Analecto

11 de março de 2014

Ninguém aqui parece ter juízo.

Filed under: Organizações, Passatempos, Saúde e bem-estar — Tags:, , , — Yure @ 17:22

E o semestre chegou ao fim. Não posso dizer que estou insatisfeito, já que pelo menos as semanas de recesso serão despreocupadas. Uma das coisas que mais me perturbou na greve foi a sensação de ter deixado as coisas incompletas. Ainda ficarei entediado (e insano) durante as férias, fato, mas pelo menos poderei me consolar com a sensação de que não há trabalho a ser feito mesmo e que só me resta esperar. Sem falar que ainda haverá a matrícula e coisa e tal, então não será um tempo perdido no ócio de cada dia, e que eu tenho data pra voltar.

Olhei meu histórico escolar e percebi uma coisa que me deixou bastante desanimado: em quatro anos de curso, por causa da carência de professores, só consegui juntar cento e quatro créditos. Preciso de cento e setenta para ser aprovado. Isso torna extremamente necessário que eu me aplique para algum trabalho se eu quiser ter uma vida decente, porque eu ainda estou longe de terminar. Se em quatro anos só consegui juntar cem e me faltam sessenta, eu preciso de mais três anos cursando, pelo menos. E isso é um problema grave, porque não posso passar mais que sete anos em curso. Me pergunto o que eu posso fazer…

Minha irmã, minha sobrinha e o marido dela se mudaram provisoriamente pra cá, acabando com minha paz que aos poucos se restaura. Detesto ter uma casa cheia. Mas, pelo menos, os visitantes morarão no segundo andar, então é quase como se visitantes tivessem uma casa própria. Terei de me acostumar, eu acho. Pelo menos minha mãe está feliz com a volta da filha pródiga que quase foi capaz de estragar a própria vida além do ponto em que se pode ter qualquer esperança de reparo. Meu pai inclusive comentou que ninguém a supera em burrice.

Ela até se inscreveu num programa do Governo pra ter direito a uma casa, mas acho que não iria durar muito; boa parte daqueles que ganham casas no programa conhecido como “Minha Casa, Minha Vida” (que é invenção nossa e é copiado no mundo inteiro) vende as casas que adquirem, porque oferecer abrigo não iguala oferecer emprego. Vem conta de água, de luz, por vezes telefone, coisas que os pobres normalmente não pagavam. Por vezes, a casa atrapalha mais do que ajuda, porque aumentam as despesas. Mas a razão de ela vir pra cá foi uma ameaça de morte dirigida ao marido dela, que jogou fora uma balança de precisão que na verdade era de um traficante (o traficante escondeu a balança num sofá que ele tinha deixado do lado de fora da casa por alguma razão). Interessante que ela gostava de dizer que iria assistir minha queda de camarote, mas acho que, no final das contas, sou eu a assistir: ela está gorda, com uma filha subnutrida (incrível), casada com um analfabeto e, se não tivesse se mudado pra cá, ainda estaria na favela defecando em sacolas plásticas, sob a mira dos traficantes.

Com insônia, resolvi pensar na vida. Me imaginei andando de bicicleta até a universidade durante uma forte chuva, sem que houvesse nenhum carro nas ruas. Os semáfaros eram a única iluminação. Eu ia rápido, carregando uma mochila, armado (porque, enfim, é a capital). Quando cheguei à universidade, fiquei embaixo de uma árvore. Estava de capa de chuva, camisa vermelha, calça comprida grossa, cinto… fraldas também, por baixo, as quais molhei após tirar umas batatas fritas da mochila. Fiquei admirando a chuva cair. Ouvi uma velha andando do outro lado da grade que cerca a universidade, usando um guarda-chuva, cantando um hino católico, segurando uma lamparina acesa. Mas depois de um tempo, fiquei pensando para onde eu queria ir depois. Devo essa fantasia ao Rainy Mood.

Eu ainda estou inseguro quanto ao futuro, gosto de planejar tudo antes de tomar alguma decisão que mude minha vida em algum aspecto qualquer e detesto ser apanhado de surpresa, mesmo quando o resultado é positivo. Não entendo o espírito jovem que os outros da minha idade têm, aquele esperar pelo inesperável, a avidez pelo aleatório, o amor pela entropia, a necessidade de viver os problemas da vida. Eu gosto de viver cada dia como se fosse o ontem, como se eu já soubesse o que vai acontecer, como se eu tivesse controle sobre as possibilidades. Schopenhauer chama isso de “vontade de viver”, que é o espírito de oposição ao devir. Até as pedras o têm, simplesmente porque são rígidas, porque resistem às forças moldadoras que agem sobre elas. A vontade de viver é o instinto para se preservar na mesma condição e de repelir a mudança, segundo senhor Ubaldo Nicola.

Agora que minha irmã e a família dela vieram, minha paz foi perturbada. Eu não esperava por isso e, mesmo que eu esperasse, não poderia atenuar o efeito nem um pouco. As batidas no meu teto, o marido dela conversando ao celular, a minha sobrinha gritando e aquele ajudante de pedreiro escroto que tem um senso de humor sacana e acha que aqui se toma refrigerante todos os dias… e tudo isso aconteceu por causa da avidez por novidade. Minha mãe se mudou pra cá e eu tive de vir junto, nossa vida não melhorou nem um pouco por causa desta casa minúscula num bairro esquecido por todos. Minha irmã meteu os pés pelas mãos e fez tudo o que não devia, quando poderia ter se casado com alguém que prestasse e não com um bandido, com que teve meu sobrinho, e depois com um iletrado, com quem teve minha sobrinha. Tudo isso foi falta de planejamento e ação por impulso, que só trouxe consequências negativas que não pagam qualquer possível benefício que se poderia extrair dessas coisas. Se meu pai não fosse orgulhoso e fosse menos ingênuo, teria a vida perfeita, vivendo em uma casa decente, longe da minha mãe, envolvido com mulheres de todos os tipos, com um bom plano de saúde e com grana, mas exatamente porque ele nem sempre pensa nas consequências de seus atos que ele está vivendo de aluguel, numa casa apertada, sem dinheiro e tendo que usar meu nome nos serviços que ele assina, razão pela qual estou na lista do Sistema de Proteção ao Crédito sem nem sequer ter usado um cartão na minha vida, sem ter emprego e sem nunca ter pago alguma coisa com meu próprio dinheiro. Minha mãe disse que quer quitar a dívida. Se der certo, vou passar a esconder meus documentos dos olhos da minha própria família, porque ninguém aqui parece ter juízo.

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