Analecto

13 de dezembro de 2014

Infância e adolescência.

Filed under: Música, Passatempos, Saúde e bem-estar — Tags:, , , — Yure @ 02:35

Pixies – Monkey Gone To Heaven (Official Video) – YouTube.

Hoje eu resolvi ouvir umas músicas que eu ouvia na minha infância e na minha adolescência e lembrei desta dos Pixies. Sempre que escuto essa música, me vem à mente a imagem de um problemático menino de quatorze anos, deitado na cama de seu quarto, de porta e janela fechadas, com a televisão ligada na TV União, deprimido, ouvindo música após música de rock melódico dos anos noventa a início dos 2000. Eu chorava com frequência, ouvindo letras que eu, na verdade, não entendia, simplesmente porque a melodia, a linha de baixo e a batida me emocionavam. A voz humana era só mais um instrumento. Um livro grosso de filosofia estava guardado na gaveta, na cômoda sobre a qual a televisão se apoiava. Será que Nietzsche já havia me posto de luto? Não lembro se isso é antes ou depois. Fato é que eu não queria me levantar e encarar o mundo cruel, ao menos não sozinho. E eu me sentia sozinho, mesmo rodeado de amigos os quais eu via diariamente e com os quais eu jogava RPG aos domingos, de uma às cinco da tarde, sem horário de verão. Isso é antes do meu amor, com o qual eu não soube lidar. Adolescência dói, mas é uma dor gostosa, uma dor que amadurece. Aquela dor necessária. Deixar de ser criança e tornar-se adulto. Deve fazer parte do castigo do pecado original: ter uma época da vida na qual o mundo é lindo, mesmo nas mais adversas condições, para que isso seja tirado lentamente e dolorosamente. Cada dia da adolescência é um dia mais próximo da idade adulta e da independência, tão temida quanto desejada, e um passo mais longe da criança que não sabe o que é bom e, por isso, contenta-se com o que tem e com seus sonhos, na medida em que não tem forças para realizá-los. Aí, no fim da adolescência, a independência mostra seu preço, que é sempre mais alto do que se imagina e, mesmo depois de obter o “sucesso”, você se pega desejando voltar atrás. Mas não pode. A imagem do adolescente destruído na cama ouvindo música triste é distante agora, uma memória. O pior é que é uma memória mais fácil de lembrar, em comparação com a longíqua e feliz infância. Será que é certo desejar morrer cedo só para não ter de passar pelo tormento que são aqueles anos entre doze e dezessete? Aqueles cinco anos de confusão, de pressão, expectativa? Certamente que não. Como eu disse, é uma dor necessária, que até é boa. Experiências ruins também contam e a minha me tornou mais forte. Mas a fraqueza fundamental, a melancolia infantil que sinto quando penso nos tempos melhores, permanece. Embora a independência talvez não compense e não valha a pena trocar a submissão infantil pelas possibilidades adultas, trocar a independência por mais alguns anos como criança, mesmo que eu tivesse que ser privado dela gradualmente de novo, me parece um ótimo negócio.

Mas se tornar adulto é inevitável. Se essas experiências adolescentes me deixaram mesmo mais forte e se agora estou com várias possibilidades em minha mão, talvez eu possa, com esforço e, diga-se de passagem, sofrimento, tornar minha vida tão boa quanto minha infância. Eu era uma criança feliz, mas agora sou um adulto forte. Talvez com força o bastante para trazer de volta aquilo que perdi.

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