Analecto

6 de dezembro de 2015

O “Elogio da Loucura”, de Erasmo.

Filed under: Entretenimento, Livros — Tags:, , , , — Yurinho @ 17:35

O Elogio da Loucura foi escrito por Erasmo de Roterdam. Abaixo, algumas paráfrases desse texto.

  1. Não é nenhum escândalo que os intelectuais se divirtam com algo além dos estudos.
  2. O Elogio é uma paródia dos comportamentos ridículos da humanidade.
  3. A loucura é capaz de expulsar a tristeza.
  4. “Sofista” não era necessariamente um termo pejorativo.
  5. O elogio de si próprio pode ser tão sincero ou até mais sincero que o elogio que os outros fazem do sujeito.
  6. Os elogios espontâneos são mais sinceros que os que são preparados com antecedência.
  7. Definir é limitar uma ideia em palavras, de forma que ela possa ser trabalhada pelo raciocínio.
  8. Não é possível limitar a loucura porque ela se estende a todo o gênero humano.
  9. Definições são abstrações, não correspondem 100% às coisas e muitas vezes não as descrevem bem.
  10. É próprio do tolo admirar tudo que é estrangeiro, como se tudo o que vem de outro país fosse necessariamente melhor que o que já temos no nosso.
  11. São os estúpidos que adoram a loucura.
  12. A loucura é acompanhada pelo amor-próprio, pelo horror à fadiga, pelo esquecimento, pela volúpia, pela delícia, pela irreflexão, pelo riso, pelo sono profundo e pela adulação.
  13. A loucura dá vida indiscriminadamente, pois muitos filhos são concebidos pela falta de juízo dos pais.
  14. Crítica de Erasmo aos estóicos: não existe uma pessoa no mundo que não tenha cometido uma insensatez ou que não venha a se entregar à paixão.
  15. Se todos fossem filósofos, talvez ninguém tivesse filhos: se você “pensar bem”, como fazem os filósofos o tempo todo, há lucro em ter filhos hoje em dia?
  16. Outra crítica aos estóicos: condenam o prazer, mas não resistem a ele.
  17. Se não fosse a volúpia, a vida seria bem triste.
  18. As crianças são ilimitadas, são imprevisíveis e são felizes.
  19. Os velhos se assemelham às crianças em vários aspectos.
  20. A criança que fala e age como um adulto é menos atraente.
  21. O velho é mais feliz que a criança, por ser moderado.
  22. O velho e a criança são tão parecidos que se atraem.
  23. Os defeitos das crianças pequenas reaparecem na velhice.
  24. A vida sem sabedoria, ou seja, a do bobo alegre, é uma vida louca.
  25. O excesso de estudo e a filosofia tornam a pessoa velha antes da hora.
  26. A sabedoria irrita os loucos.
  27. A loucura mantém Cupido gorducho.
  28. A loucura torna aprazível aquilo que seria, de outra forma, intragável, o que explica porque não existe mulher feia quando se está bêbado.
  29. A estética feminina tem por finalidade o controle sobre os homens de pouca razão.
  30. O jantar com os amigos degenera se não estão os amigos se divertindo.
  31. O tédio parece ter nascido conosco.
  32. Também a amizade pode ser louca.
  33. Não é possível ser amigo de alguém perfeito.
  34. As auxiliares da loucura (adulação, volúpia e outras apresentadas acima) sustentam o matrimônio.
  35. Os matrimônios seriam menos frequentes se todos os enamorados pesquisassem o passado de seus amores, algo certamente prudente.
  36. Os cornos mansos têm casamentos duráveis.
  37. Não é possível amar o próximo sem amar a si mesmo antes.
  38. Seja você mesmo.
  39. O amor próprio nos torna contentes com o que somos, com o que fazemos e com o que temos.
  40. A guerra é louca, nada tem a ver com filosofia.
  41. São os estourados e desesperados que vão pra guerra como soldados, mesmo quando a razão diz pra fugir.
  42. O filósofo, preocupado em saber das grandes coisas, se descuida da vida imediata e prática.
  43. O filósofo se mostra ruim nos negócios públicos.
  44. A adulação move a besta popular.
  45. Nenhuma cidade adotou as leis imaginadas por Platão ou Aristóteles.
  46. O esforço despendido no estudo muitas vezes não compensa.
  47. Os loucos obtém, pela falta de vergonha e de medo, resultados tão bons quanto os dos prudentes.
  48. A vida é uma comédia: todos são atores.
  49. No meio dos loucos, o sábio é tido como o mais louco.
  50. A diferença entre o sábio e o louco está nos guias: o louco se guia pela paixão e o sábio se guia pelo raciocínio.
  51. O estóico perfeito nunca existiu e é inacessível ao ser humano.
  52. O estóico não teria amigo algum se ele conseguisse realmente se purgar de qualquer sentimento ou emoção.
  53. A vida pode ser tão ruim, cruel e desumana que os sábios podem preferir morrer, mesmo se puderem escolher entre morrer e serem imortais.
  54. Palavras só ferem os que são sensíveis a elas.
  55. O estado normal do ser humano é a ignorância.
  56. As ciências mais elevadas são as que trazem menos fama e riqueza.
  57. As ciências que mais trazem lucro são aquelas que se distanciam da sensatez.
  58. Os loucos estão felizes com a condição humana, mas os sábios querem ir além dela e, por isso, se frustram.
  59. Se você se julga sábio, escreva uma lista de suas preocupações e compare com a lista de preocupações do meu irmão, por exemplo.
  60. A verdade está no vinho e nas crianças.
  61. O erudito tem maior tendência à hipocrisia.
  62. O poder vigente é inimigo da filosofia, porque a filosofia fala abertamente contra um governo corrupto e egocêntrico.
  63. Mas quando alguém que é tido por louco e amigável diz uma dura verdade, ela é recebida aos risos, como brincadeira, e depois, talvez, levada em consideração.
  64. O sábio profissional nunca viveu.
  65. Existem dois tipos de loucura: a loucura positiva é a construtiva e a negativa é a destrutiva.
  66. Ter um distúrbio mental não necessariamente te impede de ser uma boa pessoa.
  67. Da mesma forma, a cura de um distúrbio mental pode trazer males ainda maiores à pessoa, especialmente se o distúrbio for condição de possibilidade para a plenitude do indivíduo.
  68. Muitas personalidades importantes de nossa história são analisadas e diagnosticadas por psicólogos da atualidade como perturbadas, mas seus distúrbios não os impediram de conseguir seus grandes feitos e talvez esses loucos até não tivessem feito o que fizeram sem esses distúrbios.
  69. Cada louco com sua loucura.
  70. É normal ser corno.
  71. Os alquimistas procuram coisas que não existem, mas os alquimistas são capazes de iludir a si mesmos de maneira muito convincente, de forma que não duvidam das mentiras que contam a si mesmos.
  72. Existem também a loucura do jogo, a loucura do conto e a loucura da superstição.
  73. Outra manifestação da loucura supersticiosa é a venda de indulgências, como se fosse possível comprar, com dinheiro, o perdão pelos pecados.
  74. O Livro dos Salmos não é nenhum livro de feitiços e recitar automaticamente versículos dele ao vento não faz nada de sobrenatural acontecer, mas os supersticiosos atribuem a cada salmo um poder: trazer saúde, trazer dinheiro, felicidade conjugal, realização de sonhos, mesmo quando o texto do salmo não alude a essas coisas.
  75. Atribuir mais poder a Maria do que a Jesus é próprio do tolo.
  76. Longos e caros tratamentos em lugar de curas rápidas e baratas, mas igualmente eficientes, é uma prática velha.
  77. Se aproveitando da loucura dos fiéis, os líderes religiosos procuram faturar com crenças falsas.
  78. Pregando uma lei diferente, mas mais suave, o líder religioso mantém controle do fiel, mesmo que isso signifique causar sua perdição.
  79. Por que se preocupar com os detalhes do próprio velório, se você nem o assistirá?
  80. As ideias com mais seguidores são as que mais se distanciam do bom-senso.
  81. É ingênuo querer se elevar acima da loucura pela filosofia.
  82. O filósofo perfeito não é ouvido por ninguém, porque se distanciou completamente da loucura comum.
  83. A adulação não se opõe à boa fé.
  84. A adulação pode ser usada de maneira construtiva.
  85. Não é possível sustentar a felicidade humana nos fatos, porque os fatos, as coisas como realmente são, nos estão ocultos.
  86. Argumentos e certezas são tediosos.
  87. O prazer não depende somente das coisas que dão prazer, dependendo também da disposição para recebê-los.
  88. A loucura é de graça, mas sabedoria custa tempo e esforço para atingir, por isso os sábios são tão poucos.
  89. O único deus pagão que poderia ser adorado com alguma propriedade é a loucura, sempre presente, que não exige sacrifício ou culto, enquanto que os outros deuses pagãos exigem demais e fazem de menos.
  90. Mais vale imitar a divindade do que lhe prestar sacrifício.
  91. O comércio, seja de objetos, seja de favores, é o ato humano mais imundo.
  92. A vida humana é um turbilhão de atos ilícitos.
  93. Existem também a loucura dos intelectuais, que leva a brigas sobre assuntos de pouca importância, e a loucura do professor, que se acha o máximo por se cansar no meio de crianças burras e irritantes.
  94. As artes mais difíceis recebem mais atenção, mesmo quando são as mais inúteis.
  95. Os melancólicos se torturam com seu próprio trabalho, não sendo mais capazes de derivar prazer dele, tornando-se escravos do elogio e do esforço.
  96. Os livros idiotas são os que mais vendem, porque a maioria, que é idiota, os consome.
  97. Também é louca a felicidade do escritor que praticou o plágio.
  98. A legislação não é um trabalho tão nobre como os vulgos pensam.
  99. O debate político e jurídico é um festival de silogismos muitas vezes gratuitos.
  100. Os filósofos loucos nunca concordam entre si, mas todos se julgam se aproximar da verdade.
  101. As questões mais elevadas da teologia são justamente aquelas cujas respostas não fariam diferença na vida do fiel.
  102. Talvez não haja resposta para muitas perguntas teológicas, se é que são mesmo perguntas.
  103. Os apóstolos não discutiam questões teológicas e não faziam de Deus uma ciência exata.
  104. Os argumentos teológicos, fortemente lógicos e metafísicos, têm como função principal converter quem discorde de determinada religião.
  105. Os teólogos medievais estudavam teologia mais do que a própria Bíblia Sagrada.
  106. Como os teólogos se pronunciam sobre o Inferno com uma certeza assustadora e riqueza de detalhes sem nunca terem estado lá?
  107. Os teólogos medievais costumavam dizer que a divindade das Sagradas Escrituras estava acima da gramática o que, na prática, é uma licença para falar e escrever de forma “errada”, a fim de tecer argumentos ainda mais complexos.
  108. Alguns teólogos buscam a reverência que se deveria dar a Deus.
  109. As ordens monásticas brigam por razões fúteis, os monges se orgulham de não fazerem nada.
  110. Já basta ser chamado de cristão.
  111. Frades bêbados vazam confissões.
  112. Parece que havia a prática de vazar confissões durante as missas, para humilhação pública de alguém que atraiu o ódio do frade ou do padre.
  113. Era prática comum dos retóricos pregadores começar o discurso com uma coisa que não tinha nada a ver com o tema a ser discutido.
  114. A loucura dos reis e dos bispos vem do peso de suas responsabilidades: ou você fica doente observando todas as regras ou oportunamente se esquiva do que não convém.
  115. A guerra humana nada tem a ver com Jesus.
  116. Você sabe que você é fera quando conquista coisas até durante o sono.
  117. A vida humana é mais governada pela fortuna (acaso) do que pela justiça.
  118. O filósofo verdadeiro é o ser mais odiado que existe, por não partilhar do amor ao dinheiro, comum a todas as outras pessoas.
  119. Quando não se tem algo e esse algo é necessário, devemos procurar um equivalente (representá-lo).
  120. A loucura nada tem a ver com Apolo e muito tem a ver com Baco.
  121. A loucura é amiga da teologia.
  122. Quanto mais se é sensato, mais se é triste.
  123. A teologia deve muito a Aristóteles.
  124. O cristão é louco para o mundo.

6 Comentários »

  1. […] loucura em Voltaire é a doença, não simplesmente o comportamento anormal, como em Erasmo. Como uma pessoa pode agir loucamente se a alma (residente no cérebro) é de igual natureza às […]

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    Pingback por Anotações sobre o dicionário filosófico. | Pedra, Papel e Tesoura. — 27 de setembro de 2016 @ 14:20

  2. […] A tolerância entre cristãos é sinal distintivo de uma verdadeira igreja, em sentido tradicional da palavra como “coletivo de cristãos”. Se orgulhar de ser católico, se orgulhar de ser ortodoxo, se orgulhar de ser protestante, no final são manifestações de orgulho, que revelam muito mais o desejo de superioridade do que a doutrina de Cristo, que inclui a humildade (Mateus 11:29), o oposto do orgulho. Erasmo chamará esse orgulho de “presunção“. […]

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    Pingback por Anotações sobre a carta sobre a tolerância. | Pedra, Papel e Tesoura. — 17 de agosto de 2016 @ 15:23

  3. […] disso, o pai e a mãe fazem o corpo do filho, mas quem dá a vida e a razão é Deus. Por isso o pai não pode tomar “de volta” a vida do filho, diz o […]

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    Pingback por Meditações metafísicas. | Pedra, Papel e Tesoura. — 24 de março de 2016 @ 08:05

  5. Hey Yure, te adicionei no Skype!

    Abraços!

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    Comentário por Dragão Terra — 4 de janeiro de 2016 @ 19:19


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