Analecto

25 de outubro de 2013

Obrigado!

52_-Valkyrie_ProfilePS1-_A_tense_atmosphere.ogg.

Na última aula, nos encontramos numa atmosfera muito tensa. Apesar de a greve geral não ter sido deflagrada, um grupo de alunos bloqueou a entrada de algumas salas com cadeiras, fez barulho em frente e dentro de outras salas para impedir as aulas e espalhou para os alunos que chegavam que o estado de greve geral já estava anunciado e que não haveria aula. Com isso, dos poucos que entraram, muitos saíram. Nossa sala, contudo, ficou. Eu fiquei de tocaia na porta para avisar à professora e os outros alunos se alguém vinha. Alguns alunos revoltados, eu inclusive, resolveram revidar se eles invadissem a sala para proclamar sua greve e propósitos totalmente antidemocráticos (a maioria dos alunos, a devastadora maioria destes, é terminantemente contra a greve geral). Quem é contra a greve é agredido verbalmente e humilhado em grupo. Se você disser que é contra, pelo menos quatro indivíduos a favor aparecerão para argumentar com você e vencê-lo mesmo que com argumentos ad hominem. Então fazemos silêncio quanto à nossa posição por enquanto.
Nossa sala bolou uma estratégia, contudo: teremos aula por e-mail e, com sorte, três aulas finais durante a greve. A localização das aulas, porém, é oculta. Isso deve despistá-los. Nosso grupo está muito nervoso quanto a isso tudo; não se sabe quando a greve terminará e boatos falam de uma greve de um ano, como aconteceu da última vez. Por outro lado, poderemos pelo menos ser aprovados nesta disciplina em especial, a qual não revelarei o nome.
A greve reivindica melhora de condições e concursos para professores efetivos, além de uma lei orgânica que fiscalize as verbas que vêm para a universidade. Certo, concordo quanto a carência de professores, mas a melhora de condições é uma causa desnecessária pela qual lutar, a não ser que você estude no Campus do Itapipoca. O nosso Centro não precisa. Talvez porque eu venho de uma escola muito pobre, estou acostumado a trabalhar com pouco e me dar muito bem. Sempre tive professores muito bons que sabiam trabalhar com pouco, mesmo sem lousa às vezes, sem vídeo nem nada desses recursos acadêmicos que são totalmente desnecessários. É por isso que minhas apresentações são sempre muito “secas”: não uso vídeo, não faço dinâmicas, mas sempre apresento da melhor forma possível, oralmente, abrindo espaço para o debate e respondendo perguntas dos alunos que questionam minhas apresentações, seminários e coisa e tal. Desde que haja uma pessoa querendo aprender e uma pessoa querendo ensinar interagindo no mesmo local, dá pra fazer uma escola ali. Claro que não seria algo formal, com diploma e tudo o mais, mas nem diploma é necessário para ensinar alguma coisa. Na escola em que eu estudava, os ventiladores queimaram, os banheiros entupiram, maior parte do terreno era mato, a diretora era corrupta, mas aprendíamos. Os professores eram ótimos, dedicados, a taxa de evasão era baixa, nunca vi acontecer bullying, tudo isso apesar de um dos pavilhões estar para cair sobre nossas cabeças. Aliás, o teto da sala de multimeios caiu sobre a cabeça de um monitor. Achei foi bom; ele era muito arrogante. A taxa de aprovação era alta e não havia golpe nisso: eu havia sido reprovado em várias disciplinas, especialmente ciências exatas, e não havia recuperação. Nós éramos aprovados porque estudávamos. Isso mostra que as condições precárias do Centro não chegam nem perto das condições precárias da minha escola de Ensino Médio. A reivindicação por melhoras de condição me soa como birra de moleque mimado. Por outro lado, como eu disse, concordo que devamos fazer greve para aumentar a quantidade de professores efetivos, mas ainda assim sou contra esta greve em especial por um motivo muitíssimo simples.
Todas as coisas que a creche conseguiu protestando foram obtidas por meio de movimentos organizados e bem planejados em que pelo menos a maioria estava unida por um objetivo comum. Isso não acontece nesta greve. Temos assembleias de alunos a favor e contra-assembleias feitas por alunos contra. A grande maioria não quer e é uma maioria de muito peso. Mesmo que os que estão a favor se mobilizem, a quantidade de gente a favor é pequena em comparação com os contra. Esta greve está dividida. Aí reside o problema. Se os contra se mobilizarem contra os que estão a favor, a greve acaba. Mesmo que os professores estejam a favor. Eles ficarão frustrados, mas e daí? A maioria achará ótimo que o Campus do Itapipoca proteste sozinho, talvez junto com o Itaperi. Com o tanto que não nos envolvam nisso. O problema é que, depois dos movimentos de junho, o pessoal acha que se faz protesto de qualquer jeito.
Continuo sendo contra a greve e espero que minha classe continue tendo aula, mesmo que por baixo dos narizes desses loucos.
Além do mais, alguns alunos vão longe demais em proclamar essa greve. Primeiro porque a greve geral, não estando deflagrada, não estava lá de fato para dar qualquer direito de alunos invadirem as salas de aula para interferir com o direito de estudar dos outros alunos e com a aula dos professores que sabiam que a greve não havia começado. Uma aluna me falou que eles puxaram uma professora idosa para fora da sala pelo braço. Isso não é crime? Agressão não é apenas agressão física e eles ficaram, durante todo o estado pré greve, entre nós e as aulas, portanto interferindo no exercício do direito de estudar. Isso é baderna, meramente baderna. Aliás, quanto mais eles agem assim, mais contra os contra ficam. Quando ficarmos enraivecidos o bastante com esses barulhentos… Bom, não conseguirão apoio nosso nem que um raio nos parta.
Eu sei que estão fazendo isso por todos nós, então, quer a greve dê certo ou não (por nossa causa ou não), bom pra nós. Obrigado! Que mais você quer?

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3 Comentários »

  1. […] publicarei na Internet após terminado e avaliado). Já a professora de Psicologia da Aprendizagem, nossa heroína, disse que estou […]

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    Pingback por A raiz dos meus problemas. | Pedra, Papel e Tesoura. — 30 de janeiro de 2014 @ 18:15

  2. […] os alunos, embora fossem contra em sua maioria, a maioria dos professores é a favor da greve. Na entrada em que falei que, se a maioria se mobilizasse, a greve acabaria, eu pensei que o aluno tivesse voz […]

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    Pingback por Estudar em casa meio que não tem tanta graça. | Pedra, Papel e Tesoura. — 30 de outubro de 2013 @ 23:36

  3. […] que é uma perda total, afinal nem estava mesmo com vontade de ir mesmo. Me interessa, contudo, a aula de terça-feira. Desisti do Ren’Py e voltei a redigir histórias comuns. Mas, desta vez, tentarei fazer […]

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    Pingback por Não posso dizer que é uma perda total. | Pedra, Papel e Tesoura. — 29 de outubro de 2013 @ 21:03


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