Analecto

12 de março de 2015

Capitalismo hipertenso.

Filed under: Notícias e política, Saúde e bem-estar — Tags:, , , — Yure @ 18:37

Nossa! Muito interessante (não estou sendo sarcástico). XD

Fico maravilhado que não perca a fé estudando uma área do conhecimento maravilhosa como essa. Conheço altos “cristões” que faram cursar filosofia na universidade e voltaram com aquela camiseta estupida do Tchê Guevara.

via User control panel — Fur Affinity [dot] net.

Conheci um cristão no Fur Affinity, pequeno Luckypuppy. Estávamos falando de nossas crenças, já que cristãos amam discutir isso, e ele é protestante. Ele conheceu o Fur Affinity pelo meu diário, depois de ter visto minhas entradas sobre infantilismo. Ele achou interessante e resolveu usar o Fur Affinity, vejam só, como um meio de aprender mais sobre os infantilistas. Eu não posso mais me considerar tão cristão como eu costumava ser, depois daquela aula de ética que mudou minha vida e me fez questionar tudo o que eu acreditava até então. Prova de que a filosofia continua interessante mesmo quando o professor é chato que dói.

Aí, quando eu falei que cursava filosofia, ele me disse as palavras acima e eu dei uma resposta pra ele, comentando o comportamento do pessoal da minha universidade. Esse é um problema apontado também pelo meu tio poeta. Na universidade, muita gente é comunista hipócrita.

Uma das coisas que aprendi sobre o comunismo na universidade é que o comunismo só é possível numa sociedade onde há abundância de bens e recursos. Ou seja, o mundo inteiro precisa virar comunista mais ou menos ao mesmo tempo, porque nenhum país é capaz de se sustentar por contra própria. Supondo que haja um grupo de países que são comunistas, mas que precisam importar alguns recursos de países capitalistas. Como eles poderíam fazer isso se não com dinheiro? Ora, mas não existe dinheiro numa sociedade comunista. Então, a importação de recursos acaba sendo hipócrita, porque os comunistas acabariam tendo que ter uma reserva de dinheiro, uma economia, portanto algum tipo de trabalho, sendo que não existe salário justo, o que implica exploração…

Mas como é que todos os países se tornariam comunistas ao mesmo tempo? O jeito é uma grande, gigantesca revolução. Só que ninguém quer essa revolução. Os operários oprimidos de hoje em dia não querem o fim da exploração. Eles querem a oportunidade de se tornar opressores. E, mais que isso, todos eles absorveram as ideologias e valores que justificam o capitalismo e não veem como as coisas poderiam ser diferentes… Eles querem o luxo, eles querem excesso, ostentação. E se só um país se tornasse comunista e não todos, sendo que um país comunista precisaria ser autossuficiente? Simples: a riqueza, antes nas mãos de poucos, passaria a estar nas mãos de ninguém. Essa condição foi descrita pelo meu professor de filosofia da arte como o ato de “deixar todo o mundo pobre”. Sendo um risco presente, os operários não querem arriscar.

E aí vem os alunos da minha universidade. Eles se dizem comunistas, pregam o comunismo e são, às vezes até às últimas consequências, capitalistas. Meu professor de filosofia social e política, tão atacado e perseguido na ditadura militar (foi inclusive torturado), vem dar aula numa Hylux. Preciso dizer que ele se diz adepto de Lênin? Fora que ele mora em bairro nobre e deve ter um bocado de luxo em um flat. O último aluno que jogou isso na cara dele quase o matou de ataque cardíaco. Quando os professores são assim, imagine os alunos! É difícil ver um que não tenha um celular do momento e não use Windows no PC.

O que estou dizendo é que, se eles são comunistas dentro de um sistema capitalista, não deveriam concordar com o sistema oposto além da medida do necessário, isto é, não deveriam perseguir o luxo. Deveríam procurar alternativas de baixo custo ou mesmo gratuitas para sua subsistência. Minha família é capitalista e é mais comunista que eles, porque nós damos pouco valor ao dinheiro e ao luxo (exceto pelo meu irmão, que consome muito mais do que lhe é devido). Eu não tenho celular, não uso Windows, não tenho carro, não compro livros (porque existem muitas traduções gratuitas de livros clássicos online), só adquiro roupas novas quando as atuais não cabem, não frequento academia (pratico exercício em casa), sempre como a mesma comida, lavo o cabelo com sabonete, não tenho plano de saúde ou dentário e nunca fiz nenhuma decisão visando “sucesso” ou lucro. Só quero ser professor, trabalhar com o que gosto, para sobreviver e continuar estudando. Quero estudar a vida inteira.

Isso significa que nós aqui movimentamos pouco dinheiro. Nossa família é um fracasso total em matéria de consumo. Mas, como precisamos consumir para sobreviver dentro do sistema capitalista, seria interessante que nós não consumíssemos mais que o necessário e que repudiássemos o luxo, porque isso movimenta dinheiro e a movimentação de dinheiro é como que a batida cardíaca do capital. Se eu discordo desse sistema, eu deveria, pelo menos, movimentar o mínimo de dinheiro possível…

Isso não é uma questão política, mas moral. Só estou apontando a hipocrisia dos meus colegas. É como quando eles dizem que a sustentabilidade é um conceito impossível, mas não reconhecem que a natureza ainda assim precisa de socorro e, por isso, acabam produzindo mais lixo e de forma mais desorganizada que o capitalista ao lado deles. Ou eles são tão canalhas quanto ou são piores. Isso também não é uma defesa ao capitalismo, porque este ainda é um sistema decadente que inflinge dano tanto a favorecidos quanto a desfavorecidos.

Para não ser como o doutor em filosofia que veio aqui em casa e me deu uma aula de como o capitalismo oprime a educação sem se preocupar em achar uma solução, eu creio que a solução para este problema é uma revolução interna. Tem um gordinho gostoso na universidade (o qual eu finalmente consegui abraçar ontem) que partilha dos meus gostos filosóficos. Ele também não gosta muito de discutir política, preferindo questões existenciais, uma filosofia mais pessoal. E acho que ele concordaria comigo se eu dissesse que a revolução começa dentro. A não ser que as pessoas passem a consumir menos, o que requeriria um aperfeiçoamento moral, a tendência é de que o capitalismo torne-se cada vez mais forte e a fome de lucro de um alimente a fome de lucro do outro. As pessoas veem os outros se dando bem e querem ser como eles, não importa como. E isso gera todo o tipo de problema para as pessoas (insatisfação profissional, por exemplo, porque você decide escolher um trabalho que pague bem e que nada tem a ver com seus interesses) e para a sociedade (um capitalismo cada vez mais agressivo e hipertenso, alavancado pela circulação inconsequente de capital cuja fonte se encontra em nossos interesses fúteis).

Sei que este foi um texto pueril e ingênuo, mas poxa vida! Criei um conceito: capitalismo hipertenso. Uma salva de tiros para Deleuze.

Anúncios

3 Comentários »

  1. […] necessidades são um dos pilares do capitalismo, que está interessado em sua batida cardíaca, isto é, na troca, e não na utilidade dos produtos trocados. Por isso se vende perdão. […]

    Curtir

    Pingback por Venda de perdão e Herbert Marcuse. | Pedra, Papel e Tesoura. — 16 de julho de 2015 @ 12:37

  2. Kinda interesting that you don’t spend a lot on luxury. Admirable really.

    Curtir

    Comentário por pouar — 12 de março de 2015 @ 20:23

    • I’m glad you find it interesting. I was talking about this with Ryan, the monkey, and Daxy, the fox, yesterday. They are both quite down about adult life and politics. It’s becoming a depressing subject to talk about.

      Curtir

      Comentário por Yure — 13 de março de 2015 @ 13:02


RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: