Analecto

5 de maio de 2014

Plano de trabalho para a apresentação sobre a Metafísica de Aristóteles.

Filed under: Passatempos — Tags:, , , — Yure @ 13:36

Contexto histórico.

A Macedônia estava em alta na época. A hegemonia deles estendia-se pela Grécia sem maiores problemas. Apesar disso, Aristóteles foi para Atenas, por razões culturais. Atenas ainda era um grande centro cultural e político, atraindo aqueles com desejo de aprender mais sobre qualquer assunto que fosse. Naquela época, a cultura grega estava sendo espalhada pelos territórios conquistados, o que daria início ao Período Helenístico.

Na época, o intelectual poderia se dirigir a uma de duas correntes opostas de pensamento: a retórica de Isócrates e a Academia de Platão. A retórica era muitíssimo popular, considerando que Atenas era um centro político e a retórica era (e ainda é) uma excelente ferramenta de manipulação da opinião pública.

[…] Isócrates pretendia ser a retórica a melhor preparação para a vida política, bastando que se aprendesse a “emitir opiniões prováveis a respeito de coisas úteis” […]1

Muito interessou a Aristóteles o rigor técnico das argumentações de Platão. Assim, Aristóteles frequentou a Academia por duas décadas, aprendendo o sistema filosófico platônico.

Contexto cultural.

Como dito, as duas formas de discurso às quais Aristóteles podia dirigir-se eram a sofística e a filosofia platônica.

A sofística era uma forma de pensamento caracterizada pelo relativismo, a ideia de que não existe verdade e que a opinião, isto é, a conclusão que se tira ao examinar certa coisa sob um determinado ponto de vista, era aquilo que de mais próximo se teria de uma possível “verdade”. Sendo que, para a sofística, só o que havia era opinião, que por sua vez é um conteúdo mental dobrável, poder-se-ia vencer qualquer discussão ao converter a opinião oposta. Assim, os sofistas também eram retóricos e manipuladores da política, levando vantagem sobre seus conterrâneos no ambiente democrático grego. Mas deve-se ressaltar que os sofistas não eram meros “mentirosos”, pois eles se comprometiam em selecionar as opiniões mais úteis para um dado contexto e ensinavam em suas aulas particulares a arte de escolher a opinião mais econômica.

Já no platonismo, tem-se a crença numa verdade universal, imutável e imperecível, amparada pela forte influência órfica que agia sobre Platão. A opinião é particular e não teria valor num mundo governado por uma realidade oculta aos sentidos, mas alcançável pela razão. Platão, com um esforço metódico aterrorizante, pretendia chegar a essa realidade absoluta e, com ela, dar uma explicação concisa sobre o mundo sensível, uma explicação imune às opiniões e imune à refutação. Aristóteles foi mais atraído por esta proposta, vendo na sofística um superficialismo incômodo.

Influências.

Desnecessário dizer que Aristóteles foi um ávido discípulo de Platão, mas é necessário dizer que dedicou algumas páginas de seus escritos aos filósofos que o precederam, notavelmente os naturalistas e os sofistas. Mas Aristóteles foi mais influenciado por Platão e pelo pensamento naturalista, mais voltado à realidade concreta.

Ele divergiu de Platão em muitos aspectos, ao tomar como ponto de partida de sua metafísica o mundo sensível, para só então explicar o mundo sensível com conceitos metafísicos como ato, potência, essência ou acidente.

A obra e sua estrutura.

Estrutura.

A Metafísica é dividida em quatorze livros, dos quais apenas os três primeiros serão levados em consideração. O primeiro livro trata das causas e de como os filósofos anteriores a Aristóteles trataram destas. O segundo completa o primeiro, mas pode ser seguramente ignorado. Já o terceiro, delimita a área de ação dessa ciência que Aristóteles propõe.

Obra.

Livro I.

Aristóteles começa o texto dizendo que a visão é o sentido mais importante para o aprendizado, mas que é a memória que torna o aprendizado possível em primeiro lugar, tornando superiores aqueles animais que a possuem. Enquanto a visão permite ao ser dotado de memória aprender sozinho comparando as diferenças entre objetos, a audição permite que o indivíduo aprenda de outros indivíduos, logo sendo assim a audição necessária à pedagogia.

A empiria, que advém do uso pesado dos sentidos na observação do mundo, é uma consequência desse aprendizado. A empiria seria a aplicação daquilo que se aprende a casos particulares. Por exemplo, ao conviver com determinada pessoa, sabe-se quais remédios funcionam melhor para suas doenças. Porém, ao se extrair da soma de casos particulares uma regra, tem-se arte (técnica). A arte, ressalva Aristóteles, nem sempre é mais útil que a empiria particular, mas permite que o artista ensine o ofício. No caso anterior dos remédios e das doenças, o artista está em melhor posição do que o empírico de ensinar Medicina.

A abstração de uma regra da soma de casos empíricos só é possível após o refinamento das informações provenientes dos sentidos. Por exemplo: os sentidos nos dizem que o gelo é frio, mas não nos dizem por que ele é frio. Logo, o artista é dotado também de um conhecimento teórico daquela arte que ele pratica, o que lhe dá uma vantagem sobre o empírico, o qual apenas tem conhecimento prático.

Observa-se que o conhecimento teórico, por ser mais geral e abranger um número maior de casos, carrega uma superioridade que não se observa no conhecimento meramente prático. Por ser o artista detentor do conhecimento teórico e pode passá-lo aos outros, o empírico lhe deve servidão.

Dessa pequena reflexão, Aristóteles propõe uma ciência que deva ser mais teórica e universal quanto possível, mas deixa claro que essa seria uma ciência que não visa um fim prático e que tem como único objetivo nos afastar da ignorância. Dedicar-se à tal ciência não é possível sem antes se ter suprido as necessidades básicas de sobrevivência.

E isto é confirmado pelos fatos, já que foi depois de atendidas quase todas as necessidades da vida e asseguradas as coisas que contribuem para o conforto e a recreação, que se começou a procurar esse conhecimento.2

Aristóteles também diz que, apesar de esta ser a ciência mais desnecessária, não há ciência melhor que esta.

As outras ciências, em verdade, são mais necessárias do que esta, porém nenhuma é melhor.3

O estagirita então prossegue, entrando no assunto das causas. Para ele, existem quatro causas atribuíveis aos objetos de estudo: a causa formal (o que a coisa é), a causa material (de que essa coisa é feita), a causa eficiente (quem ou o quê lhe deu origem) e a causa final (para que serve). Então, ele põe-se a examinar como os filósofos que o precederam tratavam do assunto.

Os filósofos ditos naturalistas erraram ao considerar apenas as causas materiais em suas reflexões. Nessa filosofia primitiva, se procurava uma razão para as coisas em um elemento simples, como Tales havia feito com a água ou Anaxímenes com o ar. As escolas mais evoluídas perceberam que, se tudo fosse água ou ar, como queriam Tales e Anaxímenes, respectivamente, não haveria mudanças no estado da matéria. Seria necessário algo externo a transformar água ou ar em diferentes tipos de substância. Assim, outras escolas pensaram o universo como “duplo”, constituído de substrato e movimento, enquanto outras pensaram o universo como “uno” e vivo, racional. Mas em todos os casos, o erro era o mesmo: as quatro causas não eram todas relevadas.

Platão, ao afirmar que as coisas mundanas se originam de “Formas”, ele não deixa claro como isso acontece. Na verdade, Platão recorre ao mito do Demiurgo para explicar a origem do Mundo Sensível a partir do Mundo das Formas. Nesse sistema, a teoria é falha por não relevar outras causas que não a formal (essência) e a material (componente). Certamente um avanço em relação às teorias anteriores, mas, ainda assim, imperfeito. Platão parece ter notado, na concepção de sua teoria, que, ao considerar apenas a causa material, suprime-se a origem do movimento e os entes incorpóreos. Mas, mesmo em Platão, a origem do movimento é dúbia. Além disso, Aristóteles aponta incoerências na Teoria das Formas:

Por outro lado, além do que já ficou dito, se as unidades são diversas os Platônicos deveriam ter falado como os que sustentam a existência de quatro ou de dois elementos; pois cada um desses filósofos dá o nome de elemento não àquilo que é comum, como, por exemplo, o corpo, mas ao fogo e à terra, quer haja, que não haja algo de comum entre eles (isto é, o corpo). Mas o fato é que o Platão fala como se o Um fosse homogêneo, a exemplo do fogo e da água; e, a ser assim, os números não serão substâncias. Evidentemente, se existe o “Um-em-si” e esse é um primeiro princípio, a palavra “um” está sendo usada em mais de um sentido; de outra forma, a teoria é impossível.4

Também se poderia supor que a substância subjacente apontada por eles como matéria é excessivamente matemática, e antes um predicado e diferenciação da substância, isto é, da matéria propriamente dita; em outras palavras, o grande e o pequeno são como o denso e o tênue de que falam os Fisiólogos, chamando-lhes diferenciações primárias do substrato; pois eles são uma espécie de excesso e carência. E no que tange o movimento, se o grande e o pequeno são movimento, evidentemente as Formas se moverão; mas, se não são movimento, de onde proveio este? Todo o estudo da natureza fica assim aniquilado.5

Livro II.

O segundo livro tem caráter meramente complementar. Nele, Aristóteles ressalva que os filósofos que lhe são anteriores têm, sim, seu valor, adicionando suas contribuições para que outros possam construir sobre seus resultados. Ele completa seu discurso sobre as causas dizendo que as causas não podem ascender infinitamente e que, se assim o fosse, nem mesmo a ideia de Bem resistiria.

Livro III.

Aristóteles tenta identificar qual ciência deveria ocupar-se das causas por ele enunciadas. Logo de início, ele desconsidera a matemática; esta não está comprometida com juízos de valor, apenas quantitativos. As ciências naturais parecem, cada uma, ter uma razão para ser essa ciência, mas todas elas se preocupam com um número limitado de causas e não com todas as quatro. Aristóteles também quer saber se uma ciência deve ocupar-se das causas e outra da substância, se uma mesma ciência deve ocupar-se de ambas as coisas ou se várias a devem.

Ele acaba por concluir que não há, no momento, uma ciência tal como a que ele propõe, especialmente porque as ciências particulares parecem usar axiomas duvidosos, cabendo ao filósofo a análise da validade desses ditos axiomas. Outra dificuldade apontada por Aristóteles contra a possibilidade de ser mais de uma ciência a tratar das substâncias é que, se houvesse de ter uma ciência para cada substância, a administração seria difícil demais, além de que os resultados seriam menos sólidos. A análise das substâncias em geral compete a uma só ciência. Porém, a essência das coisas não pode ser demonstrada, embora atributos possam. Mas seria muito complicado dar a uma ciência já existente a tarefa de pesquisar todos os atributos da matéria.

O único jeito de haver uma ciência tão abrangente e capaz de lidar com diferentes tipos de coisas e mesmo diferentes exemplares dessas coisas seria se ela considerasse aquilo que há de universal e compartilhado por todos esses entes, aquele princípio que Aristóteles viria a chamar de essência.

Após a reflexão contida no terceiro livro, Aristóteles conclui que a Metafísica, ou melhor, a filosofia primeira, deve ocupar-se, sim, das primeiras causas e dos princípios.

Conceitos fundamentais.

O vocabulário aristotélico é bastante complexo, mas influente, com termos que foram retomados várias vezes pelos seus contemporâneos, na íntegra ou com modificações. Segue uma pequena explicação do que significam os termos mais proeminentes da filosofia aristotélica6 que foram levados em consideração nos três primeiros livros da Metafísica.

Substância e essência são termos bem parecidos. De acordo com Nicola7, a substância é aquilo que é dotado de uma essência e um punhado de acidentes. Essência é a causa formal, ou seja, aquilo que define algo como aquilo que esse algo é. O que é o céu? Ao responder essa pergunta, obtém-se a essência conceitual do céu.

Acidente é aquilo que coexiste com uma essência numa substância, mas que não interfere com dita essência. É aquilo que pode ser excluído na definição da essência, características cuja remoção ou adição não desqualificam algo como sendo aquilo que esse algo é. Por exemplo: nublado é um acidente que coexiste com a essência céu, porque, quer esteja nublado ou não, o céu não deixa de ser céu. Em outras palavras, são características contingentes.

Causas são aqueles quatro conceitos que Aristóteles discutiu no primeiro livro: eficiente (quem fez o objeto de estudo), material (com o que foi feito), formal (o que é) e final (para quê foi feito). A ciência pré-socrática era, para Aristóteles, incompleta, porque não levava em consideração as outras causas que não as de ordem material. Tal como a filosofia platônica, que era considerada, por Aristóteles, uma filosofia incompleta, pois só levava em consideração as causas formal e material.

Referências bibliográficas.

ARISTÓTELES. Metafísica. Tradução de Leonel Vallandro. Rio Grande do Sul: Editora Globo, 1969.

HOFFMANN, Camilla e BACELLAR, Marcella Vasconcellos. Platão e Aristóteles:Vida e Obra. Disponível em: <http://www.idealdicas.com/platao-e-aristoteles-vida-e-obra/>. Acessado em: 05/04/14.

NICOLA, Ubaldo. Antologia Ilustrada de Filosofia:das Origens à Idade Moderna.Tradução de Maria Mergherita de Luca. São Paulo: Globo, 2005.

1HOFFMANN, Camilla e BACELLAR, Marcella Vasconcellos. Platão e Aristóteles: Vida e Obra.

2ARISTÓTELES. Página 40.

3Idem. Página 41.

4Idem. Página 60.

5Idem. Página 61.

6Os termos considerados foram escolhidos dentre os apresentados em Pequeno Vocabulário Aristotélico (em NICOLA, página 98).

7Página 98.

Anúncios

Deixe um comentário »

Nenhum comentário ainda.

RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: