Analecto

21 de agosto de 2014

A retórica helênica e helenística.

 

Resumo.

Este trabalho visa a explicação do que é a retórica, como se dá essa prática e quais as características do retórico do Período Helênico e do Período Helenístico, tendo como base o diálogo Górgias, de Platão, e o segmento Contra os Retóricos, parte da obra Contra os Professores, de Sexto Empírico.

A retórica não deve ser chamada de arte, antes sendo uma ferramenta de persuasão que trabalha principalmente com a adulação do ouvinte, isto é, o apelo às suas emoções e sentimentos, para torná-lo mais receptivo a uma determinada ideia.

Alguém procura a retórica como meio de vida muito provavelmente por falta de atributos necessários para uma persuasão justa e genuinamente convincente. Ele está constantemente metido em desventuras e seu trabalho talvez não compense os riscos que ele corre.

A prática retórica dá-se em dois momentos: a construção do discurso e a aplicação do discurso sobre um determinado público.

Palavras-chave: Górgias, retóricos, retórica, filosofia.

Introdução.

Este trabalho visa uma breve explicação da visão filosófica sobre a retórica no Período Helênico e no Helenístico, tendo como bases o diálogo Górgias, de Platão, e o segmento Contra os Retóricos, da obra Contra os Professores, de Sexto Empírico.

Três perguntas foram elaboradas para orientar nosso pensamento e as responderemos uma de cada vez. O que é a retórica? Quem pratica a retórica? Como se dá sua prática?

Na primeira parte, pensamos sobre a definição de retórica e avaliamos se ela deve ou não ser chamada “arte do discurso”, como comumente é definida. No segundo segmento, expomos as características de um retórico regular, que habilidades ele deve ter. E por último, analisamos a retórica em seus dois momentos: a criação e a aplicação do discurso.

Que é isto, a retórica?

Sócrates — Dizes bem. Então, responde-me da mesma forma a respeito da retórica: qual é o objeto particular do seu conhecimento?

Górgias — Os discursos. 1

Do ponto de vista do senso comum, a retórica seria a “arte do bem falar”, aquela técnica empregada pelos oradores para entreter, convencer ou manter a atenção de uma plateia. Seria usada principalmente pelos políticos, pelos apresentadores, jornalistas, pelos padres, pastores e outros indivíduos que trabalham com o discurso.

Ao longo da história, a retórica já foi redefinida várias vezes, seja como “ciência do bom discurso”2 ou “arte do discurso”.3 Mas Sexto Empírico argumenta que a retórica não pode ser arte na medida em que não é um sistema de apreensões exercidas em conjunto visando a utilidade pública ou privada.4 Nem tampouco é uma técnica (ou ciência), porque não se baseia em fundações sólidas, mas apenas em métodos de ação que podem ser usados para este ou aquele caso (convencer este ou aquele público, incitar esta ou aquela emoção).5 Por seu caráter unicamente prático, sem uma teoria unificada, Aristóteles poderia desconsiderá-la como arte, já que ele vê arte (no primeiro livro da Metafísica, no passo 981a, linhas 1 a 10) como uma teoria geral abstraída de casos particulares. Aliás, ainda de acordo com Sexto, a retórica não raro falha em alcançar seu objetivo que será discutido em breve, logo não deveria ser considerada técnica também por isso, porque técnicas, por definição, não deveriam falhar na maioria das vezes em que são empregadas.

Sexto Empírico também discorda da definição de retórica como arte também porque artes tendem a ser ensinadas por professores para que os alunos as pratiquem com perfeição. Mas se observa que a retórica pode ser aprendida sem necessidade de professor e pode ser exercida por pessoas sem conhecimento formal dos lances retóricos.6

Em Contra os Retóricos, Sexto Empírico diz que Platão já havia definido a retórica como sendo pautada na persuasão lógica.

A retórica é criadora da persuasão por meio das palavras, tendo sua eficácia nas próprias palavras, sendo persuasiva, e não instrutiva.7

Essa definição está no diálogo Górgias, de Platão. A retórica é definida pelo personagem Górgias como a ciência do discurso em si, não dos discursos específicos. Por exemplo, o médico trata do discurso médico, isto é, do discurso que diz respeito a sua prática, mas isso não o tornaria um retórico, segundo o parecer inicial de Górgias. A retórica usa seus discursos principalmente nos “negócios humanos”.8 A retórica então trabalharia também com a justiça. A arma usada pela retórica para interferir com a justiça é a persuasão, isto é, a manipulação e a dominação.9

Sócrates, no diálogo, argumenta que, enquanto que a retórica procura persuadir uma pessoa usando um discurso bem feito, as outras disciplinas convencem por outra via: a do conhecimento. Persuadir pelo conhecimento é apelar para a razão do receptor do discurso, para que ele veja as coisas e constate que são daquela forma. O retórico, por vezes, discorre também sobre outros assuntos que não tem a ver com a justiça, porque pode ter sido contratado para isso. Mas aí surge um problema: a retórica enquanto estudo do discurso em si voltado para os negócios humanos, como admitido nas primeiras etapas do diálogo, não deveria discorrer sobre assuntos que na verdade não conhece, como medicina ou ginástica. Como pode o retórico discorrer sobre o que não conhece a fundo?

Também no diálogo, Sócrates mostra que há também a persuasão pela crença.10 Um retórico chamado para persuadir um grupo de médicos sobre algo claramente errado estaria em graves apuros. Porém, é possível para o retórico alcançar tal meta em meio a ignorantes, que, tal como ele, não conhecem bem a medicina. É assim que um retórico pode discorrer sobre o que não conhece: aproveitando-se da ignorância dos outros. Um discurso bem elaborado proferido aos ignorantes pode facilmente convencê-los de algo que não é verdade, isto é, incitar neles uma crença. Isso significa que a retórica tem poder apenas sobre os ignorantes aos quais, sem conhecimento, só resta crer. Isso é visto com frequência nas reuniões da Igreja Universal, pois que um pastor da Universal não poderia convencer nenhuma pessoa formada em teologia ou história nem nenhum estudante sério da Bíblia de que aquilo que ele prega é válido. Mas seus fiéis acreditam por ele se posicionar de forma convincente, ao passo que os próprios não conhecem o objeto do discurso.

Além disso, existem outros meios de persuadir alguém sem recorrer ao conhecimento. Por exemplo, através do prestígio, da riqueza, da beleza corporal, que levam os outros a julgar de uma vez aquela pessoa, levantando uma crença sobre o valor dela.11

Um ponto tocado frequentemente no diálogo é o uso da retórica como meio de defesa nos tribunais, com o retórico se pondo no papel de advogado de defesa. A retórica, segundo Górgias, se ocupa da justiça também, já que ela está presente nesses ambientes, mas nem sempre é assim. A retórica pode ser usada para livrar alguém de um castigo que lhe deveria ser justo, portanto privando a alma de uma necessária purificação. Conforme a prática fica mais frequente, o indivíduo que é constantemente livrado dos castigos da justiça torna-se injusto. Se a retórica está comprometida com a justiça, ela não deveria ser usada dessa forma, pois fomenta o comportamento injusto ao manter a pessoa injusta impune. Por causa dessa contradição, a definição de retórica dada por Górgias é problemática. Afinal, ela não se ocupa dos “negócios humanos” na medida em que isso coincide com a “trabalhar para a justiça”. Para trabalhar para a justiça, você deve ser justo e, para ser justo, precisa praticar a justiça constantemente, logo a retórica, se fosse justa, não seria usada em defesa de facínoras. Vale lembrar que hoje em dia se reconhece o trabalho do advogado de defesa como aquele que se dedica a defender uma pena justa para o acusado, não como aquele que deve soltar o acusado a qualquer custo (a não ser, claro, que ele tenha sido acusado de algo que não fez).

Sexto Empírico reforça esse ponto mais tarde ao dizer que a retórica, não raro, faz uso de discursos que se contradizem conforme progridem, se necessário, desde que o retórico seja capaz de fazer isso passar despercebido. Só que a justiça não tem espaço para discurso contraditório.12

A razão pela qual se pode confundir retórica e justiça é que ambas se dão nas coisas públicas. Como a retórica se volta ao público que se mostra ignorante em um determinado assunto, que invariavelmente compõe a maioria das pessoas de um grande contingente, agravado pelo fato de que a Grécia Antiga funcionava pela democracia direta, a maioria era constantemente iludida pelas habilidades dos retóricos, terminando a discussão com a sensação de que tinham feito aquilo que era melhor.

Sócrates, no decorrer do diálogo Górgias, sugere que a retórica não é arte nem técnica, porque está comprometida com a adulação, que é o apelo às emoções, em vez de apelar para a razão.13 Para ser considerada arte, ela teria de ter um fim específico e uma utilidade pública. Sexto Empírico vai mais além ao dizer mortalmente que a retórica não tem nenhum fim, nem implícito, nem claro,14 exceto o fim almejado por aquele que contratou o retórico.15

Mas isso não desqualifica completamente a retórica como algo que possa ser usado como ferramenta por alguém que se mostra comprometido com a justiça ou, pelo menos, com a formação do ouvinte (como os sofistas).16 Só que isso tornou-se raro com o passar do tempo, a ponto de não poder ser mais posto em evidência, como diz Sexto Empírico:

[…] tendo em vista que um homem sábio nunca é, ou raramente é encontrado, deve se seguir que a retórica em uso entre os sábios seja da mesma forma completamente inexistente ou rara.17

Levando essas coisas em consideração, pode-se dizer que a definição de retórica dada por Platão e por Sexto Empírico pode ser sintetizada como “estudo da argumentação apropriada visando um fim variável”, esse fim sendo o fim perseguido por aquele que contratou o retórico.

O retórico.

Sócrates — Quer me parecer, Górgias, que explicaste suficientemente o em que consiste para ti a arte da retórica. Se bem te compreendi, afirmaste ser a retórica a mestra da persuasão, e que todo o seu esforço e exclusiva finalidade visa apenas a esse objetivo. Ou tens mas alguma coisa a acrescentar sobre o poder da retórica, além de levar a persuasão à alma dos ouvintes? 18

Depois de extraída a definição da ferramenta retórica, devemos pensar em quem são os retóricos.

De acordo com Platão, as coisas humanas mais importantes são a saúde, a beleza e a riqueza.19 O retórico não está comprometido com essas coisas, o que não é muito admirável. Então a retórica não é perseguida por um aprendiz por ser um ofício prestigiado.

Como o retórico quer persuadir os outros e, como explicitado na reflexão sobre a natureza da retórica, existem vários modos de persuadir sem recorrer ao discurso da adulação, o retórico provavelmente o é porque não pode persuadir de outras formas que não o discurso retórico.20 Pode-se persuadir pela beleza física, pelo dinheiro, pelo prestígio e pelo discurso do conhecimento. A busca pela retórica não raro implica uma ausência desses atributos. O retórico provavelmente é feio, pobre, desconhecido e incipiente. Ele provavelmente procurou a retórica como uma forma de defesa e como forma de fazer dinheiro e fama fáceis. E sua arena, no Período Helenístico, seriam os tribunais.

Observe contudo, que não se procurava a retórica para aprender a falar bem; ela não ensina isso.21 Ela não ensina a se expressar de maneira simples, porque, ao se expressar de maneira simples, se gera clareza e, quando se há clareza, há pouco ou nenhum espaço para controle. É necessário ser confuso, falar muito, ser complexo e ambíguo, especialmente se você não conhece o assunto de que fala, porque sua ignorância pode ser melhor escondida dessa forma.22

Mas a retórica, nos tempos de Sexto Empírico, estava ficando gasta e as pessoas já estavam ficando cansadas desses jogos de palavras e sutilezas. Persuadir com a retórica não estava mais dando tão certo.23

A retórica confundia nações inteiras, os retóricos eram vistos quase que como pestes. As pessoas comuns ativamente evitavam se comunicar de formas mesmo que remotamente parecidas com retórica, como se ser chamado de retórico fosse algum tipo de insulto. Elas procuravam se comunicar de forma mais enxuta e clara possível.24

O pobre retórico helenístico era uma criatura digna de pena, não raro se via em apuros e talvez ele tivesse que esconder quem ele realmente era tanto quanto fosse possível, porque seu ofício era perigoso e odiado. Nas palavras de Sexto Empírico:

[…] é necessário ir constantemente a assembleias e cartórios, quer se queira ou não, e passar muito tempo junto de tratantes, suspeitos e traidores, descendo aos mesmos lugares que estes, além de fazê-lo, em segundo lugar, desprovido de honra, para não ser desprezado pela opinião desses inescrupulosos. Além disso, deve também discursar com audácia e postar-se de modo contundente, como uma lança, para que seja terrível aos olhos dos oponentes, assim como falacioso e trapaceiro quando está entre os que praticam as piores ações, tais como adultérios, roubos e ingratidões para com os pais, ocasião em que é preciso tanto expor habilmente quanto, ao contrário, ocultar essas coisas. Ele deve também ter muitos inimigos e ser odiado entre estes, alguns porque sofreram retaliação, outros porque estão conscientes de que é hábito de todo contratado, quando atraído por uma taxa maior, tratar antigos clientes da mesma maneira que trata todos os oponentes. Além do mais, ele deve estar engajado continuamente em contendas e, como um pirata, ora fugir ora perseguir, ficando assim cansado e preocupado noite e dia por aqueles em apuros, tendo desse modo sua vida repleta de lágrimas e lamentações, como os que são levados para a prisão ou para o tronco para receberem chicotadas.25

Talvez a retórica atraísse porque o retórico bem formado poderia camuflar seu ofício e ainda ser capaz de exercer dominação sobre os outros, como uma espécie de feiticeiro. Só que, se o ofício retórico não apenas põe seu praticante em perigo como também arruína sua imagem e pode corrompê-lo, o dinheiro recebido não cobre seus riscos. O retórico talvez não tenha mesmo outra escolha.

A retórica também é arriscada porque ela se mete com a justiça sendo que ela foi, várias vezes, evidenciada como algo que nada tem a ver com justiça. Aliás, por vezes a retórica trabalha contra a justiça,26 porque lida com contradições. Contradições não cabem na justiça, como já dito, e por isso Sexto Empírico chama os retóricos de “advogados da injustiça”.27 O risco de que o cliente seja apanhado pela lei, nem tanto por seu crime, mas por causa de um defeito da defesa do retórico (como uma contradição descoberta ou mau uso de um significado) é alto, mesmo quando o cliente é genuinamente inocente. Isso acontece porque o discurso retórico é longo, intrincado e gasto, tornou-se difícil convencer alguém dessa forma. No Período Helenístico, em que as pessoas começavam a ver os danos de discursos assim, convencer alguém com um discurso que não é claro significava diminuir suas chances de persuadir.28

O retórico é então aquela pessoa que procurou a retórica como meio de vida, provavelmente por falta de atributos de persuasão natural, para poder adquirir prestígio e dinheiro. Ele se expressa de modo longo e adornado, em vez de simples e conciso.

Ofício não tão malogrado.

Sócrates — O que me parece, Górgias, é que se trata de uma prática que nada tem de arte, e que só exige um espírito sagaz e corajoso e com a disposição natural de saber lidar com os homens. Em conjunto, dou-lhe o nome de adulação. 29

Depois da reflexão acerca do que é a retórica e de quem são os retóricos, podemos nos ater à discussão sobre como se dá a prática retórica. Ela tem dois momentos: a preparação do discurso e a aplicação do discurso ao público. No primeiro segmento, o retórico deve elaborar seu discurso de modo a não apenas convencer o ouvinte de alguma ideia, mas também de modo a antecipar suas perguntas e objeções. Ele deve ter em mente a história daquele povo, as emoções que deve incitar e que argumentos ele deve usar. Não é uma tarefa fácil: o discurso retórico normalmente é longo, adornado e com mais compromisso com a aparência do que com a lógica. O ato de aplicar o discurso é ainda mais complexo, pois o retórico deve usar artifícios como gestos, tons da voz, pausas estratégicas, expressões faciais. Nós sabemos dessas coisas, porque todos já ouvimos um discurso assim em maior ou menor grau, aquele discurso apaixonado, que “fala para nosso coração”, que sensibiliza, mas que, se você prestar atenção na argumentação, na verdade é fraco e solto.

Logo no início do diálogo Górgias, vemos uma tentativa de persuasão retórica dada pelo personagem A, que tenta pregar uma peça no B. Personagem B faz a A uma pergunta (“que arte é praticada por Górgias?”) e A começa a dar voltas de argumentos e elogios ao redor da pergunta para distrair B, tentando fazê-lo esquecer o que perguntou e aceitar uma resposta que na verdade não cabe a pergunta feita (“a mais bela arte”). Mas Sócrates logo percebeu o que A estava tentando fazer e resolveu ele mesmo interrogar, após explicar para B o que A queria.30 Como se pode ver, a retórica precisa dar rodeios e ser astuta. O retórico não pode se dar ao luxo de não responder a uma pergunta e, quando não sabe a resposta, precisa dar um jeito de parecer que sabe e lograr o ouvinte a aceitar uma resposta, mesmo que esteja errada. Porque, ao recusar-se a responder ou admitir ignorância, o crédito de seu discurso cai e, com isso, suas possibilidades de persuasão. Isso faz parte do segundo segmento, que é a aplicação do discurso. O discurso de A provavelmente é improvisado, mas nem sempre o retórico trabalhará de improviso, tendo antes que preparar o discurso que aplicará. A construção do discurso é explicada em seguida.

Segundo Sócrates, tal como os culinários usurpam o prestígio dos médicos proporcionando o prazer ao paladar e alegando conhecer as propriedades de um alimento em um nível mais profundo que o médico, o retórico apela para as emoções do ouvinte, lhe incitando toda uma gama de sensações que o deixam mais receptivo a uma ideia. Isso é chamado no diálogo Górgias de adulação.31 Esse é um dos elementos principais da retórica. O bom discurso retórico se caracteriza pela sensibilização do ouvinte, não pela tanto pela concisão de ideias, pela lógica ou clareza, embora haja aquilo que é chamado “bom discurso”.

Esse “bom discurso” retórico também é criticado por Sexto Empírico. Quando se ouve a expressão “bom discurso”, se pensa num discurso claro, sem rodeios, sem adornos e conciso. Mas, segundo Sexto Empírico, a retórica ensina justamente o contrário, discursos longos e confusos. A retórica simplesmente não estaria assim comprometida com o bom discurso, mas com o discurso obscuro, porque é mais fácil adular assim.32

Sensibilizar o ouvinte para deixá-lo mais receptivo à ideia (adulação) era extremamente necessário no Período Helenístico, embora nem tanto no Período Helênico.

O retórico precisa observar certas regras particulares dependendo da pessoa que receberá seu discurso. Há discursos próprios para juízes, para líderes religiosos, pessoas comuns e criminosos também. Também discursos para incitar esta ou aquela emoção, este ou aquele sentimento.33 Essas convenções, porém, podem ser deduzidas com o tempo por pessoas que nunca estudaram retórica formalmente, como mostra Sexto Empírico.34

A aparência conta muito na aplicação do discurso, o retórico precisa ter um ar de sábio e se esforçar para manter a imagem de alguém que é propriamente versado em muitos assuntos. Justamente porque pode convencer os outros a fazer algo sem na verdade saber exatamente o que está fazendo, por falta de conhecimento técnico, o retórico nunca é chamado para opinar sobre coisas muito técnicas, como a arquitetura.35 Nos tempos de Sexto Empírico, os retóricos já não eram desejados nem mesmo nas arenas jurídicas, embora o fizessem quando pagos, expondo-se ao perigo. E isso por uma variedade de razões, visto que a retórica havia se tornado algo tão complexo, pernicioso e irritante, que suas regras internas tornaram-se incompatíveis com o ambiente jurídico. Havia, no Período Helenístico, uma demanda pelo discurso jurídico claro, sem ambiguidades.

E que a retórica é contra as leis está também claro a partir das declarações que os retóricos fazem em seu malogrado ofício. Pois ora aconselham, por um lado, a atender ao decreto e às palavras do legislador como claras e dispensáveis de explicação, ora aconselham, voltando atrás, a não mais seguir às palavras, mas à intenção.36

Vale lembrar que a retórica não necessariamente é usada de forma negativa e desonesta, mesmo sendo um ambiente propício à corrupção do praticante. Ela pode ser usada de forma construtiva, como para acalmar emoções de pessoas que estão desesperadas ou apavoradas.37 Um dos meios para isso é dizendo o que o ouvinte quer ouvir. A adulação das emoções pode ser feita com esse recurso, ao dizer para uma pessoa aquilo que ela na verdade gostaria de ouvir, mas que sente que não está de completo acordo com a realidade, precisando ela de segurança. É simples, com esse artifício, adular uma pessoa que já se encontra fragilizada. Só que isso nem sempre é feito para o bem e se aproveitar do estado de espírito de alguém para induzi-lo ao mal é comum.

Após persuadir um ouvinte, o retórico pode dizer que tem um certo controle ideológico sobre ele e isso é ótimo, porque sua retórica deu resultado. Como já dito, a retórica está comprometida com o controle também e parte da força do retórico vem da quantidade de pessoas que ele já persuadiu, especialmente num ambiente democrático direto como a Grécia Antiga, no qual a maioria decide o destino da comunidade. Quanto mais pessoas o retórico fazer pensar como ele, mais poder ele tem na cidade. A persuasão pelo discurso também permite que o retórico possa fazer outros trabalharem para ele e tornar sua vida mais confortável, embora os meios que ele usou para isso possam ser desonestos.

A retórica então se dá na preparação de um discurso longo, passional e convincente, seguido pela aplicação desse discurso sobre um público-alvo, visando o propósito estipulado por aquele que contratou o retórico, propósito este que deve ser alcançado através da adulação e da confusão.

Conclusão.

A retórica, nos tempos de Platão e nos de Sexto Empírico, era algo no mínimo duvidoso, por certo perigoso e não raro pernicioso. Ninguém gostava de oradores retóricos, mas, ainda assim, era uma ferramenta amplamente usada por ser relativamente fácil e por pagar bem. Sabe-se que a retórica não pode ser chamada de arte, nem de técnica, mas ela é certamente um poderoso artifício que pode estar também a serviço do bem e da justiça, na medida em que o discurso retórico esteja comprometido com aquilo que é certo.

A retórica evoluiu desde então e hoje é bastante diferente, mais modesta. Mas isso não significa que os maus oradores tenham deixado de existir. A “má retórica” ainda existe nas igrejas, nos comícios políticos, na televisão e até mesmo dentro de nossas próprias casas. É necessário conhecer esses retóricos e conhecer os lances que estes usam para que possamos evitar ser vítima de seus artifícios e falácias.

Não necessariamente temos de ser inimigos da retórica, mas temos que permanecer inimigos da manipulação e do controle. E conhecer retórica permite que sua defesa contra essas pestes se torne melhor.

Referências bibliográficas.

Górgias. Tradução de Carlos Alberto Nunes. Disponível em: <www.cfh.ufsc.br/~wfil/gorgias.pdf>. Acessado em: 15/06/14.

SEXTO EMPÍRICO. Contra os Retóricos. Tradução de Rafael e Rodrigo Pinto de Brito. São Paulo: Universidade Estadual de São Paulo, 2013.

1Górgias. Página 4.

2Contra os Retóricos. Página 5.

3Contra os Retóricos. Página 7.

4Contra os Retóricos. Página 7.

5Contra os Retóricos. Página 9.

6Contra os Retóricos. Página 9.

7Contra os Retóricos. Página 3.

8Górgias. Página 6.

9Górgias. Página 7.

10Górgias. Página 9.

11Contra os Retóricos. Página 33.

12Contra os Retóricos. Página 23.

13Górgias. Página 17.

14Contra os Retóricos. Página 29.

15Contra os Retóricos. Página 37.

16Górgias. Página 73.

17Contra os Retóricos. Página 21.

18Górgias. Página 7.

19Górgias. Página 6.

20Contra os Retóricos. Página 33.

21Contra os Retóricos. Página 25.

22Contra os Retóricos. Páginas 25 e 27.

23Contra os Retóricos. Página 11.

24Contra os Retóricos. Página 13.

25Contra os Retóricos. Páginas 15 e 17.

26Contra os Retóricos. Página 21.

27Contra os Retóricos. Página 23.

28Contra os Retóricos. Página 35.

29Górgias. Página 17.

30Górgias. Páginas 2-3.

31Górgias. Página 17.

32Contra os Retóricos. Página 25.

33Contra os Retóricos. Página 7.

34Contra os Retóricos. Página 9.

35Contra os Retóricos. Página 10.

36Contra os Retóricos. Página 19.

37Górgias. Página 10.

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6 Comentários »

  1. […] é possível formar silogismos enganosos. Mas não é possível enganar dessa forma quem tem ideias claras sobre a matéria em discussão e sabe que aquela palavra, se pretende significar o que […]

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  2. […] Enquanto que a decisão democrática pode ser confundida pela retórica, a decisão monárquica pode ser confundida pela adulação. […]

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  5. […] ganham autonomia, levando consigo persuasão, crença e sugestão. Assim a retórica passa a ser a arte de persuadir em todas as […]

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  6. […] então tem de estar atentos aos consensos se quiserem convencer alguém. Então, o orador retórico não precisa conhecer aquilo de que está […]

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