Analecto

19 de julho de 2015

Breve estudo sobre a dialética.

Filed under: Livros, Organizações, Passatempos — Tags:, , , — Yure @ 10:46

Atenção professores de filosofia social e política, este trabalho foi escrito por Yure! Se você vir este trabalho em sua mesa com correção pendente e assinado por Yure, somos a mesma pessoa!

Antigamente, quando eu estudava alguma coisa propriamente filosófica para a universidade, eu colocava aqui meu processo de pensamento, pra ajudar a fixar o que eu li. Ontem, eu li sobre a dialética, de Herbert Marcuse, e entendi algumas coisas, mas acho que eu entenderia mais se eu lesse com intenção de fazer anotações. Então, farei as tais anotações aqui, como se estivesse redigindo um texto de seminário.
Marcuse se funda em três pensadores para construir seu próprio pensamento: Hegel, Marx e Freud.
Seu texto começa com a elucidação de sua proposta: a revitalização do pensamento negativo. Pensamento negativo, aqui, não se refere ao pessimismo, mas ao pensamento que traz em si a negação, uma categoria central da dialética hegeliana.
Na dialética hegeliana, o pensamento passa por três estágios necessários: aquilo que algo é, aquilo que algo não é, aquilo que algo pode ser. Tese, antítese, síntese. Ser, não-ser, vir-a-ser. Esse movimento orienta não apenas o pensamento, mas outras coisas também. Alguns dizem que ele é uma “lei da história”, como a gravidade é uma lei da física. Então, o pensar negativo é aquele que traz o segundo passo do pensamento, aquele que nega aquilo que existe, que diz que está errado, que não se conforma, é um estágio necessário para que possamos mudar aquilo que está diante de nós. Por isso, Hegel diz que pensar é negar o óbvio. Se aceitamos e nos adequamos ao óbvio, à aparência, não tem sentido pensar.
Para Marcuse, a filosofia surge como uma recusa ao senso comum, à ciência e até à religião. É aquela sensação, aquela postura, aquele encantamento que têm as pessoas que dizem que o senso comum, a ciência ou a religião não estão de pleno acordo com a realidade. Isto é, elas não descrevem a realidade como ela é de fato. Como pode a guerra ser condição de possibilidade para a paz? Como pode a ciência ser libertária se ela é escrava de fundos muitas vezes estatais? Como a igreja do Deus de amor cobra seus fiéis em dinheiro pelo perdão de seus pecados? O mundo, para Marcuse, é cheio de contradições e a filosofia deve apontá-los. É nesse sentido que ela é pensamento negativo, um saber que julga. Ela mostra aquilo que o mundo não é, para pavimentar a estrada ao mundo que este poderia ser, enquanto a religião, a ciência e o senso comum se conformam em dizer como o mundo é e muitas vezes negar que ele é contraditório. Então, o pensamento negativo é, na verdade, uma atividade positiva.
Nesse sentido, Marcuse parece discordar de Marx, quando este diz no fim das suas teses sobre Feuerbach que os filósofos já despenderam tempo o bastante nos dizendo como o mundo é e que agora nós devemos transformá-lo, mas essa parece ser uma discordância que só surge quando se interpreta esse passo como uma alusão ao papel da ciência como saber transformador. Se Marx, quando escreveu essas linhas finais, se referia mesmo à ciência como saber transformador, então Marcuse realmente está discordando dele.

E se a filosofia é uma disciplina tão importante, já que ficou evidenciado que ela é responsável pelo devir do saber, por que o mundo a odeia? Porque a filosofia vai devagar, ela pensa, discute, antes de se pronunciar sobre as coisas. O mundo é rápido, é um mundo de ação. É muito simples manter o mundo estável, mesmo quando essa não é uma estabilidade saudável, se você mina o tempo para pensar. Mesmo quando temos o tempo para pensar, não o fazemos filosoficamente, porque a ciência e a tecnologia avançaram bastante e conseguiram resultados assombrosos, de forma que todos estão apostando suas fichas na ciência como grande salvadora da humanidade. Mas um fenômeno interessante é que a ciência falha em nos dar significado, como aponta Husserl, ela não responde perguntas fundamentais do ser humano. Fica então a sensação de que essas são perguntas ultrapassadas, talvez sem qualquer resposta, se a ciência não puder dá-las. Afinal, responder essas perguntas requer esforço filosófico, algo que ninguém mais tem tempo para fazer.

Mas e quanto às mudanças que ocorrem dentro da nossa lógica capitalista ocidental? Não contam elas como devir? Para Marcuse, essas são revoluções que realmente não mudam nada. Tal como Mészáros, ele diz que essas mudanças rápidas e constantes pelas quais nosso mundo passa são manifestações de conservadorismo, não de revolução, porque elas procuram manter as coisas como são. Elas procuram “consertar” o sistema, em vez de substitui-lo. Mas ver essas coisas requer que as pessoas andem devagar, que considerem a totalidade dos fatos, não fatos isolados, muitas vezes extirpados de seu valor.

Para Hegel, realidade é guerra. Se está em movimento, vive. Quando há repouso, há morte. A vida é conflito entre o ser e o não-ser, é devir. Cessa-se o devir, cessa-se a vida. Isso é válido para a natureza, com as espécies em guerra entre si, com as plantas que crescem com a morte de um animal e, ironicamente, quando uma pedra opõe sua dureza à água que cai. Não haveria necessidade de desejar manter nosso estado se não houvessem forças que lutam pela sua mudança. Assim prossegue a vida. Se a natureza muda, mas não muda aquele em que nela vive (nós), esse repouso e estabilidade se torna causa de sofrimento, dor e morte. As coisas estão mudando, dentro de nós e fora de nós, nosso modo de vida então não pode permanecer o mesmo. A filosofia ainda é necessária, se ela realmente é o saber que proporciona a mudança do gênero humano. Isso porque a realidade não é somente o fato. Os fatos podem até estar no meio da realidade, mas as possibilidades periféricas que se aproximam e ameaçam esse núcleo factual também são reais. Simplesmente narrar os fatos e descrever as coisas como são no agora é uma falsificação da realidade, porque omite as possibilidades, omite os não-seres, omite aquilo que ainda não veio ou aquilo que poderia vir. E omitindo essas coisas, temos a falácia oportuna de que aquilo que é não pode mudar e isso é falso, porque fala-se aqui de uma realidade mutilada. Diz Marcuse, tendo como base Mallarmé, que o “ausente precisa ser feito presente, porque grande parte da verdade está naquilo que está ausente”. A filosofia não se contenta em dizer como somos, mas como não somos, para que sejamos livres e sejamos o que desejamos.

E isso é algo que não somos. Não somos livres. Fomos alienados, estamos distantes do que somos propriamente. Para Marcuse, uma lógica que não considera essa alienação é “defeituosa”. De acordo com Mészáros, uma das coisas que causa essa alienação (e com isso Marcuse poderia concordar) é a separação entre trabalho do pensar e trabalho do fazer. Aqueles que têm tempo para pensar escrevem livros, artigos em revistas e outras literaturas que aqueles que fazem, ou seja, os trabalhadores, não têm tempo nem interesse de ler! Isso poderia ser superado com a união entre o trabalho do fazer e o do pensar, tornando o pensador também um técnico e um técnico também um pensador. Isso trabalharia também pela liberdade, mas esse ainda é um processo que não começou, que ainda está ausente, e que só foi pensado pela teoria. Isso exemplifica o que Marcuse quis dizer com “a teoria pode ajudar a preparar a fundação para sua [isto é, do pensamento e da ação] possível reunião”. Com esse fato apontado pela filosofia, já podemos dizer o que queremos ser: livres. A razão é o ponto alto do processo dialético filosófico, ela é a negação da negação, em termos hegelianos. Agora que sabemos o que não somos, sabemos o que queremos nos tornar. Alcançar a razão requer que choquemos aquilo que é (informação dada pelo senso comum, ciência, religião) com aquilo que não é, ou seja, é um esforço filosófico. Para Marcuse, a filosofia que não age dessa forma é simples exercício mental ou justificação ideológica.

Mas é importante saber que o conceito de razão hoje é questionável, já que a razão é comumente identificada com conhecimento e o conhecimento nos permitiu coisas horrendas, como armas nucleares. E é aí que Marcuse discorda de Hegel: este diz que a razão é o todo, além do bem e do mal, enquanto aquele diz que a razão é uma parte do todo. Isso não significa que a razão é de todo má, mas que ela tem limites e que ela pode corrigir a si própria. E isso ocorre pela negação posterior, depois que alcançamos a razão e ela se torna status quo, ou seja, quando a razão almejada torna-se fato e pode ser negada posteriormente. O poder de mudança proporcionado pelo pensamento negativo parece mesmo ser infinito e altamente destrutivo, por isso está no interesse da nossa sociedade que prima pela conservação do sistema vigente que esse tipo de pensamento permaneça longe de todos. E para isso, “os fatos” usam todos os artifícios possíveis, que apenas mostram como já é hora de mudar. Alguns artifícios são a destruição atômica (para eliminar Estados beligerantes e que trazem esse pensamento), o desperdício de recursos (em uma lucrativa obsolescência programada, na qual os produtos não são feitos para durarem apenas para que o cliente compre outro exemplar do produto), o empobrecimento mental (para que o pensamento negativo não desperte no próprio Estado) e a força bruta (para reprimir ações que causem comoção).

Terminado. Caso o professor me surpreenda com um seminário súbito, é melhor eu ter isto impresso.

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