Analecto

21 de julho de 2015

Teologia mística.

  1. Quanto mais nos elevamos a Deus pelo êxtase religioso, mais escassas ficam as palavras. O ponto alto é como a mudez. Novamente, isso para Pseudo-Dionísio; esse é um pensamento do qual não compartilho.
  2. Existem dois tipos de teologia: uma teologia que atribui coisas a Deus (uma teologia positiva) e que lhe agrega definições, como bom, belo e justo; e uma teologia que abdica de palavras na descrição de Deus (uma teologia negativa, mas não em sentido de “ruim”) e que confessa que Deus não pode ser pensado e, portanto, não pode ser dito, apesar de sua existência ser atestada pelo êxtase. Um pré-socrático não iria aceitar isso, algo que existe, mas que não é conhecível, nem mencionável, isso porque eles procuravam “seres”. A teologia negativa parece mais condizente com o pensamento de Pseudo-Dionísio até agora.
  3. As escrituras cristãs escondem verdades muito elevadas que só podem ser alcançadas, nem pela razão, mas unicamente pelo êxtase. Essas verdades, ou melhor, mistérios, não são acessíveis pelos sentidos. Primeira vez, em meu estudo pessoal, que me deparo com o êxtase como forma de cognição.
  4. Para Pseudo-Dionísio, os “não iniciados” não devem saber desse lance de êxtase. Como essa é uma forma de conhecimento que não pode ser descrita em palavras, ou seja, deve ser experimentada, aqueles que buscam os “seres” (ou seja, os filósofos, que tentam alcançar as verdades ocultas através da razão) não seriam capazes de entendê-la, uma vez que aquilo que não usa palavras ou signos de alguma natureza não é passível de nenhum tipo de processamento mental. Então, os que têm a razão em alta conta não são capazes de compreender o êxtase.
  5. Pseudo-Dionísio chama o abandono da razão e dos sentidos de “entrada na bruma”. É pisar no escuro completo. Alcançar o êxtase requer que o indivíduo se torne como um cego, que caminha em escuridão profunda, sendo levado por alguma coisa para algum lugar que ele não conhece nem poderá jamais conhecer, mas apenas “sentir”, por falta de uma expressão melhor.
  6. O exemplo de alguém que fez isso: Moisés. Isso para Pseudo-Dionísio. Eu não identifico em Moisés uma experiência de êxtase, porque a Bíblia diz que ele viu Deus. Se ele viu, então foi uma experiência sensorial.
  7. A menos, é claro, que Moisés, compelido a escrever, se viu obrigado a usar a palavra “visão” para descrever aquilo que não pode ser descrito com palavras, por não ser racional ou sensorial.
  8. O que alcança o êxtase deve se separar dos que não o alcançaram para que sua experiência não seja perturbada.
  9. Para Pseudo-Dionísio, não é possível afirmar nada sobre Deus, porque nenhum dos conceitos que temos em mente serve para descrevê-lo se não por via negativa. Logo, sobre Deus só é possível fazer negações, ou seja, só é possível dizer o que Deus não é. Aqui, eu identifico uma contradição: a existência também é um conceito mental. Então, eu não posso sequer afirmar que Deus existe? Mas ele também diz que Deus, embora não seja um ser, nem tampouco é um não-ser, que é um conceito! Seria essa doutrina impossível? Novamente, esse é um raciocínio e, para Pseudo-Dionísio, Deus está acima de qualquer raciocínio, lá, em suas brumas. Talvez seja por isso que ele disse que os que têm a razão em alta conta não podem saber da doutrina do êxtase, porque poderiam tentar negar Deus usando a própria teologia negativa. É difícil compreender esse texto se ele está falando de algo indescritível e existente usando palavras que sugerem ausências. Ele poderia simplesmente estar errado. Mas como saber, se seu ponto contraditório é apontado pela minha razão? Só entrando em êxtase para conferir.
  10. Esse texto tem uma forte carga agnóstica. Deus existe, mas não se pode conhecê-lo (posto que conhecimento é ter razão).
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