Analecto

1 de agosto de 2014

Paralelo entre a Estrutura das Revoluções Científicas e “What Happened Before the Big Bang?”.

Esta apresentação visa ligar as primeiras partes do posfácio da Estrutura1 ao documentário What Happened Before the Big Bang?.
No documentário temos várias teorias concorrentes que surgem da decadência do poder explicativo da teoria de que o Big Bang tenha sido o início do universo. Antes de se formular a possibilidade de um início violento, literalmente explosivo, do universo, não se havia pensado a respeito com seriedade acadêmica e só havia o que Kuhn chama de pré-ciência. É um estado de desorganização que a ciência normal ainda não se instaurou, justamente porque não havia paradigma ainda.
Um “paradigma” é uma teoria com um conjunto de pressupostos, metodologia, regras que são partilhadas por um número grande de cientistas, a maioria. Esses cientistas que partilham de um paradigma são chamados coletivamente de “comunidade”. Os praticantes de uma comunidade, enquanto indivíduos que praticam uma especialidade científica, são iniciados nela e seus processos, tal como propriamente educados em seus fundamentos. Cada comunidade, não raro, tem seu próprio objeto de estudo. Mas isso nem sempre é claro ao próprio cientista que, ao ter seu comportamento e método examinados sociologicamente, às vezes percebe que ele está inserido numa comunidade mais ampla ou restrita do que realmente pensa.
Após a adesão da maioria dos cientistas a um paradigma e ocorre a formação da comunidade, temos a ciência normal. Esse paradigma é justamente o Big Bang. Esse paradigma atraiu cientistas, que foram devidamente iniciados em seus preceitos e por um bom tempo, o Big Bang não foi contestado pela comunidade, até que a observação do mundo e o avanço nas técnicas de medição e investigação começou a contestar a possibilidade de o Big Bang ter sido o início das coisas. Algo veio antes. Isso é aquilo que Kuhn chama de crise da ciência normal.
Observe, contudo, que isso não é uma crise que aflige a ciência como um todo, mas uma crise que aflige aquela ciência particular ou aquela escola específica.
Dentro de uma comunidade, existem “escolas”, isto é, grupos que estudam o mesmo objeto através de diferentes pontos de vista, o que é causa de contendas que raramente se delongam. Isso significa que há como que “diretórios” e “subdiretórios” comunitários na ciência. Cientistas naturais se dividem em zoólogos, astrônomos, físicos e por aí vai. Físicos se dividem em quânticos, clássicos e por aí vai. Existem comunidades dentro de comunidades maiores e um cientista pode participar de várias até certo nível da árvore de diretórios.
Comunidades dentro de um determinado nível da árvore (as escolas) tendem a predar umas as outras pelo controle da ciência com a qual se comprometeram. Esse comportamento é menos comum conforme se sobe na árvore de diretórios. De acordo com Kuhn, por vezes apenas uma escola sobra desse processo predatório. Conforme o número de escolas diminui, o grau de maturidade da ciência é aumentado. Da mesma forma, comunidades distintas (como a matemática e a filosofia da natureza) podem se juntar num único campo de estudo mais abrangente (física) o que também contribui para o amadurecimento da comunidade.
Quando uma das teorias do documentário conseguir adesão da maioria dos cientistas e obtemos assim um novo paradigma em voga, ocorre aquilo que Kuhn chama de revolução.
As ciências também podem mudar com o tempo, através do processo de revolução científica, que não necessariamente precisa ser algo lá muito revolucionário. “Revolução” na teoria dos paradigmas está mais próximo de “mudança” do que do sentido de “revolução” sociológica. Além disso, não necessariamente uma revolução acontece em consequência de uma crise (que não necessariamente ocorre em consequência do trabalho feito dentro daquela ciência).

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