhor não ser tão ambicioso.

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9 Comentários »

  1. […] descobri, finalmente, como “torificar” um aplicativo. Como vocês já leram, me tornei ávido usuário da rede Tor para propósitos de anonimato. Mas ficar trocando entre […]

    Curtir

    Pingback por Guia de “torificação” para retardados. | Pedra, Papel e Tesoura. — 15 de maio de 2013 @ 20:39

  2. P.S. Tenho recebido muito spam recentemente tambem. É meio sinistro.

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    Comentário por alekbunny — 2 de maio de 2013 @ 16:17

  3. Sabe, muitos veteranos do metal (supostos amigos meus) dizem ser ateus, eu nunca tive problemas em lidar com eles. Talvez eu seja mais tolerante do que penso ou preciso ser.
    Isto deve significar que você tem fé em Deus? Afinal você disse à mulher que não é ateu. lol X3

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    Comentário por alekbunny — 2 de maio de 2013 @ 16:14

    • Não é fé, porque fé é crença não fundamentada. Na verdade estou é convencido de que Deus existe.

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      Comentário por Yure Kitten — 5 de maio de 2013 @ 13:04

      • Então você tem provas concretas da existência Dele? Uma explicação lógica?
        Se tiver escrito algum post referente gostaria que me indicasse o link por favor.

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        Comentário por alekbunny — 6 de maio de 2013 @ 20:30

        • Procure na Internet… “Cinco vias para provar a existência de Deus”. Foram inferidas por São Tomás de Aquino. E a “aposta de Pascal”. Eu acredito que deve haver uma substância que antecedeu a existência, que pode ou não ser racional. Poderia ser qualquer coisa, mas é necessário que haja algo que sempre esteve lá. Não é lógico que algo tenha vindo de outra coisa e assim infinitamente. Em filosofia, “Deus” nem sempre significa o Deus judaico-cristão, mas sempre significa substância independente criadora não-criada. Certo, talvez você concorde até aqui. Fato, “Deus” existe porque é necessário que algo sempre tenha estado lá. Mas eu não posso saber qual Deus. Aí entra a fé, que é de cada um.

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          Comentário por Yure Kitten — 9 de maio de 2013 @ 17:23


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