Pedra, Papel e Tesoura.

31 de agosto de 2014

Acontece no furry fandom.

BBC NEWS | UK | Magazine | Who are the furries?.

Quando eu jogava Neopets, me envolvi com uma menina que atendia pelo nome de usuário “silverfang_br”. Enquanto online, ela assumia a identidade de uma loba prateada. Daí, conheci as amigas dela, senhorita Kowly e senhorita Lanay, que também assumiam identidades animais enquanto online. Eu também gostava (e ainda gosto) de coisas dessa natureza, isto é, animais antropomórficos. Elas então me falaram desse sítio de arte, o Deviantart, que acabou tornando-se, com o passar do tempo, idiótico e monótono, mas voltemos ao assunto. No Deviantart, conheci outras pessoas que gostavam dessas coisas e comecei a admirar arte mostrando esses animais. Pensei em pesquisar a respeito e descobri que havia uma comunidade de artistas e admiradores de arte que gostavam de imaginar animais com atributos humanos. Essa comunidade é o furry fandom. O que é ser furry e o que acontece no furry fandom?

Furry é aquele indivíduo que aprecia animais (obviamente, o gênero humano está excluso) ficcionais que têm características humanas. Esses animais também são chamados furries. É simples assim. Se você gosta desse tipo de coisa, você é furry. Mas participar da comunidade é outra coisa. De fato, embora você tenha que ser professor para participar de um sindicato de professores, nem todos os professores participam de sindicato. Da mesma forma, nem todo furry participa do furry fandom.

Existe muita controvérsia, muita piada e muito mito ao redor do fandom. As pessoas de fora por vezes querem saber o que acontece aqui dentro, mas os boatos são tantos que elas ou se desinteressam ou se assustam. Então eu queria falar por mim e por mais um punhado de desgraçados que se atrevem a revelar para estrangeiros esses detalhes esotéricos deste fandom.

O furry fandom é orientado à ficção, que é posta mais próxima da realidade por meio de imagens, documentos e música. Muitos furries praticam uma ou mais dessas artes, mas uma boa parte apenas aprecia e consome arte. A arte dentro do furry fandom não raro movimenta dinheiro, porque tem gente disposta a pagar por um desenho específico feito “sob medida”. Existem também aqueles que trocam arte por arte, de forma que os direitos autorais sejam partilhados entre os indivíduos. Por exemplo, eu gosto de arte legível, tenho uma ideia para uma história, gostaria de vê-la escrita, mas não tenho talento pra escrever. Faço um jornal e ofereço um desenho para o escritor que estiver interessado em escrever uma história com a ideia que eu tenho. Os direitos autorais da imagem e do documento são partilhados entre eu e o escritor que colaborou comigo. A arte é uma grande parte desse negócio louco no qual nos metemos. Quando um artista diz que irá desenhar, escrever ou compor ao vivo (transmitindo pela Internet), o evento será lotado em minutos, por amigos, admiradores, aprendizes e concorrentes.

Claro que não é um fenômeno que ocorre exclusivamente online. Furries ainda são humanos, embora alguns não gostem da ideia. Eles estudam, trabalham, se divertem como qualquer outra pessoa. Mas cada um tem seu jeito de se divertir. Alguns furries, por exemplo, gostam de levar a diversão deles para um âmbito mais físico com aquilo que eles chamam de fursuit. A fursuit é praticamente a mesma coisa que as roupas de animal usadas por homens públicos em eventos. Sim, alguns furries se vestem de animal e, por um tempo, “esquecem” que são humanos, biologicamente parte de uma espécie tão monótona. Porém, nem todos os furries têm fursuits ou mesmo interesse em ter uma, especialmente depois que descobrem o quão caro pode ser arrumar uma. Os furries que usam fursuits, contudo, normalmente são uma graça enquanto as usam e sentem-se desinibidos, relaxados, felizes. Mesmo quem não as usa fica feliz por ter alguém assim por perto.

Furries, ao socializarem, adotam o papel de suas fursonas, isto é, suas identidades furry. Uma fursona é um animal antropomórfico criado para lhe representar na comunidade. É, basicamente, você se não fosse humano. A troca de mensagens online, por exemplo, é feita com ambos os envolvidos representados pelas fursonas. A verdadeira aparência realmente não importa. Quando você assume outra aparência e gosta dela, você tende a assumir um comportamento que seja coerente com a aparência, tornando a convivência um grande e inescapável role-play, interpretação de papel.

As pessoas descobrem-se furries de diversas formas, seja desenvolvendo afinidades com algum personagem fictício ou se apegando muito a um bicho de estimação. As razões para se juntar a comunidade variam também. Uma razão rara, por exemplo, mas que recebe bastante atenção é aquela do indivíduo que detesta ser humano e juntou-se ao fandom na esperança de encontrar alguém que também não goste, de forma que ele não se sinta sozinho. De fato, alguns indivíduos no furry fandom não gostam de serem humanos e há aqueles também que acreditam que não são completamente humanos ou que são espíritos animais em corpos humanos. Mas há casos e casos. Não se pode falar de uma “espiritualidade” específica do fandom, especialmente considerando que a migração de uma alma (animal ou não) de um corpo para outro, a metempsicose, é muito mais velha que o fandom.

Para a maioria, é algo mundano, um passatempo. Para uma menor parte, um modo de vida completo ao redor do qual se estrutura a possibilidade de felicidade. Para outros ainda é um trabalho de meio-período, pra ter dinheiro extra. Para outros, bom… é um terreno no qual achar pornografia exótica. Afinal, nem todos os artistas fazem apenas arte inocente, já que a arte é um exagero da vida na ficção e sexo faz parte da vida, embora não se possa dizer que toda arte no fandom é pornográfica, tal como a vida não é só sexo. Dizer que furry é só yiff é como dizer que anime é só hentai. Ambos estão longe da verdade.

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