Analecto

17 de janeiro de 2015

Interessante.

Filed under: Passatempos — Tags:, , , — Yure @ 00:31

Stromae : How to make a hit song in one minute – YouTube.

Hoje assisti um vídeo do senhor Stromae que revelou, após algum tempo, como sua música super popular Alors on Danse foi feita em um minutinho. Quando vi o vídeo, fiquei pasmo como aquela música pareceu brotar no momento como se fosse um pensamento fugaz que aparece de súbito e, se você não o escreve, você o esquece. Isso não é exatamente um elogio. Isso mostra duas coisas. A primeira é a de que Schelling tem uma boa dose de razão quando ele fala de inspiração. É quase como se a música tivesse feito a si mesma usando o compositor como instrumento dela. A segunda é que é muito, muito fácil satisfazer o degenerado gosto musical das turbas hodiernas.

Eu desisti da LSP porque minha música, feita em dias, com boa dose de dedicação e complexidade, é ignorada, enquanto que músicas simples, feitas em pouco tempo, sem compromisso, são baixadas, comentadas e avaliadas positivamente. As minhas nem sequer chegam a ser avaliadas. Muito bem. Não estou tirando o crédito do senhor Stromae por ter feito em tão pouco tempo uma música que até eu, admito, gosto. Mas muito me preocupa que uma música tão simples tenha chegado ao primeiro lugar nas paradas de dezesseis países. A linha de baixo foi feita de forma quase aleatória, com pouca ou nenhuma edição posterior, e a batida é feita de apenas dois instrumentos. A parte mais complexa é a melodia, que nem sequer é tão complexa. Fora isso, a música repete abusivamente até a letra se exaurir. O que significa que, removida a letra, a música não se sustentaria por mais que um minuto e meio.

A melodia de apoio, uma amostra de saxofone, começa no momento em que a letra dá uma pausa, que dura cerca de trinta segundos. A sacada do saxofone é soar “engraçado”, isso mantém o ouvinte em seu lugar. E talvez seja esse o princípio que fez com que a música alcançasse notoriedade internacional: a letra é em francês, um idioma que, para não faladores de francês, é exótico e interessante, por vezes até… engraçado! É isso que faz com que minha irmã ouça a música. Ela diz que o idioma soa bem aos ouvidos dela. De fato, qualquer língua derivada do latim soa bem… Outro detalhe é que a música fala de tema trivial.

Resumindo: apesar de a música ser fruto de genuína inspiração, a falta de trabalho sobre ela é preocupante, especialmente depois que ela consegue, de forma tão fácil, notoriedade internacional. Isso é inveja? Se fosse inveja, eu faria tal como ele. Mas eu não quero, porque eu poderia acabar me tornando um funkeiro. Isso mesmo, o princípio usado em Alors on Danse é o mesmo do funk carioca: linha de baixo simples, batida de dois instrumentos, melodia vocal, repetição abusiva e apoio da música inteira sobre a letra trivial. Agora olhe o séquito que tem esse tipo de música! Uma legião de fãs de música de péssima qualidade. Não é o caso de Stromae, porque não consigo chamar a música dele de “péssima”, só de simples demais, mas é o caso do funk carioca.

Mas como uma música assim consegue se tornar tão popular? Primeiro, precisamos separar duas coisas, que são distintas, mas que a maioria das pessoas vê como uma coisa só: música e poesia. A música é melodia, linha de baixo, batida, acompanhamento. Não há letra. A poesia é a palavra, normalmente rimada, com intenção estética. Não há música. “Ora, Yurinho, querido gatinho verdinho, não existe música sem letra. Música sem letra não é música…”, alguém pode argumentar. Bom…

Isso é música, meu jovem, o Prelúdio e Fuga em A Menor, de Johann Sebastian Bach. Sem letra, certamente comovente. Então, é música sem poesia. De fato, a poesia pode também trabalhar sob preceitos matemáticos tal como o faz a música, mas não necessariamente. Não são a mesma coisa. Agora vejamos se essas músicas, seja o funk, seja Alors on Danse, são boas músicas ou bons poemas. Você gostaria tanto delas se ninguém cantasse? Se a resposta é não, elas não são boas músicas, mas um bom “caldo” de música e poesia. É a combinação dos dois que torna a “música”, ou melhor, o todo algo agradável. Mas será que são bons poemas também? Pelo processo reverso, considere a letra abstraída da música. Gosta?

Ora, mas se a música sem a letra não é tão boa nem vice-versa, então o todo não impressiona pelo prazer estético, isto é, por se comprometer com o belo, mas por outra razão. É uma razão que pessoas antissociais como eu não entendem: elas agitam festas.

Anúncios

Deixe um comentário »

Nenhum comentário ainda.

RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: