Analecto

15 de maio de 2015

Por que a crise afetou a educação?

Philosophy – Wikipedia, the free encyclopedia.

Atenção professoras de filosofia da educação, este artigo foi escrito por Yure! Então, se você vir este artigo em meio aos artigos de seus alunos e ele estiver assinado com o nome Yure, somos a mesma pessoa!

 

Resumo.

 

Hannah Arendt filosofou sobre muitas coisas e escreveu muitos livros. Mas este artigo se foca em um aspecto específico de um de seus livros. Neste artigo, temos uma análise dos principais pontos do tópico “crise na educação”, do livro Entre Passado e Futuro.

 

Aqui, é feito um apanhado do ponto de vista da filósofa sobre como a educação deveria ser para salvaguardar a integridade da criança antes de estar pronta para a vida adulta. Além disso, também é feito aqui uma reflexão sobre como a crise afetou a educação e de como a configuração da crise remonta às ideologias americanas. Porém, não é um artigo sobre política e de como ela afeta a educação. Este artigo procura as razões mais pessoais por trás do texto de Arendt, para mostrar como o problema na educação não é culpa exclusivamente do Estado.

 

Palavras-chave: Arendt, educação, crise, política.

 

Abstract.

 

Hannah Arendt philosophized over many things and wrote many books. But this article focuses on a specific aspect of one of her books. In this article, we have an analysis of the main points in the topic “crisis in education”, from the book Between Past and Future.

 

Here, we try to make a collection of the philosopher’s views on how the education should be to keep the child’s integrity safe before the child is ready to start an adult life. Plus, a reflection over how the education went into crisis and how the crisis’ configuration can be backtracked to the American ideologies is also done. However, this isn’t an article about politics and how it affects the education. This article looks for more personal reasons behind Arendt’s text, to show that the problem in education isn’t something to be blamed solely on the State.

 

Keywords: Arendt, education, crisis, politics.

 

 

Introdução.

 

A educação não é exatamente estável hoje. Apesar de a educação ter passado por momentos piores, já ter sido caótica e também muito mais elitista, hoje nós temos a impressão de que nosso ensino está avançando na direção certa e já mostrando resultados. Na verdade, não é bem isso o que acontece. O que acontece é que hoje nós temos um inculcamento de uma ideologia que forma para o sistema, o que é apenas natural, considerando que a escola é um organismo inserido na sociedade e, como tal, acaba trabalhando para seu perpetuação. A situação parece melhor porque a educação é conformista.

 

Então, embora nossa educação certamente esteja melhor, ainda lhe falta o elemento libertário, que sempre escapou das paredes da escola e sempre foi sua maior ambição. A educação que forma para a vida e não simplesmente para o sistema seria aquilo que os professores bem intencionados mais almejam, mas é uma esperança que ainda é frustrada pelas demandas do sistema capitalista que ativamente boicota os esforços de professores sinceros em formar livres pensadores.

 

Se nossa educação é vista com olhos otimistas, foi à custa de críticas feitas no passado sobre uma educação ainda pior. De fato, é sobre críticas que se forma aquilo que hoje nós vemos como “avançado”, uma vez que não se pode criar o novo sem apontar o que falta ao velho. Neste documento, procuro enunciar algumas críticas feitas por Hannah Arendt contra a educação de seu tempo e seu terreno (Estados Unidos, século vinte). São críticas ainda muito atuais, pois alguns dos problemas que ela aponta não foram devidamente adereçados e provavelmente não o serão num futuro próximo, mas estão aí para orientar nossa educação atual para o rumo devido.

 

Como base, este texto utiliza a quinta parte, “a crise na educação”1, do livro Entre o Passado e o Futuro. Porém, em vez de se ater aos aspectos políticos, procuro dar mais ênfase aos aspectos existenciais e psicológicos, recorrendo à política quando necessário apenas. Isso porque a política do tempo e do terreno de Arendt não é como a nossa política, hodierna e brasileira, o que faz com que alguns pontos do seu texto não nos sejam relevantes.

 

Na primeira parte, por que educar, examinamos o ponto de vista de Arendt acerca da razão de ser na educação e de como ela acontece. Depois, em por que a crise afetou a educação, procuramos saber o que levou a educação que Arendt observava à crise sobre a qual ela discorre. Também delineamos as características da crise. Por último, o que fazer frente à crise.

 

Por que educar?

 

Por que mesmo devemos educar as pessoas? O que levou o ser humano a ensinar coisas aos seus filhos? Não seria simples a resposta? Nós educamos porque o mundo está posto ali já antes de nosso nascimento. Esse é um mundo estranho que tem que ser explicado.

 

O mundo no qual são introduzidas as crianças […] é um mundo velho […], construído pelos vivos e pelos mortos.2

 

Ele tem seus próprios processos de ação e suas regras são complexas na mesma medida em que ele é velho. Nós estamos em um constante processo de descobrimento dessas regras, das regras de funcionamento do mundo natural, mas nós também criamos nossas próprias regras, as regras do mundo social. São regras difíceis, por vezes contraintuitivas, sem as quais não podemos sobreviver. A inobservância dessas regras torna a vida neste mundo difícil, penosa, e indigna. Cada nova descoberta, acordo, técnica e até mesmo moda que substitui o que é velho faz com que aqueles que não aderem à mudança se tornem obsoletos, indesejáveis. E o ser humano não é capaz de viver sozinho no mundo. Seu poder vem da maioria, da socialização. Então, pertencer à sociedade, participar em seus avanços e usufruir da observância das regras do “jogo da vida”, que se desenrola na arena do mundo, é necessário para a sobrevivência não apenas do indivíduo, mas de toda espécie humana. Talvez isso fosse razão suficiente: educamos para ensinar como o mundo funciona, como ele é, de forma que as crianças desenvolvam sua forma de viver da melhor maneira possível. E os recém-chegados ao mundo, as crianças, não sabem dessas regras ainda e precisam de um lugar onde possam aprendê-las. Por isso, Arendt afirma que:

 

[…] a essência na educação é a natalidade.3

 

Para Arendt, a educação começa, em primeiro lugar, em casa, mas não como letramento. Em casa, a criança, na sua vida privada, é preparada pelos pais, de forma segura, para aquilo que depois seria a ponte entre vida privada e vida pública: a escola. Em casa, a criança se desenvolve, se conhece e se torna ciente de suas capacidades físicas e mentais, através, por exemplo, do jogo. É como uma planta, que está crescendo e precisa ser nutrida pelos pais. Ela aprende de forma orgânica, natural, coisas como falar o idioma materno e as primeiras regras de comportamento, que são absorvidas pela imitação. Em outras palavras, os pais são as primeiras figuras de autoridade que a criança conhece. Assim, há uma relação de autoridade e responsabilidade entre pai e filho.

 

[Os pais] assumem na educação a responsabilidade, ao mesmo tempo, pela vida e desenvolvimento da criança e pela continuidade do mundo.4

 

Para proteger a criança, a vida privada precisa ser protegida também. Para Arendt, a criança não deve ser exposta ao mundo, isto é, à vida pública, sem antes estar devidamente preparada. A vida pública seria caracterizada pela política e, no contexto americano, pela igualdade. Só que, quando há igualdade, não há autoridade, que é requisito para uma formação devida. Então, antes que a criança possa entrar em contato com a política, com a igualdade e com a vida pública, ela precisa ser antes preparada na escola e, antes de ir para a escola, precisa ser preparada na família.

 

Para Arendt, a escola é uma ponte. Ela faz uma ligação entre vida privada, família, e vida pública, o mundo, sem, ao mesmo tempo, ser o mundo ou a família. A escola prepara a criança para entrar no mundo dos adultos, sendo uma etapa necessária para sua emancipação.

 

É importante ressaltar que a escola não necessariamente é a instituição a qual estamos acostumados. Existem diferentes tipos de escola em diferentes tipos de sociedade. A escola pode ser a igreja, pode ser o lar, pode ser o convívio. Ela não necessariamente é um instituto especializado. Funciona como escola qualquer etapa intermediária, preparatória, entre família e mundo. Essa mudança de um extremo para outro é feita de forma gradual. Idealmente, a formação da criança, além de prepará-la para o mundo, deveria também prepará-la para mudá-lo. E de fato…

 

[…] estamos sempre educando para um mundo que ou já está fora dos eixos ou para aí caminha […].5

 

Colocamos em nossas crianças nossas esperanças de manter o progresso do mundo.

 

Resumindo.

 

Para Arendt, a educação ideal começa na família, com a preparação da criança, num meio privado, para a escola. A criança precisa ser protegida da vida pública, porque não está pronta ainda, até que ela esteja amadurecida o bastante para ser-lhe apresentada aos poucos através da escola, que faz assim a ponte entre família e mundo. A criança não deve lidar com política e deve estar submetida à autoridade dos pais.

 

A autoridade é necessária à educação, o que também implica a responsabilidade por parte da figura de autoridade, que também é o professor, quando ela chega à escola. Assim, há uma dialética entre autoridade sobre o filho e também dever por sua segurança e formação devida, enquanto ele está nesse meio privado. Quando o filho está maduro o bastante, deve ir para a escola.

 

Na escola, a criança é preparada para o mundo dos adultos, ao qual deve ingressar quando estiver devidamente pronta.

 

Por que a crise afetou a educação?

 

Arendt estava inserida num contexto norte-americano. Como todo filósofo tende a interpretar a realidade que o cerca, ela falou dos Estados Unidos. Porém, ela não é tão atual ao dizer que a crise na educação nos Estados Unidos é algo que era devido à peculiaridades do estilo de vida de lá. Essas coisas não são peculiaridades, ao menos não mais. Com a gradual americanização do mundo, a crise norte-americana se repete, quase tal e qual, em outros lugares, incluindo no Brasil. Como será visto, a adoção de alguns paradigmas ideológicos estadunidenses pelo resto do mundo põe em questão alguns princípios basilares que foram discutidos na seção anterior e que são indispensáveis ao correto desenvolvimento da criança.

 

Que paradigmas? Os paradigmas de repúdio à autoridade e de esforço desenfreado pela igualdade. Isso porque o contexto de Arendt veio logo após o nazismo, no qual a imagem da autoridade foi manchada pelo autoritarismo. Isso gerou uma crise que afeta vários campos, mas falaremos apenas da educação aqui.

 

Nós temos hoje uma série de preconceitos sobre a vida pública e a vida privada. Isso não é fonte de problemas apenas educacionais, mas também psicológicos e existenciais. A vida pública é glorificada como algo ao qual todos temos que entrar tão cedo quanto possível, ao passo que a vida privada é vista como uma oportunidade do ser humano de se render aos seus impulsos reprováveis. Existe uma pressão pelo fim da vida privada, uma pressão para que você aja do mesmo modo em público e em casa. Dá para ver, de imediato, por que isso é algo nefasto.

 

Por “fim da vida privada”, me refiro à pressão para que seu comportamento seja “genérico”, seja o mesmo em diferentes situações. Ao mesmo tempo, é requerido que você despenda cada vez mais tempo fora de casa, trabalhando, se socializando, interagindo. As pessoas desenvolveram um preconceito com a vida privada, como se ela não fosse produtiva. Isso também tem origens no pragmatismo americano. Na vida pública, você produz mais, então deveria passar menos tempo em casa, onde você não produz.

 

A vida pública americana é um local de igualdade. Nesse lugar, todos somos iguais, ou, pelo menos, é o que se prega. É um lugar no qual nós somos livres para falar, pensar e agir, uma liberdade que foi o lema do século passado. Operários e mulheres foram livres dos grilhões dos senhores e dos maridos, conquistando, pela liberdade, condições melhores de vida e de escolha. Mas essa é uma liberdade que não deveria se estender aos filhos.

 

Aquilo mesmo que significara uma verdadeira libertação para trabalhadores e mulheres […] constituiu abandono e traição no caso das crianças […].6

 

Os filhos passaram a reivindicar para si uma igualdade impraticável entre adultos e crianças, criando suas próprias microentidades com suas próprias leis, onde podem buscar amparo quando elas têm suas aspirações de igualdade ultrajadas pela autoridade dos adultos.

 

Isso põe em questão a autoridade que é necessária para ensinar. Além disso, a autoridade teve sua imagem manchada por abusos cometidos no passado. Os pais educados pela igualdade talvez se sintam mal em exercer autoridade sobre os filhos e acabam os deixando se desenvolver como lhes apraz, mas isso não é apenas um problema ideológico, tendo também sua faceta mesquinha: renegar a autoridade é renegar também a responsabilidade. Os filhos crescem repudiando a autoridade e os pais desta geração são pais irresponsáveis. A crise na educação tem também raízes na crise que afeta a família. Talvez falar de autoridade com tanta convicção e até paixão soe um tanto antidemocrático, mas a obediência a quem pode comandar melhor é sempre uma atitude sensata.7

 

Isso afeta também a escola. No contexto de Arendt, temos o exemplo dos imigrantes.

 

Como para a maior parte dessas crianças o inglês não é a língua natal […], [a escola] obviamente deve assumir funções que […] seriam desempenhadas normalmente no lar.8

 

Como a família está falhando, cabe à escola algumas das tarefas que deveriam ser dos pais. Daí a demanda por escolas de tempo integral, já que os pais irresponsáveis não querem cuidar dos filhos como deveriam e despendem tempo demais trabalhando, normalmente porque o sistema capitalista o pressiona para isso. Afinal, é requisitado cada vez mais trabalho de nossa parte para manter nosso nível de conforto. E isso tem implicações no funcionamento da escola. O currículo teria que ser ajustado, o ambiente da escola teria que ser mudado e a escola, que não deveria ser nem família nem mundo, acaba perdendo seu caráter frente aos alunos, que a veem como uma mera extensão da casa. A mudança no currículo escolar ocorre de forma análoga à mudança no currículo universitário no contexto de Arendt, onde não havia ensino médio.

 

Em consequência dessa ausência de uma escola secundária, a preparação para o curso superior tem que ser proporcionada pelos pprios cursos superiores, cujos currículos padecem, por isso, de uma sobrecarga crônica, a qual afeta por sua vez a qualidade do trabalho ali realizado.9

 

Tendo que ser família e escola, a escola perde o foco naquilo que realmente deveria estar ensinando, ocasionando um ensino inferior. É importante levar em conta que esse problema é amenizado nas escolas de tempo integral, por razões evidentes.

 

Outro problema é a tendência moderna de manter as crianças como crianças. “Aprender brincando” é um lema muito ouvido recentemente, mas isso tem seus efeitos negativos sobre o desenvolvimento da maturidade da criança.10 A criança passa a ter dificuldade em saber quando deve parar de brincar e quando deve começar a ser séria, pois as duas coisas estão mescladas. Isso é especialmente frustrante para a criança mais velha ou o adolescente, que já rejeitam as brincadeiras tolas das crianças mais novas e acabam tendo que brincar com elas em nome da ideologia de igualdade que permeia a educação.

 

Ao discutir que a quantidade de alunos que não sabem ler nos Estados Unidos é maior que em todos os países da Europa, Arendt diz que isso se dá pela corrida dos Estados Unidos em ser uma “nova ordem mundial”, em ter tudo novo, incluindo métodos de ensino. Os métodos norte-americanos são experimentais (ou, pelo menos, eram na época em que Arendt escreveu o livro) e têm que ser pautados nessas ideologias de liberdade e igualdade democráticas. Esses métodos são ainda imaturos e atacam aquilo que a Europa já sabe que dá certo. O método europeu funciona bem, mas por que ele não é aceito nos Estados Unidos? Simplesmente por se fundar em uma ideologia incompatível.

 

O que é intentado na Inglaterra é a “meritocracia”, que é obviamente mais uma oligarquia, dessa vez não de riqueza ou de nascimento, mas de talento. […] A meritocracia contradiz, tanto quanto qualquer outra oligarquia, o princípio da igualdade que rege uma democracia igualitária. Assim, o que torna a crise educacional na América tão […] aguda é o temperamento político do país, que espontaneamente peleja para igualar […] jovens e velhos, […] dotados e pouco dotados, […] crianças e adultos e […] alunos e professores.11

 

É o fim da autoridade. Mas é justamente isso que querem os Estados Unidos. Uma educação internamente igualitária, onde professores não valem mais que seus alunos em hierarquia.

 

Um forte golpe sobre a autoridade do professor foi uma reforma na pedagogia que permitiu que professores que não conhecem bem a matéria que devem passar fossem admitidos no ofício, com o pretexto de termos “professores aprendentes”, que aprendem a matéria durante o ofício. Só que isso tira do professor aquilo que mais lhe dá autoridade, que é a crença de que ele sabe mais que os alunos. Se ele sabe tanto quanto os alunos em determinado assunto, por que os alunos o devem ver como professor mesmo?12

 

Como a autoridade do professor europeu está bem estabelecida, seus ensinamentos são levados mais em conta pelos alunos, são mais admiráveis, são mais difíceis de ser contestados (o que é uma faca de dois gumes), são melhor aceitos. E, como responsabilidade e autoridade andam juntas, o professor tende a ser mais responsável pelos seus alunos, zelando pelo seu crescimento. E crescimento é algo tido em alta conta pelos próprios alunos, porque, numa meritocracia, quem mais estuda e mais sabe, mais pode. Num sistema igualitário, tanto faz eu estudar ou não.

 

Resumindo.

 

A crise na educação também da crise na família e da crise na política. Da política porque existe agora uma demanda por igualdade e liberdade para todos, ao menos aqui na América e nos países sob influência dos Estados Unidos. Da família porque temos uma pressão para acabar com a vida privada, onde a criança deveria se desenvolver, ao passo que os pais não querem mais assumir responsabilidade integral pelos filhos, relegando a autoridade aos professores. Afinal, é na vida privada onde se criam os filhos e os pais são constantemente afastados dela.

 

As crianças acabam sendo levadas à escola cada vez mais cedo, às vezes em tempo integral, sobrecarregando a escola, que perde seu caráter.

 

O que fazer frente a crise?

 

Desconstruindo a seção anterior, nós temos os seguintes pontos fracos apontados por Arendt no ensino:

 

  1. Absorção de uma educação igualitária, sem autoridade, nem de professores, nem de pais. As figuras de autoridade estão relegando seu poder à outras figuras.

  2. Falta de responsabilidade por parte dos pais (crise da família). Os pais passam menos tempo com os filhos, não querendo fazer mais esforço que o mínimo possível para seu desenvolvimento.

  3. Ausência de benefícios por aprender. Os alunos não veem vantagem em aprender.

  4. Sobrecarga da escola com coisas triviais que deveriam ser tratadas na família. A escola perde aos poucos seu caráter preparatório e passa a ser vista como extensão à família.

 

Em primeiro lugar, é necessário trazer de volta a autoridade dos pais e professores. Isso não é fácil por razões ideológicas. Os pais desta geração foram educados pela igualdade e talvez não saibam como lidar com uma situação na qual eles são imbuídos de autoridade. São pais fracos, que se limitam a amparar o filho quando algo dá errado, mas isso é ruim em duas vias.

 

Primeiro porque fomentam a rebelião do filho, que se junta com outros de sua idade na formação de grupinhos. E é aí que está o inferno.

 

[…] ao emancipar-se da autoridade dos adultos, a criança não foi libertada, e sim sujeita a uma autoridade muito mais terrível e verdadeiramente tirânica, que é a tirania da maioria. […] A reação das crianças a essa pressão tende a ser ou o conformismo ou a delinquência juvenil, e frequentemente é uma mistura de ambos.13

 

A criança não está pronta para a vida pública e ingressar num grupo de iguais é lidar com o mundo público, com um sistema político chamado democracia. Se ela não sabe se expressar, pode sentir-se frustrada por ter sugestões genuinamente boas rejeitadas por uma maioria ignorante e ela não poderá fazer nada. Talvez nem sequer voltar à família privada por vergonha de admitir seu erro aos adultos. Outra coisa que permite a vida em sociedade é o devido controle sobre as emoções e isso é algo que se aprende com a educação e com a prática.

 

[…] a medicina cura as doenças do corpo, a sabedoria livra a alma das paixões .14

 

Os grupos de pessoas que não foram educadas pelos pais não favorece a prática do controle ordeiro das emoções (essa é uma das coisas que não deveria ser ensinada na escola, mas em casa, e os conflitos entre alunos na escola seriam melhor controlados se os filhos trouxessem educação emocional de casa) e não pode subsistir por muito tempo, descendendo ao caos.

 

A segunda via é a de que, deixando o filho agir como quiser, mas amparando-o quando seus planos dão errado, o pai está impedindo o filho de sentir as consequências de seus atos, o que prejudica seu julgamento.

 

Não podendo ser educada em casa, a criança não estará pronta para a escola, na qual provavelmente encontrará a mesma situação. Os professores ou não querem ter autoridade ou não querem assumir responsabilidade. Eles querem manter as crianças como crianças. Como a escola também é um dispositivo ideológico do Estado, talvez os professores prefiram doutriná-las15, mas até isso pode ser difícil, se os jovens que receberão a doutrina não reconhecerem autoridade no professor. Especialmente se o professor de matemática for apenas pedagogo. Houve um tempo em que os professores da primeira à quarta série eram apenas pedagogos, não sendo formados na matéria em que ensinavam. Aquilo era muito suspeito.

 

E isso não é perigoso apenas no âmbito escolar em geral, mas dentro da sala de aula, quando o pedagogo se mostra incapaz de responder perguntas específicas feitas por alunos interessados e ou os desaponta ou mente. Isso também acontece quando, por falta de professores, mestres de outras matérias acabam sendo chamados para ensinar assuntos que não dominam. Por vezes, o aluno percebe que o professor comete erros grosseiros em relação à matéria com relativa frequência ou mesmo muita frequência. Acaba completamente a autoridade e também o respeito quando o aluno percebe que sabe mais que o professor, porque fica a impressão de que o professor está se esforçando para enganar os alunos, fingindo ensinar o que não sabe. Já na Grécia Antiga se pensava que ser capaz de ensinar algo é um distintivo de que aquela pessoa conhece o que está ensinando.16 Mas os pedagogos deixam a desejar no ensino das matérias que deveriam ensinar. Então instituir pedagogos para ensinar algo que não aprenderam é um retrocesso milenar.

 

Agora, o próximo problema: os pais não querem ou não podem assumir responsabilidade sobre os filhos. Isso tem raízes no sistema capitalista. Dependendo da condição da política, temos que trabalhar mais ou menos para mantermos nosso nível de vida. Se temos de trabalhar mais, não podemos tomar devida conta de nossos filhos, entregando-os aos outros. Mas a autoridade que é necessária para o desenvolvimento da criança se desenvolve com convivência. Como a criança reconhecerá a autoridade de uma pessoa que passa pouco tempo com ela, na vida privada que é a família? Se temos de trabalhar menos, nem por isso queremos despender mais tempo com os filhos, posto que não temos costume de fazer isso.

 

Esse é talvez o ponto mais difícil de resolver, porque não bastaria uma reforma política, mas também uma mudança de comportamento nos pais. Não basta assumir autoridade, mas também responsabilidade e autoridade sem responsabilidade é autoritarismo.

 

Num sistema igualitário, em contraste com a meritocracia europeia, aqueles que estudam e se esforçam não são devidamente recompensados. E por isso, não são vistos com respeito, mas antes com inveja. Isso faz com que os ignorantes assaltem moralmente e até fisicamente aqueles que são bons estudantes, ao passo que não se esforçam para mudar sua própria condição por não verem vantagem nisso. Isso não apenas fomenta a mediocridade entre as crianças, mas também o bullying, porque cada criança procura um meio de se sobressair, logo, se não tem sentido se sobressair por saber mais, elas talvez procurem se sobressair pela força física e pelo controle sobre os outros. Os que estudam e se esforçam precisam ser recompensados com mais do que simples notas no histórico escolar. Mas isso precisa ser devidamente policiado também, para evitar o surgimento de oligarcas. Aqueles que tem desempenho ruim devem receber também atenção para que não sejam excluídos. Afinal, muitas vezes um aluno vai mal por causa do professor, por causa de um problema de saúde ou familiar, por causa de condições que estão além de seu controle. O professor então precisaria atentar não apenas para os bons estudantes, mas também para os péssimos.

 

Como decorrência da crise na família, as escolas acabam também desempenhando tarefas tipicamente familiares. Para que o aluno trate a escola com mais seriedade, ele precisa saber que ali não é sua casa. Isso não significa ser demasiado duro com o aluno, mas que a escola deixasse claro que ali não é o lugar para aprender aquilo que deveria ser aprendido dos pais. Ao recusar esses papéis, a escola está forçando os pais a assumir responsabilidade pelo filho, o que é o correto.

 

Só que isso não seria uma medida adotada pelas escolas particulares, as quais Arendt deixa de fora de seu discurso17, porque as escolas particulares e também as escolas paroquiais não são “uniformizadas” como as escolas do Estado. Cada uma funciona da maneira que lhe apraz. Isso porque a escola particular precisa de clientes, ela é uma empresa inserida num mundo capitalista competitivo. Ela precisa se diferenciar da concorrência para não definhar e uma escola que tire dos pais o máximo possível de responsabilidade vai bem entre pais que não querem assumir tais responsabilidades. Então, as escolas particulares continuarão quebradas em sentido moral enquanto a transferência de responsabilidade for lucrativa.

 

Resumindo.

 

“Resolver” a crise na educação não é um trabalho simples porque não é um trabalho meramente político, mas também psicológico. Atacar uma ideia (o “sistema”) sem relevar os aspectos materiais e palpáveis que a compõem (as pessoas que fazem o sistema, isto é, alunos, professores e Governo) é fazer metafísica desnecessária.18

 

Seria necessário restituir a autoridade dos pais e professores, seria necessário que estes fossem mais responsáveis, seria necessário que os alunos vissem benefícios em aprender e seria necessário que a escola não fosse um ambiente de infantilização dos alunos, mas um ambiente no qual eles se preparam para o mundo adulto, o que só pode ser alcançado quando a escola parar de ser também família.

 

Conclusão.

 

Eu não quis, com este trabalho, tirar de Arendt a razão em dizer que o problema na educação é também um problema político, mas quis mostrar que há também uma face psicológica, existencial por trás da crise, e que atacar somente a política é um ato de má-fé sartriana (embora ela não faça isso, há quem faça)19.

 

A política influi sobre muitas coisas, mas a política é feita por nós também. A política é feita por pessoas que escolhem seus governos e, se essas são pessoas corruptas, é claro que nossa política será corrupta. Isso é válido para qualquer tipo de política, não apenas a política estatal nacional que se mostra com mais frequência, mas também para as políticas mais pessoais e mais práticas que estão ao nosso redor: a família e também a escola. Mudar a escola não é apenas questão de mudar o governo, é também questão de mudar professores e alunos, que às vezes também são afetados pelas condições dentro de suas famílias. Muito material se produziu contra o governo, mas pouco se produz contra a pessoa, salvo maus livros de autoajuda, levando alguns a crer que a culpa nunca é deles, mas sempre do Estado.

 

O grande problema que não foi ainda resolvido é que operar esse tipo de mudança requer educação, que ainda está sob a crise. Porém, é possível tirar a educação dessa crise de forma gradual, um passo de cada vez, passos sendo operados por aqueles que já conseguiram uma educação decente em meio ao caos. Esses somos nós, filósofos. É importante continuar a produzir, não apenas para o governo, mas também para pessoas, que possam mudar sua atitude individual dentro na educação, para que não passem suas vidas esperando de braços cruzados pela reforma política. Ou seja, se não conseguirmos tirar a educação desta crise, podemos pelo menos permitir que ela respire, agindo como pudermos sobre esses pontos individuais, sem descuidar dos mais gerais. Porém, por ser uma crise grande, embora não totalmente paralisante, ela não pode ser resolvida de imediato e talvez nem num futuro próximo.

 

Referências bibliográficas.

 

ARENDT, H. Entre o passado e o futuro. Tradução de Mauro W. Barbosa de Almeida. São Paulo: Editora Perspectiva, 2000.

 

ARISTÓTELES. Metafísica. Tradução de Leonel Vallandro. Porto Alegre: Editora Globo, 1969.

 

DEMÓCRITO. Fragmento 31, in Os pré-socráticos: fragmentos, doxografia e comentários. Tradução de Paulo F. Flor. São Paulo: Nova Cultural, 1996.

 

IDEM. Fragmento 47, in ibidem.

 

1Arendt fala especificamente de uma crise ideológica que afeta vários campos, inclusive a educação. É uma crise “na” educação, no sentido de que ela vem de fora e afeta a educação. Não uma crise “da” educação, porque não se origina nela.

 

2ARENDT, página 226.

 

3ARENDT, página 223.

 

4ARENDT, página 235.

 

5ARENDT, página 243.

 

6ARENDT, páginas 237-238.

 

7DEMÓCRITO, página 307.

 

8ARENDT, página 223.

 

9ARENDT, página 228.

 

10ARENDT, página 233.

 

11ARENDT, página 229.

 

12ARENDT, página 231.

 

13ARENDT, páginas 230-231.

 

14DEMÓCRITO, página 305.

 

15ARENDT, página 225.

 

16ARISTÓTELES, Livro I, 981b, 5-10, página 38

 

17ARENDT, página 227.

 

18Esta não é uma expressão redundante; existe metafísica necessária. Mas é desnecessária neste caso porque os críticos estariam atacando uma ideia abstraída de elementos bem materiais. Logo, não é necessário fazer metafísica desse problema.

 

19Para Arendt, a raiz da crise que afeta esses vários campos, política, família e educação, é a forma como encaramos o passado, que levou à contestação do conceito de autoridade. A crise vem do ataque à autoridade nesses diversos campos. Eu não estou dizendo que Arendt pensa que é um problema exclusivamente político, mas que ela pensa que também é político e, com isso, estou de acordo.

 

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2 Comentários »

  1. […] A criança que passa de mãe para babá e de babá para babá recebe diferentes instruções, sem se aprofundar em nenhuma. Não está sendo bem educada. Pelo contrário, ela desenvolve um julgamento comparativo entre as instruções recebidas, dando-lhes um inconveniente sentimento de autoridade. […]

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    Pingback por Anotações sobre o Emílio. | Pedra, Papel e Tesoura. — 12 de dezembro de 2016 @ 21:07

  2. […] duvidar). O artigo que escrevi sobre o aspecto educacional da crise apontada por Arendt está aqui. Outro exemplo de falta de referência com desdobramentos, a meu ver, interessantes e talvez até […]

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    Pingback por Busca por atividades complementares: primeira semana. | Pedra, Papel e Tesoura. — 9 de abril de 2016 @ 15:16


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