Analecto

28 de março de 2014

Sexismo arcaico.

Filed under: Saúde e bem-estar — Tags:, , , , — Yure @ 20:40

Como se não bastasse o BOL bloquear minha conta furry, uma certa pesquisa apresentada no sítio juntou algumas moscas desocupadas e vadias na seção de comentários. A pesquisa era algo como “é normal um homem preferir se masturbar sozinho em vez de fazer sexo?”. Cara, pelo amor de Deus. Eu não entrarei em detalhes sobre o quão normal isso é, já que “normal” é algo que é praticado pela maior parte de um determinado público. Eu não sei como é a vida íntima da maioria dos casados, então não posso falar a respeito.

Mas se há homens fazendo isso, deve ser porque há alguma vantagem implícita. Mas que vantagem poderia haver nisso, alguém pode perguntar-se. Ora, isso não é óbvio? É você e você mesmo, sem regras, sem contratempos, sem dever respeito a ninguém e por vezes você é o melhor indicado para dar prazer a você! Não deveria ser difícil de compreender.

A rejeição da masturbação em frente ao sexo deve ter raízes culturais em algum tipo de cisma arcaico: se você se masturba é porque você não tem parceiros, logo lhe faltam atributos atraentes num círculo de indivíduos onde a capacidade de sedução é levada em altíssima conta. Você não é ninguém em meio a esses vultos se você não é “pegador”. Com as mulheres, se o homem masturba-se apesar de viver com a moça, tem-se a velada certeza de que a moça é incapaz de satisfazê-lo sexualmente. Mas tudo bem. A masturbação tem um histórico ruim no Ocidente…

Mas pois bem. Se não podemos falar a respeito do quão normal é a prática da masturbação numa vida a dois, podemos discutir os efeitos positivos ou negativos de tal ato ou ausência dele.

Masturbação relaxa, isso é fato. Talvez você tenha um par de fantasias embaraçosas que gostaria de colocar em prática sem os olhos atentos de outra pessoa por perto e talvez esteja frustrado por não poder aliviar a vontade de escorregar de determinada forma. Então certo, vá em frente. Além do mais, enquanto você está tendo sexo com alguém, tem sempre os contratempos que se pode esperar ao fazer sexo: dores, doenças, reclamações e pressão para “dar seu melhor”. Essas coisas por vezes tornam o sexo mais uma obrigação que um prazer. Sexo significa responsabilidade e várias coisas boas e construtivas estão relacionadas à responsabilidade, certo? Que tal enumerá-las? Trabalho, imposto, contas, estudos… Se sexo está tornando-se mais uma responsabilidade do que uma diversão, é compreensível que um homem por vezes prefira se masturbar em vez de ter sexo.

Masturbação satisfaz. Ou, pelo menos, o faz na maioria das vezes. Claro que há quem ache que masturbação um negócio próximo do pão sem margarina, mas pode ser o contrário. Talvez a pessoa com quem você se relacione simplesmente não lhe satisfaça. Além do mais, que pessoa é mais versada na sua sexualidade do que você mesmo? Você sabe estimular cada centímetro, cada nervo, de um jeito a afetar cada camada da pele. Você conhece técnicas que talvez tenha vergonha de ensinar cara a cara. Engraçado, não é? Mas acontece. É compreensível, então, que um homem se masturba em vez de ter sexo se a pessoa disponível não estiver a altura.

Masturbação é inconsequente! Não há outra pessoa ali para você se preocupar. Você só precisa dar prazer a si mesmo e a mais ninguém, não há necessidade de respeito e em sua imaginação não há lei que precise ser respeitada (a não ser que você seja cristão). Não é perfeito? Parceiros são chatos, demandam afeto, compromisso e podem lhe trazer mais malefícios que benefícios… Além do mais, pra quê ter filhos num mundo com sete bilhões de pessoas? Adote um filho, ora, estará fazendo um favor à criança e à ONU!

Mas sério, sem brincadeiras, masturbação dentro de uma relação não necessariamente significa que a relação está fraca. Uma relação não é algo platônico, lindo e cheio de babados, como “unir-se ao outro num só corpo”. Não, isso é ultrapassado e poético demais pra fazer o mínimo de sentido na Pós-Modernidade. Então o que é a relação? Está implícito na palavra. É a dinâmica entre duas ou mais individualidades, é você, sendo você, viver junto com outra pessoa, sendo outra pessoa, e ser capaz de sustentar com o outro uma situação boa para ambos. É viver com o outro em relativa harmonia sem negar as diferenças entre os dois.

Outro ponto do cisma arcaico é que todas as relações importantes são pautadas no sexo, mas isso é muito baixo. Mesmo que um dos participantes de uma relação se masturba, por qualquer razão que seja, isso não necessariamente significa que o lado sexual da relação está enfraquecido ou que os outros lados da relação, como o lado afetivo, estejam fracos. Uma coisa sem importância como a masturbação só pode ser motivo de alarde na cabeça de pessoas incipientes que acham que namoro ou casamento é só sexo e, mesmo que fosse, uma coisa não impede a outra.

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20 de março de 2014

Mórmons.

Recebi a visita de um gorducho levado que não vejo há anos. Desde que virou mórmon, tem estado meio sumido e, desde que me mudei, deixei de vê-lo por aí. Ele está mais magro do que eu esperava, mas, ainda assim… “atraente”. Tenho essa fixação por gente gorda. Se ele algum dia ler isto, espero que ele tome isto como um elogio sincero. Ele trouxe dois outros mórmons, um deles dos Estados Unidos, com quem conversei um pouco em inglês (ele falava em inglês e eu respondia em português). Os mórmons têm tentado me converter, eu acho. Na verdade, os mórmons têm conversado comigo, mas pois é. Minha mãe, que é testemunha de Jeová, disse que os mórmons são os apóstatas previstos em Reveleção, que pregariam falácias de porta em porta, mas eu não acreditei muito nisso, não. Na minha modesta opinião, os mórmons são a religião cristã mais livre de escândalos. Os católicos têm pedófilos em suas hierarquias, o nome dos evangélicos está sujo com pastores que se aproveitam da ignorância dos fiéis, as testemunhas de Jeová previram o fim do mundo dez vezes até se tocarem (ou melhor, “perceberem”, porque testemunhas de Jeová não “se tocam”) de que é presunção querer saber o que nem Jesus sabe e a Igreja Universal… bom, é a Igreja Universal.

Gostaria de deixar claro que todas as perguntas e reflexões que farei nos parágrafos seguintes são inocentes, eu não tenho intenção de ofender ou de converter.

Os mórmons me entregaram o panfleto “A Restauração do Evangelho de Jesus Cristo”, o qual li e fiz umas observações. Os mórmons me falaram que a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias é a única que tem autoridade divina, doze apóstolos e um profeta, imitando assim o ministério de Jesus. De acordo com os mórmons, João Batista, Tiago e outras duas entidades passaram o sacerdócio a Joseph Smith que, por sua vez, intitulou doze apóstolos, cuja a autoridade é passada de administração à administração. Mas aí surge um problema: por que os apóstolos, quando ainda estavam vivos, na época dos primeiros cristãos, não passaram o sacerdócio a outras pessoas, ao invés de esperar até 1820 para passá-lo ao Joseph? De acordo com o que sei de história, os apóstolos passaram, sim, essa autoridade, e foi assim que surgiram as primeiras igrejas (igreja significa “comunidade”, assim, igrejas cristãs são comunidades cristãs). Pode um apóstolo passar a autoridade para mais de um indivíduo em épocas diferentes? Meu bom senso diz que não… Os mórmons também não sabiam a resposta, mas negaram que os apóstolos transferiram sua autoridade ao longo da história, embora tenham admitido que outros apóstolos foram chamados para completar os doze conforme apóstolos velhos morriam.

Na página onze do panfleto enorme, está escrito:

Em 1820, como havia feito ao longo da história, nosso Pai Celestial mais uma vez escolheu um profeta para restaurar o evangelho e o sacerdócio à Terra.

Isso me deixa um tanto perturbado. Se o problema era espalhar o Evangelho por toda a terra, inclusive a América, por que esperar por 1820? Talvez a Terra não estivesse preparada por completo, não sei… O que me pergunto é por que 1820 e por que Joseph Smith. Quais são os critérios divinos de escolha? Já me deparei com esta questão antes, mas acho que só posso confessar minha completa ignorância quanto aos modos de operação transcendentes. Ainda assim…

De acordo com os mórmons, em 1820, havia uma vasta liberdade de culto e, por isso, Deus teria esperado até esse ano para dar a revelação ao Smith. Se Ele o tivesse feito na Idade Média, onde o pessoal era obrigado a ser católico, o movimento mórmon não teria alcançado a mesma magnitude.

Outra coisa que me incomoda é a introdução ao Livro de Mórmon. Na página quinze, consta:

O Livro de Mórmon é um “registro da comunicação de Deus com os habitantes das Américas e contém [como a Bíblia] a plenitude do evangelho eterno” (Introdução do Livro de Mórmon).

O Livro de Mórmon, pelo que sei da doutrina mórmon, é a tradução do conteúdo das placas de ouro desenterradas por Smith. Elas estavam escritas em uma cifra (mais especificamente, egípcio reformado) que, com auxílio divino, Smith conseguiu decodificar. Cifras são um tipo de escrita, então essa comunicação ocorreu depois que a escrita apareceu em território americano. Mas será que há registro histórico dessas placas de ouro antes de serem desenterradas? Temos registros históricos de muitos acontecimentos bíblicos, notavelmente sobre a vida de Jesus, examinados de um ponto de vista cético, mas dessas placas nunca ouvi falar. Não ter registro histórico de um movimento dessa natureza que aconteceu após a introdução da escrita é, no mínimo, suspeito. Deveria haver algum documento, entalhe, qualquer coisa que sugerisse alguma pista sobre as placas de ouro antes de caírem nas mãos de Smith. Os mórmons me disseram que não há, contudo.

Outro ponto de divergência que encontrei, ainda na página quinze, reside no quão subjetivo é o resultado da oração em que pedimos sabedoria ao Pai. De acordo com os mórmons, essa oração (que eu fiz) deveria revelar se o Livro de Mórmon é verdadeiro:

Deve pedir a seu Pai Celestial que confirme que ele é Sua palavra. Ao fazer isso, Ele revelará a você por meio do Espírito Santo que o livro é verdadeiro.

Isso é sustentado pelo quinto capítulo de Gálatas, onde são enumerados os frutos do Espírito Santo (amor, gozo, paz, benignidade, bondade, fé, mansidão, temperança…). Sentir qualquer desses frutos após a oração, mesmo que em um grau minúsculo, pode levar uma pessoa a interpretar a sensação como um sinal positivo da parte de Deus. Isso é problemático porque um católico, protestante, testemunha de Jeová, budista, espírita, esoterista, muçulmano, satanista e até mesmo um hegeliano podem sentir essas coisas durante uma prática interna de sua religião. A sensação de paz após a oração é comum em muitas pessoas de diferentes cultos, as quais pedem coisas variadas em suas orações, coisas por vezes até anticristãs. Isso significa que a sensação de paz experimentada por uma pessoa que pergunta a Deus se ela pode confiar na Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias não é um sinal confiável de que Deus aprova aquilo, pelo menos não do ponto de vista racional. Um dos meus colegas disse que o Espírito Santo age em todas as pessoas e não apenas em uma religião específica, mas isso não sana minhas dúvidas quanto a validade dos frutos experimentados no mormonismo em relação à validade dos frutos experimentados em outros cultos.

Não me entenda mal, contudo. Pascal já dizia que convém apostar na existência de Deus e os pragmáticos também deixavam a religião passar na medida em que isso fosse benéfico ao praticante. Eu entendo que os mórmons veem valor em suas crenças e que cada um tem seu vazio metafísico que demanda preenchimento, logo não posso desaprovar a crença do próximo se eu tiver capacidade de me colocar no lugar dele. Se os mórmons vivem bem com sua religião, então tudo bem.

Minha mãe fica muito preocupada com minha saúde espiritual, mas acho que faço o meu melhor. Talvez o meu melhor não seja o bastante, mas prefiro ser rejeitado por Deus por ter feito aquilo que achei que estava em concordância com Sua vontade do que ser rejeitado sem nem sequer fazer esforço em não ser. Se os outros estiverem certos e eu errado, bom, paciência.

Acho que nunca falei mal de Deus, pelo contrário, teve um período em que só o que eu fazia era falar bem Dele. Basta pesquisar por “adolescência” na barra de pesquisa deste diário para saber o quão religioso eu costumava ser. Na verdade, olhando pra trás, vejo que fui o primeiro fundamentalista da minha família; eu tomava as Escrituras em sua completude no sentido literal. Não havia espaço para interpretação de texto, era fazer o que estava escrito sem pensar duas vezes. Até que tive uma aula de Ética que me ensinou o que eu nunca tinha pensado em procurar saber: como a Bíblia foi formada. Aí eu revisei minhas crenças e deixei de lado, aproximadamente, noventa e quatro por cento das minhas práticas. Com o passar do tempo e conforme eu aprendo sobre História, vejo que fiz a escolha correta ou, pelo menos, a única escolha que eu vi e até hoje vejo como correta.

Me inscrevi num curso sobre Marx que durará dez semanas e ocorrerá nos sábados, pra ter certeza que terei mais um certificado só a massa pra eu mostrar pra quem quer que me peça. Amo colecionar coisas e acho que colecionar certificados de cursos de filosofia é um ótimo passatempo por uma variedade de razões. Por falar nisso, nem me preocupei em pegar meu certificado do curso de informática e este acabou ano passado. Está bom de eu pegar, não só o meu, mas o da minha mãe também.

Apesar de eu ter poucos créditos, falei com minha mãe e ela me disse que não preciso me preocupar em trabalhar antes de me formar e que eu não preciso me sentir mal por não contribuir com a renda da família! Ainda assim, me sinto mal com isso de todo jeito. Eu nunca pensei que política algum dia faria diferença na minha vida; o descaso de Cid Gomes com a educação tem impacto direto sobre mim e meu futuro. Se eu cursar poucas disciplinas neste semestre também, acho que me aplicarei para um estágio, já que terei de fazer isso cedo ou tarde. Meu colega advogado e salvador de almas em meio-período me falou de uma tal Torre Quixadá onde eu posso conseguir estágio. Isso contaria como crédito extracurricular, parece. Preciso de trezentas horas de crédito extracurricular, acho, e o estágio durará mais ou menos isso, então… só tenho a ganhar, certo?

18 de março de 2014

Disciplinas.

Escolhi minhas disciplinas e, com isso, o leitor deste diário pode se preparar que tipo de trabalho estou para escrever. Escolhi Problemas Metafísicos Nível Um, Filosofia das Ciências e Metodologia e Prática de Ensino Nível Um, em Filosofia. Como de costume, colocarei meus trabalhos aqui.

Depois que terminei minha conta no Google, meus trabalhos hospedados no Google Drive foram eliminados. Uma pena, eu deveria ter pensado melhor, mas agora é tarde demais. Mas como meu diário é perene, resolvi que colocarei meus trabalhos aqui de qualquer jeito, sem recorrer a um serviço externo de armazenamento. Foi o que fiz com meu trabalho sobre Walter Benjamin. A razão pela qual eu tinha parado de fazer isso era o medo de meus professores virem na Internet o trabalho e pensarem que eu copiei. Mas é só ter paciência e colocar o trabalho na Internet depois que a nota tiver sido colocada no diário de classe.

Apesar da pouca quantidade de disciplinas, não pensem que passarei maior parte da semana de boa como eu passei no último semestre; Metodologia me toma dois dias inteiros por semana, terça-feira e quinta-feira, das sete e meia às onze. Oba, crédito pra cacete!

Minha principal preocupação é Metafísica, pois provavelmente será com aquele professor que me negou o direito de fazer uma prova porque ele é malvado mesmo. Espero que aquela careca tenha se esquecido de mim…

16 de março de 2014

Não tenho telefone celular.

Eliminei minhas contas no Windows Live e no Google. Só me arrependo de não ter feito cópias das coisas que eu tinha no Google Drive, mas isso faz parte da vida. A principal razão de eu ter fechado minha conta no Windows Live foi o Skype: algumas mensagens simplesmente não chegavam porque iam para o Windows Live Messenger, tal como mensagens enviadas lá não chegavam ao Skype. Em resumo, era confuso. Criei outra conta, pura, no Skype. Já quanto ao Google, eliminei minha conta lá porque eu tenho problemas quanto às políticas de privacidade do Google e com a possibilidade dos dados lá armazenados um dia voltarem-se contra mim.

Mas que serviço estou agora a usar para correio eletrônico? O serviço que usei lá no início, na época do Neopets: o BOL, da Universo Online. Por quê? Porque o BOL não requer seu maldito número de telefone celular. O Google assume que todos possuem um desses. Não é muito estranho que o Google requeira um número de celular para muitas coisas? Isso me faz me sentir vigiado… e esta é uma das razões pelas quais eu não tenho telefone celular. Além do mais, ter um telefone celular é como ter um filho: você talvez não tenha de alimentá-lo, não tenha de trocar suas fraldas, mas você tem que carregá-lo e pagar por créditos de operadoras que roubam você usando uma variedade de artifícios protocolares, principalmente se você tem um SIM da Oi. Se você tem um cartão SIM da Oi, meus pêsames.

O BOL, contudo, requer um código postal brasileiro e isso é meio chato, amantes de anonimato. Mas, se você é cara de pau mesmo, vai acabar puxando um da cartola, então que diferença faz? Talvez você use o BOL sem nem sequer ser brasileiro.

11 de março de 2014

Ninguém aqui parece ter juízo.

Filed under: Organizações, Passatempos, Saúde e bem-estar — Tags:, , , — Yure @ 17:22

E o semestre chegou ao fim. Não posso dizer que estou insatisfeito, já que pelo menos as semanas de recesso serão despreocupadas. Uma das coisas que mais me perturbou na greve foi a sensação de ter deixado as coisas incompletas. Ainda ficarei entediado (e insano) durante as férias, fato, mas pelo menos poderei me consolar com a sensação de que não há trabalho a ser feito mesmo e que só me resta esperar. Sem falar que ainda haverá a matrícula e coisa e tal, então não será um tempo perdido no ócio de cada dia, e que eu tenho data pra voltar.

Olhei meu histórico escolar e percebi uma coisa que me deixou bastante desanimado: em quatro anos de curso, por causa da carência de professores, só consegui juntar cento e quatro créditos. Preciso de cento e setenta para ser aprovado. Isso torna extremamente necessário que eu me aplique para algum trabalho se eu quiser ter uma vida decente, porque eu ainda estou longe de terminar. Se em quatro anos só consegui juntar cem e me faltam sessenta, eu preciso de mais três anos cursando, pelo menos. E isso é um problema grave, porque não posso passar mais que sete anos em curso. Me pergunto o que eu posso fazer…

Minha irmã, minha sobrinha e o marido dela se mudaram provisoriamente pra cá, acabando com minha paz que aos poucos se restaura. Detesto ter uma casa cheia. Mas, pelo menos, os visitantes morarão no segundo andar, então é quase como se visitantes tivessem uma casa própria. Terei de me acostumar, eu acho. Pelo menos minha mãe está feliz com a volta da filha pródiga que quase foi capaz de estragar a própria vida além do ponto em que se pode ter qualquer esperança de reparo. Meu pai inclusive comentou que ninguém a supera em burrice.

Ela até se inscreveu num programa do Governo pra ter direito a uma casa, mas acho que não iria durar muito; boa parte daqueles que ganham casas no programa conhecido como “Minha Casa, Minha Vida” (que é invenção nossa e é copiado no mundo inteiro) vende as casas que adquirem, porque oferecer abrigo não iguala oferecer emprego. Vem conta de água, de luz, por vezes telefone, coisas que os pobres normalmente não pagavam. Por vezes, a casa atrapalha mais do que ajuda, porque aumentam as despesas. Mas a razão de ela vir pra cá foi uma ameaça de morte dirigida ao marido dela, que jogou fora uma balança de precisão que na verdade era de um traficante (o traficante escondeu a balança num sofá que ele tinha deixado do lado de fora da casa por alguma razão). Interessante que ela gostava de dizer que iria assistir minha queda de camarote, mas acho que, no final das contas, sou eu a assistir: ela está gorda, com uma filha subnutrida (incrível), casada com um analfabeto e, se não tivesse se mudado pra cá, ainda estaria na favela defecando em sacolas plásticas, sob a mira dos traficantes.

Com insônia, resolvi pensar na vida. Me imaginei andando de bicicleta até a universidade durante uma forte chuva, sem que houvesse nenhum carro nas ruas. Os semáfaros eram a única iluminação. Eu ia rápido, carregando uma mochila, armado (porque, enfim, é a capital). Quando cheguei à universidade, fiquei embaixo de uma árvore. Estava de capa de chuva, camisa vermelha, calça comprida grossa, cinto… fraldas também, por baixo, as quais molhei após tirar umas batatas fritas da mochila. Fiquei admirando a chuva cair. Ouvi uma velha andando do outro lado da grade que cerca a universidade, usando um guarda-chuva, cantando um hino católico, segurando uma lamparina acesa. Mas depois de um tempo, fiquei pensando para onde eu queria ir depois. Devo essa fantasia ao Rainy Mood.

Eu ainda estou inseguro quanto ao futuro, gosto de planejar tudo antes de tomar alguma decisão que mude minha vida em algum aspecto qualquer e detesto ser apanhado de surpresa, mesmo quando o resultado é positivo. Não entendo o espírito jovem que os outros da minha idade têm, aquele esperar pelo inesperável, a avidez pelo aleatório, o amor pela entropia, a necessidade de viver os problemas da vida. Eu gosto de viver cada dia como se fosse o ontem, como se eu já soubesse o que vai acontecer, como se eu tivesse controle sobre as possibilidades. Schopenhauer chama isso de “vontade de viver”, que é o espírito de oposição ao devir. Até as pedras o têm, simplesmente porque são rígidas, porque resistem às forças moldadoras que agem sobre elas. A vontade de viver é o instinto para se preservar na mesma condição e de repelir a mudança, segundo senhor Ubaldo Nicola.

Agora que minha irmã e a família dela vieram, minha paz foi perturbada. Eu não esperava por isso e, mesmo que eu esperasse, não poderia atenuar o efeito nem um pouco. As batidas no meu teto, o marido dela conversando ao celular, a minha sobrinha gritando e aquele ajudante de pedreiro escroto que tem um senso de humor sacana e acha que aqui se toma refrigerante todos os dias… e tudo isso aconteceu por causa da avidez por novidade. Minha mãe se mudou pra cá e eu tive de vir junto, nossa vida não melhorou nem um pouco por causa desta casa minúscula num bairro esquecido por todos. Minha irmã meteu os pés pelas mãos e fez tudo o que não devia, quando poderia ter se casado com alguém que prestasse e não com um bandido, com que teve meu sobrinho, e depois com um iletrado, com quem teve minha sobrinha. Tudo isso foi falta de planejamento e ação por impulso, que só trouxe consequências negativas que não pagam qualquer possível benefício que se poderia extrair dessas coisas. Se meu pai não fosse orgulhoso e fosse menos ingênuo, teria a vida perfeita, vivendo em uma casa decente, longe da minha mãe, envolvido com mulheres de todos os tipos, com um bom plano de saúde e com grana, mas exatamente porque ele nem sempre pensa nas consequências de seus atos que ele está vivendo de aluguel, numa casa apertada, sem dinheiro e tendo que usar meu nome nos serviços que ele assina, razão pela qual estou na lista do Sistema de Proteção ao Crédito sem nem sequer ter usado um cartão na minha vida, sem ter emprego e sem nunca ter pago alguma coisa com meu próprio dinheiro. Minha mãe disse que quer quitar a dívida. Se der certo, vou passar a esconder meus documentos dos olhos da minha própria família, porque ninguém aqui parece ter juízo.

8 de março de 2014

O porquê das coisas.

Filed under: Notícias e política, Organizações — Tags:, , , — Yure @ 21:46

Tem uma coisa que me deixa muito pirado: não saber o porquê das coisas. Acho que é por isso que eu curso filosofia. Recentemente, o CNPQ cortou o apoio às olimpíadas de biologia, sem razão aparente. Muito complicado isso, visto que o CNPQ deveria apoiar os alunos brasileiros que poderão vir a tornar-se nossos cientistas, filósofos, técnicos, profissionais de qualquer coisa remotamente construtiva. Me deixa curioso o fato de ninguém saber por que o CNPQ tomou essa decisão. Só espero que seja uma razão ótima (porque uma boa razão não é o bastante).

3 de março de 2014

Versão 1.0.

Filed under: Computadores e Internet, Música, Passatempos — Tags:, , , — Yure @ 18:53

Em 2010, me senti muitíssimo incomodado com o fato de que eu era capaz de desenhar, escrever histórias, poesia, mas não sabia compor música. Isso porque o Fur Affinity, o sítio de arte que mais me atraía na época, permitia esses quatro tipos de arte. Como eu tinha uma tara mórbida com equilíbrio e completude, eu me senti extremamente perturbado com isso e pensei em arrumar um programa com o qual eu pudesse compor. “E por que não aprender a tocar um instrumento?”, alguém pode perguntar. Primeiro porque sou pobre demais pra arrumar um instrumento musical, segundo porque sou pobre demais para pagar aulas, terceiro porque eu não sabia qual instrumento aprender e quarto porque eu queria compor, não necessariamente tocar o compus.

Eu tinha duas opções: Linux Multimedia Studio e Mario Paint Composer. Fiquei com o LMMS depois de descobri que não posso exportar as composições no Mario Paint para um arquivo de áudio.

O LMMS é um programa que, como sugere o título, foi originalmente desenvolvido para Linux. Mas, depois que o programa tornou-se multiplataforma, o nome perdeu um pouco de seu sentido. Agora que o LMMS finalmente se aproxima de uma versão 1.0, os desenvolvedores pretendem mudar o nome do programa, mas isso traz suas consequências:

  1. As coisas no repositório do Debian e do Ubuntu teriam de ser renomeadas de acordo, tal como aconteceu com o Bsnes que virou Higan.
  2. A reputação do programa seria afetada negativamente, porque o todos conhecem o programa pelo seu nome. Mudar o nome seria como começar do zero, visto que o programa chamado Linux Multimedia Studio deixaria de existir.
  3. Uma boa quantidade de usuários desaprovaria a mudança.

Mas eu tenho uma “solução”. Tentei comentar no diário de um cara chamado Sti-Jay, mas o Blogger é uma verdadeira porcaria e eu não sei se meu comentário foi. De toda forma.

Mudar o nome do programa talvez seja necessário, mas não precisam mudar as iniciais. O novo nome poderia se adaptar às iniciais. Alguém sugeriu na lista de e-mail LMMS-Devel que o programa se chamasse Luxurious Music Making Software. É razoável; deixando as iniciais inalteradas, nada teria que ser renomeado no repositório. Como a maioria dos indivíduos que usam e recomendam o LMMS o chamam de LMMS de qualquer jeito, a reputação do programa seria mantida a salvo. Acredito que ninguém teria de reclamar disso também. Uma introdução na página principal do projeto poderia incluir algo como “LMMS começou como Linux Multimedia Studio, mas, conforme os tempos mudavam, o nome passou a não mais refletir a natureza do projeto”, algo parecido com o que ocorre no artigo da Wikipédia sobre FL Studio:

FL Studio (formerly known as FruityLoops[2]) is a digital audio workstation developed by the Belgian company Image-Line.

Só acho que toda essa briga em relação ao nome seria resolvida se o pessoal mantivesse as iniciais do programa.

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