Analecto

25 de janeiro de 2015

Mênon.

Filed under: Livros, Passatempos — Tags:, , , — Yure @ 18:30
  • Como adquirimos virtude? Aprendendo-a, praticando-a? Ou será que é inata?
  • Mênon achava que Sócrates sabia o que a virtude era porque ele tinha conversado com Górgias, que parecia saber o que era…
  • Só que Sócrates não achou que Górgias tinha dado um parecer correto sobre a virtude…
  • Segundo Mênon, a virtude varia conforme idade e trabalho, tal como conforme gênero. Assim, é difícil dizer o que é virtude, porque há muitas virtudes.
  • Não é possível definir virtude fazendo uma lista de virtudes disponíveis. É necessário pensar no que faz uma virtude ser virtude, que é um processo subtrativo. O que é que as virtudes têm que sem o qual elas deixam de ser virtudes? O que torna algo virtude?
  • Por exemplo, se existe uma virtude para o homem e outra para a mulher, será que são diferentes? Se existem homens sadios e mulheres sadias, será que a saúde é mesmo diferente segundo o gênero? É a mesma saúde, por partilhar de características comuns. Definir virtude é um caminho que passa por uma rota de pensar o que há de comum nas virtudes masculinas, femininas, infantis, anciãs, de pessoas livres, de escravos… O que essas virtudes têm em comum?
  • Justiça é uma virtude, não simplesmente “virtude”. Tem também a coragem e a temperança, por exemplo.
  • Não podemos dizer o que é uma figura dizendo que é “quadrado” ou “círculo”. Nem dizer o que é a cor dizendo que é “branco” ou “azul”. Um definição passa por todos esses casos. A definição de cor é algo que passe pelo branco e pelo azul e por todas as outras cores, tal como a definição de figura é algo que perpassa quadrado e círculo sem estar presa a uma forma particular.
  • Sócrates tenta definir a forma como “ente que sempre acompanha a cor”, só que ninguém explicou ainda o que é a cor. Você não pode se julgar sabedor de algo se não conhecer as partes do todo do algo. Se eu não sei o que é a cor e digo que forma é algo que acompanha a cor, efetivamente não sei o que é forma, pelo menos não com certeza.
  • Sendo assim, Sócrates pergunta pra Mênon se ele sabe o que é “término” ou “limite”, “sólido” e “superfície”. Já que Mênon conhece, Sócrates diz que a definição de figura é “limite do sólido”. De fato, é a limitação do sólido que esculpe forma na matéria. Por isso a definição de Parmênides de “ser” como “infinito e esférico” é contraditória, porque se algo é infinito, não tem forma; se algo tem forma, efetivamente tem limite espacial. Assim, temos uma definição que engloba todas as formas e que se apoia em termos conhecidos.
  • Todos procuram o bem; se procuram algo danoso é por ignorarem que é danoso.
  • A virtude, então, parece estar não na vontade de ter coisas boas, mas na capacidade de consegui-las.
  • Só que também não funciona dessa forma; é possível conseguir coisas boas injustamente.
  • Como é que virtude é conseguir coisas justamente, se justiça por si já é considerada virtude?
  • Mênon acusa Sócrates de fazer qualquer um cair em aporia, como um feiticeiro lógico.
  • Como buscar o que se ignora? Como buscar o que não conheço se nem sei o que procuro?
  • Era crença da época a transmigração das almas. Talvez não seja possível aprender nesta vida, mas nada garante que não foi possível aprender em alguma vida passada.
  • Conhecimento é reminiscência.
  • A aporia é necessária: faz a pessoa tomar-se conta da própria ignorância.
  • Todos parecem ter conhecimento latente que pode ser recordado através de questionamento.
  • Talvez Sócrates esteja errado nisso, mas o argumento da reminiscência nos torna ativos. Se não procurarmos saber de alguma maneira e assumirmos que somos incapazes de aprender coisas novas porque “não sabemos o que procuramos”, desistiríamos de avanço científico. Isto é, o argumento socrático pode ter sido só uma saída da armadilha de Mênon.
  • Se virtude for ciência, pode ser ensinada.
  • Qualquer coisa conduzida cientificamente leva ao bem, segundo Sócrates.
  • Se virtude é ensinável, como é que não há “professores de virtude” nem gente querendo aprender virtude?
  • A pessoa que pratica o ofício e a pessoa que ensina o ofício não necessariamente coincidem.
  • Os sofistas não ensinam virtude.
  • Se virtude fosse ensinável, filhos de pais virtuosos necessariamente seriam virtuosos, mas isso nem sempre acontece, parecendo que virtude é predisposição.
  • Se o homem virtuoso pudesse ensinar virtude, abriria uma escola disso!
  • Se houvessem professores de virtude, deveriam concordar quanto ao grau de apreensão da virtude, mas se observa que pessoas virtuosas não estão de acordo quando a virtude ser ou não ensinável.
  • Sofistas, por professarem que virtude se ensina ou não dependendo da situação, não são professores de virtude.
  • Depois de perdida a virtude, não será a educação capaz de restaurá-la…
  • Mesmo os que afirmam que a virtude pode ser ensinada se mostram confusos ao falar da própria virtude.
  • Virtude não é ciência, não se ensina.
  • Opinião verdadeira não produz resultado inferior à ciência.
  • A reminiscência gera essas opiniões corretas. É pelo cálculo que a opinião correta torna-se ciência e, portanto, estável.
  • Se a pessoa pode se tornar virtuosa aprendendo, então virtude não é inata.
  • Porém, virtude não é ensinável.
  • Virtude é opinião verdadeira, um tiro que acerta no escuro, vindo da alma que lembra.
  • É como um oráculo: fala corretamente, mas por inspiração, daquilo que não sabe.
  • Virtude não é ensinável, mas é fruto de uma feliz opinião que não sabemos de onde se origina. E não saberemos enquanto não sabermos o que é virtude.
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