Analecto

20 de março de 2014

Mórmons.

Recebi a visita de um gorducho levado que não vejo há anos. Desde que virou mórmon, tem estado meio sumido e, desde que me mudei, deixei de vê-lo por aí. Ele está mais magro do que eu esperava, mas, ainda assim… “atraente”. Tenho essa fixação por gente gorda. Se ele algum dia ler isto, espero que ele tome isto como um elogio sincero. Ele trouxe dois outros mórmons, um deles dos Estados Unidos, com quem conversei um pouco em inglês (ele falava em inglês e eu respondia em português). Os mórmons têm tentado me converter, eu acho. Na verdade, os mórmons têm conversado comigo, mas pois é. Minha mãe, que é testemunha de Jeová, disse que os mórmons são os apóstatas previstos em Reveleção, que pregariam falácias de porta em porta, mas eu não acreditei muito nisso, não. Na minha modesta opinião, os mórmons são a religião cristã mais livre de escândalos. Os católicos têm pedófilos em suas hierarquias, o nome dos evangélicos está sujo com pastores que se aproveitam da ignorância dos fiéis, as testemunhas de Jeová previram o fim do mundo dez vezes até se tocarem (ou melhor, “perceberem”, porque testemunhas de Jeová não “se tocam”) de que é presunção querer saber o que nem Jesus sabe e a Igreja Universal… bom, é a Igreja Universal.

Gostaria de deixar claro que todas as perguntas e reflexões que farei nos parágrafos seguintes são inocentes, eu não tenho intenção de ofender ou de converter.

Os mórmons me entregaram o panfleto “A Restauração do Evangelho de Jesus Cristo”, o qual li e fiz umas observações. Os mórmons me falaram que a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias é a única que tem autoridade divina, doze apóstolos e um profeta, imitando assim o ministério de Jesus. De acordo com os mórmons, João Batista, Tiago e outras duas entidades passaram o sacerdócio a Joseph Smith que, por sua vez, intitulou doze apóstolos, cuja a autoridade é passada de administração à administração. Mas aí surge um problema: por que os apóstolos, quando ainda estavam vivos, na época dos primeiros cristãos, não passaram o sacerdócio a outras pessoas, ao invés de esperar até 1820 para passá-lo ao Joseph? De acordo com o que sei de história, os apóstolos passaram, sim, essa autoridade, e foi assim que surgiram as primeiras igrejas (igreja significa “comunidade”, assim, igrejas cristãs são comunidades cristãs). Pode um apóstolo passar a autoridade para mais de um indivíduo em épocas diferentes? Meu bom senso diz que não… Os mórmons também não sabiam a resposta, mas negaram que os apóstolos transferiram sua autoridade ao longo da história, embora tenham admitido que outros apóstolos foram chamados para completar os doze conforme apóstolos velhos morriam.

Na página onze do panfleto enorme, está escrito:

Em 1820, como havia feito ao longo da história, nosso Pai Celestial mais uma vez escolheu um profeta para restaurar o evangelho e o sacerdócio à Terra.

Isso me deixa um tanto perturbado. Se o problema era espalhar o Evangelho por toda a terra, inclusive a América, por que esperar por 1820? Talvez a Terra não estivesse preparada por completo, não sei… O que me pergunto é por que 1820 e por que Joseph Smith. Quais são os critérios divinos de escolha? Já me deparei com esta questão antes, mas acho que só posso confessar minha completa ignorância quanto aos modos de operação transcendentes. Ainda assim…

De acordo com os mórmons, em 1820, havia uma vasta liberdade de culto e, por isso, Deus teria esperado até esse ano para dar a revelação ao Smith. Se Ele o tivesse feito na Idade Média, onde o pessoal era obrigado a ser católico, o movimento mórmon não teria alcançado a mesma magnitude.

Outra coisa que me incomoda é a introdução ao Livro de Mórmon. Na página quinze, consta:

O Livro de Mórmon é um “registro da comunicação de Deus com os habitantes das Américas e contém [como a Bíblia] a plenitude do evangelho eterno” (Introdução do Livro de Mórmon).

O Livro de Mórmon, pelo que sei da doutrina mórmon, é a tradução do conteúdo das placas de ouro desenterradas por Smith. Elas estavam escritas em uma cifra (mais especificamente, egípcio reformado) que, com auxílio divino, Smith conseguiu decodificar. Cifras são um tipo de escrita, então essa comunicação ocorreu depois que a escrita apareceu em território americano. Mas será que há registro histórico dessas placas de ouro antes de serem desenterradas? Temos registros históricos de muitos acontecimentos bíblicos, notavelmente sobre a vida de Jesus, examinados de um ponto de vista cético, mas dessas placas nunca ouvi falar. Não ter registro histórico de um movimento dessa natureza que aconteceu após a introdução da escrita é, no mínimo, suspeito. Deveria haver algum documento, entalhe, qualquer coisa que sugerisse alguma pista sobre as placas de ouro antes de caírem nas mãos de Smith. Os mórmons me disseram que não há, contudo.

Outro ponto de divergência que encontrei, ainda na página quinze, reside no quão subjetivo é o resultado da oração em que pedimos sabedoria ao Pai. De acordo com os mórmons, essa oração (que eu fiz) deveria revelar se o Livro de Mórmon é verdadeiro:

Deve pedir a seu Pai Celestial que confirme que ele é Sua palavra. Ao fazer isso, Ele revelará a você por meio do Espírito Santo que o livro é verdadeiro.

Isso é sustentado pelo quinto capítulo de Gálatas, onde são enumerados os frutos do Espírito Santo (amor, gozo, paz, benignidade, bondade, fé, mansidão, temperança…). Sentir qualquer desses frutos após a oração, mesmo que em um grau minúsculo, pode levar uma pessoa a interpretar a sensação como um sinal positivo da parte de Deus. Isso é problemático porque um católico, protestante, testemunha de Jeová, budista, espírita, esoterista, muçulmano, satanista e até mesmo um hegeliano podem sentir essas coisas durante uma prática interna de sua religião. A sensação de paz após a oração é comum em muitas pessoas de diferentes cultos, as quais pedem coisas variadas em suas orações, coisas por vezes até anticristãs. Isso significa que a sensação de paz experimentada por uma pessoa que pergunta a Deus se ela pode confiar na Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias não é um sinal confiável de que Deus aprova aquilo, pelo menos não do ponto de vista racional. Um dos meus colegas disse que o Espírito Santo age em todas as pessoas e não apenas em uma religião específica, mas isso não sana minhas dúvidas quanto a validade dos frutos experimentados no mormonismo em relação à validade dos frutos experimentados em outros cultos.

Não me entenda mal, contudo. Pascal já dizia que convém apostar na existência de Deus e os pragmáticos também deixavam a religião passar na medida em que isso fosse benéfico ao praticante. Eu entendo que os mórmons veem valor em suas crenças e que cada um tem seu vazio metafísico que demanda preenchimento, logo não posso desaprovar a crença do próximo se eu tiver capacidade de me colocar no lugar dele. Se os mórmons vivem bem com sua religião, então tudo bem.

Minha mãe fica muito preocupada com minha saúde espiritual, mas acho que faço o meu melhor. Talvez o meu melhor não seja o bastante, mas prefiro ser rejeitado por Deus por ter feito aquilo que achei que estava em concordância com Sua vontade do que ser rejeitado sem nem sequer fazer esforço em não ser. Se os outros estiverem certos e eu errado, bom, paciência.

Acho que nunca falei mal de Deus, pelo contrário, teve um período em que só o que eu fazia era falar bem Dele. Basta pesquisar por “adolescência” na barra de pesquisa deste diário para saber o quão religioso eu costumava ser. Na verdade, olhando pra trás, vejo que fui o primeiro fundamentalista da minha família; eu tomava as Escrituras em sua completude no sentido literal. Não havia espaço para interpretação de texto, era fazer o que estava escrito sem pensar duas vezes. Até que tive uma aula de Ética que me ensinou o que eu nunca tinha pensado em procurar saber: como a Bíblia foi formada. Aí eu revisei minhas crenças e deixei de lado, aproximadamente, noventa e quatro por cento das minhas práticas. Com o passar do tempo e conforme eu aprendo sobre História, vejo que fiz a escolha correta ou, pelo menos, a única escolha que eu vi e até hoje vejo como correta.

Me inscrevi num curso sobre Marx que durará dez semanas e ocorrerá nos sábados, pra ter certeza que terei mais um certificado só a massa pra eu mostrar pra quem quer que me peça. Amo colecionar coisas e acho que colecionar certificados de cursos de filosofia é um ótimo passatempo por uma variedade de razões. Por falar nisso, nem me preocupei em pegar meu certificado do curso de informática e este acabou ano passado. Está bom de eu pegar, não só o meu, mas o da minha mãe também.

Apesar de eu ter poucos créditos, falei com minha mãe e ela me disse que não preciso me preocupar em trabalhar antes de me formar e que eu não preciso me sentir mal por não contribuir com a renda da família! Ainda assim, me sinto mal com isso de todo jeito. Eu nunca pensei que política algum dia faria diferença na minha vida; o descaso de Cid Gomes com a educação tem impacto direto sobre mim e meu futuro. Se eu cursar poucas disciplinas neste semestre também, acho que me aplicarei para um estágio, já que terei de fazer isso cedo ou tarde. Meu colega advogado e salvador de almas em meio-período me falou de uma tal Torre Quixadá onde eu posso conseguir estágio. Isso contaria como crédito extracurricular, parece. Preciso de trezentas horas de crédito extracurricular, acho, e o estágio durará mais ou menos isso, então… só tenho a ganhar, certo?

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