Analecto

26 de junho de 2016

O que aprendi lendo “Monadologia”.

Filed under: Livros — Tags:, , , , , , — Yurinho @ 09:17

Monadologia” foi escrito por Leibniz. Abaixo, o que aprendi lendo esse texto.

  1. A “mônada” não tem partes.
  2. Ela é simples, e entra na composição de outras substâncias.
  3. Se não houver algo que não possa ser dividido, não é possível explicar a multiplicidade de coisas compostas.
  4. Deve haver algo que não possa ser dividido.
  5. Sendo simples, as unidades espirituais não foram formadas: ou elas sempre existiram ou “apareceram”.
  6. No caso, elas apareceram milagrosamente e somem também milagrosamente.
  7. A célebre afirmação de que as unidades espirituais “não têm janelas” deve ser entendida no sentido de que nada entra ou sai da mônada, sendo ela simples.
  8. Se é simples, é totalmente compacta em si: não recebe acréscimo e não pode sofrer subtração.
  9. O problema do átomo de Demócrito é que ele não explica as diferenças qualitativas entre os seres e as substâncias, porquanto Demócrito conceituava os átomos como diferentes apenas em formato.
  10. Embora a mônada não possa ser destruída senão milagrosamente, ela está sujeita ao devir.
  11. Mônadas mudam por causa de uma qualidade interna: se não podem receber acréscimo ou subtração, a mônada muda sozinha, sem que haja agente externo.
  12. O mecanicismo, a ideia segundo a qual os fenômenos naturais podem ser explicados por analogia a produtos do artifício humano não explica a percepção.
  13. Existem percepções inconscientes: se só percebemos, por exemplo, sons enquanto conscientes, como o barulho pode nos acordar do sono?
  14. A mônada não corresponde à alma.
  15. Para despertar a prudência (“consecução”, em Leibniz), não são necessárias várias impressões: uma experiência traumática, mesmo que seja uma só, pode produzir o mesmo efeito de várias pequenas experiências ruins.
  16. O que difere o ser humano dos outros animais é a capacidade de fazer ciência, não simplesmente a razão.
  17. Classicamente, “alma” é princípio de movimento, ao passo que “espírito” é somente a parte racional da alma.
  18. Existem dois tipos de verdade: as de razão (a priori, “todo solteiro é um não casado”) e as de fato (a posteriori, “algo aconteceu de tal e tal forma”).
  19. As verdades de razão são necessárias e não podem ser de outro modo, as de fato são contingentes e podem ser de outro modo.
  20. Existem verdades que não precisam de prova.
  21. Deus existe.
  22. Vemos que o mundo material é contingente, isto é, sujeito à geração e à corrupção.
  23. Ele só pode ter sua origem em um ser necessário.
  24. Deus tem perfeito entendimento, então, só pode fazer boas escolhas.
  25. Não há nada de morto no universo.
  26. As coisas espirituais seguem causas formais e finais.
  27. As coisas físicas seguem causas materiais e eficientes.
  28. A penitência do pecado é sua consequência ruim, seja a longo prazo ou a curto prazo.
  29. Não existe ação sem consequência: as boas são recompensadas e as más são punidas.

23 de junho de 2016

O que aprendi lendo “Novo Sistema da Natureza”.

Filed under: Livros, Passatempos — Tags:, , , , , , — Yurinho @ 09:15

Novo Sistema da Natureza” foi escrito por Leibniz. Abaixo, o que aprendi lendo o texto dele.

  1. Divulgue seus textos.
  2. Sábios deveriam colaborar mais frequentemente.
  3. A dificuldade sentida pelos sábios em trabalhar juntos se deve aos termos usados de forma diferente dependendo do pensador.
  4. Não publique um texto imediatamente; dê-o a outras pessoas que conhecem o assunto pra ver se elas encontram falhas, daí, após corrigir quaisquer falhas, publique.
  5. Se seu texto for revisado por outros intelectuais, valerá mais a pena lê-lo.
  6. Animais não são máquinas.
  7. Juntar vários pedacinhos não forma algo contínuo.
  8. Matéria agregada não é capaz de formar consciência ou intelecto.
  9. Separar a ciência da metafísica restringe seu avanço.
  10. A vida é um milagre atribuível a Deus.
  11. As coisas espirituais não podem ser explicadas pelas leis da matéria.
  12. Ressurreições ocorrem na natureza.
  13. Assumir que se pode explicar a natureza da mesma forma que se explica os produtos do artifício humano (mecanicismo) é presunção.
  14. O mecanicismo não explica o pensamento nem a consciência.
  15. A concordância entre todas as substâncias em algo que faça sentido só seria possível se a causa delas fosse a mesma, em última instância.

21 de junho de 2016

Pedofilia: o que é?

Filed under: Saúde e bem-estar — Tags:, — Yurinho @ 08:52

O texto abaixo é uma honesta aula filosófica baseada em 302.2: Pedophilia, escrito pela American Psychiatry Association, com sugestões de como as ideias contidas em tal escrito podem ser usadas para desenvolver o país e ajudar as pessoas a se compreenderem.

Pedofilia: o que é?

Pedofilia é a atração sexual por crianças, quando experiementada por um adolescente ou um adulto. No entanto, para qualificar como pedófilo, é preciso que a pessoa seja significantemente mais velha que a criança desejada e também é preciso que a criança não tenha ainda começado o ciclo puberal. Assim, o pedófilo é aquele que gosta de crianças que ainda não tenham nenhum sinal de puberdade. Se a pessoa gosta de crianças e adolescentes que tenham começado, mas não terminado, o ciclo puberal, a pessoa é “hebéfila”. Se a pessoa gosta de adolescentes que concluíram o ciclo puberal, mas não chegaram à idade adulta, a pessoa é “efebófila”. Existem pedófilos entre homens e entre mulheres, alguns preferem meninos e outros preferem meninas, alguns preferem crianças mais velhas e outros preferem crianças mais novas. A pedofilia não tem uma causa ainda elucidada, mas se sabe que ela não é aprendida e tem natureza egosintônica: o pedófilo tem esses sentimentos há tanto tempo, que é difícil ele pensar como as coisas poderiam ser diferentes. O pedófilo pode ser exclusivo (só sente tesão por criança) ou não-exclusivo (gosta também de adultos).

Um pedófilo que satisfaz seu desejo com uma criança não necessariamente usará de violência contra ela. A menos que o pedófilo seja também sádico, não é do interesse dele ameaçar ou ferir a criança. Nesses casos, em que o pedófilo concilia seu desejo pelos gurizinhos com sua repulsa a causar dor a esses gurizinhos, suas atitudes serão superficiais: despir a criança, tocá-la, acariciá-la, dormir nu com ela e coisas que tais. Esse tipo de pedófilo, que é talvez o mais comum, tenta se certificar que a criança é participante voluntária. Pode ser que, pra fazer com a criança aceite, ele faça também favores ao menino ou menina desejado ou racionalize consigo que a prostituição infantil beneficia a criança que recebe o dinheiro. Nos casos em que a pedofilia coexiste com o sadismo, o pedófilo não apenas deseja a criança como também lhe deseja causar dor, caso no qual pode ocorrer a penetração e o uso de força. Donde decorre que a violência não é característica inerente à pedofilia.

E como é que se diagnostica?

Até onde eu sei, não existe teste na Internet que te diga se você é ou não pedófilo, mas o critério de avaliação do DSM-IV-TR está disponível livremente. Para saber se você é pedófilo ou não, você precisa preencher os critérios descritos no livro. O primeiro deles é o critério etário: não pode ser considerado pedófilo quem ainda não fez dezesseis anos. A criança desejada precisa ser também prepúbere (não pode ter começado a puberdade) e precisa ter cinco anos a menos que a pessoa avaliada. Observe que muitos pedófilos percebem sua atração antes dos dezesseis, mas vamos esperar até o sujeito ter dezesseis anos, pra nos certificarmos que não se trata de um interesse passageiro. O segundo critério é a duração dos sentimentos: o sujeito precisa sentir desejo sexual por crianças prepúberes há, pelo menos, seis meses. Isso mostra que esse desejo é recorrente o bastante pra ser considerado parte da sexualidade da pessoa. O terceiro critério é a consequência: se a pessoa deve ter satisfeito o desejo de alguma forma ou tais sentimentos causam sofrimento à pessoa.

Se você tem, pelo menos, dezesseis anos; se você sente desejo por crianças de onze anos ou menos e que ainda não têm nenhum sinal de puberdade; se você já satisfez o desejo ou se tal desejo te faz se sentir mal; se você preenche esses critérios, você é pedófilo.

Recomendações.

Se você é pedófilo, não necessariamente há motivo pra alarde. Primeiro, porque você não é também violento, a menos que seja também sádico ou psicopata. Segundo, porque a pedofilia também não implica uma baixa força de vontade ou excesso de desejo sexual, a menos que coexista com ninfomania ou algo do tipo. Terceiro, porque, de acordo com a versão mais recente do DSM, o DSM-V, a pedofilia não é doença enquanto o sujeito não se sente mal por seus desejos e na medida em que o pedófilo consegue se manter dentro da lei. Com isso, embora o DSM-IV-TR possa dizer quando um sujeito é ou não pedófilo, a ciência vem aceitando que uma pessoa, mesmo quando tem vontade de fazer algo ilegal, não é doente quando não cede à vontade. Pelo contrário: é um sujeito de autocontrole. Isso é virtude, não vício. Todo o mundo tem vontade de matar o vizinho barulhento, mas quantos realmente vão lá e fazem isso? É a mesma coisa com você. O limite de todo bom cidadão é a lei. Conheça a lei e cumpra-a.

Mas eu concedo que o pedófilo, especialmente o exclusivo, pode ter dificuldade com essa condição, porque, pra muitos, realização sexual é uma das condições pra viver bem ou mesmo ser feliz. Bom, lembremos que existem pessoas celibatárias e que são felizes. É meu caso. Nunca vi o sexo, com qualquer pessoa, como condição de possibilidade pra realização pessoal. Mas mesmo assim, eu tenho a vantagem de ainda pode consumir pornografia comum, ao passo que a pornografia infantil é ilegal. Então, a satisfação sexual pedofílica só pode se dar na imaginação do pedófilo, durante a masturbação solitária. Infelizmente, enquanto as leis forem do jeito que são, deverá ser assim. Digo isso porque leis contra relação sexual antes de certa idade nem sempre existiram. Isso é ainda mais verdadeiro em relação a leis contra pornografia infantil. Quem sabe? Pode ser que, no futuro, as leis sejam diferentes.

18 de junho de 2016

Sobre o endereço que mandei da última vez.

Filed under: Livros — Tags:, , — Yurinho @ 19:16

Parece que a digitalização do Google, embora tenha sido perfeita, foi feita a partir de um exemplar danificado. As margens estão onduladas, tornando a leitura um pouco irritante.

Como cada digitalização tem pontos fortes e fracos, resolvi que seria uma boa ideia eu juntar os pontos fortes das duas para amenizar seus pontos fracos e fiz isso enxertando na digitalização independente as páginas que faltavam, usando as páginas que a digitalização do Google tinha.

Então, agora temos uma Bíblia de 1819 completa e o mais legível possível. Agora, já posso relaxar.

https://pedrapapeletesoura.files.wordpress.com/2016/06/a-bc3adblia-sagrada.pdf

6 de junho de 2016

O que aprendi lendo “Leviatã”.

Filed under: Livros, Passatempos — Tags:, , , , , — Yurinho @ 20:53

“Leviatã” foi escrito por Thomas Hobbes. Abaixo, algumas coisas que aprendi lendo esse texto.

  1. Se não ocorrem críticas de quem é mais poderoso que ambos os lados, então tudo bem.
  2. Não é possível escrever um trabalho imparcial e não ser criticado por ambas as posições extremas as quais tal trabalho evita.
  3. Máquinas são as criaturas do ser humano.
  4. O governo também nasce (pelo contrato), cresce (pela prosperidade), adoece (pela sedição) e morre (pela guerra civil).
  5. A sabedoria é adquirida pela “leitura” das pessoas, enquanto que a leitura dos livros, embora traga conhecimento, não produz sabedoria (se a definirmos como conhecimento sobre a condição humana).
  6. Seres humanos são fundamentalmente iguais.
  7. As paixões são as mesmas em todos nós, mas os objetos que as despertam variam.
  8. O governante deve levar em consideração o ser humano como espécie.
  9. Pensamentos não são as coisas, mas representações delas.
  10. A natureza de um pensamento depende do órgão que capta o objeto e de como o objeto se apresenta.
  11. A sensação precede o conhecimento.
  12. Movimento produz movimento.
  13. Visão é percepção do objeto pela vista.
  14. Se algo está em movimento, não parará enquanto outra força não agir sobre ele.
  15. Dizer que a pedra tende para baixo porque deseja se conservar na melhor condição é atribuir conhecimento e volição a coisas inanimadas.
  16. Imaginação e memória são duas manifestações da mesma habilidade.
  17. Experiência é acúmulo de memória.
  18. A imaginação pode ser simples, quando concebemos uma ideia normal, ou composta, quando concebemos uma ideia que resulta da mistura de várias.
  19. A matéria prima da imaginação é a natureza.
  20. O sonho é mais claro que o pensamento normal porque só podemos prestar atenção no sonho quando dormimos.
  21. Você só sabe que é um sonho depois que acorda.
  22. Sensações que temos ao dormir influenciam o sonho.
  23. Os curtos sonos nos fazem ter sonhos altamente convincentes.
  24. O conteúdo do sonho pode ser interpretado como aparição ou “visão”.
  25. Histórias de terror, ambientes escuros e coisas que tais nos tornam propensos a pesadelos e, se estivermos com dificuldade para dormir, alucinações.
  26. Se você viu um manto assustador perambulando pelo cemitério, vai ver era só um traficante.
  27. Muitas aparições fantasmagóricas são farsas feitas para alimentar a superstição.
  28. A superstição é um obstáculo à obediência civil.
  29. Se você ensina que os bons pensamentos que temos são sempre colocados lá diretamente por Deus, então todo o mundo é profeta inspirado e todas as boas intenções, mesmo conflitantes, são fruto da vontade divina, o que alimenta os megalomaníacos.
  30. Também animais têm entendimento, pois podem aprender coisas que os donos ensinam.
  31. Algo se forma na imaginação com base em sensação presente ou prévia.
  32. Quando pensamos algo, não há certeza sobre o que se pensará depois, pois muitos pensamentos são espontâneos ou invasivos.
  33. Se pensamos muito em alguma coisa, nossos pensamentos tomam aquela direção quase naturalmente.
  34. Procuramos na experiência causalidades que possam se aplicar ao problema tratado: “se algo parecido já aconteceu antes, como foi resolvido?”
  35. Essa tendência a usar a experiência adquirida na resolução de problemas futuros chama-se “prudência”.
  36. Só o presente existe.
  37. Um “sinal” de algo que está porvir é uma evidência de um efeito que se está desenrolando.
  38. Alguns animais desenvolvem prudência mais rápido que o ser humano.
  39. Mais importante que a invenção da imprensa foi a invenção do alfabeto.
  40. A linguagem é condição de possibilidade para o governo e para a paz.
  41. É possível usar a linguagem de maneira dolorosa, para insultar ou punir.
  42. Os nomes são universais, mas referem-se a coisas particulares.
  43. Usamos o sistema decimal porque, em algum instante da história, contávamos usando os dedos, que só são dez nas mãos normais.
  44. As definições das palavras-chave de um raciocínio são as coisas que devem ser explicadas primeiro.
  45. O mau uso das palavras era o principal problema da filosofia da época.
  46. Aprender algo da maneira errada é pior do que não ter aprendido.
  47. Não é possível raciocinar sem algum tipo de linguagem.
  48. Os nomes negativos como “ninguém” ou “nada” servem, não para indicar presença de algo, mas para indicar que não se deve assumir essa presença.
  49. Existem frases sem significado: “esta frase é falsa” não é um enunciado (pois um enunciado precisa fazer sentido), mas apenas som produzido com a boca.
  50. Idiomas que herdam do grego e do latim são cheios de situações assim.
  51. Como virtude e vício dependem do julgamento de cada um, não devem ser tomadas como base de qualquer discurso que tenha pretensão universal.
  52. O raciocínio é equivalente ao cálculo: enquanto que no cálculo operamos números a fim de obter um total, o raciocínio opera palavras a fim de obter uma conclusão.
  53. A dedução é o equivalente linguístico da subtração, enquanto que a indução é o equivalente linguístico da adição.
  54. Só é possível raciocinar sobre coisas que comportam adição e subtração de informações.
  55. Tornar o raciocínio um processo simples não elimina a possibilidade de erros: todos erram.
  56. É preciso sempre julgar o que se lê.
  57. Existe verdadeiro, existe falso e existe absurdo: absurdos são enunciados que não fazem sentido, como “esta sentença é falsa”, “quadrado redondo” e coisas que tais.
  58. A filosofia é cheia de absurdos: diferente da geometria, que começa seus raciocínios com definições dos termos que serão importantes, os filósofos em geral não explicam os significados dos termos que usam, os quais deixam de ser claros para eles próprios.
  59. Extensão não é sinônimo de corpo.
  60. Num discurso científico, não se usa linguagem coloquial.
  61. Todos podem raciocinar bem quando têm bons princípios, mas o esquecimento permite o erro mesmo em operações simples sobre princípios sólidos.
  62. A razão não nasce conosco; ela é adquirida.
  63. O primeiro sinal da razão em um ser humano é a linguagem.
  64. Raciocinar leva tempo, então decisões rápidas são tomadas por hábito.
  65. A ignorância nos leva a querer saber.
  66. A prudência falha mais que a ciência.
  67. O sinal capital de que alguém sabe alguma coisa é a capacidade de ensiná-la.
  68. Os movimentos vitais são involuntários.
  69. “Esforço” é o movimento entre intenção e escopo da ação.
  70. “Desejo” é o impulso para buscar aquilo de que se gosta.
  71. É possível odiar o que não se conhece por medo.
  72. Desespero é a sensação de que determinado desejo não pode ser satisfeito.
  73. Esperança é a sensação de que determinado desejo pode ser satisfeito.
  74. Autoconfiança é a tendência a ter muita esperança: a constante sensação de que é possível conseguir.
  75. Ser pusilânime é o contrário de ser magnânimo: o magnânimo não se importa com coisas pequenas ou desprezíveis, enquanto que o pusilânime se importa demais com o que não tem importância.
  76. O ciúme implica que a pessoa ciumenta não acredita que a pessoa amada a ame na mesma proporção que é amada.
  77. Pânico é o medo coletivo sem causa justa.
  78. Vanglória é um tipo de confiança que é adquirida por suposições de seu próprio poder ou por consecutivos elogios: é contar vantagem sobre habilidades que não tem.
  79. Desalento é uma tristeza que vem da impotência para algo.
  80. Rir da desgraça alheia é manifestação de pusilanimidade: sua condição é tão ruim que você acaba gostando de ver alguém pior que você.
  81. Se acostumar a rir ou a chorar diminui sua frequência: se rimos de muitas piadas, ficamos exigentes e só piadas muito boas nos farão rir.
  82. Vergonha é um tipo de tristeza, oriunda do reconhecimento de uma falha desonrosa, isto é, que pode acarretar má reputação ou desrespeito.
  83. Se dizemos que pensamos sobre algo que já aconteceu, não podemos usar o termo “deliberar”, porque só é possível deliberar sobre o futuro.
  84. Os animais também deliberam.
  85. O ato de querer é chamado vontade.
  86. A capacidade de querer é chamada volição.
  87. Quando se diz um palavrão por hábito, quando se está com raiva, muitas vezes o sentido da palavra é subtraído, ou seja, a palavra sai sem seu significado.
  88. O conhecimento do passado e do futuro é condicional, silogístico: se isso aconteceu, aquilo também. Se isso acontecer, aquilo também irá.
  89. Se acreditamos que a Bíblia é a palavra de Deus, sem que Deus tenha nos dito isso, nós acreditamos, sim, em Deus, mas em primeiro lugar na Igreja, porque ela é quem diz que a Bíblia é inspirada.
  90. O mesmo é válido para a História, para a Ciência e para todas as outras artes de que não disponho de meios para demonstrar.
  91. Não acreditar na Bíblia não necessariamente significa não acreditar em Deus, mas certamente significa duvidar dos autores sagrados.
  92. Se todos fossem iguais, nenhuma característica humana seria apreciável.
  93. Talento natural é caracterizado por persistência em determinado fim, tema ou foco, tal como facilidade em compreendê-lo.
  94. Estupidez é só ter pensamento devagar.
  95. Enquanto que talento é ser bom em uma coisa, juízo é ser bom em comparar coisas.
  96. Muita imaginação atrapalha o gênero da dissertação, mas ajuda o gênero poético.
  97. Cada habilidade tem seu lugar nas ciências e nas artes: a imaginação vai na literatura, o juízo vai na história e na filosofia, e coisas que tais.
  98. Muita imaginação e pouca discrição em um trabalho de ficção é quase sempre um sinal de falta de talento.
  99. Se o objetivo é agradar, evite falar de coisas sujas ou obscenas.
  100. Se o objetivo é ser útil, use todas as palavras que precisar, mesmo que sejam sujas ou obscenas.
  101. Embora pessoas de mesma idade possam ser igualmente experientes, o uso da experiência varia conforme os objetivos de cada um.
  102. A astúcia é o emprego de meios desonestos no exercício da prudência.
  103. O que nos traz aperfeiçoamento é a ambição.
  104. Loucura é paixão demasiada por determinado objeto.
  105. Existe um tipo de loucura para cada paixão (emoção).
  106. A loucura pode ser causada por dano corporal, mas também a loucura pode causar dano corporal.
  107. Emoções podem se combinar e criar outras mais fortes.
  108. A emoção doentia é louca e tanto mais louca quanto mais doentia.
  109. A loucura, enquanto não se manifesta em atos ou palavras, passa despercebida.
  110. O vinho nos tira a dissimulação e nos cega em relação aos danos que podem ser causados pelas nossas próprias paixões, revelando, portanto, quem realmente somos e o que realmente pensamos, pois tanto deixamos de levar em consideração a gravidade dos nossos atos como passamos a não ter vergonha de cometê-los.
  111. Os intelectuais também têm desejos reprováveis, por isso raramente são vistos bebendo.
  112. Durante uma representação da tragédia de Andrômeda num dia muito quente, as pessoas começaram a adoecer a recitar coisas estranhas por um bom tempo, até a chegada do inverno.
  113. Um surto de suicídios femininos acometeu a Grécia certa vez, até que alguém teve a ideia de declarar que toda mulher que se suicidava seria exposta nua em praça pública.
  114. Os suicídios cessaram, porque as mulheres deprimidas sentiam vergonha de serem expostas daquela forma, mesmo que depois de mortas, ou seja, a vergonha da nudez foi maior do que o desejo de morrer.
  115. A salvação da alma não depende de conhecimento teológico.
  116. Uma pessoa que parece possuída por um espírito pode estar realmente possuída… ou apenas delirante.
  117. Pode ser chamado “poder” qualquer coisa que conquiste amor ou temor de muitas pessoas.
  118. A ciência é menos popular que a arte porque é mais difícil compreender a ciência.
  119. O seu valor é atribuído pelos outros.
  120. Honra é respeito público: você é honrado quando os outros respeitam você.
  121. Obedecer é honrar: você obedece ao reconhecer superioridade.
  122. Portanto, desobedecer é desonrar.
  123. Sempre que te imitarem, estão te honrando.
  124. Demorar pra se decidir implica que o indivíduo está avaliando também coisas de ínfima importância, o que é pusilanimidade.
  125. Houve um tempo, em que o roubo fora dos limites das cidades gregas era legal e visto como trabalho legítimo pelos próprios gregos.
  126. Honra e desonra variam segundo o contexto histórico e geográfico, pois ações dignas de honra aqui e agora podem não ser no futuro ou em outro lugar.
  127. O desejo de poder nos leva necessariamente à violência, porque a essência do poder é a capacidade de subjugar alguém.
  128. Se as ciências exatas pudessem servir contra os interesses pessoais de pessoas influentes, seriam tornadas relativas, como as humanidades.
  129. Se as pessoas não gostam dos efeitos, culpam as causas que vêem.
  130. A religião tem laços com a política.
  131. Os gregos tinham uma entidade espiritual patrona do pinto.
  132. O adivinho só faz sucesso aonde há um número suficiente de pessoas que acredita nele.
  133. Dizer que Deus é contra o crime, isto é, contra o que é proibido pela lei humana, é uma vitória e tanto do Estado.
  134. Se Deus é Deus da Terra inteira, os judeus são “o povo de Deus” em virtude de um pacto pessoal feito com ele, o que não significa que Deus seja Deus somente dos judeus ou que só os judeus possam reconhecê-lo.
  135. A religião é natural ao ser humano.
  136. Quando alguém recebe, por “revelação divina”, uma crença, ritual ou ensinamento que contradiga aquilo que já está estabelecido como sendo revelado, algum profeta aí é falso.
  137. Se a religião se mostra injusta, a fé de seus seguidores diminui.
  138. A impureza doutrinária também ajuda a confundir os fiéis e diminuir sua fé.
  139. O fator que leva católicos, protestantes e ortodoxos a mudar de uma denominação para outra não é tanto a forma da doutrina, mas sobretudo a conduta dos sacerdotes (padres ou pastores).
  140. As três razões principais de discórdia: competição, desconfiança e glória.
  141. A menos que exista um poder superior capaz de manter as pessoas em concórdia, elas estarão em guerra de todos contra todos.
  142. A guerra começa antes do primeiro ataque.
  143. Paz é ausência de guerra e ausência de desejo beligerante: se há intenção de guerra, não há paz, mesmo que a guerra não tenha começado.
  144. A lei é feita depois do crime.
  145. Não há crime na guerra porque todos os atos são justificáveis pelo medo da morte.
  146. Justiça e injustiça só fazem sentido na sociedade, sendo conceitos que não têm valor na cabeça de alguém que vive isolado de todos os outros.
  147. O medo pode também unir as pessoas, porque é mais seguro estar junto dos outros.
  148. Direito (posso ou não posso) não é o mesmo que lei (devo ou não devo).
  149. A liberdade total de todos permite o natural estado de guerra entre os seres humanos.
  150. A linguagem é condição de possibilidade para a política.
  151. Não posso prometer algo que contradiga uma promessa feita anteriormente.
  152. Renunciar ao direito de autodefesa é impossível.
  153. O testemunho prestado sob tortura não é válido.
  154. Embora Deus seja um poder maior do que as pessoas, é frequentemente menos temido do que as pessoas.
  155. Juras desnecessárias a Deus são desrespeito ao seu Nome, portanto violação do mandamento terceiro (não usar o Nome em vão).
  156. Se não é injusto, é justo; não há meio-termo entre esses dois.
  157. Se a punição pela quebra de um acordo não é maior que benefício que se poderia tirar dessa quebra, o contratante quererá quebrá-lo.
  158. O que cada um tem o direito de ter é definido pela lei.
  159. Fazer acordos é natural.
  160. Pessoas justas são as que praticam atos justos.
  161. Iniquidade e injustiça são a mesma coisa.
  162. Existe um tipo de justiça que é estabelecido entre os próprios contratantes e outro tipo de justiça que é estabelecido com a mediação de um juiz.
  163. Se você conquista a boa vontade de alguém, não a perca.
  164. O que procura manter a paz nos grupos em qual entra é chamado sociável.
  165. Quem não perdoa os que se arrependem se mostram avessos à paz, pois preferem continuar punindo alguém que já reconheceu seu engano e se comprometeu a não mais cometê-lo.
  166. Se vingar só para se vingar é infantil.
  167. Causar dano sem razão é crueldade.
  168. Orgulho é se perceber como sendo melhor que os outros.
  169. Não tem sentido eleger um juiz se ele não for imparcial durante o exercício.
  170. Essas leis naturais de Hobbes se resumem da mesma forma que a Lei: faz aos outros o que gostarias que fosse feito a ti.
  171. Como essa lei tem origem interna, por vezes sua simples promulgação interna não basta para cumpri-la.
  172. Hobbes aponta um fato interessante: tudo aquilo que quebra esse preceito é automaticamente injusto e provoca a ira das pessoas quando descoberto ou manifesto.
  173. Na vida em sociedade, a vida segundo esse preceito preserva a paz.
  174. Uma ação virtuosa depende do fim que se quer atingir.
  175. O dono de algo não necessariamente é seu inventor.
  176. É possível representar os interesses de coisas inanimadas, como uma escola ou hospital.
  177. Os interesses das crianças são sempre representados pelos adultos.
  178. Porém, essa prática só pode se dar numa situação em que haja Estado para dizer que a criança deve ser representada pelo adulto.
  179. Não condenar é absolver.
  180. Se o voto da maioria puder ser anulado pelo voto de uma só pessoa, não tem sentido votar.
  181. Às vezes é preciso forçar alguém a ser bom.
  182. Pacto sem punição por rompimento é nulo.
  183. Se duas forças opostas se unem para combater um inimigo comum, elas voltam a se opor quando o inimigo comum é eliminado.
  184. Porque as abelhas não sentem orgulho, nem procuram a honra, elas não entram em guerra.
  185. As abelhas não vêem distinção entre bem individual e bem comum.
  186. As abelhas vivem em harmonia porque não vêem como seu comportamento poderia ser melhor.
  187. As pessoas, diferente das abelhas, são capazes de mentir.
  188. Quanto mais satisfeita, menos a abelha ofende os outros.
  189. As outras espécies não precisam de Estado porque seus “acordos” são naturais, enquanto que os acordos humanos são artificiais.
  190. Hobbes se mostra bem democrático quando diz que uma só pessoa ou uma assembleia deve reduzir a vontade de todos a uma só vontade por meio da pluralidade dos votos e que os votos da maioria devem ser contados como sendo os votos de todos.
  191. A tarefa do Estado é assegurar a paz entre os que lhe são sujeitos.
  192. Além do mais, se o governante eleito pelo povo promulga uma lei que prevê punição para determinado comportamento e depois o súdito incorre nesse comportamento e é punido por ele, é, no fim das contas, inventor de seu próprio castigo.
  193. O povo é culpado das ações do governante eleito.
  194. Pegar em armas para defender uma opinião indica que não há paz instaurada ainda.
  195. Quem tem direito a um fim tem direito aos meios.
  196. Quando todos têm direito a tudo, ocorre guerra.
  197. Embora o Estado deva zelar pela paz de seus súditos, não há impedimento político quanto à guerra contra outros Estados, se isso redundar em benefício público.
  198. Num regime monárquico, democrático, absolutista, totalitário ou o que quer que seja, a natureza do poder é a mesma: os súditos reconhecem um Estado e um Estado governa os súditos.
  199. Todos vêem os problemas atuais como maiores do que os problemas futuros, resolvendo os problemas de qualquer jeito.
  200. Só existem três formas de governo: monarquia, democracia e aristocracia.
  201. A tirania e a oligarquia são formas degeneradas da monarquia e da aristocracia, não tipos distintos de governo.
  202. A riqueza e a fama de um monarca dependem da riqueza e da fama de seu povo: se seu povo sofre, os outros governos o veem como um mau monarca.
  203. Se o povo é fraco, o monarca é fraco.
  204. Um dos problemas democráticos são as faltas na assembleia: pode um julgamento ser justo se metade da oposição faltou à reunião no dia dessa decisão?
  205. As decisões democráticas nem sempre são motivadas pela razão, mas muitas vezes pela raiva e pela inveja.
  206. Enquanto que a decisão democrática pode ser confundida pela retórica, a decisão monárquica pode ser confundida pela adulação.
  207. A tentação do nepotismo é maior numa assembleia do que numa monarquia: o monarca só tem seus parentes com os quais se corromper, mas cada membro da assembleia também tem seus parentes.
  208. Acusar requer menos eloquência: a condenação é mais facilmente vista como justiça do que a absolvição.
  209. Um grande problema da monarquia: descendentes que ainda são crianças.
  210. Quem deve nomear o tutor do sucessor é o antecessor.
  211. O tutor deve ser alguém que não poderia se beneficiar da morte do aluno!
  212. Existem “monarquias eletivas“, em que o monarca exerce por um limite de tempo e depois o sucessor é votado.
  213. Se um povo governa outro povo, é uma monarquia de um povo sobre outro, pois aquele que governou o povo oprimido é uma pessoa só.
  214. O direito de sucessão é importante para o Estado; de outra forma, o Estado teria que morrer e ser feito novamente com regularidade.
  215. O testamento do governante deve ser revelado por ele próprio antes da morte, para evitar que se forje testamento falso por algum súdito.
  216. Na falta de um sucessor apontado diretamente, o sucessor deve ser escolhido segundo o costume local.
  217. Se não houver costume, deve ser o filho.
  218. Se não houver filho, seja a filha.
  219. Se não houver filha, seja o irmão.
  220. Se não houver irmão, seja a irmã.
  221. E por aí vai.
  222. A venda de cargos é nefasta, especialmente se for para um rico incompetente ou estrangeiro.
  223. O direito do pai sobre o filho tem que ser reconhecido pelo filho, do contrário, o filho subverterá a vontade do pai quando tiver oportunidade.
  224. Nem sempre o pai tem prioridade na educação do filho porque nem sempre o pai é o mais indicado para isso.
  225. Um bom critério seria de que o pai tem prioridade na educação do filho e a mãe tem prioridade na educação da filha.
  226. A obediência da criança é devida a quem a cria, a quem a alimenta, a quem cuida, não necessariamente a quem gerou.
  227. Isso quer dizer que a criança não precisa dever obediência aos pais se foi abandonada por tais pais, mas deve obediência a quem a acolher.
  228. Por outro lado, se a mãe é submissa ao pai, então a autoridade passa para o pai, caso o acordo de prioridade não seja feito.
  229. O avô tem domínio sobre o neto.
  230. O déspota só é reconhecido se o povo teme ser exterminado por tal déspota.
  231. O vencedor de uma guerra não precisa poupar a vida dos vencidos se estes não se submeterem.
  232. O senhor é dono das coisas do servo.
  233. A família é uma pequena monarquia.
  234. Os livros de Samuel, as cartas de Paulo e a Lei sancionam a autoridade terrena e a sujeição a ela.
  235. O ato de Adão e Eva de cobrirem a própria nudez já foi, em si, um desafio a Deus, o qual os havia criado nus.
  236. A maioria ou a tradição nem sempre estão corretas.
  237. Se você quer fazer algo e nada há que te impeça, você tem liberdade para fazer.
  238. Porém, a liberdade está condicionada ao poder que se tem de agir: se eu não posso criar um par de asas para voar é porque isso não está dentro dos limites da ação humana, logo eu não posso escolher (não há liberdade sem escolha).
  239. É impossível criar um código penal perfeito que cubra todas as ações humanas, especialmente se precisarmos classificá-las como boas ou más e ainda mais se queremos dizer quais são piores e quais são mais brandas.
  240. Se a lei não vê como crime, então é permitido.
  241. Só há liberdade individual na democracia.
  242. O governo tem os direitos que lhe são concedidos no momento em que ele é criado.
  243. Não sou obrigado a me matar.
  244. Se você é um soldado pago com dinheiro público, será punido por fugir da batalha.
  245. Se um súdito é banido, não é mais súdito.
  246. Se você não concorda com as leis de seu país, pode procurar outro no qual morar.
  247. Se um país subjuga outro, o senhor do país vencedor torna-se senhor da população de súditos do país conquistado.
  248. Público é o que é feito entre súdito e governo, privado é o que é feito entre súdito e súdito.
  249. Uma iniciativa privada é permitida na medida em que o governo permite.
  250. Se alguém faz algo que não é aprovado pelo governo, está fazendo por conta própria.
  251. Os mercadores que se juntam em corporações para juntar esforços são espertos: podem comprar a preço baixo a mercadoria de sua terra e vendê-la a preços altos onde essa mercadoria é rara, o que requer maiores quantidades de investimento, quantidades que são melhor obtidas em grupo.
  252. Em adição, pode-se comprar mercadoria que é comum em determinado lugar a fim de vendê-la em sua própria terra natal, onde ela é rara.
  253. Se a mercadoria pode ser vendida para muitos, ela pode ser mais cara, pois não faltarão compradores.
  254. Quanto menos interesse há em comprar determinada mercadoria, mais o preço diminui.
  255. Não pode haver dois soberanos para o mesmo povo.
  256. Os mendigos podem se reunir para traçar um plano de mendicância mais eficiente e, juntos, obter mais lucro.
  257. Se o governo não puder saber o que determinado grupo ou associação quer, então esse grupo ou associação é automaticamente fora da lei.
  258. Às vezes, promover a justiça requer dinheiro.
  259. Nas reuniões estatais, qualquer que não partilhar do interesse que será discutido não bem-vindo.
  260. O Estado é como um corpo humano: as organizações legítimas são como órgãos, enquanto que as organizações ilegítimas são como tumores e cálculos.
  261. Um ministro é uma pessoa encarregada pelo Estado de realizar determinada missão e que goza de recursos estatais para realizar tal missão.
  262. Enquanto a escola for um dispositivo ideológico do Estado, os professores podem ser considerados ministros.
  263. Ninguém pode ser juiz em causa própria.
  264. É justo escolher um juiz para sua causa, para evitar que se escolha um juiz com quem se tenha uma inimizade anterior.
  265. Alimentação é fácil achar, mas obtê-la pode requerer trabalho.
  266. Nenhum Estado produz tudo de que precisa.
  267. A força de trabalho pode ser vendida.
  268. Manter alguma coisa somente pela sua própria força leva à incerteza.
  269. Sem leis não há heranças materiais nem propriedade privada.
  270. Justiça: a cada um o que é seu.
  271. Se o governante faz algo que o povo não gosta, bem feito: o povo, ao elegê-lo, sancionou todas as suas ações.
  272. O que não significa que o povo deve aceitar tudo.
  273. A distribuição agrária é tarefa do soberano.
  274. Levadas pela ânsia de lucro, algumas pessoas vendem aquilo que na verdade faz mal, tal como as drogas.
  275. Não existe conhecimento inútil.
  276. Os súditos devem ter comércio entre si e oferecer serviços uns aos outros.
  277. Mas o Estado deve regular também essas práticas.
  278. Pelo bem da exportação e da importação de todos os bens, o valor do ouro e da prata não devem ser alterados por nenhum Estado, a fim de que seu valor seja usado como referência para câmbio, por exemplo.
  279. Reservas de metais preciosos podem ser usadas como último recurso em guerras, para firmar pactos de paz.
  280. Como o valor do ouro não muda, ao passo que o valor de uma moeda pode diminuir, contratos de paz firmados em dinheiro e não em ouro são voláteis e inseguros.
  281. Uma frase imperativa pode se tornar opinativa dependendo de quem fala, quem ouve e de quando e onde fala ou ouve.
  282. Não confunda conselho e ordem.
  283. A ordem visa a satisfação da vontade do que ordena, o conselho visa a satisfação de quem ouve.
  284. Conhecer a lei é obrigação de todos os cidadãos.
  285. Deve haver harmonia de intenções entre o conselheiro e o aconselhado: se o conselheiro tiver intenções dissonantes com as do aconselhado, pode querer dar mau conselho.
  286. O conselho deve ser limpo, claro, não deve ter metáforas, não deve ser longo, não deve excitar paixões, não deve ser ambíguo, não deve ter expressões difíceis…
  287. Os conselheiros políticos devem ser intelectuais.
  288. O conselheiro deve ter experiência.
  289. Quem não tem juízo, dá mau conselho.
  290. Na falta de regras absolutas de julgamento, quem tiver maior experiência em determinado assunto terá melhor julgamento.
  291. Numa assembléia, alguém que defende determinada opinião, ao ouvir um discurso muito bom que defende a opinião contrária, pode ficar com vergonha da sua própria decisão e mudá-la, para não parecer bobo na frente dos outros que aplaudiram a opinião contrária.
  292. Se o que você quer é um simples conselho, consultar uma pessoa de confiança é o bastante.
  293. Existem leis comuns a todos os Estados.
  294. Se o soberano pode revogar leis quando ele quiser, então ele praticamente não está sujeito a elas.
  295. Se você faz um voto a si mesmo, não fez voto nenhum.
  296. Se não há lei contra, então não é crime.
  297. Se não há governo, não há lei.
  298. A função das leis é tolher a liberdade mesmo.
  299. Quem tem o direito de dissolver uma associação também tem direito de controlá-la.
  300. Os dois braços do Estado: as leis e a força.
  301. Se você estuda muito uma coisa só, se expõe ao risco de estar despendendo muito tempo estudando uma matéria que não comporta verdade alguma.
  302. A lei só é válida para quem é capaz de firmar um pacto.
  303. Qualquer pessoa que não puder aprender as leis por qualquer razão que seja está escusado de observá-las.
  304. Regra de ouro: não faça aos outros o que você não gostaria que fosse feito a você.
  305. Se alguém te dá um cargo e não diz como exercê-lo, você é obrigado a usar a razão para achar um meio de exercê-lo perfeitamente.
  306. A conclusão que você chega nesse processo não deve ser dissonante com a decisão estatal.
  307. Então, use o cargo dado da forma a melhor garantir os interesses do Estado.
  308. Quem deveria ensinar as leis às pessoas são os próprios juízes.
  309. Existem casos em que tal não é necessário: a pessoa deve recorrer às leis escritas quando puder.
  310. Antes de processar alguém, certifique-se de que essa pessoa realmente cometeu o crime.
  311. A regra de ouro pode ser má interpretada, embora unicamente por ocasião de má-fé.
  312. Leis curtas podem ser mal interpretadas, então muito mais as leis longas.
  313. A interpretação correta de uma lei depende da posse das causas finais: para quê esta lei foi feita?
  314. Se o filósofo formula uma lei revolucionária, ela não vale nada se o Estado não a sancionar.
  315. O juiz deve representar a vontade do soberano.
  316. Céu e terra passarão, mas a Lei não passará e esta é a Lei e os profetas: faz ao próximo aquilo que gostarias que te fosse feito.
  317. Os comentários às leis não são interpretação.
  318. Se o juiz viu que o ato criminoso não foi cometido pelo réu, mas por outra pessoa, ele deve pedir que outro juiz ordene o caso, ao passo que ele próprio deve se tornar testemunha.
  319. O advogado estuda as leis, mas quem as interpreta são os juízes.
  320. Existem dois tipos de lei: moral e positiva.
  321. A moral é a que sempre existiu, baseada nas virtudes humanas que tendem para a paz.
  322. A positiva é a que é escrita pelos soberanos.
  323. Existem dois tipos de lei positiva: humana e divina.
  324. Das leis humanas, existem dois tipos: as distributivas (determinam os direitos dos súditos) e as penais (determina os deveres e as punições por desrespeito a estes).
  325. As leis positivas divinas são aquelas reveladas pelos profetas.
  326. Leis positivas que contradigam as leis morais não devem ser obedecidas.
  327. Existem dois tipos de lei: fundamental e não fundamental.
  328. O Estado se dissolve e deixa de existir se não houver leis fundamentais, que são as leis que asseguram a existência do Estado.
  329. Direito é liberdade.
  330. Ter fantasias do tipo “como seria legal se eu tivesse a esposa daquele cara pra mim”, mas sem ter a intenção de tomá-la, não necessariamente infringe o mandamento que diz “não cobiçarás a mulher do próximo”.
  331. Da mesma forma, ter fantasias do tipo “oxalá aquele cara morresse” não necessariamente significa que eu tenho desejo de matá-lo.
  332. Sentir prazer em fantasias é inerente ao ser humano.
  333. Crime é qualquer ato que seja proibido pela lei, tal como qualquer omissão de esforço para realizar deveres legais.
  334. O termo “pecado”, originalmente, significa violação da lei em questão.
  335. Se não houver lei, não há pecado.
  336. Entendimento não significa raciocínio.
  337. Fazer aos outros o que não se faria a si mesmo é sempre crime.
  338. Se você se muda para o estrangeiro e você não teve meios de aprender as leis locais, não deveria ser punido por quebrar uma lei que ignora.
  339. Se você quebra uma lei e se defende dizendo “eu não sabia que a pena seria tão alta”, você acaba de se condenar, porque está dizendo que não veria problema em cometer crimes se as penas fossem brandas.
  340. Se você comete um ato, está assumindo todas as consequências desse ato.
  341. Se a punição for pouca e a pessoa diz que não teria feito se a pena fosse mais alta, isso é um indício de que a lei não está punindo adequadamente, porque as pessoas, vendo benefício na prática criminosa, não se sentem intimidadas pela pena.
  342. Se um comportamento é tornado crime hoje, os que incorreram em tal comportamento ontem não podem ser punidos.
  343. O fato de que a justiça foi violada com êxito várias vezes ao longo da história não a torna um conceito vazio.
  344. Basear as leis nesse tipo de precedente, isto é, tornando justo tudo o que antes deu certo, mesmo que tenham sido atos viciosos, perturba o Estado, o qual precisa de leis estáveis para manter a paz.
  345. Algumas pessoas acreditam poder manipular a lei por serem capazes de manipular as pessoas das quais depende sua aplicação.
  346. A ocasião faz o criminoso.
  347. Matar em legítima defesa nunca é crime.
  348. Se só houver ameaça, eu devo pedir ajuda às autoridades.
  349. Dependendo das circunstâncias, a pena por um crime pode ser atenuada.
  350. Quebrar as leis para sobreviver não é crime.
  351. Quebrar a lei por presunção de impunidade pela força é mais digno de punição do que quebrar pela presunção de impunidade pela fuga.
  352. Quem incita a cometer um crime é também culpado.
  353. O crime cometido por impulso ou descontrole é menos culpável do que o crime premeditado.
  354. O tempo despendido entre a prática criminosa e o conhecimento da lei deve ser despendido meditando sobre como conformar suas paixões à lei.
  355. Se a lei é ensinada publicamente, nas escolas, por exemplo, todos os crimes são mais culpáveis.
  356. Se a lei for de difícil acesso, todos os crimes são menos culpáveis.
  357. Roubar dinheiro público é pior do que roubar dinheiro privado, porque o roubo de dinheiro público é o roubo feito a muitos ao mesmo tempo.
  358. Falsificação de dinheiro, usurpação de cargos e qualquer crime relacionado a serviços públicos é pior do que os crimes feitos contra pessoas privadas.
  359. Roubar um pobre é mais grave do que roubar um rico.
  360. A pena por um crime só pode ser dada pelo Estado.
  361. Existem penas físicas, penas de cargo, penas pecuniárias, penas prisionais e penas de exílio.
  362. A punição de alguém deve ser benéfica para o Estado.
  363. Um Estado não pode ter apenas punições; deve ter também recompensas para os que fazem boas ações.
  364. Um governo pode se dissolver porque o governante recusa assumir parte do poder que lhe é necessário ser investido.
  365. Fé e razão são conciliáveis.
  366. Uma das causas de rebelião contra a monarquia é a leitura dos livros de história pelos jovens.
  367. Numa monarquia, livros de história não devem ser lidos em público, a não ser por pessoas que sejam capazes de filtrar o conteúdo deles.
  368. Se temos a igreja declarando uma lei e o Estado declarando outra, temos o problema de que as pessoas estão sujeitas a dois senhores.
  369. Existem outras doenças do Estado, como súditos muito poderosos e carismáticos, cidades muito independentes em recursos e outros elementos sob seu controle, mas que podem rivalizar com ele se desejarem.
  370. Segurança não compreende apenas a saúde física, mas também a posse dos bens.
  371. Quem desamparar os meios, ignora os fins.
  372. Quem desamparar os fins, ignora os meios.
  373. O Estado precisa informar os súditos de seus direitos, porque o povo que sente que tem poucos direitos é mais propenso à rebelião.
  374. Não existe lei contra rebelião.
  375. Os princípios que fundamentam a lei devem ser seguros.
  376. A dificuldade em entender esses princípios que fundamentam as leis não vem tanto dos princípios, mas da índole dos que tentam aprender, que procuram harmonizar os princípios com seus interesses.
  377. As pessoas simples entendem esses princípios mais facilmente, pois não tem os recursos abundantes que impedem o freio das paixões e nem o orgulho dos doutores.
  378. O que faz um governo prosperar não é o fato de ser monárquico, aristocrático ou democrático, mas o fato de que há concórdia entre os súditos.
  379. Dos dez mandamentos, os quatro primeiros se resumem em “ame Jeová de todo coração, de toda alma e toda a mente”, ao passo que os seis seguintes se resumem em “ame o próximo como a ti mesmo.”
  380. Os maus costumes se instalam porque as pessoas não dispõem dos fundamentos das leis, que são obtidos pelo estudo e pela meditação, duas coisas para as quais muitos não têm tempo.
  381. Ricos e pobres devem ser punidos igualmente.
  382. Qualquer quebra de lei é ofensiva ao Estado.
  383. Para evitar o desemprego, deve-se regular tantos trabalhos quanto for possível, tornar legítimos empregos uma quantidade cada vez maior de atividades.
  384. Boas leis são leis justas.
  385. Isto é, leis que tanto o governo como a população aceitam.
  386. Não se deve promulgar leis desnecessárias.
  387. Uma lei que beneficia só o soberano não é uma boa lei, porque o bem do Estado é um só, o bem do governo e o do povo.
  388. Em vez de leis extensas, leis curtas acompanhadas da razão de sua criação, para facilitar sua interpretação.
  389. Os crimes que devem ser mais severamente punidos são os que ameaçam as coisas públicas.
  390. Não vá acidentalmente recompensar um mau comportamento, para que outros não se comportem mal também.
  391. Política é mais difícil que geometria, logo não pode ser exercida sem método.
  392. Um bom conselho não é dado imediatamente, mas depois de algum tempo de reflexão.
  393. A humanidade parece nunca estar contente com o presente.
  394. São súditos de Deus todos aqueles que creem nele, em sua providência e no fato de que ele pune ou recompensa quem merece ser punido ou recompensado.
  395. Deus se manifesta de três formas: pela razão, pela revelação interna (conosco, diretamente) e pela revelação externa (através dos profetas).
  396. Sendo onipotente e sumamente sábio, Deus quererá governar e irá governar.
  397. Honrar a Deus é sempre supor dele o melhor.
  398. Culto é prestar honras a Deus.
  399. É possível cultuar alguém por atos: se amamos a Deus, queremos fazer o que ele nos diz pra fazer.
  400. Alguns atos que servem de culto são as orações, as ações de graças e a obediência.
  401. Para um sinal ser chamado de sinal deve ser entendido.
  402. Se Deus é a causa do mundo, então o panteísmo (que afirma que Deus é o mundo) não é possível.
  403. Deus, para ser Deus, é preciso ser eterno (isto é, sem começo e sem fim).
  404. Se Deus não se importasse conosco, não teria nos dado ordens de culto.
  405. Deus, sendo Deus, é um só.
  406. Aquele que confecciona estátuas não está fazendo deuses: os deuses são feitos por aqueles que oram pra essas estátuas.
  407. A idolatria é pecado do fiel e não do artífice.
  408. A teologia é um vasto território do pecado: tentando estudar Deus segundo preceitos filosóficos ou científicos, que são imperfeitos por natureza, é aceitar a possibilidade de blasfemá-lo.
  409. As orações devem ser pensadas, as palavras devem ser bem escolhidas.
  410. Os pagãos celebram seus deuses com muita submissão e ações de graças, então por que os cristãos deveriam prestar menos submissão e cultuar de qualquer jeito ao Deus que afirmam ser o verdadeiro?
  411. Obediência é melhor que o sacrifício.
  412. Se não há maioria religiosa expressiva, o Estado não tem religião oficial.
  413. Todos os prazeres comportam determinado grau de dor.
  414. Assim, a intemperança é punida com doenças, a covardia é punida com a opressão, a negligência com a rebelião, o orgulho com a ruína…
  415. Essas punições são ministradas pela lei da natureza.
  416. De fato, governar é difícil, requerendo um governante que é também filósofo.
  417. Mas o governo pode se basear em princípios fáceis.
  418. Ser religioso não necessariamente implica viver irrefletidamente.
  419. Se o soberano obriga os ateus a praticar determinado culto, isso não muda o fato de que ainda são ateus.
  420. Se alguém diz que foi divinamente inspirado por Deus a fazer alguma coisa, que teve um sonho no qual Deus falou com ele, ou que Deus lhe apareceu, todas essas coisas são duvidosas…
  421. O único jeito de saber se alguém é profeta é através de dois sinais simultâneos: realização de milagres e ensinamento concorde.
  422. O Deuteronômio não foi terminado por Moisés, óbvio, ele não podia ter escrito sobre sua própria morte e nem sobre o fato de seu sepulcro nunca ter sido encontrado.
  423. O nome do livro não é indicativo seguro de seu escritor.
  424. O livro denuncia quando foi escrito.
  425. Se o Livro dos Juízes, capítulo 18, verso 30, que diz que alguém foi sacerdote até o dia do cativeiro, referir-se ao cativeiro babilônico, então Juízes foi escrito quase concomitantemente com Jeremias ou mesmo depois.
  426. Também os livros de Samuel, embora falem de Samuel, não foram escritos por ele.
  427. Alguns livros da Bíblia fazem menção a livros que não existem mais.
  428. O fato registrado é mais velho que o registro.
  429. Os livros do Velho Testamento foram mesmo atualizados, pois há evidências de que a forma atual de alguns dos Salmos não é a forma original intencionada por Davi.
  430. Embora os Provérbios tenham sido proferidos por Salomão e outros dois autores, a escrita do livro dos Provérbios, como compilação dessas sentenças, é posterior.
  431. De acordo com os livros apócrifos, a Lei havia sido queimada durante o exílio babilônico e reescrita por Esdras sob inspiração divina.
  432. Com exceção das epístolas de Paulo, do Santo Evangelho Segundo São Lucas e dos Atos dos Santos Apóstolos, todos os livros e cartas do Novo Testamento foram escritos por discípulos de Jesus ou por testemunhas oculares.
  433. O único objetivo das Escrituras Sagradas é reconverter o povo a Deus.
  434. Deus é o escritor dos textos inspirados.
  435. Universo é coletivo de corpo.
  436. “Espírito” não necessariamente quer dizer fantasma.
  437. Dizer que o “espírito de vida” estava nas rodas, quer dizer que as rodas estavam vivas.
  438. Se alguém tem uma alucinação, outros não a terão ou terão uma alucinação diferente.
  439. Hobbes interpreta as Escrituras por via da exegese, isto é, mantendo suas dúvidas iniciais ao longo do texto até que o próprio texto, em outra passagem ou numa leitura posterior, esclareça essas dúvidas.
  440. Anjos são mensageiros.
  441. Anjos não são putti.
  442. Anjos são porta-vozes divinos e indicativos de presença divina simbólica.
  443. “Substância incorpórea” é uma expressão contraditória para Hobbes.
  444. O Reino de Deus tem uma faceta terrena, ministrada por Jesus, pois Jesus, afirmando-se rei, tornou-se inimigo de César.
  445. O Reino de Deus não é metafórico.
  446. Quando uma pessoa é chamada “santa”, não quer dizer que ela não peca ou nunca pecou, mas que leva uma vida de dedicação a Deus.
  447. Existem graus de santidade.
  448. No Velho Testamento, só há dois sacramentos: a circuncisão e a páscoa.
  449. No Novo Testamento, só há dois sacramentos: o batismo e a ceia do Senhor.
  450. “O Verbo fez-se carne” pode significar cumprimento (fez-se) da promessa (Verbo, pois promessas são feitas de palavras) em sua forma física (carne), pois Deus prometeu enviar seu filho e a promessa fora cumprida.
  451. A razão também forma ilusões.
  452. Moisés era amigo de Deus.
  453. Hobbes, apesar de tudo, diz que a forma como Deus falava com os profetas era incompreensível.
  454. Se alguém diz “faça isto para ser feliz”, está querendo comandar todas as pessoas, porque todas querem ser felizes.
  455. Então, instituir um caminho para a felicidade, equivale a tentar instituir uma moral universal.
  456. Alerta de Hobbes: a maioria dos profetas é falsa.
  457. O próprio Deus nos dá critérios de julgamento para saber se um profeta é ou não falso.
  458. Diz Hobbes: se alguém nega que Jesus já veio e prega que o Messias ainda virá, é um anticristo.
  459. As pessoas se admiram de duas coisas: acontecimentos raros ou sem precedentes e acontecimentos de causa natural desconhecida.
  460. Se um evento é as duas coisas ao mesmo tempo, isto é, raro ou sem precedentes e de causa natural desconhecida, podemos chamar isso seguramente de milagre.
  461. O milagre normalmente é feito com uma razão, que é adquirir crédito ao profeta.
  462. O Estado pode permitir alguém a vida ou ordenar a morte a alguém, mas, enquanto a Bíblia Sagrada prometer vida eterna após a morte e enquanto as pessoas tiverem a crença no Inferno como um lugar de tormento eterno, a autoridade do Estado não será totalmente sólida.
  463. O paraíso será na Terra.
  464. Sendo nós imortais na vida eterna, não haverá necessidade de geração, nem de sexo, nem de casamento.
  465. As almas (vidas) serão ressuscitadas.
  466. Quando as Escrituras falam de Reino dos Céus, referem-se a um governante celeste que reinará sobre uma população terráquea.
  467. Só o filho do homem pode ascender ao céu, porque veio de lá.
  468. Nesta vida, não somos imortais de forma alguma.
  469. Só podemos ser imortais depois da ressurreição.
  470. O Inferno é a sepultura.
  471. O Inferno de fogo é metafórico e exprime, na verdade, a “segunda morte”.
  472. A associação entre Inferno e fogo tem raiz etimológica.
  473. Tudo o que se diz sobre o Inferno não deve ser entendido literalmente.
  474. Todos ressuscitarão, mas nem todos viverão para sempre: os que forem reprovados no julgamento morrerão de novo.
  475. “Mas livra-nos do mal” pode referir-se a males particulares ou o mal em geral.
  476. Ambas as coisas coincidem.
  477. Se formos privados do pecado original, seremos imortais.
  478. Não faça afirmações religiosas sem apoio das Escrituras.
  479. “Igreja” não é o prédio, mas é o coletivo de “cristãos”: se houver três cristãos num lugar, tem-se ali uma igreja, mesmo que sejam um católico, um ortodoxo e um protestante.
  480. Não existe uma igreja universal porque existem cristãos em todos os países, cada um sujeito a leis diferentes.
  481. O fato de um governo ser terreno não exclui a possibilidade de também ser espiritual, como é o caso das teocracias.
  482. Se duas doutrinas são ensinadas como absolutas, uma delas necessariamente está errada, o que não exclui a possibilidade de ambas estarem erradas.
  483. O governo não pode fiscalizar os pensamentos.
  484. Só há um líder religioso na religião do livro: depois de Moisés, Jesus o substituiu.
  485. Qualquer que pretenda ocupar o lugar de Jesus precisa do direito divino para isso.
  486. Devemos fazer o que Jesus disse, não refletir sobre as razões por trás do que ele disse.
  487. Somente o soberano (Moisés no Velho Testamento, Jesus no Novo Testamento) pode designar governantes que ministrem em sua ausência.
  488. Enquanto que na época dos juízes os sacerdotes eram também governantes, embora sob o mando de Deus, os reis que se seguiram eram puramente terrenos.
  489. Na verdade, o rei podia destituir um sacerdote de seu direito sacerdotal (Salomão fez isso).
  490. O rei, se lhe aprouvesse, poderia conduzir orações a Deus.
  491. Acusações falsas levaram dez tribos para longe do filho de Salomão e todo o mundo sabe o que aconteceu.
  492. Os reis de Israel e de Judá, na medida em que ouviam aos profetas, prosperavam.
  493. No final das contas, de um jeito ou de outro, os profetas acabavam governando Israel e Judá, porque os reis que se arrependiam voltavam para ouvir o conselho divino.
  494. Jesus tinha três papeis a desempenhar: redentor, mestre e rei.
  495. Jesus se sacrificou para que nós pudéssemos ter expiação por nossos pecados.
  496. O último papel de Jesus, o de rei, só será concluído depois da ressurreição.
  497. Tudo o que Jesus fez foi ensinar e fazer milagres, coisas que não são pecado na lei de Moisés.
  498. O ensinamento de Jesus não se opunha às leis da época, porque não existe governo que se oponha às leis de natureza (faça ao próximo o que você gostaria que fosse feito a você, por exemplo).
  499. Existe um Pai, existe um Filho, existe um Espírito Santo, mas eles não formam uma entidade una e trina.
  500. O poder eclesiástico não recebe de Jesus o poder de comandar, mas somente de ensinar.
  501. A menos que um sacerdote seja também rei, ele não pode exigir observância da religião.
  502. Não é possível ser testemunha para outra testemunha.
  503. “Herege” é o que, estando na Igreja, professa uma opinião proibida pela Igreja.
  504. É interessante que a heresia não parece ser, nas Escrituras, razão de excomunhão.
  505. Excomunhão implica igreja: o cristão que não faz parte de igreja alguma, isto é, de comunidade alguma, não pode ser excomungado.
  506. Também uma igreja não pode excomungar outra.
  507. Cada evangelista era intérprete de seu próprio evangelho (pregação).
  508. Não há problema em cada um ter sua interpretação da Bíblia Sagrada.
  509. Só é possível forçar uma interpretação da Bíblia se o governante for ao mesmo tempo rei e sacerdote.
  510. Interessante notar que a aceitação como canônico vem do ouvinte e não do mestre.
  511. Uma boa regra: desconsidere o que contradiz o que já está estabelecido como lei.
  512. Jesus não destruiu a Lei de Moisés, mas também não obrigou os gentios a ela, então os judeus não estão errados por continuarem observando a lei.
  513. Só pode ser apóstolo em plena acepção da palavra aquele que viu Jesus, conviveu com ele e testemunhou sua ressurreição.
  514. Os doze legítimos apóstolos integravam a Igreja de Jerusalém.
  515. Ancião de congregação é o mesmo que bispo.
  516. Servo ministerial é o mesmo que diácono.
  517. Uma pessoa pode desempenhar múltiplas funções na Igreja.
  518. O dízimo deve ser dado de boa vontade, na quantidade que aprouver ao que dá o dízimo.
  519. No primeiro século, exigir o dízimo era impraticável, porque a organização da Igreja era principalmente didática.
  520. Argumentar que Pedro recebeu as “chaves do Céu” não prova que ele foi o primeiro papa.
  521. Anticristo é qualquer um que nega que Cristo veio em carne e osso, isto é, que nega o evangelho.
  522. A Bíblia, na verdade, atesta contra a autoridade do Papa.
  523. O Papa não ter poder de mando, só de instrução.
  524. A autoridade do Papa não é válida para todos os cristãos do mundo.
  525. O Decreto Apostólico (abstenção da fornicação, do sangue, de animais não tiveram o sangue drenado e da idolatria) é conselho.
  526. Obedecer a Deus e ao Estado é obedecer a dois senhores, algo proibido por Jesus: um dos dois deve se sobrepor e ser chamado propriamente de Senhor.
  527. Se alguém erra por causa do sacerdote, o sacerdote prestará contas e não o fiel.
  528. João diz em sua carta que devemos experimentar os espíritos, testá-los, para saber se falam a verdade, porque muitos falsos profetas estão à solta.
  529. Se o bispo recebe sua autoridade a partir de Deus, como pode o Papa tirá-la depois?
  530. Onde diz na Bíblia que um bispo recebe seu direito diretamente de Deus?
  531. Para alguns sujeitos da época de Hobbes, se o rei for excomungado e ainda assim não mandar os hereges embora de seu território, os cristãos locais não pecam se fizerem rebelião.
  532. Existem vários países oficialmente católicos, mas quantos deles se obrigam ao Papa?
  533. Jesus nunca deu aos seus seguidores o poder de mandar, de julgar ou de castigar.
  534. Amar a Deus acima de todas as coisas (cumpre os mandamentos para dar testemunho disso) e ao próximo como a si mesmo (faça aos outros o que você gostaria que fosse feito a você) te torna elegível à salvação.
  535. Não há evidência bíblica da infalibilidade da Igreja.
  536. Purgatório não é bíblico.
  537. Acreditar que Jesus é o Cristo implica uma cadeia de crenças afluentes.
  538. A prova de que a crença em Jesus implica obras está no capítulo dezoito do Evangelho segundo Lucas.
  539. A Bíblia foi escrita e compilada para o estabelecimento do Reino de Deus.
  540. A Bíblia, se mal interpretada, pode servir como meio de afastar as pessoas de Deus.
  541. O Evangelho é a suma verdade divina entregue por Cristo e a razão é a mais poderosa ferramenta de interpretação que temos.
  542. Se a fé que se tem em um pastor não está te guiando para um aperfeiçoamento espiritual, ele tá fazendo errado.
  543. A história da cristandade é marcada pelo desentendimento e pela guerra.
  544. Erros de interpretação bíblica frequentemente ocorrem entre os que não conhecem a Bíblia: será que seu pastor já leu a Bíblia inteira?
  545. Erros de interpretação bíblica frequentemente ocorrem entre os que misturam diferentes religiões: será que seu pastor não mistura cristianismo e outras coisas?
  546. Erros de interpretação bíblica frequentemente ocorrem entre os que usam meios além da exegese: será que seu pastor não utiliza a lógica de Aristóteles para interpretar tudo?
  547. Erros de interpretação bíblica frequentemente ocorrem entre os que tentam harmonizar a Bíblia com suas tradições: será que seu pastor não está interpretando à luz da sua história?
  548. Esses erros levam os fieis a crenças falsas.
  549. O Reino de Deus não é a cristandade atual.
  550. O cristão promete obediência a Cristo e não ao líder religioso local.
  551. A devoção ao padre ou pastor, de maneira fanática, leva o fiel a agir como se o líder religioso fosse Deus, acatando sua palavra mesmo quando vai contra o que Jesus ensinou.
  552. A crença de que o dízimo é dez por cento da sua renda tem origem católica, instaurada na Idade Média, e já naquele tempo era considerada abusiva.
  553. O poder papal era tanto na Idade Média que ele podia até isentar os cristãos de pagarem imposto ao Estado.
  554. A consagração do pão e do vinho não é uma mudança de substância.
  555. Dizer que o pão se torna, na consagração, o corpo de Jesus e que o vinho se torna o sangue de Jesus pode levar o fiel à idolatria.
  556. Jesus diz “isto é meu corpo, isto é meu sangue”, mas isso não quer dizer que todas as refeições noturnas do Senhor depois daquela seriam marcadas por uma mudança literal de substância.
  557. Inferno não existe, diz Hobbes.
  558. Nas Escrituras, alma significa vida (princípio de movimento).
  559. A alma é a vida que anima o corpo.
  560. Se a alma não é imortal, então não existem fantasmas, não existe psicografia, espiritismo é lorota, tormento eterno no Inferno não existe, purgatório não existe…
  561. Frente à morte, pessoa e animal têm o mesmo valor.
  562. Antigamente se batizavam mortos.
  563. O purgatório foi uma mentira de grande sucesso.
  564. Cristo pode até ter descido ao Inferno (sepultura), mas nunca ao purgatório.
  565. As crenças pagãs eram facilmente manipuladas em nome da paz pública.
  566. Se os espíritos malignos existissem, por que sua criação não é narrada no Gênesis?
  567. Não se deve cultuar imagens, nem pelas imagens e nem pelos santos que representam.
  568. Não é possível fazer imagens de coisas invisíveis.
  569. Não é possível pintar ou esculpir o infinito.
  570. Muitas vezes, há pouco compromisso do artífice com a fidelidade da imagem que está a fazer.
  571. O ídolo não precisa ser uma escultura: ele pode ser o Sol, a Lua, as estrelas, os animais e qualquer coisa tomada como um deus e que recebe culto de alguém.
  572. Se prostrar diante de alguém como ato de reconhecimento de sua autoridade humana não é idolatria, mas se prostrar diante de alguém para cultuá-lo é idolatria.
  573. Reconhecer algo como sagrado e parte do culto não é idolatria, mas reconhecer algo como um deus, sem ser Deus, e lhe prestar culto é idolatria.
  574. Os gregos também atribuíam onipotência a seus deuses.
  575. “Escândalo” é o ato de fazer alguém assumir um comportamento errado, ou seja, levar outro a pecar.
  576. Os santos estão mortos e mortos não ouvem orações.
  577. A canonização dos santos tem origem na apoteose romana.
  578. A procissão também tem origem pagã.
  579. Muitas festas católicas têm origem pagã.
  580. A experiência e a prudência, aliadas à memória, são comuns a homens e animais.
  581. Estudar filosofia não equivale a praticá-la.
  582. Quando ninguém tem o que fazer, faz filosofia.
  583. A filosofia não começou com os gregos.
  584. A raiz etimológica de “escola” é a mesma de “ócio”.
  585. Também o modo judaico de pensar foi tocado pela filosofia grega.
  586. A geometria, quando bem executada, nunca erra e por isso ela nunca se sujeitou a Estado algum.
  587. O fato de quase não errar levava as pessoas a duvidar das certezas geométricas, pois a mente humana parece medir o grau de crédito de algo pela sua possibilidade de ser falso.
  588. Toda a filosofia deveria depender de um tipo de “filosofia primeira”, responsável por definir os termos importantes, de forma a ditar uma linguagem a qual todos os filósofos deveriam falar.
  589. A reflexão sobre isso recebe o nome de “metafísica”, é a parte da filosofia que se propõe a ser a mais elevada, a que diz o que as coisas são.
  590. O que dá força às palavras é o costume.
  591. Como o fogo do Inferno queima as almas, se elas são incorpóreas?
  592. Não se deveria fazer teologia, porque Deus é demais pra caber na razão humana.
  593. A teologia corre atrás de sua cauda.
  594. Casamento não impede castidade e nem continência.
  595. A ideia é que o homem, na administração do altar, deve estar tão puro quanto possível, mas será que se casar torna alguém impuro?
  596. Se o casamento é sujo, quanto mais urinar ou defecar.
  597. O fato de Paulo ter dado uma recomendação contra o casamento tem origem política: os cristãos estavam sendo perseguidos e o cuidado com a família poderia dificultar as fugas dos pregadores do Evangelho.
  598. O poder das leis vem das pessoas e das armas que empunham, não das palavras e das promessas.
  599. Se Aristóteles diz que as leis podem governar autonomamente, isso é metafórico e, mesmo assim, impreciso.
  600. Existem leis inspiradas na Bíblia Sagrada.
  601. Se o que eu estou fazendo não é crime, que me importa que você pense que é errado?
  602. O texto em latim que não faz sentido em idiomas modernos provavelmente também não faz sentido em latim.
  603. Mesmo que um texto em um idioma esteja dizendo a verdade, ela é vetada aos que não conhecem o idioma.
  604. Quando alguém diz que determinado santo viu um fantasma ou aparição, talvez o próprio santo o negasse.
  605. Algumas pessoas tentam desencorajar a busca pela verdade utilizando o medo.
  606. Um bom jeito de descobrir quem é o culpado de determinado crime é descobrindo quem lucraria mais com o delito.
  607. Sacerdote é quem oferece o sacrifício.
  608. O casamento não é, segundo a Bíblia, um sacramento, mas a Igreja Católica o toma como tal.
  609. As confissões podem servir a propósitos políticos: imagine a alegria do sacerdote quando quem vai se confessar com ele é o presidente.
  610. A canonização dos santos e o título de mártir servem como encorajamento à desobediência civil, porque, se for para acatar a ordem do Papa, a qual o fiel pensa ser a ordem de Cristo, o fiel não temerá nem a pena de morte, que lhe daria o título de mártir, encorajando outros fiéis a seguir o exemplo.
  611. Ainda se fazia venda de indulgências na época de Hobbes.
  612. No primeiro século, cada cristão seguia a doutrina apostólica que lhe aprouvesse.
  613. Não se deve avaliar a doutrina de Cristo segundo a afeição que se tem a quem pregou.
  614. Basta que tenhamos Cristo como mestre e a Bíblia para lermos; não precisamos de padres, pastores humanos ou qualquer autoridade humana que nos imponha uma interpretação particular da Bíblia.
  615. Se isso fosse feito, os sacerdotes talvez até pudessem ser mais facilmente perdoados, uma vez que impor suas doutrinas para o povo pode ser causa de escândalo, na medida em que não se percebe que há doutrinas erradas.
  616. Hobbes faz uma série de comparações entre o poder eclesiástico e os contos de fada.
  617. Você agradece à Igreja com dinheiro, mas ela não te agradece com dinheiro.
  618. A diminuição do poder católico, porém, pode dar ocasião para o aparecimento de doutrinas ainda piores.
  619. Conquistar é obter o direito de governar a partir de uma vitória contra o Estado conquistado.
  620. Várias nações que hoje são prósperas têm passado rejeitável.
  621. Fazer justiça com as próprias mãos é ruim porque são atos frequentemente feitos na emoção, isto é, contrários à razão.
  622. Quem lê a Bíblia de forma casual entende melhor do que aquele que a lê para determinado fim.
  623. Hobbes entende que o livro não seria bem recebido porque seu contém ideias desagradáveis às agendas políticas em voga.

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