Analecto

8 de janeiro de 2015

Viver de danos.

BOL Mail – Escrever e-mail.

Hoje um colega meu me enviou um e-mail sobre o indivíduo vencedor do Nobel de medicina, que falou, com muita razão, que muitas doenças cujas curas foram descobertas não são curadas porque isso não dá dinheiro. Comecemos com um exemplo mais próximo de nossa vivência: a informática. Afinal, nem todos os meus leitores sofrem de doenças terminais.

Todos conhecemos essa empresa chamada Microsoft, amada por muitos e odiada por poucos. E você, provavelmente, está executando Windows em sua máquina. Mas provavelmente você está cansado de ouvir que o sistema operacional da Microsoft tem várias, inúmeras falhas de segurança que qualquer programador experiente e bem-intencionado poderia consertar se tivesse acesso ao código fonte. Talvez você já deva ter se perguntado como a Microsoft não tem uma equipe de segurança que trabalhe dia e noite consertando e averiguando todas as falhas contidas no código fonte quando alguém reporta uma falha na Internet. Por que isso acontece? Por que o Windows, sistema utilizado por tanta gente e mantido por pessoas aparentemente competentes, ainda é dos grandes três o mais instável?

Uma das razões poderia ser a quantidade de dinheiro movimentada com licenças de programas que “consertam” o Windows com medidas que, na verdade, são apenas paleativas. Curar as falhas do Windows significa prejudicar parte da economia da informática, significa colocar gente na rua, fechar empresas… Tudo isso porque cresceu um mercado que vive de danos, vive para consertar danos já causados. Para um mercado assim, a sobrevivência depende de sistemas frágeis.

Voltando à medicina, talvez você já tenha entendido minha alusão. Existe cura, vacina, para muitas doenças que você talvez tenha e precisa se medicar para combater. Mas não é do interesse do comércio imunizar você contra elas, porque isso significa colocar a indústira farmacêutica fora do ramo. Simples assim. Thomas Kuhn escreveu que a ciência está muito mais condicionada por fatores externos do que por busca pelo melhor, busca pela sabedoria. Ele está muito certo. Suponhamos que você invente (pela terceira vez) o carro movido à água, mas precise de dinheiro para fundar seu projeto. Seria menos poluente, seria mais barato e, com os fundos monetários, poderia ser mais rápido e mais elegante! Mas quem iria fundar você e seu projeto? Ninguém, porque isso seria colocar a perder um comércio que movimenta muito dinheiro e depende de combustíveis fósseis para existir. Seria fechar empresas, seria gerar desempregados, alguns que talvez não tivessem qualificação para trabalhar em outra coisa…

Não estou dizendo que é bom viver de danos, só estou dizendo que acontece e que isso é muito triste. Infelizmente, é essa a forma que nosso sistema é construído. Dá pra entender porque tanta gente quer acabar com o capitalismo sem se preocupar com o quê o substituirá; o capitalismo já fez danos o bastante para querermos ele morto neste instante. O que virá depois pensamos depois.

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