Analecto

21 de agosto de 2014

Definição de sofista no Sofista.

Definindo o sofista.

Este trabalho visa delinear a definição de “sofista” encontrada na obra platônica Sofista. No livro, Platão usa o personagem “Estrangeiro de Eleia” nas últimas páginas, imediatamente antes de aplicar a definição.

O Estrangeiro diz que existem o discurso e a opinião. Ele pergunta-se se o “não-Ser os toca”, ou seja, qual dos dois é falso, se ambos são falsos ou se não há falso. Falso no sentido falacioso. Tal como formas e letras se relacionam entre si para formar um todo, um discurso é formado pela sucessão propriamente concatenada de nomes (substantivos) e verbos (ações), não podendo um discurso fazer sentido se for composto, exclusivamente, por um ou outro. Quando verbo e nome se juntam propriamente, as palavras indicam, segundo o Estrangeiro “aquilo que é, ou está vindo a ser, ou veio a ser, ou vai ser”.

Um discurso, contudo, é sempre sobre algo. Um discurso não existe se não houver objeto a ser descrito, analisado. Isso é válido mesmo para as frases: uma frase é sobre um sujeito, necessariamente. Mas o discurso tem a particularidade de falso ou verdadeiro. Assim, o discurso ou é sobre algo que propriamente descreve o sujeito (sendo assim verdadeiro) ou sobre algo que não descreve bem o sujeito ou não o descreve de jeito nenhum (sendo assim falso). Se o discurso é falso, ele perde o sujeito, logo, passa a falar sobre nada, posto que não há um sujeito que atenda às características descritas no discurso, como quando digo “este homem tem asas” se não existe homem com asas. Isso tem a ver com as formas platônicas de identidade, movimento, repouso, Ser, não-ser e diferença.

Como diz o Estrangeiro: “se alguém diz coisas sobre ti, porém coisas diferentes como idênticas, ou não-seres como seres, parece que, quando essa combinação de verbos e nomes é formada, nos vemos […] diante do falso discurso.”

O Estrangeiro segue então delineando os três tipos de discurso: pensamento, opinião, aparição. A aparição é sensorial, isto é, quando um indivíduo recebe estímulo externo que lhe leva a pensar de certa forma e pode ser apresentada na forma de discurso. A opinião é o pensamento vocalizado provido de afirmação ou negação, que também pode ser apresentada na forma de discurso. O pensamento, porém, é o monólogo interior não vocalizado, mas também sendo um discurso. Pode-se dizer que a opinião é o discurso resultante do discurso do pensamento.

Por serem discursos, são passíveis de erros, isto é, de descreverem incorretamente um sujeito, portanto perdendo o sujeito (e falando do não-Ser).

A partir daí, a discussão volta aos gêneros de “produção de cópias” (modos de mentir): a produção de semelhança e a imaginação. Por esses dois caminhos, é possível produzir cópias das coisas que são, ou seja, produzir coisas falsas. Assim, existe a possibilidade de que uma arte possa se devotar à produção de falsidades, uma “arte do engano”, uma arte da “imitação”, que não está comprometida com as coisas como realmente são. Essa arte pode ser praticada mesmo pelos deuses, quando estes produzem sonhos nos mortais ou ilusões de ótica durante a sua vigília. O ser humano, através da arte (nesse caso, a pintura), pode fazer o mesmo, quando pinta uma tela que mostra a representação artística de uma casa. Não é uma casa real, mas uma “cópia” ou “engano”.

Como dito, existem duas formas de produção de cópias: a criação de semelhanças e a imaginação. A imaginação divide-se em duas partes: a produção de falsidade na qual o orador oferece-se como instrumento e a produção de falsidade instrumental. No caso da primeira (imaginação imitativa), há também outra divisão: aqueles que imitam conhecendo o objeto imitado e os que tentam imitar sem conhecer. É possível imitar algo com base em opiniões, que não são de fato conhecimento (imitação da opinião, em oposição à imitação científica). Por último, existem aqueles, dentro da imitação da opinião, que imitam sem estar cientes de que o fazem, ou seja, acham que pronunciam a verdade, e os que imitam sabendo que são ignorantes quanto ao que imitam. Esses que sabem que o fazem, podem imitar usando longos discursos ou discursos breves de ataque, que fazem o interlocutor contradizer-se. Aí está justamente o sofista em sua forma mais pura. Seguindo a dialética em processo reverso, o sofista é o “tipo imitativo da parte dissimulada da arte da opinião, que constitui parte da arte da contradição e pertence ao gênero imaginativo da arte de produção de cópias, que não é divina, mas humana, e que foi definida por força de argumentos como a parte da prestidigitação da atividade produtiva. Aquele que disser que o sofista pertence a essa raça e família estará, a meu ver, dizendo a completa verdade.”

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