Analecto

21 de agosto de 2014

Apresentação sobre os três primeiros livros da Metafísica.

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Apresentação.

Esta apresentação tem por objetivo apresentar as principais ideias contidas nos três primeiros livros da Metafísica de Aristóteles em menos de dez minutos. A tradução para os livros 1 e 2 usada foi a de Marcelo Perine, da Loyola, baseada na tradução de Giovanni Reale. Para o livro 3 foi usada a de Leonel Vallandro, da Globo.

Primeiro, analisamos a doxografia que Aristóteles faz dos filósofos que o precederam, seguida das quatro causas e do processo pelo qual Aristóteles chega à concepção de filosofia primeira.

Metafísica (em grego antigo: Μετά τα φυσικά, translit. metà ta physikà, “depois dos livros de Física”, mas também “além das coisas físicas”) é uma série de tratados escritos por Aristóteles (século IV a.C.), organizados em um conjunto de quatorze livros após a morte do filósofo, por Andrônico de Rodes, que também deu o título de Metafísica ao conjunto. O termo ‘‘metafísica’’ jamais é empregado por Aristóteles em nenhum desses livros: ele usa a expressão filosofia primeira, ciência das causas primeiras, dos primeiros princípios e da finalidade de tudo o que é, enquanto é.1

Aristóteles se indaga sobre o que é a sapiência.2 O que realmente torna o homem sábio? E é dessa pergunta que se desenrola toda a reflexão na Metafísica. Ele toma as acepções de sábio dispostas no senso comum e as analisa. Segundo o senso comum, existem as seguintes características do sábio: precisa conhecer geralmente tudo, embora não tudo em sua particularidade; precisa saber o que nem todos sabem; precisa ter grande conhecimento das causas; precisa ser capaz de ensinar as causas; precisa conhecer aquilo que é mais contemplativo, isto é, menos voltado ao prático; precisa deter um conhecimento que o torne insubordinável. O sábio conhece as coisas particulares enquanto sujeitas ao universal, algo que nem todos sabem porque nem todos podem ir muito longe das acepções obtíveis sensualmente, como os princípios mais fundamentais das coisas, e é capaz de ensiná-las, mesmo que as coisas maximamente conhecíveis não tenham muita utilidade prática, embora sabê-las torne insubordinável a ciência do sábio. Aristóteles conclui que todas essas características da sapiência convergem sobre o conhecimento das causas e dos primeiros princípios.

Antes de entrar no assunto da metafísica, ou melhor, da filosofia primeira, Aristóteles fala de como os filósofos que o antecederam tratavam das causas, apontando suas limitações. Os filósofos anteriores estavam interessados na busca da substância da qual os seres são constituídos, a substância da qual os seres derivam e na qual se dissolvem, identificando a causa primeira nessa substância.3 Tales, de Mileto, foi provavelmente o primeiro a discorrer racionalmente sobre o assunto. Ele percebia que todas as coisas vivas dependiam da água em maior ou menor grau.4 Ele também percebia que mesmo muitos sólidos sem vida tinham água como componente. Ele acreditava, pela sua observação, que a água era o elemento mais simples do qual todos os outros elementos e substâncias derivam. Depois de Tales, Anaxímenes sustentou que não era a água o elemento mais simples, mas o ar. O acordo era difícil, com diferentes pensadores apontando o início em um elemento diferente. Mas percebeu-se que a ideia do mundo como uno e derivado de um único componente não resistia à crítica do movimento: se tudo fosse derivado unicamente de um elemento, não poderiam haver mudanças no estado da matéria e do elemento não poderiam vir diferentes substâncias, posto que ele seria estático.5 Anaxímenes e Anaximandro pareciam ter notado esse problema em Tales. Anaxímenes acreditava que o ar se torna água ou terra por condensação e fogo por rarefacção, enquanto que Anaximandro, que identificava o início na substância supersensível conhecida como “infinito”, acreditava em algo similar. Então, escolas que se seguiram ao pensamento monista dos “fisiólogos”, como Aristóteles os chama, tenderam a explicar o mundo como constituído de substrato e movimento6, como querem os atomistas ou aqueles que afirmavam princípios como Amizade e Discórdia que eram responsáveis pela união e desunião de substâncias, corpóreas ou não.7 Mas a origem do movimento era uma questão em aberto.8

Platão foi mais adiante, com a sua teoria das formas. Enquanto que no pensamento fisiológico anterior a Parmênides a origem dos entes incorpóreos, obviamente, não era objeto relevante de estudo, Platão tenta resolver o problema da origem desses entes, como a bondade, a beleza e a justiça. Mas ele não deixava exatamente clara a relação entre componente e forma conceitual (termo que coincide com a “essência”9 aristotélica), isto é, o que significa “participar das formas”.10 Além disso, as formas, para Platão, só poderiam existir para substâncias, mas se pode facilmente conceber ideias de não-seres, como, por exemplo, de algo que já se corrompeu, porque dele nos resta a imagem.11 Certamente um avanço em relação aos outros pois, ao inserir a forma conceitual (“justiça em si”, “amor em si”, “bem em si”….) pelo processo dialético, ele eliminou uma dificuldade encontrada no pensamento fisiológico: Anaxímenes, por exemplo, havia sustentado que o mundo era ar (pneuma), mas não tinha uma definição consistente do que era esse ar. Mas, mesmo entre as escolas platônicas, muitas das quais acreditavam que as formas eram estáticas, a origem do movimento não estava clara. Ou seja, a teoria das formas também tinha suas falhas.

Portanto, do que foi dito acima, fica evidente que todos os filósofos parecem ter buscado as causas por nós estabelecidas na Física, e que não se pode falar de nenhuma outra causa além daquelas. Mas eles falaram delas de maneira confusa.12

Aristóteles acreditava que o engano desses filósofos que lhe antecederam estava na quantidade limitada de pontos de vista através dos quais se analisava o problema. Os fisiólogos analisavam apenas o componente e, por vezes, o movimento de seu objeto de estudo, enquanto que Platão analisava o componente e procurava dialeticamente a essência do objeto, sua forma conceitual. Aristóteles chama o viés fisiológico de “material” e o novo viés platônico de análise de “formal”.13

(1) Num primeiro sentido, dizemos que causa é a substância e a essência. De fato, o porquê das coisas se reduz, em última análise, à forma e o primeiro porquê é, justamente, uma causa e um princípio; (2) num segundo sentido, dizemos que causa é a matéria e o substrato; (3) em um terceiro sentido, dizemos que causa é o princípio do movimento; (4) num quarto sentido, dizemos que causa é o oposto do último sentido, ou seja, é o fim e o bem: de fato, este é o fim da geração e de todo movimento.14

Assim, até o momento, os filósofos haviam discutido apenas três “causas” da substância15: a causa material, que é o componente, a causa eficiente, que é a causa do movimento (embora esta tenha sido estudada muito insatisfatoriamente) e a causa formal, que é sua definição conceitual. Mas, para resolver o problema do movimento, Aristóteles propõe que também se deve analisar a causa eficiente de forma mais profunda e a causa final, que é para quê algo tende.

Agora que foram enunciadas as quatro causas da substância, Aristóteles pergunta-se que ciência deve ocupar-se delas.16

Será que deve ser uma ciência já existente? Logo de início, Aristóteles desconsidera a matemática: a matemática está interessada em quantificações, enquanto que a análise das causas deve ser qualitativa.17 Não poderia ser nenhuma das ciências naturais, porque estas se apoiam em axiomas duvidosos para Aristóteles, tanto que cabe ao filósofo a análise desses axiomas.18 Além disso, a análise das causas é algo tão teórico que se uma ciência natural fosse se ocupar também delas, poderia se descuidar de seu objeto original. É necessário que uma ciência nova se ocupe dessas causas.

Mas precisa ser só uma ou será que podem haver várias? Se Aristóteles fosse atribuir a tarefa a várias ciências, como seria feita essa divisão? A primeira possibilidade que vem à mente seria atribuir uma substância para cada nova ciência estudar. Mas isso tornaria a administração muito difícil. Será que deveríamos entregar todas as substâncias para uma só ciência então? Não exatamente e Aristóteles tem um raciocínio para apoiar essa decisão.

O uso dos nossos sentidos permite o conhecimento de uma situação particular e prática.19 Por exemplo, se eu convivo com uma pessoa doente diariamente, sei que remédios funcionam melhor para sua doença. Se eu fosse cuidar de outra pessoa doente, eu poderia, também pelos sentidos, saber que remédios funcionam melhor para essa pessoa. Mas, pelo refinamento das informações providas pelos sentidos, posso extrair, da comparação de casos particulares, uma regra que rege todos. Isso é arte e é possível apenas para animais dotados de memória. Assim, o empírico, apesar de ser capaz de tratar bem de um assunto particular, o teórico, que extraiu uma regra da soma de casos particulares, está em melhores condições de ensinar medicina e, por essa razão, o empírico lhe deve servidão, por ser menos sábio, posto que o teórico conhece as causas do caso particular.20 Então, a nova ciência que cuidará das causas e dos princípios das substâncias deve analisar o que há de comum entre as substâncias. Mas um conhecimento tão teórico não tem utilidade prática imediata, por isso só pode aparecer em sociedades cujos problemas relativos à sobrevivência já tenham sido sanados (ninguém há de se preocupar com as causas e princípios da substância tendo que lutar pela sobrevivência).21

Assim, a nova ciência proposta por Aristóteles, a filosofia primeira, é a ciência que lida com as causas e princípios da substância ou mesmo da substância, visto que a substância é aquilo que é maximamente cognoscível. Essa é a ciência divina, pois Deus, enquanto Deus, é uma causa e um princípio e tem esse tipo de ciência em sumo grau.22

Todas as ciências serão mais necessárias que esta, mas nenhuma lhe será superior.23

Para o caso de o escopo da filosofia primeira não ter ficado claro, Aristóteles se põe a esclarecer que coisas compõem o discurso filosófico primeiro. Afinal, ao se começar pelas dificuldades, a meta fica clara.24

Deve essa ciência nova se ocupar também de entes incorpóreos? Sim, naturalmente, porque Platão deixou um grande vazio em sua teoria das formas que precisa ser fechado. Aristóteles diz que, ao postular um possível “homem em si” ou “cavalo em si”, como na teoria das formas, tudo o que se faz é postular um homem e um cavalo eterno. Além do mais, a relação entre o eterno e o contingente é obscura, além de sugerir um número indeterminado de entes intermediários. Essa dificuldade precisa ser transposta.25

Deve também analisar atributos da substância? Negativo, mas outra ciência pode. Atributos como “plano” e “sólido”, qualidades da matéria, são demonstrativos e já foi implícito, várias vezes, que a filosofia primeira, como ciência das causas e dos princípios, da substância e do Ser das coisas, não é demonstrativa.26

Quais são os princípios e elementos das coisas? Se forem gêneros, quais gêneros? Essa pergunta pode ser feita de outra maneira: o princípio se encontra na coisa como um todo ou em uma ou mais partes dela? Filósofos anteriores a Aristóteles identificavam o princípio apenas em partes das coisas, como o ar ou a terra, que era, certamente, um componente das coisas, mas não as coisas todas. Além do mais, quando se quer conhecer algo, se divide esse algo em várias partes, estudando-as em separado para em seguida estudar suas inter-relações.Então, as partes devem ser estudadas em um momento e os gêneros em outro momento.27

Será que só existem as coisas físicas ou existe algo à parte delas? Se apenas as coisas existissem, isto é, as coisas físicas, não seria possível conhecer nada, a menos que identifiquemos conhecimento com sensação. Isso porque a teoria não é sensível, mas abstração, a partir de casos particulares e sensíveis, de algo geral e menos experimental. Se todas as coisas tivessem apenas um lado físico e delas só se pudessem extrair sensações, fica implícito que todas as coisas são particulares e que delas não poderiam ser extraídas regras, que são menos experimentais quanto mais casos particulares são relevados. Não haveria nada de eterno nem de imóvel, posto que as coisas físicas estão em movimento. Esse é o maior problema: se todas as coisas físicas estão em movimento e se assumimos coisas físicas como as únicas existentes, a origem do movimento torna-se inexplicável, porque uma coisa movida é movida por outra e há uma necessidade lógica de um ente que iniciou o movimento sem estar sujeito ao mesmo. Então, coisas à parte das coisas físicas devem existir.28

Será que as causas dos entes incorpóreos e eternos é a mesma dos entes sensíveis contingentes? Evidente que não. Mas será que essas causas são perecíveis? Nem tampouco: se perecíveis fossem as causas dos eternos, a causa dos perecíveis permaneceriam em aberto, portanto caindo num ciclo eficiente infinito. É necessário que essas causas sejam eternas.29

Será que existem um “Um em si” ou um “Ser em si”? Se não existisse um Ser em si, a filosofia primeira não teria sentido, porque ela se propõe a conhecer aquilo que é maximamente cognoscível. A substância é o que há de mais cognoscível e a substância do Ser é a mais geral das substâncias (donde se pode concluir que a filosofia primeira também é uma ciência do Ser). Mas a questão acerca do “Um em si” escapa ao Livro 3.30

As coisas numéricas e geométricas são substanciais ou não? Embora essas coisas não tenham corpo, todo corpo pode ser traduzido numericamente e geometricamente, mas números e conceitos geométricos só são obtíveis por divisão e são passíveis de divisões ulteriores. Além disso, tal como ponto é indivisível e o momento “agora” é indivisível, o agora é sempre diferente ao passo que estruturas geométricas e números, mesmo sendo genericamente os mesmos, se comportam de formas diferentes dependendo da explicação. A escolha mais segura seria negá-los como substância, mas o assunto é discutido com mais profundidade em outros livros.31

Aristóteles encerra o Livro 3 com essas aporias e se propõe a resolvê-las ao longo da Metafísica.

1METAFÍSICA (ARISTÓTELES). In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2014. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Metaf%C3%ADsica_(Arist%C3%B3teles)&oldid=39665851>. Acesso em: 26 jul. 2014.

2Livro 1, parte 2, páginas 7 e 9.

3Livro 1, parte 3, página 15.

4Livro 1, parte 3, página 17.

5Livro 1, parte 3, página 19.

6“Movimento”, em Aristóteles, é a passagem de condição potencial ao ato. “Potência” é aquilo que uma coisa pode ser enquanto que “ato” é aquilo que a coisa é no momento. Por exemplo, a madeira a pegar fogo é atualmente quente, mas potencialmente fria, pois o fogo há de apagar e a madeira há de esfriar.

7Livro 1, parte 4, página 23.

8Livro 1, parte 4, página 25 e página 27.

9“Essência”, para Aristóteles, é a resposta à pergunta “o que é?”. O que é um discurso? Ao responder essa pergunta, obtém-se a essência da substância discurso, sua definição conceitual. Essências coexistem com “acidentes” que são condições contingentes que cercam a essência. Se um discurso é bom ou ruim (acidentes), ele não deixa de ser discurso.

10Livro 1, parte 6, página 35.

11Livro 1, parte 9, páginas 51 e 53.

12ARISTÓTELES. Metafísica. Página 65.

13Livro 1, parte 3, página 19. Livro 1, parte 6, página 39.

14ARISTÓTELES. Metafísica. Página 15.

15“Substância”, em Aristóteles, é aquilo que subsiste por si: uma essência com um número qualquer de acidentes opcionais.

16Livro 2, parte 3, página 81.

17Livro 3, parte 2, 996a.

18Livro 3, parte 2, 996b e 997a.

19Livro 1, na parte 1.

20Livro 1, parte 1, página 5.

21Livro 1, parte 1, página 7. Livro 1, parte 2, página 13.

22Livro 1, na parte 2, página 13.

23ARISTÓTELES. Metafísica. Página 13.

24Livro 3, parte 1, 995a e 995b.

25Livro 3, parte 2, 997b.

26Livro 3, parte 2, 997a.

27Livro 3, parte 3, 998b.

28Livro 3, parte 4, 999b.

29Livro 3, parte 4, 1000b.

30Livro 3, parte 4, 1001a e 1001b.

31Livro 3, parte 5, 1001b-1002b.

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