Analecto

26 de junho de 2016

Anotações sobre a monadologia.

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  1. A “mónada” não tem partes. Ela é simples, e entra na composição de outras substâncias. Vale lembrar que Leibniz, tendo formação aristotélica, não usa o termo “substância” em sentido estritamente físico.
  2. Se não houver algo que não possa ser dividido, não é possível explicar a multiplicidade de coisas compostas. Deve haver algo que não possa ser dividido. Esse algo não é o átomo de Demócrito, para Leibniz.
  3. Sendo simples, as unidades espirituais não foram formadas. Ou elas sempre existiram ou “apareceram”.
  4. No caso, elas apareceram milagrosamente e somem também milagrosamente. Como Leibniz é cristão, isso não é estranho; a possibilidade de existência das unidades espirituais torna Deus necessário, porque só a Deus compete criar.
  5. A célebre afirmação de que as unidades espirituais “não têm janelas” deve ser entendida no sentido de que nada entra ou sai da mónada, sendo ela simples. Se é simples, é totalmente compacta em si. Não recebe acréscimo e não pode sofrer subtração (de outra forma, não seria mais simples, porém composta).
  6. Demócrito pensava que os átomos não diferiam qualitativamente, mas apenas em forma. Assim, a multiplicidade de objetos e seres varia conforme a quantidade e a forma dos átomos em sua composição. Isso não explica diferenças qualitativas, da mesma forma que não é possível obter água da agregação de átomos de hidrogênio apenas, ou somente de oxigênio, mas dos dois, que são diferentes qualitativamente (lembrando que trata-se de uma comparação e que o átomo de Demócrito não corresponde ao átomo químico). Mas Leibniz diz que a mónada é qualitativamente diferente da outra mónada, de forma que não existem duas unidades espirituais iguais. Assim, nenhum corpo é idêntico ao outro. Todos os seres, embora formados do mesmo jeito (pela agregação) nunca são exatamente iguais.
  7. Embora a mónada não possa ser destruída senão milagrosamente, ela está sujeita ao devir. Ou seja, as unidades espirituais mudam.
  8. Elas mudam por causa de uma qualidade interna. Se não podem receber acréscimo ou subtração, a mónada muda sozinha, sem que haja agente externo.
  9. O mecanicismo, a ideologia segundo a qual fenômenos naturais podem ser explicados por analogia a produtos do artifício humano (como tentar explicar a inteligência através da construção de um computador capaz de produzir processo análogo à inteligência) não explica a percepção.
  10. Existem percepções inconscientes. Se só percebemos, por exemplo, sons enquanto conscientes, nunca acordamos do sono por causa de barulho.
  11. A mónada não corresponde à alma.
  12. Também para Leibniz, a prudência não é razão nem parte dela. A diferença é que Leibniz chama de consecução aquilo que Hobbes chama de prudência.
  13. Para despertar a consecução, não são necessárias várias impressões. Uma experiência traumática, mesmo que seja uma só, pode produzir o mesmo efeito de várias pequenas experiências ruins. Uma tragédia amorosa marcante pode causar repulsa a relacionamentos, tanto quanto várias pequenas decepções amorosas consecutivas.
  14. O que difere o ser humano dos outros animais é a capacidade de fazer ciência, não simplesmente a razão.
  15. Classicamente, “alma” é princípio de movimento, ao passo que “espírito” é somente a parte racional da alma. Com efeito, a razão é uma das coisas que nos move. As outras duas são a emoção e a concupiscência. Por isso Platão dirá que temos três almas, mas Agostinho esclarece que é só uma mesmo, que fica indecisa diante de três impulsos: a razão, a emoção e o prazer. Nesse sentido, Agostinho parece identificar alma com “consciência”, a qual está atenta aos três impulsos, e não simples força motriz (a menos que se entenda “força motriz” em sentido amplo, não estritamente físico ou biológico).
  16. Existem dois tipos de verdade: as de razão (“todo solteiro é um não casado”) e as de fato (“algo aconteceu de tal e tal forma”). As de razão são necessárias e não podem ser de outro modo, as de fato são contingentes e podem ser de outro modo.
  17. Existem verdades que não precisam de prova. Com efeito, se pedirmos prova de todas as afirmações do rebatedor, estaremos procrastinando a solução do problema. Deve haver coisas que são dadas por garantidas, frequentemente por ambos os lados.
  18. Deus existe.
  19. Sendo perfeito, não poderia não existir.
  20. Para Leibniz, Deus, se for possível, só pode existir. No instante em que você pensa que Deus “pode” existir, sendo a perfeição incluída no conceito de Deus, você é automaticamente constrangido a aceitá-lo como real.
  21. Vemos que o mundo material é contingente, isto é, sujeito à geração e à corrupção. Ele só pode ter sua origem em um ser necessário.
  22. É estranho que Leibniz diga que Deus é obrigado por certas razões a acomodar duas substâncias previamente consideradas, porque, até agora, o parecer da filosofia é de que Deus, sendo Deus, não é obrigado a nada.
  23. Deus tem perfeito entendimento. Então, só pode fazer boas escolhas. Logo, o universo está perfeito do jeito que está. Não há razão de mudar nada (“melhor mundo possível”, centro do otimismo metafísico).
  24. Tudo está em tudo. Um lago com peixes, por exemplo. A água não é peixe, nem o peixe é água, mas tanto um como o outro tem partes um do outro. Cada ser teria, então, um pouco de tudo. Então, a mónada e o Deus de Leibniz são quase equivalentes às unidades e à Inteligência de Anaxágoras. As diferenças são que as unidades espirituais são todas diferentes umas das outras e são espirituais, ao passo que existem unidades dos pré-socráticos iguais e são todas materiais. Se tivéssemos que fazer relações, as unidades espirituais são mais fundamentais, poderiam ser aquilo que forma as unidades materiais dos físicos.
  25. Não há nada de morto no universo.
  26. Não existe alma sem corpo. O único ser propriamente incorpóreo é Deus.
  27. As coisas espirituais seguem causalidades formais e finais. As coisas físicas seguem causas materiais e eficientes.
  28. A penitência do pecado é sua consequência ruim, seja a longo prazo ou a curto prazo.
  29. Não existe ação sem consequência: as boas são recompensadas e as más são punidas. Então, convém saber qual delas traz mais benefício. Epicuro dirá algo similar com o cálculo do prazer.
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