Analecto

29 de dezembro de 2013

Os tropos da emetofobia.

Filed under: Saúde e bem-estar — Tags:, , , — Yure @ 00:18

Esses dias conversei com um coleguinha que me encontrou via Fur Affinity. Conversamos principalmente sobre emetofobia. Para quem não é familiar com o termo, emetofobia é o medo irracional de vomitar. Por irracional, entendemos “sem razão”; você não sabe por que tem medo de vomitar, provavelmente esteja saturado de saber que o vômito, não raro, é uma resposta natural e saudável à algo que lhe fez mal, mas você teme de qualquer jeito. Está além do seu controle. De acordo com Wolfy, que tem fobia social, medos específicos tendem a ser mais difíceis de superar em comparação a medos vagos. Um emetofóbico terá menos crises que um fóbico social, mas serão crises consideravelmente mais intensas. Serão crises fortes, aterrorizantes e por vezes traumatizantes.

Tenho emetofobia há muito tempo. Não sei exatamente quando e como começou, mas consigo me lembrar de um tempo, por volta dos quatro anos, em que eu não tinha este medo. O episódio mais traumático que consigo puxar da memória foi algo que aconteceu aos cinco anos, enquanto eu andava com meu pai. Vomitei em praça pública. Meu pai reagiu bem, me confortou enquanto eu chorava como um desesperado; aquilo realmente tinha me marcado. Por outro lado, eu tive uma outra experiência menos intensa, mas ainda assim desagradável, quando peguei hepatite A meses antes. Eu não tinha medo de vomitar naquela época, mas minha mãe e minhas professoras faziam piada do ocorrido depois que melhorei, sendo que eu ficava encabulado por ter minha doença discutida pelos adultos como se não fosse nada. Eu queria que fosse mantido em segredo, se possível, porque já naquela época eu achava o ato de vomitar extremamente embaraçoso.

Atualmente, tenho vinte e um anos e acabo de perder o apetite. Mas vou continuar tomando este leite achocolatado vitaminado porque sei que a pequena náusea que estou sentindo na verdade não é real. Ela começou porque comecei a discutir o assunto. Acredito que, após viver uns dezesseis anos com este medo ridículo, estou em posição de discutir o que funciona comigo e o que não funciona, para que outros indivíduos possam decifrar os tropos de se conviver com uma fobia que até faz perder peso.

Pra começar, Pilou uma vez me falou que hipnose pode eliminar meu medo e o Hipnobeast, que é bacharel em hipnose, confirmou isso. É possível hipnotizar alguém através do Skype, embora seja recomendado algo mais “presente”. Enquanto você não desembolsa grana o bastante pra uma consulta com um hipnotista, considere aprender autohipnose. De acordo com Pilou, todos nós praticamos isso quando desejamos dormir. Pilou até me disse que a hipnose pode curar alergias, visto que alergias são reações à partículas normalmente inócuas, sendo assim um erro de aprendizagem do corpo, ou melhor, da mente que o controla inconscientemente.

Se sua mente torna isso real, que nem no Matrix, então talvez possamos controlar não apenas nossa fobia, mas náusea legítima também se conseguirmos entender os tropos que envolvem nossos medos e seus objetos.

  1. Entenda como uma náusea funciona, mas não procure entender isso sem entender as causas da náusea. Estudar náusea sem estudar as causas pode fazer um emetofóbico sentir-se enjoado, porque a descrição do processo dá brinquedos com os quais a mente inconsciente pode lhe importunar. Conhecer as causas pode lhe ajudar porque você pode dizer a si mesmo “ah, eu não tenho razão pra estar enjoado, já que não comi nada estragado nem estou doente”. Conhecer as causas pode ajudar um emetofóbico a identificar quando ele está genuinamente enjoado e quando ele está simplesmente ansioso. Se ele estiver somente ansioso poderá ficar tranquilo; nenhum emetofóbico vomita de ansiedade.
  2. Coma, sim, mas coma devagarinho. Adote hábitos alimentares mais saudáveis e, se possível, prepare sua própria comida. Você precisa se alimentar bem, o que não significa se alimentar demais, para aumentar sua resistência à doenças, inclusive doenças cujos sintomas ou mesmo o tratamento podem lhe causar náusea. Preparar a própria comida, contudo, permite que o emetofóbico tenha certeza de estar fazendo tudo certinho, de que está com as mãos limpas, de que os produtos estão na validade, além de estar aprendendo a ser mais independente. Coma pequenas porções por colherada e mastigue bem para facilitar a digestão. Se necessário, coma de colherinha.
  3. Muitas vezes, o que interpretamos como náusea na verdade são processos digestivos normais. Como somos paranóicos, prestamos atenção exagerada à esses processos e atribuímos a eles um significado que lhes é totalmente inapropriado. Talvez você só precise de um arroto. Ou outra coisa do outro lado, mais embaixo.
  4. Arrume um placebo para as crises. Antes de eu sentir uma dores sacanas no lado direito da barriga, eu comia sal sempre que estava enjoado. Isso, obviamente, faz mal pra saúde e não funciona pra enjoo. Mas matava meu enjoo porque, na época, eu achava que funcionava. Ache algum ritual, prece, placebo, hábito na Internet que possa lhe dar segurança durante uma crise. Se você estiver convicto de que está fazendo algo para reprimir o vômito e repetir a si mesmo que não vai vomitar porque “fez o processo correto” para evitar o vômito, ele sumirá se for um enjoo artificial, criado pela sua mente. Especialmente porque, se o método que você achou for bom mesmo, vai acabar funcionando pra náusea legítima. No meu caso, masco pasta de dente (menta alivia enjoo), claro que sem engolir porque isso pioraria minha situação. Conforme você se acostuma com as crises e elas perdem intensidade, você precisará cada vez menos do placebo.
  5. Medicamentos pra enjoo são muito agressivos e talvez seu problema esteja no cérebro e não no estômago. Emetofóbicos tendem a abusar de antieméticos, o que não saudável. Considere trocar o antiemético por um calmante. Além do mais, o vômito em si não é algo ruim, é nosso medo que é. Faz mais sentido atacar o medo do que um sintoma que talvez não estejamos de fato sentindo. Aos quatorze anos, minha mãe e minha psiquiatra combinaram de pregar uma peça em mim: me davam Diazepan ao invés de Dramin B6 quando eu tinha náusea. Se eu estivesse realmente enjoado, Diazepan não deveria curar meu enjoo. Se eu estivesse realmente enjoado, vomitar seria consideravelmente menos traumático se eu estivesse sob efeito de um calmante ou sedativo ao passo que eu estaria convicto de que o remédio que eu tomei me impediria de vomitar.
  6. É notável como o medo parece mais forte quando tem gente por perto, mas, mesmo assim, se tiver uma crise enquanto você está em grupo, verifique se todos comeram o mesmo que você. Como é que só você passou mal? Talvez seja porque você está em grupo, sua atenção aos seus sinais corporais foi redobrada.
  7. Considere ver um psicólogo bom. Não pode ser qualquer um, porque minha última psicóloga atrapalhava mais do que ajudava. Minha psiquiatra acabava fazendo o trabalho dela. Muita gente vai ao psicólogo ou psiquiatra hoje em dia, isso não é nenhuma vergonha. Conselho profissional pode lhe ajudar a viver mais e melhor, então ao menos experimente.

Acho que é isso que funciona comigo, o que pude observar nestes últimos anos. Conforme me acostumo com minha fobia, as crises ficam mais fracas, menos frequentes e até estou ganhando peso. Não tenho intenção de superar meu medo, contudo, porque sou um covarde. A melhor opção ainda é vencer o medo, mas isso nem sempre é possível para nós porque o medo causado pela emetofobia e qualquer outro medo patológico é tão forte e absurdo que chega a ser indescritível. Nem sempre é uma batalha fácil de ser ganha, nem sempre os esforços compensam. Sim, nem sempre viver normalmente compensa o que você tem que passar pra chegar lá. É o quão penoso isso é. Se você conseguir, meus parabéns, eu fico por aqui.

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