Analecto

24 de dezembro de 2015

Anotações sobre a cidade do sol.

Filed under: Livros — Tags:, , , , , , , — Yure @ 22:12
  1. Astrologia não adianta pra gente que pensa. Só é possível prever com segurança o comportamento das pessoas que não são guiadas pela razão, porque essas seguem impulsos. E o parecer do filósofo e Tomás é de que os corpos celestes influem nos impulsos, não na razão.
  2. A presença divina não anula o livre-arbítrio, tanto que podemos blasfemar quando quisermos.
  3. O poder de um número reside nas coisas numeradas, não no número abstrato.
  4. Tomás parece sustentar algo parecido quando ele diz que o corpo celeste afeta nosso lado irracional, mas que eu posso resistir à sua influência. Em adição, Agostinho repudia qualquer caráter de necessidade astrológica, dizendo que os astrólogos não acertam senão por acaso.
  5. Em defesa da astrologia, o filósofo diz que ela não é uma ciência necessária, isto é, que aquilo que os astrólogos dizem não necessariamente acontecerá, mas apenas que falam aquilo que a configuração celeste propicia ou aconselha. Por exemplo: não é porque o sol nasceu que eu me levantarei da cama, mas esse movimento celeste dificulta meu sono e favorece meu despertar. Porém, eu posso simplesmente ignorar e fechar a janela. Então, no ver de o filósofo, a astrologia revela, não o necessário, mas o provável.
  6. O filósofo admite que isso já era sustentado por Tomás.
  7. Deus é causa universal, não particular. Ele institui uma causalidade universal (a física) que representa sua vontade, de forma que ele não precise agir pessoalmente em tudo.
  8. A produção de conhecimento aumenta exponencialmente. A quantidade de conhecimento produzido neste século é maior que a quantidade produzida no milênio anterior.
  9. Segundo o filósofo, a religião cristã deve dominar o universo inteiro.
  10. Para o filósofo, Jesus era filósofo. Porém, o filósofo, sendo trinitário, estaria dizendo que Deus é filósofo. Só que filósofo é o “amigo da sabedoria”, aquele que não tem a sabedoria nem é a sabedoria, mas quer dela se aproximar porque ela lhe dá prazer. A sabedoria agracia o filósofo com sua presença e o filósofo agracia a sabedoria com sua divulgação. Mas Deus já é sábio. Ele está em possessão da sabedoria. De acordo com Platão, só pode ser filósofo, só pode procurar a sabedoria, quem está plenamente ciente da própria ignorância e dela deseja se livrar. Então, chamar Deus de filósofo é implicar que ele é ignorante de alguma coisa, o que não é possível, sendo ele sumamente sábio.
  11. O universo não é governado pelo acaso.
  12. Para o filósofo, a transmissão do pecado original não é uma transmissão de culpa, porque não pecamos como Adão pecou. É uma transmissão de pena. Herdamos a pena de Adão, porque a pena estipulada por Deus se estenderia até as gerações seguintes, mesmo que não tivessem culpa do que Adão fez. Suponhamos que um pai receba Bolsa Família, o qual é cadastrada no nome dele, sendo que ele tem dois filhos para cuidar. Em certo ponto, o pai precisa se cadastrar novamente, mas, por pensar que o benefício não será removido se ele não o fizer, ele faz pouco caso e deixa de lado. No mês seguinte, ele tem o benefício negado e as crianças passam fome. Elas sofrem com o ato do pai sem terem culpa do que fizeram.
  13. Os solares crêem na Trindade, mas não da forma como os outros seres. Para os solares, Deus é um só. Pai, Filho e Espírito Santo seriam, para o filósofo, como que órgãos divinos, não três entes distintos que, juntos, formam um só.
  14. Quem conhece o bem e pode fazer o bem, quererá fazer o bem. Quem quer praticar o mal o faz por não conhecer o bem ou não poder fazer o bem.
  15. O mal vem da deficiência de bem.
  16. Tal como Bruno, o filósofo via o mundo como um grande animal.
  17. Ao contrário da crença da época, o filósofo pensava haver somente um céu, em vez de vários.
  18. Somente Deus pode ser cultuado.
  19. Os habitantes da Cidade do Sol acreditavam que a Terra ficava mais próxima do Sol a cada ano e que isso influiu na duração das estações. Hoje se sabe que isso é verdade.
  20. Todas as preces pessoais terminam com “como melhor parecer a Deus”.
  21. A religião local tem fortes traços judaicos, talvez mais fortes que os traços cristãos. Por exemplo: são oferecidos sacrifícios a Deus e o sacerdote tem poder de expiar os pecados do povo inteiro periodicamente.
  22. As leis são simples, curtas, claras e expostas ao público.
  23. Se alguém é condenado à morte, o próprio povo tem o direito de matar o condenado.
  24. Sócrates era epiléptico?
  25. Para o filósofo, os alimentos devem ser consumidos na estação em que podem ser colhidos, porque seria o tempo que Deus designou para seu consumo.
  26. Como regra geral, não é permitido tomar vinho antes dos dezenove anos, mas é aberta uma exceção em caso de recomendação médica.
  27. Também para o filósofo, não se deve evitar matar os animais para comê-los. Afinal, plantas também têm vida. Se deixássemos de matar criaturas vivas para consumo porque elas estão vivas, efetivamente nós morreremos de fome.
  28. Para o filósofo, Deus proveu as causas das coisas para que o ser humano delas fizesse uso. Tomás talvez concordasse.
  29. Na conduta pessoal, isto é, quando não se trata de guerra, um solar só briga se alguém começar a briga.
  30. Os habitantes solares não usam adubo a terra, comparando-a ao uso de maquilagem.
  31. Para evitar corrupção de costumes, o comércio com estrangeiros se dá nos portos.
  32. O supérfluo é vendido ou mesmo trocado por mercadoria necessária com os vendedores viajantes.
  33. O dinheiro serve somente para trato com sociedades capitalistas. Ele não é usado dentro da cidade.
  34. Nem todas as guerras terminam com o aniquilamento da nação oposta: as guerras devem tornar o inimigo alguém melhor.
  35. As punições aos covardes são altamente severas, como ser jogado na cova com animais de grande porte, com apenas um bastão em mãos. Ou você morre ou mata todos com um pedaço de pau. Se conseguir, pode voltar à sociedade.
  36. O primeiro soldado que foge à guerra é condenado à morte, a menos que todo o exército peça misericórdia por ele.
  37. Conduzem cavalos com os pés, detalhe.
  38. Os despojos da guerra são guardados em memória do ocorrido.
  39. A presença dos olhos da família estimula os combatentes a “dar um espetáculo”. Depois da batalha, são as esposas e os filhos que medicam os combatentes.
  40. As crianças vão assistir a guerra à cavalo. Isso o filósofo “roubou” de Platão.
  41. Se os opositores, após aviso do forense, pedem um tempo para deliberar, não é dado mais que três horas.
  42. Mas, após aprovar a guerra, enviam um sacerdote forense para a nação inimiga para pedir que cedam. Se não cederem, ele notifica a declaração de guerra. Ou seja, dão uma chance de evitar os inconvenientes que surgiriam com uma guerra.
  43. Interessante como se ajoelham e oram a Deus antes de fazer guerra.
  44. Aprendem artes da guerra por treinamento teórico e prático todos os dias. Além disso, lêem sobre os guerreiros famosos do passado, para julgar seus estratégias, adotando o que consideram útil e reprovando elementos estratégicos fracos.
  45. Os cidadãos solares provocam guerra contra outras cidades, se elas são julgadas inimigas da república ou da humanidade, ou seja, quando uma cidade representa problema para o gênero humano.
  46. A religião é um meio de vencer o medo da morte. Sendo crentes da imortalidade da alma, os habitantes da Cidade do Sol não temem morrer em guerra.
  47. A covardia é punida.
  48. As mulheres também participam da guerra.
  49. Para o filósofo, nenhuma deficiência impede a pessoa de trabalhar. Há trabalhos para coxos e para cegos, por exemplo. A única desculpa seria a idade: quem está muito velho pode parar de trabalhar. Porém, nem por isso é inútil, pois a experiência de vida o habilita a dar ótimos conselhos.
  50. Agostinho já aprovava a comunidade de bens… mas a comunidade de mulheres, isto é, tornar as mulheres um bem público, parece complicada de se manter.
  51. A pobreza é a raiz de várias corrupções morais, tal com também a riqueza. Talvez o mundo fosse melhor se não houvesse exploração da força de trabalho. Sabe-se que Marx leu um pensador da Itália, mas fez pouco caso dele (alguns pensam que é filósofo do meu professor de metafísica), talvez ele tenha lido também a Cidade do Sol.
  52. Ninguém na Cidade do Sol trabalha mais que quatro horas por dia. O resto do dia pode ser consagrado aos estudos e ao divertimento. Os divertimentos não podem envolver apenas exercício mental ou sorte, isto é, nenhum jogo que faça pouco caso do corpo é permitido (dados e xadrez, por exemplo).
  53. Tal como More, o filósofo pensa que todos teriam que trabalhar menos se fosse dada oportunidade de trabalho, por exemplo, aos mendigos. Imagine quantas pessoas adultas em boas condições físicas estão ociosas neste instante.
  54. Diferente das outras sociedades da época, a Cidade do Sol não tinha escravidão, porque os próprios trabalhadores faziam seu sustento. Pena que tal cidade nunca existiu.
  55. A soberba é punida com toda a humilhação possível. Todos os atos fisiológicos são igualmente honrosos, então as enfermeiras não se envergonham de limpar o traseiro de algum enfermo que teve um “acidente”.
  56. Segundo o filósofo, as mulheres só se dão aos cosméticos por serem ociosas. Se trabalhassem e praticassem exercício, teriam uma beleza saudável que dispensaria esses artifícios. E de fato, a mulher que faz exercícios na academia raramente é vista com salto ou maquilagem e ainda assim é muitas vezes tida por linda.
  57. Na Cidade do Sol, a mulher que se enfeita ou deliberadamente esconde algum aspecto de seu corpo, a fim de parecer mais bela, é sujeita à pena de morte. Assim são banidas a maquilagem, o salto alto e os vestidos longos.
  58. A interferência estatal no sexo também tem por objetivo reduzir a taxa de natalidade de crianças deformadas.
  59. O cuidado com a geração e com a educação estão na base da Cidade do Sol.
  60. O objetivo da geração é a conservação da espécie, não do indivíduo. Por causa disso, o sexo é um direito público, embora ainda seja regulado pelo governo.
  61. Nomear as crianças cabe ao Metafísico. As crianças são nomeadas segundo suas características. Ao longo da vida, se elas fazem alguma conquista, recebem um segundo nome, um epíteto, referente à conquista.
  62. O Estado se esforça para que todos nasçam sob a mesma configuração estelar, de forma a maximizar a solicitude e a fraternidade. Vale lembrar que Agostinho tem fortes objeções contra isso, já que, para Agostinho, a configuração estelar não influi em nada na vida do indivíduo.
  63. Período de resguarda de quinze dias.
  64. Um homem deve unir-se a uma mulher com características opostas. Por exemplo: homens magros devem cruzar com mulheres gordas, homens sábios e prudentes devem cruzar com mulheres emotivas e vivazes. A ideia é ter filhos equilibrados. Hoje se sabe que as coisas não funcionam assim…
  65. O sexo é vetado aos que não se expiavam de pecados cometidos recentemente. Também é necessário ter conservado o sêmen no corpo por, pelo menos, três dias. Pra mim, isso é um sacrifício.
  66. São observadas condições médicas para uma boa cópula entre os pais e condições astrais para um bom nascimento de uma boa criança.
  67. As cópulas são agendadas pelos magistrados, que decidem quem deve transar com quem.
  68. O sexo anal é terminantemente proibido. As primeiras punições são apenas humilhantes. Mas consecutivas violações dessa regra resultam em morte.
  69. A prática sexual é regulada. O sexo não é permitido aos homens com menos de vinte e um anos nem às mulheres com menos de dezenove anos. A coisa é mais flexível no caso das grávidas e das estéreis, porque a intervenção estatal no sexo visa a geração de filhos melhores. Então, se a mulher ou homem não puderem gerar, não tem muito sentido ser rígido.
  70. A estrutura de diálogo é forçada. É mais um tratado convertido em diálogo. Na verdade, acho até que seria melhor ter sido escrito como tratado desde o início.
  71. A atividade dos culinários deve ser coordenada pelos médicos. Isso me lembra de quando Sócrates interpelou alguém sobre um concurso de culinária onde os juízes são crianças e os competidores são um médico e um cozinheiro. O médico sabe o que é saudável, mas o cozinheiro sabe o que é doce. As crianças teriam então uma consideração indevida pelo cozinheiro, o qual agrada, mesmo que tenha que recorrer à quantidades obscenas de açúcar. Platão usa esse exemplo pra ilustrar como a sofística se compara com a filosofia: a sofística tenta dizer o que agrada, mas a filosofia tenta dizer a verdade.
  72. Quem conhece só uma ciência não conhece nada. O conhecimento propriamente dito, não a simples erudição e aprofundamento, vem da relação entre as várias ciências, da comparação entre elas e da sua livre mescla, além de que tudo isso deve gerar consequências práticas, mesmo que apenas aperfeiçoamento moral. Isso me lembra o próprio ambiente acadêmico do qual eu tento fugir com este estudo. Pelo diálogo com obras filosóficas de diferentes autores, eu espero construir meu próprio conhecimento, vendo até que ponto essas doutrinas funcionam aqui e agora, em vez de entendê-las no tempo em que foram escritas. Já na universidade, a tendência é de que os professores se afoguem no estudo de uma apenas. Ou seja, uma ciência sem prática.
  73. A liderança da cidade é perpétua… até que se descubra alguém melhor qualificado.
  74. Parece que o grande metafísico, líder do povo da Cidade do Sol, precisa saber tudo o que há para saber e em quantidade decente. Exceto por teologia e metafísica, que devem ser conhecidas não apenas decentemente, mas integralmente.
  75. Todos os trabalhadores são dignos. Não se deve discriminar alguém pela função que exerce. Cada um faz seu papel na manutenção da cidade.
  76. Os que obtém melhor desempenho nos estudos se tornam magistrados. O tipo de magistratura depende da matéria na qual o estudante melhor se saiu.
  77. Não é porque começou o estudo da natureza que a educação física é abandonada. Ela continua sendo leccionada depois dos sete anos.
  78. Após os sete anos, aprendem matemática observando as pinturas nos anéis. Só então são leccionadas as ciências naturais.
  79. Até os sete anos, os alunos também têm acesso às oficinas das múltiplas artes (técnicas, empregos), para ficarem a par do que cada um faz na cidade.
  80. Depois, se aprende educação física, a única disciplina até os sete anos.
  81. Primeiro, até os três anos, se aprende a língua materna.
  82. Todos são educados em tudo nas escolas.
  83. As penas pelos crimes tomam forma de restrições aos bens comuns.
  84. Há pelo menos um magistrado para cada virtude. A mentira é o pior de todos os delitos.
  85. As formas de tratamento parecem baseadas nas encontradas na República, onde pessoas velhas o bastante podem ser chamadas todas de “pai” pelos mais novos, tal como você poderia seguramente chamar de “filho” qualquer um que tivesse idade para isso.
  86. Não fosse o Estado, a Cidade do Sol teria um sistema político comunista.
  87. Tudo é público na cidade, mas nem por isso os habitantes são preguiçosos. De fato, se todos esperassem uns pelos outros, a coisa pública não se sustentaria. Então, pela própria utilidade de tudo ser público e mantido pelo público, os habitantes trabalham pela manutenção do público. Não é como se nada fosse de ninguém, pelo contrário: tudo é de todos. E é natural que cuidemos do que é nosso, mesmo que essa seja uma responsabilidade partilhada.
  88. A propriedade privada produz o amor-próprio, que torna os ricos prepotentes e os pobres hipócritas.
  89. As mulheres também são públicas, mas vale lembrar que isso não significa procriação livre.
  90. Todas as coisas são públicas entre os solares.
  91. A população da Cidade do Sol procedeu da Índia. Fugiram de lá por não aguentar os abusos de poder.
  92. Sapiência, Potência e Amor governam a cidade com o Metafísico, mas tudo precisa da coordenação e do aval do Metafísico.
  93. Amor também gerencia alimentação e vestuário.
  94. Parece estranho, para o filósofo, que nós nos preocupamos em agendar e otimizar a prole de cães e cavalos, mas não nossa própria prole. Isso é meio nazista, mas diverge da eugenia de Hitler: este queria que só uma raça existisse, mas o filósofo não diz que se deve eliminar os que não sejam de certa raça, mas apenas que a geração seguinte deve ser melhor por meio de casamentos agendados.
  95. A tarefa do chefe Amor é garantir que a prole seguinte seja melhor que a anterior.
  96. As crianças aprendem sendo guiadas pelos professores por entre os anéis de proteção da cidade, vendo as gravuras e lendo as descrições.
  97. A parte interna do sexto círculo contém imagens e ilustrações das pessoas mais importantes nas leis mundiais, nas artes bélicas e nas ciências. Inclusive, figuras religiosas estão representadas. Os solares conhecem a história mundial mandando exploradores ao redor do mundo.
  98. A parte externa do sexto círculo contém conhecimento mecânico e técnico. Instrumentos mecânicos e seus usos são descritos ali.
  99. A parte interna e externa do quinto círculo tem conhecimento biológico sobre os outros animais terrestres, inclusive espécies desconhecidas aos que não são da cidade.
  100. Na parte externa do quarto anel há conhecimento sobre os répteis e insetos, inclusive os míticos dragões.
  101. No quarto círculo há conhecimento biológico e mítico sobre aves. Inclusive sobre a fénix. Esse conhecimento é feito por figuras, como nos outros círculos, com descrição física, temperamental e social e das aves.
  102. Na parte externa do terceiro anel há conhecimento sobre as coisas marinhas.
  103. No terceiro anel há conhecimento botânico, tal como amostras de plantas.
  104. Também no segundo anel está o conhecimento atmosférico: sobre trovões, arco-íris e tal.
  105. No lado externo do segundo anel está o conhecimento sobre líquidos, tanto a hidrografia da Terra, como a descrição dos vinhos e licores de cada região. Também amostras de líquidos medicinais.
  106. No segundo anel está o conhecimento geológico. O muro é adornado com amostras de metais e pedras preciosas, com descrições ao lado.
  107. Também no primeiro anel, na parte externa, está a carta cartográfica da Terra inteira, com versos descrevendo costumes, língua, força militar de cada região.
  108. O primeiro anel tem conhecimento geométrico: formas, com alguns versos ao seu lado com descrição.
  109. Nos anéis que protegem a cidade estão pintados conhecimentos científicos.
  110. Há um magistrado pra cada ciência.
  111. A Sapiência é um ministro da ciência. Existe um livro chamado Saber, onde estão escritas todas as ciências em linguagem clara. Imagine a quantidade de notas de rodapé pra explicar termos técnicos.
  112. A Potência é um ministro militar.
  113. O metafísico tem autoridade absoluta, mas é assistido por outros três chefes: potência, sapiência e amor.
  114. A cidade é regida por um metafísico.
  115. A administração da cidade inclui conhecimento preciso sobre o clima e as estações.
  116. Existe um tipo de “mapa astrológico” pintado no teto, mostrando os corpos celestes que influem sobre a vida terrena, ao lado de uma descrição de seu efeito, segundo a astrologia.
  117. No centro do último anel há um templo circular com o teto como que fendido no centro, de forma que a luz celeste incida sobre o único altar, que se encontra no centro do templo.
  118. Existem bairros entre um anel e outro.
  119. Ao final de cada caminho que liga um anel a outro, há uma porta levadiça. Elas seriam fechadas em caso de guerra, mas abertas quando há paz, de forma que se possa entrar e sair da cidade livremente.
  120. Em caso de guerra, os anéis (que na verdade são muros circulares) que cercam a cidade oferecem um grande desafio ao ataque do ofensor. Especialmente porque o anel seguinte é mais resistente que o anterior.
  121. Os anéis se ligam uns aos outros por caminhos feitos em sincronia com os pontos cardeais.
  122. A cidade é cercada por sete anéis, um para cada planeta conhecido na época.
  123. A Cidade do Sol fica numa extensa planície, sob a linha do Equador.
  124. Não faz sentido tratar daquilo que nunca existiu, nunca existirá, nem nunca se espera que exista.
  125. Não existe comunidade sem delitos.
  126. Não existe pessoa sem pecado.
  127. Não se pode colocar as mulheres sob domínio público e esperar que a população seja casta.
  128. Não há comunidade que aceite, por tanto tempo, viver sob leis tão severas.
  129. Não são feitas leis pensando em quem vai transgredir ou não, mas em quantas pessoas se beneficiariam de sua observância.
  130. Não há quem siga todas as leis de um código extenso.
  131. Não existe mal republicano que não seja ocasionado pela riqueza ou pela pobreza.
  132. Não existe vício que não seja oriundo de exagero ou carência.
  133. Não existe Utopia de More, República de Platão ou Cidade do Sol que possa ser imitada integralmente: elas são ideias, sociedades ideais que das quais só se pode se aproximar.
  134. Não existe religioso verdadeiro que se revolte com a disciplina de sua religião.
  135. Se muitos empregados fazem a mesma coisa, o serviço acaba ficando mal-feito: um deixará que o outro faça o trabalho que esse um deveria fazer. Além disso, se o serviço fica ruim, fica difícil saber de quem é a culpa.
  136. Os apóstolos tinham tudo em comum. Segundo o filósofo, até as mulheres eram bens comuns. Eu achei isso muito suspeito, porque não vi tal coisa em minha leitura do Novo Testamento.
  137. A propriedade privada é contra a natureza.
  138. A propriedade privada começa com a usurpação de bens, motivada pela cobiça e sustentada pela avareza. O filósofo disse isso antes de Rousseau e bem antes de Marx.
  139. Se a comunhão de bens não fosse algo bom, os que negaram partilhar seus bens não seriam cobrados segundo o pecado da avareza. A propriedade privada e o desejo de acúmulo de bens causa o egoísmo.
  140. A única forma de justificar a propriedade privada seria dizendo que algo é seu para distribuir. Ou seja, é dever do rico compensar a pobreza do próximo. Isso não significa dar tudo o que se tem, mas dar o suficiente para contribuir contra a má distribuição de bens, propagando justiça entre si mesmo e aqueles que tem pouco.
  141. Pagar o imposto ao Estado é uma forma de assegurar que o excesso de um cubra a carência de outro, porque uma das tarefas do Estado é justamente a administração das riquezas da população. Claro que o Estado não pode ser corrupto, se quisermos que se preste a esse fim. O Lula inventou um ótimo jeito de se dispensar dinheiro aos pobres, de maneira direta, pelo Bolsa Família. Porque é mais difícil roubar de alguém quando a pessoa sabe exatamente quanto deve receber. Por que é fácil roubar dinheiro público em projetos de construção civil? Porque não fica claro para a população e às vezes até pro próprio Estado quanto está sendo gasto ali. Mas se alguém modifica o Bolsa Família, que é contado, não é possível ocultar o roubo. Além disso, é dinheiro dado diretamente na mão da população. A frustração do povo é muito maior assim e o Brasil sabe, desde 2011, que a tolerância popular tem limites.
  142. O filósofo não está propondo um comunismo, mas um socialismo: não seria possível manter tal sistema sem a presença do Estado. Porém, ainda não é um socialismo em sentido tradicional.
  143. Sem o Estado, ninguém iria querer trabalhar direito. O Estado deveria distribuir as tarefas, segundo aptidões.
  144. A mulher que vai a guerra ou que busca o sustento dos filhos, ambas tarefas comumente tidas por masculinas, não age contra a natureza. Não é como se a mulher tivesse um papel natural, como quer Aristóteles.
  145. O pecado contra a natureza é aquele que, ao ser praticado, prejudica o indivíduo ou sua espécie.
  146. Tomás de Aquino diz que não se deve fornicar porque isso é um empecilho à educação dos filhos e ao compromisso com a mulher. Mas como é que fornicar pode ser empecilho à educação dos filhos… se a mulher comprometida for estéril?
  147. O Génesis diz que homem deixa os pais para unir-se à mulher numa só carne. Mas então como é que Salomão, por exemplo, tinha setenta mulheres? o filósofo argumenta que “tornar-se uma só carne” não implica que um homem deva ter apenas uma mulher, porque Salomão não foi punido por ter todas essas mulheres nem outros patriarcas do judaísmo o forma pela mesma razão, que era a poligamia. Segundo o filósofo, “tornar-se uma só carne” refere-se ao filho do casal, que é carne derivada do material genético de ambos os pais. Isso explicaria muitas coisas no Antigo Testamento. Por exemplo, será que fornicação era entendida como sexo pré-marital naquela época? Na minha leitura do Antigo Testamento, não se fala de casamento, mas de “tomar para si” uma mulher virgem com consenso dos pais da moça. A fornicação era todo e qualquer sexo ilícito, não o pré-marital, pois não havia casamento, no sentido de comprometimento com uma só moça. Seria fornicação se a moça fosse forçada, por não haver consenso paterno, por exemplo, ou se houvesse um adultério, que seria tomar a mulher cuja a virgindade já fora tomada por outrem, a menos que ela tivesse sido repudiada.
Older Posts »

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: