Analecto

1 de outubro de 2015

A comunicação de massa controla o receptor.

Este texto é uma interpretação livre do texto “O Fechamento do Universo da Locução”, do Herbert, para a disciplina de filosofia social e política dois.

Quase não se nota, porque está em nossa frente o tempo todo. O ato de falar é algo tão natural que por vezes não percebemos como algo tão normal e corriqueiro pode se tornar um dispositivo de controle. Porém, as estranhas regras com que nos deparamos ao estudar gramática nos apontam que algo parece errado. Por que a linguagem escrita, por exemplo, às vezes é tão difícil? Quem a instituiu dessa forma?

Mas isso é apenas um dos espinhos do ouriço. A linguagem que usamos é absorvida pelo sistema capitalista avançado e transformada em meio de controle pelos psicólogos do setor de recursos humanos, por exemplo. A seguir, veremos como isso se dá, enumerando cinco aspectos da “linguagem funcionalista”.

A linguagem pode ser hipnótica.

Na expressão desses hábitos de pensar, a tensão entre aparência e realidade, fato e fator, substância e atributo, tende a desaparecer. Os elementos de autonomia, descoberta, demonstração e crítica recuam diante da designação, asserção e imitação. Elementos mágicos, autoritários e rituais invadem a palavra e a linguagem.

–  página 93.

Em primeiro lugar, é preciso lembrar que nosso país é regido por um governo, que regula várias coisas. Entre elas, nossas diversões, nossos trabalhos e vários outros comportamentos coletivos. Como nosso país deve ter uma relação estável com outros países, inclusive os outros países que também falam português, o governo também tem um controle sobre nossa linguagem, principalmente a escrita e oficial. Mas, se é do interesse dos que apoiam o acordo ortográfico que o português em todos os países que o têm como língua oficial se aproxime, porque que nossas formas de português nunca se harmonizam, mesmo após tantos ajustes? Muitos apontarão que é uma questão cultural, mas alguém poderia argumentar que a linguagem de um Estado também está a serviço das aspirações daquele Estado. Assim, estados diferentes têm linguagens diferentes, mesmo quando falam todos a língua portuguesa. Como está no interesse do Estado manter seus cidadãos sob controle, a língua, que também lhe é dada como um recurso a ser regulado, pode muito bem se tornar um dispositivo de controle ou mesmo de exclusão e perpetuação do estado vigente de coisas (afinal, os pobres de um modo geral têm poucas oportunidades de aprender a norma culta, excluindo-os de âmbitos onde ela é requisitada).

Linguagem pode ser conformista.

Essas identificações, que apareceram como uma particularidade do operacionalizado, reaparecem como características da locução no comportamento social. Aqui, a otimização da linguagem ajuda a repelir os elementos não-conformistas da estrutura e do movimento da palavra. O vocabulário e a sintaxe são igualmente afetados.

– página 93.

A linguagem que se lê nos meios de comunicação de massa é uma linguagem dos fatos, dos seres, e isso, para o filósofo, é incompleto, porque suprime as possibilidades. Assim, é uma linguagem meramente descritiva e não reflexiva; imediata e impessoal. Ela não requer esforço do leitor ou do ouvinte, deixando pouco espaço para a interpretação, acomodando aquele que recebe a informação.

É a linguagem que permite uma passividade, exigindo apenas que o receptor ouça ou leia, sem se preocupar com significados ocultos. É uma frase que é antes de tudo aceitável. Ou você a aceita ou não. Não há necessidade de demonstração ou qualquer raciocínio. Mas isso implica que a linguagem hipnótica não explica a realidade e de fato não o faz. Ela não se dirige à realidade completa, mas aos pedaços que interessam. Por isso é fácil assimilar.

Claro que a gíria e outras formas de linguagem criadora existem, mas seus falantes precisam pactuar com aquilo que chamamos de “linguagem formal” cedo ou tarde, para fazer tarefas necessárias ao cidadão. Então, pelo contraste de utilidade, a linguagem funcional e formal obtém caráter mais elevado, enquanto que a linguagem que não partilha características com ela é considerada inferior.

A codificação é interesseira.

Quanto ao significado, diz o filósofo:

Substantivos como “liberdade”, “igualmente”, “democracia” e “paz” implicam, analiticamente, um conjunto específico de atributos que ocorrem invariavelmente quando o substantivo é pronunciado ou escrito.

–  página 95.

Lembre-se que o Estado também tem controle sobre os meios de comunicação. Através do rádio, da televisão e de outros meios como esses, o Estado pode codificar um significado determinado para palavras como liberdade, paz e semelhantes, pela associação de notícias ou conteúdos bons ou maus com essas palavras. É assim que uma palavra antes considerada ofensiva torna-se elogio e um comentário neutro torna-se pejorativo. Em outras palavras, por um processo comportamental de associação de ideias, aquela palavra que está tendo seu significado moldado está sendo “treinada” para invocar no ouvinte ou no leitor uma gama de sensações sempre que é escrita ou pronunciada. A exemplo disso, temos o termo “comunismo”, que é visto como tabu no Ocidente por causa da propaganda negativa feita sobre ele. Então, a propaganda e os meios de comunicação têm uma influência direta sobre o desenvolvimento do significado. Ou, nas palavras do filósofo:

O fato de um substantivo específico ser quase sempre ligado aos mesmos adjetivos e atributos “explicativos” transforma a sentença numa fórmula hipnótica que, infinitamente repetida, fixa o significado na mente do receptor. Este não pensa em explicações essencialmente diferentes […] para o substantivo.

– página 98.

Claro que isso tem seu impacto no comportamento da pessoa. Sempre que a palavra é pronunciada, imagens, emoções, sentimentos e julgamentos de bem ou mal propagados pela mídia sobre aquela palavra sobrevém ao indivíduo. Então, a chance de ele reagir de determinada forma, isto é, da forma esperada por quem quer que o controle, é maior.

Diante disso, pode-se afirmar que a linguagem dos meios de comunicação, como dispositivos controlados pelo Estado, afetam as emoções, os sentimentos e as ações da população, através de sentenças curtas, com substantivos de significado deturpado, que são repetidas enfaticamente.

Existe uma identidade ser e fazer.

A “coisa identificada com sua função” é mais real do que a coisa distinta de sua função, e a expressão linguística dessa identificação […] cria um vocabulário e sintaxe básicos que se interpõem à identificação, separação e distinção.

– página 101.

Quando o filósofo diz que a sociedade moderna suplanta a metafísica com a tecnologia, ele está dizendo que esta é uma sociedade na qual o ser das coisas, no sentido conceitual, pouco tem de importante em relação à finalidade das coisas. Ou seja, algo não tem valor em si mesmo, mas apenas enquanto meio de obtenção de algo. Que importa o que algo é? Importa para que serve! Esse é um pensamento tipicamente científico, mecanicista e, obviamente, pragmático.

A reflexão acerca do que algo é permite que vejamos outros usos para o objeto de reflexão, portanto é uma metafísica que opera para a quebra a codificação tradicional do ser de algo. Quando a sociedade identifica o ser com o fazer e o sujeito considera o ser abstraído do fazer, ele tem sua visão sobre aquele ser alargada, permitindo originalidade e uma quantidade intolerável de liberdade. O empregado não deveria ser capaz disso.

Identificam-se coisa e função.

A característica do operacionalizar – tornar o conceito sinônimo do conjunto de operações correspondente – reaparece na tendência linguística para “considerar os nomes das coisas como indicativos, ao mesmo tempo, do seu modo de funcionar, e os nomes das propriedades e processos como simbólicos do aparato usado para captá-los e produzi-los”. Isso é raciocínio tecnológico, que tende a “identificar as coisas e suas funções.”

– página 94.

Não convém ao sistema capitalista que as pessoas dêem novos propósitos àquilo que elas têm. Por exemplo, quando algo não serve mais para determinada função, esse algo é propositado para comportar a função que é desempenhada por outro tipo de mercadoria, por vezes até mais cara, de forma que o sujeito seja desencorajado de adquirir mercadoria mais cara. Tudo por causa de um objeto que não mais serve para sua função codificada e que não necessariamente será reposto. Esse fenômeno chama-se “reciclagem”, uma prática que só é encorajada pelo sistema capitalista para dar-lhe uma aparência mais humana, apesar de acabar posando um problema para o sistema se praticada em larga escala.

Então, é do interesse do sistema que haja uma identidade ser e fazer, de forma que uma coisa sirva apenas para uma função ou grupo de funções e não possa ser propositada.

Mas isso nem é a parte trágica. Essa identidade ser e fazer também alcança seres humanos, que são identificados e dignificados segundo suas profissões.

Identificam-se pessoa e função.

Nos setores mais avançados da comunicação funcional e manipulada, a linguagem impõe, em construções verdadeiramente surpreendentes, a identificação entre pessoa e função.

– página 99.

Observe como raramente a mídia chama pessoas pelo nome. São sempre os “trabalhadores do setor”, os “pequenos empresários”, os “manifestantes” e outros adjetivos. Às vezes, isso é necessário, pois não é possível sempre nomear todos os envolvidos em um movimento, mas nem mesmo os chefes de manifestações populares, por exemplo, são citados por nome. Quando alguma pessoa célebre tem seu nome mencionado, rapidamente sua função é adicionada, quando não é posta em frente ao nome.

Isso serve para duas coisas. A identificação de uma pessoa com sua função nos faz, como seres humanos carentes de aceitação, assumir um rótulo relevante na sociedade, o que implica fazer parte do sistema capitalista como um funcionário de determinada classe. Depois, também serve para manter a pessoa naquela função, com o discurso de que uma pessoa só é “alguém” se tiver uma profissão reconhecida.

Cria-se assim uma sensação de completude no sujeito seguido de um adjetivo que descreve sua função. Ele não apenas existe, mas também atua. Assim, a pessoa passa despercebida se não tem qualquer função reconhecida. O adjetivo passa, então, a ter mais importância que o substantivo, o qual, quando tomado em separado, poderia passar a qualquer ação. O que seria d presidente sem o adjetivo de presidente da república? O primeiro impulso de uma vítima do controle exercido pelo sistema seria responder “nada”.

Existe uma unidade dos contrários.

Outrora considerada a principal ofensa à lógica, a contradição aparece agora como um princípio da lógica da manipulação […]. É a lógica de um sociedade que se pode dar ao luxo de dispensar a lógica e brincar com a destruição, uma sociedade com o domínio tecnológico da mente e da matéria.

– página 96.

Através, por exemplo, da colocação de hífens, a linguagem dos meios de comunicação de massa une coisas que deveriam ser opostas. Isso serve para dar um caráter de poder ao que é corriqueiro ou de conforto ao que é terrível. A exemplo disso, temos os abrigos, lugares onde normalmente se desenrola o terror psicológico do refugiado, que são vendidos com equipamentos que fazem você se sentir em casa: televisão, jogos, tapete… (página 97). Então, um aparato de guerra é rapidamente feito confortável e aceitável. Não é mais um lugar onde você pensa na guerra que ocorre lá fora. Assim, a guerra, que é um acontecimento tão horrível, torna-se algo banal para o indivíduo que pode ignorar seus terrores. Isso também é uma tática comportamental.

Na terapia cognitiva comportamental para crianças com medo de escuro, por exemplo, é dada aos pacientes uma barra de chocolate enquanto se aventuram, um passo de cada vez, nas trevas. Assim, enquanto experimentam prazer ao mesmo tempo que o medo, o medo fica menor e mais tolerável até extinguir-se. Isso significa que a contradição linguística, que associa coisas boas e más com naturalidade, mostrando que “tudo tem um lado bom”, dessensibiliza a pessoa para as coisas que deveriam deixá-la desconfortável.

Aceitam-se contradições como positivas.

É relativamente nova a aceitação geral dessas mentiras pela opinião pública e privada, a supressão de seu conteúdo monstruoso. A disseminação e a eficácia dessa linguagem são testemunho de vitória da sociedade sobre as contradições que ela contém; estas são reproduzidas sem fazer explodir o sistema social.

– página 96.

A exemplo dessas contradições linguísticas, o filósofo cita a “bomba limpa” e a “garoa radioativa inofensiva”. A pessoa que lê tais coisas sente, talvez, o conteúdo negativo nelas, mas bem mais amenizado. Mas lembre-se de que o capitalismo tem suas contradições: por ser um sistema pautado na competição, a riqueza de um gera a miséria de outro. Porém, para o indivíduo acostumado com essas contradições e que está apático, essas contradições são naturais e não poderia ser de outra forma. “Tudo tem um lado ruim” e o lado ruim do progresso é a miséria.

Poderia até ser que o indivíduo, ao ver notícias sobre miséria e pobreza pense em seu oposto, na riqueza, porque cada pessoa que é atropelada pelo sistema capitalista significa que alguém está sendo dignificado. As contradições do capitalismo passam então a ser aceitas como coisas inevitáveis e aceitáveis. A miséria passa a não mais ser ruim, mas pode até ser boa, como indicativo de progresso. Faz parte da vida! Nada é perfeito! Isso é o melhor que temos!

A contradição é uma imunização do discurso.

A unificação dos opostos que caracteriza o estilo comercial e político é uma das muitas formas pelas quais a locução e a comunicação se tornam imunes à expressão de protesto e recusa. Como poderão essa recusa e esse protesto encontrar a palavra acertada quando os órgãos da ordem estabelecida admitem e anunciam que paz é […] iminência da guerra, que as mais recentes armas têm etiqueta de preço lucrativa e que o abrigo antiaéreo pode significar aconchego?

– página 97.

Com essas contradições sendo postas uma ao lado da outra como coisas harmônicas, fica difícil recusar o sistema. Porque a recusa, como discurso, apela ao que é contrário, mas o contrário já foi assimilado em sua grande parte. Então, com que palavras se pode atacar um discurso que põe contradições como coisas harmônicas? Esse discurso não apenas insensibiliza o indivíduo à contradição, porque dessensibilização não significa aceitar. Ele faz o indivíduo aceitar a contradição como inevitável. Assim, quando um discurso de recuso se apresenta, o discurso conservador pode, como último recurso, apelar ao utilitarismo: fazemos mais bem do que mal, porque nunca é possível fazer só um dos dois.

É muito complicado atacar um discurso assim, porque somem o verdadeiro e o falso. Antigamente, apontar uma contradição seria o bastante para incitar a opinião pública contra um orador, mas agora a opinião pública duvida que seja possível discorrer sem contradição. Isso iguala os discursos, de forma que um não possa anular o outro.

Pior é melhor.

A estrutura não deixa lugar para distinção, desenvolvimento e diferenciação de significado: ela só se move e vive como um todo.

– página 99.

Num universo unidimensional e positivo, a língua controla por ser exageradamente enxuta. Ela é um meio de descrição dos fatos, com cada palavra tendo seu devido lugar, tendo uma sintaxe abreviada, e com seus significados “atualizados” de formas absurdas através dos meios de comunicação em poder do Estado, como a televisão e o rádio. Dessa forma, os cidadãos comuns não têm poder sobre a linguagem formal, que controla a estrutura da frase, a escrita das palavras e o desenvolvimento do significado.

A linguagem do funcionalismo é uma linguagem do “pior é melhor”. Esse é um ditado da cultura Unix que significa “uma estrutura simples, pequena, com poucos recursos é melhor que uma estrutura grande, lenta, mas com vários recursos.” E de fato, as sentenças da linguagem de comunicação em massa são simples, minúsculas, aceitáveis e de significado estático. Não é possível propositá-las, interpretá-las nem nada assim, cabendo ao leitor ou ouvinte apenas a tarefa de aceitá-las.

Como visto anteriormente, esse tipo de sentença é repetido constantemente, nos comerciais, bordões de loja, telejornais e discursos políticos. Até que chega um ponto em que a pessoa não tem mais como esquecer. A música popular norte-americana é um forte exemplo disso, com letras simples e de significado concreto, que são repetidas até onde a melodia permitir (por sinal, a melodia também é hipnótica, de forma que a pessoa não a esqueça facilmente, permitindo que a letra seja lembrada também). O fato é que essas são sentenças cuja estrutura desafia o princípio de que qualquer texto pode ser interpretado de diversas formas: elas só podem ser entendidas de um único jeito.

Não há escapatória.

A análise está “arrolhada”; o âmbito do julgamento está limitado a um contexto de fatos que exclui o julgamento do contexto no qual os fatos são criados pelo homem, e no qual o significado, a função e o desenvolvimento desses fatos são determinados.

– Página 118.

É especialmente importante para a linguagem do funcionalismo que a capacidade de julgamento seja prejudicada. Então apenas conclusões são oferecidas, novamente, em sentenças curtas e fechadas. O processo pelo qual essas conclusões vieram a ser é perdido. Afinal, quanto mais palavras a linguagem usa, mais amplo é o campo de ação do intelecto dentro dela e se a linguagem do funcionalismo opera pela manutenção da realidade dos seres, isto é, dos fatos, é importante que ninguém possa se posicionar contra ela e esse risco é minimizado em nossa cultura de cento e quarenta toques.

Quando uma tese é oferecida dessa forma, ela tem potencial circular. Por não ser possível ou por ser desencorajada a contradição, a afirmação é aceita como que por falta de opção. Ela valida a si própria.

Comprometida com essa estrutura, a investigação se torna circular e avaliadora de si.

– Página 118.

As traduções são perniciosas.

Na medida em que a Sociologia e a Psicologia operacionais contribuíram para atenuar condições sub-humana, elas são parte do progresso do intelecto e material. Mas também são testemunho da racionalidade bivalente do progresso que satisfaz em seu poder repressivo e é repressivo em suas satisfações.

– Página 116.

A linguagem comum é uma linguagem aberta, geral, que pode ser interpretada, enquanto que a do funcionalismo é curta e precisa. Quando uma reclamação em linguagem comum chega aos ouvidos ao gestor de recursos humanos (“os banheiros são anti-higiênicos”), ele a traduz em linguagem do funcionalismo, porque não poderia, como gestor de recursos humanos, trabalhar com declarações gerais (“em tais e tais ocasiões entrei nesse banheiro e o lavatório tinha alguma sujeira”, especificando que não é o tempo todo, não são todos os banheiros e que os banheiros não estavam completamente imundos). Daí, vemos que o problema tem causa específica, que é mau comportamento, fazemos umas campanhas e o problema logo está resolvido. Embora isso seja satisfatório, não pode ser em outros aspectos, como, por exemplo, no caso do empregado que reclama do salário, mas porque as despesas com o plano de saúde aumentaram, e a empresa dá um aumento para ele em particular. O fato é que a linguagem do funcionalismo se dirige a coisas particulares e não muda a natureza das coisas, mas se esforça em mantê-la, ao passo que dá aos trabalhadores a sensação de que suas queixas foram completamente resolvidas, mesmo quando isso se dá apenas no campo lógico.

As abreviaturas nada dizem.

Uma vez transformado em vocábulo oficial, constantemente repetido no uso geral, “sancionado” pelos intelectuais, terá perdido todo valor cognitivo e serve meramente ao reconhecimento de um fato indiscutível.

– Página 101.

As abreviaturas de organizações, como ONU (Organização das Nações Unidas), AFL-CIO (Federação Americana do Trabalho e Congresso de Organizações Industriais), quando ficam sem sua carga de novidade e são incorporadas à linguagem comum, acabam perdendo seu significado. Elas passam a ocultar contradições, como será demonstrado, permitindo que seu ofício verdadeiro seja ignorado de forma que ela não possa ser culpada por não cumprir seu trabalho, mas, por sua popularidade e repetição, ainda conseguem manter sua autoridade.

A história por trás de sua formação também é perdida. E isso também é interessante para o capitalismo avançado.

A lembrança do passado pode dar surgimento a perigosas introspecções e a sociedade estabelecida parece apreensiva com os conteúdos subversivos da memória.

– Página 104.

Então, é do interesse da linguagem do funcionalismo esconder contradições muito duras em abreviações, que são esvaziadas de seu significado e de sua história.

Elas ocultam contradições.

[…] não sugere o que Organização do Tratado do Atlântico Norte diz, a saber, um tratado entre nações do Atlântico Norte – caso em que se poderia levantar questão sobre a participação da Grécia e da Turquia.

– Página 100.

É do interesse da linguagem do funcionalismo que as contradições percam seu efeito, mas, quando não é fácil essa tarefa, convém que a contradição seja ocultada. E as abreviações permitem isso. Além do mais, quando a própria abreviatura esconde uma contradição, o órgão pode jogar livremente com as ideologias contraditórias implícitas, porque sua abreviatura, mesmo que não deixe a contradição clara, parece justificada depois que o significado é revelado (se o órgão tiver sobrevivido tempo o bastante para que seus atos contrários pareçam normais).

Então, as abreviaturas permitem que as contradições passem despercebidas, quando não é possível a dessensibilização da população para elas imediatamente.

A abreviatura não é esvaziada de autoridade.

[…] a abreviatura pode ajudar a reprimir perguntas indesejáveis.

– Página 100.

Uma atenção especial é dada pelo texto às abreviaturas. Embora abreviaturas sejam justificáveis quando o nome de determinada instituição é muito grande, algumas vezes as abreviaturas passam a não mais dizer coisa alguma senão certo nível de autoridade. Por exemplo, ONU nem sempre é conhecida como Organização das Nações Unidas, mas a repetição da sigla em telejornais enfatiza sua importância. Então, recomendações da ONU devem ser acatadas, apesar de não estar claro o que é a ONU e, sem explicação sobre o que é, fica difícil também saber o que a ONU deveria fazer.

Por causa disso, as abreviaturas são convenientemente esvaziadas de seu significado, sem, ao mesmo tempo, serem de sua autoridade. Assim, a ONU, que deveria manter as nações unidas, pode ficar sem culpa porque ninguém espera que ela faça isso.

Conclusão.

Depois do que foi exposto, fica claro que a própria linguagem é um instrumento de controle utilizado amplamente pelo sistema de coisas estabelecidas (capitalismo avançado), com o intuito de manter os cidadãos em seu devido lugar. A comunicação de massa, do funcionalismo, abreviada, incentiva a preguiça de pensar e o imediatismo, uma tendência a rejeitar a possibilidade de diferença, tanto por comodismo como por praticidade. É a linguagem que assegura que as coisas permanecerão como são, enquanto que outras formas de controle tem um papel mais ativo. Isso porque a linguagem dos seres oculta as possibilidades de diferença.

Se não vemos como poderia ser diferente, porque nosso discurso (logos) não o comporta, fica muito difícil mudar, mesmo quando os fatos atestam contra isso, sugerindo, vez por outra, que fatos não são a própria realidade.

Mudar essa realidade requer em primeiro lugar que diferenciemos o ser do fazer e percebamos que as pessoas e as coisas podem ser abstraídas de suas funções. Precisamos entender que nossa linguagem, a linguagem informal, tem sua importância e seu papel e que não deveríamos ser oprimidos pela linguagem formal, que é algo feito por nós. Não que a linguagem formal seja “do mal”, mas que ela não deveria ser usada como forma de opressão. Precisamos também separar as contradições dos discursos e perceber que termos contraditórios estão sendo usados como harmônicos e que um discurso verdadeiro não se compõe dessa forma; esse é o discurso de manipulação, que toma o ouvinte por tolo.

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2 Comentários »

  1. […] com outra ou não pode ser analisada, isto é, partida em informações menores, não é possível raciocinar sobre ela: ou se aceita ou rejeita. O fato é que Hobbes reduz todo o raciocínio humano às […]

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    Pingback por Anotações sobre o leviatã. | Pedra, Papel e Tesoura. — 7 de julho de 2016 @ 14:24

  2. […] pode, absolutamente, ter uma conversa decente, ainda mais argumentar filosoficamente, digitando apenas cento e quarenta caracteres por vez. O limite de caracteres do Twitter é o inferno pra mim. Às […]

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    Pingback por Twitter? | Pedra, Papel e Tesoura. — 16 de novembro de 2015 @ 19:54


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