Analecto

28 de março de 2014

Sexismo arcaico.

Filed under: Saúde e bem-estar — Tags:, , , , — Yure @ 20:40

Como se não bastasse o BOL bloquear minha conta furry, uma certa pesquisa apresentada no sítio juntou algumas moscas desocupadas e vadias na seção de comentários. A pesquisa era algo como “é normal um homem preferir se masturbar sozinho em vez de fazer sexo?”. Cara, pelo amor de Deus. Eu não entrarei em detalhes sobre o quão normal isso é, já que “normal” é algo que é praticado pela maior parte de um determinado público. Eu não sei como é a vida íntima da maioria dos casados, então não posso falar a respeito.

Mas se há homens fazendo isso, deve ser porque há alguma vantagem implícita. Mas que vantagem poderia haver nisso, alguém pode perguntar-se. Ora, isso não é óbvio? É você e você mesmo, sem regras, sem contratempos, sem dever respeito a ninguém e por vezes você é o melhor indicado para dar prazer a você! Não deveria ser difícil de compreender.

A rejeição da masturbação em frente ao sexo deve ter raízes culturais em algum tipo de cisma arcaico: se você se masturba é porque você não tem parceiros, logo lhe faltam atributos atraentes num círculo de indivíduos onde a capacidade de sedução é levada em altíssima conta. Você não é ninguém em meio a esses vultos se você não é “pegador”. Com as mulheres, se o homem masturba-se apesar de viver com a moça, tem-se a velada certeza de que a moça é incapaz de satisfazê-lo sexualmente. Mas tudo bem. A masturbação tem um histórico ruim no Ocidente…

Mas pois bem. Se não podemos falar a respeito do quão normal é a prática da masturbação numa vida a dois, podemos discutir os efeitos positivos ou negativos de tal ato ou ausência dele.

Masturbação relaxa, isso é fato. Talvez você tenha um par de fantasias embaraçosas que gostaria de colocar em prática sem os olhos atentos de outra pessoa por perto e talvez esteja frustrado por não poder aliviar a vontade de escorregar de determinada forma. Então certo, vá em frente. Além do mais, enquanto você está tendo sexo com alguém, tem sempre os contratempos que se pode esperar ao fazer sexo: dores, doenças, reclamações e pressão para “dar seu melhor”. Essas coisas por vezes tornam o sexo mais uma obrigação que um prazer. Sexo significa responsabilidade e várias coisas boas e construtivas estão relacionadas à responsabilidade, certo? Que tal enumerá-las? Trabalho, imposto, contas, estudos… Se sexo está tornando-se mais uma responsabilidade do que uma diversão, é compreensível que um homem por vezes prefira se masturbar em vez de ter sexo.

Masturbação satisfaz. Ou, pelo menos, o faz na maioria das vezes. Claro que há quem ache que masturbação um negócio próximo do pão sem margarina, mas pode ser o contrário. Talvez a pessoa com quem você se relacione simplesmente não lhe satisfaça. Além do mais, que pessoa é mais versada na sua sexualidade do que você mesmo? Você sabe estimular cada centímetro, cada nervo, de um jeito a afetar cada camada da pele. Você conhece técnicas que talvez tenha vergonha de ensinar cara a cara. Engraçado, não é? Mas acontece. É compreensível, então, que um homem se masturba em vez de ter sexo se a pessoa disponível não estiver a altura.

Masturbação é inconsequente! Não há outra pessoa ali para você se preocupar. Você só precisa dar prazer a si mesmo e a mais ninguém, não há necessidade de respeito e em sua imaginação não há lei que precise ser respeitada (a não ser que você seja cristão). Não é perfeito? Parceiros são chatos, demandam afeto, compromisso e podem lhe trazer mais malefícios que benefícios… Além do mais, pra quê ter filhos num mundo com sete bilhões de pessoas? Adote um filho, ora, estará fazendo um favor à criança e à ONU!

Mas sério, sem brincadeiras, masturbação dentro de uma relação não necessariamente significa que a relação está fraca. Uma relação não é algo platônico, lindo e cheio de babados, como “unir-se ao outro num só corpo”. Não, isso é ultrapassado e poético demais pra fazer o mínimo de sentido na Pós-Modernidade. Então o que é a relação? Está implícito na palavra. É a dinâmica entre duas ou mais individualidades, é você, sendo você, viver junto com outra pessoa, sendo outra pessoa, e ser capaz de sustentar com o outro uma situação boa para ambos. É viver com o outro em relativa harmonia sem negar as diferenças entre os dois.

Outro ponto do cisma arcaico é que todas as relações importantes são pautadas no sexo, mas isso é muito baixo. Mesmo que um dos participantes de uma relação se masturba, por qualquer razão que seja, isso não necessariamente significa que o lado sexual da relação está enfraquecido ou que os outros lados da relação, como o lado afetivo, estejam fracos. Uma coisa sem importância como a masturbação só pode ser motivo de alarde na cabeça de pessoas incipientes que acham que namoro ou casamento é só sexo e, mesmo que fosse, uma coisa não impede a outra.

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