Analecto

6 de dezembro de 2015

Anotações sobre o elogio da loucura.

Filed under: Entretenimento, Livros — Tags:, , , , — Yure @ 17:35
  1. O Elogio foi escrito para Thomas More, dono da Utopia.
  2. Não é nenhum escândalo que os intelectuais se divirtam com algo além dos estudos. Eu, por exemplo, desenho muita besteira. E depois escondo na biblioteca e no banheiro. E me divirto imaginando a cara de quem vê.
  3. O Elogio é uma paródia dos comportamentos ridículos da humanidade.
  4. Para Erasmo, a loucura está na raiz da alegria.
  5. A loucura é capaz de expulsar a tristeza, de fato, quando não a causa. É por isso que rimos de coisas como tombos e quedas. Muitos acidentes são altamente sem noção, oriundos de um comportamento imprudente e irresponsável. Talvez a pessoa soubesse da alta chance de erros que pairava sobre seu ato. Mas, às vezes, quanto maior a taxa de erros, mais rimos ao executar o ato. Nós imaginamos nossa falha e começamos a rir de nós mesmos tanto quanto rimos das loucuras dos outros. Aliás: que coisa mais louca há além de ser capaz de rir de si mesmo?
  6. Antigamente, o termo sofista servia para diferenciar os que procuravam as verdades relativas daqueles que procuravam a verdade absoluta (esses eram os filósofos). Então, não era necessariamente um termo pejorativo.
  7. O elogio de si próprio pode ser tão sincero ou até mais sincero que o elogio que os outros fazem do sujeito.
  8. A loucura, segundo Erasmo, é louvada veladamente, nunca em público.
  9. Os elogios espontâneos são mais sinceros que os que são preparados com antecedência.
  10. Definir é limitar uma ideia em palavras, de forma que ela possa ser trabalhada pelo raciocínio.
  11. Não é possível limitar a loucura porque ela se estende a todo o gênero humano. Isso segundo Erasmo, porque eu tenho uma definição de loucura como via negativa do normal, que é tudo aquilo que adere à norma, donde decorre que não necessariamente é ruim estar louco.
  12. Definições são abstrações, não correspondem 100% às coisas e muitas vezes não as descrevem bem.
  13. É próprio do tolo admirar tudo que é estrangeiro, como se tudo o que vem de outro país fosse necessariamente melhor que o que já temos no nosso. Esses dias, por exemplo, se tem sonhado com o ensino médio do exterior.
  14. São os estúpidos que adoram a loucura. Parece falar da câmara dos deputados.
  15. Para Erasmo, por meio de alegoria, a loucura é filha do deus da riqueza, Plutão, com uma ninfa alegre e saltitante.
  16. A loucura é acompanhada pelo amor-próprio, pelo horror à fadiga, pelo esquecimento, pela volúpia, pela delícia, pela irreflexão, pelo riso, pelo sono profundo e pela adulação.
  17. A loucura dispensa a vida indiscriminadamente, pois muitos filhos são concebidos pela falta de juízo dos pais.
  18. Crítica de Erasmo aos estóicos: não existe uma pessoa no mundo que não tenha cometido uma insensatez ou que não venha a se entregar à paixão. Não é possível ser um estóico perfeito.
  19. Se todos fossem filósofos, talvez ninguém tivesse filhos: se você “pensar bem”, como fazem os filósofos o tempo todo, há lucro em ter filhos hoje em dia? Nem na época de Erasmo havia: educar um filho, sustentá-lo, aguentar seus gritos, cuidar dele em sua doença, mantê-lo longe de perigos, se frustrar com sua ingratidão e, no final das contas, ser por ele abandonado quando chega à idade adulta. Se todos “pensassem bem”, especialmente hoje, com a escassez de recursos e espaço, não haveria mais geração. Para Erasmo, a procriação implica falta de juízo, mesmo que mínima, um comportamento realmente animal em todas as acepções da palavra. Rousseau tem um método quase decente para educar uma criança, se você estiver interessado em procriar mesmo assim.
  20. Outra crítica aos estóicos: condenam o prazer, mas não resistem a ele.
  21. Se não fosse a volúpia, a vida seria bem triste.
  22. Quando somos crianças, o normal é ser anormal, se é que me entende. As crianças são ilimitadas, são imprevisíveis e são felizes. É quando absorvemos as duras regras da vida, quando deixamos de lado a loucura infantil, é que nos tornamos infelizes pelo conhecimento. Porque o conhecimento nos revela que o mundo não gira em torno do nós e que não estamos nem seguros nem plenos.
  23. Os velhos se assemelham às crianças em vários aspectos.
  24. A criança que fala e age como um adulto é menos atraente. Eu li na Internet um artigo que dizia que as características infantis atraem porque, dessa forma, os adultos são estimulados a proteger a criança que as exibe. Se a criança tem um conhecimento moderado sobre o mundo e as pessoas, ela não precisa de proteção, o que nos causa um conflito. Razão pela qual o menino sem juízo é mais “fofinho”.
  25. O velho é mais feliz que a criança, por ser moderado. Ele também tem mais assuntos sobre os quais falar e suas conversas são mais elaboradas.
  26. O velho e a criança são tão parecidos que se atraem. De fato, isso não acontece mais com tanta frequência, mas era comum o neto amar a companhia do avô ou da avó. As crianças se reuniam ao redor do senhor para ouvi-lo.
  27. Os defeitos das crianças pequenas reaparecem na velhice.
  28. A vida sem sabedoria, ou seja, a do bobo alegre, é uma vida louca. Talvez o mundo fosse melhor se as pessoas fossem todas umas bestas. Bom, talvez não fosse melhor, mas talvez fosse mais alegre. As pessoas não sairiam da infância.
  29. O excesso de estudo e a filosofia tornam a pessoa velha antes da hora. Isso reaparece em Nietzsche. A diferença é que Nietzsche estava falando mais sério e Erasmo está fazendo também chacota.
  30. A sabedoria irrita os loucos. Para o insensato, nada há de mais chato e penoso que ouvir um sermão construtivo. Ele quer viver a vida intensamente e não tem medo de quebrar a cara todas as vezes que tentar, se é que isso acontece.
  31. A loucura mantém Cupido gorducho.
  32. A loucura torna aprazível aquilo que seria, de outra forma, intragável. É por isso que, quando você toma um porre, todas as mulheres são lindas.
  33. Para os estóicos, o sábio é o que age segundo a razão universal e entrega a ela o controle de sua vida, ao passo que o louco seria o cara que se entrega às paixões.
  34. Para Erasmo, a mulher é um ser naturalmente louco, feito para alegrar o homem que, com o crescimento da razão, acaba tendo que lutar contra as paixões, notavelmente a cólera e a concupiscência, para cuidar de seus negócios. Assim, o ser humano pode continuar feliz apesar do crescimento da razão no homem. Por ser louca, a mulher é mais feliz.
  35. Para Erasmo, a mulher, sendo imprudente, se preocupa demais com a beleza, de forma que sua aparência, excitando a concupiscência masculina, lhe dê controle sobre os homens de pouca razão (bárbaros). Têm também elevada preocupação em proporcionar prazer aos homens, razão dos excessos cosméticos. Os homens prudentes, contudo, quase não se preocupam com a aparência, tão ocupados estão com coisas elevadas. Por isso, os sábios têm barba. Vale lembrar que este livro é uma comédia.
  36. O jantar com os amigos degenera se não estão os amigos se divertindo. Ninguém se reúne na mesa para beber, comer e conversar coisas sérias. Se é reunião, tem comida, tem bebida e pelo menos uma mesa, tem que ter amigos que fazem piada. Talvez seja por isso que não gosto de socialização.
  37. O tédio parece ter nascido conosco. Isso retorna em Pascal. Se não houvesse os momentos de alegria, a vida seria um grande tédio, que é inato ao ser humano.
  38. Também a amizade pode ser louca.
  39. Não é possível ser amigo de alguém perfeito. Os defeitos da pessoa ficam no caminho. Só pode haver amizade entre duas pessoas defeituosas.
  40. As auxiliares da loucura (adulação, volúpia e outras apresentadas acima) sustentam o matrimônio.
  41. Alguém escreveu que não é possível se casar com uma mulher cujo o passado é conhecido, tal como não é possível comer num restaurante cuja a cozinha fica aberta para os clientes conhecerem. De acordo com Erasmo, os matrimônios seriam menos frequentes se todos os enamorados pesquisassem o passado de seus amores, algo certamente prudente. É como se fosse a loucura que sustentasse a instituição do matrimônio. Esse livro foi escrito pra mim.
  42. Os cornos mansos têm casamentos duráveis.
  43. O ser humano nunca está satisfeito.
  44. Não é possível amar o próximo sem amar a si mesmo antes.
  45. Seja você mesmo. Piegas no último.
  46. O amor próprio nos torna contentes com o que somos, com o que fazemos e com o que temos. Se a pessoa odeia algo em si, ela se mobiliza para consertar tal, aumentando seu amor próprio e se aproximando da felicidade. É como se o amor próprio, isto é, o contentamento com sua própria condição, fosse a última coisa a se obter antes da felicidade. Mas os níveis de amor próprio variam conforme a pessoa e seus valores. Então, talvez seja possível aumentar o amor próprio, não pela mudança exterior, mas pela interior, reavaliando o que é realmente importante.
  47. A guerra é louca, nada tem a ver com filosofia.
  48. São os estourados e desesperados que vão pra guerra como soldados, mesmo quando a razão diz pra fugir.
  49. O filósofo, preocupado em saber das grandes coisas, se descuida da vida imediata e prática.
  50. Governadores mais sábios parecem tem causado mais problemas à república do que os menos sábios, segundo o testemunho da história.
  51. O filósofo se mostra ruim nos negócios públicos.
  52. A adulação move a besta popular.
  53. Nenhuma cidade adotou as leis imaginadas por Platão ou Aristóteles.
  54. O esforço despendido no estudo muitas vezes não compensa.
  55. Os loucos obtém, pela falta de vergonha e de medo, resultados tão bons quanto os dos prudentes.
  56. A vida é uma comédia: todos são atores.
  57. A morte pode ser entendida como cessação da morte.
  58. No meio dos loucos, o sábio é tido como mais louco.
  59. É imprudente para o ser humano querer ser sobre-humano.
  60. A diferença entre o sábio e o louco está nos guias: o louco se guia pela paixão e o sábio se guia pelo raciocínio.
  61. O estóico perfeito nunca existiu e é inacessível ao ser humano. Não é possível viver sem emoções. O estóico perfeito, se existir, ou é um ser sobrenatural…  ou uma estátua.
  62. O estóico não teria amigo algum se ele conseguisse realmente se purgar de qualquer sentimento ou emoção. Sua companhia seria desagradável e perturbadora.
  63. A vida pode ser tão ruim, cruel e desumana que os sábios podem preferir morrer, mesmo se puderem escolher entre morrer e serem imortais.
  64. Para Erasmo, se a sabedoria fosse frequente entre os mortais, o gênero humano deixaria de existir muito rapidamente. Porém, eu discordo, porque a sabedoria coletiva, afastando os imprevistos da loucura, poderia proporcionar uma vida mais segura e digna a todos. Se eu dissesse isso para Erasmo, contudo, ele provavelmente apontaria o inconveniente de que a vida com pouca loucura é menos interessante e mais tediosa. Então, a vida num mundo onde a sabedoria é comum a todos encontraria rapidamente seu fim do mesmo jeito, só que por outro motivo.
  65. Palavras só ferem os que são sensíveis a elas. Se ignorados, os insultos nada valem.
  66. O estado normal do ser humano é a ignorância. Então, a filosofia, que lastima os seres ignorantes, lastima o ser humano. Donde decorre que, para Erasmo, a filosofia é um esforço de desumanização.
  67. A loucura, ou seja, o ato anormal (fora da norma), é natural ao ser humano. Eliminá-la é robotizar o ser humano.
  68. As ciências mais elevadas são as que trazem menos fama e riqueza.
  69. As ciências que mais trazem lucro são aquelas que se distanciam da sensatez. Na opinião de Erasmo, essas são a medicina e o direito.
  70. Os loucos estão felizes com a condição humana, mas os sábios querem ir além dela. Por isso se frustram.
  71. Se você se julga sábio, escreva uma lista de suas preocupações e compare com a lista de preocupações do meu irmão, por exemplo. No fim das contas, meu irmão pode até ser mais feliz.
  72. Ui, ui: “a verdade se encontra no vinho e nas crianças.”
  73. O erudito tem maior tendência à hipocrisia.
  74. O poder vigente é inimigo da filosofia, porque a filosofia fala abertamente contra um governo corrupto e egocêntrico.
  75. Mas quando alguém que é tido por louco e amigável diz uma dura verdade, ela é recebida aos risos, como brincadeira, e depois talvez levada em consideração. Se fosse um filósofo a dizer tal verdade, seria enforcado imediatamente.
  76. O sábio profissional nunca viveu. Tanto faz se ele morre cedo ou tarde.
  77. Existem dois tipos de loucura. A loucura positiva é a construtiva e a negativa é a destrutiva.
  78. Ter um distúrbio mental não necessariamente te impede de ser uma boa pessoa.
  79. Da mesma forma, a cura de um distúrbio mental pode trazer males ainda maiores à pessoa, especialmente se o distúrbio for condição de possibilidade para a plenitude do indivíduo.
  80. Existe um sítio que lista técnicas para escrita de ficção. Segundo a página, muitos personagens célebres, tanto da ficção quanto da história universal, podiam muito bem estar padecendo de uma doença mental, numa época em que psicologia e medicina não se falavam. Lendo o Elogio da Loucura, isso é confirmado. Pessoas com distúrbios mentais sempre existiram, mas a preocupação excessiva em curar esses distúrbios é recente. Hoje, muitas personalidades importantes de nossa história são analisadas e diagnosticadas por psicólogos da atualidade como perturbadas, mas seus distúrbios não os impediram de conseguir seus grandes feitos e talvez esses loucos até não tivessem feito o que fizeram sem esses distúrbios. O próprio Sócrates se julgava possuído por um espírito, dizem que Einstein era autista, Jung teve uma alucinação na qual uma divindade defecava sobre uma catedral, mas é tarde demais pro Freud.
  81. Cada louco com sua loucura. Ou loucuras. Para Erasmo, o indivíduo é tanto mais alegre quanto mais opções de loucura ele tem, desde que não saia do âmbito construtivo. Os tipos que proporcionam mais alegria são aqueles tipos de loucura que têm foco no prazer. Eu não consigo ler esta parte e não pensar em fraldas.
  82. Segundo a personificação da loucura, fazer crescer um “bosque de chifres” na cabeça do marido é a coisa mais natural da atualidade. Aviso de comédia.
  83. A loucura da alquimia é a mais excelente. Os alquimistas procuram coisas que não existem, mas os alquimistas são capazes de iludir a si mesmos de maneira muito convincente, de forma que não duvidam das mentiras que contam a si mesmos.
  84. Existem também a loucura do jogo, a loucura do conto e a loucura da superstição, como é o caso dos santos fetiches, imagens de santos às quais são atribuídos poderes mágicos. Tomás de Aquino já dizia que não se deve adorar imagens, mesmo as de santos, porque são só imagens. Então, a adoração de imagens, as preces aos santos e os ornamentos dados às estátuas são pura superstição. E de fato: quando eu era católico, não se ouviam preces aos santos (com exceção de Maria) durante a missa. Se esses santos católicos têm algum poder, porque não ocorrem orações aos santos durante as reuniões católicas? É porque nem a igreja católica sustenta tal poder que os fiéis sustentam.
  85. Outra manifestação da loucura supersticiosa é a venda de indulgências, como se fosse possível comprar, com dinheiro, o perdão pelos pecados.
  86. Outra: a leitura obsessiva do Livro dos Salmos. O Livro dos Salmos não é nenhum livro de feitiços e recitar automaticamente versículos dele ao vento não faz nada de sobrenatural acontecer. O costume do “salmo do dia” é bem velho, sobrevivendo hoje em rádios, nas quais um salmo (sempre dos mais curtos) é lido nas manhãs. Interessante que, antes da leitura, o locutor explica pra quê aquele salmo serve: trazer saúde, trazer dinheiro, felicidade conjugal, realização de sonhos, mesmo quando o texto do salmo não alude a essas coisas. Me pergunto de onde ele tira essas leituras relativas ao “poder” deste ou daquele salmo.
  87. Atribuir mais poder a Maria do que a Jesus é próprio do tolo.
  88. Longos e caros tratamentos em lugar de curas rápidas e baratas, mas igualmente eficazes, é uma prática velha.
  89. Se aproveitando da loucura dos fiéis, os líderes religiosos procuram faturar com crenças falsas.
  90. Pregando uma lei diferente, mas mais suave, o líder religioso mantém controle do fiel, mesmo que isso signifique causar sua perdição. Porque é mais fácil confiar no padre ou pastor que tem uma interpretação mais suave e sedutora da Bíblia, de forma que o fiel não queira nem ler a Bíblia nunca, para evitar o risco de sentir dúvida. Ele prefere acreditar no pastor. É mais fácil e talvez mais seguro, na mente do fiel. O problema é que, embora seja fácil, muitos líderes religiosos, visando proveito próprio, não se importam de causar a perdição do fiel.
  91. Também existe a loucura do velório. Por que se preocupar com os detalhes do próprio velório? Você nem vai assisti-lo…
  92. As ideias com mais seguidores são as que mais se distanciam do bom-senso. Razão de Platão ser mais popular que Aristóteles.
  93. É ingênuo querer se elevar acima da loucura pela filosofia. Que garantia há de que a filosofia também não tenha uma parcela de loucura?
  94. O filósofo perfeito não é ouvido por ninguém, porque se distanciou completamente da loucura comum.
  95. Alemães mágicos, ui.
  96. A adulação não se opõe à boa fé.
  97. A adulação pode ser usada de maneira construtiva.
  98. Não é possível sustentar a felicidade humana nos fatos, porque os fatos, as coisas como realmente são, nos estão ocultos. Então, não há nada de anti-natural em estar feliz com um engano.
  99. Argumentos e certezas são tediosos. A grande massa popular fica enjoada.
  100. O prazer não depende somente das coisas que dão prazer, dependendo também da disposição para recebê-los.
  101. A loucura é de graça. Sabedoria custa tempo e esforço para atingir, por isso os sábios são tão poucos. Agravado pelo fato de que a pessoa se sente mais feliz quando perto de seus semelhantes. O sábio é infeliz porque não encontra outros sábios, mas os ignorantes estão rodeados de ignorantes.
  102. Os deuses greco-romanos dispensam bênçãos a pessoas seletas. A loucura dispensa bênçãos a todos o tempo todo.
  103. O único deus pagão que poderia ser adorado com alguma propriedade é a loucura, sempre presente, que não exige sacrifício ou culto. Os outros deuses exigem demais e fazem de menos.
  104. Mais vale imitar a divindade do que os sacrifícios.
  105. O comércio, seja de objetos seja de favores, é o ato humano mais imundo.
  106. A vida humana é um turbilhão de atos ilícitos.
  107. Existem também a loucura dos intelectuais, que leva a brigas sobre assuntos de pouca importância, e a loucura do professor, que se acha o máximo por se cansar no meio de crianças burras e irritantes.
  108. As artes mais difíceis recebem mais atenção, mesmo quando são as mais inúteis. Erasmo dá o exemplo da gramática.
  109. Os melancólicos se torturam com seu próprio trabalho, não sendo mais capazes de derivar prazer dele, tornando-se escravos do elogio e do esforço.
  110. Os livros idiotas são os que mais vendem, porque a maioria, que é idiota, os consome.
  111. Também é louca a felicidade do escritor que praticou o plágio. Não pode ter juízo quem se apropria do trabalho de outro e recebe a glória indevida sem um pingo de peso na consciência.
  112. O direito recebe uma glória injusta. A legislação não é um trabalho tão nobre como os vultos pensam.
  113. O debate político e jurídico é um festival de silogismos muitas vezes gratuitos.
  114. Os filósofos loucos nunca concordam entre si, mas todos se julgam se aproximar da verdade. Quem, afinal, está mais próximo, se a filosofia não concorda consigo própria? A variedade de sistemas filosóficos mostra que não é possível  distinguir quem tem razão. Novamente, se o filósofo realmente fosse sábio, seria infeliz. O filósofo louco ainda é feliz, porque se distrai com o debate filosófico.
  115. As questões mais elevadas da teologia são justamente aquelas cujas respostas não fariam diferença na vida do douto ou do fiel.
  116. Talvez não haja resposta para muitas questões teológicas. Talvez sejam perguntas só na mente humana.
  117. A moral dos teólogos na época de Erasmo era bizarra e contraditória.
  118. Os apóstolos não discutiam questões teológicas e não faziam de Deus uma ciência exata. Isso mostra que a teologia é desnecessária. Na verdade, o apóstolo Paulo admoestava contra discussões sem sentido, que são a marca das discussões teológicas da Idade Média e da Renascença.
  119. Os argumentos teológicos, fortemente lógicos e metafísicos, têm como função principal converter quem discorde de determinada religião. Elas pouco explicam aos que já são fiéis.
  120. Os teólogos medievais estudavam teologia mais  do que a própria Bíblia.
  121. Como os teólogos se pronunciam sobre o Inferno com uma certeza assustadora e riqueza de detalhes… sem nunca terem estado lá?
  122. Os teólogos medievais costumavam dizer que a divindade das Sagradas Escrituras estava acima da gramática. Na prática, isso é uma licença para falar e escrever de forma “errada”, para tecer argumentos ainda mais complexos. O Círculo de Viena e toda a trupe da lógica proposicional desce o cacete nisso.
  123. Para Erasmo, alguns teólogos buscam a reverência que se deveria dispensar a Deus.
  124. As ordens monásticas brigam por razões fúteis, os monges se orgulham de não fazerem nada.
  125. Já basta ser chamado de cristão. Qualquer denominação ulterior é presunçosa.
  126. De acordo com Erasmo, Jesus julgará as pessoas segundo a caridade. Então, coisas como abstenção de carne, voto de pobreza e outras ordenanças não seriam levadas em consideração. Apesar disso, muitos cristãos observam todo o tipo de código, menos a caridade.
  127. Apesar disso, observar essas ordenanças nutre esses cristãos com falsas esperanças, que tornam a vida tolerável. É uma manifestação de loucura também.
  128. Frades bêbados vazam confissões.
  129. Parece que havia a prática de vazar confissões durante as missas, para humilhação pública de alguém que atraiu o ódio do frade ou do padre. Claro que o nome da pessoa não era revelado, mas era possível deduzir quem era, se fosse pessoa próxima. Imagine se uma pessoa escrevesse um sermão especificamente sobre seus pecados mais ocultos e ministrasse à igreja.
  130. Era prática comum dos retóricos pregadores começar o discurso com uma coisa que não tinha nada a ver com o tema a ser discutido. O intuito era atrair e prender a atenção do ouvinte, mas, para quem é sensato, é ridículo começar um discurso com algo que nada tem a ver com o resto do discurso.
  131. Os sermões seguiam um itinerário retórico. É mais ou menos o que ocorre com os episódios de Três Espiãs Demais. Um episódio desse desenho começa com uma situação corriqueira envolvendo aquela menina que elas não gostam, depois elas são sugadas para o quartel general onde recebem missão e apetrechos, depois fazem um reconhecimento local, uma delas é capturada, as outras vão atrás dela, são capturadas também, o vilão aparece e conta-lhes o plano no cativeiro, não mata elas, diz pra onde ele vai, elas se soltam do cativeiro (que normalmente inclui risco de morte bem lenta, pra dar bastante tempo para elas se soltarem das cordas ou correntes), chegam ao local onde o vilão disse que estaria, ele está mesmo lá, é derrotado, elas voltam à situação corriqueira, causam alguma vergonha à menina desgostada, risos, logotipo, créditos. Da mesma forma, o sermão católico da época de Erasmo começava com um raciocínio descabido, seguido de uma transição entre raciocínio e tema principal (um trecho do Evangelho, que é dito de passagem), depois é levantada uma digressão teológica e, por último, é analisada a narração de uma história secular. Os sermões tinham pouco de salutar para o fiel.
  132. A loucura dos reis e dos bispos vem do peso de suas responsabilidades. Recebem tarefas sobre-humanas. Ou você fica doente observando todas as regras ou oportunamente se esquiva do que não convém.
  133. Na época de Erasmo, a Igreja Católica e o papado eram altamente anticristãos. Alguém pode dizer “até hoje são”. Então eram bem mais.
  134. A guerra humana nada tem a ver com Jesus. A Igreja não poderia ter causado nem apoiado guerra alguma.
  135. Você sabe que você é fera quando conquista coisas até durante o sono.
  136. A vida humana é mais governada pela fortuna (acaso) do que pela justiça. Por isso os sábios são tidos em pouca conta, enquanto que os ignorantes são ricos e famosos.
  137. O filósofo verdadeiro é o ser mais odiado que existe, por não partilhar do amor ao dinheiro, comum a todas as outras pessoas.
  138. Quando não se tem algo e esse algo é necessário, devemos procurar um equivalente (representá-lo).
  139. A loucura nada tem a ver com Apolo e muito tem a ver com Baco. De repente, Nietzsche.
  140. A loucura é amiga da teologia.
  141. A Bíblia diz que o número dos loucos é infinito.
  142. Quanto mais se é sensato, mais se é triste. A loucura abriga a alegria. Porque todos os seres humanos desejam a alegria, ninguém está a salvo da loucura. Se o sábio quiser ser feliz, precisa se permitir também ser louco, alternando.
  143. A teologia deve muito a Aristóteles.
  144. O cristão é louco para o mundo. E foi a ciência do bem e do mal que corrompeu Adão e Eva. De fato, enquanto o ser humano não sabia o que estava fazendo e não tinha nenhum conhecimento ético, não vivendo sob nenhuma moral (exceto a de não comer do fruto daquela árvore), não podia ser culpabilizado por seus atos. Se não havia ética, não havia moral. Não havendo moral, não há lei nem punição por quebra da lei. Comendo do fruto, entrou no gênero humano a culpa, pois não apenas Adão e Eva desobedeceram uma ordem direta, mas agora estavam a par de tudo o que era certo e errado. Se fizessem algo que sabiam ser errado, mereceriam julgamento e punição devida. Enquanto não sabiam, mereceriam apenas misericórdia.
  145. Interessante como a loucura é sábia.
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6 Comentários »

  1. […] loucura em Voltaire é a doença, não simplesmente o comportamento anormal, como em Erasmo. Como uma pessoa pode agir loucamente se a alma (residente no cérebro) é de igual natureza às […]

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    Pingback por Anotações sobre o dicionário filosófico. | Pedra, Papel e Tesoura. — 27 de setembro de 2016 @ 14:20

  2. […] A tolerância entre cristãos é sinal distintivo de uma verdadeira igreja, em sentido tradicional da palavra como “coletivo de cristãos”. Se orgulhar de ser católico, se orgulhar de ser ortodoxo, se orgulhar de ser protestante, no final são manifestações de orgulho, que revelam muito mais o desejo de superioridade do que a doutrina de Cristo, que inclui a humildade (Mateus 11:29), o oposto do orgulho. Erasmo chamará esse orgulho de “presunção“. […]

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  4. […] pais fizeram nosso corpo, mas o espírito vem de Deus. Erasmo […]

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  5. Hey Yure, te adicionei no Skype!

    Abraços!

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    Comentário por Dragão Terra — 4 de janeiro de 2016 @ 19:19


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