Analecto

27 de fevereiro de 2015

Fsck.

Filed under: Computadores e Internet — Tags:, , , — Yure @ 21:30

Report from Usenix – Google Groups.

De acordo com Dennis Ritchie (Deus o tenha, amém), o nome do programa fsck era diferente no começo. A segunda letra não era S. Nome apropriado.

15 de fevereiro de 2015

Insensibilidade.

Filed under: Saúde e bem-estar — Tags:, , , — Yure @ 14:08

Roubo – Wikipédia, a enciclopédia livre.

Ontem, acordei com uma comoção entre minha mãe e meu sobrinho. De repente, a porta do meu quarto quase foi posta abaixo pelo meu sobrinho exagerado. Eu dei-lhe a chave e lá foi ele com minha mãe para algum lugar. Minutos depois, meu sobrinho volta, quase chorando. E aí ele me disse o seguinte:

Meu tio foi baleado na cabeça, tá desmaiado no chão…

Obviamente não fui eu. Meu irmão foi baleado, de fato, e ontem foi uma loucura aqui, quer seja aqui, ao meu redor, ou aqui dentro, no meu espírito. Lá fora porque todos estavam desesperados, aqui dentro porque eu não entrei em desespero em momento nenhum… Eu até me senti meio culpado por não ter derramado uma lágrima e não ter mudado minha expressão o dia todo. Eu sacudi a cabeça devagar e respondi:

Vai morrer…

Aí que meu sobrinho chorou mesmo. Disse que eu não devia ter dito aquilo. Aí eu percebi que havia falado besteira, então o abracei. Disse que não havia qualquer certeza sobre o seu estado de saúde e que, talvez, ele sobrevivesse. Ele ficou visivelmente mais calmo e eu pude dar cabo da minha constipação. Durante o dia, eu pensava coisas como “meu irmão está gravemente ferido no hospital, eu não deveria estar sentindo alguma coisa?” Mas, quanto mais eu pensava sobre isso, mais eu me convencia de que eu não tinha do que me lamentar. Cinicamente, um pensamento se esgueirou na minha mente e até me fez rir: “se ele morrer, eu acabarei tendo que assumir as tarefas da casa.” E outro: “se ele morrer, minha mãe poderá ficar com o seguro desemprego dele, já que um meliante sacou o dinheiro dela.”

A razão pela qual eu não me importava com o estado do meu irmão vinha da Apologia de Sócrates. Eu estava quase certo de que ele não sobreviveria, então que morresse logo, para acabar seu sofrimento. Porque a morte ou é o nada, como um longo sono sem sonhos, ou é a mudança desta para outra vida. Ele ficaria bem, talvez até melhor que eu. Mas eu ainda me sentia um pouco culpado.

Fui jogar Shining Force 2, ri bastante da animação de ataque daquela monja, quase cheguei à North Parmecia. Depois fui ler A República, depois fui ler a Bíblia, depois fui ler A Educação Para Além do Capital para fazer um trabalho… Meu dia correu normalmente, apesar de meu irmão estar numa péssima situação. Minha única preocupação era a possível dor que ele teria sentido no momento do tiro. Não chorei, não fiquei triste, nem nada. Eu só não fiz piada porque eu tinha que cuidar do meu sobrinho, o qual estava abalado, e eu não queria desrespeitá-lo.

Aliás, meu sobrinho ficava gradualmente mais calmo ao ver que eu estava calmo. É importante para uma criança que alguém na família pareça forte numa situação como aquela. E, embora eu não me julgue forte, ele ficou mais seguro ao ver que eu não estava preocupado.

Os celulares, que eu detesto, não paravam de tocar e de interromper meus estudos. Pessoas daqui, da capital, de outros estados, ligavam o tempo todo querendo saber da condição de saúde do meu irmão. É incrível como esses parentes “próximos” só ligam quando alguém está pra morrer. Alguém escreveu que amizade tem mais a ver com partilhar momentos felizes e não tanto os tristes… Inobstante, recebi mais de vinte ligações em três celulares e às vezes um celular tocava enquanto eu atendia outro. Ai, que saco! Deve ser assim que um operador de vendas por telefone se sente! Além dessas ligações, recebi dez visitas de pessoas comuns e de testemunhas. Um cara até veio dedurar os nomes dos ladrões assassinos (meu irmão foi baleado depois que eles tentaram roubar o celular dele e meu irmão percebeu que estava sem celular na hora).

Muito bem. Depois recebi uma ligação da minha mãe. Aparentemente, Jeová intercedeu pelo meu irmão. Como vocês já sabem, eu não sou testemunha de Jeová, mas minha mãe, meu irmão e meu sobrinho são. Então, a bala não acertou a cabeça dele, mas o pescoço. Apesar disso, não lhe atingiu a coluna, nenhum vaso sanguíneo, nenhum osso e ficou coladinha com a aorta. Um pouco mais pro lado e aí, sim, ele teria morrido de hemorragia. Alguém pode argumentar que, se ele fosse atendido a tempo e fizesse um tratamento com transfusões, talvez ele tivesse chance. Mas é como eu disse, são testemunhas de Jeová. Não fazem transfusões.

Meu irmão, que estava faltando reuniões, faltando ao campo e deixando de lado a religião aos poucos, talvez agora conserte seu comportamento para algo mais condizente com aquilo que ele prega. Mas quem sou eu pra dizer essas coisas?

Agora que eu sabia que ele não ia morrer mesmo, superei minha culpa. Depois de mais um tempo, fiquei sabendo que ele seria submetido à cirurgia para desalojar a bala mas, depois de uma hora, minha mãe ligou de novo para dizer que o corpo dele expeliu a bala por contra própria e que ele havia recebido alta. Assisti alguns gordinhos lindos com vontade de fazer xixi e fui dormir.

Hoje, perguntei ao meu irmão se o tiro doeu. Ele me disse que não. Aí voltei a me sentir culpado porque aquilo me fazia sentir que meu comportamento sóbrio estava justificado. Falei que eu me sentia insensível e minha mãe disse que era importante que alguém na família se mantivesse sóbrio numa situação tensa para orientar os outros e facilitar o socorro. Que bom que não sou um completo anormal.

7 de fevereiro de 2015

O que eu aprendi lendo o “Fédon”.

Filed under: Livros, Passatempos — Tags:, , , — Yure @ 14:17

“Fédon” foi escrito por Platão. Abaixo, algumas coisas que aprendi lendo esse livro.

  1. O livro fala do discurso de Sócrates antes da morte.
  2. Após o julgamento de Sócrates, ele ficou preso por mais uns dias antes de finalmente tomar o veneno.
  3. Muita gente assistiu Sócrates morrer…
  4. Sócrates morreu feliz.
  5. Alguns dos presentes também estavam felizes, outros estavam tristes, mas a maioria não sabia o que sentir.
  6. Prazer e dor sucedem-se um ao outro.
  7. Se nossa vida pertence a Deus, não temos o direito de atentar contra nossa própria vida.
  8. É bom não aceitar a opinião dos outros tão facilmente.
  9. O filósofo se diferencia dos outros por se afastar dos cuidados com o corpo e se aproximar dos cuidados com a alma.
  10. Nossos sentidos são limitados então não podemos lhes dar completo crédito.
  11. A verdade é alcançável pelo pensamento, não pelo corpo.
  12. O corpo proporciona dor, a qual tolhe o pensamento.
  13. Beleza, justiça, bondade são coisas que não podem ser vistas ou ouvidas e só podem ser estudadas pelo pensamento.
  14. Revoltar-se na hora da morte é sinal capital de que a pessoa é demasiada apegada ao corpo.
  15. Existem pessoas que desistem de certos prazeres para se entregarem a outros.
  16. Os sentidos se aproximam da verdade, sem chegar lá.
  17. Esquecer é perder conhecimento.
  18. Somos corpo e pensamento.
  19. A filosofia ensina como se acautelar dos apetites corporais.
  20. Sócrates tinha plena fé em suas palavras: estava convencido de que a morte não lhe posaria nenhum mal.
  21. O ódio pelas palavras e o ódio pelo gênero humano vêm do mesmo lugar: da decepção.
  22. A maioria das pessoas é um meio-termo entre bom e mau.
  23. Os extremos são raros.
  24. Ao encontrar-se com argumentos opostos aos seus com muita frequência, a pessoa acaba se desiludindo do próprio pensamento e da própria palavra, o que pode fazê-la desesperar-se da verdade, se ela também sentir que não é possível chegar a nada 100% seguro.
  25. Procure a verdade para si mesmo e, se ela for mesmo boa, convencerá os outros.
  26. Mas convencer os outros a pensar como você não deve ser objetivo, mas sim consequência do pensmento.
  27. Anaxágoras dizia que a mente ou inteligência ordenava todas as coisas, mas, na hora de explicar as coisas do nosso mundo, nunca recorre à inteligência, mas à causas naturais.
  28. Estou sentado porque quero.
  29. Os naturalistas não admitem causas imateriais para coisas materiais, a não ser como “coringas”, como no caso de Anaxágoras.
  30. As famosas “navegações”: o primeiro itinerário consiste em procurar conhecer as coisas sensualmente e o segundo consiste em usar só o pensamento.
  31. O que faz as coisas belas serem belas é a presença de uma qualidade chamada “beleza”: para dizer por que algo é belo, devemos definir o que é essa beleza em si, em vez de dizer que é porque o objeto tem esta ou aquela aparência.
  32. Quando algo participa de uma ideia, não aceita seu contrário.
  33. Sócrates admitia o modelo esférico da Terra, embora achasse que ela estava no meio do universo.
  34. Não estamos na borda do planeta, já que a borda do planeta é a atmosfera.

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