Analecto

11 de março de 2016

Anotações sobre o novum organum.

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  1. A natureza nunca é um assunto que se acaba. Ela sempre pode ser objeto de estudo.
  2. Se você acha que não existe verdade absoluta sobre algo, ninguém pode lhe culpar: a multidão de respostas “certas” nos leva a um ceticismo. Porém, o Ensaio diz que isso não impede alguém de ficar com a afirmativa mais provável.
  3. Não raro, o único jeito de saber se algo pode ou não ser conhecido é tentando conhecê-lo. Então, se você acha que a metafísica é uma grande loucura, ela ainda é uma tentativa sincera de conhecer algo que você acha que não pode ser conhecido. Mas será que você se deu ao devido trabalho de conhecer essas coisas? Se pensar que é impossível a ponto de não tentar, você está errado.
  4. Não é possível ser original sem conhecer o passado. Desconhecendo os pensadores antigos, tanto se pode incorrer no ridículo de se achar original por ter pensado algo que alguém já pensou quanto se pode incorrer no ridículo de cometer um acidente que já foi cometido pela tradição (por vezes até já resolvido).
  5. O método de cultivo da ciência pode ser diferente do método para fazer descobertas.
  6. A mão e o intelecto precisam de ação coordenada.
  7. Saber é poder.
  8. O ser humano pode manipular a natureza brincando com seus elementos, mas ele é incapaz de adicionar algo novo a ela.
  9. O que é impossível até o ponto continuará sendo impossível, a menos que se tente de um jeito que ainda ninguém tentou.
  10. Muita ciência atual é combinatória: juntam-se duas ou mais descobertas anteriores.
  11. É necessário reconhecer que a mente humana é limitada, que ela precisa de auxílio.
  12. A natureza é demais para nosso raciocínio e nosso intelecto. Nunca saberemos tudo.
  13. Antes de avançar cientificamente, é necessário que nossa lógica avance.
  14. Os conceitos que usamos precisam ser devidamente definidos.
  15. O conhecimento imediato precisa ser devidamente filtrado e corrigido, em vez de tomado imediatamente como axioma.
  16. O debate dialético é conceitual. Não substitui a demonstração empírica.
  17. O debate dialético só convém fora das ciências naturais e exatas. Ele é próprio das humanidades.
  18. Para Bacon, o avanço científico só pode ser significativo se ocorrer uma mudança nos fundamentos da ciência, naquilo é atualmente tido por certo. Thomas chamará isso de “mudança de paradigma”, em sua Estrutura das Revoluções Científicas.
  19. É um tanto improdutivo comparar métodos sem discorrer qual é o que melhor funciona pra compreender as coisas. De que adianta conhecer e comparar os métodos se você dirá que são todos igualmente válidos no fim das contas? Um tem que ser melhor, mesmo que particularmente. O método certo pra situação certa.
  20. O conhecimento do novo se dá pela comparação com o velho, diz Bacon.
  21. O método de Bacon parte do particular. Verificando a regularidade dos fenômenos, é possível chegar a compreendê-los por uma regra geral. A regra é tanto mais segura quanto mais fenômenos particulares forem observados. Isso não é novidade; Aristóteles já fazia isso. Hoje, esse método é prática padrão na ciência: não é possível fazer ciência sem indução. É possível também incorporar dedução, quando se quer partir da regra geral para a realidade, a fim de prever fenômenos, mas a indução entra em algum ponto.
  22. É possível conhecer as coisas. Mas o quanto conhecemos delas depende da validade dos nossos métodos.
  23. Os preconceitos da mente humana podem, segundo Bacon, ser eliminados pela observação da natureza e dos casos particulares. Se ele tiver uma noção errada da realidade, uma demonstração de que as coisas não são como ele pensa pode conduzi-lo à razão. Se ele acha que todos os cisnes são brancos, mostre pra ele cem cisnes negros. Não é possível que ele continue pensando do jeito que pensava.
  24. Os ídolos da tribo são referentes à espécie humana. É o preconceito de tomar algo que é particular a você como regra geral. Isso porque nossos sentidos não captam a realidade como ela é realmente. O nosso mundo é o que percebemos dele e precisamos ter a maturidade de saber que os fenômenos que captamos são todos aparentes.
  25. Os ídolos da caverna são referentes à cultura recebida. É o preconceito de interpretar algo segundo a educação que tivemos. Exemplo: se fui educado numa família tradicional católica severa, então terei uma ideia totalmente diferente do ateu acerca dos homossexuais.
  26. Os ídolos do fórum são referentes ao discurso. As próprias definições das palavras, o arranjo delas, a mentira deliberada se mostram como graves entraves à mente. No exemplo dos cisnes brancos, se eu mostrasse cem cisnes negros ao indivíduo que tem para si que cisne é sempre ave branca, o ouvinte provavelmente pensaria que os cem cisnes negros não são cisnes (pois a definição de “cisne” inclui branco).
  27. Os ídolos do teatro são referentes ao próprio conhecimento. Quando algum filósofo ou cientista produz algo grande e aceito por todos, discordar dele torna-se difícil, mesmo quando ele está errado. Aristóteles foi talvez a mais célebre causa desse tipo de ídolo: por anos, acreditou-se que Aristóteles sabia tudo o que havia para saber e, por séculos, sua doutrina ficou intocada em um pedestal dourado. Aí, veio Galileu.
  28. Coisas parecidas não são idênticas.
  29. A mente humana tem fome de perfeições. Hoje nem tanto, mas antigamente muito incomodava argumentar que os planetas movem-se em rota elíptica e não “perfeitamente” circular. A mente gosta de círculos, números redondos, além dos números dos números 3, 4 e 7, de triângulos equiláteros, quadrados perfeitos, de um tipo de “elegância”. Mas a perfeição desejada pela mente, que tanto a conforta, não existe na natureza.
  30. Se o acidente agrada, tudo é feito para perpetuar o acidente.
  31. Quando algo grande acontece subitamente, começamos a fazer suposições. Sem o devido treinamento, esquecemos todos os métodos e perdemos a linha que separa ciência e imaginação.
  32. A causa final de algo é subjetiva, não natural.
  33. O intelecto humano tem pressa: quer saber as causas do que é universal sem conhecer as causas do que é secundário.
  34. Em geral, confundimos verdade com preferência pessoal.
  35. A pesquisa é afetada pelos sentimentos do pesquisador.
  36. Os sentidos enganam. Os instrumentos para ampliar o alcance dos sentidos não garantem certeza.
  37. É preciso entender os fenômenos (matéria e movimento). As ideias (coisas em si) não podem ser conhecidas. Se você pensava que Kant ou David tinham inventado isso, bom, não foi, mas Bacon. A diferença talvez seja que Kant diz que a coisa em si, embora existente, não pode ser conhecida, enquanto que Bacon diz que ela não pode ser conhecida porque é uma “fantasia”.
  38. É uma tentação comum submeter a ciência aos assuntos que lhe são caros. Assim, Aristóteles submete toda a sua filosofia natural à lógica.
  39. Existem aqueles que são melhores em perceber semelhanças e aqueles que são melhores em perceber diferenças.
  40. Não se pode se preocupar demais com os elementos da natureza a ponto de negligenciar a estrutura que os une.
  41. Ao conhecer algo, é preciso alternar os momentos de análise dos elementos e análise da estrutura.
  42. Bacon parece querer que a experiência científica seja “pura”, mas isso é aparente. Na verdade, podemos purificá-la até certo ponto.
  43. A crença comum é de que o intelecto domina as palavras. Mas o uso constante das palavras subjuga o raciocínio à linguagem.
  44. Exemplo: às vezes nomeamos e definimos o que não existe e aí uma noção vazia de sentido entra no raciocínio. Outro: às vezes nos apressamos ao definir algo e o fazemos erradamente.
  45. Para Bacon, o primeiro motor não existe.
  46. Uma mesma palavra pode ser tomada em diversos sentidos. Essa ambiguidade afeta o raciocínio.
  47. Existem três tipos de filosofias erradas, diz Bacon: a sofística (puramente discursiva e conceitual, mas não empírica), a empírica (que pretende interpretar o universo partindo de um número limitado de exemplos) e a supersticiosa (que mistura filosofia e fé).
  48. A filosofia aristotélica, diz Bacon, é do gênero sofístico: subjugando o mundo à lógica, Aristóteles reduziu a natureza à palavras, ao nível conceitual, interpretando-a dentro desses conceitos e entendendo-a comparando conceitos. Isso é incompleto e torna-se errado quando a coisa contradiz o conceito.
  49. A filosofia aristotélica faz experiências condicionadas pela lógica, interpretando resultados segundo a lógica axiomática. A escolástica nem isso faz: ela não experimenta nada.
  50. A alquimia pretende extrair regras gerais de pouquíssimos exemplos. Até um leigo discordaria dos resultados com muita razão.
  51. Os pitagóricos e os platônicos são exemplos dos supersticiosos. Bacon também fala de algumas pessoas que tentaram, a partir do primeiro capítulo do Génesis, construir uma filosofia natural e bíblica. Mas isso não apenas causa absurdos filosóficos como também heresias. Então, misturar fé e filosofia é, diz Bacon, ruim tanto para a filosofia quanto para a fé.
  52. A filosofia natural gosta de imaginar que existem elementos que concorrem entre si na composição da matéria e também que existem seres ideais latentes na natureza, dos quais vêm os seres particulares. Bacon diz que essas coisas não existem.
  53. Em polêmica com Tomás, Bacon diz que os movimentos violentos também são naturais.
  54. Bacon é pragmático: mesmo que algo seja verdade, será que serve pra melhorar nossa vida?
  55. Quando você diz para si próprio que não existe verdade, seu interesse pelo conhecimento torna-se débil. Se não há verdade sobre nada, mas apenas provável, eu não preciso de conhecimento preciso sobre nada e eu posso tomar qualquer interpretação de mundo que me agrade, já que não existe certo ou errado, mas apenas provável. Mesmo que as chances não sejam iguais, há chance de eu estar certo, tal como há chance dos outros estarem errados. Que importa o estudo da natureza, ou do que quer que seja, então? Se não há esperança de conclusão, não há necessidade de esforço nessa direção.
  56. Não poder conhecer tudo não é desculpa para não estudar. O fato de nossa mente ser limitada não nos escusa de procurar auxílios para superar seus limites.
  57. Bacon quer que nossa mente se livre de todos os ídolos, dos preconceitos, antes de se dar à pesquisa científica. Hoje, isso é tido por ingênuo.
  58. Não vamos tirar conclusões precipitadas sobre os resultados da pesquisa.
  59. Para Bacon, a ciência de sua época era pouco rigorosa. Os cientistas eram como crianças brincando.
  60. No primeiro dia, Deus fez a luz. Antes de começar o experimento, vamos nos certificar de prepará-lo pra dar certo, escolhendo os axiomas corretos de antemão. Devemos usar os axiomas que “trazem luz”, ou seja, que nos permitem entender melhor o processo e os resultados. Não devemos simplesmente escolher o axioma que parece mais “frutífero”.
  61. Diz Bacon que Platão e Aristóteles eram tão sofistas como os sofistas. Não me surpreende que alguém pense dessa forma, mas me surpreende que alguém o diga explicitamente.
  62. Para Bacon, os pré-socráticos são superiores aos filósofos gregos posteriores, porque não eram dados à discussão. Se pré-socráticos tivessem se voltado para argumentações com seus contemporâneos, não teriam se voltado para a experiência e para a investigação da verdade com tanto afinco. No caso de Platão e Aristóteles, havia um aspecto de disputa em suas filosofias. Os socráticos não estavam completamente voltados para a verdade, mas também voltados em combater os sofistas, alimentando um debate, segundo Bacon, sem sentido.
  63. Se deve fazer ciência sem se preocupar com o que os outros vão pensar dos resultados. Não se deve almejar discípulos.
  64. A filosofia não pode ser só palavra, tem que também ser ação.
  65. Os gregos não tinham um bom conhecimento histórico ou geográfico. A mitologia grega trabalhava para que o grego ficasse confinado em um espaço e em um tempo específicos.
  66. Se os gregos tivessem viajado mais, talvez sua ciência fosse ainda mais grandiosa.
  67. O efeito é conhecido antes da causa.
  68. Descobrir por acaso não é algo digno de glória.
  69. Bacon era pragmático antes da escola pragmática: um sistema filosófico ou científico deve ser avaliado pelos seus resultados. Se produzem algo bom, são válidos. Se não produzem nada, são inúteis. Se produzem apenas contenda e discussão vazia, são perniciosos.
  70. Para Bacon, não se deve ter a pretensão de elevar seu próprio entendimento ao nível universal: seu eu não consigo entender alguma coisa, não necessariamente ela é incognoscível.
  71. Se a filosofia fosse rigorosa, não haveria tantas escolas filosóficas pensando de forma tão diferente. O rigor metodológico aproxima os pesquisadores e harmoniza as conclusões. Então, constantes dissenções são sintoma de falta de rigor metodológico: se cada um tem seu método, claro que cada um chegará a uma conclusão diferente.
  72. O pensamento aristotélico foi tão bem feito que as filosofias anteriores perderam muita popularidade ou desapareceram. E mais: não se encontrou nenhum sistema filosófico melhor que o dele por séculos.
  73. Mas Bacon discorda: as filosofias anteriores a Aristóteles não desapareceram e os que dizem que não existiu coisa melhor que Aristóteles por séculos são justamente os doutrinados em Aristóteles!
  74. Consenso não significa verdade.
  75. Quando o povo te aplaude, pergunte se também não tem alguma reclamação.
  76. Quando uma ciência se desgarra da filosofia, pode ser utilizada para fins imediatos, porém não pode mais crescer (porque depende da filosofia a crítica aos métodos).
  77. O tempo da filosofia natural foi curtíssimo. Quando veio Sócrates, não se falou mais no assunto por um bom tempo. Até Bacon, maior parte do tempo da evolução filosófica foi consumido em filosofia moral e teologia.
  78. A filosofia natural era tida como caminho e não como ponto de chegada. Ninguém se dedicava a ela de todo coração.
  79. Estudar a natureza é sempre algo fecundo em resultados, enquanto que estudar algo fora dela é fecundo em discrepâncias.
  80. O objetivo da ciência é facilitar a vida das pessoas. O pouco progresso científico dos tempos de Bacon é consequência de muitos fazerem ciência por outras razões, visando nada além de lucro e fama.
  81. É necessário ter em vista o objetivo da prática científica. Fazê-lo “por fazer” causa resultados monstruosos.
  82. O método mais comum de fazer ciência, na época de Bacon, era consultar a opinião dos outros e adicionar a sua à reflexão coletiva. Parece monografia.
  83. O método tem que ser decidido antes de tudo.
  84. É vaidade achar que experiência empírica diminui a majestade da mente.
  85. A Antiguidade não é madura nem realmente “antiga”. Se ela é um estado anterior da humanidade, ela é a infância. Se ela é infantil, persistir nos seus métodos e resultados de pesquisa é ser imaturo.
  86. Muitas coisas que eram topo de linha na época de Bacon, como a panificação e os relógios, são baseadas em axiomas simples obtidos pela filosofia natural. Se a ciência tivesse progredido na busca do conhecimento da natureza como Bacon queria que fosse, com o mesmo interesse que se tinha antes de Sócrates, imagine quantas coisas impressionantes teríamos hoje!
  87. Numa biblioteca, muitos autores dizem as mesmas coisas. Se o gênero humano fosse mais original, os livros talvez seriam mais variados. É interessante como esse é o processo acadêmico até hoje. Antes do doutorado, você é mesmo estimulado a apenas explicar melhor o que já foi dito por alguém. Toda a sua produção, dos artigos científicos à monografia e à dissertação de mestrado, é repetido.
  88. O alquimista, quando falha em um experimento, se culpa de não ter entendido o que seu mestre quis dizer. Não passa pela cabeça dele que seus livros podem estar errados.
  89. Um modesto herói real é melhor que um grande herói de ficção.
  90. Se uma ciência julga a si mesma, provavelmente nunca será condenada. O julgamento de um estudo precisa vir de fora.
  91. É uma vã glória pensar que já se sabe tudo o que há para saber. Isso estanca o progresso científico.
  92. O mesmo fenômeno pode se manifestar em diferentes objetos. Estudar um fenômeno em apenas um objeto é muito restrito.
  93. Não tem nada de grandioso em arranjar a invenção de alguém.
  94. A ciência deve prescindir da religião. Isso não significa que o pesquisador não possa ser religioso, mas que os métodos não devem se misturar. A religião não deveria censurar resultados ou pesquisas.
  95. Levar a filosofia para dentro da religião é torná-la dogmática, diz Bacon. Particularmente, não creio que seja errado usar a filosofia para melhor explicar a fé e também não vejo nada de errado em avaliar a filosofia segundo a fé. Mas o problema que Bacon tem com isso é que os escolásticos, fazendo justamente isso, repeliram e exterminaram as filosofias que não eram apoiadas pela fé atual. Bacon não é contra a religião, mas é contra a mistura entre a religião, que é imutável, e o conhecimento secular, que precisa mudar para progredir. A fé já é perfeita, o conhecimento secular precisa progredir. Levá-lo a um âmbito imutável é negar seu progresso.
  96. Dizer que penetrar nos mistérios da natureza é como invadir o território divino é como tentar agradar Deus pela mentira. Porque a natureza foi dada a nós.
  97. As Escrituras revelam a vontade divina. O estudo da natureza revela os meios que Deus usa para realizar sua vontade. Para Bacon, o estudo da natureza apenas aumentaria a fé do crente.
  98. O estudo universitário acaba sendo disciplinador demais. O estudante é condicionado a pensar de um só modo.
  99. Tentar ser original no meio acadêmico é difícil, porque você terá pouco apoio. Parece minha faculdade.
  100. É difícil uma invenção nova ser recompensada pelo Estado ou pela população.
  101. Se pensamos que algo é impossível, não tentaremos em primeiro lugar, mesmo que estejamos errado e seja possível na verdade.
  102. Se encontramos erros no nosso antigo proceder, isso é fonte de esperança de um melhor proceder: identificar os erros é o primeiro passo para consertá-los.
  103. Os empiristas são como formigas: acumulam recursos para usá-los. Os racionalistas são como aranhas: extraem de si o que precisam. O meio-termo é a abelha: recolhe recursos de fora, mas não os usa sem antes digeri-los.
  104. A melhor ciência é feita combinando experiência e razão. Não apenas uma das duas.
  105. Até Bacon, a filosofia natural não era pura, mas sempre teve mistura de algum outro saber.
  106. Para Bacon, nenhum objeto ou fenômeno foi corretamente estudado pela filosofia natural.
  107. A história natural é a descrição dos fatos. A filosofia natural é sua recontextualização e reflexão.
  108. Aliada à pesquisa deve estar a escrita: os resultados da meditação e o que está guardado na memória devem ser anotados.
  109. O percurso científico antes de Bacon era: saltar dos particulares à causa primeira e da causa primeira para as causas intermediárias. Mas Bacon diz que é mais seguro ascender nas causas intermediárias, a partir dos casos particulares, até chegar à causa primeira.
  110. As causas primeiras são especulativas. Trabalhar sobre as causas intermediárias é mais seguro. Isso parece estar por trás da ciência atual, que não admite nenhum efeito sem causa. Óbvio: se ela chamasse algo de “causa primeira”, a pesquisa acabaria e ela se privaria de uma possibilidade de progresso.
  111. A indução de Bacon é diferente da Aristóteles, o qual salta do particular para o geral e depois fundamenta o intermediário com base no geral. Bacon quer ascensão regular e gradual.
  112. Quanto mais casos particulares observados, melhor será a lei que se fizer sobre determinado fenômeno. Não se pode pretender fazer uma lei com um ou dois exemplos.
  113. As invenções requereram habilidades de animal para a constituição de seus alicerces (intuição, por exemplo). O ser humano tem habilidades mais elevadas que essas e que está deixando de usar.
  114. O impossível ontem pode ser possível hoje.
  115. Em geral, procedemos ao futuro com uma bagagem de experiência passada. Mas as grandes invenções nada parecem com o que se tinha antes delas. Por isso são feitas por acaso. Fazer grandes invenções sem recorrer ao acaso requer desprendimento dos conceitos das invenções anteriores.
  116. Se gasta muito dinheiro, tempo e pesquisa na concepção de invenções inúteis.
  117. Se gasta muito tempo pensando e pouco tempo fazendo.
  118. Ao trabalhar em grupo, mesmo que todos queiram o mesmo objetivo, cada um deve ter um papel próprio no alcance desse objetivo.
  119. Não tentar é pior que falhar. Não tentando, se arrisca perder o benefício de conseguir. Falhando, se perde apenas esforço.
  120. A estratégia do livro é atacar e mostrar que os meios de fazer ciência atualmente são falsos, para só depois mostrar o que pode ser instaurado de novo. Afinal, instaurar a novidade logo de cara é mais difícil, porque já há um método como aceito.
  121. Um dos objetivos de Bacon: dominar a natureza e dar a ela uso útil aos humanos. Todos sabemos no que deu essa obsessão.
  122. Ter em vista o ponto de chegada nos permite corrigir o caminho.
  123. É estranho que estudamos as coisas que são insólitas e que raramente ocorrem, mas deixemos de lado o estudo das coisas que ocorrem cotidianamente. Na época de Bacon, se davam por garantidos os fenômenos comuns (rotação dos corpos celestes, causas do calor e do frio e coisas que tais).
  124. Parece que só se estuda com afinco e dedicação aquilo que é raro. As coisas comuns são estudadas superficialmente.
  125. A ciência deve pesquisar também o que é nojento e nada nobre, tipo fezes e cadáveres. Também há conhecimento no estudo dessas coisas.
  126. Os experimentos que não visam frutos, mas apenas esclarecer certas coisas obscuras, também são válidos, porque os experimentos que visam objetivos concretos dependem de axiomas claros.
  127. Tal como o rei que não lida com pequenas causas dos súditos não pode estar apto para resolver as grandes causas, aquele que não estuda primeiro os assuntos simples não tem como entender os complexos.
  128. Bacon estava fazendo o que todo aluno do primeiro semestre da faculdade de filosofia gostaria de fazer: instaurar algo novo sem recorrer à autoridade dos antigos.
  129. É presunçoso dizer que a metafísica é uma ciência das coisas divinas. A única coisa divina que o ser humano pode conhecer, diz Bacon, é a natureza, que é obra divina. Tentar elevar-se além da natureza é transformar sua sabedoria em loucura.
  130. A filosofia que Bacon almeja é de código aberto: não se deve apresentar somente o produto, mas também o processo.
  131. O que Bacon está dizendo vale para todas as ciências e para a filosofia. Ele não está se dirigindo a um ramo específico do saber.
  132. Enquanto que as conquistas civis e legais afetam comunidades por todo um período histórico, as conquistas tecnológicas afetam o mundo inteiro para sempre.
  133. Deus oculta certas coisas para que nós as achemos, diz Bacon, baseando-se no dizer de Salomão.
  134. O homem civilizado pode ser tido por um deus para os povos menos civilizados.
  135. Essa “civilidade” está atada ao nível tecnológico. O que para nós é mecânica, é magia para povos mais bárbaros.
  136. A tecnologia exerce mais influência sobre o andar da história humana do que qualquer outra coisa neste mundo.
  137. Qualquer tecnologia pode ter seu propósito pervertido. Mas isso não torna maléfica a tecnologia; maléficos são os que a pervertem. Amo o exemplo da Internet: serviço de boa natureza, mas frequentemente usado por pessoas de má índole.
  138. O verdadeiro saber é o conhecimento das causas.
  139. A causa final é perniciosa para a ciência, mas não para os atos civis. Se queremos fazer uma ciência “imparcial”, temos que assumir que as coisas na natureza não foram feitas para nenhum fim particular e que esse fim é dado por nós.
  140. Para Bacon, a essência, ou forma, é inatingível. Kant dirá o mesmo. Apesar de que a forma aristotélica é somente o que a coisa é, uma definição. Não é que a essência das coisas mude, mas nossas definições podem mudar, caso nosso atual conceito não se adapte bem à forma. Ou talvez Bacon esteja dizendo que definição, se não necessariamente coincide com a forma, não deve nunca ser tomada como sendo algo eterno. Imagino que também definições fechadas estancam o progresso científico.
  141. A pesquisa das causas materiais e das eficientes são superficiais, diz Bacon.
  142. Quem conhece a causa de alguma coisa somente enquanto afeta certos corpos, não conhece perfeitamente a causa sobre a qual discorre. Ele tem poder limitado sobre o fenômeno.
  143. “Forma”, segundo Bacon, deve ser redefinido como “lei que rege um fenômeno”. Ele não usa o termo “forma” como Aristóteles usa.
  144. Quem conhece as formas (leis) dos fenômenos pode ser original em relação àquele fenômeno. Conhecendo como ele funciona, posso manipulá-lo como eu desejar.
  145. Para Bacon, produzir ouro em laboratório apenas requer que você dê a determinado corpo as características do ouro. Se você for capaz de tingir algo de amarelo, afetar permanentemente seu ponto de fusão e de condensação e coisas que tais, seria possível produzir ouro por vias não naturais. Isso me soa muito ingênuo.
  146. Bacon não compra o átomo de Demócrito. Ele quer partículas “verdadeiras”, não especulativas.
  147. Aristóteles pensava que a filosofia da natureza se tornaria precária se incorporasse a matemática como método, mas Bacon é totalmente a favor do uso da matemática na investigação da natureza. Foi o que Newton fez, transformando a filosofia da natureza na física moderna. Antes, a matemática era aplicada apenas a certas áreas do estudo da natureza (como a astronomia).
  148. Para Bacon, a metafísica é a investigação das formas (princípios e leis dos fenômenos). Já a física é o estudo do fenômeno como ele aparece. Então, a física é o estudo daquilo que está ocorrendo, enquanto que a metafísica procura saber em que condições ele ocorre.
  149. A metafísica incorpora a magia (que não é ocultismo, pois Bacon dará um novo uso à palavra magia, que deixará de estar ligada ao sobrenatural), tal como a física incorpora a mecânica. Parece vir daqui a clássica definição de filosofia como “estudo do porquê” e da ciência como “estudo do como”.
  150. A ciência é uma via de mão dupla: dos experimentos feitos ao axioma, do axioma aos novos experimentos.
  151. O primeiro sentido (do experimento ao axioma) requer experiência sensorial, memória e raciocínio, este último para determinar o axioma dos múltiplos experimentos particulares.
  152. Antes de decidir sobre a natureza do calor, por exemplo, devemos anotar em que situações o calor ocorre. Devemos anotar tantas situações quanto acharmos necessário, imagino que para ver o que há de comum nelas.
  153. É necessário verificar se situações opostas cessam o fenômeno. Se pensamos que o dia é situação propícia ao calor, devemos pensar se, por um acaso, ele não ocorre à noite.
  154. Existem fenômenos que só podem ocorrer em ambiente controlado.
  155. Os dados científicos da época eram muito limitados mesmo, conforme se vê nas tábuas.
  156. Depois de verificar em que situações o fenômeno ocorre e em que situações opostas ele não ocorre, devemos ver que situações aumentam ou diminuem o fenômeno.
  157. Embora fale muito contra Aristóteles, se vê que a ciência de Bacon retém muitos elementos aristotélicos. Ele não rejeita tudo que Aristóteles disse (nem poderia, porque isso é imprudente). Exemplo, se o Sol está na perpendicular, é mais quente. Ora, mas se o Sol se encontra sob Câncer, mesmo perpendicular, não aquece tanto assim (diz Bacon). Isso equivale dizer que causas concorrentes afetam o efeito. Isso é Aristóteles, perpetuado em Tomás de Aquino. É ingênuo pensar que um filósofo que critica outro completamente abandona esse outro, especialmente se o reconhece como tendo razão. E Bacon jamais pensaria que Aristóteles estaria errado nesse ponto.
  158. Bacon admite que a história natural de sua época era muito pobre. Então duvidar dela era muito lícito.
  159. O que diz uma autoridade científica só vale se um experimento provar que é daquela forma.
  160. Enquanto a forma do fogo, em Aristóteles, é sua definição, Bacon define a forma do fogo como seu comportamento.
  161. A pesquisa científica, depois da preparação preliminar sobre a forma do fenômeno, segue um itinerário de teste dessa forma.
  162. Instância migrante: submissa à contingência.
  163. A prática de fazer castelos de bolha de sabão é mais velha do que eu pensava.
  164. Aquilo que imprime intenso afeto é mais fácil de ser lembrado.
  165. Existem semelhanças entre certos corpos inanimados e os órgãos dos sentidos.
  166. Para Bacon, a ciência é mais produtiva se prestar mais atenção nas semelhanças que há entre as coisas, em vez das diferenças. Porém, ele ressalta que devem ser semelhanças reais, apontando como exemplo de semelhanças imaginárias as que foram inventadas pelos magos (o termo utilizado para essas semelhanças mágicas era “simpatia”).
  167. As exceções têm o poder de nos tirar do hábito cotidiano de interpretar tudo da mesma forma.
  168. Se a natureza não opera segundo causas finais, é errado chamar qualquer fenômeno de “desviante”. Mas Bacon, que diz que as causas finais são coisa da nossa cabeça, admite que a natureza às vezes se desvia de seu curso. Como pode algo ter um curso e ainda mais se desviar desse curso sem assumir causa final?
  169. Este livro é uma decepção.
  170. Bacon sustenta que é mais fácil a variação de exemplares de espécies já existentes do que o aparecimento de espécies totalmente novas. Se ele tivesse insistido nesse ponto, talvez tivesse chegado a uma teoria de seleção natural.
  171. Parece que a contradição que apontei acima é aparente: Bacon diz que é possível que o ser humano repare um desvio da natureza pela arte (técnica), o que implica que o funcionamento normal da natureza é, de fato, estipulado por nós e que a próprio natureza não reconhece sua operação como normal ou anormal.
  172. Não devemos pensar que não podemos fazer melhor que aqueles que são autoridade no assunto. Se pensarmos assim, apenas repetimos um procedimento consagrado, sem tentar superar suas limitações.
  173. Uvas próximas do fogo amadurecem mais rápido. O artifício humano pode apressar processos naturais.
  174. Aristóteles afirmava que a proximidade do calor era causa de geração dos seres vivos, mas que o distanciamento do calor causa corrupção. Bacon diz, porém, que a proximidade e o distanciamento do calor podem ser causa de geração ou de corrupção dependendo do ser vivo sobre o qual o calor incide.
  175. Embora o método de Bacon pareça bom, ele ainda não havia sido usado em escala larga o bastante para desmentir os axiomas falsos da ciência que se tinha até então.
  176. Para Bacon, a saída do espírito corrompe as coisas. Se o espírito se desliga completamente da pessoa, ela morre. Porém, o espírito não pode estar plenamente em um corpo, porque isso o derreteria.
  177. A ciência da época de Bacon era tão mística que chega a soar grande loucura. Porém, me pergunto se a ciência moderna não será loucura no futuro.
  178. Nada vem do nada nem vai ao nada.
  179. O experimento não pode ter tanta intensidade a ponto de danificar o objeto de estudo.
  180. O experimento não pode ser feito de tal forma que substâncias ou fenômenos imprevistos afetem o objeto.
  181. Não é possível ver sem luz, diz Bacon.
  182. Não somos a medida das coisas, diz Bacon, mas o universo. Usar o universo como medida requer a prática da filosofia.
  183. Fenômenos de igual natureza se consomem. O calor mais forte consome o mais fraco, o som mais alto abafa o mais baixo, o fedor mais intenso torna o mais brando imperceptível.
  184. O conhecimento começa nos sentidos.
  185. As cirurgias de catarata naquele tempo eram tensas.
  186. Os fenômenos ocorrem no tempo e no espaço, percorrendo instantes. A propagação do som é gradual, objetos muito rápidos não são vistos.
  187. Estar impregnado de um fenômeno oposto lhe dá resistência a determinado fenômeno. Em invernos rigorosos, as crianças da época de Bacon brincavam de lavar as mãos no fogo e o faziam sem se queimarem.
  188. O céu que vemos é aparente. A luz da estrela que se extinguiu ainda viaja e só sabemos que ela não está mais lá depois que sua luz cessa de viajar. Muitas estrelas que vemos na verdade não existem. Bacon tinha suas dúvidas quanto a isso.
  189. Na verdade, Bacon nega isso.
  190. A luz se move mais rápido que o do som.
  191. Para Galileu, o fluxo e o refluxo do mar se origina do giro da Terra. Quando você faz um movimento giratório com seu braço num tanque, a água no tanque move de acordo. Eu tenho minhas dúvidas, contudo.
  192. Bacon não tinha certeza sobre o giro da Terra.
  193. Agitação conserva: o rio não se corrompe facilmente por causa do movimento da correnteza, o ar se conserva puro se permanecer circulando…
  194. Bacon menciona medicamentos que, por semelhança substancial, provocam a expulsão de humores excessivos do doente. Homeopatia?
  195. Os sons se propagam mesmo depois de cessada a fonte do som.
  196. Deste livro só se aproveita a primeira metade, a menos que você seja historiador da ciência.
  197. Para Bacon, repouso também é movimento, em certo sentido.
  198. Bacon diz que existem corpos que tendem naturalmente ao movimento e outros que naturalmente tendem ao repouso, polemizando com Aristóteles, o qual diz que todo corpo tende ao repouso (exceto o Primeiro Motor) e precisa herdar seu movimento de um corpo já em movimento. Por isso o Primeiro Motor sustenta o universo, uma vez que, cessado seu movimento, cessa-se o movimento do universo inteiro.
  199. Toda matéria tem seu limite.
  200. A violência está em poder humano. Isto é, o ser humano pode manipular um fenômeno para longe de suas condições naturais.
  201. O propósito no livro é falar de lógica (método) e não de filosofia (conteúdo). Se ele tivesse dito isso no começo, eu não teria perdido tanto tempo com este troço.
  202. Maioridade mental como estado de independência espiritual não começa em Kant.
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5 Comentários »

  1. […] basta se opor ao que já existe se você não sugere o que poderia substitui-lo. Foi o que fez Bacon: criticou o método científico da época, mas não esqueceu de propor um outro […]

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    Pingback por Anotações sobre o Emílio. | Pedra, Papel e Tesoura. — 12 de dezembro de 2016 @ 21:07

  2. […] nas causas finais. Acho isso um tanto apressado. Poderia ter dito que a causa final depende de nós e que ela não é reconhecível na […]

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    Pingback por Anotações sobre os princípios da filosofia. | Pedra, Papel e Tesoura. — 14 de agosto de 2016 @ 12:15

  3. […] que é paternidade? Me parece que o filósofo usará a mesma técnica usada por Bacon: o primeiro livro destrói o discurso atual e o segundo livro estabelece um discurso […]

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    Pingback por Anotações sobre os dois tratados sobre o governo. | Pedra, Papel e Tesoura. — 12 de agosto de 2016 @ 21:20

  4. […] A multidão de opiniões filosóficas levou Descartes a duvidar de tudo o que era provável. Nesse sentido, ele se aproxima de Bacon. […]

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  5. […] aplicação, se o indivíduo for atencioso), mas ao axiomas obtidos pela experiência, que pode ser mal-executada ou interpretada […]

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    Pingback por Regras para a condução da inteligência. | Pedra, Papel e Tesoura. — 17 de março de 2016 @ 12:10


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