Analecto

10 de janeiro de 2015

Autismo.

Filed under: Saúde e bem-estar — Tags:, , , — Yure @ 20:18

BOL Mail – Escrever e-mail.

Eu e um colega trocamos mensagens esses dias. Ele está preocupado acerca da minha falta de socialização. De fato, eu prefiro ter poucos desejos, objetivos fixos e detesto ficar em locais com muita gente por muito tempo, porque isso me cansa. Na verdade, cinco horas de socialização intensa me cansa mais que dez horas de educação física. Me dá um desgaste mental e tanto. Porém, meu colega acha que o normal para minha idade é ter muitos amigos com os quais sair nos fins de semana. Aqui estão as mensagens, achei interessante partilhar. Mas o nome do meu colega, tal como o nome de qualquer outra pessoa que conheço fora da Internet, é mantido em segredo.

Yure,
engana-me que gosto. Vc talvez pense que possa ser sociável, mas isso não corresponde à realidade. Ademais, desde a adolescência vc já deveria ter conhecido o mundo, mas só tenta ser sociável ‘se for requisitado’. O que ocorre é que vc é extremamente intolerante.
Deixe a alegria apossar-se da sua vida e da sua alma. Amargura deixe para pessoas espiritualmente vazias e desabilitadas para a vida.
Conversa pela internet não vale como processo de socialização. Muito pelo contrário. Conversa é olho no olho, esbanjando alegrias e bem querer mútuo.
Na sua idade, vc tinha que ter amizades para poder sair durante o tempo livre, em especial, nos fins de semanas.
Qdo. vc conhecer a vida social, vc verificará que tédiosa é a vida q vc leva.
Minha resposta é a que segue abaixo.
Hoje minha mãe achou um panfleto sobre autismo e leu para mim. Sempre houve uma certa suspeita sobre eu ser ou não autista, mas nunca ocorreu diagnóstico profissional. Mas sabe-se que meu pai é e meu sobrinho também, ambos diagnosticados. Digitarei algumas coisas que vi que achei interessantes.
Quando eu era criança, os movimentos com as mãos, “como quem vai voar”, eram muito comuns. Eu sempre gostei de rotina e de controle. Na verdade, caos sempre foi algo que eu repudiei com todas as forças. Lembro que eu choraria se eu sentisse que um dos meus sapatos estava mais apertado que o outro, eu me sentia morbidamente perturbado se as coisas não estivessem iguais em ambos os lados.
Eu tinha uma obsessão com simetria, ainda tenho um pouco. Até hoje eu luto contra métodos muito rigorosos que são autoimpostos. Isso se manifesta até na forma como escrevo e nas músicas que componho. Tudo segue um padrão, um método que eu elaborei e que eu tenho dificuldade em quebrar depois quando necessário, embora os resultados da quebra de um método gasto sejam recompensadores.
Sempre gostei de agendas e horários, de distribuição eficiente de tempo. Oito horas pra dormir, oito pra estudar, oito pra brincar, diariamente, não necessariamente nessa ordem.
Meu pai disse que foi assim e eu vejo meu sobrinho agir da mesma forma. Só que, diferente deles, eu nunca fui consultado, diagnosticado nem recebi ajuda. Na verdade, sempre achei meu comportamento muito normal e, sinceramente, não vejo como poderia ser diferente. Talvez isso tenha lhe preocupado um pouco, ou demais, mas eu queria que você entendesse que eu me sinto bem dessa forma. Tenho poucos amigos, tenho poucos desejos, tenho um objetivo fixo e planos A, B, C, D para caso de algo sair errado. Eu acho até que posso dizer com uma decente segurança que sou feliz e, caso eu fosse autista, não me sinto doente.
É importante ressaltar que alguns dos meus comportamentos de infância já foram superados, como o “bater de asas” e a obsessão por simetria (ou, pelo menos, quase, ao menos não choro mais por causa de sapato). Já o problema do método, a luta tem ficado mais fácil porque a filosofia tem me ensinado a ser mais racional. Então, quando eu tenho um impulso de agir segundo um padrão que eu sei que não é o melhor, eu me lembro de que não é razoável agir daquela forma. Claro que, muitas vezes, eu quebro um método e faço outro. Às vezes é mais forte que eu. Mas eu procuro quebrar um padrão velho quando o percebo gasto.
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