Analecto

4 de janeiro de 2015

Teeteto.

Filed under: Livros, Passatempos — Tags:, , , — Yure @ 14:24
  • Teeteto estava para morrer de desinterias. Que forma de começar o diálogo, senhor Platão…
  • Aparentemente, Sócrates já estava morto na época.
  • É pela sabedoria que os sábios ficam sábios. Isto é, você aprende para saber de alguma coisa.
  • O texto se propõe a explicar a natureza do conhecimento, isto é, os personagens se perguntam o que ele é.
  • O conhecimento em si não deve ser descrito com exemplos. Por exemplo, não podemos dizer o que é conhecimento enumerando formas de conhecimento, como geometria, aritmética e outros e, ainda assim, esperar que se entenda por isso o conhecimento.
  • Introdução à arte socrática: o parto de ideias. As dúvidas que uma pessoa sente por aceitar uma pergunta e procurar respostas com sinceridade são equivalentes à “dores do parto”.
  • Mas a arte socrática tem mais importância do que a arte das parteiras comum, porque as parteiras não precisam se preocupar com a possibilidade de nascerem filhos falsos. Mas o filósofo socrático precisa estar atento para o caso de seu orientando parir uma ideia falsa. Preciso lembrar arte do parto é usado em sentido metafórico?
  • Sócrates, tal como as parteiras que só podem ser parteiras depois de passado o tempo de conceberem filhos, não podia conceber ideias por conta própria, mas apenas ajudar outros a tê-las quando os outros perseveram em responder uma pergunta difícil (quando os outros estão grávidos). Isso é feito por meio de perguntas que guiam o espírito conforme são respondidas. Assim, Sócrates fazia perguntas aos que estavam grávidos, de forma a guiá-los na busca da resposta correta, mas ele mesmo jamais respondia qualquer pergunta a menos que forçado, como em Górgias.
  • Afastar-se da companhia do parteiro de ideias pode acarretar aborto (“não tem sentido pensar sobre isto, estou perdendo tempo”) ou morte do nascituro (“talvez a resposta que eu obtive com tanto esforço não seja a melhor…”).
  • Os que ainda não estão grávidos devem ser aproximados daqueles que podem fecundá-los, isto é, professores.
  • “Dores do parto” refere-se a dúvida.
  • Programa do método socrático:
  1. Verificar se está prenhe, isto é, se tem pergunta persistente. Se sim, prosseguir; senão, encaminhar a professor.
  2. Se prenhe, guiar o grávido com perguntas para que ele seja capaz de conceber a resposta correta.
  3. Após o parto, verificar se a ideia corresponde ou não à realidade. Se sim, dar alta; senão, prossiga.
  4. Caso haja parto de ideia falsa, provocar novo parto, com perguntas que desestabilizem a ideia falsa.
  5. Descartada a ideia falsa, voltar ao passo dois.
  • Protágoras, dizendo que o homem é a medida de todas as coisas, implica que conhecimento é sensação.
  • A filosofia vem da admiração perante a realidade. Isso é retomado por Aristóteles.
  • Para determinar ativo, é necessário passivo, e vice-versa. Ou seja, nada existe em passividade se não houver atividade em algum lugar e vice-versa. Isso seguindo o pensamento de Protágoras.
  • Ativo e passivo podem mudar de um para outro, segundo Protágoras, se levarmos seu pensamento às últimas consequências.
  • As opiniões de Protágoras não se sustentam. Se conhecimento fosse sensação, o que qualquer um sente seria conhecimento de fato, logo seria conhecimento aquilo que sentem os loucos ou aquilo que sentimos ao sonhar.
  • Sensação é particular.
  • O feto de Teeteto: tudo muda, conhecimento é sensação. Será que esse feto é um filho verdadeiro?
  • Se todos fossem mesmo a medida de sua própria sabedoria, sendo a sensação particular e identificada com o conhecimento, então ninguém poderia apontar alguém como falso ou como mentiroso nem como errado. Todos estariam certos. Então, ninguém precisaria sequer das aulas do Protágoras! Pra quê pagar alguém pra me ensinar se eu posso fazer minha própria razão?
  • Protágoras está errado. Conhecimento não é sensação.
  • Se conhecimento fosse o mesmo que sensação, saberíamos o que algo em outra língua significa mesmo que não a tivéssemos estudado (pois ouvir seria conhecer) ou saberíamos o que está escrito só de ver (pois ver seria conhecer).
  • Para Protágoras, sabedoria é distinguir qual opinião é mais útil.
  • Para Protágoras, as coisas são como parecem.
  • Porém, se cada um fosse dono da verdade, ninguém relegaria sua responsabilidade a alguém (como é o caso dos que se submetem ao mando de outro porque acham conveniente).
  • Contradição: se todos são donos da verdade e todos concordam que há opinião verdadeira e opinião falsa, então ou todos estão errados (porque não poderia haver opinião falsa se todos são donos da verdade) ou nem todos são donos da verdade.
  • Até quem diz na cara de Protágoras que ele está errado está certo, Protágoras teria que admitir isso.
  • Protágoras está errado em todos os sentidos.
  • Prova de que existem pessoas mais sábias que outras é a de que nem todo o mundo é médico.
  • Filósofos falam de coisas boas e belas justamente porque seus pensamentos não precisam se deter em nenhum tema. O pensamento deles é livre, podem refletir e discutir sobre aquilo que lhes apraz.
  • O filósofo está distraído demais com coisas boas e belas, eternas, úteis a longo prazo talvez ou mesmo sem utilidade prática. Tão distraído em conhecer a verdade das coisas que peca em conhecimento prático. A falta de conhecimento prático e altivez para com os arredores faz o filósofo se passar por imbecil…
  • Não saber o que é justiça revela falta de empenho em procurar pela sua essência. E, se você não sabe o que é justiça, não pode ser justo se não por acidente, o que é muito raro. Sabendo o que é justiça, pode-se saber quais atos são bons e quais são ruins, quem é viril e quem é covarde.
  • Há dois tipos de movimento: o movimento de um lugar para outro e a mudança de estado.
  • Os seguidores de Heráclito, para não incorrerem em contradição, têm de admitir que tudo se move das duas formas. Nada permanece parado nem no mesmo estado, pois, se algo pudesse ficar parado ou permanecesse tal como é, haveria estabilidade.
  • Se todas as coisas estivessem em perpétua mudança de estado, não seria possível nomear características.
  • Se tudo se move, não é possível conhecer. O mobilismo é dependência da expressão “conhecimento é sensação”, que é dependência da expressão “o homem é medida de todas as coisas”. Quebrada a dependência, as expressões não se sustentam. No mobilismo, conhecimento não é possível.
  • Seria melhor dizer que conhecemos por meio dos sentidos, em vez de com sentidos. A alma percebe coisas que os sentidos não, como ser, não-ser, semelhança, diferença e outros do gênero. Seria como se a alma fosse um servidor e os sentidos fossem clientes que recebem coisas exteriores e as repassam à alma. Importante ressaltar que “alma” pode significar “razão”.
  • A verdade é alcançável pelo raciocínio a respeito das sensações. Ela não corresponde às sensações.
  • Já que conhecimento não é qualquer opinião, poderia ser apenas a opinião verdadeira?
  • Sócrates nunca disse “só sei que nada sei”.
  • Conhecimento é do ser.
  • Parece que existe, no Teeteto, uma unidade entre ser e pensar.
  • Ter opiniões falsas não coincide com pensar o que não existe, pois pensar no que não existe é não pensar.
  • Opinião falsa é tomar uma coisa por outra. Exemplo, confundir água com terra. Não se pensa no que não existe, mas se pensa em coisas que existem, só que você as confundiu.
  • Só é possível formar opinião falsa daquilo que se pensa ou se percebe. Não dá para formar opinião falsa daquilo que nunca pensamos nem percebemos. Quando não conhecemos aquilo que percebemos ou percebemos o que não conhecemos, é muito fácil emitir julgamento errado. Se conhecemos (isto é, completamente) o que percebemos (isto é, nitidamente), não é possível fazer julgamento errado. Logo, se eu torço o que penso, só pode ser ao falar, isto é, mentindo deliberadamente. Ironicamente, quanto menos conhecemos ou quanto menos nitidamente percebemos, maior a chance de erros, mas, se não conhecemos e não percebemos de jeito nenhum, não há chance de erros: não possível julgar o que se ignora!
  • Observe que, até agora, usamos as palavras “conhecimento”, “saber”, entre outras, mas sem ter certeza do que é conhecimento.
  • A metáfora do pombo: a alma é como uma gaiola que segura pássaros de conhecimento, mas existem pássaros de ignorância. Então, saber o que é conhecimento e o que é opinião falsa é requisito para a escolha correta de informações.
  • Opinião verdadeira não é conhecimento. Opinião é como que ideia sem percepção ou percepção sem ideia. Exemplo: você acredita em algo que alguém lhe contou, mas que você mesmo não viu. Se a pessoa tiver dito a verdade, você tem uma opinião verdadeira, mas você mesmo não sabe se ela realmente é verdadeira, pois você não viu acontecer. Da mesma forma, se você acredita na mentira do outro, você tem opinião falsa, mas não sabe que tem.
  • Não é a mesma coisa ter conhecimento e ter opinião verdadeira e racional.
  • Conhecimento poderia ser opinião verdadeira e explicação correta (definição, saber aquilo que difere um ente de outro), mas isso é o mesmo que dizer que conhecimento é opinião mais conhecimento. Então, a questão permanece em aberto…
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6 Comentários »

  1. […] lógica, mas o conteúdo pode estar errado. Nesse caso, mesmo que o raciocínio esteja reto, vai parir uma mentira. Exemplo: a Proposta de Emenda à Constituição 55 de 2016 quer congelar gastos […]

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  2. […] bom professor deve fazer com que o aluno encontre a resposta sozinho, conduzindo-o, como Sócrates fazia. Sócrates, em vez de dar respostas, fazia perguntas, a fim de conduzir o pensamento do que […]

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