Analecto

24 de dezembro de 2015

Anotações sobre “A Cidade do Sol”.

A Cidade do Sol é um livro escrito por Campanella.

  1. Astrologia não adianta pra gente que pensa, diz o autor. Só é possível prever com segurança o comportamento das pessoas que não são guiadas pela razão, porque estas seguem impulsos. E o parecer do filósofo e Tomás é de que os corpos celestes influem nos impulsos, não na razão.
  2. A presença divina não anula o livre-arbítrio, tanto que podemos blasfemar quando quisermos.
  3. O poder de um número reside nas coisas numeradas, não no número abstrato.
  4. Tomás parece sustentar algo parecido quando ele diz que o corpo celeste afeta nosso lado irracional, mas que eu posso resistir à sua influência. Em adição, Agostinho repudia qualquer caráter de necessidade astrológica, dizendo que os astrólogos não acertam senão por acaso.
  5. Em defesa da astrologia, o filósofo diz que ela não é uma ciência necessária, isto é, que aquilo que os astrólogos dizem não necessariamente acontecerá, mas apenas que falam aquilo que a configuração celeste propicia ou aconselha. Por exemplo: não é porque o sol nasceu que eu me levantarei da cama, mas esse movimento celeste dificulta meu sono e favorece meu despertar. Porém, eu posso simplesmente ignorar e fechar a janela. Então, no ver de o filósofo, a astrologia revela não o necessário, mas o provável.
  6. O filósofo admite que isso já era sustentado por Tomás.
  7. Deus é causa universal, não particular. Ele institui uma causalidade universal (a física) que representa sua vontade, de forma que ele não precise agir pessoalmente em tudo.
  8. A produção de conhecimento aumenta exponencialmente. A quantidade de conhecimento produzido neste século é maior que a quantidade produzida no milênio anterior.
  9. Segundo o filósofo, a religião cristã deve dominar o universo inteiro. Dá uma boa aventura de RPG, essa de cruzadas intergaláticas. Parece coisa de GURPS 3ª Edição.
  10. Para o filósofo, Jesus era filósofo. Porém, o filósofo, supondo que seja trinitarista, estaria dizendo que Deus é filósofo. Só que filósofo é o “amigo da sabedoria”, aquele que não tem a sabedoria nem é a sabedoria, mas quer dela se aproximar porque ela lhe dá prazer. A sabedoria agracia o filósofo com sua presença e o filósofo agracia a sabedoria com sua divulgação. Mas Deus já é sábio. Ele está em possessão da sabedoria. De acordo com Platão, só pode ser filósofo, só pode procurar a sabedoria, quem está plenamente ciente da própria ignorância e dela deseja se livrar. Então, chamar Deus de filósofo é implicar que ele é ignorante de alguma coisa, o que não é possível, sendo ele sumamente sábio. Claro, isso somente no caso de o autor ser trinitarista.
  11. O universo não é governado pelo acaso.
  12. Para o filósofo, a transmissão do pecado original não é uma transmissão de culpa, porque não pecamos como Adão pecou. É uma transmissão de pena. Herdamos a pena de Adão, porque a pena estipulada por Deus se estenderia às gerações seguintes, mesmo que não tivessem culpa do que Adão fez. Suponhamos que um pai receba Bolsa Família, o qual é cadastrada no nome dele, sendo que ele tem dois filhos para cuidar. Em certo ponto, o pai precisa se cadastrar novamente, mas, por pensar que o benefício não será removido se ele não o fizer, ele faz pouco caso e deixa de lado. No mês seguinte, ele tem o benefício negado e as crianças passam fome. Elas sofrem com o ato do pai sem terem culpa do que fizeram.
  13. Os solares crêem na Trindade, mas não da forma como os outros seres. Para os solares, Deus é um só. Pai, Filho e Espírito Santo seriam, para o filósofo, como que órgãos divinos, não três entes distintos que, juntos, formam um só.
  14. Quem conhece o bem e pode fazer o bem, quererá fazer o bem. Quem quer praticar o mal o faz por não conhecer o bem ou não poder fazer o bem.
  15. O mal vem da deficiência de bem.
  16. Tal como Bruno, o filósofo via o mundo como um grande animal.
  17. Ao contrário da crença da época, o filósofo pensava haver somente um céu, em vez de vários.
  18. Somente Deus pode ser cultuado.
  19. Os habitantes da Cidade do Sol acreditavam que a Terra ficava mais próxima do Sol a cada ano e que isso influiu na duração das estações. Hoje se sabe que isso é verdade.
  20. Todas as preces pessoais terminam com “como melhor parecer a Deus”.
  21. A religião local tem fortes traços judaicos, talvez mais fortes que os traços cristãos. Por exemplo: são oferecidos sacrifícios a Deus e o sacerdote tem poder de expiar os pecados do povo inteiro periodicamente.
  22. As leis são simples, curtas, claras e expostas ao público.
  23. Se alguém é condenado à morte, o próprio povo tem o direito de matar o condenado.
  24. Sócrates era epiléptico?
  25. Para o filósofo, os alimentos devem ser consumidos na estação em que podem ser colhidos, porque seria o tempo que Deus designou para seu consumo.
  26. Como regra geral, não é permitido tomar vinho antes dos dezenove anos, mas é aberta uma exceção em caso de recomendação médica. Mais ou menos como a maconha é hoje no Brasil.
  27. Também para o filósofo, não se deve evitar matar os animais para comê-los. Afinal, plantas também têm vida. Se deixarmos de matar criaturas vivas para consumo porque elas estão vivas, efetivamente nós morreremos de fome.
  28. Para o filósofo, Deus proveu as causas das coisas para que o ser humano delas fizesse uso. Tomás talvez concordasse.
  29. Na conduta pessoal, isto é, quando não se trata de guerra, um solar só briga se alguém começar a briga.
  30. Os habitantes solares não adubam a terra, comparando-a ao uso de maquiagem.
  31. Para evitar corrupção de costumes, o comércio com estrangeiros se dá nos portos, dos quais estrangeiros não passam.
  32. O supérfluo é vendido ou mesmo trocado por mercadoria necessária com os vendedores viajantes.
  33. O dinheiro serve somente para trato com sociedades capitalistas. Ele não é usado dentro da cidade. A moeda local é apenas para importação.
  34. Nem todas as guerras terminam com o aniquilamento da nação oposta: as guerras devem tornar o inimigo alguém melhor.
  35. As punições aos covardes são altamente severas, como ser jogado na cova com animais de grande porte, com apenas um bastão em mãos. Ou você morre ou mata todos com um pedaço de pau. Se conseguir, pode voltar à sociedade.
  36. O primeiro soldado que foge à guerra é condenado à morte, a menos que todo o exército peça misericórdia por ele.
  37. Conduzem cavalos com os pés, detalhe.
  38. Os despojos da guerra são guardados em memória do ocorrido.
  39. A presença dos olhos da família estimula os combatentes a “dar um espetáculo”. Depois da batalha, são as esposas e os filhos que medicam os combatentes.
  40. As crianças vão assistir a guerra à cavalo. Isso o filósofo roubou de Platão.
  41. Se os opositores, após aviso do forense, pedem um tempo para deliberar, não é dado mais que três horas.
  42. Mas, após aprovar a guerra, enviam um sacerdote forense para a nação inimiga para pedir que cedam. Se não cederem, ele notifica a declaração de guerra. Ou seja, dão uma chance de evitar os inconvenientes que surgiriam com uma guerra.
  43. Interessante como se ajoelham e oram a Deus antes de fazer guerra.
  44. Aprendem artes da guerra por treinamento teórico e prático todos os dias. Além disso, lêem sobre os guerreiros famosos do passado, para julgar suas estratégias, adotando o que consideram útil e reprovando elementos estratégicos fracos.
  45. Os cidadãos solares provocam guerra contra outras cidades, se elas são julgadas inimigas da república ou da humanidade, ou seja, quando uma cidade representa problema para o gênero humano. Campanella provavelmente aprovaria um ataque à Coreia do Norte.
  46. A religião é um meio de vencer o medo da morte. Sendo crentes na imortalidade da alma, os habitantes da Cidade do Sol não temem morrer em guerra.
  47. As mulheres também participam da guerra.
  48. Para o filósofo, nenhuma deficiência impede a pessoa de trabalhar. Há trabalhos para coxos e para cegos, por exemplo. A única desculpa seria a idade: quem está muito velho pode parar de trabalhar. Porém, nem por isso é inútil, pois a experiência de vida o habilita a dar ótimos conselhos.
  49. Agostinho já aprovava a comunidade de bens… mas a comunidade de mulheres, isto é, tornar as mulheres um bem público, parece complicada de se manter.
  50. A pobreza é a raiz de várias corrupções morais, tal com também a riqueza. Talvez o mundo fosse melhor se não houvesse exploração da força de trabalho. Sabe-se que Marx leu um pensador da Itália, mas fez pouco caso dele e nunca disse seu nome (alguns pensam que é Gianbattista Vico). Teria sido Campanella?
  51. Ninguém na Cidade do Sol trabalha mais que quatro horas por dia. O resto do dia pode ser consagrado aos estudos e ao divertimento. Os divertimentos não podem envolver apenas exercício mental ou sorte, isto é, nenhum jogo que faça pouco caso do corpo é permitido (dados e xadrez, por exemplo).
  52. Tal como More, o filósofo pensa que todos teriam que trabalhar menos se fosse dada oportunidade de trabalho, por exemplo, aos mendigos. Imagine quantas pessoas adultas em boas condições físicas estão ociosas neste instante. Eu, por exemplo, que estou procurando emprego como um desgraçado.
  53. Diferente das outras sociedades da época, a Cidade do Sol não tinha escravidão, porque os próprios trabalhadores faziam seu sustento. Pena que tal cidade nunca existiu.
  54. A soberba é punida com toda a humilhação possível. Todos os atos fisiológicos são igualmente honrosos, então as enfermeiras não se envergonham de limpar o traseiro de algum enfermo que teve um “acidente”.
  55. Segundo o filósofo, as mulheres só se dão aos cosméticos por serem ociosas. Se trabalhassem e praticassem exercício, teriam uma beleza saudável que dispensaria esses artifícios. E de fato, a mulher que faz exercícios na academia raramente é vista com salto ou maquiagem e ainda assim é muitas vezes tida por linda.
  56. Na Cidade do Sol, a mulher que se enfeita ou deliberadamente esconde algum aspecto de seu corpo, a fim de parecer mais bela, é sujeita à pena de morte! Assim são banidos a maquiagem, o salto alto e os vestidos longos.
  57. A interferência estatal no sexo também tem por objetivo reduzir a taxa de natalidade de crianças deformadas.
  58. O cuidado com a geração e com a educação estão na base da Cidade do Sol.
  59. O objetivo da geração é a conservação da espécie, não do indivíduo. Por causa disso, o sexo é um direito público, embora ainda seja regulado pelo governo.
  60. Nomear as crianças cabe ao Metafísico local. As crianças são nomeadas segundo suas características. Ao longo da vida, se elas fazem alguma conquista, recebem um segundo nome, um epíteto, referente à conquista.
  61. O Estado se esforça para que todos nasçam sob a mesma configuração estelar, de forma a maximizar a solicitude e a fraternidade. Vale lembrar que Agostinho tem fortes objeções contra isso, já que, para Agostinho, a configuração estelar não influi em nada na vida do indivíduo (Esaú e Jacó nasceram sob a mesma configuração celeste, pois são gêmeos, e todo o mundo sabe no que deu).
  62. Período de resguarda de quinze dias.
  63. Um homem deve unir-se a uma mulher com características opostas. Por exemplo: homens magros devem cruzar com mulheres gordas, homens sábios e prudentes devem cruzar com mulheres emotivas e vivazes. A ideia é ter filhos equilibrados. Hoje se sabe que as coisas não funcionam assim…
  64. O sexo é vetado aos que não se expiavam de pecados cometidos recentemente. Também é necessário ter conservado o sêmen no corpo por, pelo menos, três dias. Pra mim, isso é um sacrifício.
  65. São observadas condições médicas para uma boa cópula entre os pais e condições astrais para um bom nascimento de uma boa criança.
  66. As cópulas são agendadas pelos magistrados, que decidem quem deve transar com quem.
  67. O sexo anal é terminantemente proibido. As primeiras punições são apenas humilhantes. Mas consecutivas violações dessa regra resultam em morte. E se eu só fizesse uma massagenzinha?
  68. A prática sexual é regulada. O sexo não é permitido aos homens com menos de vinte e um anos nem às mulheres com menos de dezenove anos. A coisa é mais flexível no caso das grávidas e das estéreis, porque a intervenção estatal no sexo visa a geração de filhos melhores. Então, se a mulher ou homem não puderem gerar, não tem muito sentido ser rígido. Ora, mas isso quer dizer que formas não-penetrativas de atividade sexual não são proibidas, certo? Interessante!
  69. A estrutura de diálogo é forçada. É mais um tratado convertido em diálogo. Na verdade, acho até que seria melhor ter sido escrito como tratado desde o início.
  70. A atividade dos culinários deve ser coordenada pelos médicos. Isso me lembra de quando Sócrates interpelou alguém sobre um concurso de culinária onde os juízes são crianças e os competidores são um médico e um cozinheiro. O médico sabe o que é saudável, mas o cozinheiro sabe o que é doce. As crianças teriam então uma consideração indevida pelo cozinheiro, o qual agrada, mesmo que tenha que recorrer à quantidades obscenas de açúcar. Platão usa esse exemplo pra ilustrar como a sofística se compara com a filosofia: a sofística tenta dizer o que agrada, mas a filosofia tenta dizer a verdade. E a verdade, muitas vezes, é desagradável.
  71. Quem conhece só uma ciência não conhece nada. O conhecimento propriamente dito, não a simples erudição e aprofundamento, vem da relação entre as várias ciências, da comparação entre elas e da sua livre mescla, além de que tudo isso deve gerar consequências práticas, mesmo que apenas aperfeiçoamento moral. Isso me lembra a universidade. Pelo diálogo com obras filosóficas de diferentes autores, eu espero construir meu próprio pensamento, vendo até que ponto essas doutrinas funcionam aqui e agora, em vez de entendê-las no tempo em que foram escritas. Já na universidade, a tendência é de que os professores se afoguem no estudo de um autor apenas. Ou seja, uma ciência sem prática.
  72. A liderança da cidade é perpétua… até que se descubra alguém mais qualificado.
  73. Parece que o grande metafísico, líder do povo da Cidade do Sol, precisa saber tudo o que há para saber e em quantidade decente. Exceto por teologia e metafísica, que devem ser conhecidas não apenas decentemente, mas integralmente.
  74. Todos os trabalhadores são dignos. Não se deve discriminar alguém pela função que exerce. Cada um faz seu papel na manutenção da cidade.
  75. Os que obtém melhor desempenho nos estudos se tornam magistrados. O tipo de magistratura depende da matéria na qual o estudante melhor se saiu.
  76. Não é porque começou o estudo da natureza que a educação física é abandonada. Ela continua sendo leccionada depois dos sete anos.
  77. Após os sete anos, os alunos aprendem matemática observando as pinturas nos anéis. Só então são lecionadas as ciências naturais.
  78. Antes dos sete anos, os alunos também têm acesso às oficinas das múltiplas artes (técnicas, empregos), para ficarem a par do que cada um faz na cidade.
  79. Dos três aos sete anos, o único componente curricular é educação física.
  80. Até os três anos, se aprende a língua materna.
  81. Todos são educados em tudo nas escolas.
  82. As penas pelos crimes tomam forma de restrições aos bens comuns.
  83. Há pelo menos um magistrado para cada virtude. A mentira é o pior de todos os delitos.
  84. As formas de tratamento parecem baseadas nas encontradas na República, onde pessoas velhas o bastante podem ser chamadas todas de “pai” pelos mais novos, tal como você poderia seguramente chamar de “filho” qualquer um que tivesse idade para isso.
  85. Não fosse o estado, a Cidade do Sol teria um sistema político comunista.
  86. Tudo é público na cidade, mas nem por isso os habitantes são preguiçosos. De fato, se todos esperassem uns pelos outros, a coisa pública não se sustentaria. Então, pela própria utilidade de tudo ser público e mantido pelo público, os habitantes trabalham pela manutenção do público. Não é como se nada fosse de ninguém, pelo contrário: tudo é de todos. E é natural que cuidemos do que é nosso, mesmo que essa seja uma responsabilidade partilhada.
  87. A propriedade privada produz o amor-próprio, que torna os ricos prepotentes e os pobres hipócritas.
  88. As mulheres também são públicas, mas vale lembrar que isso não significa licença pra estuprar.
  89. Todas as coisas são públicas entre os solares.
  90. A população da Cidade do Sol procedeu da Índia. Fugiram de lá por não aguentar os abusos de poder.
  91. Sapiência, Potência e Amor governam a cidade com o Metafísico, mas tudo precisa da coordenação e do aval do Metafísico.
  92. Amor também gerencia alimentação e vestuário.
  93. Parece estranho, para o filósofo, que nós nos preocupamos em agendar e otimizar a prole de cães e cavalos, mas não nossa própria prole. Isso é meio nazista, mas diverge da eugenia de Hitler: este queria que só uma raça existisse, mas o filósofo não diz que se deve eliminar os que não sejam de certa etnia, mas apenas que a geração seguinte deve ser melhor por meio de casamentos agendados.
  94. A tarefa do chefe Amor é garantir que a prole seguinte seja melhor que a anterior.
  95. As crianças aprendem sendo guiadas pelos professores por entre os anéis de proteção da cidade, vendo as gravuras e lendo as descrições.
  96. A parte interna do sexto círculo contém imagens e ilustrações das pessoas mais importantes nas leis mundiais, nas artes bélicas e nas ciências. Inclusive, figuras religiosas estão representadas. Os solares conhecem a história mundial mandando exploradores ao redor do mundo.
  97. A parte externa do sexto círculo contém conhecimento mecânico e técnico. Instrumentos mecânicos e seus usos são descritos ali.
  98. A parte interna e externa do quinto círculo tem conhecimento biológico sobre os outros animais terrestres, inclusive espécies desconhecidas aos que não são da cidade.
  99. Na parte externa do quarto anel há conhecimento sobre os répteis e insetos, inclusive os míticos dragões.
  100. No quarto círculo há conhecimento biológico e mítico sobre aves. Inclusive sobre a fênix. Esse conhecimento é feito por figuras, como nos outros círculos, com descrição física, temperamental e social das aves.
  101. Na parte externa do terceiro anel há conhecimento sobre as coisas marinhas.
  102. No interior do terceiro anel há conhecimento botânico, tal como amostras de plantas.
  103. No segundo anel está o conhecimento atmosférico: trovões, arco-íris e tal.
  104. No lado externo do segundo anel está o conhecimento sobre líquidos, tanto a hidrografia da Terra, como a descrição dos vinhos e licores de cada região. A essa altura, os alunos já devem querer fazer xixi… Também tem amostras de líquidos medicinais.
  105. No segundo anel está o conhecimento geológico. O muro é adornado com amostras de metais e pedras preciosas, com descrições ao lado.
  106. Também no primeiro anel, na parte externa, está a carta cartográfica da Terra inteira, com versos descrevendo costumes, língua, força militar de cada região.
  107. O primeiro anel tem conhecimento geométrico: formas, com alguns versos ao seu lado com descrição.
  108. Há um magistrado pra cada ciência.
  109. A Sapiência é um ministro da ciência. Existe um livro chamado Saber, onde estão escritas todas as ciências em linguagem clara. Imagine a quantidade de notas de rodapé pra explicar termos técnicos.
  110. A Potência é um ministro militar.
  111. O Metafísico tem autoridade absoluta, mas é assistido pelos outros três chefes: Potência, Sapiência e Amor.
  112. A administração da cidade inclui conhecimento preciso sobre o clima e as estações.
  113. Existe um tipo de “mapa astrológico” pintado no teto da prefeitura, mostrando os corpos celestes que influem sobre a vida terrena, ao lado de uma descrição de seu efeito, segundo a astrologia.
  114. No centro do último anel há um templo circular com o teto como que fendido no centro, de forma que a luz celeste incida sobre o único altar, que se encontra no centro do templo.
  115. Existem bairros entre um anel e outro.
  116. Ao final de cada caminho que liga um anel a outro, há uma porta levadiça. Elas seriam fechadas em caso de guerra, mas abertas quando há paz, de forma que se possa entrar e sair da cidade livremente, bem como transitar entre os anéis.
  117. Em caso de guerra, os anéis (que na verdade são muros circulares) que cercam a cidade oferecem um grande desafio ao ataque do ofensor. Especialmente porque o anel seguinte é mais resistente que o anterior.
  118. Os anéis se ligam uns aos outros por caminhos feitos em sincronia com os pontos cardeais.
  119. A cidade é cercada por sete anéis, um para cada planeta conhecido na época.
  120. A Cidade do Sol fica numa extensa planície, sob a linha do Equador.
  121. Não existe comunidade sem delitos.
  122. Não existe pessoa sem pecado.
  123. Não são feitas leis pensando em quem vai transgredir ou não, mas em quantas pessoas se beneficiariam de sua observância. Então acaba com o 217A.
  124. Não há quem siga todas as leis de um código extenso.
  125. Não existe mal republicano que não seja ocasionado pela riqueza ou pela pobreza.
  126. Não existe vício que não seja oriundo de exagero ou carência.
  127. Não existe Utopia de More, República de Platão ou Cidade do Sol que possa ser imitada integralmente: elas são ideias, sociedades ideais que das quais só se pode se aproximar.
  128. Não existe religioso verdadeiro que se revolte contra a disciplina de sua religião.
  129. Se muitos empregados fazem a mesma coisa, o serviço acaba ficando mal-feito: um deixará que o outro faça o trabalho que esse um deveria fazer. Além disso, se o serviço fica ruim, fica difícil saber de quem é a culpa.
  130. Os apóstolos tinham tudo em comum. Segundo o filósofo, até as mulheres eram bens comuns. Eu achei isso muito suspeito, porque não vi tal coisa em minha leitura do Novo Testamento.
  131. A propriedade privada é contra a natureza.
  132. A propriedade privada começa com a usurpação de bens, motivada pela cobiça e sustentada pela avareza. O filósofo disse isso antes de Rousseau e bem antes de Marx.
  133. Se a comunhão de bens não fosse algo bom, os que negaram partilhar seus bens não seriam cobrados segundo o pecado da avareza. A propriedade privada e o desejo de acúmulo de bens causa o egoísmo.
  134. A única forma de justificar a propriedade privada seria dizendo que algo é seu para distribuir. Ou seja, é dever do rico compensar a pobreza do próximo. Isso não significa dar tudo o que se tem, mas dar o suficiente para contribuir contra a má distribuição de bens, propagando justiça entre si mesmo e aqueles que têm pouco.
  135. Pagar o imposto ao Estado é uma forma de assegurar que o excesso de um cubra a carência de outro, porque uma das tarefas do Estado é justamente a administração das riquezas da população. Claro que o Estado não pode ser corrupto, se quisermos que se preste a esse fim. O Lula inventou um ótimo jeito de se dispensar dinheiro aos pobres, de maneira direta, pelo Bolsa Família. Porque é mais difícil roubar de alguém quando a pessoa sabe exatamente quanto deve receber. Por que é fácil roubar dinheiro público em projetos de construção civil? Porque não fica claro para a população e às vezes até pro próprio Estado quanto está sendo gasto ali. Mas se alguém modifica o Bolsa Família, que é contado, não é possível ocultar o roubo. Além disso, é dinheiro dado diretamente na mão da população. A frustração do povo é muito maior assim e o Brasil sabe, desde 2011, que a tolerância popular tem limites.
  136. O filósofo não está propondo um comunismo, mas um socialismo: não seria possível manter tal sistema sem a presença do estado. Porém, ainda não é um socialismo em sentido tradicional.
  137. Sem o estado, ninguém iria querer trabalhar direito. O estado deveria distribuir as tarefas, segundo aptidões.
  138. A mulher que vai à guerra ou que busca o sustento dos filhos, ambas tarefas comumente tidas por masculinas, não age contra a natureza. Não é como se a mulher tivesse um papel natural, como quer Aristóteles.
  139. O pecado contra a natureza é aquele que, ao ser praticado, prejudica o indivíduo ou sua espécie.
  140. Tomás de Aquino diz que não se deve fornicar porque isso é um empecilho à educação dos filhos e ao compromisso com a mulher. Mas como é que fornicar pode ser empecilho à educação dos filhos… se a mulher comprometida for estéril?
  141. O Génesis diz que homem deixa os pais para unir-se à mulher numa só carne. Mas então como é que Salomão, por exemplo, tinha setenta mulheres? O filósofo argumenta que “tornar-se uma só carne” não implica que um homem deva ter apenas uma mulher, porque Salomão não foi punido por ter todas essas mulheres nem outros patriarcas do judaísmo o foram. Segundo o filósofo, “tornar-se uma só carne” refere-se ao filho do casal, que é carne derivada do material genético de ambos os pais.
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6 de dezembro de 2015

Anotações sobre o elogio da loucura.

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  1. O Elogio foi escrito para Thomas More, dono da Utopia.
  2. Não é nenhum escândalo que os intelectuais se divirtam com algo além dos estudos. Eu, por exemplo, desenho muita besteira. E depois escondo na biblioteca e no banheiro. E me divirto imaginando a cara de quem vê.
  3. O Elogio é uma paródia dos comportamentos ridículos da humanidade.
  4. Para Erasmo, a loucura está na raiz da alegria.
  5. A loucura é capaz de expulsar a tristeza, de fato, quando não a causa. É por isso que rimos de coisas como tombos e quedas. Muitos acidentes são altamente sem noção, oriundos de um comportamento imprudente e irresponsável. Talvez a pessoa soubesse da alta chance de erros que pairava sobre seu ato. Mas, às vezes, quanto maior a taxa de erros, mais rimos ao executar o ato. Nós imaginamos nossa falha e começamos a rir de nós mesmos tanto quanto rimos das loucuras dos outros. Aliás: que coisa mais louca há além de ser capaz de rir de si mesmo?
  6. Antigamente, o termo sofista servia para diferenciar os que procuravam as verdades relativas daqueles que procuravam a verdade absoluta (esses eram os filósofos). Então, não era necessariamente um termo pejorativo.
  7. O elogio de si próprio pode ser tão sincero ou até mais sincero que o elogio que os outros fazem do sujeito.
  8. A loucura, segundo Erasmo, é louvada veladamente, nunca em público.
  9. Os elogios espontâneos são mais sinceros que os que são preparados com antecedência.
  10. Definir é limitar uma ideia em palavras, de forma que ela possa ser trabalhada pelo raciocínio.
  11. Não é possível limitar a loucura porque ela se estende a todo o gênero humano. Isso segundo Erasmo, porque eu tenho uma definição de loucura como via negativa do normal, que é tudo aquilo que adere à norma, donde decorre que não necessariamente é ruim estar louco.
  12. Definições são abstrações, não correspondem 100% às coisas e muitas vezes não as descrevem bem.
  13. É próprio do tolo admirar tudo que é estrangeiro, como se tudo o que vem de outro país fosse necessariamente melhor que o que já temos no nosso. Esses dias, por exemplo, se tem sonhado com o ensino médio do exterior.
  14. São os estúpidos que adoram a loucura. Parece falar da câmara dos deputados.
  15. Para Erasmo, por meio de alegoria, a loucura é filha do deus da riqueza, Plutão, com uma ninfa alegre e saltitante.
  16. A loucura é acompanhada pelo amor-próprio, pelo horror à fadiga, pelo esquecimento, pela volúpia, pela delícia, pela irreflexão, pelo riso, pelo sono profundo e pela adulação.
  17. A loucura dispensa a vida indiscriminadamente, pois muitos filhos são concebidos pela falta de juízo dos pais.
  18. Crítica de Erasmo aos estóicos: não existe uma pessoa no mundo que não tenha cometido uma insensatez ou que não venha a se entregar à paixão. Não é possível ser um estóico perfeito.
  19. Se todos fossem filósofos, talvez ninguém tivesse filhos: se você “pensar bem”, como fazem os filósofos o tempo todo, há lucro em ter filhos hoje em dia? Nem na época de Erasmo havia: educar um filho, sustentá-lo, aguentar seus gritos, cuidar dele em sua doença, mantê-lo longe de perigos, se frustrar com sua ingratidão e, no final das contas, ser por ele abandonado quando chega à idade adulta. Se todos “pensassem bem”, especialmente hoje, com a escassez de recursos e espaço, não haveria mais geração. Para Erasmo, a procriação implica falta de juízo, mesmo que mínima, um comportamento realmente animal em todas as acepções da palavra. Rousseau tem um método quase decente para educar uma criança, se você estiver interessado em procriar mesmo assim.
  20. Outra crítica aos estóicos: condenam o prazer, mas não resistem a ele.
  21. Se não fosse a volúpia, a vida seria bem triste.
  22. Quando somos crianças, o normal é ser anormal, se é que me entende. As crianças são ilimitadas, são imprevisíveis e são felizes. É quando absorvemos as duras regras da vida, quando deixamos de lado a loucura infantil, é que nos tornamos infelizes pelo conhecimento. Porque o conhecimento nos revela que o mundo não gira em torno do nós e que não estamos nem seguros nem plenos.
  23. Os velhos se assemelham às crianças em vários aspectos.
  24. A criança que fala e age como um adulto é menos atraente. Eu li na Internet um artigo que dizia que as características infantis atraem porque, dessa forma, os adultos são estimulados a proteger a criança que as exibe. Se a criança tem um conhecimento moderado sobre o mundo e as pessoas, ela não precisa de proteção, o que nos causa um conflito. Razão pela qual o menino sem juízo é mais “fofinho”.
  25. O velho é mais feliz que a criança, por ser moderado. Ele também tem mais assuntos sobre os quais falar e suas conversas são mais elaboradas.
  26. O velho e a criança são tão parecidos que se atraem. De fato, isso não acontece mais com tanta frequência, mas era comum o neto amar a companhia do avô ou da avó. As crianças se reuniam ao redor do senhor para ouvi-lo.
  27. Os defeitos das crianças pequenas reaparecem na velhice.
  28. A vida sem sabedoria, ou seja, a do bobo alegre, é uma vida louca. Talvez o mundo fosse melhor se as pessoas fossem todas umas bestas. Bom, talvez não fosse melhor, mas talvez fosse mais alegre. As pessoas não sairiam da infância.
  29. O excesso de estudo e a filosofia tornam a pessoa velha antes da hora. Isso reaparece em Nietzsche. A diferença é que Nietzsche estava falando mais sério e Erasmo está fazendo também chacota.
  30. A sabedoria irrita os loucos. Para o insensato, nada há de mais chato e penoso que ouvir um sermão construtivo. Ele quer viver a vida intensamente e não tem medo de quebrar a cara todas as vezes que tentar, se é que isso acontece.
  31. A loucura mantém Cupido gorducho.
  32. A loucura torna aprazível aquilo que seria, de outra forma, intragável. É por isso que, quando você toma um porre, todas as mulheres são lindas.
  33. Para os estóicos, o sábio é o que age segundo a razão universal e entrega a ela o controle de sua vida, ao passo que o louco seria o cara que se entrega às paixões.
  34. Para Erasmo, a mulher é um ser naturalmente louco, feito para alegrar o homem que, com o crescimento da razão, acaba tendo que lutar contra as paixões, notavelmente a cólera e a concupiscência, para cuidar de seus negócios. Assim, o ser humano pode continuar feliz apesar do crescimento da razão no homem. Por ser louca, a mulher é mais feliz.
  35. Para Erasmo, a mulher, sendo imprudente, se preocupa demais com a beleza, de forma que sua aparência, excitando a concupiscência masculina, lhe dê controle sobre os homens de pouca razão (bárbaros). Têm também elevada preocupação em proporcionar prazer aos homens, razão dos excessos cosméticos. Os homens prudentes, contudo, quase não se preocupam com a aparência, tão ocupados estão com coisas elevadas. Por isso, os sábios têm barba. Vale lembrar que este livro é uma comédia.
  36. O jantar com os amigos degenera se não estão os amigos se divertindo. Ninguém se reúne na mesa para beber, comer e conversar coisas sérias. Se é reunião, tem comida, tem bebida e pelo menos uma mesa, tem que ter amigos que fazem piada. Talvez seja por isso que não gosto de socialização.
  37. O tédio parece ter nascido conosco. Isso retorna em Pascal. Se não houvesse os momentos de alegria, a vida seria um grande tédio, que é inato ao ser humano.
  38. Também a amizade pode ser louca.
  39. Não é possível ser amigo de alguém perfeito. Os defeitos da pessoa ficam no caminho. Só pode haver amizade entre duas pessoas defeituosas.
  40. As auxiliares da loucura (adulação, volúpia e outras apresentadas acima) sustentam o matrimônio.
  41. Alguém escreveu que não é possível se casar com uma mulher cujo o passado é conhecido, tal como não é possível comer num restaurante cuja a cozinha fica aberta para os clientes conhecerem. De acordo com Erasmo, os matrimônios seriam menos frequentes se todos os enamorados pesquisassem o passado de seus amores, algo certamente prudente. É como se fosse a loucura que sustentasse a instituição do matrimônio. Esse livro foi escrito pra mim.
  42. Os cornos mansos têm casamentos duráveis.
  43. O ser humano nunca está satisfeito.
  44. Não é possível amar o próximo sem amar a si mesmo antes.
  45. Seja você mesmo. Piegas no último.
  46. O amor próprio nos torna contentes com o que somos, com o que fazemos e com o que temos. Se a pessoa odeia algo em si, ela se mobiliza para consertar tal, aumentando seu amor próprio e se aproximando da felicidade. É como se o amor próprio, isto é, o contentamento com sua própria condição, fosse a última coisa a se obter antes da felicidade. Mas os níveis de amor próprio variam conforme a pessoa e seus valores. Então, talvez seja possível aumentar o amor próprio, não pela mudança exterior, mas pela interior, reavaliando o que é realmente importante.
  47. A guerra é louca, nada tem a ver com filosofia.
  48. São os estourados e desesperados que vão pra guerra como soldados, mesmo quando a razão diz pra fugir.
  49. O filósofo, preocupado em saber das grandes coisas, se descuida da vida imediata e prática.
  50. Governadores mais sábios parecem tem causado mais problemas à república do que os menos sábios, segundo o testemunho da história.
  51. O filósofo se mostra ruim nos negócios públicos.
  52. A adulação move a besta popular.
  53. Nenhuma cidade adotou as leis imaginadas por Platão ou Aristóteles.
  54. O esforço despendido no estudo muitas vezes não compensa.
  55. Os loucos obtém, pela falta de vergonha e de medo, resultados tão bons quanto os dos prudentes.
  56. A vida é uma comédia: todos são atores.
  57. A morte pode ser entendida como cessação da morte.
  58. No meio dos loucos, o sábio é tido como mais louco.
  59. É imprudente para o ser humano querer ser sobre-humano.
  60. A diferença entre o sábio e o louco está nos guias: o louco se guia pela paixão e o sábio se guia pelo raciocínio.
  61. O estóico perfeito nunca existiu e é inacessível ao ser humano. Não é possível viver sem emoções. O estóico perfeito, se existir, ou é um ser sobrenatural…  ou uma estátua.
  62. O estóico não teria amigo algum se ele conseguisse realmente se purgar de qualquer sentimento ou emoção. Sua companhia seria desagradável e perturbadora.
  63. A vida pode ser tão ruim, cruel e desumana que os sábios podem preferir morrer, mesmo se puderem escolher entre morrer e serem imortais.
  64. Para Erasmo, se a sabedoria fosse frequente entre os mortais, o gênero humano deixaria de existir muito rapidamente. Porém, eu discordo, porque a sabedoria coletiva, afastando os imprevistos da loucura, poderia proporcionar uma vida mais segura e digna a todos. Se eu dissesse isso para Erasmo, contudo, ele provavelmente apontaria o inconveniente de que a vida com pouca loucura é menos interessante e mais tediosa. Então, a vida num mundo onde a sabedoria é comum a todos encontraria rapidamente seu fim do mesmo jeito, só que por outro motivo.
  65. Palavras só ferem os que são sensíveis a elas. Se ignorados, os insultos nada valem.
  66. O estado normal do ser humano é a ignorância. Então, a filosofia, que lastima os seres ignorantes, lastima o ser humano. Donde decorre que, para Erasmo, a filosofia é um esforço de desumanização.
  67. A loucura, ou seja, o ato anormal (fora da norma), é natural ao ser humano. Eliminá-la é robotizar o ser humano.
  68. As ciências mais elevadas são as que trazem menos fama e riqueza.
  69. As ciências que mais trazem lucro são aquelas que se distanciam da sensatez. Na opinião de Erasmo, essas são a medicina e o direito.
  70. Os loucos estão felizes com a condição humana, mas os sábios querem ir além dela. Por isso se frustram.
  71. Se você se julga sábio, escreva uma lista de suas preocupações e compare com a lista de preocupações do meu irmão, por exemplo. No fim das contas, meu irmão pode até ser mais feliz.
  72. Ui, ui: “a verdade se encontra no vinho e nas crianças.”
  73. O erudito tem maior tendência à hipocrisia.
  74. O poder vigente é inimigo da filosofia, porque a filosofia fala abertamente contra um governo corrupto e egocêntrico.
  75. Mas quando alguém que é tido por louco e amigável diz uma dura verdade, ela é recebida aos risos, como brincadeira, e depois talvez levada em consideração. Se fosse um filósofo a dizer tal verdade, seria enforcado imediatamente.
  76. O sábio profissional nunca viveu. Tanto faz se ele morre cedo ou tarde.
  77. Existem dois tipos de loucura. A loucura positiva é a construtiva e a negativa é a destrutiva.
  78. Ter um distúrbio mental não necessariamente te impede de ser uma boa pessoa.
  79. Da mesma forma, a cura de um distúrbio mental pode trazer males ainda maiores à pessoa, especialmente se o distúrbio for condição de possibilidade para a plenitude do indivíduo.
  80. Existe um sítio que lista técnicas para escrita de ficção. Segundo a página, muitos personagens célebres, tanto da ficção quanto da história universal, podiam muito bem estar padecendo de uma doença mental, numa época em que psicologia e medicina não se falavam. Lendo o Elogio da Loucura, isso é confirmado. Pessoas com distúrbios mentais sempre existiram, mas a preocupação excessiva em curar esses distúrbios é recente. Hoje, muitas personalidades importantes de nossa história são analisadas e diagnosticadas por psicólogos da atualidade como perturbadas, mas seus distúrbios não os impediram de conseguir seus grandes feitos e talvez esses loucos até não tivessem feito o que fizeram sem esses distúrbios. O próprio Sócrates se julgava possuído por um espírito, dizem que Einstein era autista, Jung teve uma alucinação na qual uma divindade defecava sobre uma catedral, mas é tarde demais pro Freud.
  81. Cada louco com sua loucura. Ou loucuras. Para Erasmo, o indivíduo é tanto mais alegre quanto mais opções de loucura ele tem, desde que não saia do âmbito construtivo. Os tipos que proporcionam mais alegria são aqueles tipos de loucura que têm foco no prazer. Eu não consigo ler esta parte e não pensar em fraldas.
  82. Segundo a personificação da loucura, fazer crescer um “bosque de chifres” na cabeça do marido é a coisa mais natural da atualidade. Aviso de comédia.
  83. A loucura da alquimia é a mais excelente. Os alquimistas procuram coisas que não existem, mas os alquimistas são capazes de iludir a si mesmos de maneira muito convincente, de forma que não duvidam das mentiras que contam a si mesmos.
  84. Existem também a loucura do jogo, a loucura do conto e a loucura da superstição, como é o caso dos santos fetiches, imagens de santos às quais são atribuídos poderes mágicos. Tomás de Aquino já dizia que não se deve adorar imagens, mesmo as de santos, porque são só imagens. Então, a adoração de imagens, as preces aos santos e os ornamentos dados às estátuas são pura superstição. E de fato: quando eu era católico, não se ouviam preces aos santos (com exceção de Maria) durante a missa. Se esses santos católicos têm algum poder, porque não ocorrem orações aos santos durante as reuniões católicas? É porque nem a igreja católica sustenta tal poder que os fiéis sustentam.
  85. Outra manifestação da loucura supersticiosa é a venda de indulgências, como se fosse possível comprar, com dinheiro, o perdão pelos pecados.
  86. Outra: a leitura obsessiva do Livro dos Salmos. O Livro dos Salmos não é nenhum livro de feitiços e recitar automaticamente versículos dele ao vento não faz nada de sobrenatural acontecer. O costume do “salmo do dia” é bem velho, sobrevivendo hoje em rádios, nas quais um salmo (sempre dos mais curtos) é lido nas manhãs. Interessante que, antes da leitura, o locutor explica pra quê aquele salmo serve: trazer saúde, trazer dinheiro, felicidade conjugal, realização de sonhos, mesmo quando o texto do salmo não alude a essas coisas. Me pergunto de onde ele tira essas leituras relativas ao “poder” deste ou daquele salmo.
  87. Atribuir mais poder a Maria do que a Jesus é próprio do tolo.
  88. Longos e caros tratamentos em lugar de curas rápidas e baratas, mas igualmente eficazes, é uma prática velha.
  89. Se aproveitando da loucura dos fiéis, os líderes religiosos procuram faturar com crenças falsas.
  90. Pregando uma lei diferente, mas mais suave, o líder religioso mantém controle do fiel, mesmo que isso signifique causar sua perdição. Porque é mais fácil confiar no padre ou pastor que tem uma interpretação mais suave e sedutora da Bíblia, de forma que o fiel não queira nem ler a Bíblia nunca, para evitar o risco de sentir dúvida. Ele prefere acreditar no pastor. É mais fácil e talvez mais seguro, na mente do fiel. O problema é que, embora seja fácil, muitos líderes religiosos, visando proveito próprio, não se importam de causar a perdição do fiel.
  91. Também existe a loucura do velório. Por que se preocupar com os detalhes do próprio velório? Você nem vai assisti-lo…
  92. As ideias com mais seguidores são as que mais se distanciam do bom-senso. Razão de Platão ser mais popular que Aristóteles.
  93. É ingênuo querer se elevar acima da loucura pela filosofia. Que garantia há de que a filosofia também não tenha uma parcela de loucura?
  94. O filósofo perfeito não é ouvido por ninguém, porque se distanciou completamente da loucura comum.
  95. Alemães mágicos, ui.
  96. A adulação não se opõe à boa fé.
  97. A adulação pode ser usada de maneira construtiva.
  98. Não é possível sustentar a felicidade humana nos fatos, porque os fatos, as coisas como realmente são, nos estão ocultos. Então, não há nada de anti-natural em estar feliz com um engano.
  99. Argumentos e certezas são tediosos. A grande massa popular fica enjoada.
  100. O prazer não depende somente das coisas que dão prazer, dependendo também da disposição para recebê-los.
  101. A loucura é de graça. Sabedoria custa tempo e esforço para atingir, por isso os sábios são tão poucos. Agravado pelo fato de que a pessoa se sente mais feliz quando perto de seus semelhantes. O sábio é infeliz porque não encontra outros sábios, mas os ignorantes estão rodeados de ignorantes.
  102. Os deuses greco-romanos dispensam bênçãos a pessoas seletas. A loucura dispensa bênçãos a todos o tempo todo.
  103. O único deus pagão que poderia ser adorado com alguma propriedade é a loucura, sempre presente, que não exige sacrifício ou culto. Os outros deuses exigem demais e fazem de menos.
  104. Mais vale imitar a divindade do que os sacrifícios.
  105. O comércio, seja de objetos seja de favores, é o ato humano mais imundo.
  106. A vida humana é um turbilhão de atos ilícitos.
  107. Existem também a loucura dos intelectuais, que leva a brigas sobre assuntos de pouca importância, e a loucura do professor, que se acha o máximo por se cansar no meio de crianças burras e irritantes.
  108. As artes mais difíceis recebem mais atenção, mesmo quando são as mais inúteis. Erasmo dá o exemplo da gramática.
  109. Os melancólicos se torturam com seu próprio trabalho, não sendo mais capazes de derivar prazer dele, tornando-se escravos do elogio e do esforço.
  110. Os livros idiotas são os que mais vendem, porque a maioria, que é idiota, os consome.
  111. Também é louca a felicidade do escritor que praticou o plágio. Não pode ter juízo quem se apropria do trabalho de outro e recebe a glória indevida sem um pingo de peso na consciência.
  112. O direito recebe uma glória injusta. A legislação não é um trabalho tão nobre como os vultos pensam.
  113. O debate político e jurídico é um festival de silogismos muitas vezes gratuitos.
  114. Os filósofos loucos nunca concordam entre si, mas todos se julgam se aproximar da verdade. Quem, afinal, está mais próximo, se a filosofia não concorda consigo própria? A variedade de sistemas filosóficos mostra que não é possível  distinguir quem tem razão. Novamente, se o filósofo realmente fosse sábio, seria infeliz. O filósofo louco ainda é feliz, porque se distrai com o debate filosófico.
  115. As questões mais elevadas da teologia são justamente aquelas cujas respostas não fariam diferença na vida do douto ou do fiel.
  116. Talvez não haja resposta para muitas questões teológicas. Talvez sejam perguntas só na mente humana.
  117. A moral dos teólogos na época de Erasmo era bizarra e contraditória.
  118. Os apóstolos não discutiam questões teológicas e não faziam de Deus uma ciência exata. Isso mostra que a teologia é desnecessária. Na verdade, o apóstolo Paulo admoestava contra discussões sem sentido, que são a marca das discussões teológicas da Idade Média e da Renascença.
  119. Os argumentos teológicos, fortemente lógicos e metafísicos, têm como função principal converter quem discorde de determinada religião. Elas pouco explicam aos que já são fiéis.
  120. Os teólogos medievais estudavam teologia mais  do que a própria Bíblia.
  121. Como os teólogos se pronunciam sobre o Inferno com uma certeza assustadora e riqueza de detalhes… sem nunca terem estado lá?
  122. Os teólogos medievais costumavam dizer que a divindade das Sagradas Escrituras estava acima da gramática. Na prática, isso é uma licença para falar e escrever de forma “errada”, para tecer argumentos ainda mais complexos. O Círculo de Viena e toda a trupe da lógica proposicional desce o cacete nisso.
  123. Para Erasmo, alguns teólogos buscam a reverência que se deveria dispensar a Deus.
  124. As ordens monásticas brigam por razões fúteis, os monges se orgulham de não fazerem nada.
  125. Já basta ser chamado de cristão. Qualquer denominação ulterior é presunçosa.
  126. De acordo com Erasmo, Jesus julgará as pessoas segundo a caridade. Então, coisas como abstenção de carne, voto de pobreza e outras ordenanças não seriam levadas em consideração. Apesar disso, muitos cristãos observam todo o tipo de código, menos a caridade.
  127. Apesar disso, observar essas ordenanças nutre esses cristãos com falsas esperanças, que tornam a vida tolerável. É uma manifestação de loucura também.
  128. Frades bêbados vazam confissões.
  129. Parece que havia a prática de vazar confissões durante as missas, para humilhação pública de alguém que atraiu o ódio do frade ou do padre. Claro que o nome da pessoa não era revelado, mas era possível deduzir quem era, se fosse pessoa próxima. Imagine se uma pessoa escrevesse um sermão especificamente sobre seus pecados mais ocultos e ministrasse à igreja.
  130. Era prática comum dos retóricos pregadores começar o discurso com uma coisa que não tinha nada a ver com o tema a ser discutido. O intuito era atrair e prender a atenção do ouvinte, mas, para quem é sensato, é ridículo começar um discurso com algo que nada tem a ver com o resto do discurso.
  131. Os sermões seguiam um itinerário retórico. É mais ou menos o que ocorre com os episódios de Três Espiãs Demais. Um episódio desse desenho começa com uma situação corriqueira envolvendo aquela menina que elas não gostam, depois elas são sugadas para o quartel general onde recebem missão e apetrechos, depois fazem um reconhecimento local, uma delas é capturada, as outras vão atrás dela, são capturadas também, o vilão aparece e conta-lhes o plano no cativeiro, não mata elas, diz pra onde ele vai, elas se soltam do cativeiro (que normalmente inclui risco de morte bem lenta, pra dar bastante tempo para elas se soltarem das cordas ou correntes), chegam ao local onde o vilão disse que estaria, ele está mesmo lá, é derrotado, elas voltam à situação corriqueira, causam alguma vergonha à menina desgostada, risos, logotipo, créditos. Da mesma forma, o sermão católico da época de Erasmo começava com um raciocínio descabido, seguido de uma transição entre raciocínio e tema principal (um trecho do Evangelho, que é dito de passagem), depois é levantada uma digressão teológica e, por último, é analisada a narração de uma história secular. Os sermões tinham pouco de salutar para o fiel.
  132. A loucura dos reis e dos bispos vem do peso de suas responsabilidades. Recebem tarefas sobre-humanas. Ou você fica doente observando todas as regras ou oportunamente se esquiva do que não convém.
  133. Na época de Erasmo, a Igreja Católica e o papado eram altamente anticristãos. Alguém pode dizer “até hoje são”. Então eram bem mais.
  134. A guerra humana nada tem a ver com Jesus. A Igreja não poderia ter causado nem apoiado guerra alguma.
  135. Você sabe que você é fera quando conquista coisas até durante o sono.
  136. A vida humana é mais governada pela fortuna (acaso) do que pela justiça. Por isso os sábios são tidos em pouca conta, enquanto que os ignorantes são ricos e famosos.
  137. O filósofo verdadeiro é o ser mais odiado que existe, por não partilhar do amor ao dinheiro, comum a todas as outras pessoas.
  138. Quando não se tem algo e esse algo é necessário, devemos procurar um equivalente (representá-lo).
  139. A loucura nada tem a ver com Apolo e muito tem a ver com Baco. De repente, Nietzsche.
  140. A loucura é amiga da teologia.
  141. A Bíblia diz que o número dos loucos é infinito.
  142. Quanto mais se é sensato, mais se é triste. A loucura abriga a alegria. Porque todos os seres humanos desejam a alegria, ninguém está a salvo da loucura. Se o sábio quiser ser feliz, precisa se permitir também ser louco, alternando.
  143. A teologia deve muito a Aristóteles.
  144. O cristão é louco para o mundo. E foi a ciência do bem e do mal que corrompeu Adão e Eva. De fato, enquanto o ser humano não sabia o que estava fazendo e não tinha nenhum conhecimento ético, não vivendo sob nenhuma moral (exceto a de não comer do fruto daquela árvore), não podia ser culpabilizado por seus atos. Se não havia ética, não havia moral. Não havendo moral, não há lei nem punição por quebra da lei. Comendo do fruto, entrou no gênero humano a culpa, pois não apenas Adão e Eva desobedeceram uma ordem direta, mas agora estavam a par de tudo o que era certo e errado. Se fizessem algo que sabiam ser errado, mereceriam julgamento e punição devida. Enquanto não sabiam, mereceriam apenas misericórdia.
  145. Interessante como a loucura é sábia.

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