Analecto

28 de setembro de 2014

Anotações sobre os filósofos pré-socráticos.

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  • O que é vivo precisa de umidade para viver. As coisas mortas são secas. Tales também acreditava que objetos tinham alma, por isso não poderiam ser chamados de “inanimados”.
  • O limitado não é capaz de criar algo. Tudo o que está separado deve juntar-se um dia e depois separar-se novamente. O ser humano procedeu de peixes.
  • O vivo dissipa-se em sua origem. Anaximandro via que os elementos transformavam-se reciprocamente uns nos outros, por isso não supôs que um deles fosse substrato. Deus é ilimitado e vice-versa.
  • O ser humano é o único animal que não nasce pronto para sobreviver ou que não o aprende à curto prazo, precisando assim de proteção. Os primeiros seres humanos, então, recebiam proteção dos peixes, uma ideia derivada da doutrina de Tales de que tudo vem da água.
  • O ar torna-se fogo por rarefacção, mas torna-se outros elementos por condensação. Assim, tudo vem do ar.
  • É natural que as pessoas concebam para si deuses antropomórficos. Se cavalos, por exemplo, pudessem conceber deuses, parece natural que intentassem deuses com aparência de cavalo. O verdadeiro deus não deveria comportar nenhuma característica humana.
  • Mais vale saber das coisas que ser forte.
  • É totalmente errado que as pessoas concebam deuses como perfeitos e atribuam a deuses toda sorte de comportamento humano desonroso, como a traição conjugal.
  • Ninguém tem qualquer autoridade para dar uma última palavra sobre o divino, nem o próprio filósofo, então que se tome o que ele pensava como a opinião dele.
  • O mundo sempre existiu, é eterno.
  • Felicidade não coincide com prazer corporal. A pessoa comum ora para estátuas e ídolos, ignorando o que representam.
  • É digno morrer em consequência de combate. O que há depois da morte é um mistério.
  • Melhor a glória eterna que o prazer transitório.
  • As grandes coisas merecem tempo devido para serem julgadas. A democracia não necessariamente produz o melhor resultado. A guerra é necessária à mudança. Dados sensíveis são facilmente mal interpretados.
  • Os opostos coincidem em Deus. A alma é ligada harmoniosamente ao corpo.
  • Tolos tudo temem.
  • Se algo feito pela natureza nos parece injusto, isso se deve a nossa inaptidão de entender a justiça da natureza que, em geral, é melhor que a nossa. Para usufruir do potencial cognitivo sensorial, uma boa alma se faz necessária. Algumas coisas que queremos é melhor não ter. A voz da natureza precisa ser ouvida.
  • Parte do sucesso de Heráclito deve-se ao quão simples eram suas ideias. Qualquer um pode entender o que está escrito, se der-se ao mínimo de esforço.
  • O mundo vem de um elemento simples e pare esse elemento retorna periodicamente.
  • A discórdia é necessária.
  • O conhecimento confiável vem da razão comum, que precisa ser ouvida. Os que procuram saber das coisas sem recorrer a razão, erram.
  • Tudo se repete e nada é realmente novo.
  • É mais fácil se defender de um inimigo que de um amigo.
  • O mesmo é pensar e ser.
  • É importante conhecer tanto a verdade como as opiniões dos mortais, para saber o que se deve evitar, como não se deve pensar e como refutar. Os sentidos não são completamente condenados por filósofos pré-socráticos.
  • O não-ser não pode ser pensado, dito e não existe. Pensar e ser são a mesma coisa. O ser é eterno, imóvel, esférico.
  • A filosofia erra quando usa todos os significados de ser como se fossem o mesmo, sem separá-los, gerando ambiguidade. O ser se diz de várias formas. Foi provavelmente o primeiro a dizer que terra é matéria e fogo é movimento.
  • Se algo é adicionado a um corpo e não aumenta seu tamanho, se algo é subtraído de um corpo e não diminui seu tamanho, esse algo não existe.
  • O nada é estéril. Se houve um ponto em que nada existia, efetivamente nada existiria agora. É necessário que algo tenha sempre existido.
  • Movimento implica espaço vazio. De fato, se tudo estivesse completamente cheio, não seria possível mover-se.
  • Os deuses são impassíveis de se conhecer.
  • O corpo é confiável como instrumento de conhecimento.
  • Nada vem do nada.
  • O estudo fortalece o entendimento. Os quatro elementos (água, ar, fogo e terra) e as duas forças (amor e ódio) têm a mesma idade.
  • Mesmo os deuses são feitos desses elementos.
  • Quando as coisas se juntarem novamente em uma, pela força do amor, o ódio será a única coisa que não participará da mistura.
  • Todos os seres têm inteligência.
  • Não se deve alterar a natureza das coisas para não matá-las. Quem nutre opiniões a respeito de deuses ao invés de buscar a verdade sobre os deuses, é um desgraçado.
  • Há seis princípios, quatro materiais (água, ar, terra e fogo) e dois ativos (amor e ódio).
  • Ódio e amor governam alternadamente. O fato de que as coisas se separam mais que se juntam mostra que, atualmente, o ódio governa.
  • O gosto dos alimentos vem da composição do solo. De fato, o sabor do vinho varia conforme o terreno no qual foram cultivadas as uvas. Inteligência e alma são a mesma coisa.
  • Todas as coisas têm números e é impossível pensar sem números.
  • O número permite conhecer aquilo que é duvidoso.
  • Existem pensamentos que são mais fortes que nós. A Terra gira em torno do elemento fogo, em uma rota circular oblíqua.
  • Som é consequência de choque.
  • A agudeza de um som deriva da velocidade de execução.
  • Cada coisa tem fragmentos de cada coisa. Tudo está em tudo… menos no espírito.
  • O espírito não incorpora matéria que lhe é estranha, muito embora possa ser incorporado em matéria.
  • Nascer é ser composto e morrer é ser decomposto. Os animais são mais fortes e mais rápidos, mas o indivíduo é mais inteligente.
  • Ar é Deus, está em tudo.
  • Todo discurso tem um pressuposto, que deve ser exposto de forma simples e digna.
  • Ar coincide com vida e inteligência. É um deus que se manifesta de diferentes maneiras tal como a inteligência.
  • Os mundos são formados de ar condensado e são ilimitados em número. A Terra é redonda. O ar de Diógenes é eterno e imóvel, não coincide com o ar comumente concebido pelas pessoas.
  • Tudo acontece por uma razão.
  • Leucipo fundou o atomismo, doutrina que prega que todas as coisas são feitas de átomos que se agregam e se separam mecanicamente. Assim, o mundo não é eterno.
  • Leucipo, Demócrito e Epicuro acreditavam que o pensamento decorre do estímulo externo.
  • Felicidade é comedimento e ponderação e não agitação.
  • Prazer e dor definem vantagem e desvantagem.
  • Os sentidos podem conhecer até certo ponto. Daí, a razão precisa assumir.
  • O artista entusiasmado e inspirado produz bela arte.
  • A sabedoria liberta a alma das paixões. O indivíduo é um microcosmo.
  • Felicidade vem da retidão e da prudência. O mal deve ser evitado por dever e não por simples temor.
  • É correto se sujeitar aos mais sábios quando estes são reconhecidos como tal. A crítica vinda de uma má pessoa não precisa ser acatada. Quem se acha sábio se fecha ao conhecimento novo.
  • Ação irrefletida provoca arrependimento. Sabedoria vem da experiência. Dá para identificar a pessoa inexperiente pelas suas aspirações. É infantil desejar sem medida. Deve-se recusar o prazer que não traz vantagem.
  • Apenas aceite favores se puder retribuir com juros. Viver sem amigos não vale a pena.
  • Elogiar quem não merece é causar dano ao elogiado, pois não corrigirá sua conduta. Coçar-se e amar provocam a mesma sensação.
  • Querer agradar alguém a todo custo é prejudicial. O indivíduo aprende dos animais por imitação. O corpo precisa ser bem cuidado.
  • Viver sem moderação é aceitar morrer aos poucos. Procurar saber tudo é ignorar tudo.
  • Deve-se educar pela palavra e não pela punição, para que o aluno não pense que pode fazer o que quiser quando não houver quem o puna. Educando pela palavra, ele agirá corretamente mesmo na ausência de punidor.
  • A existência de velhos estúpidos mostra que é a educação que traz sabedoria, não o tempo. Assim, experiência não coincide com mera passagem dos dias. O máximo de felicidade e a minimização da tristeza são obtíveis pela procura do prazer em coisas imperecíveis. Procurar prazer, por exemplo, no dinheiro (que acaba) é aceitar a possibilidade de que sua fonte de prazer é esgotável. O que fazer quando ela esgotar?
  • O animal, quando necessita de algo, sabe do quanto necessita. Já a pessoa, não sabe. Fugir da morte é aproximar-se dela.
  • O que o corpo deseja é fácil encontrar (comida, água, abrigo, local pra aliviar-se), mas o que o espírito mal dirigido deseja (fama, fortuna, imortalidade) é difícil de encontrar. A busca por essas coisas raramente dá certo e traz muitos sofrimentos, além de que elas não fazem ninguém feliz. Deve-se trabalhar como se a morte nunca fosse chegar.
  • Num estado dividido pela guerra civil, vencedor e vencido são levados à perda.
  • O assassino de um injusto não merece punição. A lei da alma é não praticar o mal. É justo que as falhas sejam mais lembradas que os sucessos para que não se repitam facilmente.
  • Educar crianças é doloroso, mas os resultados de uma má educação na infância doem ainda mais. Melhor adotar filhos que procriar.
  • Quem suporta a pobreza dignamente tem domínio próprio.
  • A alma também é feita de átomos.
  • Nada pode ser infinitamente dividido.
  • A alma não é imortal. Nada feito de átomos é imortal, por ser passível de decomposição. Mas o átomo é imperecível.
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25 de setembro de 2014

Anotações sobre a metafísica.

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  1. A curiosidade faz parte da natureza humana.
  2. Arte é o conjunto de informações abstraídas de um processo indutivo com finalidade prática. O sinal distintivo de domínio sobre um conteúdo é a capacidade de ensiná-lo. Importante ressaltar que o conceito de arte como estética vem depois. Para os gregos antigos, arte é técnica.
  3. O sábio deve conhecer tudo na medida do possível, embora não tudo em sua profundidade. O sábio deve ser não subordinado por conhecer as causas das coisas.
  4. A filosofia nasceu quando as pessoas, admiradas com o mundo, perceberam que eram ignorantes e buscaram o conhecimento com principal intuito de fugir da ignorância, sem necessariamente visar utilidade prática.
  5. As causas da substância são quatro: formal (o que a coisa é), material (de que é feita), eficiente (o que a fez passar da potência ao ato) e final (para quê tende).
  6. Os primeiros filósofos estavam interessados na causa do mundo, identificando-a em um elemento simples e material. Tales acreditava que o princípio era o elemento água, Anaxímenes acreditava que era o ar, Heráclito acreditava no fogo e Empédocles acredita que eram fogo, ar, terra e água os princípios.
  7. Muitas das primeiras filosofias de ordem naturalista eram falhas por suprimir o movimento: que força impeliu a água, por exemplo, a tornar-se outras coisas?
  8. Admitir apenas causas materiais para tudo implica suprimir os entes incorpóreos. Invocar uma “razão universal” para explicar o movimento deu certo no começo.
  9. Demócrito acreditava que os princípios eram “cheio” e “vazio” (isto é, átomos e vácuo). Pitágoras acreditava que era o número.
  10. Alguns pitagóricos acreditavam na existência de dez princípios, cada um composto de duas coisas opostas.
  11. Os filósofos naturalistas se dividem em duas categorias: os que crêem na origem puramente material (não obstante o número de princípios) e os que crêem na origem material e na origem motriz (esta última podendo ser una ou múltipla).
  12. Platão era mobilista, mas não aceitava que a doutrina do “tudo flui” de Heráclito era válida também para as coisas imateriais, já que, se o fosse, nada poderia ser conhecido. Postulou, além das coisas sensíveis e das ideias, os seres matemáticos.
  13. Os naturalistas erraram em muitos pontos, por suprimirem a essência, por suprimirem os entes incorpóreos e alguns outros ainda por não falar do movimento.
  14. Logo vê-se que o número de ideias constitui um problema na teoria das ideias.
  15. A teoria das formas comporta “formas de formas”, permitindo que algo seja, ao mesmo tempo, modelo e cópia.
  16. A origem do movimento não está clara na teoria das formas.
  17. Não é possível apreender algo sem o sentido certo.
  18. Todos dão sua contribuição à verdade, mesmo os que erram. Se algo é muito óbvio, é fácil deixar escapar à vista.
  19. As causas não podem ser revertidas indefinidamente.
  20. É necessário se expressar de forma clara se o que se quer é ser entendido.
  21. A matemática trata de coisas que não têm matéria, por isso era separada da física antes de Newton.
  22. Para resolver as dificuldades, é necessário expô-las, analisá-las.
  23. A matemática não é qualitativa, mas quantitativa, preocupada com número e quantidade, não com bom e ruim.
  24. Conhecer um objeto é saber o que ele é.
  25. A essência de algo não é demonstrável empiricamente.
  26. Existem, sim, coisas eternas, pois tudo o que é contingente vem de algo que lhe é anterior, mas se não houvesse algo eterno (que sempre existiu) nada existiria.
  27. Impossível que a origem dos entes contingentes e dos entes eternos seja a mesma.
  28. A filosofia antiga parece implicar que a discórdia constrói na medida em que separa as coisas, dando-lhes forma particular, e a amizade destrói ao juntar tudo em uma coisa só, fazendo tudo abdicar de existência particular.
  29. Alguns filósofos parecem identificar um e ser.
  30. Nem toda potência se efetiva, isto é, torna-se ato.
  31. A metafísica se ocupa do ser enquanto ser.
  32. O filósofo está incumbido de estudar tudo.
  33. A filosofia deve questionar os axiomas das outras ciências.
  34. A lógica é parte da filosofia.
  35. A aceitação sem provas é necessária ao discurso; não é possível chegar a conclusão nenhum sobre algo se você perguntar qual a prova daquilo e depois a prova de que a prova é válida, depois a prova da prova da validade da prova e assim sucessivamente.
  36. Caso o enunciado seja deformado, o significado dos termos constados nele têm prioridade.
  37. Para Anaxágoras, tudo está misturado, não havendo existência particular.
  38. Todos fazem juízos irrestritos quanto ao útil e ao inútil.
  39. Loucos sempre são a minoria. Se os sentidos de alguém fossem diferentes, mesmo que para melhor, ele seria considerado uma anormalidade e muito provavelmente não seria levado a sério.
  40. Se tudo estivesse em constante mudança, nada se poderia afirmar com certeza, não poderia haver ciência sem regularidade.
  41. Verdade é dizer que aquilo que é de fato é e que o que não é realmente não é. Mentira é dizer que o que é não é e que o que não é na verdade é.
  42. A causa final também põe as coisas em movimento.
  43. Uma coisa é “mais una” conforme se aproxima do critério “não pode ter seu sentido separado e não é divisível nem em tempo nem em espaço”.
  44. Substância é corpo simples, causa de ser, parte que não pode ser removida do todo sem destruí-lo ou essência. Substrato.
  45. Potência é aquilo que é passivo de sofrer movimento, aquilo que pode vir a ser.
  46. Impossível é qualquer afirmação falsa que é necessariamente falsa (isto é, que não poderia ser verdadeira de nenhum modo).
  47. Bom é aquilo que é perfeito, excelente ou que alcançou seu fim.
  48. “Gênero” pode significar “descendência” (por exemplo, “gênero humano”), é uma classe de coisas.
  49. Acidente é aquilo que não ocorre todas as vezes nem na maioria das vezes, não fazendo, portanto, parte da essência de algo.
  50. A física trata do ser enquanto este admite movimento, ao passo que a metafísica se ocupa do ser imóvel e separado.
  51. A filosofia primeira é a mais alta das ciências teóricas.
  52. Essência é substância sem matéria.
  53. Uma substância se produz do ato de outra.
  54. Essência independe de órgão.
  55. A essência do animal é a alma.
  56. Toda definição é definição do universal; acidentes não são levados em conta numa definição.
  57. Matéria não participa da definição (se fosse dada alma a uma estátua, tornaria-se a estátua um animal).
  58. A física é a “filosofia segunda” e o físico deve conhecer a substância descoberta e estudada pelo metafísico.
  59. Em “animal bípede”, animal é gênero e bípede é diferença (aquilo que diferencia aquele espécime dos outros do mesmo gênero).
  60. É preciso saber o que se busca antes de começar a buscar.
  61. “Calmaria” significa “tranquilidade do mar”. Tranquilidade é ato, mar é substrato. “Animal” é “alma num corpo”.
  62. Não é possível gerar uma forma, mas é possível gerar um indivíduo, que é matéria e forma.
  63. Nem tudo tem quatro causas. Um determinado produto precisa vir de causas harmônicas.
  64. Conhecer um objeto pode implicar conhecer seu contrário.
  65. Potência e ato referem-se àquilo que vem imediatamente atrás ou a frente.
  66. A melhor forma de aprender é na prática.
  67. Filosofia é ciência dos primeiros princípios.
  68. Física e matemática também estudam princípios das coisas que existem e, por isso, são partes da filosofia.
  69. Nada vem do nada.
  70. A estabilidade é necessária ao conhecimento; não é possível conhecer algo que está em constante mudança.
  71. Existem, necessariamente, tanto coisas verdadeiras como falsas. Não se pode dizer nem que tudo é verdade nem que tudo é mentira.
  72. As ciências são hierarquizadas segundo seus objetos, tornando assim a teologia a maior delas.
  73. O conhecimento do acidental não é científico.
  74. “Acaso” não é “efeito sem causa”.
  75. Tempo e movimento sempre existiram.
  76. A causa final move por atração.
  77. A astronomia trata do que é sensível, mas eterno.
  78. Deus, como o ser mais excelente, só pode pensar o que há de mais excelente: ele mesmo.
  79. A missão de cada indivíduo se inicia em sua natureza.
  80. A teoria das ideias só teve início porque se constatava que as coisas sensíveis estão em mudança constante. Assim, se quiséssemos entender alguma coisa do mundo, só poderia ser aquilo que há de inteligível. Mas não foi Sócrates que inventou as ideias.
  81. Número e grandeza estão nas coisas.
  82. Aristóteles já usava o termo “gravidade”.

13 de setembro de 2014

Homens são todos iguais.

Filed under: Saúde e bem-estar — Tags:, , , , , , , — Yure @ 00:53

Entrarei em detalhes sobre minha aversão à mulheres, correndo o risco de soar ofensivo. Quando eu era menor, lá pelo jardim de infância, eu era bastante tímido frente ao sexo oposto. De fato, meninas pensavam e agiam de forma diferente e, sempre que eu tentava me aproximar delas, eu era recebido aos risos, porque meu comportamento típico de menino, minha aparência e minhas reações eram engraçadas para elas. Era como se eu fosse um constante motivo de risada. Então eu comecei a me afastar delas, apesar de que, com o passar do tempo, a convivência com fêmeas estranhas tornou-se inevitável e acabei tendo que aceitar.

Também na infância, eu era cotidianamente mal tratado pela minha irmã, que me batia, gritava comigo e elaborava mentiras sobre mim pra minha mãe. De fato, ela me fazia assumir todo tipo de tarefa, porque eu era mimado pela minha mãe e ela achava inaceitável que eu não contribuísse com a ordem da casa enquanto a mãe estava. Então, sempre que eu ficava sozinho com ela, eu era forçado, por vezes violentamente, a fazer tarefas aleatórias e ter meus privilégios suspensos. Eu tinha um ódio indescritível por ela, mas ela recebeu da vida o que lhe é devido. Certo dia, entrei apertado no banheiro e a vi sentada no vaso sanitário, de pernas bem abertas, depilando-se. O cheiro era nauseante. Eu tinha sete anos.

Na adolescência, fiz algumas amigas, duas, pra ser mais exato. Eu ainda tinha alguns problemas com mulheres, mas eram problemas pequenos, já que eu havia recebido uma educação igualitária. Eu pensava que mulheres são iguais a nós, homens, em sua diferença, no sentido de que as diferenças entre os gêneros se anulam ao serem os gêneros comparados. Mas aí eu tive depressão profunda por dois anos, período no qual eu comecei a enxergar meus próprios defeitos com um grau de aumento de 400%. A depressão muda a forma como as pessoas vêem o mundo ao redor e comecei a observar as coisas de um ponto de vista mais pessimista. A sensação de ser constante motivo de riso perante as mulheres voltou, naturalmente, e comecei a me perguntar o porquê daquilo, coisa que eu não fazia quando criança. As mulheres tinham processos de pensamento que eu não conseguia apreender e uma inteligência social espantosa. Eu me sentia três passos atrás delas, literalmente um retardado, mas, sempre que eu tinha que trabalhar com elas, eu me sentia impelido a acompanhá-las, embora eu quase sempre não conseguisse. Essas pressões, repetidas por trabalhos em grupo e convivência, mostraram um dado inesperado à minha insólita mente deprimida: minha educação igualitária estava errada, é ingênuo acreditar que homens e mulheres são iguais em sua diferença e as mulheres provavelmente já pensavam assim. De repente, eu lia pensamentos. E a leitura de um livro sobre psicologia infantil que delineava as desvantagens do sexo masculino só havia piorado as coisas.

Mas isso não parou meus hormônios. Certo dia, ainda deprimido, me apaixonei por uma garota e até cheguei a confessar meu amor por ela e ela confessou o dela por mim. Mas como eu manteria uma relação dessa natureza estando eu três passos atrás? Eu não consegui manter a relação por muito tempo e acho que nem posso dizer que de fato fomos namorados. Quando ela terminou seus estudos no Ensino Médio, não a vi por anos. Recentemente a vi várias vezes em ônibus, vestida como uma protestante popular. Não falei com ela porque a simples visão de sua face faz eu me sentir um fracasso total.

Durante a depressão, eu me perguntava como eu era o único capaz de ver que a educação igualitária era uma falácia. Ou, pelo menos, o único dos homens. Talvez porque elas fossem as principais divulgadoras da educação igualitária e, já que acreditar nisso é ingenuidade, talvez elas estivessem explorando algum tipo de ingenuidade natural. Mas será que se pode falar de “ingenuidade natural”? Talvez isso seja um estereótipo. Eu constantemente ouvia mulheres, tanto jovens como adultas, dizer coisas como “homens são todos iguais”, “nenhum homem presta”, “quando eu casar com ele, o ponho nos eixos” e coisas dessa natureza. Mesmo minha mãe, depois do divórcio, me enchia as orelhas com esse tipo de coisa. Toda a vez que minha própria mãe dizia uma coisa dessas pra mim eu ficava, apesar de eu detestar usar esta expressão, muito triste. Ainda fico. Ela uma vez me disse que a infidelidade conjugal faz parte da natureza masculina e disse que minha avó pensa a mesma coisa. Me dói o coração ao digitar isto, porque sinto que nem em minha mãe eu posso confiar. Mas por que as mulheres pensam dessa forma? Será que damos motivos para elas pensarem assim?

A maioria dos homens trabalha mesmo para a criação e manutenção de estereótipos dessa natureza. A maioria. Diz-se da palavra normal que esta indica um comportamento padrão (norma), mas para que um comportamento torne-se padrão precisa (a) ser o comportamento da maioria ou (b) ser um comportamento contemplável pela maioria, mas que ainda não foi adotado. Isso significa que os estereótipos são justificados, porque, se a maioria dos homens é “toda igual”, “não presta” e precisa do casamento para ser posta “nos eixos”, pode-se dizer que é normal que os homens adotem esse tipo de comportamento e, portanto, caiam no estereótipo. E, no contexto em que eu estava inserido, todos os homens eram estereótipos, eu incluso, mas eu lutava contra isso. Novamente, eu estava deprimido e talvez eu estivesse preso em algum tipo de pesadelo excepcionalmente longo.

Com o fim da depressão, entrei na faculdade de filosofia. A depressão havia deixado sequelas e, apesar de eu normalmente me confortar com os resquícios de educação igualitária que eu tinha mantido, eu ainda evitava muito envolvimento com mulheres. Mas… até mesmo alguns professores pareciam advogar os estereótipos que eu havia visto na minha insólita adolescência. Alguns até pareciam defender uma superioridade feminina. Qualquer lasca da educação igualitária que eu guardava foi, assim, completamente pulverizada. Homens e mulheres não são iguais em sua diferença e não faz nenhum sentido advogar tal coisa. Vez por outra, me sinto um derrotado exclusivamente por causa de uma determinação biológica, um tipo de estigma de nascença. Não me entenda mal, eu gosto de ser homem, mas sinto como se eu fosse inferior por isso. As mulheres, provavelmente, têm razões sensoriais e mais superiores para gostarem de ser mulheres e, se eu tivesse que defender minhas razões para permanecer homem diante de uma mulher, eu seria envergonhado, por admitir que não iria gostar de estar no corpo de uma mulher (eu jamais me adaptaria aos cuidados) e que simplesmente é prazeroso ser homem, embora ser “prazeroso” não seja uma razão muito nobre.

Amanhã estarei bem e poderei raciocinar normalmente novamente, mas essa crise voltará, sempre volta, um pouco mais forte cada vez. Temo que, algum dia, eu acabe me matando por causa disto.

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