Analecto

10 de fevereiro de 2014

Minha carta aos infantilistas.

É notável como muita gente vem ao meu diário procurando curas para as suas sexualidades. Vez por outra aparece alguém querendo parar de se masturbar ou de vestir fraldas e agir feito bebê. Este diário não é sobre como parar essas coisas e, por vezes, as estimulo. Muita gente é obcecada pela ideia de ser “normal”. “Não faz sentido que eu goste agir e ser tratado como bebê; ninguém mais sente isso!”, pensam. Mas o problema não reside nas diferenças entre as pessoas e sim no desejo mórbido de ser como todo o mundo. A seguir, deixo minha carta aos infantilistas.

Enquanto ser como os outros é, por vezes, proveitoso na vida pública, você não precisa querer ser como todo o mundo mesmo na sua vida privada. Que diferença faz você ser “um bebê” entre as paredes de seu quarto? Ninguém nunca vai ficar sabendo e isso não vai, necessariamente, arruinar sua vida social.

Além do mais, não tem como você querer ser como todo o mundo mesmo na sua vida privada porque você não sabe como é a vida privada dos outros. Os outros podem passar pelo mesmo que você ou até pior e se você quer ser como os outros é porque suas vidas privadas não influem negativamente sobre suas imagens públicas. Ninguém precisa ficar sabendo o que você faz em seu quarto, ao seu computador, que tipo de coisas você lê ou assiste; isso não é da conta de ninguém e nada disso é motivo de alarde na medida em que não prejudica você ou os outros. O problema das pessoas é assumir que ninguém é como elas e que seus comportamentos anormais são necessariamente perniciosos, o que não é verdade.

Meu professor me contou de um cara que estava preocupado quanto a condição mental de seu filho: ele não fumava, não bebia, não ia pra festas e só queria saber de estudar. Será que ele está errado por não agir conforme o esperado pelo seu círculo social? É normal que as pessoas mintam, mentir por vezes é “necessário” pra muitas pessoas, mas é mentir uma coisa boa só porque a maioria faz? Morrer é normal, só por isso é bom? A super dotação também não é normal e todo o mundo gostaria de ter uma inteligência maior que a média. Fora que, ao agir como todo o mundo, você contribui para a estagnação da sociedade. A sociedade, lógico, só avança por causa dos benéficos comportamentos anormais, ações não usuais, pensamentos únicos e às vezes incompreendidos. Não avançamos em nenhuma direção ao imitar os outros à custo de nossa individualidade.

Demonstrado que ser normal (agir conforme a norma) não é necessariamente bom, pare e avalie seus comportamentos. Talvez infantilismo não seja exatamente construtivo no âmbito global, mas será que ele é construtivo pra você? A sexualidade não recua. Depois que você desenvolve um gosto sexual por agir e ser tratado como bebê, não tem mais como você voltar atrás; é como pedir que um homossexual deixe de gostar de membros do mesmo sexo ou mesmo que um heterossexual deixe de gostar do sexo oposto. Isso é muito distante da realidade. Alguém pode pensar: “Estou viciado em fraldas…”. Mas lembre que isso é uma direção que a sua sexualidade toma. Um homem sexualmente insatisfeito que deseja mulheres constantemente porque não teve chance de se satisfazer por uns tempos está viciado em mulher? Não; isso é uma necessidade tão válida quanto desejar água porque você passou algum tempo sem beber. Embora o objeto de seu desejo não seja natural, o impulso sexual é completamente natural. Se você, por algum infortúnio, passou a sentir-se atraído sexualmente por algo que não é um membro do sexo oposto, é lógico que você sentirá luxúria por passar muito tempo afastado do que quer que lhe excite, da mesma forma que o indivíduo que sente-se atraído pelo sexo oposto. A sexualidade não é como o vício em cigarro, que você pode parar com força de vontade e sentir efeitos benéficos. Na maioria das pessoas, negar a própria sexualidade é uma batalha perdida na qual você só ganha raiva por resistir à tentação e tristeza quando se entrega. Praticar infantilismo, portanto, pode ser construtivo para algumas pessoas pelo mesmo motivo que o sexo comum o é: gratificação sexual dentro dos limites do bom senso permite que você viva melhor.

Mas talvez o bebê tenha medo de que outros descubram seu segredo. Talvez os outros riam, talvez não compreendam, talvez pensem diferente sobre ele. Mas tenha em mente que zombar de você porque sua sexualidade é desviada é tão imoral quanto zombar de um aleijado porque nem você, nem o aleijado, escolheram suas condições. Além do mais, talvez o aleijado, num futuro distante, possa recuperar seus membros por meio da medicina do futuro, mas eu não acredito que alguém possa seguramente “curar” suas sexualidades completamente nem com toda a medicina do mundo, porque a mente humana é muito complexa e misteriosa, especialmente no terreno do inconsciente.

Senhor Hypnobeast, bacharel em hipnose, que hipnotiza gente via Skype, me falou uma vez que a hipnose poderia potencialmente corrigir a sexualidade de alguém tal como é feito com as fobias, mas ele me alertou que isso não elimina a sexualidade natural. Ou seja, ao tampar um buraco pelo qual a sexualidade vaza, ela criará outro buraco pelo qual sair. Talvez o hipnotizado acabe por sentir-se atraído por algo ainda mais estranho ou talvez até proibido. Então ele me disse que a hipnose não pode ser usada dessa forma porque não há completo controle sobre o resultado, visto que o impulso sexual não é eliminável e eventualmente encontrará outra forma de expressão. A hipnose pode, contudo, corrigir medos inúteis (fazer você parar de temer o objeto de sua fobia), mas, tal como não o faz com a sexualidade, não pode “corrigir” o medo em si mesmo.

Mesmo que houvesse um jeito de “ajeitar” a sexualidade pela medicina, uma série de debates filosóficos sobre a moral dessa tecnologia se seguiria, diminuindo ainda mais a chance de se fazer algo disso. Ex-gay? Acho um ex-aidético mais crível.

As pessoas precisam parar de tentar ser “normais” à todo custo, porque isso, sim, não é nem um pouco saudável. Guarde suas preocupações para os comportamentos que prejudicam os outros, afinal podia ser muito pior: você poderia ser necrófilo, pedófilo ou amante sexual de animais, um desses que, incapazes de vencer suas sexualidades, estão fadados a travar uma luta eterna contra seus instintos fortes de fazer aquilo que é proibido. Eu não consigo sentir raiva deles.

Se a sexualidade é algo que não se pode eliminar, salvo em casos mui excepcionais e anormais, você, colega bebê, precisa aprender a viver com sua luxúria secreta. Negá-la só lhe trará mais malefícios que benefícios. Afinal, se não é mesmo possível ser completamente normal, se isso não faz mal, se não necessariamente afetará sua imagem pública e não é pecado, por que parar? Ao invés de recorrer à via ascética, procure a viabilização de uma satisfação moderada e saudável.

Por falar nisso, passou naquele programa escroto da mulher do senhor William Bonner uma pesquisa popular quanto a união entre primos. Por união, entendo casamento, sexo, namoro e coisa e tal. Eu já discuti antes o que penso da união incestuosa entre irmão e irmã ou pai e filha ou mãe e filho e quem leu sabe que sou favorável na maior parte do tempo. Que dizer então dos primos? A pós-modernidade está saturada de métodos contraceptivos então, se o problema é o possível nascimento de filhos deformados, o casal incestuoso pode usar um desses métodos sem maiores problemas. Uma colega minha disse uma vez que o ser humano é o único com razões, completamente culturais e, por tanto, artificiais, para evitar a relação entre indivíduos consanguíneos e que os outros animais o fazem o tempo todo, ao passo que é raro ver uma cria deformada entre animais. Ela, pelo menos, nunca viu um filho deformado de uma relação entre membros da mesma família entre cães, mas acho que aí já é forçar a barra (embora dê no que pensar). Um certo homossexual me disse que ele não tolera relações incestuosas porque a família é “sagrada”. Irônico um homossexual ser intolerante quanto ao comportamento sexual do outro enquanto tem como a razão a possível dimensão sagrada da família; ele fala como aqueles que, sustentando a dimensão sagrada do sexo, um dia perseguiram os homossexuais à todo vapor. Mas eu, pelo menos, não tenho razões para reprovar a prática porque isso não é da minha conta e, até onde sei, não é crime.

Estou para terminar o livro Sobre a Pedagogia, do senhor Kant. É um daqueles livros que você precisa se forçar a parar de ler, porque é fácil, curto, útil e interessante. Em dois dias, eu o teria lido por completo, se eu não tivesse me ajuizado o bastante para lembrar de que tenho outros compromissos. No livro, Kant fala da forma correta de se educar uma criança, tanto em casa como na escola. E ele não fala apenas da educação formal e escolástica, mas até mesmo da educação física, embora distante daquilo que esperaríamos ao ler um texto sobre “educação física”. Apesar do livro ter sido escrito na época do senhor Kant, ele ainda é bastante atual e poderia servir como guia aos pais de primeira viagem. Posso até apontar paralelos entre a educação proposta e a educação que minha mãe dá ao meu sobrinho. Na verdade, faz sentido que eu recomende esse livro à minha mãe.

A tia de filosofia da educação não apareceu, o que não foi uma perda total, visto que eu tinha mesmo chegado atrasado. Eu tenho um questionário dela pra responder, mas estou com muita preguiça de dar-me ao esforço. Se bem que, quando eu começar, não quererei mais parar, visto que acho filosofia estimulante (devo ser louco).

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5 Comentários »

  1. […] toda. Já outro amigo recentemente voltou ao Fur Affinity depois que uma crise o levou a pensar que infantilismo não era coisa que o cristão deveria praticar. Ambos os amigos nunca se viram, mas sofrem do mesmo […]

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    Pingback por “Filho, você tá lendo errado.” | Pedra, Papel e Tesoura. — 26 de fevereiro de 2016 @ 12:56

  2. […] forma, a cura de um distúrbio mental pode trazer males ainda maiores à pessoa, especialmente se o distúrbio for condição de possibilidade para a plenitude do […]

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    Pingback por Elogio da loucura. | Pedra, Papel e Tesoura. — 6 de dezembro de 2015 @ 17:35

  3. […] das coisas que mais me faz me sentir bem é fazer os outros sentirem-se bem consigo próprios. Muito nobre da sua parte permitir que o carinha tenha uma segunda chance. O que […]

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  4. […] de doentio. É uma idiossincrasia, sem dúvida, mas não exatamente maligna. Eu já expus minhas razões para não condenar o infantilismo parafílico e o fetiche por fraldas, mas não falei quais as razões para manter o […]

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