Analecto

24 de outubro de 2015

Vaporwave.

No último fim de semana, eu estava ouvindo o de sempre, e uma música estranha cheia de caracteres japoneses apareceu nos vídeos sugeridos.

O nome Macintosh apelou a mim. Pensei que fosse uma ou mais músicas feitas com um computador antigo e, no começo, pareceu que fosse um tipo de sequência ou música com amostras de baixa profundidade. Mas, conforme a música progredia, a profundidade das amostras aumentava e ficou claro que a música não era feita em um computador antigo como eu pensei, mas eu continuei ouvindo.

Muito boa a música. Porém, algo parecia errado ou, ao menos, diferente. A música repetia partes suaves com frequência quase nauseante e eu comecei a me sentir extremamente calmo. Além disso, da metade pra lá, o cuidado na concatenação de amostras começa a desaparecer, como se fosse um disco arranhado. De repente, no final, como se eu já não estivesse calmo o bastante, uma amostra da música em andamento consideravelmente mais baixo foi sobreposta à faixa principal, que começou a desaparecer em favor da amostra lesada. De repente, tudo ficou muito devagar, quase depressivo, e eu fui deixado com uma sensação formigando ao longo de todo o espírito.

Repeti a música o dia inteiro por dois dias e, quando fui pra aula de monografia, eu estava em uma profunda tranquilidade. Meu humor estava constantemente calmo e nada me perturbava. Foi radical.

Depois, pensei em procurar mais sobre aquela música e essa tal Macintosh Plus e vi que se tratava de um gênero da nova década de dez chamado vapor-wave e que, para alguns, tem conotações anti-capitalistas, embora isso pareça ser desmentido por autores do próprio gênero. A acusação de conotação anti-capitalista, embora não necessariamente comunista ou socialista, vem da estética construída ao redor da música, que é reminiscente dos anúncios utilizados nos anos oitenta e noventa, mas oferecidas de forma desagradável, como se o progresso econômico fosse desagradável. Isso aliado ao uso de amostras de músicas antigas editadas para tornarem-se deprimentes e desconfortáveis parece sugerir que os artistas estão dizendo: “as promessas feitas pela economia não se cumpriram e nunca estivemos tão infelizes, basta comparar o que se professava no passado com o que temos agora.” Mas essa é uma opinião que não é partilhada por todos, o que inclui a própria Macintosh Plus.

Político ou não, estou curtindo.

http://www.youtube.com/watch?v=cCq0P509UL4

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17 de outubro de 2015

Nem acredito.

Filed under: Organizações — Tags:, , , , , — Yure @ 22:48

Este é o último semestre do meu curso de filosofia. Me custa acreditar que estou para terminar. Quando eu fiz os pedidos, orei para que eles fossem atendidos e foram, de fato, atendidos. Obrigado, Senhor, pela resposta! Quem dera eu poder pronunciar seu nome direito, espero que não se importe em eu usar Iavé ou Jeová.

Bom, eu preciso de cento e oitenta e oito créditos para terminar o curso, além de defender minha monografia, obter retorno dos estágios e, claro, juntar doze créditos em atividades extracurriculares, que é o que me preocupa no momento. Porém, em dois anos, juntei quase a quantidade de créditos necessários nesse ponto (equivale a duzentas e quatro horas, das quais tenho umas cento e oitenta). Dá para obter o resto das horas até o mês que vem, espero.

Para me ajudar a obter mais créditos, inclui também uma optativa, apesar de eu já ter dezesseis créditos de optativas.

1 de outubro de 2015

Atração por menores: guia para iniciantes.

“Pessoa atraída por menores” é qualquer um com interesse romântico ou sexual por pessoas abaixo da idade de consentimento. A categoria é larga o bastante para incluir os próprios menores, se estes desenvolverem sentimentos e práticas que podem ser consideradas sexuais no trato geral entre si. Porém, esta categoria é muito nova e a maioria das pessoas não vê a diferença entre atração por menores e pedofilia, a qual é, por si própria, carregada com grandes quantidades de estigma. Por causa disso, a autoestima das pessoas atraídas por menores é severamente prejudicada, elas se escondem e desenvolvem ódio de si próprias. Mas é importante que a pessoa atraída por menores entenda que ela não é uma ameaça a menores, que sua atração é normal em outros lugares do mundo e que, pondo as coisas desta forma, atração por menores não é uma doença em si, mas é tornada tal pela sociedade. Isso deve ajudar pessoas atraídas por menores a aceitar a si mesmas de todo o coração, a ver a idade de consentimento como um fenômeno passivo de mudança, a melhorar o autoconhecimento e apontar para ajuda, se esta for necessária.

Introdução.1

Um dia, em maio de 2017, eu tive uma conversa sobre pedofilia com um amigo e pensei em fazer uma pesquisa. Vi coisas extremamente perturbadoras que me deixaram ansioso por dias. Porém, quando eu sinto ansiedade, o sentimento não para enquanto eu não me torno informado no assunto, para que eu possa encontrar um meio de acalmar esses sentimentos e dar minha opinião sobre eles. Por dias, a pesquisa na Internet me trouxe mais dor. Eu percebi que nem todos que tinham sentimentos sexuais em relação a crianças lidavam bem com eles e eu rapidamente percebi que a mídia tinha um papel em propagar esse medo na sociedade, em vez de informação real, ao ponto de pedófilos, eles próprios, que nunca tiveram problemas com seus sentimentos e viviam sob a lei, ficarem em dúvida sobre quanto controle tinham sobre o sentimento. “É uma visão de mundo extremamente malsã”, pensei, “porque te faz pensar que você não tem controle total de si mesmo.”

Mas finalmente, encontrei algumas coisas que puderam reduzir minha ansiedade e me recobrar a sanidade perdida naquele mês. Mídia não é um bom lugar pra procurar por essas coisas e eu precisava de algo mais fatual como a ciência ou a filosofia. Aprendi que pedófilos são apenas um tipo de “pessoa atraída por menores” e que há outros que têm esses sentimentos relacionados a outras faixas etárias. Aprendi que há menores que estão insatisfeitos com sua situação, sobre a existência de relatos positivos ao redor do mundo e evidência estatística reprimida. Isso, combinado com as experiências horríveis que eu tive em maio, me fizeram perceber que atração por menores não é uma doença em si, mas é tornada tal pela sociedade, não importando se a pessoa atraída por menores é pedófila ou não.

O propósito deste documento é colocar toda a informação necessária para autoaceitação em um lugar só, para que a pessoa que perceba que tem sentimentos em relação a pessoas abaixo da idade de consentimento não tenha que passar por todas as dores que passei. A primeira seção tenta definir o que é uma pessoa atraída por menores e diferi-la do pedófilo (os conceitos não são mutuamente excludentes). A segunda seção lida com o objeto da atração, seu status de ilegalidade e o verdadeiro dano que agir segundo o impulso poderia causar, sem exageros. A terceira seção é sobre o que fazer quando você sabe o que você é.

Atração por menores explicada.

“Menor”, neste contexto, é alguém abaixo da idade de consentimento. A menos que a idade de consentimento onde você viva seja dezoito,2 não estou me referindo a alguém abaixo da maioridade legal. Então, ter uma atração por menores é ter sentimentos românticos ou sexuais voltados a pessoas tidas por muito fracas ou muito desinformadas para consentir com uma relação sexual. As causas para tal atração são desconhecidas. Por algum tempo, as pessoas creram que ser abusado na infância causava pedofilia,3 por exemplo, mas hoje, nós sabemos que assumir isso é errado. Não há ligação necessária entre ter um encontro sexual com um adulto durante a infância e se tornar um adulto atraído por menores ao crescer.4 A ciência está mais inclinada em tratar a atração por menores em geral e a pedofilia em particular como uma orientação sexual: tem raízes profundas, provavelmente nunca mudará e você certamente nasceu já codificado para se desenvolver dessa forma.5 Lutar contra isso é inútil.6

Por outro lado, considerando que os próprios menores também se sentem atraídos por outros menores os quais também estão abaixo da idade de consentimento, examinar suas relações nos faz pensar se estar atraído por um menor é sempre ruim. Há sempre dano?7 Não existem pessoas sussurrando que a idade de consentimento está impedindo menores de criar relações construtivas?8 A maioria dos adultos atraídos por menores foi um menor atraído por menores, naturalmente. A natureza do sentimento, contudo, permanece a mesma.

Quem qualifica?

Se você está apaixonado por alguém abaixo da idade de consentimento, você qualifica, não importando se você também está abaixo da idade de consentimento ou acima. Se você é menor, então sua atração é mais aceitável socialmente, mas, ainda assim, ilegal. Se você é adulto, você provavelmente tem que esconder isso da sociedade. Você pode negar ou se justificar, mas a atração ainda está lá e você não pode fingir para si mesmo que ela não existe.

Embora o romance seja grande parte desses sentimentos, a sexualidade tem um papel decisivo em tornar essa atração socialmente reprovável. Se você mesmo é um menor e é pego tendo essa intimidade com outro menor, alguém pode invadir a relação e dizer que você não sabe o que está fazendo, que não sabe das consequências e coisas dessa natureza.9 Em outros países, você poderia ser registrado numa lista privada de ofensores sexuais, apenas para ter seu nome na lista pública quando você atingisse a maioridade.10 Se você é adulto, talvez você seja visto como um monstro manipulador se você agir segundo o impulso e, mesmo que você não aja, as pessoas podem assumir que você é uma “bomba-relógio”. Mas muitos adultos atraídos por menores não agem segundo o impulso nem quebram a lei.11

Menores.

Menores por vezes são atraídos por outros menores, o que é tão somente natural. Mas leis de idade de consentimento podem posar um problema para esse tipo de relação. Por causa de sua natureza desafiadora, alguns menores podem agir segundo o impulso e ter relações antes da idade de consentimento e isso acontece com frequência, apesar de ser ilegal.12

Enquanto essas relações são mais socialmente aceitáveis, essa aceitação não as torna livre de riscos. Dependendo de sua criação religiosa ou política, você, como menor, pode enfrentar alguns problemas vindos de seus pais. Se seus pais forem radicais, o incidente pode escalar a consequências injustas. Mesmo que não haja lei que proíba o amor, cruzar a linha entre o que é sexual e o que não é pode colocar você e seu amado em problemas, especialmente se tal linha não é nitidamente desenhada.13 Por causa disso, é altamente desaconselhado agir segundo o impulso, mesmo sendo também menor de idade, pois, mesmo na ausência de consequências físicas, ainda há risco de consequências sociais.14

Adultos.

Se você for um adulto atraído por menores, há uma boa chance de você ser pedófilo. Antes que você se assuste, é preciso ver se você não é outra coisa antes. “Pedófilo” é alguém que tem preferência sexual por crianças antes da puberdade. Se o foco de sua atração é outra faixa etária, você tem outra cronofilia.15 É importante enfatizar que uma cronofilia é uma preferência sexual ou exclusividade: se você se sentiu atraído por uma criança em algum momento de sua vida, mas sua preferência são mulheres adultas, você não é pedófilo. Isso quer dizer que se sentir atraído por uma criança não torna você pedófilo automaticamente, se for algo que aconteceu só uma vez ou se sua atração por adultos é mais forte.

Se você é atraído por recém-nascidos ou bebês que ainda não aprenderam a falar, você é “nepiófilo”. Se você é atraído por crianças pré-púberes, você é “pedófilo”. Se você é atraído por crianças ou adolescentes que estão passando pela puberdade, você é “hebéfilo”. Se você é atraído por pessoas que concluíram a puberdade, mas que ainda não são adultas, você é “efebófilo”. Se você é atraído por adultos, você é “teleiófilo”. Há outras cronofilias relacionadas a pessoas de meia-idade e idosos.16 Inclui teleiofilia neste documento porque a idade de consentimento em alguns países é vinte e um, de forma que algumas relações, mesmo com indivíduos de dezoito anos, são ilegais nesses territórios.17

Nenhuma cronofilia automaticamente te torna doente. Por exemplo: por muito tempo, pedofilia foi listada tanto no DSM quanto no CID,18 mas nenhum manual fazia referência a outras cronofilias. Recentemente, houve uma tentativa de incluir hebefilia no DSM, mas a proposta foi, em última instância, rejeitada.19 Uma razão importante para tanto é que hebefilia poderia ainda terminar em reprodução sexual.20 Há lugares no mundo onde essas cronofilias não são consideradas anormais e, apesar disso, você não ouve muito de abuso sexual de menores nesses lugares.21 Estranhamente, os locais com mais casos de abuso sexual de menores são exatamente cinco dos países com as mais altas idades de consentimento, onde esses comportamentos são tidos por doentios.22 Atualmente, o DSM não lista “pedofilia”, mas “desordem pedofílica”, significando que, contanto que você não cometa atos ilegais e não se sinta mal com os sentimentos que tem, você não tem um problema mental. Desde que você se aceite e não quebre nenhuma lei, você não está doente.23

Sou pedófilo?

Se você agora tem certeza de que é pedófilo, você provavelmente está assustado e confuso. Porém, pense em sua vida até agora. Foi difícil? Você machucou alguém? Poderia ser diferente? Não é assim que você sempre foi? Você está provavelmente se preocupando a toa. Não te culpo por isso. A mídia propaga ideias sobre você, alimentando preconceito sob o pretexto de informar. As pessoas acreditam estar totalmente informadas sobre a pedofilia sem nunca terem conversado com um pedófilo sequer. Na verdade, elas são desencorajadas a isso, porque acreditam que pedófilos são todos perigosos. O problema é que “pedófilos potenciais” recebem essa informação também e a internalizam. Daí, quando percebem que eles próprios também são pedófilos, acabam fazendo uma ideia errada do que pedofilia realmente é, apesar de senti-la na pele. Você é levado a crer que você é algo que, na verdade, não é.

Para ajudar a superar esse problema, você deve considerar dois pedaços de informação. O primeiro é que pedofilia não é apenas relações entre adulto e criança. Na verdade, a ideia de penetrar uma criança provavelmente te deixa um pouco enjoado. É um sentimento comum entre pedófilos. Eles se apaixonam pela criança. Quando você está apaixonado, você não quer machucar e é por isso que ofensas sexuais feitas por pedófilos são geralmente não penetrativas e não forçadas (apesar de serem ilegais e todos os atos terem consequências, o que significa que você é aconselhado a não praticar relações sexuais com menores mesmo que você saiba que não os prejudicaria se o fizesse). Para muitos pedófilos, amar a criança é o ponto principal, com o aspecto sexual sendo completamente secundário, mas a associação da pedofilia com palavras como “forte”, “pressionante” ou “urgente” podem te fazer pensar que é muito difícil permanecer abstinente.24 Isso significa que seu trato com crianças não necessariamente desenvolverá um aspecto sexual, mas você é levado a pensar que desenvolverá, o que não é verdade e me leva ao meu segundo ponto: maior parte dos abusadores sexuais de crianças não são pedófilos.25

Quando você ama alguém, você não quer machucar. Então, se você ouvir que um “pedófilo estuprou uma criança”, pode ter certeza de que a mídia está desinformada, mentindo ou falando de uma minoria. Você não deve deixar que a mídia diga a você quem você é, nem a que você deve se sentir atraído. Com a mídia repetindo que pedófilos são estupradores de crianças, ao passo que usa essas palavras alternadamente, essas sentenças podem muito bem ser internalizadas: a significativa “pedofilia” é reduzida a sinônimo de “fetiche por crianças”. A mídia encoraja você a ver pedofilia somente em termos sexuais e a ver o aspecto sexual sob um viés desproporcionalmente negativo, associando-o com coerção, dor e trauma. O amor é deixado de fora da notícia, apesar de existir. Há um conflito entre você e o monstro que dizem que você é.26 Não deixe ninguém te dizer como se sentir.

Entenda que pedofilia é um amor por crianças. Você pode sentir seu aspecto sexual, mas lembre que você não precisa agir segundo o impulso, que você deve permanecer dentro da lei e que a sua sexualidade não invalida o amor que você sente. Se você ama, não machucará. Você não é um monstro.

É esta atração sã?

Discutimos atração por menores em seu aspecto pessoal até agora, o que ela significa para os próprios menores e para adultos. Mas agora devemos avaliar se a atração é sã ou não. Relações abaixo da idade de consentimento, mesmo se você também estiver abaixo da idade de consentimento, são ilegais e podem resultar em processos jurídicos. Mas será que elas são danosas ou imorais por definição?

Faço essa pergunta porque autoaceitação é muito mais difícil se não considerarmos isso. É como dizer “tudo bem você se sentir atraído por algo errado”. É difícil se sentir bem consigo próprio sem considerar esse elemento. Temos que encarar as consequências e os fatos concernentes a relações envolvendo pessoas abaixo da idade de consentimento.

Numa configuração democrática, todos sabemos que leis mudam.27 Por causa disso, considerar outros aspectos de relações com menores, fora a ilegalidade, pode nos ajudar a avaliar se idade de consentimento precisa existir e, se precisar, se ela deve ser menor, maior ou permanecer do jeito que está. Todas as pessoas atraídas por menores deveriam considerar esse problema com responsabilidade, especialmente se foram adultas, porque menores frequentemente não podem votar.28 Então, se você chegar à conclusão de que essas leis prejudicam os menores, você deveria ser sua voz. Como adulto, você é responsável por fazer aquilo que está no melhor interesse do menor e você não saberá o que está no melhor interesse do menor sem ouvi-lo. Veja o que eles pensam dessas leis. Se você chegar à conclusão de que remover essas leis prejudicaria os menores, você também deve vocalizar esse pensamento. Em todo caso, os próprios menores devem também participar do debate, já que é uma lei sobre eles e discuti-la é um exercício de consciência política.

Você não precisa agir segundo o impulso.

Antes de prosseguir, é importante lembrar que ser atraído por menores não significa que você invariavelmente quebrará a lei. Pessoas heterossexuais, por exemplo, não pulam sobre qualquer adulto do sexo oposto. Além disso, teleiófilos levam vidas celibatárias por razões religiosas. Se alguém pode ficar abstinente por medo de uma punição na pós-vida, não vejo por que uma pessoa não pode ficar abstinente por medo de punição nesta vida.

Sua atração sexual é como qualquer outra. Ela tem elementos românticos e pode ser platônica.29 Ela não se resume a prazer e avanços sexuais. Com isso em mente, é bem mais fácil encarar atração por menores com indiferença, ao passo que isso não te impede de participar num debate honesto sobre a própria atração ou seu objeto, nem de ter fantasias.

Idade de consentimento muda.

Idade de consentimento nem sempre existiu, nem sempre foi tão baixa ou tão alta, pode ser bem mais alta ou bem mais baixa e não há acordo sobre em qual idade alguém pode consentir com intimidade sexual. Essa idade pode ser no mínimo doze e no máximo vinte e um, com alguns lugares não tendo nenhuma idade de consentimento, mas usando outras condições como puberdade ou casamento.30 Historicamente, o menor registro de idade de consentimento é sete anos. E há propostas em outros países de aumentar para vinte e cinco.

Idade de consentimento é uma lei. Não é natural, mas um costume social. Ela pode mudar no futuro para maior ou menor. Ela pode deixar de existir.31 Assim, por causa da natureza artificial da idade de consentimento, ela não torna você automaticamente doente, nem torna sua atração doente. Ela também não torna as relações que você deseja automaticamente prejudiciais também, mas não tornam benéficas todas as relações legais. Nem todas as relações nas quais se entra depois de vinte e um anos são saudáveis, benéficas ou sem exploração. Se a lei muda, porque os legisladores podem perceber que estavam errados, a lei não pode tornar nada doentio por seu capricho.32 Então, entenda que uma restrição legal não te torna uma má pessoa. Mas quebrar tal restrição ainda te torna criminoso.

Dano e relatos positivos.

Não importa de qual lado você está no problema do contato,33 você ainda deve considerar duas coisas sobre relações abaixo da idade de consentimento a fim de entender corretamente o problema em mãos e assegurar sua posição no assunto: dano e benefício. Então, para avaliar se atração por menores é sã ou não, ainda devemos considerar os fatos concernentes à atração se o impulso é seguido.

Em 1998, um trio de pesquisadores lançou A Meta-Analytic Examination of Assumed Properties of Child Sexual Abuse Using College Samples, um estudo que concluiu que 70% dos contatos sexuais feitos antes da idade de consentimento nos Estados Unidos não terminaram em dano na população geral, com 37% dos meninos e 11% das meninas relatando que essas experiências foram positivas. Isso se refere a todos os contatos sexuais, isto é, envolvendo dois menores ou um adulto e um menor. Enquanto que 30% dos casos termina em dano, é raro que esse dano seja duradouro ou profundo.34 Isso quer dizer que contatos sexuais traumáticos envolvendo menores são minoria estatística. Mesmo que essa não tenha sido a primeira vez que um estudo conclui dessa forma, este estudo, ao comparar o problema com a homossexualidade e a masturbação, parecia sugerir que relações abaixo da idade de consentimento seriam desestigmatizadas cedo ou tarde.35 Isso causou ultraje público, culminando com o estudo sendo o primeiro, e até agora o único, a ser formalmente condenado pelo Congresso Americano.36 Por causa da controvérsia ao redor do chamado “Relatório Rind”, ele é muito famoso e é normalmente o primeiro estudo a citar quando se questiona a idade de consentimento.

Porém, apesar de dados mostrarem que trauma oriundo de contatos sexuais abaixo da idade de consentimento, seja entre menores ou entre adulto e menor, geralmente não resultarem em dano, seria isso o bastante para emudecer as vozes de vítimas de abuso que são enfáticas quanto ao dano que elas sofreram? Reduzir ou abolir a idade de consentimento seria mesmo uma boa ideia, apesar de haver evidência mostrando que sim? Mesmo que não seja, há razão para aumentar a idade de consentimento? Deixo o problema para você julgar.

Como o estudo conclui que algumas experiências foram positivas, você pode se perguntar como é que ninguém ouve sobre essas experiências. Há um número de razões para isso, mas apontarei apenas a mais óbvia: as notícias relatam apenas o que é de interesse público. Ouvir sobre experiências positivas não melhoraria a vida de ninguém. É verdade que essas relações são ilegais, mas a mídia não mostrará todos os encarceramentos, apenas os que ocorrem por crimes muito sérios. Como precisamos saber quem é realmente perigoso, para que possamos nos defender, a mídia logicamente se limita a mostrar apenas as experiências negativas. Não tem nenhuma razão para experiências positivas, apesar de resultarem em prisões, aparecerem na televisão. Então, se você estiver procurando por experiências positivas, sua melhor aposta seria literatura profissional, não as notícias. Algumas pessoas atraídas por menores colecionam relatos positivos encontrados em tal literatura (e outras fontes), fazendo compilações em páginas na Internet.37

Com isso, insisto que você não está atraído por algo inerentemente prejudicial ou exploratório. Você está atraído por algo ilegal. Ponto. Agora, se a lei tem que mudar ou não (e, se tiver, como deve mudar), deixo ao seu julgamento. Mas ninguém deve considerar este problema sem considerar esses dados antes, a saber, a verdadeira extensão do dano e a existência tanto de relatos positivos quanto negativos.

Que faço agora?

Agora que você sabe que sua atração não necessariamente posará um problema à sua vida diária, que você pode viver com isso, permanecer dentro da lei e que o objeto de sua atração não é tão ruim quanto você é levado a crer que é, espero que você esteja se sentindo bem mais calmo sobre quem você é e o que você sente. Você pode acordar amanhã e esquecer o problema. Mas talvez você sinta frustração sexual, talvez tenha pensamentos suicidas de vez em quando, talvez você reaja muito mal às notícias e como a população geral fala de você. Será que isso é culpa da sua atração ou de como a sociedade vê pessoas atraídas por menores?

Considerando a informação exposta nas seções anteriores, de que você pode funcionar como qualquer pessoa normal, permanecer saudável e produtivo, como pode ser culpa de sua atração? Se você se sente doente, é por causa de como a sociedade vê você. A sociedade te deixa doente te estigmatizando, mesmo que não saibam que é isso que estão fazendo. Então, se você tem problemas com isso, você pode precisar de ajuda profissional, alguém que escute você.

B4U-ACT38 é uma organização que tenta fazer a ponte entre pessoas atraídas por menores e profissionais de saúde mental.39 A maioria das pessoas atraídas por menores encara lutas semelhantes e B4U-ACT tenta provê-las com informação sobre como e onde encontrar ajuda. Porém, a organização não aponta simplesmente aonde encontrar um conselheiro ou psiquiatra; eles apenas apontam para terapeutas que concordam com os valores da organização. B4U-ACT não acredita que atração por menores é uma doença, então, se um terapeuta concorda em trabalhar com eles, ele deve manter em mente que sua missão não é “curar” você de sua atração, mas ajudar você a viver feliz apesar de tê-la.40 B4U-ACT é também neutro-contato,41 então, se você for pró-contato, eles não tentarão fazer você mudar de ideia. Se você tem quaisquer problemas relacionados à sua atração,42 considere procurar ajuda com eles primeiro, antes de tentar qualquer outra pessoa. O sítio ainda é pequeno, mas serve bem ao seu propósito e ganhou notoriedade.43

Se aceite primeiro.

Espero que nada mais esteja te perturbando agora. Você pode deixar o problema do contato de lado e preferir não participar da discussão, não haveria problema nisso. Você pode ficar no lado pró-contato ou anti-contato, se você quiser. Mas ser atraído por menores não significa participar em nenhuma dessas coisas, se bem que você é mais do que bem-vindo para discutir idade de consentimento com outras pessoas atraídas por menores ou com pessoas normais do cotidiano.

O que é mais importante agora é não se odiar. Aprenda mais e olhe mais fundo em sua atração para melhor compreendê-la. Talvez isso explique outros aspectos seus. Contanto que você aceite isso, não como uma doença, especialmente se você mesmo é um menor abaixo da idade de consentimento, mas como parte de você, é provável que você esquecerá o problema e continuará vivendo normalmente, como qualquer outra pessoa. Não há necessidade de ficar assustado, com medo ou qualquer coisa assim.

Se você quiser falar em público da sua atração, você pode, se você for um menor. Mas um adulto admitindo ser atraído por menores é quase impensável, a menos que seja na Internet. Houve um número de iniciativas favoráveis as pessoas atraídas por menores, as quais falharam por falta de participantes.44 Talvez algumas delas fossem algo que você gostaria de ter apoiado. Então, se qualquer dessas iniciativas reemergir, falharia novamente a menos que encontrasse mais apoiadores. Numa configuração democrática, uma ideia cresce com seu número de apoiadores e, graças à Internet, uma pessoa pode apoiar uma ideia quase anonimamente e facilmente encontrar pessoas que pensam igual. Então, se você sente que seria seguro “se assumir” na Internet, especialmente se você é capaz de separar uma identidade virtual de sua identidade física, seria mais fácil encontrar outros como você e espalhar a palavra, argumentando e mudando a ideia do público a fim de obter apoiadores. Se isso continuar acontecendo, talvez pessoas atraídas por menores se tornem uma minoria digna da qual se procurar votos. Mesmo que isso não ponha a idade de consentimento em questão, poderia, talvez, abrir possibilidades de redução do estigma.

Pense sobre isso: quantas pessoas atraídas por menores existem por aí? O chute mais baixo é 600000 adultos e 60000 menores.45 Se você somar em um mesmo movimento todas as pessoas que sentem que leis de idade de consentimento posam um problema para as relações que elas gostariam de estabelecer, quão grande tal movimento seria? Mesmo que o problema do contato não encontre uma resolução definitiva, redução do estigma é algo que todos eles querem. Se mais pessoas atraídas por menores se assumirem, mesmo que apenas na Internet, mesmo que apenas em contas dedicadas, e se organizarem, talvez a atração por menores ganhasse uma identidade política. Isso não é o bastante, mas é o começo.

Encontre outros.

Um número de pessoas atraídas por menores são públicas sobre sua atração na Internet, por causa das proteções obtidas pelo anonimato e por causa da facilidade de expor seu pensamento numa rede quase dominada pela liberdade de expressão. Por causa do ódio nas mídias sociais, contudo, pessoas atraídas por menores muitas vezes preferem discutir sua atração com comentários, se elas abrirem um diário na Internet.

O número de pessoas atraídas por menores dispostas a discutir a atração em mídias sociais ainda é pequeno. Um número ainda menor a discute em sítios de partilha de vídeo. E há sítios especialmente construídos para aqueles com tais atrações, notavelmente fóruns e grupos de apoio. Sítios focados em direitos da juventude podem discutir as atrações que menores sentem um pelo outro também.

Permaneçam juntos.

É improvável que um possível “movimento” formado por pessoas atraídas por menores criasse uma agenda política em breve, porque elas estão divididas em uma questão muito importante, que é o problema do contato. A menos que haja um consenso sobre leis de idade de consentimento, é quase impossível que pessoas atraídas por menores possam operar grandes mudanças sociais. Mas, por causa do estigma ao redor de todas essas pessoas, é importante que pessoas atraídas por menores permaneçam próximas umas das outras, não importando a posição no problema do contato, não importando a idade ou a cronofilia. Somos todos humanos e todas as pessoas atraídas por menores partilham esse traço definitivo, que é a atração por um tipo de relação que é ilegal.

Se admitirmos que essas relações não são necessariamente prejudiciais ou exploratórias (mas ainda assim ilegais e talvez para o nosso próprio bem), admitirmos que pessoas atraídas por menores podem funcionar bem apesar de estarem abstinentes e admitir que o número dessas pessoas é muito maior do que antes se pensava, fica claro que a doença não está nessas pessoas, mas em como a sociedade as vê. Todos viveriam melhor se o estigma fosse reduzido. Por causa disso, a única “agenda” entre as pessoas atraídas por menores, no atual clima de hostilidade, deveria ser redução do estigma, o que não ocorrerá sem esforço coletivo entre adultos e menores, entre todas as cronofilias, entre pró-contatos e anti-contatos. Lembre da especulação sobre quantos vocês são. Se as pessoas atraídas por menores permanecerem juntas, elas poderiam alcançar ao menos esse objetivo, mas elas não alcançarão nada transformando uma minoria em minorias ainda menores.

Pessoas atraídas por menores não devem odiar umas às outras ou causar mais estigma. A sociedade já produz estigma o bastante, então vocês não devem produzir estigma de sua própria parte. Isso seria autodestrutivo e não tornaria a vida de ninguém mais fácil, especialmente porque atração por menores simplesmente acontece e jamais deixará de existir a menos que a idade de consentimento deixe de existir, uma vez que o que define atração por menores é a idade de consentimento. Pense nos menores também, principalmente naqueles que se tornarão adultos atraídos por menores. Eles viveriam sem muitas das lutas que você acaba tendo que lutar se o estigma fosse reduzido ou erradicado. Pessoas atraídas por menores precisam ser vistas como seres humanos capazes de raciocinar.46 E seria irracional odiar um ao outro.

Espalhe a mensagem.

Outros como você podem estar sofrendo agora. Talvez estejam confusos e sozinhos. É importante que eles saibam que há outros como eles e que eles não precisam se sentir mal pelo que são, pelo que gostam nem nada disso. Mas para que tal coisa aconteça, é preciso que eles saibam que a comunidade existe. O estigma continua graças à desinformação. Você é levado a crer que você é um entre um punhado de monstros ou que seu desejo sexual precoce na infância ou adolescência é anormal e que você deveria ser inocente. Nada disso é verdade.

Eu não me oponho à decisão de copiar e colar este texto em algum lugar,47 a menos que você tenha uma forma melhor de chegar a pessoas atraídas por menores que estejam isoladas e ajudá-las no caminho da autoaceitação e da oposição ao estigma, mesmo que eles não queiram discutir idade de consentimento. Enquanto você faz esse trabalho, você é encorajado a tomar uma posição no problema e vocalizar sua opinião. O estigma não será reduzido, muito menos erradicado, se pessoas atraídas por menores permanecerem em silêncio.

Conclusão.

“Atração por menores” é um apego romântico ou sexual por alguém abaixo da idade de consentimento. Tanto menores quanto adultos podem ter essa atração. As causas não estão claras. Os conceitos de atração por menores e pedofilia se sobrepõem, mas não são sinônimos. Uma pessoa atraída por menores pode ser nepiófila, pedófila, hebéfila, efebófila, teleiófila ou até mesmo um menor de idade.

A natureza da atração é bastante inofensiva, especialmente considerando a verdadeira extensão do dano e a existência de resultados positivos e negativos dessas relações. Além do mais, idade de consentimento é uma lei e leis mudam. Pessoas atraídas por menores podem refletir sobre a lei, mas não devem fazê-lo irresponsavelmente, não importando se querem abolição, redução, continuação ou aumento da idade de consentimento em seu território. Uma discussão responsável sobre esse assunto requer avaliação de dano e benefício desses contatos. Mas agir segundo o impulso é ilegal e mesmo relações positivas podem resultar em processos e encarceramentos. Por causa disso, é altamente desaconselhável que você tenha um contato sexual com um menor, mesmo que você seja também menor, a menos que as leis mudem primeiro.

Pessoas atraídas por menores devem permanecer juntas para sobreviver por causa do estigma. Elas devem aceitar umas às outras, procurar por outros, trabalhar em favor da união e esclarecer outros sobre o assunto. Eu apoio a ideia de copiar e colar este texto em outros lugares e, quanto mais pessoas copiarem, mais fácil será para pessoas atraídas por menores o encontrarem e lerem. Dessa forma, quando um jovem atraído por menores perceber que ele tem certos pensamentos e sentimentos, ele encontraria a informação necessária para autoaceitação sem ter que consumir qualquer desinformação ou passar por pesquisas dolorosas que lhe fariam mais mal do que bem.

Considerando que ser atraído por menores não necessariamente significa que você ofenderá a lei, que as relações desejadas nem sempre resultam em dano e que há evidência de resultados positivos, é claro que a atração não é doentia por si, mas é tornada tal pela sociedade. É a sociedade que deixa você doente, mesmo que você permaneça dentro da lei.

Referências.

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1I Eu queria obter um parecer de Hikari, que está autorando este texto comigo. Mas depois de algumas besteiras ditas na BBC e algumas declarações preocupantes de James Cantor, senti que era imperativo publicar imediatamente.

2É catorze no Brasil.

3“Atração por menores” e “pedofilia” são conceitos relacionados, mas não sinônimos. Uma pessoa atraída por menores pode ou não ser pedófila.

6Aqui, estou falando de atração por menores como um sentimento. Não estou falando de formas de expressão.

9Situação que nunca mudará sem aulas decentes de educação sexual.

15“Cronofilia”: preferência sexual com base em faixa etária.

18“DSM”: Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders. “CID”: Classificação Internacional das Doenças. No CID, pedofilia é listada em F65.4, “desordens de preferência sexual (65): pedofilia (4)”.

20Isso nos leva a questionar, então, por que a homossexualidade saiu do manual. Entenda quão delicada é essa questão.

23Se bem que isso é debatível, porque não há consenso sobre o que “agir segundo o impulso” significa.

26De minha própria experiência, eu acho essa internalização especialmente danosa quando é feita a ponto de um pedófilo inofensivo começar a ver um apelo em abuso sexual infantil “de verdade”. Antes, ele se sentiria interessado em relações mutuamente voluntárias, que ocorreriam em suas fantasias, mas depois ele começa a se perguntar como deve ser coagir a criança a isso. Aconteceu com um amigo e, mesmo que ele nunca tenha quebrado a lei, eu ainda acho perturbador que a imagem pública do pedófilo, uma vez plantada no próprio pedófilo, pode transformar um benevolente amante sincero de crianças em um verdadeiro estuprador de meninos. Isso quer dizer que a propagação de estigma pela mídia pode muito bem estar aumentando o número de casos de abuso sexual infantil, na minha honesta opinião.

27O Novo Código Penal, que tramita no Congresso brasileiro, pretendia baixar a idade de consentimento no Brasil de catorze para doze.

28No Brasil, não podem de jeito nenhum, uma vez que a idade de consentimento é catorze, mas uma pessoa só pode votar a partir dos dezesseis.

31Na prática, isso significaria que menores estariam sob proteção das mesmas leis que já protegem adultos, como as leis normais de estupro, de forma que relações com menores só seriam punidas se fossem prejudiciais, exploratórias ou indesejadas.

32Homossexualidade já foi doença e sexo anal já foi crime.

33“Problema do contato”: o debate acerca da idade de consentimento. Se você é favorável à redução ou abolição da idade de consentimento, você é “pró-contato”. Se você é favorável ao aumento da idade de consentimento ou lhe é indiferente, você é “anti-contato”.

35Veja a conclusão e a discussão do artigo.

39Infelizmente, não existe um esforço desses no Brasil, não como eles fazem.

41“Neutro-contato”: a atitude de alguém que prefere não escolher um lado no problema do contato. Isso pode significar que a pessoa está indecisa, tentando ser imparcial ou simplesmente não quer participar do debate.

42E morar nos Estados Unidos.

43Para começar, eles são responsáveis por remover pedofilia do DSM em favor de “desordem pedofílica”, significando que você só está doente se você agir ilegalmente ou se você se sentir desconfortável com seus sentimentos. Se você está grato por essa mudança, é graças a eles também. O programa do simpósio, que ocorreu em 2011, ainda está no ar. http://www.b4uact.org/research/past-symposium/

44A petição francesa contra a idade de consentimento e o PNVD, por exemplo. No Brasil, uma iniciativa popular favorável a pessoas atraídas por menores provavelmente tomaria forma de uma petição no portal e-Cidadania, do Senado Federal, no qual usuários sugerem leis e, se a ideia obtiver 20000 apoios, será levada para análise na Comissão de Direitos Humanos. Se ela receber um parecer positivo na Comissão, ela receberá um relator do poder executivo e será debatida no Senado e na Câmara dos Deputados, podendo vir a tornar-se lei. Assim, a população acaba fazendo as vezes de poder legislativo.

45Dados estadunidenses. Esse é o número mínimo só nos Estados Unidos. http://www.b4uact.org/know-the-facts/

46No caso da pedofilia, isso implica despatologização, isto é, remover a pedofilia do DSM e do CID, o que já foi parcialmente feito.

47Nem a traduzi-lo para outros idiomas que você conheça.

A comunicação de massa controla o receptor.

Este texto é uma interpretação livre do texto “O Fechamento do Universo da Locução”, do Herbert, para a disciplina de filosofia social e política dois.

Quase não se nota, porque está em nossa frente o tempo todo. O ato de falar é algo tão natural que por vezes não percebemos como algo tão normal e corriqueiro pode se tornar um dispositivo de controle. Porém, as estranhas regras com que nos deparamos ao estudar gramática nos apontam que algo parece errado. Por que a linguagem escrita, por exemplo, às vezes é tão difícil? Quem a instituiu dessa forma?

Mas isso é apenas um dos espinhos do ouriço. A linguagem que usamos é absorvida pelo sistema capitalista avançado e transformada em meio de controle pelos psicólogos do setor de recursos humanos, por exemplo. A seguir, veremos como isso se dá, enumerando cinco aspectos da “linguagem funcionalista”.

A linguagem pode ser hipnótica.

Na expressão desses hábitos de pensar, a tensão entre aparência e realidade, fato e fator, substância e atributo, tende a desaparecer. Os elementos de autonomia, descoberta, demonstração e crítica recuam diante da designação, asserção e imitação. Elementos mágicos, autoritários e rituais invadem a palavra e a linguagem.

–  página 93.

Em primeiro lugar, é preciso lembrar que nosso país é regido por um governo, que regula várias coisas. Entre elas, nossas diversões, nossos trabalhos e vários outros comportamentos coletivos. Como nosso país deve ter uma relação estável com outros países, inclusive os outros países que também falam português, o governo também tem um controle sobre nossa linguagem, principalmente a escrita e oficial. Mas, se é do interesse dos que apoiam o acordo ortográfico que o português em todos os países que o têm como língua oficial se aproxime, porque que nossas formas de português nunca se harmonizam, mesmo após tantos ajustes? Muitos apontarão que é uma questão cultural, mas alguém poderia argumentar que a linguagem de um Estado também está a serviço das aspirações daquele Estado. Assim, estados diferentes têm linguagens diferentes, mesmo quando falam todos a língua portuguesa. Como está no interesse do Estado manter seus cidadãos sob controle, a língua, que também lhe é dada como um recurso a ser regulado, pode muito bem se tornar um dispositivo de controle ou mesmo de exclusão e perpetuação do estado vigente de coisas (afinal, os pobres de um modo geral têm poucas oportunidades de aprender a norma culta, excluindo-os de âmbitos onde ela é requisitada).

Linguagem pode ser conformista.

Essas identificações, que apareceram como uma particularidade do operacionalizado, reaparecem como características da locução no comportamento social. Aqui, a otimização da linguagem ajuda a repelir os elementos não-conformistas da estrutura e do movimento da palavra. O vocabulário e a sintaxe são igualmente afetados.

– página 93.

A linguagem que se lê nos meios de comunicação de massa é uma linguagem dos fatos, dos seres, e isso, para o filósofo, é incompleto, porque suprime as possibilidades. Assim, é uma linguagem meramente descritiva e não reflexiva; imediata e impessoal. Ela não requer esforço do leitor ou do ouvinte, deixando pouco espaço para a interpretação, acomodando aquele que recebe a informação.

É a linguagem que permite uma passividade, exigindo apenas que o receptor ouça ou leia, sem se preocupar com significados ocultos. É uma frase que é antes de tudo aceitável. Ou você a aceita ou não. Não há necessidade de demonstração ou qualquer raciocínio. Mas isso implica que a linguagem hipnótica não explica a realidade e de fato não o faz. Ela não se dirige à realidade completa, mas aos pedaços que interessam. Por isso é fácil assimilar.

Claro que a gíria e outras formas de linguagem criadora existem, mas seus falantes precisam pactuar com aquilo que chamamos de “linguagem formal” cedo ou tarde, para fazer tarefas necessárias ao cidadão. Então, pelo contraste de utilidade, a linguagem funcional e formal obtém caráter mais elevado, enquanto que a linguagem que não partilha características com ela é considerada inferior.

A codificação é interesseira.

Quanto ao significado, diz o filósofo:

Substantivos como “liberdade”, “igualmente”, “democracia” e “paz” implicam, analiticamente, um conjunto específico de atributos que ocorrem invariavelmente quando o substantivo é pronunciado ou escrito.

–  página 95.

Lembre-se que o Estado também tem controle sobre os meios de comunicação. Através do rádio, da televisão e de outros meios como esses, o Estado pode codificar um significado determinado para palavras como liberdade, paz e semelhantes, pela associação de notícias ou conteúdos bons ou maus com essas palavras. É assim que uma palavra antes considerada ofensiva torna-se elogio e um comentário neutro torna-se pejorativo. Em outras palavras, por um processo comportamental de associação de ideias, aquela palavra que está tendo seu significado moldado está sendo “treinada” para invocar no ouvinte ou no leitor uma gama de sensações sempre que é escrita ou pronunciada. A exemplo disso, temos o termo “comunismo”, que é visto como tabu no Ocidente por causa da propaganda negativa feita sobre ele. Então, a propaganda e os meios de comunicação têm uma influência direta sobre o desenvolvimento do significado. Ou, nas palavras do filósofo:

O fato de um substantivo específico ser quase sempre ligado aos mesmos adjetivos e atributos “explicativos” transforma a sentença numa fórmula hipnótica que, infinitamente repetida, fixa o significado na mente do receptor. Este não pensa em explicações essencialmente diferentes […] para o substantivo.

– página 98.

Claro que isso tem seu impacto no comportamento da pessoa. Sempre que a palavra é pronunciada, imagens, emoções, sentimentos e julgamentos de bem ou mal propagados pela mídia sobre aquela palavra sobrevém ao indivíduo. Então, a chance de ele reagir de determinada forma, isto é, da forma esperada por quem quer que o controle, é maior.

Diante disso, pode-se afirmar que a linguagem dos meios de comunicação, como dispositivos controlados pelo Estado, afetam as emoções, os sentimentos e as ações da população, através de sentenças curtas, com substantivos de significado deturpado, que são repetidas enfaticamente.

Existe uma identidade ser e fazer.

A “coisa identificada com sua função” é mais real do que a coisa distinta de sua função, e a expressão linguística dessa identificação […] cria um vocabulário e sintaxe básicos que se interpõem à identificação, separação e distinção.

– página 101.

Quando o filósofo diz que a sociedade moderna suplanta a metafísica com a tecnologia, ele está dizendo que esta é uma sociedade na qual o ser das coisas, no sentido conceitual, pouco tem de importante em relação à finalidade das coisas. Ou seja, algo não tem valor em si mesmo, mas apenas enquanto meio de obtenção de algo. Que importa o que algo é? Importa para que serve! Esse é um pensamento tipicamente científico, mecanicista e, obviamente, pragmático.

A reflexão acerca do que algo é permite que vejamos outros usos para o objeto de reflexão, portanto é uma metafísica que opera para a quebra a codificação tradicional do ser de algo. Quando a sociedade identifica o ser com o fazer e o sujeito considera o ser abstraído do fazer, ele tem sua visão sobre aquele ser alargada, permitindo originalidade e uma quantidade intolerável de liberdade. O empregado não deveria ser capaz disso.

Identificam-se coisa e função.

A característica do operacionalizar – tornar o conceito sinônimo do conjunto de operações correspondente – reaparece na tendência linguística para “considerar os nomes das coisas como indicativos, ao mesmo tempo, do seu modo de funcionar, e os nomes das propriedades e processos como simbólicos do aparato usado para captá-los e produzi-los”. Isso é raciocínio tecnológico, que tende a “identificar as coisas e suas funções.”

– página 94.

Não convém ao sistema capitalista que as pessoas dêem novos propósitos àquilo que elas têm. Por exemplo, quando algo não serve mais para determinada função, esse algo é propositado para comportar a função que é desempenhada por outro tipo de mercadoria, por vezes até mais cara, de forma que o sujeito seja desencorajado de adquirir mercadoria mais cara. Tudo por causa de um objeto que não mais serve para sua função codificada e que não necessariamente será reposto. Esse fenômeno chama-se “reciclagem”, uma prática que só é encorajada pelo sistema capitalista para dar-lhe uma aparência mais humana, apesar de acabar posando um problema para o sistema se praticada em larga escala.

Então, é do interesse do sistema que haja uma identidade ser e fazer, de forma que uma coisa sirva apenas para uma função ou grupo de funções e não possa ser propositada.

Mas isso nem é a parte trágica. Essa identidade ser e fazer também alcança seres humanos, que são identificados e dignificados segundo suas profissões.

Identificam-se pessoa e função.

Nos setores mais avançados da comunicação funcional e manipulada, a linguagem impõe, em construções verdadeiramente surpreendentes, a identificação entre pessoa e função.

– página 99.

Observe como raramente a mídia chama pessoas pelo nome. São sempre os “trabalhadores do setor”, os “pequenos empresários”, os “manifestantes” e outros adjetivos. Às vezes, isso é necessário, pois não é possível sempre nomear todos os envolvidos em um movimento, mas nem mesmo os chefes de manifestações populares, por exemplo, são citados por nome. Quando alguma pessoa célebre tem seu nome mencionado, rapidamente sua função é adicionada, quando não é posta em frente ao nome.

Isso serve para duas coisas. A identificação de uma pessoa com sua função nos faz, como seres humanos carentes de aceitação, assumir um rótulo relevante na sociedade, o que implica fazer parte do sistema capitalista como um funcionário de determinada classe. Depois, também serve para manter a pessoa naquela função, com o discurso de que uma pessoa só é “alguém” se tiver uma profissão reconhecida.

Cria-se assim uma sensação de completude no sujeito seguido de um adjetivo que descreve sua função. Ele não apenas existe, mas também atua. Assim, a pessoa passa despercebida se não tem qualquer função reconhecida. O adjetivo passa, então, a ter mais importância que o substantivo, o qual, quando tomado em separado, poderia passar a qualquer ação. O que seria d presidente sem o adjetivo de presidente da república? O primeiro impulso de uma vítima do controle exercido pelo sistema seria responder “nada”.

Existe uma unidade dos contrários.

Outrora considerada a principal ofensa à lógica, a contradição aparece agora como um princípio da lógica da manipulação […]. É a lógica de um sociedade que se pode dar ao luxo de dispensar a lógica e brincar com a destruição, uma sociedade com o domínio tecnológico da mente e da matéria.

– página 96.

Através, por exemplo, da colocação de hífens, a linguagem dos meios de comunicação de massa une coisas que deveriam ser opostas. Isso serve para dar um caráter de poder ao que é corriqueiro ou de conforto ao que é terrível. A exemplo disso, temos os abrigos, lugares onde normalmente se desenrola o terror psicológico do refugiado, que são vendidos com equipamentos que fazem você se sentir em casa: televisão, jogos, tapete… (página 97). Então, um aparato de guerra é rapidamente feito confortável e aceitável. Não é mais um lugar onde você pensa na guerra que ocorre lá fora. Assim, a guerra, que é um acontecimento tão horrível, torna-se algo banal para o indivíduo que pode ignorar seus terrores. Isso também é uma tática comportamental.

Na terapia cognitiva comportamental para crianças com medo de escuro, por exemplo, é dada aos pacientes uma barra de chocolate enquanto se aventuram, um passo de cada vez, nas trevas. Assim, enquanto experimentam prazer ao mesmo tempo que o medo, o medo fica menor e mais tolerável até extinguir-se. Isso significa que a contradição linguística, que associa coisas boas e más com naturalidade, mostrando que “tudo tem um lado bom”, dessensibiliza a pessoa para as coisas que deveriam deixá-la desconfortável.

Aceitam-se contradições como positivas.

É relativamente nova a aceitação geral dessas mentiras pela opinião pública e privada, a supressão de seu conteúdo monstruoso. A disseminação e a eficácia dessa linguagem são testemunho de vitória da sociedade sobre as contradições que ela contém; estas são reproduzidas sem fazer explodir o sistema social.

– página 96.

A exemplo dessas contradições linguísticas, o filósofo cita a “bomba limpa” e a “garoa radioativa inofensiva”. A pessoa que lê tais coisas sente, talvez, o conteúdo negativo nelas, mas bem mais amenizado. Mas lembre-se de que o capitalismo tem suas contradições: por ser um sistema pautado na competição, a riqueza de um gera a miséria de outro. Porém, para o indivíduo acostumado com essas contradições e que está apático, essas contradições são naturais e não poderia ser de outra forma. “Tudo tem um lado ruim” e o lado ruim do progresso é a miséria.

Poderia até ser que o indivíduo, ao ver notícias sobre miséria e pobreza pense em seu oposto, na riqueza, porque cada pessoa que é atropelada pelo sistema capitalista significa que alguém está sendo dignificado. As contradições do capitalismo passam então a ser aceitas como coisas inevitáveis e aceitáveis. A miséria passa a não mais ser ruim, mas pode até ser boa, como indicativo de progresso. Faz parte da vida! Nada é perfeito! Isso é o melhor que temos!

A contradição é uma imunização do discurso.

A unificação dos opostos que caracteriza o estilo comercial e político é uma das muitas formas pelas quais a locução e a comunicação se tornam imunes à expressão de protesto e recusa. Como poderão essa recusa e esse protesto encontrar a palavra acertada quando os órgãos da ordem estabelecida admitem e anunciam que paz é […] iminência da guerra, que as mais recentes armas têm etiqueta de preço lucrativa e que o abrigo antiaéreo pode significar aconchego?

– página 97.

Com essas contradições sendo postas uma ao lado da outra como coisas harmônicas, fica difícil recusar o sistema. Porque a recusa, como discurso, apela ao que é contrário, mas o contrário já foi assimilado em sua grande parte. Então, com que palavras se pode atacar um discurso que põe contradições como coisas harmônicas? Esse discurso não apenas insensibiliza o indivíduo à contradição, porque dessensibilização não significa aceitar. Ele faz o indivíduo aceitar a contradição como inevitável. Assim, quando um discurso de recuso se apresenta, o discurso conservador pode, como último recurso, apelar ao utilitarismo: fazemos mais bem do que mal, porque nunca é possível fazer só um dos dois.

É muito complicado atacar um discurso assim, porque somem o verdadeiro e o falso. Antigamente, apontar uma contradição seria o bastante para incitar a opinião pública contra um orador, mas agora a opinião pública duvida que seja possível discorrer sem contradição. Isso iguala os discursos, de forma que um não possa anular o outro.

Pior é melhor.

A estrutura não deixa lugar para distinção, desenvolvimento e diferenciação de significado: ela só se move e vive como um todo.

– página 99.

Num universo unidimensional e positivo, a língua controla por ser exageradamente enxuta. Ela é um meio de descrição dos fatos, com cada palavra tendo seu devido lugar, tendo uma sintaxe abreviada, e com seus significados “atualizados” de formas absurdas através dos meios de comunicação em poder do Estado, como a televisão e o rádio. Dessa forma, os cidadãos comuns não têm poder sobre a linguagem formal, que controla a estrutura da frase, a escrita das palavras e o desenvolvimento do significado.

A linguagem do funcionalismo é uma linguagem do “pior é melhor”. Esse é um ditado da cultura Unix que significa “uma estrutura simples, pequena, com poucos recursos é melhor que uma estrutura grande, lenta, mas com vários recursos.” E de fato, as sentenças da linguagem de comunicação em massa são simples, minúsculas, aceitáveis e de significado estático. Não é possível propositá-las, interpretá-las nem nada assim, cabendo ao leitor ou ouvinte apenas a tarefa de aceitá-las.

Como visto anteriormente, esse tipo de sentença é repetido constantemente, nos comerciais, bordões de loja, telejornais e discursos políticos. Até que chega um ponto em que a pessoa não tem mais como esquecer. A música popular norte-americana é um forte exemplo disso, com letras simples e de significado concreto, que são repetidas até onde a melodia permitir (por sinal, a melodia também é hipnótica, de forma que a pessoa não a esqueça facilmente, permitindo que a letra seja lembrada também). O fato é que essas são sentenças cuja estrutura desafia o princípio de que qualquer texto pode ser interpretado de diversas formas: elas só podem ser entendidas de um único jeito.

Não há escapatória.

A análise está “arrolhada”; o âmbito do julgamento está limitado a um contexto de fatos que exclui o julgamento do contexto no qual os fatos são criados pelo homem, e no qual o significado, a função e o desenvolvimento desses fatos são determinados.

– Página 118.

É especialmente importante para a linguagem do funcionalismo que a capacidade de julgamento seja prejudicada. Então apenas conclusões são oferecidas, novamente, em sentenças curtas e fechadas. O processo pelo qual essas conclusões vieram a ser é perdido. Afinal, quanto mais palavras a linguagem usa, mais amplo é o campo de ação do intelecto dentro dela e se a linguagem do funcionalismo opera pela manutenção da realidade dos seres, isto é, dos fatos, é importante que ninguém possa se posicionar contra ela e esse risco é minimizado em nossa cultura de cento e quarenta toques.

Quando uma tese é oferecida dessa forma, ela tem potencial circular. Por não ser possível ou por ser desencorajada a contradição, a afirmação é aceita como que por falta de opção. Ela valida a si própria.

Comprometida com essa estrutura, a investigação se torna circular e avaliadora de si.

– Página 118.

As traduções são perniciosas.

Na medida em que a Sociologia e a Psicologia operacionais contribuíram para atenuar condições sub-humana, elas são parte do progresso do intelecto e material. Mas também são testemunho da racionalidade bivalente do progresso que satisfaz em seu poder repressivo e é repressivo em suas satisfações.

– Página 116.

A linguagem comum é uma linguagem aberta, geral, que pode ser interpretada, enquanto que a do funcionalismo é curta e precisa. Quando uma reclamação em linguagem comum chega aos ouvidos ao gestor de recursos humanos (“os banheiros são anti-higiênicos”), ele a traduz em linguagem do funcionalismo, porque não poderia, como gestor de recursos humanos, trabalhar com declarações gerais (“em tais e tais ocasiões entrei nesse banheiro e o lavatório tinha alguma sujeira”, especificando que não é o tempo todo, não são todos os banheiros e que os banheiros não estavam completamente imundos). Daí, vemos que o problema tem causa específica, que é mau comportamento, fazemos umas campanhas e o problema logo está resolvido. Embora isso seja satisfatório, não pode ser em outros aspectos, como, por exemplo, no caso do empregado que reclama do salário, mas porque as despesas com o plano de saúde aumentaram, e a empresa dá um aumento para ele em particular. O fato é que a linguagem do funcionalismo se dirige a coisas particulares e não muda a natureza das coisas, mas se esforça em mantê-la, ao passo que dá aos trabalhadores a sensação de que suas queixas foram completamente resolvidas, mesmo quando isso se dá apenas no campo lógico.

As abreviaturas nada dizem.

Uma vez transformado em vocábulo oficial, constantemente repetido no uso geral, “sancionado” pelos intelectuais, terá perdido todo valor cognitivo e serve meramente ao reconhecimento de um fato indiscutível.

– Página 101.

As abreviaturas de organizações, como ONU (Organização das Nações Unidas), AFL-CIO (Federação Americana do Trabalho e Congresso de Organizações Industriais), quando ficam sem sua carga de novidade e são incorporadas à linguagem comum, acabam perdendo seu significado. Elas passam a ocultar contradições, como será demonstrado, permitindo que seu ofício verdadeiro seja ignorado de forma que ela não possa ser culpada por não cumprir seu trabalho, mas, por sua popularidade e repetição, ainda conseguem manter sua autoridade.

A história por trás de sua formação também é perdida. E isso também é interessante para o capitalismo avançado.

A lembrança do passado pode dar surgimento a perigosas introspecções e a sociedade estabelecida parece apreensiva com os conteúdos subversivos da memória.

– Página 104.

Então, é do interesse da linguagem do funcionalismo esconder contradições muito duras em abreviações, que são esvaziadas de seu significado e de sua história.

Elas ocultam contradições.

[…] não sugere o que Organização do Tratado do Atlântico Norte diz, a saber, um tratado entre nações do Atlântico Norte – caso em que se poderia levantar questão sobre a participação da Grécia e da Turquia.

– Página 100.

É do interesse da linguagem do funcionalismo que as contradições percam seu efeito, mas, quando não é fácil essa tarefa, convém que a contradição seja ocultada. E as abreviações permitem isso. Além do mais, quando a própria abreviatura esconde uma contradição, o órgão pode jogar livremente com as ideologias contraditórias implícitas, porque sua abreviatura, mesmo que não deixe a contradição clara, parece justificada depois que o significado é revelado (se o órgão tiver sobrevivido tempo o bastante para que seus atos contrários pareçam normais).

Então, as abreviaturas permitem que as contradições passem despercebidas, quando não é possível a dessensibilização da população para elas imediatamente.

A abreviatura não é esvaziada de autoridade.

[…] a abreviatura pode ajudar a reprimir perguntas indesejáveis.

– Página 100.

Uma atenção especial é dada pelo texto às abreviaturas. Embora abreviaturas sejam justificáveis quando o nome de determinada instituição é muito grande, algumas vezes as abreviaturas passam a não mais dizer coisa alguma senão certo nível de autoridade. Por exemplo, ONU nem sempre é conhecida como Organização das Nações Unidas, mas a repetição da sigla em telejornais enfatiza sua importância. Então, recomendações da ONU devem ser acatadas, apesar de não estar claro o que é a ONU e, sem explicação sobre o que é, fica difícil também saber o que a ONU deveria fazer.

Por causa disso, as abreviaturas são convenientemente esvaziadas de seu significado, sem, ao mesmo tempo, serem de sua autoridade. Assim, a ONU, que deveria manter as nações unidas, pode ficar sem culpa porque ninguém espera que ela faça isso.

Conclusão.

Depois do que foi exposto, fica claro que a própria linguagem é um instrumento de controle utilizado amplamente pelo sistema de coisas estabelecidas (capitalismo avançado), com o intuito de manter os cidadãos em seu devido lugar. A comunicação de massa, do funcionalismo, abreviada, incentiva a preguiça de pensar e o imediatismo, uma tendência a rejeitar a possibilidade de diferença, tanto por comodismo como por praticidade. É a linguagem que assegura que as coisas permanecerão como são, enquanto que outras formas de controle tem um papel mais ativo. Isso porque a linguagem dos seres oculta as possibilidades de diferença.

Se não vemos como poderia ser diferente, porque nosso discurso (logos) não o comporta, fica muito difícil mudar, mesmo quando os fatos atestam contra isso, sugerindo, vez por outra, que fatos não são a própria realidade.

Mudar essa realidade requer em primeiro lugar que diferenciemos o ser do fazer e percebamos que as pessoas e as coisas podem ser abstraídas de suas funções. Precisamos entender que nossa linguagem, a linguagem informal, tem sua importância e seu papel e que não deveríamos ser oprimidos pela linguagem formal, que é algo feito por nós. Não que a linguagem formal seja “do mal”, mas que ela não deveria ser usada como forma de opressão. Precisamos também separar as contradições dos discursos e perceber que termos contraditórios estão sendo usados como harmônicos e que um discurso verdadeiro não se compõe dessa forma; esse é o discurso de manipulação, que toma o ouvinte por tolo.

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