Analecto

7 de setembro de 2013

Experiência e pobreza.

A professora passou-nos uma tarefa. Ela nos deu um papel com trinta e quatro perguntas sobre o texto Experiência e Pobreza de Walter Benjamin. Na segunda-feira, teremos de escrever uma dissertação que responda a essas perguntas. Como de costume, sempre que estudo, ponho os resultados aqui.
1. De que forma Benjamin expõe a teoria do fim da mediação da tradição?
Ele comenta que não mais se tem interesse em passar a experiência de geração à geração. Os livros, a ciência, todas essas coisas são, necessariamente, contra a tradição popular. A ciência é autofágica, sempre se renova, devorando a si mesma. O que é velho não serve mais numa sociedade cientificista.
2. Qual a metáfora que ele utiliza para comentá-la?
Uma parábola em que um velho homem diz aos seus filhos que há um tesouro enterrado em seus vinhedos. O homem morre e os filhos começam a cavar a terra, mas sem achar nada, até que descobrem que os vinhedos são muitíssimo férteis, aprendendo assim, através da metáfora do pai, que o verdadeiro tesouro é o trabalho. Ao comparar essa parábola com o mundo de hoje, Benjamin torna claro que o conselho dos mais velhos não é mais tão levado em conta como antigamente e que a sabedoria oral cumulativa não mais interessa. O que interessa é o conhecimento científico.
3. Defina a autoridade.
É uma qualidade dada à uma pessoa por aqueles que decidem que ela é mais capaz em algum aspecto. Ligada ao renome e à sabedoria, a autoridade é uma qualidade que reveste o indivíduo de liderança, pois subtende-se que ele é capaz de comandar. A autoridade, contudo, diferencia do autoritarismo que é a autoridade usurpada e abusada. Ao passo que a autoridade relaciona com o respeito, o autoritarismo relaciona com o medo.
4. Que experiências os soldados aprendem na guerra?
Experiências horríveis, as quais eles gostariam de esquecer. Como não são experiências úteis à vida dos outros, ficam retidas neles, incomunicáveis. A experiência comunicável é a experiência útil que constrói o ouvinte. Mas a experiência de guerra não tem qualquer valor a quem ouve, normalmente.
5. Questão cinco eliminada.
6. O que provoca o desaparecimento da experiência?
A falta de experiências comunicáveis que passam adiante. Também a falta de quem as leve em consideração. As pessoas tentam sempre começar do zero, ignorando o que veio antes e submetendo o mundo ao seu julgamento, ignorando o progresso contínuo que foi feito até a geração anterior. Fora que experiências construtivas ficam cada vez mais escassas.
7. O que significa “uma geração […] viu-se abandonada numa paisagem diferente em tudo”?
Benjamin refere-se ao pessoal que foi mandado pra guerra. Sem preparo para o que estavam por ver e sentir, ficavam desnorteados. Pode-se aprender sobre guerra nos livros, de fato, mas a primeira experiência com a guerra é sempre traumática. Você não sabe o que é a guerra se nunca participou de uma.
8. O que significa a expressão “a angustiante riqueza de ideias”?
O oposto da miséria que surgiu com o desenvolvimento da técnica. Benjamin refere-se à astrologia, ioga, ciência cristã, quiromancia e outros mais. É como um resgate, uma renovação, dos saberes que, apesar de não pactuarem com a ciência tradicional, funcionam e podem ser comunicados por serem construtivos. Fazem parte do patrimônio cultural.
9. Comente a frase “a cópia da Renascença terrível e caótica”.
A variedade de costumes e estímulos que, apesar de serem patrimônio, são vagos e sem sentido quando abstraídos da experiência e da memória.
10. Explique “qual o valor de todo o nosso patrimônio cultural se a experiência não o vincula mais a nós?”.
Talvez tenhamos estátuas erguidas a heróis, por exemplo, mas não saibamos a história deles. Os monumentos, as homenagens e os costumes tornam-se mera repetição automática quando a memória não é capaz de associá-los às suas raízes, origens e razões por trás.
11. O que significa “a pobreza da experiência”?
É exatamente a tradição sem a memória. Não temos experiências boas para contar nem experiências capazes de construir a geração seguinte quando, tentados pelas novidades, jogamos o passado fora para começar do zero.
12. Comente a barbárie! O que é o bárbaro?
Eliminar o passado, contudo, tem um lado positivo: a barbárie positiva. Começar do zero, de formas criativas, pode gerar experiências novas para gerações futuras. Não que não seja ruim esquecer os porquês da tradição, mas, ao fazer isso, há a possibilidade da construção de uma nova cultura.
13. Qual a crítica que Benjamin faz à tradição?
A tradição do tempo de Benjamin não trazia consigo seus significados. Você pode dizer que alguém deve perdoar o próximo, mas por que perdoar? Os rituais, monumentos, feriados estavam desprovidos de propósito, visto que sua história estava sendo esquecida.
14. Que exemplo ele tira de Descartes? E de Einstein?
Descartes foi um bárbaro ao jogar toda a tradição filosófica fora provisoriamente para ficar apenas com aquilo que absolutamente fosse indubitável (que, por sinal, foi algo que ele encontrou, o cogito). Daí ele partiu. Einstein foi um bárbaro quando perdeu o interesse pelo resto da física para dedicar-se apenas às incoerências entre a física newtoniana e suas observações astronômicas.
15. Que significado Benjamin atribui ao termo “ao que está dentro” em oposição à interioridade?
O que está dentro é o motor que impele ao movimento, isto é, a necessidade, próximo da inspiração artística em Schelling (o impulso para criação). Não corresponde à subjetividade (interioridade).
16. Que relação existe aqui entre a crítica e a engenharia?
A crítica ao seu tempo é compatível com a engenharia daquele tempo que, ao surgir dos recursos materiais de um período histórico, impulsiona às mentes ao futuro, mudando a época e a forma do indivíduo de agir e pensar. A frase “[…] rejeitam o homem tradicional, solene, nobre, adornado com todas as oferendas do passado, para dirigir-se ao contemporâneo nu, deitado como um recém-nascido nas fraldas sujas de sua época” me toca.
17. Explique as frase: “desilusão radical com o século” e “total fidelidade a esse século”.
Desilusão porque ocorre a rejeição do passado e o desajuste da pessoa às outras que preferem agarrar-se a ele. Fidelidade porque não se é possível criar algo novo a partir do nada, logo é necessário usar os materiais existentes em seu tempo de uma forma inusitada. Não é possível, por mais que você odeie seu período histórico, fazer algo muito além dele.
18. O que significa para Brecht ser o comunismo “a repartição da pobreza e não da riqueza”?
É necessário entender o comunismo para entender essa crítica e o comunismo não é explicado no texto, mas vamos lá… O comunismo é a repartição igualitária de bens seguindo os conceitos de “ao necessitado o que ele precisa” e “do hábil o que ele produz”. O único jeito de essa crítica ter cabimento seria se o Estado não tivesse recursos o bastante para todos, o que faria com que a parte devida a cada um fosse muito pequena. A riqueza, antes nas mãos de poucos, passaria a estar nas mãos de ninguém.
19. O que significa para Loos a frase “Não escrevo para os nostálgicos da Renascença e do Rococó”?
Loos escrevia sobre coisas inovadoras, para gente com uma “sensibilidade moderna”. Ele não era um exaltador da melancolia.
20. O que é rejeitado na imagem do homem tradicional?
Como diz o texto: tradicionalidade, solenidade, nobreza, adornos com oferendas do passado.
21. Como se pode definir a crítica de Scheerbart?
Por meio de seus romances, Scheebart não descreve a realidade, mas como ela seria no futuro, quando a tecnologia mudou o ser humano e sua linguagem. Não dá, em seus romances, nomes “humanos”, como Pedro ou qualquer coisa dessa natureza, mas os nomeia conforme essa nova linguagem que nada tem a ver com o humano atual. Descrever o presente não é construtivo o bastante; é necessário voltar os olhos para as possibilidades de futuro arbitrário e inorgânico.
22. Por que hospedar em casas de vidro?
Porque o vidro translúcido é inimigo do segredo e da propriedade. Amigo também dos vizinhos tarados. O vidro, sendo um material no qual nada se fixa, deixa espaços vazios, abertos, nas paredes, no teto e no chão.
23. Compare uma casa de vidro com um dormitório dos anos oitenta!
É de lascar; nasci em 1992. Mas… nos anos oitenta, um dormitório era cheio de adornos, poltronas, estantes e tudo o mais que poderia consumir espaço. Não havia mais o que ser feito. Diferente da casa de vidro com paredes heterogêneas à qualquer quadro.
24. O que significa “as coisas de vidro não tem nenhuma aura?”.
Que são neutras, vagas, puras. Precisam de alguém que lhes adicione algo. Resposta vaga essa…
25. No ensaio de 1929 “O Surrealismo”, Benjamin havia dito: “Viver numa casa de vidro é uma virtude revolucionária por excelência. Também isso é embriaguez. Um exibicionismo moral que nos é extremamente necessário.” No presente artigo ele fala que “as coisas de vidro não tem nenhuma aura”. Relacione as duas afirmações.
A ausência de aura de um objeto realça as virtudes do dono. São coisas vagas que não dizem nada, logo você volta-se ao detentor do objeto. Viver numa casa de vidro é viver exposto, sem nada a esconder (eu passo, obrigado), nem nada que dê algo a mais a entender além daquilo que lhe é essencial.
26. Descreva o comportamento de um habitante em um interior burguês ao se quebrar algum objeto!
Eles ficam encolerizados, porque os rastros deles que foram deixados no lugar foram violados.
27. Qual a relação do comportamento com a arquitetura?
A aversão a esse comportamento pactua com o estilo arquitetônico Bauhaus. É um estilo reto, simétrico, resistente, onde é difícil deixar vestígio.
28. “Os homens aspiram libertar-se de toda a experiência.” Comente.
Eles querem começar de novo, negam a tradição e visam a novidade. É um momento em que nada dura muito.
29. O que significa a existência do camundongo Mickey?
A “existência cheia de milagres, que não somente superam os milagres técnicos como zombam deles”.
30. Qual o sentido da técnica para Benjamin?
Acomodar o indivíduo cercado pelas dificuldades diárias da vida.
31. Explique “um automóvel não pesa mais que um chapéu de palha.”
Refere-se ao desenho do Mickey, óbvio. À fantasia das pessoas fatigadas com as complicações da vida.
32. Que espaço existe para a vida?
Sei lá. Que tipo de pergunta é essa? O texto nada fala a respeito e responder fora do texto implica oferecer uma variedade de respostas de diferentes autores ou mesmo a minha. Tenho que responder pessoal? Se for, existe o espaço vazio que espera nosso conteúdo.
33. Como é avaliada a inversão de sentido?
Boa pergunta… Acho que como uma coisa nem completamente boa nem completamente ruim, por razões já discutidas.
34. O que recebemos em troca do “patrimônio cultural”?
“A miúda moeda do atual.”
35. O que significa a “capacidade de renúncia”?
A capacidade de negar o passado para dedicar-se ao incerto futuro.

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4 Comentários »

  1. […] Morus advoga que todos viveriam na abundância se os bens fossem comuns, mas seria necessária abundância de bens para isso ser possível. Do contrário, todos seriam pobres. […]

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    Pingback por Utopia. | Pedra, Papel e Tesoura. — 6 de fevereiro de 2016 @ 13:23

  2. […] pobres é maior que a de ricos. A riqueza, antes nas mãos de poucos, passaria a estar nas mãos de ninguém. E é por isso que o comunismo só pode existir dignamente se há abundância de bens e recursos. […]

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    Pingback por Suma contra os gentios. | Pedra, Papel e Tesoura. — 24 de novembro de 2015 @ 15:56

  3. […] 4. De que forma o fenômeno da guerra interferiu negativamente para o desaparecimento da narrativa? [As experiências de guerra,] Como não são experiências úteis à vida dos outros, ficam retidas … 5. Quais os dois tipos mais característicos de narradores? Por quê? O narrador estrangeiro, […]

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    Pingback por O Narrador. | Pedra, Papel e Tesoura. — 18 de setembro de 2013 @ 01:00

  4. […] que coloquei as respostas do teste de filosofia da educação neste diário. Foi rápido. Temo que, se alguém falar disso pra […]

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    Pingback por Nada que eu faço parece estar nos trinques. | Pedra, Papel e Tesoura. — 14 de setembro de 2013 @ 13:42


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