Analecto

25 de setembro de 2013

Enjaulados.

A semana filosófica começa na próxima segunda-feira e amanhã poderei escolher os cursos que me interessarem, além de assistir palestras como mulher raivosa. Meu padrão de sono está desarrumado ainda e hoje nem consegui tirar uma soneca decente à tarde. Pelo menos assim posso tentar dormir cedo. Nem consegui tirar a droga das cópias de que precisava. Uma pena.
De toda forma, este felino preguiçoso que vos fala irá apresentar-se amanhã. Aqui vai o texto da apresentação de Psicologia da Aprendizagem para os pescadores de trabalhos…

Enjaulados (Detention ou Learning Curve), 1998, de Andy Anderson.

Yure Kitten

Há quatro tipos de personagens: o professor, os funcionários da escola, o aluno que quer realmente estudar e os alunos ditos “baderneiros”. O professor (que é substituto) é humilhado constantemente pelos alunos daquela escola, que desencorajam todos os outros funcionários. Os funcionários são oprimidos pelos alunos, tanto moralmente quanto fisicamente, e não querem entrar em conflito com os interesses deles (logo não há lições de formação humana ou filosofia ou qualquer coisa que poderia incitar um debate). Os alunos baderneiros, obviamente, atrapalham os poucos alunos que realmente querem aprender.
O professor substituto tinha de aturar a conduta dos alunos e fez o possível para manter o controle. Mas, certo dia, uma de suas colegas foi atacada por uma aluna e espancada violentamente. Vendo que a situação era realmente desesperadora, o professor resolveu que mudaria a conduta de seus alunos de alguma forma. Ele organizou uma excursão com os alunos e deu-lhes lanche no ônibus, mas o lanche tinha sedativos. Quando os alunos adormeceram, foram levados ao mato, onde havia uma grande jaula circular. Eles tiveram suas roupas confiscadas e foram colocados dentro da jaula enquanto ainda dormiam… até serem acordados por uma alta e irritante música que repetia por horas. As barras da jaula eram eletrificadas e o professor lhes ministrou aulas do lado de fora. À medida que as notas dos alunos subiam, eles recebiam suas roupas de volta, ganhavam direito de tomar banho e outras coisas do tipo. Os que insistiam em desrespeitar o professor eram eletrocutados. Apesar disso, com o passar do tempo, eles ficavam cada vez mais dóceis e passaram a respeitar o professor, além de terem aprendido lições de moral e respeito durante o cativeiro.
O filme carrega a mensagem de que o comportamento de um ser humano normal sempre pode ser corrigido mediante o estímulo correto, mesmo que extremo.
Heráclito professou que todos têm uma coisa chamada “logos”, palavra de difícil tradução que pode ter significados como “palavra, enunciado, definição, discurso, explicação, cálculo, medida, avaliação, razão, causa, pensamento, necessidade e outros mais” (NICOLA, p18). Porém, não são todos os que sabem dessa faculdade. A maioria das pessoas ignora o logos que elas têm por causa de outras coisas, geralmente mais baixas. No caso dos meninos do filme, eles queriam subjugar os professores e fazer valer seus desejos egoístas, repelindo sistematicamente qualquer forma de educação. Porque isso lhes dava uma imagem aceitável perante outros alunos. Os alunos que não participavam dessa busca pela imagem de aluno “bad boy” eram excluídos. Não são todos que se dedicam a elevação de bens espirituais como a sabedoria e a razão, principalmente hoje, num mundo saturado de respostas prontas e distrações que impedem as pessoas de dedicarem tempo aos significados, às definições, às explicações, à avaliação, às razões. Principalmente hoje, o logos é de poucos que resolvem trilhar o árduo caminho de fazer dele um meio de viver, como a filosofia e a ciência.
Ainda assim, pessoas ignorantes, isto é, os que não sabem e não querem saber, julgam-se espertas, inteligentes, tornando-se arrogantes e prepotentes por saberem das coisas imediatas e rejeitarem qualquer coisa que não tenha utilidade à curto prazo. Muitos, apesar disso, respeitam aqueles que têm autoridade e cujos títulos sugerem que seus detentores são mais sábios, mas existem aqueles que rejeitam mesmo essas autoridades por aceitarem como meio de vida aquilo que elas acreditam ser sem valor, por ser difícil, desgastante. Essas pessoas rejeitam e zombam dos professores, dos filósofos, dos cientistas, por dedicarem-se à trabalhos difíceis e ficarem à sombra de celebridades fúteis que recebem atenção e dinheiro. Elas cultuam a ignorância como forma de status e a balanceiam com “esperteza”, pragmatismo e cinismo. Assim, basta ser “esperto”, levar vantagem e fazer o mínimo de esforço. Similar ao que acontecia nos tempos de Sócrates, quando ele notou que é importante saber que não se sabe, porque, quando você acha que sabe de tudo que é realmente importante à sua vida, você se fecha para novos conhecimentos ou os descarta como fúteis. Os alunos realmente não queriam aprender nada da escola, porque consideravam que o que se aprende na escola é difícil, árduo e simplesmente irrelevante. Aprender o conteúdo escolar não era necessário; pra quê estudar aquilo? Os alunos se achavam “espertos” ao rejeitarem aquilo que não tinha utilidade imediata e, cheios de si, julgavam já saber o necessário para viver. Algo similar ao aluno cuja única aspiração é aprender uma profissão técnica e ganhar dinheiro. Isso é uma baixíssima manifestação de egoísmo e ignorância.
Por outro lado, o sofista Górgias já havia associado palavra à magia. Existem palavras capazes de incitar ou acalmar emoções, palavras que até mesmo podem desencadear reações físicas como o rubor (NICOLA, p46). Palavras podem mudar o comportamento de alguém. O professor, durante o cativeiro, faz alguns discursos aos seus alunos que são forçados a prestar atenção e, pouco a pouco, mudam de comportamento.
Galileu (NICOLA, p212) narrou certa vez uma dissecação pública que pôs em evidência que os nervos partem do cérebro, não do coração, como dizia Aristóteles. Um aprendiz da escola aristotélica foi então testado, após ver a dissecação com seus próprios olhos. Foi-lhe perguntado se sua opinião quanto a Aristóteles havia mudado e ele respondeu que, mesmo tendo provas o bastante de que Aristóteles estava errado, preferiu acreditar no que lhe foi oferecido pela sua escola. Talvez os alunos do filme tenham resistido à educação moral dos professores anteriores por já terem sido ensinados o contrário em algum outro lugar, como a família. Metade da educação vem de casa. Os alunos são, em sua maioria, rebeldes sem causa, desajustados, provavelmente vindo de famílias desequilibradas. Como ensinar que se deve dizer a verdade quando o aluno já aceita que mentir para levar vantagem é sempre válido? Especialmente porque, diferente do caso de Galileu, você raramente tem um caso concreto que possa servir de prova irrefutável, enquanto que o aluno provavelmente já se aproveitou da ignorância dos outros no passado e obteve bons resultados.
Isso, no final, lembra da célebre tese de Hobbes, de que o ser humano não é um animal bom por natureza como queria Rousseau, mas perverso, violento e covarde, que deve ser educado da maneira correta e devidamente coibido pela vida em sociedade. Num artigo da revista Superinteressante havia o seguinte:
“Os bebês só não matam uns aos outros porque não lhes damos acesso a facas e revólveres”, disse o pediatra e psicólogo Richard Tremblay, da Universidade de Montreal, em uma entrevista à revista americana Science. A grande questão, ele completa, não é como as crianças aprendem a agredir, mas como elas aprendem a não fazer isso (VERSIGNASSI, REZENDE).
O professor, na sala de aula, é imbuído de um certo nível de autoridade. Será que o professor, como o Príncipe, deveria conhecer técnicas políticas para evitar uma “rebelião”, como ressalva Maquiavel? Em Maquiavel, existem virtudes a serem evitadas (NICOLA, p193). O professor não pode ser manso demais, não pode ser mesmo muito “bonzinho”. Também há “vícios” que devem ser empregados, como a devida punição proporcional ao erro, mesmo que o professor tenha que recorrer a superiores. Por outro lado, não pode abusar de seu poder para não atrair o ódio dos súditos (ou alunos) bem como não pode abusar das recompensas para não parecer fraco. Mas o professor no filme foi bem maquiavélico ao escolher ser temido para só então, durante o cativeiro, ser amado.
Outro fator que poderia levar o aluno a desiludir-se com a escola é algo observado por Husserl: a incapacidade da ciência moderna de responder as questões fundamentais do ser humano. A ciência não é contestada, contudo, não é um problema referente à validade da ciência, mas à capacidade da ciência de dar-nos significado. A ciência ainda não responde de forma satisfatória muitas de nossas questões (NICOLA, p459). Pra quê aprender matemática ou português, por exemplo, se isso não me acrescentar o que quero que me seja acrescentado? Qual o significado da vida? Posso ter segurança no futuro? Infelizmente, a tendência imediatista dos jovens do filme quer respostas prontas e não está disposta nem mesmo às longas elucubrações filosóficas. Isso elimina qualquer forma de responder à essas perguntas e implica o fechamento do aluno à quase todas as disciplinas.
Talvez não houvesse outro meio de se educar a classe, visto que eram alunos violentos, agressivos e perigosos. Que outra solução poderia haver para aquela situação? Ou se apelava para algo extremo como aquilo (o medo) ou se desistia, porque o respeito do aluno não se podia obter. Novamente, embora salas como aquela existam, um filme tende a exagerar para mostrar uma mensagem.
1. ANDERSON, Andy. Enjaulados [filme-vídeo]. Produção de Andy Anderson e direção de Andy Anderson. 1998. 1 DVD, 110 minutos, NTSC, cor, som.
2. NICOLA, Ubaldo. Antologia Ilustrada de Filosofia: das Origens à Idade Moderna. Tradução de Maria Margheritta de Luca. São Paulo, 2010.
3. VERSIGNASSI, Alexandre e REZENDE, Rodrigo. Evolução da Evolução. Superinteressante edição 240.

Satisfeitos, docinhos de caju? Bom saber.

Anúncios

2 Comentários »

  1. […] os últimos dias sem Internet, então re-li um livro que eu não tocava há muito tempo. Fora isso, fiquei jogando Nimin, um jogo de índole no mínimo […]

    Curtir

    Pingback por Vivendo e aprendendo. | Pedra, Papel e Tesoura. — 11 de dezembro de 2013 @ 21:15

  2. […] mesmo que isso signifique emburrecer linguagem usada. Finalmente pude apresentar meu trabalho de psicologia da aprendizagem. Foi um sucesso total, embora eu estivesse um pouquinho nervoso. Nada que me impedisse de […]

    Curtir

    Pingback por Que bom que “SPC” baixa rápido. | Pedra, Papel e Tesoura. — 19 de outubro de 2013 @ 14:55


RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: