Analecto

2 de junho de 2014

Dissertação acerca do comentário de José Trindade Santos ao poema Da Natureza, de Parmênides.

Filed under: Passatempos — Tags:, , , — Yure @ 19:07

Parmênides foi um filósofo muito influente na história da filosofia ao primar o conhecimento lógico e racional sobre o conhecimento sensível e oxidável. O rigor técnico de suas argumentações chega a ser perturbador, apesar de a totalidade de seu trabalho haver se perdido no tempo. Do magnífico poema conhecido como Da Natureza, só restam dezenove fragmentos. Neles, está contido o pensamento de Parmênides acerca do que viria a ser um termo recorrente na tradição filosófica ocidental: o Ser.

Mas Parmênides optou por articular seu pensamento através de metáforas, alegorias. Isso torna a interpretação do poema bastante difícil. Por essa razão, existem vários comentadores devotados ao trabalho de interpretar os fragmentos da melhor maneira possível, o que exige um alto conhecimento hermenêutico e um bom domínio da língua grega. Um desses comentadores é José Trindade Santos, proeminente no Brasil, cujo comentário será discutido.

José faz uma interpretação mais lógica que ontológica do poema, detendo-se muito na forma como as palavras se relacionam para fundamentar determinado argumento, nos jogos lógicos, no que ele chama às vezes até de “erísticas”. Mas o significado final do poema, de que “o Ser é e o não-ser não é”, não é discutido em profundidade.

De acordo com José, parte da importância de Parmênides deve-se ao deslocamento do “quê” e do “por quê” para o “como”, ressaltando a importância do método de Parmênides, atendo-se ao rigor formal de suas argumentações. Antes de começar a discutir os fragmentos de uma vez, José faz uma pequena introdução sobre o quão confiáveis são os fragmentos que nos chegaram, dizendo que não há como saber se os fragmentos são 100% fiéis ao original, o qual, ainda segundo ele, está perdido além das esperanças. Assim, as interpretações do poema tendem a ser muito pessoais e seriamente divergentes entre si e a de José não é uma exceção.

José começa o discurso sobre os fragmentos dizendo que o ato de usar uma deusa como veículo de transmissão de conhecimento foi uma tentativa de Parmênides de dar seriedade a sua mensagem. O “homem sabedor” quer o conhecimento que somente os deuses podem conferir aos mortais. A função do “homem sabedor”, identificado como o próprio Parmênides, é obter esse conhecimento da deusa para espalhá-lo, tal espalhamento sendo representado pela metáfora das visitas do jovem às várias cidades do mundo. Alcançar tal conhecimento requer a escolha pelo afastamento do cotidiano, o que é elogiado pelos deuses que recebem Parmênides.

O conhecimento que vem da deusa é o conhecimento do todo, mas ela não letra Parmênides imediatamente, antes lhe ensinando que há duas vias, a via do engano, do não-ser, e a do Ser, da verdade. Há várias possíveis razões para isso: a deusa poderia advertir Parmênides de antemão sobre as coisas que ele deveria evitar ou poderia ter a intenção de que ele, com o conhecimento que estava para receber, tirasse as outras pessoas do caminho do engano, entre outras razões.

O caminho do Ser exclui o do não-ser e vice-versa, não é possível trilhar os dois ao mesmo tempo. Como é impossível pensar o não-ser, ele não pode ser dito. De fato, não-ser não existe; não é possível, para Parmênides, afirmar uma negação. O Ser é tudo aquilo que existe e, se algo existe, pode ser pensado. Se pode ser pensado, pode ser dito. Assim, é necessário que o Ser, por oposição ao não-ser, seja, possa ser pensado e dito. Nisso se baseia a identidade entre Ser e pensar no poema. O argumento da deusa é inesgotável e fundamenta o resto do poema.

O significado de Ser é um tanto confuso e Aristóteles nota isso. Isso se deve pelo fato de o termo einai ser ambíguo. “Coisas que são”, ser individual e Ser universal são representados pela mesma palavra. Separando os significados de einai, o poema torna-se bem mais claro, embora a separação possa ser parcial.

Muitos comentadores afirmam que há apenas duas vias no poema, mas o texto original em grego pode sugerir a existência de uma terceira via, normalmente mesclada com a via do não-ser: a via da aparência. José decide levar essa terceira via em consideração. Nela, vagueiam os mortais, reféns de contradições horrorosas, porque a aparência sugere o não-ser e o devir lógico, o que não é concebível, posto que o Ser, e apenas o Ser, é.

O Ser é compacto, inabalável (pelo devir), sem fim, indivisível, imóvel, completo e esférico (no sentido de igualitariamente distribuído, posto que não há mais do Ser em um local e menos em outro).

José encerra o comentário com uma explicação das críticas que se seguiram ao poema, notavelmente de Platão e Górgias. Em Platão, ocorreu uma tentativa de conciliar Ser e não-ser, atribuindo um sentido novo ao não-ser. Por exemplo, o não-ser da justiça é a injustiça, no sentido de ausência de justiça. Enquanto isso é simples com certas palavras cujos antônimos são claros, isso é mais difícil em outras palavras: qual seria o não-ser da cor vermelha? Para Platão, todas as outras cores, visto que elas não são vermelhas, mas são algo. Assim, Platão abre um espaço para o não-ser não como inexistência, ausência, mas como variedade. O não-ser de X não precisa ser não-X, no sentido de ausência, mas a variedade de X (A, B, C…). Já a crítica de Górgias apoia-se nas ambiguidades contidas no fragmento dois. “Jogando as ambiguidades umas contra as outras”, como diz José, ele desconstrói toda a ideia do poema, concluindo que nada existe, logo nada pode ser pensado, logo nada pode ser dito.

Mas a influência de Parmênides continua conosco, especialmente por sua contribuição direta ou indireta à lógica e por ter iniciado o estudo do Ser, que viria mais tarde a ser chamado de ontologia.

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1 Comentário »

  1. […] Parmênides escreveu um relato obviamente ficcional em forma de poema, que narra uma viagem que ele teve com uma deusa. Durante a viagem, a deusa discorre sobre verdade e […]

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    Pingback por Mais sobre os pré-socráticos. | Pedra, Papel e Tesoura. — 2 de setembro de 2014 @ 15:20


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