Analecto

20 de abril de 2015

Fedro.

  • Tudo começa com um encontro entre Sócrates e um outro cara, no qual esse cara expõe o discurso de um terceiro cara sobre o amor.
  • Conhecer a si próprio deveria ser o início do conhecimento. Querer conhecer outras coisas antes de se conhecer a si mesmo é colocar os pés pelas mãos.
  • Depois de satisfeita a luxúria, as vantagens oferecidas em troca de satisfação parecem não ter sido justas…
  • Demonstrar compaixão por aqueles que precisam é uma ação racional e não passional, portanto as vantagens oferecidas não parecem injustas depois.
  • Aqueles que amam sem se deixar levar pela emoção cega o fazem responsavelmente.
  • Quem ama com paixão fala coisas de que depois se arrepende.
  • Os apaixonados, por vezes, reconhecem que são irresponsáveis, mas, ao mesmo tempo, não são capazes de se endireitar.
  • O amor apaixonado fomenta a inveja e o ciúme. Afasta os amigos e eventualmente o próprio amante.
  • O que ama moderadamente despreza não os que se aproximam do amado, mas os que não se aproximam, por achar que desprezam o amado. Ele entende que é bom que seu amado tenha amigos.
  • O que ama moderadamente não se aborrece com faltas insignificantes do amado.
  • Amor pode ser amizade ou paixão. A amizade é mais duradoura e ponderada. A paixão é irrefletida e agressiva.
  • Nem todos são dignos de amor ou amizade. Existem os que são interesseiros, por exemplo, então devem ser nossos amigos os que se mostram capazes de gratidão.
  • Para Sócrates, o discurso é demasiado retórico, repetitivo e composto.
  • Para evitar a vergonha perante o cara, Sócrates profere seu próprio discurso com a cabeça coberta. Imagine.
  • Com quem devemos fazer amizade? Com quem nos ama ou com quem não nos ama?
  • Quando a razão domina o desejo com que discorda, tem-se temperança. Quando o contrário, tem-se intemperança. A intemperança tem diferentes nomes dependendo do desejo que arrebatou a pessoa.
  • O apaixonado quer um amado fácil. Se o amado se mostra superior ou igual, ele fica frustrado, porque quer prazer naquele instante, o que só poderia ser obtido se o parceiro fosse pior que ele.
  • O apaixonado trabalha para a degeneração da sabedoria ou capacidades físicas do amado, para mantê-lo sob controle.
  • É manipulador.
  • Quer que seu amado seja fraco e também pobre. Dependente. Convém que o amado perca aqueles que ele ama, para que só reste o amante para protegê-lo.
  • O amante apaixonado quer mais é que o amado se ferre, mesmo que ele não se dê conta disso, para que assim ele possa mantê-lo. É um amor egoísta.
  • Amantes apaixonados são propensos à traição. Quando se cansam do amado, quebram seus votos.
  • Juramentos feitos por um apaixonado são indignos de confiança.
  • O amor apaixonado é um mero apetite. Como o amor do lobo pelo cordeiro. Satisfeitos, vão embora e, quando precisam, procuram outro. Assim, os danos causados ao amado também são sua culpa, pois não deveria ter se entregado a um homem embriagado de paixão.
  • Tudo o que se diz do amante apaixonado deve se dizer ao contrário do amante moderado.
  • Mas talvez a loucura do apaixonado não seja sempre ruim. No contexto grego antigo, a loucura era por vezes vista como dom divino. A loucura da paixão seria provida por Eros, o deus do amor, filho de Afrodite, deusa da beleza.
  • A religião parece ter vindo do delírio inspirado.
  • A loucura também produz música e poesia.
  • Sendo assim, o amante apaixonado não perde em nada para o insensato. Seus males são compensados porque os apaixonados estariam, para Sócrates, a serviço dos deuses.
  • Apesar de danoso, o amor apaixonado deixa feliz aquele que ama.
  • Aquilo que é movido por outra coisa, morre ao fim do movimento, mas o que move a si mesmo é eterno, por estar em constante movimento. Aristóteles diria o contrário: que o motor imóvel é origem de todo movimento (como causa final, por atração) sem estar ele próprio em movimento, nem por isso sendo mortal.
  • As causas não podem regredir infinitamente.
  • Depois da influência demoníaca, Sócrates muda totalmente de discurso, de forma impressionante.
  • Mito do carro guiado por dois cavalos alados.
  • Existe um cara que guia uma carroça conduzida por dois cavalos: um deles é de boa raça e dócil, mas o outro é mestiço e rebelde. O cara é a alma, o cavalo puro é a razão, o cavalo mestiço é a emoção.
  • O cavalo da razão quer elevar-se aos deuses, mas o cavalo da emoção tenta puxar o carro para baixo.
  • Não podemos conhecer as coisas como realmente são porque a condução da carroça da alma demanda atenção.
  • Platão sustenta a viagem das almas e a punição das almas más pela reencarnação em um ser inferior. Mas ele menciona apenas profissões, contudo.
  • Almas podem ser punidas sob a terra também, ou recompensadas sobre o céu. Vale lembrar que a filosofia platônica foi incorporada pela Igreja Católica.
  • Após a recompensa ou castigo, a alma deve reencarnar na vida que merece.
  • A alma do filósofo é quase uma deusa.
  • O filósofo, quando contempla a verdade, é tido por louco pelos outros, mas é apenas incompreendido. Talvez seja isso que aflige os amantes apaixonados: sua conduta é publicamente reprovável, mas pra os amantes é plenamente justificada.
  • A alma relembra aquilo que viu na pós-vida pelo processo de reminiscência.
  • A contemplação do belo faz parte do processo de elevação da alma. É algo intenso, já que o amor pela beleza nos suscita mudança de comportamento.
  • O verdadeiro amante não quer o empobrecimento do amado, contudo, mas quer torná-lo como ele.
  • Ambos os cavalos são necessários ao amor. A emoção aproxima os amantes e a razão os modera. Amor sem emoção é tomado de pudor excessivo e acanhamento. Amor de moderação é selvagem e agressivo.
  • Os discursos políticos escritos começam com o nome de quem primeiro elogiou o discurso em sua forma falada: “o conselho decreta”, “o povo decreta”…
  • O discurso falado que não é elogiado também não é escrito.
  • Os oradores procuram convencer a maioria utilizando aparências. Os oradores não falam do que é bom, belo, justo ou útil, mas do que parece ser uma ou mais dessas coisas. E os oradores discursam para a maioria, então tem de estar atentos aos consensos se quiserem convencer alguém. Então, o orador retórico não precisa conhecer aquilo de que está falando.
  • E é aí que mora o problema. Tanto o orador retórico quanto o ouvinte são, em geral, desconhecedores das coisas que estão em pauta. O retórico, conhecendo as opiniões, mas não a verdade, brinca com as opiniões, de forma que o ouvinte seja levado a pensar como ele quer.
  • As artes técnicas tratam de coisas reais. A retórica que não está comprometida com a verdade não é arte técnica, porque trata de ficções. Porém, a retórica, se de posse da verdade, poderia fazer uma pessoa aceitá-la mais facilmente.
  • A retórica desfigura o objeto em discurso. Faz o justo parecer injusto e vice-versa.
  • Ela trata de contradições. Isso também aparece em Górgias.
  • A retórica tem mais poder quando trata de assuntos incertos e duvidosos, por se aproveitar da ignorância do ouvinte e da abundância de opinião. Não é possível usar a retórica para convencer alguém que prata e ferro são a mesma coisa se o ouvinte está plenamente ciente de que são coisas diferentes. Observe, contudo, que o retórico, em alguns casos, pode abalar a certeza do ouvinte.
  • Um truque retórico: não explicar o significado dos termos usados no discurso. Assim, o termo pode ter o sentido que o retórico quiser que tenha. Muito utilizado na Igreja Universal.
  • A dialética platônica é subtrativa, não aditiva. Parece o método analítico cartesiano. Uma ideia é decomposta em partes cada vez menores até chegar ao indivisível, daí são postas novamente no todo orgânico.
  • O retórico não tem poder sobre aqueles que entendem do assunto que ele trata. Mas até que os retóricos têm potencial para aprender aquilo de que pretendem falar.
  • Para ser um orador perfeito, o indivíduo precisa ter uma inclinação natural, estudar e exercitar a oratória. O mesmo é válido para o resto. Se falta inclinação, estudo ou exercício, temos um profissional imperfeito.
  • A oratória perfeita tem potencial construtivo sobre o ouvinte.
  • Quem discursa sobre alguma coisa deve ser capaz de descrever a natureza dessa coisa. Se eu discurso sobre medicina, tenho que dizer o que é medicina. Se eu discurso sobre magnetismo, tenho que dizer o que é magnetismo. Se eu discurso sobre filosofia, o bicho pega.
  • É necessário ser também capaz de definir o objeto de que trata aquilo sobre o que estamos discursando. Se eu discurso sobre medicina, tenho que dizer do que trata a medicina. Se eu discurso sobre física, tenho que dizer do que trata a física. Se eu discurso sobre filosofia, o bicho come.
  • Os retóricos tratam do intelecto, chamado de “alma” por Platão. Então, o bom retórico deveria ser capaz não apenas de dizer o que é retórica, mas também o que é a alma, porque a retórica age sobre a alma do ouvinte.
  • Nem todo ignorante é igual: o retórico precisa adaptar o discurso segundo o “tipo de alma” que se quer influenciar. O mesmo discurso afeta diferentes pessoas de forma diferente porque, segundo Platão, cada tipo de alma o recebe de uma forma própria.
  • O conhecimento dos tipos de alma vem da prática. O retórico deve reconhecer, pela prática de seu ofício, quando usar este, esse ou aquele argumento com esta, essa ou aquela pessoa.
  • A retórica se ocupa do verossímil, não necessariamente do verdadeiro. Lida mais com probabilidades do que com verdades.
  • O direito na Grécia Antiga parece o nosso: convém dizer uma mentira aceitável no lugar de uma verdade inconveniente num tribunal.
  • Se o retórico quer convencer, se volta para o convincente, não para o verdadeiro (embora ainda possa ser usado como acessório).
  • Isso é especialmente evidente quando acusador e acusado se esforçam para esconder a verdade sobre o caso.
  • O retórico não é encorajado a conhecer a verdade, mas o conhecimento da verdade permite criar probabilidades mais convincentes. Então o orador que sabe realmente o que aconteceu tem maiores chances de ganhar a causa do caso em questão.
  • A escrita, segundo Platão, opera contra a memória.
  • O livro também é limitado pelo entendimento do leitor. Após terminar um livro, você não pode pedir ao próprio livro mais esclarecimento sobre o assunto tratado, porque ele só vai até ali. Se algo não ficou entendido… você precisa de um professor ou outro livro.
  • Os discursos escritos dialeticamente têm um limite estendido.
  • Almas complexas requerem escritos complexos. Almas simples requerem escritos simples. O escritor tem que ter isso em mente se ele não quiser ultrapassar o limite do entendimento do ouvinte. Esse limite pode ser quebrado de duas maneiras: explicando algo de forma tão simples a ponto de faltar detalhe que precise ser esclarecido ou explicando algo de forma tão complexa que o excesso de detalhes precise ser esclarecido.
  • É necessário conhecer aquilo sobre o que se discursa.
  • O melhor discurso escrito é aquele que é escrito para uso do próprio escritor, como meio de consulta posterior, com sua eficácia sendo reduzida se o leitor não for o próprio escritor e diminuindo quanto mais distante o leitor é do escritor.
  • Para Platão, filósofo é aquele que está certo de possuir a verdade e é capaz de defendê-la, indo além daquilo que escreveu.
  • Os amigos devem tudo ter em comum.
Anúncios
Older Posts »

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: