Analecto

26 de novembro de 2014

Cícero.

Filed under: Livros, Notícias e política, Organizações — Tags:, , , — Yure @ 11:37

Cicero introduced the Romans to the chief schools of Greek philosophy and created a Latin philosophical vocabulary with neologisms such as humanitas, qualitas, quantitas, and essentia distinguishing himself as a linguist, translator, and philosopher.

Cicero – Wikipedia, the free encyclopedia.

Hoje, após um súbito ataque alérgico, acordei cedo e resolvi perambular pela casa e fazer algumas coisas úteis. Tomei meu remédio, comi alguns pães, arrumei a casa, lavei a louça, fiz uns apoios de frente, tomei um banho e vim usar o computador. Resolvi ler o livro que meu amigo me deu, aquele sobre Epicuro, Lucrécio, Cícero, Sêneca e Marco Aurélio. Após quase ter chorado lendo a descrição da peste exposta por Lucrécio, eu esperava que a parte dedicada a Cícero fosse mais leve. Enquanto eu lia, me deparei com isto:

[…] colocar no mesmo nível o gênio e a multidão que compõem um povo, é suma iniquidade a que nunca chegará um povo em que governam os melhores.

Olhe o mundo afora e depois olhe para o país. Não existe país democrático mais corrupto que o nosso. Nossos políticos devem ser os mais caros em todo o mundo e o país movimenta muito dinheiro, especialmente considerando nosso território. Nossa carga tributária é tão alta que chega a ser engraçado. Apesar de tanto dinheiro ir e vir aqui e daqui, pouca coisa digna de nota acontece no país. Não estou dizendo que não acontecem aqui coisas boas e belas, mas que não acontecem com tanta frequência como em outros países. Isso, obviamente, ocorre por causa daqueles que elegemos para nos representarem, os políticos, encarregados da administração do dinheiro público, das leis e dos projetos.

Todo governo é pelo menos um pouco corrupto e não há nada mais natural que isso; um governo perfeito teria de ser composto de santos, sendo que santos nada querem com a política. Isso porque o gênero humano não é perfeito, não somos nenhuma criatura angélica, mas também não somos completamente feras. O que é preciso entender é que o nosso governo é eleito com base em uma democracia exercida pelo voto e, se nosso governo não está funcionando tão bem como deveria, parte da culpa dos problemas do país é do eleitor.

Mas quem são os eleitores? Todos e esse é o problema. Como disse Cícero, o intelectual não deveria se posto no mesmo nível que o indivíduo comum, e isso nem é de hoje: Heráclito costumava dizer que a opinião de um só vale dez mil se for a melhor. Não estou dizendo que o voto deveria ser das elites, mas que o voto não deveria ser obrigatório. A opinião de muitos brasileiros é de que a política é um esforço perdido, que os domingos eleitorais são um abuso e, já que eles têm de passar por isso de qualquer jeito, poderiam pelo menos amenizar a dor vendendo o voto para políticos obviamente péssimos, que não poderiam vencer de outra forma se não a venda de votos. Aí, você força uma quantidade gigante de gente como essa às urnas, claro que a escolha não será das melhores. Especialmente considerando que muita gente não sabe a diferença entre votar nulo e votar em branco!

A política deveria ser daqueles que querem participar dela de forma genuína: os intelectuais, os próprios candidatos e as pessoas realmente insatisfeitas com a situação atual das coisas, não daqueles que reclamam vacuidades e que, apesar de apontar os erros do governo, não movem um dedo para mudar as coisas (quer dizer, movem o dedo no domingo a cada dois anos, mas à força). Se apenas aqueles que acreditam poder mudar as coisas com o voto e que sabem escolher os candidatos que agirão pelos seus interesses, sejam eles liberdade ou igualdade, talvez bons políticos fossem eleitos com mais frequência. Isso não é exatamente o que Cícero diz, já que, no texto, ele defende um misto de monarquia, aristocracia e democracia, um tipo de meio-termo, mas eu achei que seria um bom gancho para a discussão que eu queria propor.

Fala-se muito no “direito de votar”, mas o brasileiro nunca conquistou esse direito; ele conseguiu uma obrigação a mais e obrigação não é direito. Eu detesto fazer comparações dessa forma, mas olhe os Estados Unidos. O voto é facultativo, justamente para que só os interessados em política e que sabem bem o que querem votem. Alguém pode argumentar, contudo, que a quantidade menor de eleitores aumenta o risco de eleger candidatos ruins, mas aí volta Heráclito: se os poucos que votam são capazes de fazer boas escolhas, então o risco, na verdade, é menor. Por outro lado, se um político ruim for mesmo eleito por essas pessoas esclarecidas, talvez porque aqueles com interesses egoístas superaram aqueles com interesses úteis ao todo, a próxima eleição reunirá, com certeza, um número maior de pessoas oprimidas que poderão adicionar mais força aos seus interesses votando em maior número. Assim, o indivíduo comum poderia ver com maior clareza as consequências do voto ou da ausência dele.

É natural que, num grande contingente humano, a quantidade de pessoas sábias seja baixa. Mas, ao forçar todos a tomar, juntos, uma decisão difícil e importante em escala nacional, a opinião desses sábios é suprimida. O voto precisa se tornar facultativo.

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