Analecto

25 de maio de 2015

Anotações sobre a carta a Meneceu.

  • O valor da filosofia é aparentado com o da felicidade. Os jovens devem filosofar, tal como os velhos não devem parar de fazê-lo. Neste contexto, filosofar é procurar conhecimento.
  • Se estamos felizes, é como se tivéssemos tudo. Se estamos infelizes, fazemos de tudo para sermos felizes.
  • Ao contrário do que muitos pensam, Epicuro não era ateu. Mas ele era contra a concepção corrente de divindade. Para Epicuro, Deus é imortal e feliz. Só isso. Ele não precisa ser bom, nem presente, nem onipotente. De fato, se ele é onipotente e bom, por que não acaba com o mal? Se ele não acaba com o mal porque não quer, não é bom. Se ele não acaba com o mal porque não pode, não é onipotente. Esse é o sentido do enigma. O deus de Epicuro é apenas feliz e imortal, nada além disso.
  • Bem e mal residem nas sensações. A morte, então, não é um estado tão ruim, pois ela seria como que um sono eterno. Enquanto dorme, a pessoa não sente o mal. Então, a morte não é temível, embora não seja preferível à vida (justamente porque você não sente o bem).
  • Aceitar a morte como um sono igual aos sonos que temos cotidianamente permite a fruição plena da vida.
  • Nunca encontraremos a morte. De fato, nós perdemos a consciência antes de o corpo cessar completamente suas funções. Então a morte chega quando já “não estamos” e, quando estamos, é ela quem não está.
  • Não é porque temos de aproveitar a vida que o faremos irresponsavelmente.
  • O futuro é feito de probabilidade. Nada é certo, mas sempre podemos, com nossas ações, maximizar nossas chances de que algo bom aconteça. Pode ser que antes de eu morrer o ser humano já possa tornar-se imortal.
  • Prazer e dor são os princípios motrizes da ação humana. A vida feliz se inicia com o prazer, que é uma sensação de plenitude, um fechamento de um buraco causado por uma ausência, que provoca dor.
  • Isso não significa que devamos perseguir qualquer prazer! Devemos perseguir os prazeres que compensam, isto é, aqueles cuja fruição não nos leva a uma dor maior que o prazer. Da mesma forma, dores devem ser suportadas em prol de um maior prazer futuro. Isso é chamado por alguns de “cálculo do prazer”.
  • Água, comida, abrigo, lugar pra se aliviar… são coisas fáceis de achar. E elas são essenciais. Não é estranho que sejam justamente as coisas fúteis as que mais desejamos e as que são mais difíceis de conseguir, como a glória ou a riqueza? E o que é pior é que essas grandes coisas deixam uma dor proporcional quando se vão. Quer devastar uma pessoa? Permita-a ser rica por dez anos e depois tire tudo o que ela tem. Ela provavelmente não será capaz de se adaptar à pobreza novamente.
  • A intensidade do prazer depende da intensidade da dor que a pessoa sente. A comida mais sem graça é muito gostosa na boca de alguém mortalmente faminto.
  • É necessário abdicar de buscar os maiores prazeres da vida, que são os mais frívolos, porque viver modestamente nos treina para não sucumbir aos cuidados com a riqueza e nos permite tolerar com mais dignidade a pobreza.
  • Existe uma diferença entre o prazer epicurista e o prazer eufórico. O prazer que o epicurista busca é aquele que basta para cessar as dores da necessidade e da ausência. Ele não quer mais que o necessário para isso. Assim, nutrição, descanso, eliminação e coisas que tais devem ser sempre buscados. Variações desses, como formas específicas de sexo, comer muito ou comer bem podem ser buscadas na medida em que não trazem uma dor que não compensa. Mas prazeres totalmente artificiais não devem ser buscados. Isso bane riqueza, os banquetes, os haréns, os perfumes de marca, concertos musicais, cinema e fama. Nós poderíamos viver sem essas coisas fúteis, enquanto que a necessidade dos outros prazeres vem naturalmente e, se não satisfeitas, nos perturbam. Aliás, se usássemos essas coisas artificiais poderíamos até passar a depender delas, criando para nós mais necessidades!
  • A prudência é a mais alta das virtudes, segundo Epicuro, e ela tem, por si, mais valor que a própria filosofia.
  • Felicidade e virtude são inseparáveis. Aristóteles dirá que é possível ser feliz sem ser virtuoso, é só que a felicidade proporcionada pela prática da virtude é muito mais estável e durável. Para obtê-la, contudo, seria necessário encontrar prazer na prática virtuosa.
  • O sábio é a criatura mais feliz que existe.
  • Não existe destino.
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12 Comentários »

  1. […] possível receber um bem doloroso. É também opinião de Epicuro: a dor que resulta em benefício é boa. Além do mais, a beleza (prazer) de suportar um ato […]

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    Pingback por Anotações sobre a crítica da razão prática. | Pedra, Papel e Tesoura. — 22 de janeiro de 2017 @ 20:35

  2. […] inventou algo desnecessário: ele podia viver sem roupas até o instante em que as inventou. Só é necessário aquilo que nos mata se for […]

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    Pingback por Anotações sobre os fundamentos da desigualdade entre os homens. | Pedra, Papel e Tesoura. — 5 de janeiro de 2017 @ 21:52

  3. […] diz Rousseau. É preciso satisfazer as necessidades (nutrição, sono, eliminação) quando elas vêm, não quando elas não estão […]

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    Pingback por Anotações sobre o Emílio. | Pedra, Papel e Tesoura. — 12 de dezembro de 2016 @ 21:07

  4. […] Como o ser humano procura mais prazeres em relação ao sexo, ele está sujeito a mais frustrações. […]

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    Pingback por Anotações sobre o dicionário filosófico. | Pedra, Papel e Tesoura. — 27 de setembro de 2016 @ 14:19

  5. […] prazer e a dor guiam nossas ações. Nos aproximamos do prazer e nos afastamos da […]

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    Pingback por Anotações sobre o ensaio sobre o entendimento humano. | Pedra, Papel e Tesoura. — 17 de julho de 2016 @ 11:28

  6. […] Voltando ao texto, se assumimos Deus como sendo “aquele que está acima de tudo”, ou seja, como ser perfeito, então não é possível pensar que Deus não existe, porque, sendo perfeito, negar-lhe existência é contradizer seu conceito. “Deus não existe” passa a ser uma frase contraditória, na medida em que se admite Deus como perfeito, logo, como um ser ao qual nada de bom falta (incluindo existência). Outro problema desse argumento é que a definição de Deus não é unânime. […]

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    Pingback por Anotações sobre o proslogion. | Pedra, Papel e Tesoura. — 9 de julho de 2016 @ 11:30

  7. […] medo da morte nos impede de viver plenamente a vida. Essa é a condição humana. Todos os nossos […]

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    Pingback por Anotações sobre os pensamentos. | Pedra, Papel e Tesoura. — 8 de julho de 2016 @ 15:03

  8. […] são recompensadas e as más são punidas. Então, convém saber qual delas traz mais benefício. Epicuro dirá algo similar com o cálculo do […]

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  9. […] É possível ser sábio e jovem. […]

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  10. […] de Deus é o medo da morte. Eu comecei assim também, até que eu perder o medo por causa de Epicuro e Sócrates. Na verdade, acho que o temente a Deus só pode se dedicar a ele da forma como deveria […]

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    Pingback por As confissões. | Pedra, Papel e Tesoura. — 16 de julho de 2015 @ 19:36

  11. […] eu prefiro ler filosofia. Neste ano, li Tranquilidade da Alma, Pensamentos para Mim Mesmo, Carta a Meneceu e a Ética a Nicômaco. Ano passado, li Alcibíades I, Apologia de Sócrates, República, […]

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    Pingback por Carta trocada com um amigo. | Pedra, Papel e Tesoura. — 22 de junho de 2015 @ 09:54

  12. […] Diante de um sofrimento grande, é melhor morrer logo. […]

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    Pingback por A tranquilidade da alma. | Pedra, Papel e Tesoura. — 30 de maio de 2015 @ 12:19


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