Analecto

15 de maio de 2015

Mészáros: educação contra o capital.

Philosophy – Wikipedia, the free encyclopedia.

Atenção, professoras de filosofia da educação, este trabalho foi escrito por Yure! Se você ver este trabalho em meio aos trabalhos de seus alunos, assinado por Yure, somos a mesma pessoa!

 

Este é um resumo de uma parte do primeiro capítulo do livro A Educação para Além do Capital, de István Mészáros.

 

Senhor Mészáros começa apresentando alguns pedaços interessantes do pensamento de Paracelso, Martí e Marx.

 

Segundo Paracelso, a educação não tem limites cronológicos se não a vida do corpo. Enquanto estamos vivos, aprendemos. A cada instante, aprendemos algo novo e esse aprendizado se encerra na morte. Já para Martí, é quase isso, exceto que a educação mediada pela escola, tendo em vista determinados fins, é condicionada e isso se põe como obstáculo ao aprendizado genuíno. Pela autoridade da escola, acabamos por aceitar como corretas coisas que não são verdade, mas meras convenções. Ou seja, para Martí, a pessoa não aprende o tempo todo, pois não necessariamente aprende na escola à qual tem que ir. Marx não está tão interessado sobre quando o ser humano aprende, e sim como aprende. Segundo ele, a educação escolar é um condicionamento: o educador é educado e essa educação é passada a futuros alunos. A menos que o professor seja um livre pensador, suas aulas são reprodução do pensamento já existente. Mas, mesmo que ele seja um livre pensador, as escolas têm seus objetivos e o professor acaba se vendo obrigado a condicionar suas aulas segundo os objetivos da escola, que, como uma entidade inserida na sociedade, herda esses objetivos dessa realidade maior que é a sociedade capitalista ocidental (o contexto de Marx).

 

Os pensamentos desses três indivíduos convergem sobre a necessidade de uma mudança no nosso sistema educacional. Segundo Mészáros, a escola tem um papel de mudança, mas esse papel é desempenhado de forma incompleta: a escola capitalista tem um comportamento estranho de tampar buracos na lógica do capital, sem dar espaço ao pensamento que poderia substituir o capital. Isto é, a educação ganha uma aparência de ambiente produtor de mudanças, mas, na verdade, é um ambiente de manutenção, sendo assim uma instituição conservadora. Claro que o capitalismo tem projetos educacionais atraentes, mas são projetos que concordam com a realidade capitalista, no sentido de que amenizam efeitos negativos oriundos da sua lógica e não suas causas, permitindo o aparecimento de novos efeitos.1 Esses projetos falham porque visam consertar o capitalismo, sendo que o capitalismo não tem conserto.

 

O capitalismo leva às últimas consequências um fenômeno chamado divisão do trabalho.2 Porém, pensadores como Adam Smith, não são capazes de ver que a causa da divisão é justamente o sistema capitalista, que dá a cada um sua determinada função. Por exemplo: o indivíduo que formou-se sapateiro e artesão tem uma visão de mundo naturalmente mais ampla do que a do outro que formou-se somente sapateiro. Ora, mas o indivíduo que é apenas sapateiro desempenha melhor essa função e tem melhores chances no mercado em que está inserido. O domínio de várias perícias não é apenas desencorajado, mas impraticável, se o que você quer é ganhar dinheiro.3 As pessoas são, assim, transformadas em objetos.

 

Esse é um problema que não pode ser resolvido meramente com a razão, a menos que a razão trabalhe contra o capitalismo e não contra este ou aquele efeito de seus processos dementes. Mas a pregação da razão como solução dos problemas da sociedade é uma manifestação de má-fé. Não basta admitir que o problema é “nosso” ou de determinado pensador, é necessário também apontar as causas desses erros. Se elas estão na educação, então temos que mudar a educação, mas não podemos sem mudar a sociedade, que sofre justamente com má educação. Cai-se, então, num círculo vicioso. Então, a possibilidade de uma razão libertária acaba tornando-se utópica. Além disso, pensadores como Robert Owen acabam por propor uma mudança através de um ajuste a favor dos trabalhadores, o que é suspeito, porque, se por um lado a classe trabalhadora não deveria ser tão explorada, ele teme que os trabalhadores tenham liberdade demais, já que Owen é membro da classe dominante. Além do mais, foram postuladas reformas graduais, as quais tiveram sua validade desmentida pela história. A mudança precisa acontecer de uma vez.

 

A escola, a possível salvadora da humanidade, serviu à sociedade como meio de adestramento de crianças, que se tornarão futuros capitalistas, com os objetivos e valores do capital integralizados, justificados. Assim, a educação contra o capital requer uma quebra com esses valores que são integralizados nos alunos. Mas vale lembrar que a educação não acontece apenas na escola. A aprendizagem é nossa própria vida. Maior parte da aprendizagem então se dá fora da escola e aí se vê uma brecha para atacar a educação que os alunos recebem e que os perverte. Esse ataque não é simplesmente uma negação do que está sendo ensinado, contudo, mas o estímulo ao trabalho por uma sociedade alternativa.

 

Para Mészáros, Marx e Martí, a escola atual é uma lavagem cerebral na qual são incutidos nos alunos valores que justificam o capital, como, por exemplo, a de que pobres o são porque não querem trabalhar e que deveriam haver leis que limitem o tempo livre desses vagabundos, obrigando os meninos a ir para escolas profissionalizantes e mandando os pais a trabalhos forçados, nos quais ganhavam “um centavo por dia”, como diz Locke.

 

1Por exemplo, a crise ambiental. Muito se fala de atitudes sustentáveis, mas essas são medidas de contenção de efeitos e não de eliminação de causas. Não precisaríamos ter de adotar, cada um, essas atitudes se a necessidade de matéria-prima e de lucro não fosse tão desenfreada. Mas ninguém fala dessas coisas, se não de forma banal. O que não quer dizer que não tenhamos que ser “sustentáveis”, já que agora isso se tornou necessário, enquanto a fome por matéria-prima e o desperdício são características descaradas de quem pouco se importa com isso, justamente aqueles que mais causam danos em nome do lucro.

 

2Divisão do trabalho: a cisão entre trabalho do pensar e trabalho do fazer. Existe uma elite que pensa e um bando de trabalhadores que sabe apenas desempenhar sua função. A elite pensa e não trabalha. Os trabalhadores não têm tempo nem oportunidade de pensar, tão engajados que estão na luta pela sobrevivência.

 

3Esse é o contexto de Mészáros. Hoje, as condições mudaram a ponto de ser recomendável que o indivíduo seja o mais “capacitado” possível, o que não significa que as coisas estejam melhores. Agora, há uma segregação ainda maior entre os pobres e os ricos, porque os pobres não podem pagar pela capacitação exigida.

 

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