Analecto

7 de maio de 2014

A obra Ciência Nova.

Introdução.

A obra Ciência Nova, de Gianbattista Vico, traz consigo uma imagem bastante críptica que é explicada no decorrer do texto. Na imagem vê-se vários objetos ao chão, uma estátua, uma mulher sobre a qual incide e reflecte um raio de luz vindo de Deus. A mulher está sobre um globo, que parece estar mal apoiado. Essa imagem carrega consigo a ideia principal da obra, a qual tentarei explicar em minhas palavras, com base na interpretação provida pelo próprio texto.

Explicação da imagem.

Essa mulher é a metafísica, aquele saber das coisas menos sensíveis. Deus, na imagem, é representado pelo triângulo com um olho no centro. A metafísica, ao receber a luz divina, o olha fixamente, como que o contemplando, o que simboliza a metafísica como contemplação do divino. A mulher está acima do globo porque tenta encontrar Deus sem recorrer às coisas da ordem natural, que oferecem apenas parte da base necessária à contemplação do divino. Esse tipo de interpretação já foi feito pelos filósofos anteriores e é por isso que o globo está mal apoiado. O globo precisa de uma outra base para se sustentar: a civilização. Erram os filósofos que tentaram compreender Deus a partir das coisas naturais apenas.

Há uma faixa sobre o globo, na qual se vêem os símbolos dos signos Leão e Virgem. A ciência proposta por Vico refere aos heróis de cada nação, simbolizados por Leão, e aos primórdios dessas nações, simbolizados por Virgem, quando as pessoas acreditavam conviver com os deuses. O raio que incide sobre o peito da metafísica e é refletido simboliza a pureza de coração que o metafísico deve ter, isto é, humildade. Foi por ausência de humildade que o Estoicismo transformou a Providência em destino e que o Epicurismo transformou a Providência em acaso. O raio então refletido banha a estátua de Homero. Isso indica que Deus se aproximou dos poetas da Antiguidade por meio da metafísica, mas que metafísica? Vico sugere que os antigos talvez dispusessem de uma metafísica pré-filosófica.

O altar sobre o qual está o globo inseguro simboliza o fato de que toda sociedade tem sua religião e que dela se origina em termos civis. Sobre o altar também está um instrumento antigo de adivinhação, que também fazia parte da comunicação entre pessoa primitiva e o mundo divino contemplado pela metafísica. Ao lado do instrumento, está também um recipiente de água e uma chama acesa, simbolizando o sacrifício, típico das sociedades que ainda pensavam poder achegar-se aos deuses com favores ou expiações. Entre fogo e água está um archote, simbolizando o matrimônio, uma das “coisas humanas” faladas na obra, tal como o sepultamento. Essas são coisas importantes para a ciência de Vico, porque o matrimônio dá origem à família, que é a célula da sociedade, e o sepultamento dá origem à demarcação territorial.

De acordo com Vico, os primeiros heróis das nações eram aqueles que faziam os primeiros campos arados. Esses seriam os “Hércules” de cada povo. Assim, o arado encostado ao altar simboliza a superioridade desses heróis sobre as pessoas comuns de seu povo. À direita do altar, tem-se um timão, que simboliza a navegação. O seu posicionamento ao altar indica que foram os antepassados os autores das primeiras viagens. Esses antepassados eram ímpios, pessoas que, não unidas pelo matrimônio ou sepultamento, não tinham família nem terra.

O arado está posto contra o timão, com a ponta voltada para ele, como que ameaçador. Isso simboliza a renegação desses povos que, para Vico, seriam menos humanos por não terem aderido àquelas coisas humanas que ele menciona (matrimônio e sepultamento).

Há uma tábua perto do altar e do arado, mas relativamente longe do timão, na qual estão escritos dois alfabetos, simbolizando assim que os idiomas surgiram após as nações. Naturalmente, um idioma surge em local fixo em que o mesmo conjunto de indivíduos se relaciona. O idioma não surgiria naquele que viaja sozinho sem nunca pertencer a um lugar.

Vê-se na imagem também uma espada que indica que o herói detinha uma força especial sobre o povo comum, mas esta era uma força de ordem religiosa. Por exemplo, antes de um duelo fazia-se um apelo a Deus para que ele escolhesse aquele que estava certo por meio da batalha. Assim, se duas pessoas precisassem resolver suas diferenças pela luta, o vencedor seria apontado como aquele que tinha razão e o vencido era considerado aquele que estava errado. E o vencedor agradecia a Deus pela batalha. No tempo dos heróis, diferenças entre duas pessoas não eram resolvidas com leis, por exemplo.

Tem-se na imagem também uma balança, que indica a chegada do governo humano civil. Ela está posicionada próxima da espada, indicando que tal governo veio depois do governo heróico. Segundo o texto, inclusive, depois do advento do governo humano civil, mesmo os heróis foram postos em par de igualdade com os outros indivíduos.

Ideia da obra.

A Nova Ciência proposta por Vico é uma reinterpretação da metafísica como estudo das coisas divinas e humanas nas nações gentis, à luz da Providência, estabelecendo um sistema do direito natural que progride nas três idades da civilização descritas pelos egípcios: idade dos deuses, dos heróis e dos homens. Para isso, deve-se levar em consideração os três “idiomas” falados ao longo dessa história, que eram o idioma das famílias (mudo, hieroglífico), idioma heróico (metafórico, simbólico) e idioma humano (convencional, epistolar). Mesmo nosso idioma retém características dos três.

Em cada um desses momentos históricos, se destaca um modo diferente de jurisprudência: a teologia mística (dos poetas teólogos, que interpretavam as mensagens dos oráculos e transcreviam sua sabedoria nas fábulas), a jurisprudência heróica (o herói detinha a justiça e submetia os outros) e a equidade natural (de que todos os cidadãos são iguais e livres).

O que esta ciência quer é lançar luz sobre esses aspectos obscuros de nossa história, lançar luz sobre a metafísica oculta nesses tempos.

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