Analecto

18 de setembro de 2013

O Narrador.

O Narrador – Considerações sobre a obra de Nikolai Leskov – 1936.
1. Que relação existe entre o ensaio O Narrador e Experiência e Pobreza, de 1933?
O ato de narrar um relato é uma consequência da experiência oralmente comunicável, que estava em falta. O Narrador é como que uma continuação de Experiência e Pobreza.
2. Por que Benjamin introduz o ensaio sobre o narrador afirmando que ele não está mais entre nós?
Como dito, o ato de narrar é uma consequência da experiência oralmente comunicável. Sem experiência pra contar, sem necessidade de narrar. Não significa que o narrador deixou de existir, mas que existem poucos e que são distantes. Os traços de narrador, antes comuns a todos, passam a ser ostentados por poucos, servindo como barreira entre eles e as pessoas ditas “comuns”. Também vale lembrar que RPG não existia naquela época.
3. “São cada vez mais raras as pessoas que sabem narrar devidamente […] é como se estivéssemos privados de uma faculdade que nos parecia segura e inalienável: a faculdade de intercambiar experiências”. Qual a causa desse fenômeno?
A falta de algo bom para dizer. Narrar sem saber o que narrar normalmente termina numa narração podre, bem se sabe.
4. De que forma o fenômeno da guerra interferiu negativamente para o desaparecimento da narrativa?
[As experiências de guerra,] Como não são experiências úteis à vida dos outros, ficam retidas neles [os soldados], incomunicáveis. A experiência comunicável é a experiência útil que constrói o ouvinte. Mas a experiência de guerra não tem qualquer valor a quem ouve, normalmente.
5. Quais os dois tipos mais característicos de narradores? Por quê?
O narrador estrangeiro, porque”quem vem de longe tem muito o que contar” e o narrador local porque “conhece suas histórias e tradições.”
6 . Quais os representantes dessas figuras entre os autores alemães?
Hebel e Gotthelf pertencem ao tipo A, Sielsfield e Gerstäcker pertencem ao tipo B.
7. Qual o solo propício para o aparecimento do narrador? Como se dá a passagem de um aprendizado ao outro?
O sistema corporativo medieval, em que pessoas eram empregadas de longe, trazendo as experiências de seu povo, e então eram letradas na cultura local. Seria interessante também uns livros de Storyteller.
8. Descreva o aparecimento de Leskov nesse universo da narrativa.
Leskov tinha uma repulsa natural pela burocracia ortodoxa. À serviço, viajou por toda a Rússia, entrando em contato com todo o tipo de gente. Daí começou a escrever contos sobre essa gente engajada contra a burocracia.
9. Qual o personagem principal de Leskov? Qual o tema de seus contos?
O homem comum, justo e ativo, que se torna santo sem ter de passar por todo o lance ortodoxo chato.
10. De que forma o mundo prático entra na narrativa? Qual o estofo dos contos de Gotthelf, Nodier e Hebel?
Na forma de “conselhos” sobre coisas do dia a dia. Como os perigos da iluminação à gás, dicas de agronomia e coisas do gênero misturadas à narrativa.
11. Como se chama o conselho tecido na substância viva da existência? Explique!
Sabedoria. Naturalmente, sabedoria é o saber vindo da experiência, da reflexão, da discussão e da convivência. Ela não se origina nos livros e nas academias, que dizem coisas específicas que talvez você jamais use. A sabedoria difere por ser universal.
12. Comente de que forma o lado épico da verdade está em extinção.
Com o avanço técnico e a perda da experiência comunicável, perde-se esse aspecto épico (onde épico quer dizer histórico; originalmente, épico era o poema que relatava o início de uma civilização).
13. Qual o primeiro indício da morte da narrativa?
A morte da sabedoria. Hoje em dia, Dungeons & Dragons 4.0.
14. O que acelerou o seu aparecimento?
Avanço técnico e a invenção do romance. Hoje em dia, 3D&T Alpha.
15. Qual a diferença entre os dois gêneros: romance e narrativa? Qual a origem do romance?
O romance origina-se com a imprensa. É algo fundamentalmente literário e não oral. Enquanto que a narrativa é fruto da experiência do narrador, o romancista inventa e raramente tem experiência daquilo que escreve.
16. O que aconteceu quando se tentou injetar o exemplo no gênero romance?
Criou-se o romance de formação, que nem é tão diferente assim.
17. Há uma forma de comunicação, estranha à narrativa, que atualmente influencia a forma épica. Que forma é essa? Comente sua natureza!
A informação, que atrai por ser verificável. Um incêndio nas proximidades atrai mais que a revolução num país distante, porque é mais palpável.
18. Com que palavras Vilemessant, o fundador do jornal Figaro, descreveu essa forma de comunicação?
“Para meus leitores”, costumava dizer, “o incêndio num sótão do Quartier Latin é mais importante que uma revolução em Madri”.
19. De que forma se diferenciam informação e narrativa?
A informação pode sempre ser confirmada quanto mais palpável e próxima ela for. Por isso ela atrai.
20. De que maneira a informação inibe a criatividade?
A narrativa frequentemente recorria ao miraculoso. A informação não. Sem o miraculoso, a narrativa fica “seca”, científica, desinteressante. A rica narrativa tradicional, contudo, é deixada de lado por não ser suficientemente crível.
21. Comente os textos “A Fraude” e “A Águia Branca” de Leskov!
Como eu nunca li, tenho de citar Benjamin: “O extraordinário e o miraculoso são narrados com a maior exatidão, mas o contexto psicológico da ação não é imposto ao leitor. Ele é livre para interpretar a história como quiser, e com isso o episódio narrado atinge uma amplitude que não existe na informação.”
22. Descreva o comportamento do rei egípcio Psammenit descrito nas Histórias de Heródoto!
Ele teve de aturar seus filhos tornando-se escravos, mas só ficou desesperado ao ver um de seus servidores ser preso.
23. Explique a frase: “o tédio é o pássaro de sonho que choca os ovos da experiência.”
O descontentamento com o mundo atual abre caminhos para um uso novo daquilo que já foi dito.
24. De que forma o tédio é um condicionamento do nosso tempo? Qual sua origem?
As pessoas de hoje são muito “na delas”. Não conversam mais, não mais contam o que aconteceu de interessante entre elas, e cada vez menos quanto mais trabalham.
25. Comente de que maneira as atividades ligadas ao tédio se extinguiram na cidade.
O trabalho solitário e veloz da cidade, diferente do lento e coletivo trabalho do campo, não permite, por exemplo, que se conte um relato para passar o tempo.
26. Qual a atividade que era exercitada enquanto se contavam histórias?
Trabalho manual.
27. Comente: “assim se imprime na narrativa a marca do narrador, como a mão do oleiro na argila do vaso.”
Naturalmente, sempre que um conto é narrado, ele é narrado do ponto de vista do narrador. Suas características são impressas no conto, sua personalidade transparece, mesmo que seja apenas na escolha das palavras.
28. De que maneira Paul Valéry descreve o mundo dos artífices?
“O produto precioso de uma longa cadeia de causas semelhantes entre si”.
29. Por que Benjamin olha com melancolia o fim da arte de narrar?
A melancolia é como a saudade, é o olhar para trás. Claro que ele olharia tal fenômeno com melancolia, afinal a narração é uma ótima e valorosa arte, tanto para propósitos de entretenimento, como de conselho e educação, além de ajudar na preservação da história de um povo.
30. “A morte é a sanção de tudo o que o narrador pode contar.” Explique!
A forma como se vive modifica a forma como se morre. Se você narra suas experiências, o ouvinte aprende sobre você e sobre sua história. Quando o narrador morre, os ouvintes podem pensar: “da forma como ele nos disse que viveu, faz sentido ele ter morrido assim.”

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1 Comentário »

  1. […] Yure. O Narrador. Disponível em: <https://pedrapapeletesoura.wordpress.com/2013/09/18/o-narrador/&gt;. Acessado em: […]

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    Pingback por A mímese e os desafios da educação informal. | Pedra, Papel e Tesoura. — 18 de julho de 2015 @ 13:04


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