Analecto

24 de março de 2016

Anotações sobre as meditações metafísicas.

Filed under: Livros, Passatempos — Tags:, , , , , — Yure @ 08:04
  1. Aprendemos, ao longo de nossas vidas, muitas coisas erradas. Então, tudo aquilo que construímos sobre fundamentos falsos é digno de se colocar em dúvida. É interessante recomeçar pelo menos uma vez na vida, reconstruir a partir dos fundamentos, para verificar se não nos saímos melhor com novos fundamentos em lugar daquilo que percebemos como duvidoso ou errado.
  2. Esse esforço não pode ser feito imediatamente, mas somente em idade propícia, na solidão (aposentado). Esse é um processo altamente destrutivo e não deveria ser tentado se outras pessoas dependem de você para existir.
  3. Neste livro, Descartes pretende rejeitar qualquer coisa que não se manifeste como sendo clara e evidente. Se algo é duvidoso, mesmo que seja noventa e nove por cento seguro, será rejeitado. Ele pretende encontrar uma coisa, qualquer coisa, de que seja impossível duvidar, para usar como fundamento sobre o qual construir sua ciência.
  4. Não é necessário derrubar cada conhecimento de cada vez. Basta derrubar seus princípios, que são em menor número do que os raciocínios construídos sobre tais princípios. Se eu elimino, por exemplo, a noção de que A é igual a A e diferente de B, elimino, por extensão, qualquer saber que parte desse pressuposto.
  5. Os sentidos são a primeira coisa que ele elimina como sendo “duvidoso”. Os sentidos enganam. Ora, mas os sentidos são seguros! Sim, mas Descartes quer algo de que não se pode duvidar. Se é possível duvidar dos sentidos, então os sentidos não são o fundamento que Descartes está procurando.
  6. A dúvida cartesiana é uma decisão. Não é a dúvida normal que se apresenta espontaneamente. Descartes escolheu duvidar para levar adiante seu objetivo. E essa dúvida não é natural e nem é normal.
  7. A dúvida será o método dele neste livro.
  8. Os sentidos são seguros para a vida cotidiana, mas não é isso que queremos.
  9. Descartes dormia pelado.
  10. Como é que eu vou saber… que eu não estou sonhando agora? É possível duvidar da realidade em que vivo, se pensarmos dessa forma, isto é, não há como dizer quando estamos acordados e quando estamos sonhando, posto que não percebemos que vivemos um sonho até o ponto em que acordamos.
  11. Como é possível duvidar da realidade objetiva, Descartes também a rejeita. Radical.
  12. Mas só podemos sonhar com coisas que vemos quando estamos acordados. Então, mesmo que o sonho componha uma realidade completamente diferente da realidade objetiva, ele compõe essa realidade fantástica utilizando elementos encontrados no estado de vigília.
  13. Uma ciência é tanto mais duvidosa quanto mais sensível e prática ela é. A medicina, a física e a astronomia fundam-se nas observações sensoriais. Mas Descartes acaba de apontar que os sentidos enganam. Então, mesmo que a medicina, a física e a astronomia tenham a aritmética e a geometria como ajudantes, elas não são completamente seguras na medida em que dependem da interpretação de dados sensoriais.
  14. Descartes levanta a hipótese de um deus enganador. Sendo todo-poderoso, ele poderia muito bem influir no espírito humano para errar até nas contas matemáticas. Então nem a contagem e a geometria são seguras. Vale lembrar que alguns estudiosos apontam evidências de que Descartes era usuário regular da maconha.
  15. Deus é bom. Ele não pode ativamente influir no intelecto humano para que ele se engane. Mas nós nos enganamos de qualquer jeito. Se Deus é bom, por que ele não nos deu entendimento perfeito? Óbvio que essa é uma pergunta retórica, feita com intenção metodológica: Descartes está rejeitando tudo que se apresenta como duvidoso pra ele, no que diz respeito a esse raciocínio. Ele não está afirmando que Deus é mau ou que ele não existe, mas está supondo, para esse argumento, uma das duas coisas.
  16. Para alguns, é melhor dizer que Deus não existe do que dizer que a verdade não existe.
  17. Apelo aos graus de perfeição. Deus é sumamente perfeito, então ele cria outros seres menos perfeitos que ele; não haveria sentido em Deus criar outro Deus. Então, existe uma escala de perfeição que subjuga a criação (“ordem cósmica”). Descartes não tem certeza de qual é seu lugar na ordem cósmica, então, caso ele seja o mais imperfeito dos seres, pode muito bem se enganar sempre que tenta acertar.
  18. O argumento de Descartes refere-se somente à ciência. Ele quer uma ciência segura.
  19. Depois de algumas páginas, ele conclui que tudo é duvidoso. Então parece que nada passou no teste de sua dúvida metódica.
  20. Claro que todas as coisas negadas, embora não sejam 100% aceitáveis por todos, são seguras e muito prováveis. Elas não devem ser negadas na vida cotidiana, mas elas tornam todas as ciências duvidosas e Descartes acha isso inaceitável.
  21. A dúvida metódica levou Descartes a rejeitar tudo que temos por certo e confiável. Por algumas páginas, ele tornou-se cético, afirmando não haver verdade alguma de qualquer natureza.
  22. Pensar dessa forma não é apenas trabalhoso, mas torna a vida impossível de ser vivida.
  23. As Meditações são como um diário pessoal de trabalho. Descartes se expressa de maneira pessoal.
  24. A busca por algo de seguro é comparada à alavanca: se eu tiver uma alavanca suficientemente longa e um ponto de apoio suficientemente seguro, posso levantar qualquer coisa.
  25. Será que esses pensamentos não foram colocados em mim por Deus? Como não posso responder com certeza, Descartes conclui que deve-se supor que não.
  26. Eu sou alguma coisa? Eu existo? Como vou saber? Vou supor que não.
  27. Talvez eu não tenha corpo, mas será que não é possível existir sem corpo?
  28. Não posso duvidar de uma coisa: que estou duvidando. Ora, mas pra duvidar é necessário pensar. Ora, mas só é possível pensar e também se enganar se eu existir. Então, a garantia de que pelo menos eu existo é o fato de que eu estou pensando, algo que não seria possível se eu não existisse. A expressão usada é “sou, eu existo”, mas ficou popular como “penso, logo existo.” Agostinho chegou a uma conclusão parecida por outros métodos. Meu professor de história da filosofia gostava de dizer que “Descartes roubou de Agostinho”, mas, talvez porque minha leitura de Agostinho é limitada, eu não vejo as coisas exatamente assim.
  29. Chegar à conclusão de que eu existo não assegura que eu existo de uma maneira particular. Isso quer dizer que o fato de eu existir não garante que eu tenha corpo, por exemplo.
  30. O corpo é uma ferramenta à serviço da alma.
  31. Alma é substância pensante. Consciência.
  32. Será que se eu parar de pensar, deixarei de existir? Se for assim, posso dizer que é interessante a experiência do nada (porque tem momentos em que não estou pensando).
  33. Sou um troço pensante.
  34. O próprio pensamento é a única coisa que passa pela dúvida metódica.
  35. Estado físico não é essência, mas acidental.
  36. Somente o pensamento puro pode me dizer a natureza das coisas. Esse não é o papel da imaginação.
  37. Se eu brinco com um objeto e também com meu corpo, mas percebo meu corpo com mais nitidez do que objeto com que brinco, o conhecimento do meu corpo é mais seguro.
  38. Aquilo que na ciência é mais fácil é difícil para o senso comum.
  39. Em que condições eu posso reconhecer o valor objetivo de uma ideia? Até que ponto algo que eu penso realmente existe?
  40. Se existe um deus que se preocupa em enganar as pessoas, é um divino desocupado. Será que não poderia gastar seu poder em fazer outra coisa?
  41. Devemos procurar saber se há razões para acreditar em Deus. Se houver, devemos nos certificar que ele não emprega sua indústria em nos enganar. Se você apela aos graus de perfeição, ele não engana. Mas sigamos Descartes aonde ele vai.
  42. É possível desejar o que não existe.
  43. A ideia que eu tenho não necessariamente corresponde à coisa a qual deveria corresponder.
  44. Algumas ideias que eu tenho parecem ter nascido comigo. Quem as colocou lá?
  45. Para Descartes, nem todas as ideias são formadas em nosso espírito por interação com coisas externas. Por exemplo: fazemos uma ideia de Deus sem nunca tê-lo visto. Essa doutrina é chamada “inatismo”, a qual diz que existem certos conteúdos mentais que nascem conosco e não são aprendidos pela interação com o exterior.
  46. Mas existem ideias de procedência externa, como as afecções: perto de um fogo, sentirei calor.
  47. Instinto não é fonte segura de conhecimento.
  48. O instinto é amoral. O instinto é agnóstico.
  49. Depois que o exterior deixa uma impressão, o pensamento relacionado à impressão pode surgir sem o objeto que a causou. Como no sonho: sonhamos com o que não está lá.
  50. Sem uma ideia clara e evidente, não há critério de julgamento entre falso e verdadeiro. É necessário algo de verdadeiro para julgar.
  51. O sentido mostra o Sol, o instinto supõe que o Sol é do tamanho que parece, mas a razão diz que o Sol é maior que a Terra.
  52. Os sentidos traem com grande traição. Os sentidos levaram Heráclito a supor que o Sol tem um pé de diâmetro no máximo. Não é raro que a razão nos leve a dados distintos dos imediatamente sensíveis. É como se os sentidos fossem um texto e a razão fosse sua hermenêutica.
  53. Se eu vejo nitidamente certas coisas sensíveis, o Criador delas deve ser sumamente nítido. Novamente, um apelo aos graus de perfeição. Existia um debate na faculdade de filosofia sobre esta meditação, com alguns argumentando que Descartes colocou um argumento fraquinho nas Meditações só para não ser pego pela Inquisição. Na verdade, levando às últimas consequências outros argumentos neste e em outros livros, alguns especulam que Descartes era secretamente ateu.
  54. Apelo aos graus de ser, à causa eficiente: todo efeito tem uma causa e eu sou um efeito. Até o ponto, todas as verdades descobertas gravitam em torno do “penso, logo existo”. Supomos, em algum ponto, que eu sou a única coisa que existe. Mas de onde eu vim? Certamente não sou eterno. Algo me fez. Isso só funciona dentro do argumento, porque, fora dele, eu posso dizer “meu pai e minha mãe me fizeram”. Aí tem que chamar São Tomás de Aquino: Deus, sendo eterno, é “ser” na plena acepção da palavra, o máximo grau de ser.
  55. Nada garante que a criatura é igual ao criador.
  56. O nada não pode criar, com isso todos concordamos. Mas Descartes também diz que um ser mais perfeito não pode derivar existência de algo menos perfeito. Dependendo de como você encara a teoria da evolução, isso pode soar errado. Na minha modesta opinião, levando em consideração que perfeito quer dizer acabado, me parece plausível que as criaturas, ao evoluir, estão caminhando ainda para a perfeição. Então, de um ponto de vista particular, existem espécies que ainda não estão “acabadas” e ainda precisam de tempo para amadurecer. Pode ser que isso seja intenção divina e, se o for, então a criação é perfeita em sentido amplo: convinha que os animais não parassem de evoluir, então uma criatura que sempre evolui, se essa era a intenção do criador dela, está acabada em certo sentido.
  57. A criatura é semelhante ao criador em alguma coisa, mesmo que em menor grau.
  58. Aquilo que a coisa parece ser para mim… é o que ela realmente é?
  59. Se Deus existe, então não estou sozinho no mundo. Lembrando que Descartes está partindo do “penso, logo existo” para mostrar todas essas coisas, então ele assumiu, em algum ponto, que ele era a única coisa que existia. Agora ele já pode afirmar que não é assim. Ele não é o único ser existente.
  60. Algo é imperfeito se não sai como planejado (se o real e objetivo não corresponde ao que eu imaginei inicialmente).
  61. Será que o frio é ausência de calor ou o contrário? Se estar errado for tomar não-ser por ser e vice-versa, então é muito fácil se enganar no caminho sensível.
  62. Descartes se pergunta: mas e se Deus for só uma invenção da minha cabeça, oriunda da necessidade de me completar e da minha própria imperfeição?
  63. Será que eu posso pensar numa mentira completa? Existem ideias falsas por natureza?
  64. Também eu posso criar. Mas, sendo imperfeito, nem tudo o que concebo na minha mente vem à realidade objetiva.
  65. A ideia de Deus é complexa demais pra ser concebida pelo espírito humano.
  66. A existência de Deus só passa pela nossa cabeça porque Deus se dá a inferir na mente humana. Ele “colocou” em nós a ideia de que há um ser divino, onipotente, eterno e tudo o mais.
  67. O finito vem do infinito. A criatura vem do Criador.
  68. Supondo que Deus não exista, ele ainda existe em minha mente. Ora, mas ele não pode existir na minha mente sem que ele tenha posto sua ideia lá. Portanto, ele existe. Esse é o argumento cartesiano. E ele é circular, inesgotável.
  69. Ao contrário do que se pensava, infinito não é negação do finito como frio é negação do calor, mas o contrário. Se algo é limitado, é porque não tem ser em grau supremo, o que implica parcela de não-ser (potência). Ora, mas se o infinito é ser supremo e o finito é ser com mescla de não-ser, então o limitado é o não-ser do ilimitado. Complicado.
  70. É possível apreender o infinito em sua forma, mas jamais em seu conteúdo.
  71. Importante ressaltar que algumas características divinas apontadas por Descartes não são bíblicas. O Deus, para Descartes, é muito mais um princípio metafísico que faz o raciocínio começar e o mantém em andamento do que um ser, por exemplo, misericordioso, justo… Ou talvez seja, já que, se lhe faltasse essas características, não seria perfeito, certo?
  72. “Mas será que eu próprio não sou esse Deus?”, pergunta Descartes. Ele responde que não, porque, se ele fosse Deus, ele não teria dúvida de nada. Ele nem teria se perguntado tal coisa em primeiro lugar.
  73. Tivemos começo. Não somos eternos. Estamos sujeitos ao tempo.
  74. Nossos pais fizeram nosso corpo, mas o espírito vem de Deus. Erasmo concordaria.
  75. É diferente criar e produzir. Os pais produzem o filho, mas não criaram o ser humano.
  76. Deus não é enganador, porque só engana quem tem carência de algo. Se Deus já tem tudo e de nada precisa, não irá enganar. Se enganasse, seria imperfeito. Ele se aproxima da Bíblia Sagrada dessa forma. Inquisição repelida!
  77. As Meditações são um diário de pensamento de Descartes. Cada meditação é feita e um dia, dedicando um bom tempo à reflexão, eu imagino.
  78. Descartes até agora viu que, partindo do “penso, logo existo” (cogito), é mais fácil conhecer pela mente somente do que pelos sentidos. Tudo o que ele descobriu até agora sobre si próprio e sobre Deus é muito mais seguro do que qualquer coisa que ele aprendeu sensualmente.
  79. Se Deus é perfeito, por que não me fez de um jeito que eu não possa me enganar? Bom, sendo Deus perfeito em todos os sentidos, é natural que as coisas que ele produz sejam menos perfeitas que ele. Não é nenhum atentado à perfeição divina dizer que ele não pode fazer um ser mais perfeito que ele próprio, isso é impossível. Espinoza dirá algo semelhante, ao dizer que Deus não pode aprender nada, uma vez que já sabe tudo o que há para saber. Descartes em particular e nós em geral fomos feitos dentro de uma certa posição na escala de seres, isto é, na ordem cósmica. Tomás, citando o Livro do Salmos, dirá que o ser humano está um pouco abaixo do anjo e acima do animal. Isso explica porque somos passíveis de erros e de engano: fomos feitos inferiores deliberadamente. Por quê? Porque convinha à ordem cósmica que fosse assim. Deus sabe o que faz, não se preocupe.
  80. Sendo eu finito, não posso receber poder divino em grau infinito. O engano é uma condição de carência de certeza, o que só poderia ocorrer numa criatura de entendimento limitado.
  81. Eu cometo erros por não saber aquilo que é necessário saber para determinada tarefa.
  82. Se Deus é perfeito, sempre quererá o melhor e mais vantajoso. Como pode ser vantajoso que eu erre?
  83. O engano é carência de certeza, mas não é carência cognitiva total; alguns erros acontecem porque tomamos algo presente como certo. Ora, mas se há algo presente, não há carência total.
  84. Se Deus é perfeito e infinito, uma mente finita nunca poderá entender algumas ou várias ou todas de suas decisões. De acordo com as Regras, não deveríamos nos empenhar em buscar aquilo que sabemos ser impossível achar, ou seja, não podemos tentar conhecer algo sobre o que nunca haverá certeza (ou, pelo menos, que eu acho que não tenho condições de chegar à certeza no ponto, eu, no ponto).
  85. Seria estranho, para Descartes, dizer que os dentes caninos foram concebidos para furar pedaços de carne. Se Deus é dono de todas as coisas, sendo também infinito, sendo suas razões incompreensíveis pela fraca mente humana, não se pode afirmar com certeza para quê cada coisa na natureza foi concebida.
  86. É útil que eu seja desta forma para a criação inteira, que é “muito boa” (conforme diz o Primeiro Livro de Moisés, chamado Génesis, no verso trinta e um do primeiro capítulo). As obras divinas devem ser consideradas como parte de um todo e não como sendo criaturas isoladas umas das outras. Cada elemento da natureza, inclusive nós, está interligado com os outros, então é errado pensar que a natureza é imperfeita por causa de elementos que, tomados separadamente, se revelam imperfeitos.
  87. Que vantagem poderia haver para a natureza que o ser humano fosse mais inteligente do que já é? Inteligente como é, a natureza já sofre o bastante. Ciência não iguala progresso moral, que é de ordem diferente.
  88. O entendimento tem limites mais rígidos que a vontade. Quando a temos vontade de fazer algo que não entendemos ou não podemos entender, erramos.
  89. Existe diferença entre liberdade de escolha e liberdade de ato. Podemos escolher o que queremos, mas nem sempre como obter o que queremos. Após escolher o que fazer, alcançar o objetivo requer limitar a própria liberdade aos liames do método.
  90. Não se deve se posicionar sobre o que não se entende.
  91. Um defeito só é defeito em certo sentido.
  92. Para minimizar ou mesmo eliminar o engano, as verdades claras e distintas devem ser separadas das que não são claras ou não são distintas. Sobre o incerto, só se pode especular e abandonar qualquer pretensão de certeza.
  93. A insistência cartesiana em mostrar que Deus existe e delinear suas características não parece, para mim, ser uma apologia desesperada para evitar a Inquisição. Mais parece uma preocupação legítima. Afinal, se você não passar pela prova da existência de Deus e pela sua definição, tudo a partir da quarta meditação seria impossível e Descartes só poderia provar unicamente que ele existe e nada além disso. Se dar a todo esse esforço meditativo, que quase faz a pessoa levitar dois centímetros acima do chão, só pra evitar um julgamento da Inquisição me parece ridículo. Afinal, se fosse pra evitar a Inquisição, ele podia ter parado na terceira meditação, pois já teria dado testemunho de sua fé. Se ele continuou é porque houve interesse. Não estou dizendo que o medo da Inquisição não tem seu papel na escrita desse trabalho, mas que não é a única razão. Ele estava juntando o útil (repelir a Inquisição) ao agradável (sanar dúvidas legítimas).
  94. Argumento ontológico.
  95. É possível atribuir existência a algo que não existe. Eu não posso imaginar uma montanha sem vale. Mas e se não existir montanha em lugar nenhum? Só um exemplo.
  96. Diferente de Anselmo, Descartes antes demonstra que deve existir um ser sumamente perfeito antes de concluir que Deus existe porque é perfeito. Afinal, se não fosse possível mostrar que a perfeição em sumo grau existe, não seria tampouco possível demonstrar que Deus existe pelo argumento ontológico. Numa situação assim, eu poderia argumentar que não existe nada de sumamente perfeito em lugar algum.
  97. Kant diz: a existência é uma perfeição exclusiva das coisas objetivas. Se eu concebo em meu espírito uma coisa perfeita, qualquer que ela seja, ela não necessariamente existirá, porque a existência só entra no conceito de qualquer coisa se constatamos que tal coisa existe. Então, eu não posso, mentalmente, atribuir existência à coisa alguma e, consequentemente, perfeição. Kant não necessariamente discorda de Descartes, mas certamente discorda de Anselmo.
  98. Se Deus é perfeito, é eterno.
  99. A geometria aplica seus preceitos às coisas materiais. Isso não quer dizer que as coisas materiais existem, mas que são bem prováveis.
  100. Algo é “possível” se eu a tenho provas de que ela é possível ou se eu não tenho provas de que ela é impossível (nem tampouco provas de que é certa).
  101. Descartes aponta que temos sensações porque há objetos que nos inspiram sensações e porque temos órgãos que interagem com tais objetos.
  102. O corpo afeta o espírito, que sou eu mesmo. Isso não seria possível se o corpo não existisse. Mas não parece haver qualquer relação entre a sensação de estômago vazio e desejo de comer, embora sejam coletivamente chamados “fome”. Descartes ignora a relação existente entre desejo e estado corporal.
  103. Não temos controle sobre que objetos nos suscitaram preferência.
  104. A dor é uma sensação íntima, mas não é segura: pessoas que tiveram membros amputados ainda têm sensações de dor nos membros que não estão mais lá.
  105. É possível sentir coisas que não estão lá, como quando sonhamos.
  106. Descartes não descarta (trocadilho) a possibilidade de que as ideias sensíveis sejam produzidas dentro do próprio espírito.
  107. Eu sou uma coisa que pensa. O corpo não sou eu, mas, se o corpo existe, estou dentro dele.
  108. Se fosse possível separar a alma do corpo, talvez a alma permanecesse, diz Descartes.
  109. O corpo seria inútil sem o espírito.
  110. O fato de termos sensações a despeito de nossa vontade, uma vez que nosso espírito, sendo nós próprios, é totalmente sujeito à nossa vontade, as sensações vêm de fontes externas a nós.
  111. A causa das sensações ou é um corpo ou Deus.
  112. Não é Deus, porque Deus não iria querer se passar por objeto, visto que não é enganador.
  113. O que é incerto ainda pode ser conhecido com certeza, porque o espírito pode corrigir o sentido.
  114. Se a natureza nos ensina algo por meio dos sentidos, então parece que é seguro admitir que existe algo corpóreo fora de nós, feito por Deus. Sendo Deus perfeito…
  115. Alma e corpo não estão totalmente separados. Alma e corpo estão juntos, como Deus quis que estivessem, nosso corpo e nossa razão (se o termo “alma” for indesejado). De fato, somos uma substância pensante dentro de um corpo, mas inseparável dele. Essa separação causaria corrupção, da mesma forma que a corrupção causaria separação. Por isso, coisas que afetam o corpo afetam também o espírito. Se a alma simplesmente estivesse no corpo sem interagir com ele, não sentiria o que ocorre com o corpo.
  116. A natureza é uma só, sempre a mesma. Se nossos sentidos não a percebem como deviam, isso é problema nosso.
  117. O ensinamento da natureza é concernente a como se manter vivo. Não coincide com o entendimento. Isso porque não é imediatamente fundamentado, precisando ser complementado pela razão.
  118. A boa interação entre corpo e natureza requer que ambos estejam em bom estado. Um ser humano doente pode receber mal aquilo que a natureza lhe dá, porque ela o dá tendo em vista um ser humano saudável, o qual não está presente. Da mesma forma, o ser humano busca aquilo de bom que a natureza o dá, mas alguém pode disfarçar algo ruim sob boa aparência.
  119. Na medicina da época de Descartes, os nervos eram vistos como cordas. Em vez de propagar eletricidade, nervos mandavam vibrações do local onde, por exemplo, um estímulo doloroso foi captado para o cérebro, o qual receberia as vibrações em uma parte destinada a receber e interpretar o estímulo como “dor”. Então, o corpo seria uma simples máquina, totalmente explicável por mecanismos análogos (doutrina do mecanicismo). Os sentimentos e as emoções estão no cérebro. Descartes, porém, diz que o corpo humano e a forma como ele se mescla com a alma são complexos demais para ser explicados de modo tão simples. Afinal, máquinas não ficam doentes. Se ocorre um mal-funcionamento da máquina, houve problema em sua confecção ou manutenção. Ora, mas quem projetou o corpo foi Deus. Então, assumir que o corpo humano é somente uma máquina pode se revelar um atentado ao projeto divino.
  120. Os sentidos existem e os sentidos são seguros em relação à biologia, à conservação da vida. Os sentidos enganam na concepção científica, mas isso faz parte da vida. Não é como se não pudéssemos corrigir a informação sensorial através do reto juízo. Aliás, os sentidos não se enganam em nos mostrar as coisas como elas parecem ser, então o engano pode ser de interpretação dessa informação.
  121. A diferença entre sonho e realidade é a memória: a memória não é capaz de juntar os sonhos entre si como o faz com os acontecimentos da vida acordada.
  122. A metafísica tem sua função. Descobrimos algo de que não é possível duvidar e descobrimos que podemos evitar o engano na medida do possível.
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