Analecto

29 de maio de 2015

Tinham quatro filósofos à mesa: um católico, dois protestantes e eu…

23 E rejeita as questões loucas, e sem instrução, sabendo que produzem contendas.

Via 2 Timóteo 2 – Bíblia – acf.

Hoje, ocorreu uma greve geral dos ônibus na capital e a professora não veio dar aula. Então, eu fiquei conversando com três colegas de estudo. Uma delas, inclusive, ainda me deve o certificado da Semana de Hegel, que foi uma decepção.

As duas meninas eram protestantes, eu sou eu mesmo, e o outro menino era católico. Questões religiosas estavam destinadas a acontecer. Eu acompanhei o debate entre os dois lados da mesa (uma das protestantes não apenas leu a Bíblia inteira, ela também é graduada em teologia) com bastante interesse, como uma oportunidade de conhecer os dois lados da mesma história.

Uma coisa interessante que o católico falou foi que Deus não se revela apenas por meio da Bíblia, mas também através da tradição da igreja. Isso significa que o percurso da Igreja Católica revelaria, para o católico, parte da vontade de Deus. Isso é facilmente refutável, porque é contraditório que um Deus de amor tenha pactuado com o Nazismo.

Por outro lado, o lado protestante também não foi muito bem, embora tenha ido até melhor que o católico, porque a mocinha parece pecar em conhecimento bíblico, mais especificamente, ofendendo outras traduções bíblicas por razões inexistentes. Ela ofendeu principalmente a Tradução do Novo Mundo da Bíblia Sagrada, além de que ela parece cheia de preconceitos contra as testemunhas de Jeová. Por exemplo, de que as testemunhas seguem a lei do Antigo Testamento e usam o nome de Cristo como meio de atrair fiéis. Ela também crê que as testemunhas de Jeová pregam que Jesus não ressuscitou.

Ela parece ter problemas em levar a discussão na esportiva, inclusive dizendo para sua colega que devemos “ensinar o tolo em sua tolice”, o que eu vi como uma falta de respeito ao católico que, apesar de nervoso, estava se defendendo como podia sem causar ofensas.

Enquanto a discussão prosseguia, o católico falou que não deveríamos racionalizar certos pontos da fé, porque a razão e a fé são coisas díspares. Eu concordo; sempre achei que o crente deveria crer, logo, mesmo quando a revelação nos prescreve uma moral que não entendemos, não deveríamos procurar racionalizar aquilo, porque isso poderia causar uma interpretação deturpada. Além disso, as histórias bíblicas são difíceis de racionalizar, então o religioso deve comprá-las cegamente. Isso inclui a separação do Mar Vermelho, o dilúvio, o Éden e todas as outras coisas difíceis de acreditar.

Mas o problema surge quando o católico diz que o Papa, como infalível, também produz coisas que deveríamos acreditar cegamente. Isso é um pouco perigoso.

A discussão não ia chegar a lugar algum (aliás, iria degenerar) e, depois que eu tentei amenizar as coisas dizendo que ambos estavam usando doutrinas incompatíveis e que aquela discussão era infrutífera, mas sem sucesso, resolvi ir embora antes que eu tivesse que segurar a teóloga ou consolar o católico.

De fato, a fé é um sentimento, não é racional. Mas a doutrina não precisa ser seguida unicamente com fé, ela também pode ser seguida racionalmente. Se a doutrina permitisse apenas a fé, não deveríamos estudar a Bíblia, apenas crer. A minha crença sincera é a de que devemos ser racionais até onde pudermos e aguardarmos a fé para coisas as quais achamos úteis ou construtivas, mas que não encontram em nós bases racionais.

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3 Comentários »

  1. […] uma ciência exata. Isso mostra que a teologia é desnecessária. Na verdade, o apóstolo Paulo admoestava contra discussões sem sentido, que são a marca das discussões teológicas da Idade Média e da […]

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    Pingback por Elogio da loucura. | Pedra, Papel e Tesoura. — 6 de dezembro de 2015 @ 17:36

  2. Excelente post. E concordo contigo.

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    Comentário por Bruno Antunes — 2 de junho de 2015 @ 21:47


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