Analecto

17 de dezembro de 2014

Fidelidade.

Filed under: Passatempos, Saúde e bem-estar — Tags:, , , — Yure @ 01:30

Emotional Affair: Is It Cheating?.

Esse negócio de fidelidade vai longe demais às vezes. Agora o pessoal acha que se envolver emocionalmente com outra pessoa que não o parceiro é um tipo de traição. Mas que besteira. Alguém escreveu que “amor sem sexo é amizade”, não que eu esteja 100% de acordo com isso, mas voltemos ao assunto. Traição é violar os votos, seja no amor, seja na guerra, é não honrar a palavra dada. E, pelo que eu sei, o casamento ou uma relação amorosa ou sexual não implica cometimento emocional, porque emoções, diferente de práticas sexuais, não estão completamente sob nosso controle. Elas não são problema, são sintomas. Se uma pessoa se envolve emocionalmente com um amigo e a amizade cresce até que você sente que gosta mais dessa pessoa que de seu esposo ou esposa, isso ocorre não porque você é “galinha”, mas porque você está infeliz com a relação que tem. Não é problema seu, em hipótese alguma, mas do parceiro, que talvez lhe negligencie, talvez não faça você sentir-se bem, não lhe dê segurança, apoio… mas é ótimo na cama, pelo menos, e você tem votos a honrar, logo não tem sexo com o outro cara ou com a mocinha.

Acho que foi aquele coelho preto misantrópico que escreveu que “quando você ama alguém e, de repente, começa a amar outra pessoa, fique com esta, porque você não se apaixonaria de novo se estivesse realmente bem com quem você atualmente está.” Claro que estou aqui falando de sentimentos, não de luxúria (ter sexo com um e com outro, na maioria das vezes, te torna “galinha”), mas o fato é que eu não acredito que o conceito de fidelidade deva passar a cobrir também as emoções, isso é muito longe da realidade. E aí, você faz um amigo tão íntimo que, mesmo sem passar da linha do cometimento sexual, é melhor que seu parceiro atual e fica se sentindo culpada por isso. Mas é claro! Expandir o conceito de fidelidade às raias da loucura só pode gerar esse tipo de sensação! Ou outra sensação ainda pior, que é o ciúme desenfreado do parceiro, que tenta controlar até teus pensamentos. As emoções são espontâneas. Você pode controlar seus desdobramentos, mas não sua origem. Sentimentos como o amor não são como luxúria, que você dá uma patada e passa. Eles continuam, lhe roendo por dentro, até que o conflito que os originou seja resolvido. E eles procurarão formas de expressão de qualquer jeito, mesmo que na forma de doença. Então, essas “amizades íntimas” não deveriam ser reprimidas e, se você sente que seria mais feliz vivendo com outra pessoa e que continuar no relacionamento atual te faz infeliz, é melhor mudar. Se seu parceiro realmente te ama, ele vai entender se você quiser viver com outra pessoa. Talvez até te apóie…

É por isso que eu gosto de Baruch Espinosa: antes de entrar no assunto, ele explica o que cada palavra-chave usada no discurso significa. Talvez, antes de jurar fidelidade a alguém, você deva discutir com ele o que é fidelidade. Se for algo “fazível”, razoável, como cometimento sexual que já é corriqueiro, tudo bem. Mas que essa pessoa não lhe impeça de ter amigos, mesmo os amigos íntimos, que cada vez mais são razão de culpa e ciúme dentro de relações desequilibradas.

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8 de dezembro de 2014

Seneca the Younger – Wikipedia, the free encyclopedia

Lucius Annaeus Seneca (often known simply as Seneca /ˈsɛnɪkə/; c. 4 BC – AD 65) was a Roman Stoic philosopher, statesman, dramatist, and in one work humorist, of the Silver Age of Latin literature.

Via Seneca the Younger – Wikipedia, the free encyclopedia.

Mas aquele livro não deixa de me impressionar. Nunca imaginei que Sêneca iria tanto com minha cara. Sêneca pregou o desapego das coisas materiais, mas com moderação até nisso. Ele era como um meio-termo entre Diógenes, o cão, e Epicuro. Assim, deveríamos ter um desapego das coisas, mas não tanto como teve Diógenes. Para ele, o vício vem do excesso e excesso é aquilo que, por estar em superabundância, traz prejuízo. O vício é o excesso indomável, irrecusável, ao qual cai o espírito fraco por falta de força de vontade. Isso inclui o alcoolismo, por exemplo, que é o consumo excessivo de bebida alcoólica, com o agravante de que a pessoa não tem forças para reduzir a ingestão a níveis seguros.

Eu sempre pensei dessa forma. Nem todo excesso é vício, somente os excessos que cometemos por fraqueza, mas isso é outra história. O que me atraiu no texto de Sêneca hoje, chamado “os males da riqueza”, foi esta passagem:

Habituemo-nos a ter o luxo à distância e a fazer uso da utilidade dos objetos e não de sua sedução exterior.

Tem coisa mais bonita e mais inútil que um computador da Apple? É muito caro e o sistema é muito esotérico em comparação com Windows e GNU/Linux. Mas, Deus, como é lindo! Muitos de nós adquirem coisas que, na verdade, não precisam, mas que simplesmente atraem, seduzem. Pelo menos onde eu moro, Mac OS decepciona boa parte daqueles que o adquirem. GNU/Linux também decepciona, mas tem a vantagem de ser de baixíssimo custo e de facílima manutenção. Mas nenhum deles tem tanta beleza como o Mac, embora passem muito à frente em utilidade.

Eu caio nesse pecado também, me sinto culpado sempre que caio, mas tem acontecido com menos frequência. E qual é minha tentação? Folhas de papel. Há pouco tempo que adquiri um caderno novo para desenhar, mas, na semana seguinte, comprei um pacote com cem folhas de papel novinhas, simplesmente porque eram semi-recicladas e, por isso, tinham uma cor insólita. Razão estúpida, não? E a pior parte é que eu tinha papel o bastante, eu não precisava de mais. E logo eu, que me acho um cara ecológico. Mas, aos poucos, estou ficando melhor em resistir à tentação de comprar o que não preciso ou o que é inútil. Afinal, as coisas mais bonitas da vida são de graça e de domínio público, além de úteis. Só preciso de prática.

5 de dezembro de 2014

Cicero – Wikipedia, the free encyclopedia

Filed under: Notícias e política, Organizações — Tags:, , , — Yure @ 16:16

Cicero was declared a “righteous pagan” by the early Catholic Church, and therefore many of his works were deemed worthy of preservation. Subsequent Roman writers quoted liberally from his works De Re Publica (On The Republic) and De Legibus (On The Laws), and much of his work has been recreated from these surviving fragments. Cicero also articulated an early, abstract conceptualization of rights, based on ancient law and custom. Of Cicero’s books, six on rhetoric have survived, as well as parts of eight on philosophy. Of his speeches, 88 were recorded, but only 58 survive.

Via Cicero – Wikipedia, the free encyclopedia.

Novamente, eu estava lendo o livro que meu coleguinha me deu e eu esbarrei em outra coisa digna de se refletir a respeito. Dizia mais ou menos o seguinte: “é certo que o homem justo deve obedecer às leis, mas a quais leis?” Esse questionamento foi levantado durante uma discussão acerca da justiça e do correto proceder. Interessante como aquela roda de amigos preferia discutir política e não o insólito fenômeno que acontecia sobre suas cabeças: dois sóis podiam ser vistos no céu na hora. Eu não acredito em Nibiru, mas, ainda assim…

Voltemos ao assunto. A que leis se deve submeter o indivíduo justo? Martin Luther King, segundo aquele livreto “1.000 Pensamentos de Pessoas que Influenciaram a Humanidade” ou algo assim, disse que a desobediência à leis injustas constitui uma responsabilidade moral. Mas quando a lei é injusta? É difícil para nós, crianças democratas, pensar em como uma lei injusta pode passar e existir por tempo o bastante para ser lembrada, já que nós temos o direito de rebelião quando a situação pede. Isso não significa que leis assim não existam e não estejam em vigor, seja em nosso território ou em território distante.

Pouar, meu coleguinha ativista do software livre e de código aberto, me falou que o software livre não é mais permitido na Ucrânia. Isso significa nada de Tor, nada de I2P, nada de GNU/Linux, nada de Q4wine (não que este último me fará falta). Isso se deve a tensão política na Ucrânia. Mas por que banir o código aberto? Veja, código aberto é mais difícil, se não impossível, de controlar. O governo não é capaz de interferir com o funcionamento de programas cujas patentes são públicas. Não estando presos à corporações ou pessoas específicas, esses programas são praticamente impossíveis de ser mitigados e, como o desenvolvimento pode ser continuado por qualquer um que tenha o código fonte salvo, banir um programa de código aberto em um determinado território não é tão simples como levar preso quem iniciou o desenvolvimento. Além do mais, o programa continuará a ser desenvolvido fora do território onde foi banido e ficará mais forte, podendo depois entrar no território por meios ilegais. Isso, para a ciência da computação, é ótimo, mas é péssimo para regimes politicamente restritivos, porque a censura fica mais difícil. Programas como o Tor e o I2P que permitem comunicações anônimas podem servir como meio de organizar movimentos contra o governo, o que viola as dez leis ucranianas que servem para, entre outras coisas, impedir manifestações “perigosas”.

Isso é uma forma de opressão que existe e que está em vigor. Isso acontece no país também? Sim, acontece, mas de forma dissimulada. Tão dissimulada que, quando descobrimos o que estamos acontecendo, já estamos acostumados com os efeitos. Será que vale a pena para o indivíduo justo se submeter a tais leis, leis que sufocam a liberdade de expressão e liberdade de protesto? Será que não constitui uma “responsabilidade moral” a desobediência a elas?

Além do mais, leis são feitas pelo sancionamento dos costumes. Elas mudam quando as sociedades mudam e quando seu cumprimento não é mais finaceiramente ou socialmente viável. O primeiro passo para mudar as leis é quebrá-las e quando elas não são mais observadas pela maioria não há sentido mantê-las. Aliás, não existe lei contra protesto. Se você quer protestar, vá lá e faça. Se seu movimento der certo, você não será punido mesmo, então vale a pena tentar. Não existe povo que sofra pra sempre.

Já que nem todas as leis devem ser seguidas, é necessário pensar quais leis devemos seguir e quais devemos quebrar. Isso é outra história, contudo. Algumas leis que devem ser quebradas nos são óbvias, mas outras requerem um cuidado especial. Eu discorreria mais sobre isso, mas deixarei para mais tarde.

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